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Full text of "Instituto : Jornal Scientifico e Litterario"

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JORNAL SGIENTIFICO E LITTERARIO. 



TERCEIRO VOLUME. 




o'A J?? ^ 






COIMBRA 

IMPRENSA DA UNI VERSID ADE. 

1833. 



BMPB^i ^LPi^llTB©® 



BO 



TERCEIRO VOLUME DO INSTITLTO. 



323 



ing 



103 
181) 
3il 



isa 

«48 



Addiliirnpnto ^ geoni''lria tie Lepjendre 234 

Adilil imcnios ao cilculu dilTercnrial di- Francoeur 

— 11 » 769, 1." eligao 

Agiias ilo mar da China (colurac;ao das) 

A|")iaainenlo3 biui;ra|ihicoii subre o nosso iiisigne 

Po.-la Lnij de Caniofs 137 151 ,,,3 

A|i.,nturacntos d'i5|i|ica ' 26-1 

Aslro""n>ia 3, 139,' '«80, S9I 

Bacia carboiiifera du cabo Mondego (nulicia). 

118, 158 

Bihliosraphia H2, 172, 295, 30U 

Breves rellexues historiras sobre anavegi^.lu do 
Hondcvo e cidlura dus ram|ios de Coiadira... 
Breves roflexoes — que filiidam-nlani o program- 
ma, que olTereceuios para as e.vpiisi(;oe8 d'aniuiaei 

donieslicos no dislricio de C.iulbra 

Calor solar (ork'em do) 

CI.1SS0 de liU'.-ralura gi-j 

Cla-se de sciencias moraes e sociaes 243 

Classe de sciencias physico-nialheraalicas 296 

Coi rubra — Recorda^ues (poesia) 219 

Collegio Ursiiliiio dasChugas era Coioibra . . 145 158 

Comniemorarao c , 

Concorrencia '.'.'.'"'55,' 70, 83 

Conselho superior de inslrncclo publica 2 25 37 53 

77, 93, 109, 121, 14G,' 149, Ifil, 183, 201, '227 
„ . . ^ 253, 269, 281, 09 

Consli(ui(;Ho physica do Sol IgU 

Coula da receita e d.speza dos hospilaes da uni'- 

versidade de Coimbra 24, 160, 236, 308 

Costumes A mericanos 3 , 

Coslumcs Arabes '. .'.V ' " '[Vy ' 2^9 303 

Credito lerrilorial j^ ^g ^1 

DocarneiUos inedilos 9^'g3_ 34^ , ' ^j 

De. Welw relit e o Jardrm Botanico da miiiersi- 

dade dr Coimbra ^24.13 

Duque de Coimbra Vni 31, • 

ilconomia polilica (e.tuilos de) -jj 

Edilca(;il<. ilos aiiimaes lla anligciidade ..[] ] 16 

Espirilos percussures ] " ' .^, 

E.lalistica pathologica dog hospilaej li.-i u'lmerji'- 

dade.^.. 5^^ gg_ ,,, ^^^ 

Jixposirops de animaes domesliros 231 2fj2 299 319 

Exposi(;So universal de Pariz ' 25,3' ^95 

Exposii;ao (primeira) da sociedade de Flora e ' 
Pomona 

Faculd.ide de matheraalica '..'.'.. ...... 

Geologia 

Gerai;oHs esponlaneas !.'!!!!!!! 

Gravidez exlra-ulerina de 16 anno's! .'.'.'.'.' .' 

Hymno do menino ao dcsperlar (puesia) .."" sju 

Imprensa da universidade , 

Influencia d.a lua nos lerremolos " ! ! 1 10, 

liislilulo de Coimbra Cdirec,;ao) ■.■."■ V40 » - 

In»tilnlo de Coimbra 23 j jg"' 

Inst.lu^to de Coimbra (sessoes das classes e'da 
oirPC),au (jo) .... 

Inslru,;,no „a liigla'lerra (esl'ado da) ! ! .' ! ! ! ! ! ! ! ' " 259 
Ins ruc^So publica na Suecia e Noruega . . . . . 14 

Inslruc^ao publica . ° ,i 

Inslmc^iio primaria no disVriVlo' do FulrchaV, . . . 



45 
II 

128 

19 

223 



242 
242 



37 



68 

297 
273 



Iiislriic(;-rio prim.tria 

Iiltrodnc^So 

I>ra''litas em Koma jtc 

Jardins d'arclrraJta(;ao na Madeira e Angola na 

Africa atistro-occldenlal igrj 

J^^rusilem e u mar raurlo gi in' 

Liberdade em i)oesia 

Litteralnra dramalica h. spaiihola e seus hisloria- 

, ,'^"''«' 217, 257, 

Uivros elemeiilares (colle^'iio de) 



1 



lU 
I5t 

«8ti 



313 
183 



Livros sagrados dos indios jrJS 181 196 

M.ircas typographicas '_ _ ' 51 j 

Mar-vermelho, raar-amarcllo , mar-branco, ilc, 

(origern dos nomes) . , 7^ 

Matliemalicai, discnssao de dolls nielhodos arabes 76 

Malhematicas (necQao de) 59, 105, 130, 1H5 

M.-le..rolou'ia jgg, 221 

Mezas giranles de Mr Babinel (reflexoes) 29 

Mezas giranles 17 27 

Jloleslia das \inlias ]2g 155, '263 

Mosleiro da Vaccari^a ]93, 20j,' 244^ 278 

Miilhcres (as) lii>toricaraeiile considerailas 157 

Mnlh( res (as) do isl.ipj e in miillicres chrislas 246 

Jliisulraanos (uomes e lilulos) jj 

Necrologio '.""225, 289 

Observa^oes raeteorologic.is fellas no gabiiiele de 

phy=ica da universidade de Coimbra.... 1?, 35 

9^ l«0, 148, 224, 252, 268 

Obras olTerecidas i Bibliollieca do Inslitulu. 35, 52 

r.. , r . *8U, 32« 

(jli-o de figidos de baealliau 222 

<_)■. iilio Nazao g 3g ^3 

Philosophia alleina (criso da) ' '99 

Pliysica do globo .■.'■■■ 'us J ,g 

'"'O'lCa jg^ 

Pliysiobigia applieada ig^ 

Poesia Slava no secolo deciino-nono. 57 66, 98, 141 

I6t, 177, 208, 290 

Preceilos hygienicos (siinimola de) 23 

Programmas. 3, 13, 26, 39, 65, 81, 113, "l23, 173 

„ , , ,. -'3, 227, 283 

llelaeoes lilloranas com as imiversidades de Hes- 

„',""•,''» H4, 271 

i{elai;ao nominal dos socios do Insliluto 2i0 

^■"'■''"^i" 175, 'I'aO, 237 

Selenosrrapliia jjo 

Srlvio Pellico e o sen tempo 204 

Socieflade Asiatica j,^t 

Sociedade Asialica fie I.ondres j jg 

Sociedade geologica de Londres go 

Taboas da paralaxe da liia 1^3 

Tradu^ao do 4." livro da Eneiila (fragmenio da).. 274 

303, 314 

Um banho no Tcjo (poesia) 53 

Uina illusao (poesia) jgj 

Uma lagrima 2^3 

(Jma perda para as lelras 42 

Uma tragedia Arabe 204 

Uuiversidade de Coimbra 134 137 

Variedades ' 5J 

Victoria linda (poesia) S8'J 



Ei\I\OS 1TJNC[PAE8 DESTE \^OLUME. 



•t'liil. ('■<l. Link. 



Kiros. 



50 

.1 



4r, ('uiistniili'S enlre 

no nltn da piirj. Hunieiis — tiimcslre , etc. 



No movimento ile toilas as cuferinnrias 
— ri'larSo dos falecidob para toilos us 
tralmlu's — l:lH,:i 
l:U,.i 
Ali-^tracijao 
1, 2. 3, 4, 5 
c\e 141U 
rna 

uctjao ilu bai;o ■■ 
Embara^o f^aslrico 
H Bronchite 
•i Bronchite chror.ico 
\ Anasarca 
I Anasarca 



HII 


,> ordtiii das notus 


119 


lOell 



) Sarni 
j obstr 



28,'i'J f30 



47 f 41i 



132 


/ inlos prcd 

dit mcz de 

ilietos de Ju 

3y 

22 


iniiiit, 
Mtiia ' 
iho 


N. O. E. e S. O. 

N. O. N. e S. O. 
so'inenle f =90° 
com lado 






23 




com angulo 


187 




13 




— - < sen 3 6 


•i4,'i 


1." 


12 




primeira 


11 


M 


14 




vjveilo 




" 


18 

22 




IHO 
198 


2411 


,. 


22 


1 28 





•i\u HO fun ha-sr. 



oviUtr 



sejas 



InU-j;raes eiitrf 

lluiiicns — eiifrrmaiias ile molcslias in* 
U'riias — Iriiiu'slre de . t'lc.'- 



1:14.4 

i:i:j.4 

Obslruccuo 

1, i, 5, 3, 4 

de 154G 

obsti"uc(;au do baro . 

Sania 

8 Bronchite 

2 UruncUite chroiiico 

'i Embara^o gastrico 

Anasarca 

Anasarca AscUe 

NO., E. e SO. 
NO., N. eSO. 
somente c'=90° 
cum angulo 
com lado 

i^ sen 2 i 

2 

ultima. 
Ov iedo. 

Este argumento perde a forra, saben- 
do-se que os Abbades, ou C'hefes de 
IMosteiro, ussignarara este concilio 
com a denominacao de Archymandn- 
• his, como iH>(!e ver-se na collect;ao de 
concilios, dtr Labbei. 

lea-se — (Continuado de pag. 219.) 

Conti/nia. r. r. de sousa pinto. 

vi-silar. 

da palavra — extinccao — per diante, 
(leve ler-se — extinccao, por tereni 
decoirido apenas oito aunos de 108G 
a 1094, e nao apparecer neiihum do- 
cumento em cuntrario. Everdadeqiio 
OS mosteiros duplices ja tinham sido 
prohibidos por Gregorio II em .S46 *, 
e depois no Concilio de Nicea em 
7{.n ' ; mas, e certo que, apezar disso, 
continuaram subsistindo em Portugal 
e por toda a parte, como nos dizem 
Vilerbo ^ e Boehmero -K 

este. 

seja. 



Deer. tJrac. cans. 18. 
'-i Cone. 2 de Nicea can 



quest, -i. c. 22. (a not. 'i 
^0 do Deer. Civuc. cans 



I da monia pag. 280), 

. 18 iniest. '2. c. 21. — Diffininnis minime duplex monas- 

^ lone, a ue iMct;*! l;i^M-■^. .^\j "» ^ -- — ^'^' i .... , . ,■ 

lerh.m fieri- .|"ia scandalum id, et ofTendicrilum miillis elVicilnr. ^l vcro al.qui cum cognatis mundo abrciuinlia- 
,c, et nionaslicam vilam scctari voluerint, debcnt (piidem ^h■\ xironim adire coeuobium. foeminas vcro 
lierum ingrcdi monasterinm. . . . 

•i Elucidario por Vilerbo — I'alav. Mosleiro. 

• Boelimero not. 99 aoDecr. Orac. cans. 18. nue^t. 2. c. 22. 



mu- 



® Jitj^titnta^ 



JORINAL SCIENTIFICO E LITTERARIO. 



IKTilODUCCAO. 



\j que deve ser o Institiilo assnz o com- 
preli'-ndfltiios : o que tcm sido jd o sabc o 
piililioo: o que sera, nn lerceirn anno de sua 
exi^tcncia, proval-o-liao os esfor(;o3 que se 
reuovam para coiilinuar cste jornal, o mais 
durador dequanlos, d'esLe genero , se Leein 
eslrcado em Coiinhra. 

Ilnje que as mais liabeis pennas do paiz 
pstao Miagnelisadas pcli mesmerica ititluencia 
da politica, lioje que os e^lOl^a^'os de miillos 
dos que leem follias ie[)eilem a sciencia que 
ni" teiii urn sabor de curiosidade pueril, e 
nial digererii a littsratura que nao for roman- 
ce ou foUu'liiii ; ju e arrojo , ja e dedica^'ao 
perlinaz conlar com fui;ilivos momcntos rou- 
bados as porfuiias lides academicas, para 
suitentar umacmpreza, a qua! nem o inleres- 
se , nem a gloria, nom eslimuln alf^um, que 
iifio scja urn sincero di'SfjO de preslar al^'um 
servigo a sciencia e a liUeralura, servem de 
incenlivo. 

E nao fallamos dnservijo tpie faz, ou poJe 
fazer a redac(,Lio, com seas escriptos ; que 
esse pouco (■ ou nonlium. 

O In-litulo, alo.a oslraballios da sociedade 
de qi;e eor^fio, (.-m virlude da porlaria do 
niini^lerio do rcino de 5 de si-lemliro de 
1833, lia de puldicar os arlii^;os que Hie ea- 
viarem o ioiis( |ho superior de iiistruccfio pii- 
blica, c as faeiildados acijdeiiii<;as , que no- 
mcarain commis-oes expres-ainenle encarre- 
gadas d'orir;iiii-ar Lraballios ^cnuilificos digiios 
de ver a iuz publica ne^te joriial. C) liiiliLulo 
deve [X'is, d'oia avanle, eiicamiiiliar-se a re- 
prestiilar as Ires corpor.i^nes lillerarias mais 
respcilaveis (l'i-?la cidade — a lliiiverjiidade , 
o Conrcllio supeiioj (l(t ln>lruc(,'ao publica, e 
oJnslilr.lo du Coiinbia, liyadas pela fraler- 
nal ami^ade ile sous ineuibros, e, mais que 
tudo. pelo sagrado si'nliniciilo que anima a 
lodos — amor das letras palrias. 

i'-' se e^las tros |)olencia5 nao deixarcm soi 
na li^-a os poucos nieiiii)ros do Instilulo cpie 
consliiueiu a redac^ao , os quaes mal po- 
dem sali-fazcr ao scu especial misler de 
censores; e se os socios correspondeiiles do 
InsliUiIo se iir,o dedignareiu de uuxiliar, de 



Vui. in. 



Abbil l." — 1834, 



vez em quando, esla ardua larefa, enclipnd.) 
algurnas columnas com sabios produclos de 
suas lucubragoes ; e se todos os que amam 
as sciencias e a litteratura, socios ou nao 
socio?, quizerem vir aqui depositar al;Tiimas 
das (lores e fructos mimosos de sens estudo? , 
neste cainpo que llies abriraos de boa vonlade ; 
entfio siui , enliio poderemos afian(;ar que o 
lerceiro volume do Inslitulo sera o que deve 
scr, em Coiinbra, ou em qual(pier parte do 
muiido civilisado, urn jornal scientifico e lil- 
lerai io. 

E porqiie nao lia desel-o? 

Nao lia lioje ninguem verdadeiramenle pen- 
sador que nao sinla a neccssidade de consi- 
gnar ao papel sens pensamentos apenas con- 
cel)ido3, e de fazel-os voar jielo mundo com a 
rapidez do relainpago; porque a Immanidade 
caminlia com urn movimento accelerado, e o 
liomem , Icvado do impuLo que Hie vem de 
cima , trabaHia , esfor(;a-se por tornar a car- 
reiia mais veloz. 

As ideas succedem-se uinas as oulras : as 
alias que-toes sociaes e politicas agitam-se 
por toda aparle: as sciencias naluraes, dondci 
depende o progresso das artes, e o progresso 
das artes que se reilecte immediatamcnle so- 
bre a pro^peridade material, occupam todos 
03 aiiimos. Ora neste mierocosmo, pequeno 
sim em extensfio, mas graude em inlelligen- 
cia, onde vein u;nas apos oulras novas gera- 
<;oe3 de mancebos estiidiosos excrcilar e de- 
senvolvcr suas mais nobres faculdados, far- 
?e-lia uuia excepgao pouco decorosa ? 

Os prolessores da universidade , muitos dos 
quaes, e verdade , teem publicado em maior 
tomo importantes e aprimorados escriptos, 
coiitiniiarao a cntliesourar os preciosos re- 
sullados de sens Cstudos qiiotidiancs, que, 
pottos em mais vasla circulayao, muito con- 
tribuiriam para o progresso do nosso tao 
atrazddo p<;iz , fazendo d'esla arte soar, alem 
do acanliado recinto das aulas, seu bSm me- 
lecido renome \ 

demos que a uns e outros demasiado tem 
sido demo^trada eisa necessidade palpavcl , 
e que demasiado a sentem ; por isso, nestas 
diias paiavras de introducgao, diziamos e 
coiiliamos que o Instiluto sera o que deve 
ser, unica recompensa que arabioionamos 
dos nosios trabalLos. /^tf^.,,^.?;^ 



Ncu. 1," 



CONSELIIO SUPERIOR DE I.XSTRUCCAO 
PL'liJ.iCA. 



Diiposi^oes regt'lamtnlares porn o e.rntnc de geomelriii 
tio Ijcett tie Coimitra y cuino preparaltino para a nni- 
versidiule. 



Art. 1." Os cxamiiKMnlos de ppomotria dt^ptn lirnr 
iim porito na vfjJi'eru do exame , com aiiUcipa^iio |n'lo 
luiiii.s (le \ inte luriis. 

^. I." Au ado (le (Inr os ptiiilos Ji'sislir.i o presiilenlp 
(Icst.\»i exanies coin u lu'del , que ftira a clKiiiiad* ilus 
cxaiiiinariiiitS peltis si-ris rei|iiff inienlns , c luui;uri*i nu 
livro leypei-livo us [loiitus liradus u sorle. 

^. S." Em lofrar do presidenie puderii assist ir e dnr 
OS piinlos qiialqiHT dus cxamiiiadures , a que illu coin- 
luelliT este sr-rvit^o. 

Arl. S." Os punlos de que Irota o art. 1.", doveni 
romprpliendcr Ires i)ropnsii;Ot'S da ffeonicli ia de Encli- 
des , scndo senijire iima dellas do Uvro sc\(o desla obra : 
110) ponto dt? ali,'ebra , e onlro de aritliinelica. 

^S. un. () nifsmii poiilo podera ser\ir para uma liirma 
de examinmnios tiao superior a (res. 

Arl. 3." O exaine de jr''om»?lria podera ser feilo rm 
tnnuas de dois on tres cxaminandos de cada vez , qnamlo 
«o punlo tenlia sidu dado oa conforroidade du ^. ?i/iico 
do nrl. 2.* 

Art, 4.° O examinador inais antis:o conieijara o e\a- 
me , escuHicndu para isso uma parte (jiialqtier do fionto ; 
c se nr^junu-nUir em {leonielria , o fara de sorte que a 
cada um dos examinaudos d'linia liirma ari;umente em 
jiropo?ii<;ao dilTerenle ; e o onlro examinador dcpois 
argnmeiitara rm alijelira, on rni arilhmelica , mas qnan- 
do ar^Mimentar a nm examinanilo da mpsma lurma em 
aljehra , ao ontro ur^nnient.tr.'i em arilhinelica. 

^. tin. A dnrai;ao do ar^umentu tie cada nm dos 
examinadores sera de quince niinutos marcadui por ani- 
pnlliela. 

Art. 5." Os examinadores serao obri^ados a interro* 
gar OS examinundos na parte vit^a niarcada no r>>speclivo 
jirogramma ; na outra parte porcm devem reshinsir-se 
ao pun to , e apenas poderao explorar os examinandus 
nos principins g'eraes qne (lies sej^im concernenles , on 
nas applicai;6ps geraes, e menus difGceis , a que os pon- 
tos dercni lo^rar. 

^, un. Q'lando o exame se fizer em Inrraas , o presi- 
dente podera mandar responder lambpm as pergnntas , 
feltas p>ir qnalpier dos examinadores a nm examinaiiiJo , 
ontro da turma , eiiibora tivessc ja coiiclnido u exame 
oral. 

Art. 6." Di'pois do exame oral , cada nm dos exa- 
minanilos tirara asorle nm problema de aiithmelica , qne 
possa resolver-se por uioio das propott^ops e da applica- 
^ao dos principios preraes de aritiuni'tica ; o qnal proble- 
ina resohera pur esoriplo em arto snccessivo. 

^. 1.° O lf?injio coML-edido para resolver o problema 
por escriptn si-ra de nsna liura e mei.-t, 

^. 2.** Ftndo este prazo , o presidente adiprlira o 
examinandii para qne entrei,'ne o proldenia resuhido; mas 
se elle pfdir Hlj;um tempo mais, podi-ra proro^rar-se-Ihe 
o prazo do ^. l.** por meia liora ; porem paxsado e>le 
flegnndo prazo de tempo , apresenlani uo estado em que 
estiver o prot)Iema. 

^. 3." O examinnndo deve assif;nf>r-9e por lialxo da 
resoliK^ifo do problema, e depois da data tio dja do exa- 
me ; e islu o frtra mesmo quando nito teidia sat)ido resol- 
■ver o proldema , a pezar do angmcnlo de temjio de qne 
Irala o ^. 2.** 

Art. 7 ** O- ponlos para o exame oral, qne liverem 
saliido Ires vpzfs, serao aeparados da nrna ; e os proble- 
mas de qne Irata u art. G.°, loiro que teniiam saltldo uma 
vcz , devem ser alterad'js, uindando-lhes us nnnieroa, 
qne entrani rm sen ennnriado. 

Art. 8.** A rd'-nlidade do exaniinando , e do ponto 
tirado para o t-xame , deve ser veriQcada com ludo o 
escrnpulo u circnmspei'(;ao. 

Ksta cunforoie, — O secrelario geral , Josi- Jnlonlo 
Q^ Aihorim, 



UAU'EltSlDADE DE COIMBA-PBOCBAMHAS. 

FACULDADE DE SI A T a E 31 A T I C A. 

l8o3— 185i. 

},^ A^^O. I.'' CADETRA. 

ARITHMHTICA — <; ROM F.TK lA SVNTHnTICA DE LBGBNDRR 

ALfJCBUA ATE H«L'ArOES DO ShfiL'.VDO GRAO IMLL- 

SlVAMliATK^TRIGO.NOMETniA PLANA. 

Lenle — Dr. Rufmo Guerra Ozorio. 

ARITIIMIiTICA. 

Syslcmas de nnmera<;rin. Qnntro operatjOes sobre of 
nnuiertis iuleiros. Decomposi^ao doa inleiros em faclo- 
rrs primos , e prupriediulps dus di\isures commnns a 
ninilos nnmeros. Coiuli(,oes, qne deiem verifioar-^e , 
para que nni iinmero seja (livisjvel por ontro. Tlienrc- 
nia de Fermal. ProMis das q'latro opera(;r)rs soltre intei- 
rt>s. Definii^rm ^ n;tlnreza , e lransfurnm<;oes dos quebrn- 
ilos. Qnalro iq)erai;ofs subre as qntMirados oidinarius . 
decimaes , e coniplexos- Appro\iniai;oes ; e limites da 
diziina |)eriodiea. Forraaeao das poleiicias e exlrarijao 
das raizes qnadradas e cubical. Pri>por^oes .'iritlmn'ticas e 
t^eometricas. Rei:ra de ties, simples, u cttiiipnsta ; e re- 
j,'ras de companliia , e conjmiirta. Jnros. Deseontos, Pro- 
g^ressoes arillmietieas e geomelricas. LogariltiUios. 

ALGEBRA ELE1IB^TA^.. 

No^ries geraes, lleduc^Jio. Qnatro opera(;oPs. Divisor 
commnm. Resoin^'-'to das eqna^iies do primeiro grao a 
lima on mais incognitas, D'-su'iiablades. Probleinas inde- 
lerminados Puteiicias e raizes dos monomius. Expoentes 
ne2;ali\'o8 e fraecionarios. Uiizes quadradas e cnbicas 
dus polvnouiios, Reaobn^au das eqnai^oes du sejnndo o;rao. 
Propurcjues e pro;;res3oea arillmietieas c geanu'lrieas. Lo- 
earitlimos, Jnrus composlos. Annnidiides. DescoiUos, Fal- 
sa posi^ao. 

GEOMCTRIA ELEMENTAR. 

Explicnm-se os oilo primeiros livros da geomelria ele- 
mentar de LcgenJre pela i^.^ edi(;ao de Paris. 

A(*rLICA(;AO Di ALGEBRA A GEO.MLTUI.V ELEMENTAB. 

Problcmaa subre as Itrdias. runstrnei.oes geometricRfi. 
Si^riaes i\i\s qnaiili'ladHs na algebra applicada a geome- 
Iria. Abscissas e ordenadas. 

TltlGONOMGTRlA RECTILINEA. 

Const rnrijao e definiroes das linlias trigononiPtrira-:. 
Expressao dos arcos em paries do raio; e reci|)rocamenle. 
Furnuiias geraes. Con.*tritccjo , e nso das taboas. Reso- 
UxcJiQ dos triany^ulos rectangnlus , e obliiiuangnlos. Pro- 
blemas. 



2.** AN.NO, — 2.^ CADEIRA. 

C0STI>L'A(JAO d'aLGKBRV ALCRBRA SUPEIiTOR — SERTE* 

E PRINCri'lUS ELIi.MENTARES DE CALCl'LO DIFTBRKN* 
CIAL E J.NTEGRAL. 

Leiile — Dr. Rnyniundo J'enaJicio llodrigttes. 

GEOIIETRIA A^ALVTICA A DL'AS DniEA'SOES. 

Eqiiarao da linha recta — logar ^eomelricA da eqna- 
rao do 1." gr/io — equaeao da recta, sttjeita a passar 
por dons pernios — do angnio furmado por dnas reclas — 
coniii^oes do sen paralbdiwrno , e da sua per]tendicnla/i- 
ilaile — considerat;oe9 geraes sobre os [Mublemas relaiivos 
a litdia recta — cxercicios , e exem))Ios 

Eqna<;ao do cifcnlo — limites , symclria , c proprie- 
dddes. 

Problemas sobre as inlersecijoes e contacto da linha 
reria com ocircnlo — iulersec<;oe3 e conlacto doscirculus 
entre si. 

Transforma^Ho de coordenadai. 



Ellipse : hyperbole : e pirabola : c a respeito de cada 
Uma d'estas curvas — sua eqiia^uj , ualureza , limites , e 
proprieUadf'S. 

E(iiia(;oes pobres de cada tima das dilas cnrvas. 
Eqiiat^ilo da curva prodiizida pela inlerseci;'!© d'um 
plauo (iiialniitT rum mna pyrami'le cunica — casos fin 
i|ue esia equai^rio se rcdiiz a d'mn ponio ; a d'lnna 
linlia reela ; a de diias reelas fLirmaiido um anc;iilo entre 
si ; & do circulo ; li da ellipse ; a da Iiyperbule ; e a da 
parabola. 

MethoJo das tan^enles ; snbiarigentes ; norraaes; e siib- 
norm.if-s — sua applicarHo iSs ciirvas ja Iratadas, 

Coiisidtrai^ucs subre cordas suppleuieiUares — suas ap- 
plira(;3fs .'is luesinas curvus 

Cenlros, diainetrus , e diamelros conjujaJos — deler- 
mina^au irulles nas ihUs ciirvns. 

Discitssrio da ef]iia<;rio ^t-ral do sefriindo gT;io a duas 
indelenninadasi- x ey — lo^ares d'esla eqiia(;ao em cada 
uma das liypollieses de ser zero, posiliva, on nes:aliva 
a diffcrenra m, on B^ — 4i AC ^ entre o quadrado du 
coefliciunle de xij e o qiifldrii|ilo do prodiiclu dus coefQ- 
rieiiles de x^ e y', Recapilula^iu das considera^ues 
feitas sobre estas Ires byputhest-s 

Eivos pritjt'i])a'S — sua t:raiideza e direc^ao — appli- 
caQjlo dVsta duulrina as curvas dc que se lem Iratadu. 

Outro processo da discussiio da eqna^au gtral do se- 
gundo grao , evilando o inconvenienie de mtroiluzir irra- 
cionaes nos sens coefflcienles. Cutupara^ao d'este melho* 
do cum oidro. 

Gera^ao das curvas pelo inovimento e jnlersec^ao de 
linlias dadHs — ap|dicai;ao ao circulo ; ellipse; hyper- 
bole ; par;i!iola. 

Problemas que passam do sefrmido jrao ; e especial- 
njf'titti da dnplicfii^i'fi do cubo , e da trisec^ao do anyvlo. 

Etpia^ao jjiuaholica — determina^iio dos valores dus 
leiis coefficifiitcs — tnlf rpola^rto. 

Curvas (III. IS — cunthuiile — cissoide de Diodes — lo* 
^arilhoiica — ilus seiios — quadralriz — cycloide j e suas 
diversas es[ifL'ies. 

EpicycluiJt's — spiral de Archimedes — spiral byper- 
bolica — sjdral logarilhmica — spiral paraboUca. 

ALGEBltA. SUPERIOR. 

Theoria das permula^ues , e combjna^oes — sua appli- 
Cfl^ao ao d^s^Mi^oh imeiito da pulencia d'liiii binomio , e 
d'um polyaumio , laiilo no casu de st-r o e.xpueule jnleiro 
e po5itivo : cumo fracciuuariu ; oegalivo; irracional j e 
imagiiiario. 

Nnineros fignrados. 

Pernitita(;o'-3 e coaibina^oes no caso de niio screm as 
lelras lodas iljir.'renti-s. 

Breves rnscu' s subre probabilidades. 

Conipasi(;ao das tquai;5es — rela^ao das raizes da 
eqiia(;ao cjm os sens coefficii.-ntes. 

Transfdrin.iQri.) das ''qiia(;(5eji — l!iei>rla das drrivndas. 

Limitcs lias ( lizi'S pclo nielhuiio de Brt-l , e de Ne^vton. 

Raizes cumm^-nsiiraveis — raizes eguaes, 

Theoria da eliuiina^ao. 

Kxistenciu das raizps. 

Raizes iiicunnuensuraveis pelo inclhodo de Newton , e 
de Lagran;:p. 

Re^ra ile Df^carlcs — melhodo de Fourier — applica- 
<;6es d'esle oie'hDilo , e sua compara<;ao cum us de 
Newton , e ile La^riin^e. 

Raizes inia::iiiarias — sua forma e modulo. 

Abai\auienlo do ffrao das equa^oes. 

Equacufs a dous (ermus — ruizes da nnidade — Iheo* 
rcmas de iMdire , e de Cute;'. 

Euua^ucs a Iri s lermos. 

Raizes das expres^oes cumplicadag com radicaes. 

ResoIii(;."io das HquacjOes do 3." e 4.° grao. Inulilidade 
Jas lenliitjias ptrji a ri'SidiK^Ho das equa^'Scs do grao 
superior ao 4." pur nu-io de formulas aiialytiL-as. 

Funci^oes sym' tricas. Sua applica^ilo a resoln^rto das 
equaqoes — a eliuwna(;ao , e ao grao da equa^ao final 
que resnlla da rlimin.iijao. 

Geranrto , e pr.prii'dade? das frac^oes conlinnas. 

Eqiiai^oes delcruiinadas , e indeltrminadas do 1." e do 
S.* grao. 

Equaf^oes indetcrniinadas de grao superior. 



Resnlui^ao das eqna(;3es numericag, 

Cueflii-ieiiles indelerminadus — deconiposi^ao das frae- 
^oes racionaes. 

Series — cundi^oes para a sua convergencia. 

Series recurrentes — exponenciaes — logafilhmicas — 
cij (-III, ires. 

Melhodo inverso das series. 

Efpiacues de conJicao — methodo dos menorcs qua- 
dradu^. 

r.EOMKTRTV A.NALYTICA A TRES DIMKSSUES. 

Tii^'ononietria psferica. 
Suptrfii'ies e curvas de ilnpla curvalur.n. 
Eqiia(;oes dn phmo , ^u cylindro, do cone, clc. — > 
prohlenuis stiLre u ptaiio, e a liidia recla. 
Transfonnafjrio de coorJenadas. 
lulerseci;ues planas — supeificies de segunda ordem. 

PRI.NCIPIOS ELEMENTARES DB CALCILO DIFFERENCIAL. 

DeBnit^oes — Iheorema de Taylor — re^rras para as dif- 
ferencia^ops, ou deriva<;oes das func^oes aljjehricas; 
e\ponenciaes ; logarilhmicas ; e circulares. — Derivadas 
das eqrihcuos, 

IMiidanea da variavel imlependente. 

Cdsos em que o Iheorema de Taylor e insufficienle. 
Metliodo para leme'li.ir esla icsufficicncia. 

Limites da serie de Tayl-T. 

Uesenvolvimento em series das func^oes d' uma so va- 
riavel. Theorema de Maclauriu, 

Expressoes 05-,oX°=, — , " — *= etc. 

Diis vwxinia , c m/«/mn — exemplos e applica^ues. 

M'-lhu-io das tanuenles — recliGcai.oes — e q'ladialnras, 

Principios c re^Tas do calriilo diflerencial Iraludo pelo 
melhodo infinilesinial. Comparacao deste nu-Uiudo com 
OS de exhanslau ; dos limiles ; das fluxoes ; e das deri- 
\ad>.s. 

Sua vaulagem pratica sobre csoulros. 

PRINCIPIOS ELEMENTARES DE CALCULO INTEGRAL. 

Regras fiindamenlaes da intesrac^ao das fnnrcoes d'u- 
ina S(5 variavel — iiilegra<;au pur partes — cun3idera(;oe3 
sobre as conslantes que se jmilani aus inlegraes. 

Inl('L'ra(;iio das frae^o-'s r.iciunaes. 
InIi'L'ra(;rio ile al^iunas fuiici;ri-s irmcionaes. 

Oifferenciaes binomias ; e regras fundamenlaes para a 
sua inlegrji<;ao. 

Inlegra^ao das func^oes exponenciaes , logarilhmicas e 
cireiilares. 

Con.tantes arbitrarias — Conslanles entre Jimiles j ou 
inte^raes defiuidos. 

Jnlregratjao por series. 

Quailraturas e reclifica^oes — areas e volumes do3 
corpus. 



A-STROXOMIA.^ 

Nos dias 3, 4- e 5 d'abill de 1854 loma- 
rani-se com o circular rcpelidor no observa- 
torio de Coimbru azimullis e distancias zpni- 
ihaes d'um Coinela, que se coinc^ara alii a 
ver nos dois dias precedcnU'S. 

O astro ia perdendo successivamenle o bri- 
llio; o que, junlo a circumslancia de crescer 
a phase him'inosa da lua, foi_ causa de se 
lazerem as observagoes com difficuldade , e 



1 O primeiro desles arU^os. foi reci^bido na redar(;ao 
em 14 d'abril , e pela sua unporlancia vai no presenle 
n.* do jornal , coja publicat;ao tinha-se alrazado por em- 
bara^os ioevitaveis. 



sein inteira confian^a , em niinieio do 8 no 
piiiiieiro dia , de 6 no segundo , e de 4 no 
lerreiro. 

A pczar d'csia desvantag;eni , e da prove- 
nioiite da nalureza do iiiitruinento, do pe- 
ijiieno raio do sou circiilo azirniitlial, c da 
dilTiculdade que ofTorecia a leiliira do nonius 
cl'esle circulo, a disciisjfio das oLservajoes 
foz adoplar as sci;iiintes cooideiiadai, jd cor- 
rt'clas da refrac<;rio: 

3'enipomcd.oslr. Dili. Zenithal Azimuth 

Z.^lSb.'bb" 77.°45.'-10'' 78.° 0.' 0" 
4 7. 33. 18 77. 57.30 78.59.30 
5. 7. 3d. 2 77. 18. CO. 40. 15 

E determinando com eslas coordenadas os 
cinco elejiioMtos qtieassignatn a posi^fio e figu- 
ra da parabola, corn a qua] a orbila se con- 
funde perlo do perilielio, e a posiCj-fio do 
astro eiu lun tempo dado, acliarani-se os se- 



guintes, que sao os medics enlre os oblidnj 
por dois calculadorci dilfercnlei, c nos quaes 
Mipprimiinos os segundos d'angiilo e a qiiarta 
letra decimal. 

Tvonp;. lu;l. do node asc. (q) 317* 0' 

Incliiiac.'io da oiljita 78.° f)2' 

l.oll{,^ licl. doperiliclio J7!).°30' 

Disl. |K!rili., sciido 1 a media 

da terra ao sol 0, 277 

'J'onipo da passagcni pelo ^ 

pcriliolio inar^o 23, 932. 

A di-laticia do Comela a terra no le!npi> 
da obsiMvay'io do dia '1 era 0;05 , e a minima 
fui 0,83 no dia 1. 

A Inn de I'.icililar a vciifica^fio d'e-les ole- 
menlos, dainos para os tcinpo-s <la:. oUserva- 
50C3 OS se^'iiinlPs resnltados , lambi-rn medio* 
entre os dos <lois calculadores , f.izondo a 
niesma suppressuo das docimas miUesimas • 
dos seL'iindos : 



-■^S. Dccl. J.oiifj. geoc. Liit.geoc. J^O'ig.licl. 

35.° 8' +1G.°59' 38.''27' +2." 43' 138.° 8' 

38.27 16. G 41,11 +0.57 137.18 

41. 34 15. 7 43. 45 —0. 54 130. 40 



Lttt. hcl. Dist. antol. 

+ 5.° 3 1' 0,42fi 
-f 1 . 43 0, 4 19 

— 1. 39 0,471 



r'ora mais cxacto repelir o calciilo desde 
as longitudes c latitudes geocenlricas , corri- 
gindo estas coordenadas do cli'oilo da aberra- 
^•.'lo, qi\e para as longitudes anda por 1'; 
mas nfio juigarnos necessario fazer esta cor- 
recjao, e menos ainda a da parallaxe, que 
])ouco cxcede a parallaxe do sol. 

Ve-se pois ()ue o astro atravesson a ecli- 
plica, de norte para siil, no dia 5 quasi as 
spte lioras da manli.'i, e que oseu movimcnto 
e retrograde. 

Pode Lalvez suspeilar-se que cste Comela 
feja o de 1677, alteiidendo a concordancia 
das snas distaneias perilielias e das inrlina- 
joes das suas orbitas ; no enlretaulo n.'io ar- 
riscareinos conjoctura a esse re-pcito. 

Eui|)regon-se o circulo repeliJor, porque 
nao appareceram no campo do equatorial 
cslrcllas de couipara^'fio. Apenas se pode 
obscrvar com elle no dia 3 uma pequena 
eslrella, que a ser a 771 do cataiogo de 
Jiril/is associiilion , dnria pura eoordonadas 
do Cometa as se"uintes : 



Tempo 



5.'7.''33.'38" 



AR. 

35° 7' 



Oecl. 

+ 16.° 54.' 

Cumpre porem advertir que a construcyHo 
c dimcnsoes d'este instruuiento nfio perrnit- 
lem mnior confian^a que 5', segundo obscr- 
vafoes que em outro Icmpo se I'lzcram com 
o fnn de experimeiital-o , quando se mudou 
jiaia 40.° 12', 5 a primitiva iiiclma^fto de 42° 
do sen cixo. 

Mais mn exemplo ahi tcmos da falla que 
fazem no observatorio do Coimbra inslru- 
luenlos bons, e aprojiriados as observajoes 
que n'elle se devcm iii:taurar. T'elizmenlc 



conlamos que em breve terminnra urn lal 
estado de cousas , pori|UC nos consia que, 
em virlude das ordens dogoverno porluguez , 
estao comprados cm Inglaterra e encaixota- 
dos , ha algum tempo, o circular meridiaao 
e o equatorial para este observalorio. 

S. P. 



Depois de termos escriplo o arligo rol.itivn 
ao Cometa , lemos na I'resse de 12 d'abrit 
quo elle fura vislo em Franca no dia 23 
de mar^o pelas 4 lioras da miiiih.'i ; rpie era 
muito brilliante; e que os a>tr<uiomos dc 
I'aris o n.'io poderam depois ver senfio ni> 
dia 29. 

Gomo o desnpparecimenlo podia resullar 
da pequencz da clonga^'io, on de .ser o 
nnseimeiito ou occa^o do astro muito proxi- 
mo do do sol, apressiimos-nos n fazer os cal- 
ciilos necos.-arios para cxaminar te os nossos 
el ■menlos cram conl'ormes com os faclos re- 
feridos. 

Acliamos : 

Tempo I.o„g.geoc. L''l-!J"',i,com.ao,cl 

Mar5o3],"'928 357.°52' +15.°43' IG.° 8'occ. 

23, 9.'8 3 50 16. 3 16 8 or. 

2i, 928 10. 36 15 31 16. 23 

27, 928 17. 40 13. 36 16 57 

29, 928 24.53 10. 53 13 60 

31, '.Ua 31. 20 7. 17 21. 10 

Abril 2, 928 37. 22 3. 32 24. 15 

E para differeiicas d'a?cenf,'io rccla era 
lcm])o, poui'o niaii oa incnos : 



23* lis 10 tlamonli/i ."53'. Cornota occM. 

21. '• G'i ' 

26 )• 7 

28 II I-") 5 CoiiR'Ui orient. 

30 .) 39 

Assim no dia 23 devia o Conieta appare- 
cer dp maiilia precedendo em asceiisfio recla 
o sol 35', e no dia 29 de tarde seguindo-o 
32'; donde resulla, que seria o son nasci- 
menlo anterior liora e meia ao do sol no dia 
23, e o sen occaso posterior no dia 29. 

Estes resultados, e a passagem pelo peri- 
helio na manlia do dia 24, explicam o appa- 
recimento no dia 23 de manlia, o desappare- 
cimento seguinte, o reapparecimento na tarde 
do dia 29, e o brillio do astro na primeira 
observajao. S. P. 



BREVBS IIEFI.BXOKS IIISTORICAS SOIIRB A 
WAVIiGA(;\0 DOJiO.NDliGO , faCLLlUllA DOS 
CAaH>OS DE COIMBUA. 

CoulinuaJo de pag. 291, 

Reforma do encanamento exislente. 

O piano de reforma que propomos para o 
actual encanamento, a fim de beneficiar a 
cultiira dos campos de Coimbra , consisle em 
construcjoes simplI^;i^simas , que sendoconve- 
nientemente execuladas devem indispensavel- 
mente produzir cousideraveis mdhoramentos. 
Nfio e preciso grande esfor(;o de razao para 
compreliender o systema das obras que vamos 
indicar; reconliecemos que este systema posto 
que nfioseja niuiloscientifico, naocarece toda- 
via deensaios para confirmar os sous resulla- 
dos , por serem de primeira intui(;ao; taes 
meio^s teem sido, e verdade, empregados em 
ponto [jeqneno, inas d'elles tem-fe ju coltiiilo 
optimos elTeitos , e em ponto grande confia- 
nios que tambem se obterao na devida pro- 
por^ao. A experiencia e sem duvida a me- 
llior mestra, porem a necessidade fertillssi- 
ma inventora. 

O bairro baixo de Coimbra (que e' con- 
stantemente a porg'io mais povoada d'esta 
cidade) eslaria desde n)uitos annos, ou se- 
pultado em areas do Mondego , on convcrtido 
em pantanos insaiubres, se a earnara muni- 
cipal nfio tivesse sabido obslar a semelhante 
calamidade ; o remedio lem sido de faoil 
pxecu^fio; o effeito proficuo , c sein grandes 
despesas feitas com enipregados especiaes. 
Ignoramos porem se o primeiro pensamenlo 
da obra se deva attribuir a conliecimentos 
scientificos, se antes a inslincto dos cama- 
ristas antigos ; mas e certo que o resullado 
lem sido feliz, e que as camaras niodernas 
nao tern feito mais do que tnlliar o caminlio 
encetado por sens antepas.-ados. Tern pois a 
camara municipal tido a caulela de fazer 
elevar o piano da cidade baixa a proporrao 



que o alvon do Mon-j.'go vai subludi) , a fim 
de se conservar sempre alguns palmos snpe- 
i rior a eorrenle do rio , e evitar (jiie as enclien- 
te> nrdinarias al.igueni o.-, edilicios. E uui 
costume secular eui Coimbra, de cuja pra- 
tica, e bons resultados seria ocioso faliar 
mais largamente. Citaremos todavia uui 
exempio recentc. 

A insua de J. G. Vianna, entre o Monde- 
go e a estrada no sitio denominado da Ale- 
gria , sol'fVeu uUimamente reforma, e foi 
melliorada pelo systema das camaras de 
Coimbra. Ha poucos annos eslava aquelle 
predio quasi tolalmente esterelizado , n'umas 
partes por causa das areas que o Mondi'go 
para alii linha arrojado , e n'outras por causa 
dosbaixos, que lieando , mesmo no verao, 
nivelados com aagua do rio, nao podiam ser 
cnllivados. E como reraoveu o proprietario 
estes males? fez al)rir uma valla, e lanrar 
iiella a area, servindo a terra da valla para 
enclier os sitios baixos ; guarneceu a margeni 
do rio com uma bem serrada tapagem de 
salgueiros vivos ; mandoii construir um muro 
ao fundo do predio, onde as aguas das eu- 
clientes, n'uma repreza inomentanea , dei- 
xam precipilar alguin lodo , que, alem de 
iertilizar o solo, concorre em parte, para a 
eleva(,-rio da insua acima do alveo do Monde- 
go. Por estes meio^ conseguiu pois libertar 
o sen predio d'uma ruina que parecia sem 
remedio, e o converteu n'um dos melliorcs 
das suas visiulian(,'as. Muito conviria que os 
donos das insnas d'uma e outra margem do 
rio, acima da ponle de Coimbra, seguissem 
o exeuiplo d'este proprietario. 

Nfio queremos dizer que nos campos <]>: 
Coimbra se empreguein todos os meios de 
que ^e aproveiton aquelle proprietario para 
mellioramenlo da sua insua , porque nao per- 
lendenios inculcar impossiveis; mas entende- 
mos que e util e exequivel o pensamento 
principal =elevar a snperficie do canqra coin 
a^ areas do Mondego =. E a nao ser o novo 
encanamento, cujo piano jd expendemos, 
nao encontramos outro meio rasoavel de 
ob-tar aos estragos dos campos, e ate da 
melliorar a sua condigao, senao pelo fvsle- 
ma das camaras de Coimbra, nao obstante 
ser um systema d'obras provisorias. 

(.) ]>lano proposto deve principiar pela 
abertura de vallas profundas, nos sitios mais 
baixos do campo , transporlando-se depois 
para ellas area dos logares do alveo , em que 
iiouver maior accumula^riodella. E mister que 
a- vallas se deixe um vazio de palmo e meio 
pelo menos , ou o que mellior parecer, que 
depois sera clieio com parte da terra exlra- 
biija das vallas; e a outra parte deve ser 
espalliada pelos sitios baiNos conligiios as 
inesmas vallas, para d'e^te mod.) ficareni 
mais subidos do que antes eslavam. E eviden- 
te que por estes meios se consegnem simul- 
taneamcnle os fins desejados : elevar o cam- 
po , e rebaixar o alveo. A pezar de ser esla 
* 



a idea principal do nosso pl.inn , jiilgamoi 
ipie o bom resultado depende aiiida de algii- 
inas obras addlcionaes, que seriam imilei« 
>em o desempenbo do pensameiilo principal 
do piano. E necessario : 

1.* fazer restituir o alveo ao sen limito 
antigo, ao raenos nas partes em que elle 
U'lii adqiiirido major aiiiplitiide: 

2.° defender , pelo mellior mode que a arte 
indicar, as paredes internas do leito do rio, 
para evitar que a corrente da agiia conlinuL- 
a escavar o terrene marginal. LL-nihranioi a 
eravaCjfio de eslacas de pinlio , e a planta(;rio 
de arbuttos adequados ao local, e ao fun que 
se lein em vista. A folia d'esta providencia 
tambem tern concorrido para arniiiado cam- 
po em algumas partes em que elle confina 
com o rio, porque a corrente niina o lerreno 
lateral, faz com que elle desabe no alveo, 
e por esle mode accrescenta uin mal a outro 
mal. £ mister por lanto acudir com cste 
remedio aos silios onde e reclamado com 
mais iirgencia e brevidade. 

Nao foi nossa inten^ao, quando princi- 
piamos a escrever esta memoria, emiltir opi- 
niao alguma sobre a obra d'um novo ou re- 
forma do actual encanamento do Monde- 
go; o nosso fim era tao somente fazer uma 
synopse da legislasao que Ihe diz respeito, 
desde os tempos mais reconditos ale noisos 
dias, por nos parecer que todos os auclores 
que tern escripto u cerca d'obras hydraulicas 
do rio de Coimbra, nao tiveram inleiro co- 
nhecimento nem estudo especial d'essa le- 
gislagao, ou porque o juigasseni superlluo , 
ou porque nao livessem opportunidade para 
consultar esses monumentosescriptos. Porem , 
depois de havermos analysado attentamenle 
todas as pegas legislatlvas, depois de nos 
havermos convencido da inutilidade das obras 
que consla terem-se praticado no Mondego , 
e finalmenle tendo vislo os diversos pianos 
de canallsajiio que tem vindo a lume, pare- 
ceu-nos em resultado que nenbum pode satis- 
fazer os dous pontes capitaes=: melliorar a 
cultura docampo, efacllitar a navega^ao^; 
foi por isso que aventuran)os a nossa opiiiiao 
em assumpto tao importante como diflicil. 

M. DA CKLZ PERKllU COUTINHO. 



P. OVIDIO NAZAO: 

Dos Tristes — Livro 4.°: Elegia 10.* 

o 

ARGCMENTO. 

Nesla elegia declara Ovidio, qual fora a 
sua palria , e quaes os consules romanos do 
anno do sen nascimento. Relata depois resu- 
niidamenle toda a historia da sua vida, e 
fimmera a final os males do seu desterro ^ 



a f,'randeza dos quaes o lr;ioI<) dits Muj-ms 
llie toriiou niLMioa iusuppoiiavfl , n'sultando- 
Ilie dat[ui iiotavfl (iuieUn;ao ao sen cspirito. 

Kn , que fiJra o cantor dof amorosos 
HriiaUus vt-rsui , d imslerui , (jue os lerilpB , 
UiieiD fiii , jaln-nilo fic;irri.s jii;nr;i. 

— Si»lmon;t , palrid miiitci fui , ili; fi>nlei 
Frias ttliuiiij;iiili?9iinn , c drz Mjtr-s 
Milliiia iii.ie de Uunia seiKir;nlH. 

— Do niiM'inifiito men luUcz u Iimii|>o 
SrtUer lamliem queJraes. l'\»i (pMiido ^oljie 
Sinnillaiieu a iluiis coiisulcs futtara 

Cum snrte i-iial ila vitlu o iVAnX fio. 

— So qiial a |)osi(;*ii) minim, dus v<lluis 
Mtiis a\oencus Iierdada ? Fui ii et|ii«'stre 
Ordcm a que occupei , nau da forluna 
Peliis dadnas ft-ilu ca\alleiru: 

NVm o primeiru fui ii<i eslirpe minlia , 
N'ella nijjs \eihu um irmao me prfccdcVa 
iMt-ZL's duzi- ; mas d'amljos iijual dia 
I'ui u natal J e aimultanea olTerla 
Ous doiig o nascJiuento celebrava : 
Nus de Minerva armi;;era festrjos 
Era o primeiro dos que ansipnalados 
Cum pelfjas soiam ser cruentas. 

— Nas arU's da puerJcia eis nos adeitram , 
E o paternal desvelu a ambos envia 
Logo depuis a Ruoia , ondo de msiirna 
Mestrei colbcmos as lic^Oes pre&tantes. 

— Desde annos rerdes ineu irmuo tcndja 
Para a arte de fallar , como nascido 
Para o8 combates do verboso foro. 
Desde menino a mini sonieiite ui sacros 
Da popsia luyiterius me a?radaTam , 

E a furto a si as musas me altrahiam : 
<t Esse inuLiI eatudo (vezes muitas 
" Me dizia meu pae) para que o tentas ? 
u Pobre seinpre viveu , murreii Horaero »j : 

Im|)res6as laes palavras dentro d'alma 

De cerlu me ficaram , e baixando 

Lo;:o do Helicon, em simples prosa 

lnteijta\a escrever ; mas espuntnneos 

Versos a penna so hia escrevcndo, 

Eram so \ersos as palavrns minima. 

— Surrrtleiros correndo em lantu os nDDOS , 
A niim e a meu irmao \iiil a loj,'a 

De Inrga banda de purpureo c-lufo , 

Ja dos liumbros peodenles nos uniava ; 

Mas d'ell'* o esludo e o men sao senipre os mosmos. 

— Annos ju meu irmao vinte conlava , 
Qnando, a morle roubamlo-m'o , perdida 
Uma parte senli da csacnria miuha : 
As houras umbos juntos recebenius 
Projinas da juventirde , elle Cuniigo 
Exerceu dos triiim\iros o empre::o : 
Apenas o meu pusto no senado 

Me restava occiipar ; foi-me esta lionra 
Cuarclada someiile , as for(;as minlias 
Onus superior ; que a um tal trabalho 
Era o meu corpo e esfiirito inipdlenles, 
Nem da ambirao solicdo eu cura\a, 
Acenando-me as musas que os dui^can^os 
Seus paciUcos aides procurasse , 
Ao meu senltr tmpregu o mais mimoso. 

— D'aquelle tempo os inclitos poetns 
Frequentci , acolhi ; onde encuntrava 
Vates , morar alii deoses julgara. 

Macer muito mais velho que eu , das aves , 
Das nocivas serpentea c das planlas 
Vczes muitas me lia o seu poenm : 
Muitas vfzes tamliem Propercio vinha 
Seus \er8os amorosus recitar-me : 
Puntico nos hexanietros , e Basso 
Taoibem pelos seus jambicos , illustres , 
Da minha foram convivcncia membros 
Na mais doce uniao : oi meus ouvidos 
O numeroso Horacio deleitava 
C*os versos cultos do alaijde ausonio : 
Vi apenas Virgilio : o fado eicuro 



\ao a Tibiillo ileii trnipu Laslaiil** 
l*ara a iniiiliii ^'uxar tenia amiaaWe: 
<ialIo sell successor fui , e Prupercio 
Veio logo (iepois : em siiccffler-lhcB 
Na onlem dus Ieni|nja fur dVIIt-s u qiiurto. 

— Bern como aos jii pus^ftdus »Iava ciiiluS , 
Dus pufiierus cu ciilloa reccl'iu : 

Minba Timlia em Kuinn conlit-iida 
Se fei em bre\e ; (iiiaiulo us ineiiii prirueiros 
.\o povo t!f;j a I<*r jinfDJg lers"?, 
Apeiias lima vcz, diias au tuiiito, 
Cortudo tinlia u biiru barhiloiro. 

— Por mini, cntilada com snpposto nome 
Por lodd Ruiiia , a relebre Carina 

Foi quem me despertuii en;:eiiliu e eslro. 
Miiilo eeerevi ; mas ^endu-Ihe us defrilos , 
A's chanimas o entregiiei que o cotriiiiiscm. 
CuatleoiDado ao ileslerru , cunra o eAliidu 
Men valido , e mens versos iiub^nado , 
Algnns queimei , beni que uiiida me iiL'radassein. 

— Poslo que iiin cor.i(;au si-iisivel tenha 
£ de Cupido :'t« sfttas accessiiel , 

A quern piitiba em arrHo causa a mais Ifve , 

Com minimo valor pnimpto a ncceuder-se ; 

Vefsos nunca saliricus da pt-nua 

Miuha contra nrngtit;in ji'iaiais sairam. 

^ Pur niinha esposa quasi iia puericia 

Mnlher ijcm di^na on nlil nie fui dada ; 

Mas d'nin con8orcio tal foi curio o praso : 

Oulro the succedeu , bem que sem crimes , 

Que no meu thoro uupcial mui pouco 

Tempo durou tambeui : tcrceira esposa, 

£ ullimn a mim se tiiiiu tambem jior annos longos, 

E d'um quiz desterrado ser con^iorte. 

Uma fillia so live, mui juveri 

Tezes duas , mas niio d'um so marido , 

Concebendo , d'avo me impoz o nomp. 

— E 08 aeus destinon ja meu pai encltcra , 
Nove lu«tro8 juntando a luslros aove , 
Cijja morte chorei , qual elle a miulia 
Cboraria lalvez. Em curto praso 

De mioha mai solTri tambem a perda 

Ditusos ambos, ambus sepultadoi 

Com opportuna morte , autes que a pena 

Do exlerminio do lillio o» maguasse ; 

K eu ditoso tambem , puis ja nao vivos, 

Sou da desgra^a victima , e ainar^'usa 

Do fiJho tiles nao e a sorte dura! 

Mas all ! se de quem murre , aleoi da moile 

Alguma couea mais Uie res-ta ainda . 

Se a tenue sombra da fugueira escapa ; 

O ainias de meus paes , ie a voz da fama 

Os mens crimes fizer soar na Styge, 

Sabei , acrt-dilai (pura verdade) 

Que nialdade nao fui , fui erro apenas 

Do meu deslerro a causa verdadeira : 

Basle-Ihe islo saber, quem ja nao vive ; 

E a vus nje torno i)oi8 que desejosos 

E«tae6 de ouvjr da miuha vida os cusof. 

— Da edade os annos juvenis vulvidos, 
Ja na fronle a nssomar me come^avaiu 
D'aUo negro uiei^rlados us cabellus ; 
Depuis do nascimenio meu , a lesl.i 

Da |)alla'lia oliveira coruada, 

O cavHileiro veneedor em Piaa 

Por \tzet dez (jaubara o premio honroso, 

Quando do priucipe ofTcndido a ira 

A ir niorar me ordrnuu eulre os Tomitas , 

Do Ponlo eiixino a esquerda cullucados: 

Do meu exilio a causa e bcm saliida , 

Nem a mim me compete o declaral-a, 

— Dos mens guardus e famulus perversos 
Para que hei de cuntar nefandui (ractos?.... 
yiieram-me soffrer nSo menus diiros 

Dos que us do proprio exilio acerlws males; 

Mas a elles succumbir nao quiz niinba alma, 

Com as for^as suas resistiii-lhe invicla ; 

E , dos ucios anticfos esquecido 

D'armaa fiz uso , per mim nunca usadas; 

Ko mor^ na terra desvenluras lantas 

Cahiram lobre mim , qnaei ouuca virum 



Os que o vjiiiel Pulo e o occullo habilam ; 

Te que a final , depois de errores loiigos 

Do Jela sai^iltifero ii« moradas 

Na Sarmacia arribei , e bem que em rolla 

De mim uii^a soar da cuerra os lirados , 

Como posso , a tristt-za alliviando 

Vou com meus versus, nmilu embura surdos 

Aqui da l^ra dos 6uU)( su ache ouwdus ; 

O tempo a.^sim coiisuuimo^ assim o eii^ano. 

— Se puis vivo» e aus Irabalhus meus resisto , 
Scm que udiui-a nie sij.i a \iila inqtiieta ^ 

A li o devu , u musa ; puis nie unlori^'ag 

Duces cousula<^o'-s , e a nieiis ciiiitarlos 

Dfscanco , e a mens desnptres medicina : 

Minlia ;;uia tu es , lu mu acompanhas , 

Do Islru me shKus, e no sacru Piudo 

Kntrc as tuns irmas \a» ilar-me assento: 

Tu (o q'le e raro), a mim vivo ainda, d^*le 

Sublime um nome , que depois da campa 

So ;:oznr aus murines e concedido: 

Nem dos prcsenles a iniqua invtja 

Sens deutes impriiuiu nas obras minhas. 

D'esic hcculo , em vales ^ramies ferlil , 

Jamais a fama esciircceti meu nome ; 

E, bem que a mim eu muilos anteponha , 

Nilo inferior a elles me aprecoa 

A vuz universal, e cm vabto espa<;o 

Sei ja que lido sou do orl)e inteiro. 

— Se e dado pois aos vales do futuro 
Versos arcanos presagiar , 6 terra , 
Todo leu nao serei , e apus a morte 
Esta poetica fama , on m'a conceda 
O publico favor , cu de justiqa 

Ao esiro e entrenho meu devida seja , 
O candido leilor eu t'o agradei^o. 

Continua p. de CARVALHO. 



IMPRENSA DA UMVERSIDADE. 

Uma complela reforma eia de lia mnito 
reclamada n'este estal>eiecimento , que, po- 
dendo ser utn dos mclliores do reiiio rresle 
geiiero, tlietj-aia com tiido ao mais deplo ra- 
vel esl£jdo. 

O (ilvyru de 9 de Janeiro de 1700, que 
ordenara o rej^ulamcnlo por onde se devia n;ger 
a impren^a da uiiiversidade , e que continli;i 
uleis e salulares providencias para o adiaiita- 
meiito d'esle eslabeiecimedio J que d*^via ser 
uma verdadcira escliola d'arte lypographica , 
nuiica teve plena execu^ao, e d'aquella nies- 
ma parl(* , tpiu aprincipio eslivera em vigor, 
muilas dibposi^oes jam ficandoem esquecimen- 
lo , ou cram de todo contrariadas por viciosas e 
abusivas pialicas, conv^Mlidas a final ent re- 
solu^oes da confcrencia , que prebidia ao go- 
vtrno d'esta impiensa, 

Em 1834 uma reduc^ao nos ordenados dos 
empregados foi a unica providencia , que ao 
tomou n'esta reparli(^ao, que continuou no 
mesrno senao cm peor estado, porque cessando 
a fiicalisa^ao das suas contas, pela extinc^ao 
da junta da fazenda da universidade, naO se 
cuidou mais nem dos inventarios das obra» 
impressas , e dos typos, moveis e ulensilios 
da officina, nem de eslabelecer uma conta- 
bilidade regular, e legallsada com os precisos 
doctimentos. 

Por mais de dezoilo annos a adminislra^ao 
da imprensa da universidade vendeu as obras 



8 



que quiz , tirando-as dos depositos , onde 
existiani sem invenlario, e nao apreseutando 
outru documento para coinprovar as vendas 
feitas, senfio a declaraffio do proprio admi- 
nibtrador, que as Tendia ! 

Muitas edigoes do classicos portuguezcs e 
latinos forao vendidas a pezo , e outras dei- 
xararu-n'as apodrecer no liindo de armazens 
quasi subterraneos. 

A falla detypo, a pezar de se ter compra- 
do para ciina de dczasete mil cruzados de 
letra desde 1834., e de bons prclos, difficui- 
lava as irapressoes, e toriiava-as lao imper- 
feitas e demoradas, que muitos auctores 
liuscavam por isso oulras typograpliias com 
piejuizo consideravel d'esla. 

A litulo de aposentadoria dos empregados 
da imprcnsa, as melliores casas, e as inais 
proprias para os traballios typographicos, 
estavam por elles occupudas; e as caixus 
de coiiiposij'io , e os prelos achavain-se 
ainontoados n'uin corredor, queapeiias recehe 
porum lado a luz de janellas que ficani deu- 
tro do ciaustro da antiga cathedral : com- 
prara-se uma macliina iitliograpliica que ha 
mais de seis annos estava fechada por falta 
deumacasa, onde se monlasse, em quanto os 
empregados desfrutavain com graves inconve- 
nienles do servi5o e sem razao plausivel as 
melliores salas, mais alumiadas, e liem areja- 
das, condigoes essenciaes para estabelecimeatos 
d'este gonero. 

N'estas circumstancias e' que o cxm.° bispo 
de Braganga , vice.reilor da universidade , pro- 
poz ao governo de S. M. a nomeagao de uma 
commissaode cincomembros, paraproceder a 
um inqueritosobreoestadodaimprensa ,e pro- 
p6r as medidas conducenles ao melhoram jnto , 
e reorganisagaod'aquelleestabelccimento, tan- 
to na parte admin istraliva,como na mechanica. 
Por porlaria do niinisteriodo reino de 7 de no- 
vembro do anno proximo passado foram no- 
meados para compor esta commissao , 05 snrs 
Josii Ernesto deCarvalho e Rego , Prancisco 
Jose Duarte Nazareth, Henrique do Couto 
de Almeida Valle, Jose Maria de Abreu , 
e Florencio Mago B irreto Feio. 

A comniisbao coniegou desde logo os sens 
trabalhos, procedendo aoinventario gi>ral de 
todas as obras, que estavam nns anuazens , 
a'sim como dos prelns , typos, e moveis das 
ofl'icinas; e examiiiando ao mesmo tempo to- 
dos OS regulamentos, e estylos que se obser- 
vavam na imprensa , e ponderando as mais 
urgentes reformas, que era mister adoptar 
desde logo, em quanto se nao ordenava o 
projecio do novo regimento para a mesma 
imprensa, no qual a commissao e^la traba- 
Ihando, dirigiu ao governo uma consnlla com 
a data de 24 de dezembro, em resultado da 
qual Sua Magestade foi servido mandar expe- 
dir a portaria abaixo transcripla. 

Esperamos que as providencias, que nella 
se ordenam, os definitives regulamentos e 
todas as mais reformas , ie que a imprensa 



eate'a propria conferencia por venluracarega , 
e que a commissao nao deixara de propor 
brevemente a rogia approvagfio , terao os 
mais profieuos resullados para o aperleigoa- 
ni'Mito da arte typographica n'aquelle esta- 
bek'cimento , e para a sua mais regular e 
zelosa administragao , tornando-o digno da 
academia a que pertence, o que sera incon- 
testavelmenle um grande servigo feito ao paiz, 
e li universidade. 



Ministerio do reino — l.'direccao — l.'rcpar- 
ticao — L." ll.°n.° 48 , e 12.° n.° 121. = Tenda 
sido presente a Sua Magestade El-Uci , Uegento 
em Dome do Rci, com a data de 2i de dizcmbro 
ultimo , o relatorio da commissao creada para 
examinar eslado da imprensa da universidade 
de Coimbra , c propor as mi'didas de rcforma de 
i|ue por Ventura carcr.i ; e verilicando-se , pelo 
contexto do dilo relatorio, a neuessidade de se 
inlroduzirem nella diversos melhoramcnlus, assim 
na parte relativa a su 1 admiiiistracao , como na 
parte technica , para que scmelhanle reparticiio 
venha a prestar os uteis servioos, que pode cf. 
fectivamenle prestar em beneficio das scicncias e 
das letras : Ua por bem mesmo Auguslo Senhor 
ordcnar e declarar o seguinle : 

1.° Pela demissao, que por decrcto de 8 do 
corrente mcz de marco foi dada a Joao Fran- 
cisco da Cruz , do logar de administrador da 
imprensa da universidade , — e nomcado iulerina- 
mcnte para estc emprego conipnsilor da im- 
prensa nacional Olympio Nicolau Itny Fernandes , 
com vencimcnlo de 1:200 reis diaries, abonando- 
se-lhe igualmenle as despozas de Jornada , de ida 
e de volta . tudo pago pelo cofre da imprensa da 
universidade. 

2.° Este novo empregado . tumando Ingo 
conheciiiicnto do eslaboleciinento ila officina 
typographica da iniivorsldade , csi larecera a com- 
missao sobre as modidns de reforina e melhora- 
menlo , que coiivenlia adoptar , Innio cm rclaciio 
a parte admini>lrali\a , como a nspcito da parte 
technica d'aqiiella repartioan. 

■J.° Em quaido a commisslio niio conclue o 
novo regul.imenlo , que est.i formaiido , e pnrque 
a imprensa da universidade se deva dirigir no 
andamento deseuj trabalhos , excvcera adminis- 
trador interim) as allribuicoes , que nessa quali- 
dade Ihe competem pelo regimento de 9 de 
Janeiro de 1790: e hem assim is que pelo 
projecio de reguhimonto da imprensa nacional , 
que cm 3t de dezemhro ultimo foi renicltido a 
commissao , pertcnccm , nao so ao mcblre dos 
compositores, mas tamhem ao dos imprcssores , 
na parte em que ellas forem applicaveis. 

i.° director da imprensa passara im- 
raediatamente a residir nas casas da rua do.Norlc 
contigiias ao palacio da universidade; — e serao 
transferidas para as que clle actualmentc occupa , 
assim as caixas dc composicTio , como as mais 
officinas . que a commissao csclarccida pelo no>o 
administrador, julgar conveniente. 

5.° Cessa a aposentadoria de lodos os empre- 
gados dontro do cdificio da imprensa . e bem 
assim qualquer gralificacao , que se costume dar 
a tilulo dc aposentadoria. 

6." Eslabelecer-se-ha, sem perda de tempo, a 



9 



machina Hlhngraphica no local que pnrcccr mais 
•propriado , scm prcjuizo d'oiitra melliur cullo- 
carao, que dc fiiluro possa lor liigar. 

7.° Fica pmliiliida , como iiicunvcnicnle e il- 
legal , a dislribiiirao das pnipinas de cxcmplarcs 
dc obras imprcssas na lypngrapliia da iiiiivcrsi- 
dade a lodos os cmprcgados c coinpusilorcs a 
quotn ailiialmi'iile sc dao laos propinas. 

Dc loilas asiibras, que alii se imprimircm , 
scrao unicanu'nlc roservailos qnalro cxemplarcs 
para, cm Cdiiluimidadc das Icis , screm di'lri- 
buidos a liililidllieca da soljrcdita lypograiihia , 
— a da univcrbidadc , — a de Lisboa , — e a do 
Porlo. 

8.« De nenhiima obra imprcssa , qiicr por 
tonta da casa , qticr diis parliciilares , se txtraira 
maior niiiiu'ni de cxemplarcs do que aquelle que 
a confcrciuia , c us auilurcs declararcm por 
cscripio assignado por elles , que sera aflixado 
na porta da uflicina , sob pciia de mulcla uo Iri- 
plo da i:iipiirloncia dos cxcmiilares de niais, que 
o imprcs-sor cxlrair do prclu , sendonictade d'csta 
mulcla para a p.irte Iczada , c a oulra melade 
para quem dcclarar o abuso. 

0.° I'rocediT-sc-ba ii >cnda dasobras, que 
e\islirem cm dcposllo , nao sendo compendios 
aclualmciilc adnplailos nas aulas publicas, com 
nm abalimcnlo rasoavcl , que coniidc a concor- 
rencia dc couipradorcs. 

10.° JVos lermos da aiiclorisacao ja coiiccdida , 
far-se-lia ac(|uisii;ao do nccessario sortimculo de 
l«lra para uso da imprciisa 

11." A ciUrcga de lelra aos coinposilores 
realiz-ar-sc-ha sempre por pczo , veriricaudo-se 
em ludos os Irimcslres as diflerenras que houier. 

12.° llaicra Ires cbaves em cada urn ilos 
arraazens <la iiuprcnsa , das quaes lera uma o 
director, — oulra o adrninislrador , e oulra o (ici. 

13." Tddos esles tres cmprcgados assislirao 
lanlo a cnlrada , como a SiihiUa das obras , lan- 
i;ando-sc no lucsuio ado as compclcnlcs nolas cm 
dois livros scparados , um da cnlrada e oulro da 
cabida , os quaes scrao rubricados por lodos os 
Ires dilos cniprcgados cm cada verba d'cntrada 
c dc saliida. assim como o seriio lambcm lodas 
as faclur.is dc li\rcirus, ou de quacsquer oulros 
eompradoics. 

14.° Abrir-sc-hao lancos para o fornecimenlo 
dc lodo papel que a imprensa hoover de cora- 
prar para scu nso , c d'islo sc fata o coiupelenle 
iiimuncio no diarin do govcnio, e no jornal que 
»e publicar cui Coimbra , raireando-se o prazo 
para se recebercm as proposl.is , e dccidindo a 
oonferiMiiia a final subrc a que for mais \anlajosa 
aos inlcri'sses d'aqoclla rcjiarlirao. 

A esla decisao ila coufi'ri'ucia eslariio prcscn- 
tes prolado da niii\crsidadc , c o official de 
conlabllidade da secrclaria da incsma univcrsi- 
dadc. 

15.° Todas as obras do rcparo no cdificio da 
imprensa , c quaesquer oulras obras que for ne- 
ccssario alii fazcr scrao sempre dadas d'emprei- 
lada , cm prara , coui assistencia de loda a con- 
fercncia. c do official da conlabilidadc da secrclaria 
da univcrsidade. 

16.° O Icsourciro da imprensa dara scmanal- 
mcnle conla documciiUida a confcrcncia , assim 
de lodo dinbciro por die recebido , como de 
loda a desjcza cffccluada com a Ucvida auclorisac.ao. 



17." No fim de cada Irimcslre dar-sc-ha um 
balance ao cofre c cabcdal da officina , nos ler- 
mos do arligo 14.° do rcgimcnlo de 9 de Janeiro 
de 1790 , assislindo sempre a csle ado o (irclado 
da univcrsidade, com a confcrcncia, o official en- 
carrcgado da conlabilidadc da secrclaria da uni- 
vcrsidade , e fid da imprensa ; — e de ludo se 
lavrara o conipetenle Icrmo , que sera assignado 
por lodos. 

IS." A commissiio aclualmenle cncarrcgada 
de propor as rcformas de que a imprensa da uni- 
vcrsidade carecc, tralarii de acli^ar a conclusan 
do rcgulamenlo definilivo , porquc a dila rcpar- 
licao lypogra|ibica se devcr.i dirigir, eniiando-o 
em lempo opportuno ao Governo , pdo miuislcrio 
do reiuo , para scr previamenle approiado; — 
c cm quanlo istu nao lem lugar , e auclorisada 
a nicsma conimissao a lomar , d'acordo com o 
prdado , as providencias ccouomicas , que o beni 
da mesma reparlirao cxigir, c nao dcpcndam 
dc resolucao rcgia. 

O que Sua Mageslade manda parlicipar a mcn- 
cionada commissiio para sua inldligcneia e Cic- 
cucao na parte que Ihe loca. F'aco das Necessi- 
dades em 16 de marco de ISSi. — Itodrigo da 
Fmscca Magalhaes. 



DOCUMEMOS I.NEDITOS. 

Carta qrie o riso^rei D. Joiio de Castro esrreveo a 
elrti nosso senhor o anno de 4G (15411). 

Continuado de pa^'. 295. 

EntracJos dom Alvaro e dotii Francisco na 
f'orlaleza, rclirarfio os mouros a sua artelliu- 
ria , e lizerao luoslra de querer alevantar o 
campo; polo que se amotinar.^o lodos os 
La^carins, requerciido a dom Joao , que sais- 
fC fora a dar nas eslancias: e uao o que- 
rendo elle fazcr, por conselho de dom Fran- 
cisco, e d'oulras pessoas, que etitendiau 
bciii a guerra, Ibe fizerao tamanbas afronlas , 
que Ibe coiiiprio, lual que Ibe pez , sair fo- 
ra, e dando nos seus baluarles, e muralbas, 
dom Alvaro 5 e dom Francisco passarao aleiu 
com obra de quiiize homes , entre os quaes 
ilia Liiiz de Mcllo, e Jorge de Alendoiiya , 
lilbos de Antonio de Mcndonja, dom Diiar- 
le Pereira, Pero Lopes de Sousa , dom Jorge 
de Menezes, o qual dizem que eiilrou pri- 
ineiro que lodos, Francisco Guillicrn, Jam 
Pires de Chaul : sendo passados alem , ar- 
laiicando os mouros de suas eslancias, e le- 
vando-03 todo^ de vencida : quiz o pecado, 
que OS nossos Lascarins sein nenhua causa 
lojrissem, deixando seus capitaes no campo. 
Pello que, tornando os mouros a voltar, ma- 
laram dom Francisco, que foi liuu grao 
perda ; porque era hQ dos genlls cavaloiros, 
que se podifio acliar em nosso lempo, e as 
suas paries e virludes erao tamanbas , que 
raranienle se poderao acliar lanlas nua soo 
pe^soa. Dom Alvaro ficoii no campo aleiii 
de suas inuralhas com ciiico ou seis pessoas, 
oiide OS ajudou iiuiito Jorge dc Mendonja , 



10 



e Liiiz dc lyfollo, e Pero Lopes de Soiisa , 
OS quaes se defendeifio miiilo espnyo de tem- 
po de toda a genie de inouros. Nestc coinc- 
nos disserfio a dom Jofio como dom Alvaro 
ficava perdido. Polio que Inrnou logo com 
algua gente ao favorecer. Com osta toinada 
atVoxarao algu taiilo os moiiros; com o que 
aprouve a iiosso Serdior do ossajvar, foia 
de toda a opcnifio e rezfio ; cieiido os que 
isto virao da fortaleza , que lora millagie 
mui evidenle. Do?n Alvaro trouxe a calie(;a 
niui mal aviada de giaiidcs cantos, que Ihe 
derao sobre o capacele ao sobir das uiura- 
Ihas, e as armas mui passadas de selas , e 
esplnguardadas. Affirmfio todos, que, se esse 
dia iifio fogirfio os Lascariis, que avifio os 
nossos coniprida victoiia , e o cerco fora 
alevanlado, com grande lionrra e fama dos 
Pcrtuguezes. Isto assim fcito, cobiaifio os 
inouros ariimo, e lornarao a assentar a sua 
arlelliaria, e cerquar de novo a fortaleza. 
Pelo que dom Joao e dom Alvaro logo 
me inandiirfio fazer a saber os acontecimen- 
tos passados, e os traballios, que liiiliao pre- 
zenles , pedindo-me socorro de gente , e mo- 
iii^oes. Pello que, em spa^o de dez dias 
lancei sete caravellas ao mar, e as arniei, e 
aparolliei de cousas necessarias ; nas quaes 
embarquei Irezentos e cincoenta Lascaris, e 
dozentos pcdreiros, e cavouqueiros com gran- 
de canlydade de moni^oes, e as mandei ca- 
minbo de Dyo, dentro nestes dez dias. Os 
capilfies destas caravellas forfio : Antonio Cor- 
rea, Cosmo de Paiva, Jorge de Sousa, Puyo 
Kodrigucs dAraujo, 'J'rislfio de Paiva, Go- 
mes Vidal, e Afonso Madeira, meslre das 
obras , que levou os predeiros. De lodas 
estas caravellas o prime] ro que chegou a 
Dio foi Jorge de Sousa , e o seguiido Paio 
Rodrigues, o qual no caminlio tomou uina 
lido de Coje Cofar, que vinha do estreito 
com urn capitfio sen parente, que fora fazer 
gente ao Cairo. E como chegou a Dio com 
clla , mandou dom Alvaro corlar a cabe(;a 
ao capitao, e a todolos Turcos, que nella 
vinbfio : as mercadorias que na nao vinhao, 
mandou a Goa ; pera que se enlreguasteni ao 
veador da fazenda. A cheguada destas cara- 
vellas poz grande esfor^'o aos nossos, e C|ue- 
brantou niuito aos mouros; por que os ca- 
pitaes dellas crfio homens muito onrrados , 
e valenles cavaleiros, e levavao mnita , e 
boa gente. Dom Alvaro, como llie pareceo, 
que a fortaleza tmlia gente em abaslanga 
pera sua defensao , mandou cerlas fustas e 
catures d'arinada ao longo dacosla, aonde 
tomar.'io muitas naos de preza , que virdiao, 
do estn.'ito , das quaes, posto (jue se furlasse 
muito, se tirou muito proveito dellas pera v. a. 
Com todo este socorro, e gente que inandei 
a fortaleza de Dio, niio deixi'irao os mouros 
de levar sua petiia adiante, e combater 
muitas vezes a fortaleza, fazendo muitas 
niinas, com que acabarao de dcrribar os pe- 
dajos dos uiuros, e baluarles, que ficavfio. 



Dizer a v. a partlcularmcntc o como se 
ouve dom Joiio Mascharenlias com todos estes 
traballios scria nunca acabar ; porque nas 
pelejas se inostrava muito valonte soldado, 
e na maneira do guerrear grande capitfio, 
e no cuidado, e aguazalliado de sua gente 
muito virtuozo; de maneira que sens servi- 
50s e merecimentos co iienliiia soficieiicia 
se acabarao de louvar, que mais nfio sejao. 
Deiilro ncsle tempo fiii avi^ado, que por 
loda a enseuda andavao inuitos capilfies de 
fustas, e calures, dos que mandei de Goa 
coin dom Alvaro, roubando, e fazendo cou- 
zas muito mal feitas, e contra scrvigo de 
V. a., sem quererem entrar na fortaleza de 
Dio. E porque erao muitos, e Iraziao muita 
gente, pareceo-[ne couza mui importanie 
niandar la biia pessoa soficiente ; e do muito 
sizo , espericncia , e saber com grandes po- 
deres pera os ajuntar, e ou por for(;a , ou 
per sua vonlade os levar todos a fortaleza. 
E por era Vasco da Cunlia aver lodas eslas 
ealydades , o eicolhi pera isso, e o mandei 
do Goa a sete de selembro, e com elle Sy- 
Mifio Alvures boticario mor com muitas mci- 
zinlias, e couzas de bolica , pera curar os 
doeiites , e frey Paulo guardiao de Siio 
Francisco; por ser liomem muito virtuoso, e 
de grande autlioridade , e gerallmente bem 
quisto dos bomens; a fim de emvergo- 
nliar todolos reveis, que nao queriao en- 
trar na fortaleza de Dio. Cliegando Vasco 
da Canlia a Cliaul , eBa(;airn, ea oulros 
logares da enscada , obrou lanto com seu 
bom sizo, e diUigencia , e muitos poderos , 
que de iia levava, que ouve de levar diante 
si todos estes descuidados de suas lionras e 
servigo de v. a. ; posto que com grande tra- 
ballio seu, e eotrou com elles em Dio a 
vinia sete de selembro, que foi mui grande 
ajuda aos cercados: comessando logo a Iraba- 
lliar, e servir v. a., como delle se esperava, 
e como queni levava poderos sopremos sobre 
todos OS da fortaleza, pnr cauza do desarrau- 
jo , que (izerao na saida, sendo contra o 
ineu regiaiento. 

Tanlo que live despedido Vasco da Cunha 
coinecei a entender em me fazer prestes com 
toda a gente, e armada, que fosse possivel. 
E posto que sobre minha partida ouvesse 
muitas opinioes, dizendo , que me nao de- 
via alialar sem lodalas naos, galeoes, e gua- 
les, que avia na India, e sem esperar toda 
a Rente do reino, e a de Clioromsndel , eu 
entendi o contrario, e me pareceo, que com 
a maior dilligencia do rnundo me devia em- 
barcar em fustas, e catures, e irme por na 
fortaleza de Bagaim , pera ali ajuntar toda a 
gente, e armada, que pudesse, e hir dar 
batalha aos capilaes delrei de Cambaia. As 
rezoes , que live para isto sam estas. Eoi 
lodolos reis e senliores da India erao langa- 
dos embaxadores delrei de Cambaia, fazendo 
saber a todos, como tinlia tomada a forta- 
leza de Dio, persuadindo-os a se alevanta- 



11 



rem , e me fazerera guerra.: dizendolhe quam 
facil Ilies sei ia tomarem as nossas fortalezas, 
que estivessem eni siias tunas; pois iios-elle 
tiiilia tumado a mais forte de todas, e morta 
tanta , e tflo boa genie: prometeiidolhes ajii- 
da , e dinheiro pera isso. E jii em todas 
coiles, e cidades dos mouros , e gentios so 
faziao grandes festas , e alegrias, e davao 
muitas alvloaras pola boa nova. E com iito 
andava tao graiide alvoio(;o nos mouro?, que 
faltava pouco pera se fazer urn alevantaiiien- 
to universal : o que senao podia amansar 
com oulia cousa, senfio com lomar conclii- 
sao com grande presteza no dejcerquar a 
fortaleza de Dio. Polo que me nao coiiipria 
esperar, e guaslar tempo; posto que a dila- 
Jao meaciescentasse gente , e armada ; maior- 
mente sendo ja avisado, que de Cliornman- 
del nie nao acodia ninguem, e de Cocliiin 
se me fora toda pera Alalaqua , Paleacate, e 
outras terras , porremissao, e mao cuidado 
do capilao; e as naos do reino tardavao tan- 
to, que se tinlia por averiguado averem den- 
Ternar cm Mocambique. De maueira que 
me nao ficava outra genie, em que escorar, 
salvo a que se achasse nas fortalezas, que se 
contem de Cananor ate Ba^aim , a qual nun- 
<)ua se acabaria de ajuntar em Goa , e ajim- 
tada fora mui maa darrancar: (lantas sao as 
delicias e passatempos desta cidade !) E sa- 
'bendo os homens , que eu estava em Ba- 
ijaim, era cauza de se envergonliarem, e 
acabarem de arranquar mais cedo de suas 
casas ; e o tempo, que em Ba^alm ouvesse 
de esperar pc^r ella, e acabar de fazer, e 
ordenar, minlia armada atromentava toda 
Cambaia, e guerreava a eiiseada , e tolliia 
OS maiitimentos ao campo dos mouros. Polo 
que me detreminei, e parti de Goa a vinta 
cinco de selembro com liua armada de trinta 
e cinco fuslas e caturcs, e Ires galeoes, nas 
quaes fustas vinliao muilos cazados, e iijo- 
radores de Goa por capilaes, e as suas pro- 
prias castas, e despezas ; a saber, Aiitoiiiu 
Ferrao, Juiz d'Alfandegua, Simao da Cu- 
nlia , Diogo Gentil, Jam Juzarte, Jorge 
Cardim , Antonio iVIarlins; e em poucos dias 
clieguei ao logar de Ba^aim. E^.trondeou 
lanto minlia vinda , que por toda a costa de 
Camliaia se come^arao logo arrecear. Tanlo 
que cheguei a Bai;'aim despedi logo doui 
Manoel de Lima pera a enseada com algiTas 
fustas, e catures , para tollier os manlimen- 
•tos, que por mar se levavao ao campo dos 
tnouros : o que elle fez com tamanlia dilli- 
■gencia , e bom cuidado, que em breve espa- 
50 tomou passante de trinla navios carregua- 
dos de muila sorle de mantimento, passando 
loda a genie delles pola espada, como leva- 
va por ineu regimento. E acabado o tempo, 
que Uie eu tinba ordenado, se veio ter comi- 
go a Bagaim , e entrou polo porto com as 
vergas das suas fustas todas clieias denforca- 
dos; o que poz grande espanto, e temor nos 
raouros. Isto assi feito , comcssei a eiileuder 



no preparamcnto de rninha gente, e armada. 
E ja cada dia entravao muitas naos, fustas, 
catures , Lascariis de Goa ; e de lodalas 
foilalezas d.i India me acodiilo de maneira , 
que a vinta quatro d'outubro linlia ja comigo 
sessenta fustas, e catures, e doze naos, e 
galeoes, e obra de mil e qualrocenlos lio- 
uiens , e trezentos pioens Canaris. Polo que, 
pareccndo-me, que ja me nao podia acodir 
mais gente, e armada, antes fazeiido demo- 
ra , me fogiria muita da que linlia, me fiz 
preates, e parti de Bajaim lia vinta seis 
doulubro , e fui surgir iia illia das vaquas. 
Deste logar de Ba^aim se embarcdrao miji- 
los liomt'S fidalgos , e creados de v, a. , a 
saber, Alvaro da -Gama , o qual veio a sua 
cusla nu galeao, e com liua fusta em que 
trouxe rauita gente, e mui beni alaviada, e 
dom Diiigo de Noronba com bua fusta sua, 
e hum Anrriquede Souza, que qua lia muilos 
annos , que anda servindo v. a. ; e assi JS'uno 
Fernandes Peguado cim outra fusta, e Si- 
mao Galego em outra , Antonio de Saa 
Pereira em outra. K porque era necessario 
liir toniar a ilha dos mortos ; as^i pera fazer 
auguada, como pera ajuntar toda a armada , 
que no atravessar do golfao de necessidade 
se avia de perder de rnf, por caso das gran- 
des correnles : mandei diante dnm Manoel 
de Lima com vinte fustas pera correr toda 
a enseada , e queimar, e lallar loda a costa 
do mar, no que moslrou bein sua cavalaria, 
e ddligencia; porque fez a mor destruigfio 
na costa, que nunqua jamais foi vislo , neni 
esperado; destroindo todolns lugarcs, que 
estao de Damao ale Baroclie sein ficar delles 
memoria : e toda a gente, que tomou foi 
feila em postas, sem perdoar a nenliua couza 
viva. Queimou obra de vinlc naos, e cento 
e cincoenta colijas ; de maneira que toda a 
costa de Cambaia era hiia lavareda e viva 
cliama, e as praias se virio clieias de morlos. 
U que melpo grande medo , e temor em lodo 
o reino de Cambaia, 

Contini'ia. N. 



FACULDADE DE MATHEMATICA. 

O consellio da faculdade de matliemalica 
nomeou uma comraiss'io composta dos snrs. 
doutores Rufino Guerra Ozorio , e Jacorae 
Luiz Sarmento, para colligir dos livros das 
actas tudo que merega pubiicar-se no Insli- 
tuto. 

O mesmo conseUio desejando que tambem 
se piiblicassem as demonstra(,"6es , addilamcn- 
tos e rnemorias, corn que os respectivos pro- 
fessores substituissem 011 ampliasscm algura.i 
parte dos compendios por onde explicam , 
resolveu que se remeltesse para a redac(;ao do 
sobredilo jornal , qualquer d'esses Iraballios 
litterarios, que seus auclores oflerccessem 
para aquelle fim. 



12 





OBSERVACOES METEOKOLOGICAS . FEITAS i\0 GABINETE DE PIIYSICA | 






DA UMVEKSIDADE DE COIMBRA. 






Anno lie 

lii.n4 


_1 o 
a 

— o 

r- 5 S 


Press3o otmospherica oo raeio dia 


Rstadu Iiyjrroniclrico da 
almosphera ao meiu dia 


-D 



^ s 


Eslndo do ceo e do 
tempo. 


Mez lie 

Mar^o 


Altura ba- 
ronii-trican 
0.° cenlii. 


Tcn»iio do 
.apor aqiioso 
coBtido no ar 


Pressao do 
ar see CO 


3 n 

* 4) 

= 1 
OS 


Qiianlid. dc 
vapor conliito 
cm iitu DiCtro 
cuLico dc ar 


Dias 


Gr.iiia 
celltiu'. 


Millimelros 


Milliuielros 


.Millinietros 


Grammas. 


1 


12 


76;,848 


5,750 


757,092 


0,537G 


5,857 


\. 


Clar. elimp. T. sereno. 


o 


11 


701,9117 


7,202 


754,705 


0,7149 


7,354 


l\. 


O mesmo. O mesmo. 


3 


11 


701,015 


6,8110 


754,243 


0,0730 


6,943 


N. 


O mesmo. O mesmo. 


4 


11,5 


702,921 


8,480 


750,441 


0,0235 


6,605 


N. 


mesmo. O mesmo. 


5 


11 


704,443 


7,140 


757,297 


0,7094 


7,2a7 


N. 


mesmo. O mesmo. 


6 


11 


7"5,4:>7 


0,713 


758,744 


0,6 no 4 


6,855 


N. 


mcsrao. O nicsmo. 


7 


12 


704,073 


6,793 


7 57, f! 80 


0,0344 


6.912 


N. 


Cl.elig. nubl.B. lemp. 


8 


ll,5 


763,253 


6 927 


758,326 


0,6876 


7,073 


S. 


CI. e limpo. Bora lemp. 


9 


11 


762,922 


7,010 


755,912 


0,6959 


7,158 


N. 


O mesmo. O mesmo. 


10 


11,5 


761,907 


7,492 


754,415 


0,7211 


7,036 


N. 


mesmo. O mesmo. 


11 


12 


757,220 


7,370 


749,850 


0,6884 


7,499 


N. 


mesmo. O mesmo. 


12 


12,5 


754,432 


7,811 


746,021 


0,7074 


7,934 


N. 


Nnblado. Bom lenipo. 


13 


14 


7o4,li:o 


8,439 


745,747 


0,6982 


8,527 


S. 


Encobert. Temp. vent. 


14 


13,6 


736,528 


8,!:o5 


747,723 


0,7505 


8,912 


N. 


Nnblado. Bum Icmpo. 


15 


13 


762,023 


8,0118 


754,015 


0,7566 


8,728 


N. 


Clar. e limp. T. sereno. 


16 


12 


758.538 


8,157 


750,381 


0,7619 


8,300 


N. 


Cl.elig. nnbl.T. lent. 


17 


12,5 


757,311 


8,540 


748,771 


0,7735 


8,675 


E. 


Clar. e limp. B. tempo. 


18 


13 


755,723 


6,6.17 


749,091 


0,5833 


6,729 


E. 


CI. e limp. Temp. vent. 


19 


12,5 
12 


753,103 


7,710 


7J5.393 


0.6983 


7,831 


N.E. 


mesmo. O mesmo. 


•iO 


749,971 


7,643 


742,323 


0,7143 


7,782 


N. 


Nublado. Rom tempo. 


21 


12 


747,530 


7,753 


739,733 


0,7241 


7,889 


S. 


O mesmo. O mesmo. 


22 


11,5 


744,902 


8,395 


736,507 


0,8080 


8,557 


s.o. 


Encubert. Temp. chuv. 


S3 


11 


750,801 


7,148 


743,653 


0.7090 


7,299 


S E. 


.Vnblado. Bom tempo. 


ii 


11,5 


753,329 


7,043 


746,286 


0,6775 


7,179 


E. 


CI. e limp. Temp. vent. 


25 


11 


753,895 


6.8!)6 


747,009 


0,6836 


7,031 


E. 


CI. elirap- Bom lemp. 


S6 


11,5 7iG,775 


7,043 


749,732 


0.6773 


7,179 


E. 


CI. eeniiev. nohor. B t. 


27 


12 750,713 


7,900 


748,813 


0,7378 


8,033 


N.O. 


Clar. elimp. B. tempo. 


ia 


13 757, 3U0 


7,074 


745,226 


0,0217 


7,173 


E. 


O mesmo. O mesmo. 


S9 


12,5 7G0,nUl 


5,694 


735,267 


0.5157 


5,783 


E. 


niesmo. O mesmo. 


311 


13 


758,018 


7,135 


751,163 


0,6532 


7,559 


E. 


O mesmo. O mesmo. 


31 


14,5 


738,940 


0,240 


752,700 


0,5007 


6,294 


E. 


mesmo. O mesmo. 


nieiiia ) 
ilo niez i 


12,4 


737,831 






0,6809 










Tempcratnra 


PressSo m 


inosphcrica 


Grdii dehu 


midade doar 




feiilos predomrtantes 


-^ 


Maxima absol. 14", 5 


Ma.vimaab. 


ol. 705,457 


Maxima al 


sol. 0,808 




N. e E. 


E 
a/ 


Minima 11° 


Minima .. 


.. 744,902 


Minima . , 


... 0,5007 






iS 


Maxima variaij. 3", 5 


Max. exciil 


sao 20,555 


Variar.lo m 


axi. 0,3073 






Coiui 


bra 1." Je Abril de 18 


54. 














O 


Dcmonslrailc 


)r da Faciilil 


ade de Philo 


o]ihia , Joar 


uim Aiiijtist 


1 Siinue 


* de Carvnlho. 



€) Jn0titttt0^ 



JORNAL SCIENTinCO E LITTERARIO. 



IIIVERSIDADE DE CODISRA— PROCRAMMAS, 

FACL'LDADE DE SIATHEMATICA. 

1853—1854. 

3." AN.VO, 3.* CADHIRA. 

CALCl'LO SUPERIOR — DIFFEREN);as FIMTAS — GEOMETRIA 
DKSCHIPTIVA, 

Lenle — Dr. Abilio Jffonso da Silva Monteiro. 

CALCULO DIFFERENCIAL, 

Desenvolvimento das fimc^oes tie duas e mais variaveis 
indepcndenles. 

Desenvolu^ao de F (x, a- , r^ , . , . . t^) em serie 
nrdenada em rela^uo as potencies e productos de a , 
a^ , a^ , . , . . a„ , sendo x = (p(<-i-tts), x^ = (^ ^ 

C'i^«i *i) 'n=^?« ('«+«« 2^„)' e sendo 

= , =,,.... :„ funcgoesdex, x^ , ^^v-'n* 

Theuria dos contaclos e evolutas das curvas planas. 

Asymptutas das curvas, 

Puiitos sinjulares. 

RecliGca^ao das cnrvas de diipla curvalura. 

Cubalura dos solidos de revolu^ao e medida das suas 
superficies. 

Ciibatiira dos solidos e medida das superficies curvas 
que niio silo de revoI\]t;ao. 

ftliiiores e nienores ordenadas das superficies curvas. 

Tlu'oria dos contactus das curvas de dupla curvatura 
e das superficies curvas, 

Anijulo de torsiio. 

('iirvaliira das superficies. 

Theoria das superficies envolventes, curvas caracte- 
rifiticas e arestas de reversito. 

CALCULO INTEGRAL. 

Inlc^raes definidos. 

Applicaijao a rectificaqao das curvas de dnpla curva- 
tura , a determinaqao dus ^ulumes , e quadratura das 
SUjierficies cu^^as. 

Intetrrai;rio das eqiia^Oes differeociaes da 1,^ ordem e 
do 1," grao entre duas variaveis. 

Separa^So dos variaveis, 

E(iua<;<5es humo;,^enea'S. 

Eqiia^ues Jineares. 

Delerniiiia^iio do factor que torna integravel uma ex- 
pressao difiVrenrial, 

Tbeorema das fnncijoes buraogeneas, 

Solu(;oes sin;;ulares. 

Inlegra^So das eqiia(;oes dinVrenriaeH da 1.* ordem e 
d'uin pri'io qualquer t-nlre duas variaveis. 

I\Ipllu)dos para inte^r.ir por approximarjio as equa^oes 
difffrenciaes entre duas variaveis. 

Cutislrucrao geometrica destas equa^iles. 

Inle;;ra^ao dus equarues dilTerenciaes da 2.^ ordem e 
das ordena snperinres eidre duas variaveis nos casos par- 
ticulares, em que ella se pode efi'ccluar. 



Equa^ries IJneares da '2.* ordem e d'uma ordem qual- 
quer. 

EIiniina(;ao entre as equa^oes diflerenciaes. 

Proldfina das Imjectorias, 

E'pinroes dilTerenciaes lotaes entre tres variaveis. 

Cuiidiruo neressaria, para rjue uma erjua^ao enlre tres 
variu\ei9^ onde as diflerenciaes nao passam do 1." grao , 
possa trr por inlegral uma so equacat* primili\'a. 

Outra condi^ao, quando as ijifferenciaes sao elevadas. 

Processn para inlegrar uma equa^ao differencial , quan- 
do isso e possivel ; e meios de older no caso contrario , 
systema dVq'iai;oe9, que satisfazem a propoala. 

EfjUA^UES DIFFERENCIAES PARCIAES. 

Efjuaroi's lineares da 1.* ordem entre nm nuraero 
qualquer de variaveis independenles. 

Kqua^oes nao lineares da 1.* ordem entre Ires varia- 
veis. 

Equa^oes lineares e nao lineares da 2.'*' ordem entre 
tres \ariaveis, 

Integra(;ao por melo das series, 

Delermina^ao das funci^ues arbitrarias. 

CALCULO DAS TARIA^OES. 
DIFFEREN^AS FINITAS , E SERIES. 

Melhodo direclo das diflereD9as, 

Interjiola^ao. 

Integraijao das differen^as. ; 

Somma das series. 



1.* parte. 
2.* difa 
3.* dita 



GEOMETRIA DESCRIPTIVA. 

Linlia recta e piano. 

Snperficies curvas e pianos tangenlea. 

Linhas curvas e suas tangeotes. 



3.° ANNO. 



PTICA. 



Vol. 1II> 



Abril 15 — 1854. 



MECHAMCA RACIONAL ; 

henle — Francisco de Castro Freire. 



No^oes preliminares. 

Composii^ao e equilibrJo das for^as appHcadas a um 
poiito material livre, ou sujeito a mover-se sobre super- 
ficies ou curvas dadas. 

Composic;ao e eqnilibrio das forc^as parallelas. 

Composi^ao e equilibrio das for^as , que obram n'um 
piano, 

Composi^ao e equilibrio das forijas diriiridas no espnqo 
sobre um syslema , livre ou sujc-ilo , de pontes maleriaes 
ligados invarlavelmerdc. 

Theoria dos niomentos. For^as conjueadas. 
Appiicarjao da llieuria das fur(;as parujlelas a ind-iijai^ao 
dos centros de cravidade dos corpos que se acham a 
superficie da terra, — Theorcma de Guldin. 



.^^y 



Num. 2. 



14 



Applica^ao da llieoria da composi^ao das fur(;ns ao 
calctilu da altrnc^iio ilos corpos — Theorema de Ivory. 

Applicui;rio das ecpiaroes d'equililirio aos syslemas fle- 
iiveis — polyu'uno funicular — calenaria — pontes suspen- 
sas — lamina elastica, 

Applica(;ilo ilas ccpiarBcs do equilibrio as maquinas — 
ala\anca ; ljalani;a urdinaria ; balan<;a romann — sari- 
Iho ; ruldana IJxa ; ruldana muvel — su|ierficies fixas ; 
jiarafwFci ; |)lanu inclinailu — ninquinas oi)ni|iusta». 

FricrOcs e littena das curdas. Frici.'.lo ncis eixos de 
rola^ao ; no sarilho ; no parnfuso ; no i)lano inclmado. 

Principio das velocidades \irluaes. 

PRIMEIRA TiRTG DA DYNAMICA. 

No^oes preliminares. 

Movinifnlo rectilineo de noi ponto material. Movi- 
nienlo uniforrae. Slovimenlo uuifonnemente lariado. Mo- 
vimenlo \ariado em {xeral. 

Movimciilo cunilineo de nin ponto material. Formulas 
peraes d'este niovinicnto — conserva^ao das fori;as ^ivas 
•^principio da minima aci;ao — princijiio das areas. 

Calculu das (tressoes nas superGcics e nas curvas. 

Fnrc;a ccnlrilu^-a. 

E\em|doa do niovimento de nm ponio livre movi- 

menlo clos projecteis — for^as centraes — movimento dos 
corpos do syslema solar. 

Exemplos do movimento de nm ponto snjeito a mo- 
■»er-se sul)re nma superricie — penilulo-conico. 

E\emplua do uitxiitnento de uni corpo snjeito a mover- 
se sobre uma curva — pendulo simides. 

SEGU.\DA PARTE DA DTNAMICA. 

No^oes preliminares. 

Principio geral de dynamica — e.vcmpIos de sua appli- 
ca^ao ao movimenlo de dois corpos li-ados por nm fio j 
— ao movimento de dois corjios snjeitos a for^as attra- 
ctivas ou repulsivas;— i percussao de duas espheras lio- 
nioiencas, doras on elasticas ; — ao movimento de um 
fio flexiiel e inc.xtensivel. 

Propriedades ireraes do movimento de lim sy.slema de 
corpos — conseria^iio do movimento do ceniro de grai 



dade - — conscrva<;rio das ureas ■ 



principio das for<;as 
princi]]io da minima 



Tivas; applica^ao as raaqninas 
ac9rio. 

Determina^ao dos mementos d'inercia e dos cixos prin- 
cipaes. 

Movimento de nm corpo solido livre. 

Movimento de um corjio solnlo em roda de um ponto 

Movimento de ura corpo solido era roda de um ei.\o 
fixo. Caso era que este movinienio e devido a percussoes 
iniciaes. Caso em que e devido a adj.lo de for^as acce- 
leralrizes. Pendulo composto — pendulo de Robins. 

HYDROSTATICA. 

Equa(;ocj jeraes do equilibrio dos fluidoa. 

Eqiiilibrio dos fliddus pejados. 

Equilil,rio dos corpos Huctiiantes — slabilidade d'eqni- 
librio dos corpos fliicluanlcs — oscillacoes de nm corpo 
lluctuanle. 

Equilibrio de um inixto de gazes pcjados — barometro. 

lIVDRODYSfAMICA. 

Equagocs do movimento dos fluidos. 

Movimento d'uni liquido n'unia liypotliese particular. 

Movimento permanente do um liipiido. 

Movimento ilos sazps no interior de tubos. 

Movimento de um ^'az indeflnido em todos o» sentidos. 



Optica propriaraenlc dita. 

Noi;oes seraes sobre a catoptrica e dioptrlca. 

Caloptrica. 

Dioplrica. 

Tlieoria da visao. 

Teleacopios — microscopios. 



INSTRLCCAO PUBIJCA NA SUECU 

E NOllUEGA. 



Contiouado de pac. 118 do vol. II. 

III. 

ESCIIOLAS DO DOMINGO. 

Na Suecia e Nonicga lia grande iiumero 
d'escholas do domingo. Eslabclecidas para 
servirem de cotiiplemeiUo as escliolas prima- 
rias, aprcseiitam cstc raino da iiislrucyao em 
gn'io iiiais suliido. A sua organisa^ao nfio 
oflerece aiiida um systema uiiilbrme, e a ex- 
cep(;ao das escliolas de Golheiiiburgo e de 
Slocklioltno , as oiilras teem coiiservado esse 
caracter accidental que as faz considerar antes 
ensaio provisorio cjue inbtiliii^fio permanente. 
As escliolas porein de Golliembiirgo e de Sto- 
ckliolmo, de que especialmente Irataremos, 
apresentam ja, uma forma mais normal ; e se 
iiao dfio a conliecer piecisamente o estado 
de todas as escliolas do domingo nos dous 
reinosj f'azem todavia senlir a sua tendencia 
para o piano geral, a que por fim nfio dei- 
xarao de ser submetlidas. 

Ila em Stockbolnio qiiatro especies d'est^io- 
las do domingo: escliolas de catecliisnio (hxf-- 
IckclskolorJ; escliolas dos ofiicios (kandcerk'i- 
kolorj- escliolas da classe media (borgaresko- 
lor); e escliolas da socicdade d'artes e ofiicios 
de Suecia (slojdfureningcnskolor). 

Escliolas dc catcckismo. 

Desde 1771 uma sociedade fundada em 
StocUliolino com o tiuilo de Sociedade daf& 
e do clirisiianismo (Sainfundet pro fide et 
christianismo) propoz-se animar com premios 
05 escriplores religiosos que publlcassem bons 
livros, e fazcr perseverar com zclo no exer- 
ticio de suas func^oes os professores e pro- 
lessoras mal retribuidos; e procurou princi- 
palmente eslabelecer escliolas de caLecbismo 
para dilAindir pela nova geiajfio do paiz o 
ensino da doutrina clni^ta. Crearam-se sue 
cessivamenle de^de 177G ale 1842 em varids 
parocliias da capital, doze escliolas de cate- 
cliisnio frcquentadas ao niesuio tempo per 
mogos eadullos. ?\ 'cslas escholas eram adinit- 
tidos sem distinc^'ao todos os indlviduos que 
tinliam cliegado ao uso da razao, e liavendo 
enlre elles alguns que neiii Itr sabiam , fo- 
ram por isso coUocados n'unia calhegoria 
diversa — classe de soletragao (slofoanklas- 
scn). 

'i'ao louvavel dedica^fio d'uma socicdade 
particular attraliiu a sollicitiide do governo. 
E porque a sociedade sendo bastante rica 
nao carecia de ^ubsidio, o governo estaliiiu 
em favor dos niestres que por cada anno 
de exercicio nas escbolas de catecbismo Ibes 
seria contado anno e rasioj e ate em cerlos 



15 



casos, dous ahnos de servigo ecclesiastico, 
vantagem preciosa e niiiito atnbicionada , sen- 
do que todos os meslrcs d'estas escliolas per- 
tencem a vida ecclesiaslica , onde os annos 
de servifo sfio tornados em considcra^rio no 
provimento das egiejas e das dignidades on 
exclusivanicnle por anliguidade, on decidin- 
do esta, quando se requerein oulras liabilila- 
Joes, em egualdade de ciifumslancias. Os 
annos de servi(;o dividem-se em simples e 
duplos , e contani-se sempre do 1.° de njaio: 
OS annos duplos conslituiam urn privilegio 
apenas concedido por niereoimenlo fora do 
commum aos professores dos gynmasios e das 
universidades. Taes sfio as orerogativas con- 
cedidas pelo governo aos mesLres empregados 
nas pscholas de calechismo, aos quaes a so- 
ciedade da de gratifica^ao annualmente 200 
francos , exceplo aos das escliolas de solelra- 
gao que pouco mais e de 67 fr. Os fundos 
da sociedade sao de 42000 fr. , proveuientes 
de legados que liie teem sido deixados , da 
contribuigao annual de 4 fr. paga adiantada 
por cada um de sens membros da capital , e 
donatives de sens amigos e protectores que 
vivem no campo. 

Nas escholas de catechismo duram as 11- 
goes tres lioras , da uma liora da tarde as 
quatro, e srio todos os domingos e dias San- 
tos; niio ha porem aula sexta feira santa, 
domingo de Paschoa e de Pentecosles, no dra 
de S. Jofio e de Natal. Na conform idade do 
estatuto real de 1836 devem ser frequenladas 
por todos OS individuos de 15 annos a quera 
falta instrucgfio religiosa sufficiente, bem co- 
Dio pelos meninos que nao podem seguir um 
curso regular. Aprendem a ler, catecliismo 
e historia da Biblia, O termo medio dos 
alumnos que por anno as frcqiientam, e de 
460 a 500, c nas escholas de soletragao de 
100 a 120. 

Escholas dos officios. 

Em Stockliolmo lia iima ou mais d'estas 
escholas , em cada parochia ; nao dependem 
como as precedenles d'uma sociedade parti- 
cular , e nao teem por isso direcgao commum. 
Creadas por meio d'esforgos puramente indi- 
viduaes , e independenles umas das outras, 
sao dirigidas parte pela administragao dos 
pobres, parte pela administragao das escho- 
las das parochias em que estfio cslaljelecidas. 
As que na sua origem foram solidamenle 
fundadas, progridem e prosperam : as outras 
tendo apenas tenues ajcursos definham, mas 
raro deixam d'existir porque a administragao 
dos pobres veni em seu auxilio, e appella 
para a generosidade publica, donde sempre 
obtem avultadas quantias, sem que interve- 
nha n'esses mementos d'angustia o estado, 
a quem pertence fazer os regulamentos, e 
que concede aos mestres o privilegio do anno 
duplo por cada anno d'exercicio. 



Os salaries dos mestres chegam a 200 
francos como nas escholas de catechismo. 
Cada eschola e frequentada termo medio por 
60 alumnos que aprendem a ler, escrever, 
ealligrapliia, arithmelica, escripturag.'io, 
goograpliia geral e liistoria da Suecia, e 
tambem liisloria bibiica e explicagfio dos 
textos sagrados. 

Escholas da cla'sse media. 

Sao assim chamadas estas escholas, porque 
teem por fim especial inslruir os alumnos nos 
conhecimentos que requerem as profissoes 
exercidas pela grande classe d'individuos que 
na Suecia tem o noine de borgerskapet : 
obreiros , artistas, mercadores, elc. : pouco 
dilTerem das escholas dos officios, de que sao 
propriamente o desenvolvimenlo Km conse- 
quencia do pouco tempo que u'aquellas du- 
rava o estudo e nao podendo por i^so obter- 
se resukados satisfacloiios , fotam estas 1831 
fundadas em Stocliholmo por uma sociedade 
chamada Leal allianga ( Det rcdliga fur- 
bundet)- e no 1.° de niargo de 1836 abnu-st* 
uma eschola, era que o ensino devia durar 
quatro horas por semana , nos domingos 
deide as sete as nove lioras da manha, e us 
quartas feiras desde as sete as nove horas da 
taide, tornando-se por estc modo eschola 
tambem da tarde (of ton skola). No cstabe- 
lecimento analogo em Gothemburgo tem 
alem d'isso o curso lig.'io aos sabbados desde 
as sete as nove horas da tarde. Em Stockliol- 
mo a eschola da classe media reunlu-se com 
as dos officios das parochias de S. Jacques o 
S. Joao, formando um so estabelecimenlo de- 
baixo da direcgiio do mesmo mestre, e resul- 
tando d'aqui mais tres horas para o ensino, 
e ao todo sete horas por semana. 

A sociedade Leal allianga cahiu em de- 
cadencia, mas nao a eschola que havia fun- 
dado, por quanto para sustental-a formou-se 
logo oulra sociedade com o nome de Socie- 
dade para o descnvoluimento da eschola da 
classe media de Stockholmo (Siillskapci till 
befrdmjande of Stokholms stads borgaresko- 
la). E cousa pasmosa a facilidade com que 
na Suecia as sociedades succedeni umas as 
outras. Em 22 de Janeiro de 1842 comegou 
a sociedade a funccionar, e denlro de pou- 
co tempo compunha-se dos cidad.'ios princi- 
paes, com o que nielhorou a sua situagao 
fmanceira, e a eschola prosperou , pois que 
alem de varios donatives e d'um capital de 
perto de 6000 francos tjue a sociedade possue, 
cada um de sens membros contribue com 
4 fr. por anno. 

Uma so d'estas escholas ja nao bastava , 
pelo que fundaram-se duas novas, as quaes 
reuniram, como havia feito a primeira, as 
escholas dos officios que estavam na sua pro- 
ximidade, e ate per serera as malerias do 
ensino quasi as niesmas, a saber: ler e 
escrever correctamenle , grammatica, ari- 



16 



tliniclica, oscripUiragao , eslylo epislolar, 
lormiilas coniiiierciaes, geograpliia, liistoria, 
liistoria natural elemontar e os primeiros 
principios de geonictria. Tern lambein uma 
vez em cada doniingo a explicacuo do texlo 
da Biblia. 

O anno escliolar divjde-se cm dons ciirsos , 
uni da primavera dosde o meio de Janeiro ale 
o meio de jnnlio, e oulro do onlono desde o 
ineio d'agoblo ale o meio de dezembro, Ila 
])or scmana sele lioras d'esUido, niosmo n'a- 
quellas a que nfio t'oram rennidas escholas 
dos officios; cinco lioras ao dornin^'o, e diias 
de tardt; n'um dia da semana. Cada escliola e 
irequenlada, lermo medio, ]jor 1<20 alumnos, 
cujo maior niimcro sfio impressorcs, rnarce- 
iieiros, alCaiates e sapaleiros. Os piofessores 
em 1842 reccbiam o salario de poiico mais 
de 267 francos , boje cliegam a ter 400 fr. , 
e ijnando siio iniiilos os alumnos podem to- 
mar ajudanles que teem salario proporcional. 

Escholas da socicdade das arles e officios 
dc Succia. 

Uma socicdade mais importante e nacio- 
lial que todas as preccdenles foi fundada em 
1845 com o tilulo de Suciedadc siieca das 
artes e officios {svcnska sldjdforeningen^ 
Teiido por tiui melliorar a induslria indige- 
iia, um dos meios sem duvida mais efficazes 
era inslituir e suslenlar escholas especiaes , 
em que a classe operatia adquirisse morali- 
dade 5 sciencia e a pratica necessaria aos 
diversos ramos de cada profissao. Desde o l.° 
de Janeiro de 13 IG abriu-se em Slockliolmo 
uma escliola da socicdade sueca das artes e 
officios [svcnska slojd furcningens skola). 
Poi-Uie dado nm programnia puramenle 
teclinico, contendo as seguintcs malerias de 
ensino: calligi'apiiia , arcliiteclura , perspe- 
ctiva, meclianica, deseulio d'omato, pintura, 
nioldar ein barro e em cera, escriptura- 
5ao, contabilidade , aritbmetica , geoinelria 
e liistoria naliiral. 

O tempo d'e.-ludo divide-se em dous cur- 
ses ; o do outono desde o meio d'oulubro ate 
o fim de dezembro, e o da primavera desde 
o principio de Janeiro ale o lim de maio. Em 
cada um d'elles, nao ha inlerrup(;ao no ensino 
que e ao douiingo desde as oito horas da ma- 
riha ate uma liora da tarde, e em cada dia 
da semana das sele lis nove hor-is da tardo, 
O publico R OS alumnos sfio admitlidos as 
lergas e sextas feiras desde a uma hora ale 
:is sete hotas da tarde a visitar as collec(;6es 
da escliola que sc compoem de modelos para 
cada officio, livros e joruaes teclinologicos , 
e de figuras de ge-s» segundo os modelos da 
eschola das bellas artes de Pariz O numero 
de aluuMins que asslslem a cada lijfio sao 
ternio medio cem , pela maior parte pedrei- 
ros, inarceneiros e pinlores. Havia ao prin- 
cipio Ires iiieslres so, e depois cinco. Alem 
d'lito ha no eitabcleciincnlo u:ii sacerdoto para 



cclebrar o officio divine ao doniiiigo ; um bi- 
bJiolliecario, e inestros extraordinarios , cujo 
numero varia conforme o augmeiilo do nu- 
mero dos alumnos. 

O or^amenlo annual das despczas da es- 
chola aiida por 6800 francos, a saber: ao 
director 1600 francos, a cinco me-lres ordi- 
narios , com egual salario cada um , 233G fi. : 
ao sacerdote, ao bibliolhecario, e ao guarda 
da eschola 200 francos a cada um ; o resto 
para mcslres extraordinarios e di'spezas e- 
ventuaes. Paia salisfazer a cstes encargos os 
alumnos a principio pagavaui 4 francos por 
cada curso, e depois fixou-se a reiribuiyao 
em pouco mais d'um franco por mez : aos 
niembros da sooiedade pertence a cota 
annual que pouco excede de .3 francos. O 
cstabelecimento que esta sociedade dirige, 
lem afora donativos que Hie s.'io feitos , um 
subsidio annual de IGOO francos pagos pelo 
cofre dacidade, e deSOO francos pelo cofreda 
classe media; e desde 1843 a indemnisa- 
5ao de 4000 francos, dada pelo estado. 
CoHliniia. 



CREDITO TERR1T0RI.\L.' 

C€st h/i qui aidern Vhomttie 

u maitriser la matiire , a 

CTploitrr le globe et it Vem- 

bcUir (lonr sonpropre usage, 

M. Chevalier. 

1. 

Se ha paiz que , pela amenidade do clima , 
fertilidade do solo e posijuo geographica , pa- 
rega destinado pela Providencia a marchar 
na vanguarda da civilisacao, e de certo o nosso 
abengoado Portugal. E todavia , a quern esta 
bella terra for descripla por suas circums- 
lancias naturaes, nao se alcani^ara fazer-Ihe 
acredilar o estado lastimoao em que a tern 
delxado a incuria dos liomens. 

Percorra quein quizer e piider algumas 
leguas de nossas proviucias, e desde logo se Ihe 
antolhara esse de-gragado conslrasle: atravez 
d'um lerreno difficilmente transilavel , vastos 
campos se enconlram solitaries e sem cultu- 

* Ja por vezes o Tristiliilo se tern occnpado ilesle im- 
porlanle olijecto , coiuo se pu'le \er nas paijiiias U3 , 
'i09 , 365 Jo vol. 1 , e 225 , 227 , 240 , 2-l9 do vol. 11. 
Apezar do asaiimpio ser alii lral;ulo por pessoa lao 
compelenle, como e o di;,'Qo lejile de ec.Miomia pulitifft d;i 
universidade , itisislimos na lualeria, e pur diias razocs. 
A primeira , e nos foruc-ida por aqiielle illuslr.ado ccoiio- 
misla r I. "Ill dos meios de encnrlar a di»lancia que nos 
separa da feliz cpodia em que haja, enlrenos, algiiin ver- 
dadeiio lianco terrilorial .., dizelle, ciconsisle indiiliiiavel- 
inente em fazer coiiheeer com a possivel claieza , ao meiios , 
OS principios fiindaincntaes, a essencia e as vantai;ens deslcs 
estabeiecimenlos , quaes exislem , e desde miiilos annos 
fiinccionam pelo norte da Euiopa. .. A seirunda, se bem 
DOS lembra , e de um poela , Francisco Manoel do N;is- 
cimeiito : 

u T.into bale no prejo o carpintciro , 
Ale <iue melle u'Jma do madeiro. » 



17 



ra, extensad serranias de todo despidas e 
ermas d'arvoredos, miseraveis povoa(,oes de 
longe em longe. Entre no defumado alber- 
giie do lavrador ; observe-n em sea Iraba- 
Iho; inquira que resultado lira, em fim , de 
tanto traballiar e amesquinhar-se. Alii sim , 
nao ju era dourados saloes de I'olguedos 
cortezfios, pode qualqiier descobrir objectos 
dignoj da maior solicitude. 

Debalde collocaria Dens um povo em solo 
favorecido , se Ihe nao coticedesse a faciildade 
de crear as circuiiistancias que coiilribuem 
para o augmento da forga productiva da 
sociedade. A falta de comruunicagoes — 
estradas, canaes, e vias ferreas, torna en- 
tre nos difficil, se nao algumas vezes impos- 
sivel , o transporte dos objdctos , donde 
se produzem, para onde se consumam , para 
onde se vendani por bom prego ; e per i^so 
muitas industrias nao nascera , muitas dei- 
xani de prosperar e morrem — ninguem pro- 
duz so por produzir, senfio para que t.eus 
productos sejam consumidos. 

A ignorancia dos principios e practicas mais 
proficuasda agrononiiae lechnologia, ignoran- 
cia generalisada em nosso paiz, onde se nao 
encontrani estabelecimentos proprios , e em 
uumero sufficiente, para diffundjr a educag-io 
professional, escliolas e quintas exeraplares 
verdadeiras, e nao fingidas, como isso que 
cliamaram Institulo agricola, 6 ontra causa 
nao menos ponderosa do atraso em que ve- 
mos a agricuUura era Portugal; porqiie o 
primeiro e mais efficaz meio de augmentar a 
potencia da producgaoe, sem duvida, formar 
productores , preparar a tempo para este 
desliiio as novas gerajoes. 

Um proprietario agricola, separado dos 
tnercados por obstaculos invenciveis, nao 
possuindo oulra soiencia, senfio a que rece- 
beu, por Iradigao, deseus avos, como que se 
esposoucom a terra, e nao compreliendeoutro 
viver, senao junto daquella consorte que llie 
pede extreiiiosos sacrificjos. Necesslta de di- 
rlieirojpara comprar uraa lierdade que, unida 
s'l sua, llie proporciona cultura mais lucrati- 
va; necessita de dinheiro para o amanlio das 
fazendas que possue; necessila de dinheiro 
para comprar instrumentos aperfei^oados , 
para tudo; porque nao lem mais do que a 
sua intelligencia, os sens bragos , e um solo 
que, por mais fertil que seja , nao da ao ho- 
mem o alimento que o nutre, senao depois 
de regado por elle com o suor de sen rosto. 

O proprietario dirige-se ao capitaljsta, pe- 
de-llie emprestado o capital de que necessita, 
offerece-Ihe em liypotheca as terras que pos- 
sue, promette pagar-lhe com o rendimento 
que dellas liouver. Mas o capitalista mette 
em calculo a pouca seguranga do penhor 
offerecido, a longa distancia da epocha em 
que a divida ha de solver-se — recusa o em- 
prestimo, ou exige premio superior ao que 
pode pagar a industria agricola. 
E o capitaliita lem razao. A nossa legisla- 



5ao hypothecaria , a mais defeiliiosa, a mais 
embaragada de quantas legislagoes existem , 
d'envolta com a confusao de direitos que se 
cruzam sobre a propriedade, da em resultado 
o que Mr Dupin attnbue a me^ma le"-isia- 
5ao em Franga:— quem compra nao lem 
certeza de ser proprietario, quem empresta 
sobre liypotliecas , nao sabe se tornaia a ha- 
ver oseu capital. Por outrolado, os capitaes 
emprestados A industria agricola empregam-se 
em terras, instrumentos uratorios, construc- 
goes ruraes, plantagoes, etc., e esabido que 
OS capitaes assim despendidos, quando nao 
fleam para sempre cnlerrados no solo que 
mellioraram, so volvem mui tarde a mao 
do proprietario: a consequencia , e que o 
capitalista nao pode ser reembolgado se nao 
passados muilos annos, e no entanlo podem- 
se-liie olTerecer negocios mais lucrativos , pode 
a hypotheca deteriorar-se , ja por causas natu- 
raes, como aluvioes , incendios, molestias 
de plantas, ja pela acgfio das leis civis, jd 
por negligencia do mesmo proprietario. 

Alii teinos pois o proprietario collocado 
neste terrivel dilemma: aceitar as condigoes 
impostas pelo capitalista — sujeitar-se a um 
jiiro que transcende o rendimento do capital 
mutuado, e que , por isso, tem de ser pago, 
a final , com a venda da hypotheca ; ou enlao 
abandonar a industria agricola — vender as 
terras por esse pouco que Ihe possam dar por 
ellas, emigrar para os infectos pantanos de 
Demerara, ou para a California. E tomando 
um ou outro parlido vae caminho damiseria. 

Como sahir d'este estado de tristissima 
desesperanga em que vemos a primeira das 
nossas industrias? Cremos, e asciencia ocon- 
firma, que se chegar a organisar-se entre nos 
o credito territorial , raiarao para a agricultura 
dias mais felizes. O credito territorial de- 
pende, t verdade, de todas as circumstan- 
cias que elevara o valor das terras e de seus 
productos, mas lambem e cerlo quo o me- 
Ihoramento da cultura e a exislencia de 
todas estas circumstancias dependem do cre- 
dito territorial. Desenvolvendo este pensa- 
menlo, uniremos o quadro dos males que 
sotfremos ao dos bens a que podemos e devemos 
aspirar. 

Continia. jacintho a. de SOUZA. 



AS MEZAS GYRA.VTES . 

CONSIDERADAS NAS SDAS BELAQUES COII A UECAKICA 
E COM A PUYSIOLOGIA. 

Conliauado de pa^. 289. 

Uma questao importante que conviria exa- 
minar experimentalmenle, seria indagar ate 
que ponto o contacto dos dedos dos diversos 
operadores se torna necessario para estabe- 
lecer aconcordancia das acgoes, que determi- 
na o resultado final. A vontade , expressa ou 



18 



tacila de tim oii de muitos operadores, sera 
ba&tante para inverter o sentido do movi- 
menlo, on para decidir dos movimenlos con- 
cordanles nosorgaos dos que cooperam para a 
experiencia? Uiii ligeiro impiiho em sentido 
contrario do movimento eilabelecido bastara 
para alcan^ar que todosos orgfios , que assen- 
taiii naiiieza, niudeni o sentido da sua acfao ? 
Quando se opcram movimenlos de balan^o 
para cima e para baixo, como e que a von- 
lade de um pequeno numero de operadores, 
ou mcsiiio a de um so, arrasla a de lodes os 
oiilros? limvirUide dasindica^oes dadas pelo 
movimento das mezas, tern sido reproduzi- 
das lodas as hypotheses que se lem feito para 
explicar as adiviuhajoes ou pretendidas advi- 
nliacoes magnelicas. E com edeilo por este 
modo parece que os phenomenos das influen- 
cias nervosas devem prestar-se melhor, por 
mais destacados, a verificajfio dos factos pos- 
siveis. O proprio facto fundamental, isto e, 
a grande energia dos movinientos nascenles, 
quer voluntaries , quer inseiisiveis , e muito 
curioso; e ao passo que parece explicar quan- 
lo pode ler explica^ao no pheiiomeno geral, 
serve tambem para confirinar tudo o que jii 
erasabido pela mechaiiica epela physiologia. 
Aiguns espiritos muito sensatos cnlendiam 
que, em logar de causar admira^ao que a 
imposiij'ao das mfios produzisse movimento, 
o que muito deveria admirar, seriam os 
casos, se por ventura existissem , em que 
orgaos essencialmente nioveis communicas- 
sem , por assim dizer, o repouso. A esses 
responderemos , que a questfio nfio esta em 
saber poique razao se prodiiz o movimento, 
mas sim eui saber como esse movimento se 
transmilte dos orgaos aos corpos moveis. 

Dissemos acinia , que iiaviamos de exami- 
nar a ctlebre queslao do movimento conside- 
rado na sua producjao e na suaduragao, e 
tambem a que Ihe esta ligada, do movimen- 
to perpetuo. £ assim como nos nao e possi- 
vel admiltir nada que conlrarie a logica no 
niundo das ideas, laml)em nada admiltire- 
mos que conlrarie a experiencia no mundo 
material. Vejamos pois o que nos diz a scien- 
cia experimental. 

'lOdosoi corpos , toda a substancia material 
nao pode por si so dar nem tirar a si mesma 
o movimento, Os corpos so podem ganhar 
ou perder velocidade, rccebendo movimento 
dos corpos estranhos , ou communicando-llies 
lima parte do sen. A somma total do movi- 
mento que existe no mundo e invariavel, por 
isso que um ser material qualquer nao pode 
augmcnlar o sen movimento senao a custa 
dos corpos que o rodeam , nem l.'io pouco 
perdel-o sem o reslituir aos corpos sobre que 
icage. Se vemos na terra , que todos os mo- 
vimentos abandonados a si mesmos param 
promptamenle; e porque a communica^ao 
do movimento ao ar ainbiente, aosapoios, e 
piincipalmcnle aos objectos que se elaboram 
ou afeijoam , roubara continuamente uma 



parte do movimento que exislia nocorpo, 
e estas perdas fazem com que elle pare bem 
dopressa. Nos espa^os celestes, em que os 
astros nao encoiitram obstaculo algum e on- 
de por isso n'lo lem logar estas perdas , os 
movimenlos perpetuam-se indefmidamente. 
Eslii lao fora do poder do homcm o crear 
movimento sem for^a , como o tirar corpos 
materiaes do nada. Uma velocidade de um 
metro por segundo e t.'io impossivel de dar a 
uma bigorna de quinhentos kilogrammas, 
sem que se Ihe cliegue , como o de fazer 
nascer a mesma bigorna sem ler excavado a 
terra e reduzido o mineral a ferro. 

D'aqui podemos conciuir que e impossivel 
o movimento perpetuo, visto que ha sempre 
perda de movimento para os corpos terrestres 
que se movern alravez de mil obstaculos, e 
que nada lem em si que Ihes restitua as per- 
das que vao soffrendo. 

Apprendarnos pois da experiencia a distin- 
guir o possivel do impossivel , e so depois 
desla apreiidizagem indispensavel poderemos 
raclocinar com segurani,a sobre os factos 
physicos que se nos apresentnm. A these 
contraria serj'a, que, para raciocinar sobre 
certa ordem d'ideas, cumpriria ser-lhes com- 
plelamenle estranho. E em conforniidade com 
isso tornar-se-hiam os cegos os juizes natu- 
raes da pinlura, os surdos da musica, e as 
liibus antropophagas da humanidade! 

O que vemos nos no desenvolvjmenlo das 
for(;as meclianicas? Da-se acaso um unico 
exemplo de movimento produzido, sem uma 
forya que obre exteriormente? O liomein , 
reduzido ao principio unicamente ao seu tra- 
bailio proprio, so ii forga de bra^os oblern 
algutna cousa da terra. Nao e pelo pensa- 
rnento que elle domina os seres materiaes. 
Majs tarde toma por auxiliares os animaes 
domesticos, e lavra com o l)oi , com o caval- 
lo ou com o burro. Sempre molores physicos 
para os trabalhos physicos! Mais tarde ainda 
a sua induslria Ihe submette as for^as da na- 
tureza, a agua , o ar e o fogo. As palhelas 
das lodas hydaulicas , e o emprego multi- 
plicado da queda das aguas Uie permille fa- 
zer Irabalnar o regalo , o ribeiro e o rin. Ar- 
mazena e uliliza a ac^ao dos venlos nas azas 
maravilhosas do moinlio de vento, e nas velas 
mais inimeusas dos navios. Com o fogo, for- 
ja , fiinde, desenlerra os melaes escondidos, 
e cozinhando os alimentos os torna sadios. 
Finalmente, quasi nns nossos dias, pede o 
seu concurso n)eclianico aos agenles artifi- 
ciaes que a sciencia lem descolierto , e dos 
quaes ella lem estudado as propriedades , e 
quasi que diriamos os costumes. 

Vira um dia em que ha de ser jiilgado 
como uma vergonha para a humanidade, 
que a polvora, a primeira desroberla d'esles 
agentes maravilliosos, tivesse a principal ap- 
plica^ao nos campos das balallias, e que o 
homem cuidasse primeiro que tudo em pedir 
aos poderes arlificiaes os meios de deslruir o 



19 



homem. Para fixarmos as ideas do leitor, 
como ale aqui temos feito, e a fini de preci- 
sar OS faclos, diretnos que, para realisar o 
csforjo mechanico que a explosao exerce 
sobre uma bala de 12 kilogrammas n'uma 
pe^a de calibre 21, carregada com 8 kilo- 
grammas de polvora e pesando 2:700 kilo- 
grammas, lal como 03 que se trazem para a 
borda dos fossos n'uma pra^a siliada, seri'a 
mister o Irabalho alurado de um cavallo por 
duas horas , ou o de um homem por oito 
horas. Ora este elTeito prodigioso produz-se 
quasi momenlaneamente. E para fazer com- 
prehender as despesas que traz comsigo a 
guerra, bastara dizer, que uma pe(;a de 24, 
com OS seus 2:700 kilogrammas de bronze, 
nao pode dar mais de cem liros, sem que 
fique incapaz de servir, e que no momeiito 
em quo da o primeiro tiro, tem cuslado ao 
estado 10 a 11:000 francos. 

Que fazeis vos de novo , snr. Watt? per- 
gunlava Jorge ill ao inventor da maquina 
de vapor iiSenhor, fa^o uma cousa muilo 
agradavel aos reis, um poder. u A palavra 
ingleza power, que significa lanlo um poder 
politico como uma forga mechanica, presta- 
va-se mellior a este jogo de palavra?. Watt 
poderia ler dito que o novo poder que dava 
a sociedade, era ainda mais agradavel aos 
povos do que o dominio aos reis. Estamos 
ouvindo ja as reclamagoes dos que nos gri- 
tam , que a maquina de vapor nao fora in- 
ventada por VVatt. Convimos; e para satis- 
fac5;1o de todos, diremos que depois de Watt 
a sociedade ficou de posse de uma operaria 
universal, que faz com que os navios atra- 
vessem o Oceano, que lece rendas, e que, 
na Inglaterra e na Belgica , exige apenas 
um franco de carvao para o traballio de vin- 
te dias de um operario ; mas que antes de 
Watt nada disto existia para auxilio da in- 
dustria, E ja que se nos appresenta a occasi.'io , 
eonviremos lainbem que antes de Chrislovam 
Colombo se tinlia , no papel ou por lingua 
de pliilnsophos, indicado o Novo-Mundo. 
Mas so di'pois de Cliristovao Colombo e que 
esse niundo foi devassado. Muitas vezes pro- 
feriu Ar.Tgo na iribuna franceza o nocne de 
Mr. Seguin , que fez correr as locotnolivas, 
cujo bello meclianismo , entao inefficaz, ja 
era devido a Stephenson. Ao sair d'uma das 
sessocs, reclamava-se na minha presen^-a 
contra a asserjao do sabio depulado. « Accei- 
to a condemnagao , respondeu elle; mas con- 
vinde commigo, que antes de Mr. Seguin se 
gaslavam nilo a dez horas para andar o ca- 
niinho de Versailles, ida e volta, quando se 
nao gastava mais, e que depois delle se anda 
indtfiniddmente um kilomeiro por minuto. « 
IS'ao e por ventura devido a Ampere o tele- 
grapho electrico, a pezar de todos os traba- 
Jhos anteriores de Volta, d'Qilrsled, emesmo 
dos ensajos de Lesage com a electricidade 
ordinaria? Aquelles que querem depreciar 
o merecimento dos trabalhos modernos com 



injuslas recIamaQoes , lembraremos o dilo 
tao espirituoso como profundo do nosso sabio 
academico Mr. Biot: » Nas sciencias, nada 
ha tao simples como o que se achou hontem , 
nem tfio diificil com o que ha de achar-se a 
manh.i. « 

Continua, 



GERACOES ESPONTANEAS. 

Cootinuado lie pa;. 292, 

O ar que respiramos, e as substancias ali- 
mentares que inlroduzimos no estoroago ja- 
mais se podem considerar como vehiculos 
que transporlem os enlozoarios para o inte- 
rior dos individuos. 

No caso contrario fora mister admitlir a 
exislencia dos enlozoarios ou dos sens ger- 
mes na almosphera ; porem e o que se nao 
pode eonceder, porque os enlozoarios mor- 
reriain logo que se achassem no lluido gazoso 
que respiramos. Alem deque, devendo esles 
atiimalculos, por sua propria naUireza come^ar 
a exislir no interior d'um iiidividuo , nfio 
podiam transmitlir-se para outro que viv(! 
vida extra-ulerina , por inlerinedio do ar, se 
nao fossem para este arrojados por secre^oes 
e expiragfio. Mas basla retleclir no modo 
porque se opera a nulri^ao, na distribui^ao 
dos vasos sanguineos nos orgaos secrelores e 
vesiculas pulmonares, para ver a impossibi- 
lidade de invocar os actos secrelores e expi- 
radores como causa da supposta exislencia 
de germes na almosphera. 

Vencida esla diPficuldade era necessario 
que OS germes se misturassem com o san- 
gue durante o processo da hemalose : mas 
como fazer lal mislura, n.'io se dando conla- 
clo innnedialo enlre o liquido que leva a 
nutrig.'io e a vida a todos os orgaos, e o llui- 
do que llie da esla propriedade vivificanle? 
Como se dara este plienomeno se as ultimas 
ramificajoes bronchicas que formam as vesi- 
culas pulmonares, e em cujas paredes ser- 
peam os capillares sanguineos nao sao per- 
meaveis senao por corpos gazosos , e mui dif- 
ficilmenle por corpos no estado de liquidezf 

O leile de que o infante a printipio se 
nulre , nao pode egualmenle ser conductor de 
germes ou de animalcules, porque e o resul- 
lado d'uma secrejao, e n.'io de cliylo que 
veulia directamenle do canal ihoracico aos 
peitos, por via dos vasos lymphaticos, como 
queriam alguns, contra ludo o que a ana- 
lomia nioslra. Nos orgfios deslinados as se- 
crejoes, os vasos sanguineos nao se abreni 
nos ductos secrelores, e apenas se distribueiii 
nas suas paredes: d'aqui nasce pois a difli- 
culdade de os enlozoarios ou os seus germes 
se juularem ao leite, e percorrerem os con- 



20 



(luctos excretores conhecidos pplo nome de 
lacliferos on galaclophoros. 

Dejjois que o novo individuo cessa de se 
alimentar com leite, a considera^fio de que 
o« animaes lierbivoroa conteem entozoari- 
os , e cada animal os sous proprios, seria 
siifficiente para destriiir a hypolliese da in- 
trodiiCQao dos cnlozoarios, on dos sens f;er- 
rnes pelas vias dij^oalivas ; porque no primeiro 
caso era necessario que as plantas os conti- 
vessem , no segundo era preciso que rada 
iinimal sg nntrisse da came do sen semellian- 
te. Os vasos cliyliteros casiialmente descober- 
tos em ]G22 por tiaspar de Azelli liaviam de 
ser necessarinmenle os condnctores por onde 
OS germes dos erilozoarios seriam levados u 
corienle circulatoria , depots de ingeridos no 
estomago e lerem passado ao intestino del- 
j^ado ; mas as extremidades d'estes vasos sfio 
fechadas , como o provani as observagoes de 
Schwan, Foliman e Midler contra a opini.'io 
d'Azelli, Lieberkuhn, Hewson, Cruiksliank, 
Meckel e Hedwig. Ja se ve pois a grande 
difficnidade que os ovos dos entozoarios te- 
I'iam em penetrar para dentro d'estes vasos, 
quando alguns pliysiologistas poem ate em 
(liivida que os globulos cliylosos entrem ja 
i'ormados , e sendo estes qiiatro vezes me- 
nores que os do sangue, sfio incompara- 
velniente inferiores era grandeza aos germes 
dos entozoarios. O peqneno calibre dos vasos 
lacteos e tanibem um obstaculo a sua intro- 
ducgao pelas via" drgestivas. 

lixcliiidos assim todos os meios d'origem e 
conducgfio dos entozoarios, ou dos sens ger- 
mes para os diversos animaes, nao nos resta 
senao consideral-os como producto d'uma 
geragfio espontanea , e altribuir o sen appa- 
reciinento d plasticidade organica dos liqui- 
dos segregados e elaborados nos tecidos , e lis 
inu langas na nalureza cliimica d'estes liqui- 
dos resultantus, ou d'atrecgoes moraes segundo 
Brera, ou do seu estado morbido , como foi 
observado por Leuwenboek, que diz nao ter 
visto entozoarios no muco intestinal , senfio 
no caso d'utna phlegmasia no tiibo digestivo. 

Os infiisorios sao os outros animalcules 
ciija existencia vem apoiar as geragoes rspon- 
laneas, ou na phrase de Raspail as forma- 
roes organicas resultantes da combinajao 
d'influencias orgunisadoias. 

Para admiltir as geragoes espontaneas dos 
infusorios nao invocaremos , como alguns 
teem feito , os phenomenos observados na sua 
j)rodui(,'flo , durante a qual se descobrem em 
primeiro logar corpusculos globulosos , hya- 
iinos, niovendo-se lentamente em spiral, to- 
mando depois , ja a direcyfio circular , ja a re- 
eta, reunmdo-se imalmente para forrnar ani- 
inalculos dotados de movimento total, listas 
metamorphoses, que teem sido consideradas 
como prova inconcussa das gera^oes esponta- 
neas dos infusorios, nao o sa.o na realidade , 
porque ha animaes que evidentemente pro- 
vcm d'ovos, e que experimenlam metamor- 



phoses mui notaveis antes do seu complete 
desenvolvimenlo. Oulras considera(;oes porem 
nos levaram aconcluir, que o apparecimento 
dos infusorios esta debai.xo do dominio da 
heterogenia. 

Agua, materia organica, p i:m fluido ela- 
slico, sao as condigoos essenoiaes para o de- 
senvolvimenlo dos infusorios. 

A presenga d'um fluido elastico e uma 
das condi(;oes rnais necessarias para o seu ap- 
parecimento. Spallanzani fazia experiencias 
no vacuo e nada ol)tinha. Wisberg cobria o 
liquido com uma camada oleo.'a, e o resul. 
tado era o mesmo. 

A variag.io de qualquer d'estas circums- 
tancias importa variedade no resultado, como 
o provani as experiencias de Spallanzani e 
Terechovsby ; a propria luz e o calor nao 
deixani lambem de ter algunia influencia, 
sendo a teinperatura mais favoravel , a de 31 
a 3d grans do ihermometro centigrado. 

A mulliplicidade de produclos que resul- 
lam da [iiudan<,'a de coudigoes, e um argu- 
menio a favor das gera<;oes espontaneas dos 
infusorios; porque se elles devessem a sua 
origem a ovos, a qualquer teraperatura e 
com qualquer infusao se deveriam desenvol- 
ver 03 mesmos animalculos, porque os ovos 
eram os mesmos. 

Nem so diga que as diversas circumstan« 
cias favoreceni o desenvolvimento d'alguns 
germes, e retardam ou impedem a evolu5rio 
d'outros; porque entao era necessario admil- 
tir em toda a parte a existencia d'ovos de to- 
dos OS infusorios, ja que a variedade de pro- 
ducto e so dependente dos tres elementos ha 
pouco mencionados, e nunca do local onde 
se opera. 

limpregando agua distiUada, sujeitando 
a infusao a uma temperalura a que os ovos 
dos animaes nao podem resistir ou perdem a 
faculdade de se desenvol verem , subslituin- 
do , como fizeram liurdacb , Ba'T, etc., o ar 
atmospherico por gazes extemporaneamente 
preparados, teinos tirado a possibilidade da 
existencia de germes dos infusorios , e mostra- 
do que o seu desenvolvimento e devido as 
geragoes espontaneas. 

JIa animaes, diz Cabanis, que parecem 
fdlios da arte ; os vermes proprios do vinagre, 
a traja doslivros, datam da existencia d'estes 
productos da indu^tria humana. Ora a sup- 
por-se a preexistencia d'ovos devia tambem: 
admittir-se a de entes que fossem os seus 
geradores, e que se asscmelhassem aos novos 
individuos, e enl.HO deveriam estes animaes 
ser necessariamente conhecidos antes d'aquel- 
les productos. 

A resurreigao dos infusorios a que alguns 
recorrem , e deslituida de todo o fundamen- 
to. Que OS infusorios ja existiam seccos na 
atmosphera , que eram transportados pelos 
ventos a diversos logares, e que reviviam 
pela sua immersao naagua, tal era a opiniao 
d'alguns que combatiam as geragoes espon- 



21 



taneas dos infusoiios : opiniao inadmissivel 
se altendermos a que a experiencia e feita 
orditiarianiente em vasos tapados, que era 
preciso que em lodos os logares existisiem 
todos OS generos d'infusorios n'esto e.-lado 
d'exsicarao , e que a agua reaniuiaudo quasi 
immedialanieiUe os animaes a que a cxsica- 
•jfio de seus tluidos suspendeu a vida, nfio 
iaria outro tauto ao5 infusorioi, que pela 
maior parte apparecem so vinle e qualro 
lioras , e as vezes depois de alguns dias d'iu- 
fiisilo. 

As expcriencias de Gruitliuisen que do 
granito posto em agua vio desenvolver enles 
organisados que toinavara a forma aiiimid 
ou vegetal, segundo a proporffio de liquido e 
solido emprcgados; as observagops de Cross 
sobre a forma^ao do acarus horridiis , e as de 
Macliay sobre a metamorphose d'uma plaiila 
n'um inseclo, e d'este oulra vez na mesma 
plania ; vieram levantar o veo mysterioso que 
cncubria as gera^oes espontaneas, e coulir- 
mar mais a opiuiao, que no estado actual 
nao podemos dcixar de as admillir, poslo 
que limitadas a infima especie de seres. 

A lieterogenia estende o seu doniinio ao 
reino vegetal. Ahi vemos o dactilium desen- 
volver-se n'uma gemma d ovo , cuja casca se 
ooiiservava intacta; ascoufervas formarem-se 
n'uma solujao de clilorureto de baryo em 
agua distillada, e conservada por espago de 
seis mezes em frascosesmerilados; os I'llamen- 
tos confervoides tomarem origem em pouco 
tempo na agua de Sedlitz artificial ; vemos 
fmaimenle as materias organicas amorplias — 
glerina, e bardgina, etc., contidas nas aguas 
lliermaes, organisarem-se pouco tempo depois 
do arrefecimento das raesmas aguas. 

F. a.'alves. 



MAUCAS TVPOGRAPHICAS. 



As marcas typographicas sao para a biblio- 
grapliia o mesmo que o brasfio para a histo- 
rla; servem para discriminar e conhecer o 
verdadeiio editor de certos livros, que mujtas 
vezes iiao offerecem outro iudiclo a. cerca de 
sua origem, e tambem para evitar a falsifi- 
oac'io estrangeira. Tacs symbolos teem alem 
d'isto um iiiteresse proprio para merecer a 
atteny'io dos arclieologos e artistas. 

O anno passado comeijou L. — C. Silvestre 
a publicar em Pariz uma coUecjao de moiio- 
grammas, lypos, caracteres, signaes, embie- 
inas , vinlietas e tloroes dos livreiros e impres- 
sores fraucezes, ou dos impressores de livros 
Jiancezes em paizes e^trangeiros , desde 1470 
ate o fun do seculo XVI. Esta collec^ao cujas 
gravuras sao abertas em pau , deve conslar 
do seis ou sctc niimeros, de que ju estuo im- 



presses Ires, contendo 272 marcas differen- 
tes, e terminar com diversas taboas que deem 
u obra nexo e unidade. 

A natureza e condi^oes d'uma obra em que 
ja nao e pouco serem as figuras re|)roduzida3 
com exaclidfio, faz todavia com que seja 
inevilavel, sequer provisoriamente, tal ou 
qual desordem. O editor limita-se por isso a 
empregar uina serie contiuua de numeros 
d ordem , que servira depois para dirigir na 
classificagfio , e apresenta n'estes fac-similes 
numerados os nomes dos impressores a quem 
cada uma das marcas reproduzidas pertence, 
repetiiido o numero d'ordem e ajuntando-Ihe 
as datas extremas, assim como o Ingar onde 
exerciam o officio de livreiro ou iiiipressor. 

Vallot de Viiiville faz a semclliante pro- 
posito as seguintps observajoes que nos pare- 
cem opporlunas e uteis. 

" A collecjao em vez de comegar em lt70 
que corresponde a inlroducgfio da imprensa 
em Franga, seria meUior que remontasse a 
Gutemberg e lis primeiras marcas typogra- 
pliicas conliecidas. E isto so nao bastaria, 
por quanto segundo as no^oes coUigidas pelos 
bibliograplios, o verdadeiro progresso d'este 
ramo da liisloria lilteraria depende principal- 
mente do estudo minucioso e coinparativo 
dos caracteres, letras e outros signaes typo- 
graphicos usados desde Gutemberg e talvez 
antes por seus emulos, discipulos e successo- 
res mais proximos. 

« Uma coileccao de fac-similes pouco ex- 
teiisa para cada um , mas escolliida e o mais 
numerosa possivel , lirados das reliquias do 
comedo da imprensa dispersas em varios poii- 
tos da iiuropa, seria certamente a base'd'e- 
sludoi muito instructivos, e um bom servi^o 
prestado aerudiyfio. Mas a arte xyiograpliica 
nao faz reproduzir os caracteres com a jjer- 
leigfio necessaria , e somente a pliotograpliia 
poderia reptesentar exaclaiiiente todas as de- 
licadezas e circumslancias de tal geuero dim- 
pressoes. 

A coileccao de marcas typographicas que 
esta publicando L. — C. Sdve'^tre, e obras 
analogas que forem apparecendo, muito con- 
viria que se mandassem vir para os nossos 
ebtabelecimeritos piiucipaes, a imprensa da 
uiiiversidade deCoimbra e a nacional de Lis- 
bon, nao so para o fan indicado por Vallet 
de Viriville', senao tambem para forinar o 
bom gosto ecomplelar ainslrucgao dos respe- 
ctivos artistas pelo conhecimenlo e aprecia- 
fao d'obras technicas por assiin dizer clas- 
sicas. 



NOMES E TITLLOS MUSULMANOS. 

D'uma memoria lida recentemente por 
Garcin de Tassy li academia de J''ran<,'a ex- 
tialiirnos as seguintcs particularidades que 



22 



Cite sabio orientalista rcfere a cerca dos nomes 
proprios , on alamj sobrenomes , ou knni/nlj 
appellidoi c tiluloj honoriticcs, lacab c khi- 
tdb; nomes de rela^fio, nisbal • nomes il<' 
fuiic(;oe3, mansnb • e linalmentc sobrenomes 
poelicos takliaUiis. 

Os primeiros ^^lo prenomcs e nomes do 
Santos; n'eslo senlido empre^ara-se os nomes 
de jMaliomet e dos principaos mcmbros de 
sua familia, bem couio os dos proplietas do 
aiitigo o novo Toslamento. Os segundos sao 
sobrenotnes sjeralmerUe compostos da palavra 
Abu pai , de Ibn fillios, c d'lim nome pio- 
prio como ,/lbii,-Yac>ib pai de Jacob, on 
Ibn-Yacuh fdlios de Jacob. 

Os lacab ou appellidos sao quasi sempre 
tilulos de bonra, e compostos de diias paia- 
vras sendo a ultima din rellgiao, diinlat 
imperio, mulk reino, islam maliometismo : 
eomo rnw-uddin luz da religifio, scliujd- 
uddanlat for^a do imperio , j/«/((<-u/-/;iu/;!- 
esplendor do reino, iaif-id-islam espada do 
islam. 

Os cognomes de rela§ao indicqm origem , 
qualidade, paiz, tribii , escliola, clientela, 
etc.: taes sao Ffj^iHi^' descendentes de Fatlii- 
mit ou Fatliema fillia de Mahomet, Misri 
egypcios, jMdliki escliola de Malik, Saadi 
do Saad. Os nomes de funcgoes offereeem 
uma nomenclatura assaz curiosa e digna 
d'estudar-se para formar idea dos costumes e 
crengas musulmanas. 

Finalmente a adopjao de sobrenomes poe- 
ticos provem de costumarem os musulmanos 
nomear-se em suas poesias , em que por cau- 
sa do riiyllimo precisam tomar sobrenomes 
de pliantasia , os quaes depois os lornam co- 
nliecidos no mundo lilterario. 



COLORACAO DAS AGUAS DO MAR 
DA CHINA. 



As observagoes de Ehrenljerg e as mais re- 
centes de Evenor Dupont c Montagne moslra- 
ram que as aguas do mar Verineliio teem em 
certas epoclias a cor rubra pelo copioso de- 
senvolvimenlo d'algas microscopicas d'uma 
especie que o primeiro d'estes sabios descre- 
veu dando-ihe o nome de trychodesmiinn 
crythrixuui. 

Assim que, seriam explicadas como logo 
se julgou numerosas coloragoes accidenlaes 
das aguas do mar, parecendo que a obser- 
vagfio e descripe'io dc semelliantes phenome- 
nos tornar-se-hia mais frequente desde que 
OS natural iatas demoslraram sua importancia 
scientifica. 

Observdra Molllen que o mar da China 
estava em grande extensao Colorado d'ama- 



rello e rubro, e que a coloragrio nao era 
continua, mas em porgocs separadas uinas 
das outras por intervallos transparcntes. A 
cor rubra predomina na parte do mar mais 
ospecil'icamente chamado da China (^JS[an- 
Wai) , e que banlia as rostas da parte meri- 
dional da China ao sul da iiha Formosa ; e a 
cur amarella ao norte da iIha na parte do 
njar designado pelo nome de mar Amarello 
{llong-Hai.') 

Como a causa do phenomeno eia incognita 
para MoUien , trouxe para Franga alguma 
d'esla agua tirada, donde o mar estava rubro 
no mez de sotemliro ultimo , a qual foi analy- 
sada por CamJIle Darestc. A agua tluha de- 
positado um limo pardo, que submctlido a 
ob^ervajiio microscopica reconheceu-se nfio 
conler particnlas terrosas, e ser unicamcnte 
formado pela agglomeraguo de pequenas algas 
quasi microscopicas e jd alteradas , mas per- 
tencendo a mestna especie descoberta por 
Ehreiiberg no mar Vermelho , cuja identidade 
foi tambem confirmada novamcnte por Mon- 
tague, que poucos annos antes tiuha rcccbido 
de Ceyldo a mesma alga enviada por Thwai, 
tes. 

O tri/chodesmium cri/lhrojum encontra-se 
pois em quasi todo o mar do sul desde 
Africa ale li, China, e e uma das plantas mi- 
croscopicas que occupam a mais larga super- 
ficie do globo. 

Tal e evidentcmente a causa da colora- 
gao rubra; mas por venlura serd tambera da 
amarella que se ve, principalraente ao norte 
da iIha Formosa? Para quem conhece a va- 
riabilidade da cor das algas, o facto deve 
parecer possivel. 

Outro phenomeno mui nolavel fora obscr- 
vado em Sliangai a 15 de margo de 1846 
pelo doutor Bellott cirurgiao da marinha real 
ingleza. 

Pelo espago de dezasete horas liouve cUuva 
de p6 , dando-se a coincidencia d'estar sobrc 
o horisonte uma nuvem que pelos calculos de 
Piddington director do niuseu de geologia 
economica de Bengala , devia occupar a ex- 
tetisao de 3825 milhas quadradas. Segiuido as 
suas observagoes chymicas e microscopicas o 
p6 era formado d'area quartzosa mui fina, 
misturada com filamentos de natureza orga- 
nica, apresentando os caracteres de confer- 
vas , c impregnados de sal de soda. Em 
quanto durou o phenomeno o vento soprava 
de nordeste, isto e' do mar-alto, donde vi- 
iiham de certo pequenas algas envolvidas 
n'cste p6, como indicam o sal de soda, pro- 
vavelfnente chlorureto de sodium , e a area 
quartzosa que abunda tanto no fundo do 
mar Amarello. 

Para decidir ainda assim se as confervas 
de Piddington pertencern a mesmaa especie 
de algas acima referida, serao necessarias 
observagoes mais complctas feitas por na- 
turalislas que tenliam occasiao d'explorar os 
mares da China. 



23 



DOCUMENTOS INEDITOS. 



Carta que o viso-rei D. Joi'o de Castro escreveo a 
el-rei vos90 senhor o anno de 46 (15-1(>). 



Contiouado de pa;. II. 

E ao tempo que levava em men regimento , 
se foi com sua armada ajuntar comigo a illia 
dos mortos , onde eu ja tmlia recolliido toda 
a riiinlia armada; e ao proprio dia, que clie- 
gou , me fiz li vella, e t'ui surgir u visla da 
fortaleza de Dio, o que deu grande alegria 
aos nossos, e poz grande tristcza iios mouros. 
E logo a noule seg.iinte veio tor comigo Lou- 
ren^'o Pires de Tavora , capitfio mor das luios 
da carreira, o qual, tanto que cliegou a Co- 
cliim, e soubc do grande traballio, em que 
Dio estava, e como cu caminliava para laa , 
se meteo em liu catur, e com a inaior diii- 
gencia, que se nunqua vio, veio em minlia 
busca; pera participar de tamanlio perigo, e 
servir V. a. em Jornada lao importante. Em 
grande cstrenio me lez ledo sua cheguada , 
polo muilo que cspcrava de me aproveltar de 
seu consellio, eesforjo , como se vjo ao diante. 
E logo ao outro dia me fiz a vclla , e fui sor- 
gir de fora da barra de Dio em lugar acos- 
tuinado, c comecei a mandar desembarquar 
a gente, e pratiquei com o capitfio dom Joao 
JMascliarenlias , e com todolos outros capitaes 
de miniia armada sol^re o luguar, e modo 
de minlia desembarca^ao : no que ouve tan- 
tas duvidas, e tao diversos pareceres, como 
nos semelliantes casos soe acontecer ; porque 
a lius parecia dever eu desembarcar em liiia 
praya , que eslaa no baluarte cliamado de 
Diogo Lopes de Sequeira; e a outros pa- 
recia, que em hija ponte de entulho , que 
OS mouros fizerao, com que alravessavao o 
rio; e a outros, que denlro na fortaleza. 
Todavia veiicco a parte dos que tinliao o 
parecerde desembarquar na fortaleza, no quai 
ensistia muilo dom Jo;io JMascliarenlias. 

Como isto foi ordenado, ordenei de dar a 
entender aos mouros, que queria deseinbar- 
car polios lugares, per onde jii linha assen- 
tado de o nao fozer ; a fim de fazer acordir 
a elles muita gente, e artelharia ; pera que 
desla maneira me ficasse menos forja de 
gente, e artelharia sobre a fortaleza, por 
onde tinlia ja assentado de os cometer. Pello 
que me fui com algiis capitaes a espiar, e 
ver a desombarcafao do baluarte de Diogo 
Lopes, sem embargo de Iraballiarem miiito 
OS mouros de defendercm com sua artelliaria 
a lal ouserva^-ao : e tanto que delaa fiz pres- 
tes tres caravellas, pera ao outro dia pela 
menli.'i irein baler as paredes , e baluartes 
que OS mouros tinh.'io feitos em defensfio da 
praya; para llies mais fazer crer, que por 
essa parte fazia fundauienlo de pousar em 
terra; e nellas mandei por capitaes Luiz de Pag. Col. Link. 
Almeida, Antonio Leme, Francisco Fernan- j 3 g,» 45 



des por sobrenome Moricaie; por serem boos 
cavaleiros, e liomens de muita esperiencia 
no mar: os quaes se forfio apeguar com os 
muros, e baluartes dos mouros, e os baterao 
desque amanlieceo ate noile , com grande 
perigo seu; porque de terra llies liiavao mui- 
ta artelharia, que Ihes passavaos navios de par- 
tea parte per muitos lugares; mas aprouve a 
iiosso Senhor, que nao morresse ninguem. 

Acabada esta bataria, apartei cincoenla 
fustas desemmasteadas, e as fiz caminliar liu 
pouco para laa, e surgir de largo, que llies 
acabou de fazer crer, que liia eu nellas 
para desembarcar por aquelle lugar, que as 
caravellas baterao. Nestas fustas nao hia 
mais gente, que os marinlieiros , que as re- 
maviio , e bombardeiras , que avifio de tirnr, 
e niuitos estromenlos de guerra , a sab'T, 
trombetas, ataballes, charainellas. Fiz capltao 
desla armada a NicoU'io Gon^alves , mestre 
das naos da carreira, home de grande siso , 
e experiencia do mar, e valente home, ao 
qual dei por regimento, que qiiando eu saisse 
da fortaleza a combater as muralhas dos mou- 
ros , arremetesse elle a praia do baluarte de 
Dyogo Lopes, fazendo que queria desembar- 
car, com grande estrondo de langeres, e 
grilas , e dartilharia, para que os mouros 
acodissem a essa parte. E para que nao pu- 
desse aver algum enleo a deixarmos de come- 
ter no mesmo tempo aos mouros, [he dei por 
sinal, que quando visse langar tres foguetes 
da fortaleza, acodisse, e fosse fazer a sua 
obra; porque entao sairia eu da fortaleza. 



SUMMULA DE PRECEITOS HYGIE.VICOS . 



Ordenada para uso dos professores , e nlmnnot de ambo» 

05 sexos das escholas de instrucri'to priiiiaria , e ap~ 

provada para csle mesmo fun pelo consrlho de saude 

publica do reinv — por Francisco Anionio Rodrigues 

de (jvsmuo. 

O? bons escriptos em hyuiena sao miiito raros entre 

ndi. Os de liygiena da jiifaricia niio correm abtinJaoLes 

aiiida por paizes, on'le aiais ciiltivada ha sido a scien- 

cia. E a hy;;iena c indispeiisavcl a todos para conservar 

a saude , e aaUer melliurar a condi(;ao fisica e moral d(» 

iodnidiio , e da especie. 

Nenliiinia das epoclias da vida carece tanlo dos pre- 
ceitus hy^'ienicos cumo a infancia. Da direc^-jio fisica e 
moral dada nessa epocha ao exercicio das func^oes de- 
pende todo o future das gcra(;ues , e a sorle das socie- 
dadel. 

O srir. Rodri^ues de Gusmao , dando ao publico uiu 
catliecisaio de bysiena , e fnrmiilaiido 08 preceitos da 
arte um termos claros , currcclus , e concisos , fez iini 
servi<;o ini[)or(atite ao seu paiz , e enriqueceu a colle(;ito 
dus livros destinados a instruc<;rio priniaria comuui lios 
mais preciosos , di^no de um lugar distincto nas biblio- 
tbecas familiarcs. Al. 



ERUATA DO N.° 1. 



Erro. 
Conslantes entre 



Emend. 
Inteffraea entre 



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JORNAL SCIENTIFICO E LITTERARIO. 



CO.VSELHO SUPERIOR DE INSTRUCCAO 
PUBMCA. 

Conferencia gerat de S8 d'abrit de 1854. 

Abriu a ses?3o o snr vice-reilor interino e vice-presiden- 
te Josi! Drneslo de Carvalho e ttego , com o seguinte 
(liscursu; 

Senliores! No arligo 21 do decreto regula. 
menlar de 10 de novembro de 18i5 ordena- 
se , que o coiisellio geral superior d'iiislnic- 
^fio piiblica lenlia diias conferencias ordina- 
rias por auno, uma em oiilubro, oiitra ein 
abril. Para ciimprjr esla determina>;ao e que 
hoje nos acliamos aqui reuuidos. Vac ler-se 
oa difierentes relatorios das secgoes; por elles 
conhecereis o estado em que se acha a ins- 
trucQao publica entre nos; as diligencias que 
este conselho lem erapregado para inellio- 
ral-a ; os obstaculosque aiiida a entorpecera e 
que e necessario remover; e o que ju se lem 
podido conseguir. 

Nfio se pode porem levar ainda a inslruc- 
^ao publica, com a bruvidade que se de»eja, 
ao estado de perfeijao, a que pode e deve 
cliegar, e que exige o adiaiitameuto das sci- 
encias e a civilisagfio actual ; e ainda que 
eile consellio nao lem cessado de Ihedar pelo 
rnodo, que julga niellior, impuiso coiivenien- 
le, deseja soccorrer-se de lodas as illuslra- 
<;oes, coiiio quer o citado regularnento no ar- 
ligo 22 n.° 3 recebendo ijuaesqucr meniorias, 
ou requeriinentos lendenles a proniover os 
tntllioramcntos dos Cstudos, on a declarar 
OS verdadeiros obstacuios contra o sen pio- 
gresso , e a propOr as prnvidencias, ma is pro- 
prias para se obtereni os beneficios de uina 
educaCj'iio iiacioual e moral ronfoiine as ne- 
cessidades do seculo. Sem reunirrnos as iios- 
sas forgas, sem o auxilio de todos os sabios 
do paiz, o inovimento geral e o progre^so da 
instruc^fio publica necesaariamenle ha de ser 
niais vagaroso e menos perfeilo. 

O snr. Secretario dal." secyfio lem apaia- 
vra. 



RELATORIOS. 



l.NSTlllCfAO PBIMARIA. 

Senhores: Obedecendo u lei, vem a 1.' 

secjao do consellio superior de instrucjao 

publica concluir hoje o relalorio, bosquejado 

Vol. III. Maio 1.' 



iia ultima conferencia, sobre o movimenlo 
da instruc^fio primaria no anno escholar 
findo. Evitando porem repetigoes escusadas 
e, por Ventura, faslidiosas, absleino-nos de 
dar agora tao miuda conta, cotno a que 
poriodicamente liavemos dado de lodas as 
partes e circuinslancias d'este objecto alias 
imporlaiitissimo. JE ja ninguem pode negar 
nem desconhecer o notavel mellioramento, 
que , pelo nienos de ha dez annos, vai entre 
nos afornioseando o primeiro degrau do edi- 
ficio litterario. Bern manifesto e quanto se 
lem alargado a esphera do ensino primario , 
e quanto mcsmo se ha roelhorado seu me- 
thodo. Publicada esta, e cada dia mais 
copiosa , a collecjao de livros elementares, 
approvadoi polo conselho superior. Ji, se 
Portugal nao pode possuir ainda tanlas es- 
cholas, quantas denianda a sua populajao, 
o numero d'ellas vai todavia crescendo. Que 
meios para taes effeitos liaja este tribunal 
excogilado e proposto , bem como que pro- 
videncias tenham sido dadas pelo sabio 
governo de S. Magestade , lambem nao e' 
mister repelir-se agora. 

Necessidades ha todavia , que relardain 
ainda o niaior aperfei^oamento desta parte 
da iustruc^ao publica : as que mais urgem , 
e que remedies pareya deverem applicar-se- 
llies , nao omittireiiios nos; offerecendo pri- 
meiro o complemeiito da eslalistica do an- 
no hiido, ericelada no relalorio de outubro 
ultimo; bCiitindo ])orem que pelas causas, 
lantas vezes aijui pondeiadas, e t.'io difficeis 
de remover, nao possa ainda agora ser per- 
feilo o quadro. 

Temos lioje no continente e ilhas adja- 
cenles — 1:18!) e-cliolas publicas; e — 57G par- 
ticulares, legidas por professores habilitados: 
e por conseguinle o total — 1:765. — Assim 
que, depois da lonforeiicia do 31 de outubro, 
lem ja sido creadas , pelos decrelos de 18 
e 25 de Janeiro, 15 de fevereiro, e 15 de 
niar<,'o, do correnle anno, mais 13 escholas 
do 1.° grau de instrucgfio primaria; sendo 
do sexo masculiiio 3 no dislriclo de Aveiro, 
4 no de Beja , 2 no de Evora, 1 no de 
Faro, 1 no da fiuarda; e, |)ara o sexu 
feminino, 1 em Lisboa , i ein Villa-lleal. 

EjScgundo OS iiiappas ate hoje recolhidos, 
frequenturam noanrio leclivo findo as rscli'ija? 
publicas — 50:182 nlumnos; as particulares 
<■— lS5i. NiM. 3. 



^Vi^H 4^-*^-^ 



26 



forani freqnentadns por 13:811. A somnia 
lolal pois e de — 63:993 — ; numero que, 
a pezar da falta de alijuns iiiappas, foi su- 
perior ao do anno precodunte de 18.31 para 
1852, em que as cscliolas puliUcas liaviam 
tido -il:255, e as particulares 12:8&4,- por 
onde se ve que no anno fmdo liouvc o exces- 
so de 9;88J. alumnos. 

Alern das 73 escliolas sobredicla'i, que este 
anno forani creadas pola auctorisa^ao do 
credito supplementar , o conscllio cuida em 
crear oulras , e attonder as varias requisi- 
?oes que llie teem sido feilas , se aquelle 
credito coiilinuar. N'lo collieu ainda, e ver- 
dade, todas as inforinayoes pedidas as juntas 
geraes de districlo, para devidainente egu- 
alar, segundo as nccessidadcs locaes, a dis- 
tribuiy-io de novas cadeiras. Assim niesmo, 
passa , em vista das informa(,-oes que ja tern, 
a proper ao governo de S. Magestade a crea- 
Sfio das que for julgando rnais necessarias. 

Desde a ultima conferoncia expediraui-se, 
sobre concursos de escliolas, 21 annuncios 
para o diario do governo ; 62 diplomas de 
provimento temporario; 6 certidoes de capa- 
cidade para o ensino particular; 273 por- 
tarias e officios com editaes; e 215 para in- 
formajoes, intimagoes e participa96es ; total 
537, Consultas 57 sobre varios objectos , 
como — crea^nes do cadeiras , propostas para 
provimentos vitalicios, transferencias , jubila- 
goes, aposentagoes , demissoes, exoneragoes e 
vencimentos de professores, preinios de obras 
elementares; e fiiialmente 3 a cerca do nie- 
tliodo de leitura repcntina. 

Sobre a vantagem de similhaiite niethodo 
ainda a secjfio nao pode assentar juizo segu- 
ro. Na circular de 24 de margo ultiuio, em 
addilamento a de 30 de juliio do anno pas- 
sado , mandou o conscllio intimar todos os 
professores, para, no prazo de lOdias a con- 
tar da intiniacao, declararcm por escripio 
se nas suas escliolas tcr.i practicado este me- 
thodo; devendo, no caso affirmativo, espe- 
cificar : 1.° desde quando comegou o seu 
uso: 2.° se o empregam em toda a escliola 
ou em classe separada: 3." que progresses lia- 
jam n'elle feilo os alumnos. — E , por que 
para muitos nao torn por certo fmdado ainda 
o sobredito prazo, apcnas responderam ale' 
hoje 102 professores; dos quaes so 19 decla- 
ram haver tenlado o melliodo: mas d'estes 
raesmos so o professor do Peso da Regoa diz 
que ha colliido fructo; alguns ainda suspen- 
dem o juizo ; muilos tern voltado ao antigo. 
Todos OS outros confessam que o nao pode- 
ram ensaiar ainda , uns por nao poderem ale 
aqui adquirir perfeito conliecimento d'elle, 
outros por falta de casa e utensilios, outros 
por estorvo e repugnancia que enconlram nos 
paes ou chefes de familia. E e por isso que 
o consf'ho conliuua a inclinar-se a crer que 
as vanlagens, quealguem tem apregoado, sao 
por Ventura exaggeradas: espera porem es- 
tlarecer-se mais com o tempo, e quando tc- 



nha colhido todas as declaragoes, que exi- 
gira. 

Alem d'islo , necessidades ha, a que releva 
acudir com a promplidao pnssivel. Carece- 
inos de prnfessoics roMveni('ntemente habili- 
lados; por onde e de reconheclda urgencia que 
eiitre em exercicio a eschola normal creada 
em Lisboa ; e que por e^t'arte se prepare o 
pessoal para outras eschnlas norrnaes. Mui 
necessario e tambern organisar um corpo de 
inspecgao, que com regularidade vigie o en- 
sino, e exaclamente inl'onne esle tribunal. 
Outra falla em fun , e na verdade bera sen- 
sivel, e a de edilicios publicos para o extr- 
cicio da maior parte das escliolas. Todas es- 
tas necessidades com os remedlos applicaveis 
tcm o conselho superior por varias vezes le- 
vado ao alio conhecimenlo de S. Mageslade; 
e confia que por sabias providencias, o sen 
governo contiuuara a proteger desveladamen- 
te o mais iraportante ramo da inslrucgfio pu- 
blica. 



UXIVERSIDADE D£ COIJIBRA— PROGRAllMAS, 

FACULD ADE D E MATUEHATICA* 

1833—1854. 

4.** ANXO. — 5.* CADEfRA. 

Lenle — Vr. Rodrigo Ribciro de Souta Pinio, 

ASTRO.VOMIA PRACTIC.l. 
I. 

Aspeclo do ceo. Redondeza da terra, e determlna^So 
approvimada das suas dimensut:s, Systeinas de coorde- 
nadaa dos astros. Allimos[)lifra , refrncc^ijL'S aslronooii- 
cas , e crepusculos. Dcsorip^uo dns priiicipaes in?.Irnnien- 
tt)S aslruiiumicos , e siias verific;i^oes. E:,'iialdade das 
revtilurrn-.s diiirnas do ceo— leuipo i^ideral. DelLTUiiiia^ao 
do mcriilianu. Diree^ao do ei.\o de rola^ao do ceo. Leis 
do movimenio diurno. Aituias corrpspondentes. Pofos e 
circulo9 terrestres. Provas du niovimeiito do rota^ao da 
terra. Parallaxes. 

I!. 

Coordenadas anirnlareg do sol — dislanring a terra. 
Eqiiinnccios e ubtiqiii'lade daecliplira. Calendario. Trans- 
fnrnmrao das courdenadas poiar-^s dosa^trus. Varia^ao da 
obliqiiiiiade da erliplica , precfssao d.is rquinoccios , e 
niila<;iio. iMo^irnentu elliptico — leis do K-plur. Del'-'roii- 
na^ao dos eJenientos do movinifnlo elliplico. Variaro'ss 
seculart-s d'esles elenieiitos , e perUirhai^ui's do movimenio 
elliptico. Dese^iialdade dos dias solafs , Icnipo verdadej- 
ro , tempo meilio, e eqim9rio do tempo. NascimeiUos c 
occasos do sol , e ^Tandeza dos dias nus dilTt-rentes loirare* 
da terra, E\plica(;ao do niovimciito proprio ap pa rente 
do S(d , e da precessai) dos eqoinoccios , na Iiypotlieae do 
movimenio de transla(;ao da terra. Applica^iio das doulrl- 
nas precedentes a algumas quesloes de chronologia. 

III. 

Coordmadas ancrulares da Ina , e su.ta distanciaa n 
terra. Phases da Iiia. })etermma(;ao dus plumentos da 
ellipse lunar. Eqiia«;ocs seculares , e dese^'imlilades perio- 
dicas. Eclipses do sol e da lua , e occiillfl(;oes dos pla- 
netas e estrellas pcla Ina. Determinarao das longitudes 
terrestres pclas obeerva^oes dos eclipses e das distaociai 
da] lua us estrellas e plauetas e ao sol. 



5k^ 



Vv^^ 



27 



IV. 

CoorJenadaj angiilares geocenlricas dos planetas — 
distancias u terra. Traiisformarrio das coordeiiailaa treo- 
centricas em lieliocentricas. Dtlermina^ao dos elenienlos 
das orbilas planetarias. Lois do movimeiito dus satollitoa 
dos plant-las — niodo de determinar pelas observnijues os 
eleuienlos das siias orbilas. Aberraruo — provas do moii- 
menlo de Iransla^ao da terra. Eslaroe.s e retrograda^Ses. 
Passagens de veniia e mercurio i)elo disco do 6ol. 

V. 

Forma^ao e iiso das taboas astrnnoniicaa do sol , da 
iDa, dos j)tanetas , e dos eclipses dus satellites de jupi- 
ler. Calculo das ephemerides ostronoraicas. 



4.° iNNO. 6.' CADEIRA. 

MECII1MC\ APPLICADl — GEODESIl. 

jLente — Dr. Joajuim Gon^alves Mamede. 

TOPOGRAPHIA. 

Construcrao das escalas. Diversos modos de levantar 
uma plaula. Inslriimentos erapreijados nas opera^oes to- 
liojraphicas. Nivellamenlos. Cartas tojiograpbicas e sua 
reduc^ao. Tra(;ado de estradas. 



Opera5oes geodesicas ; calculo dos triangulos geodesi- 
cos ; excesso espherico ; medida da meridiana terrestre 
e das perpeniiictilares sobre a meridiana. 

Determina(;iio da base do systeina uietrico. 

Exercicios numericos deduzidos dus trabalhos publi- 
cados por Delambre. 

Avaliagao dos trabalhos execiilados em Portugal. 

Figiira da terra ; suas dimensoes. 

Calculo das longitude.*, laliluiles e azimuths dos pontes 
terrestres enipregados na triangula^ao. 

Nivellamentos , getxiesico e barometrico. 

Deduc(;,~io de elementos geodesicos pelas observacoes 
do pendujo. 

MCCHAMCi APPIICAOA. 



Eqnilibrio e resistencia dos inassi(;o9 forraados de ma- 
Jerias adherentes , qnando a supcrGcie superior e carre- 
gada por uni pezo qualquer , ou quando a resistencia se 
exerce contra unia das faces laleraes. 

Muros de revesliraento , que sustentam o impulso das 
terras. 

Estabelecimento dos alicerces, quando os muros siio 
construidos sobre terrenes conipressiveis. 

Condii;3es que devem verificarse no eqnilibrio das 
abobadas. 

Cunsidera5oes praticaa quanto a sua confitruci;5o. 

Conslruc^ao das estradas. 

II. 

Equa^oes fnndamentaes do movimento dos fluidos, na 
hypolhese do paralleliamo das camadas. 

Flu.\rn) dos liquidos por crilicios de quaesquer vasoa, 
que se conser\ara conslantcmente clieios, ou se es^o- 
tam. ° 

Resultados que se obtem em|iregando os tubes condu- 
ctores. 

Flu.vrio por desaguadouros. 

Circurasiancias do movimento das aguas conduzidas 
por quaesqvier canaes. Canaes de nave™(;ao. 

Correntes naluraes , tendo altencai ;',s malerias que 
arrastam. 

Estndos sobre as barras ; meios que se devem empre- 
gar para obtcr o seu melhoramento. 

Rodas hjdraulicas. 



HI. 

Quanlidade de ac^ao produzida pela ferca elasticn d.u 
vapores a diversas temperaturas. 
iVIaquinas a vapor. 



5-° AXNO. 7,» CACEIR.1. 

Lento — O Par do Reino Tliomaz d' Jjuino de Carvatlio. 

MECHA.MCA CELESTE. 

Corabina(;3o das leis de Kepler com oa principles de 
mechanica , jiara deduzir a lei ila altracc;au, segundo a 
qual as parliculas da materia se altrahem mutuaraente 
na razao direcia das massas e ua inversa dos quadrados 
das distancias. 
^ Equa9oes dilTerenciaes que determinani o iBovimento 
d'um svstema de cerpns sujeilos a sua attrac(;ao mutua. 

Movimento de translacjao d'um svstema de corpos , 
que se movem em volla d'um d'elles' cemo centre. Me- 
thodo d'lntcgra^ao das equa^Oes , que determinam estes 
niovimentus , por ajiproximaqoes succcssivas , aproveitan- 
do para isse as facilidades que olTerece a consliluiijao do 
fiyslema do niundo. 

Primeira upprozhttar/w. Theorla do movimento elli- 
plico. Delerminai;.io das censlantes introiluzidas pelas 
infegrat;3es j e relajoes d'ellas cum oa elementus d'este 
movimento. 

Segnmin approTima^no. Theorla das perturbarSes. 
E.vpressoes das deiigualdades periedicas do raio vector, 
da longitude e da latitude. ExpressOes das TarlaeOes 
secularcs doa eixos malcres, dos medios movlment'os , 
das excenlricidades, dos pcrihellos , dos nddos , daa in- 
clina^Ocs das orbilas, da longitude da epocha , etc. Con- 
sldera(;oes sobre a estabilidade do syslenia planetario. 

Movimento de reta(;»e dos corpos celestes. Applica9ao 
ao movimento de rotac;ao da terra. Delermina^ae dos 
raovimentos do seu ei.io de rola9ao , quer relativamente 
a sua superOcie , quer no espa5o. Formulas da nulai;5o 
e da precessiio dosequineccios. 



AS MEZAS GYRANTES , 

CONSIDERADAS NAS SUAS REIACOES COM L MECiNICA 
E COM A PHVSIOLOGIA. 

Conlinuado de pag. 19. 

Para compleinento do que deixumos dito 
sobre OS agenles artificiaes de que o liomem 
teiii langado mfio , accrcsccnlaremos que elle 
tem feilo traballiar lainliem a electricidade 
e o ma^netibrno no transporte por barcos , 
na illuiuina^fio , na inedicina , etc. E seinpre 
se tem chegado <1 conclus.^o de que nSo e' 
possivel obter um effeito meclianico sem uma 
causa physica Mil annos antes da nossa era , 
ja Hc'siodo dizia dos Cyclopes: uTinhara a 
for^a, a actividade o as inaquinas para os 
sens tiaballios. j) 

lo'/ji^ T r.tJe €ty] yoX (j.y,y_avai ruav etc ip'yTCiff. 

Ila Ires mil anno*, cnmo ainda hoje, a 
unica magia do trabalho, era a forga physi- 
ca, a energia no ernprcgo d'esla Ibrfa e os 
mecanisrnos para tiansmiltirem a sua acjao. 
Em tempo algum se tem observado utn Ira- 



28 



ballu) material , que resulle da acg'io imma- 
tciial da vonlado. Ha niuilo , que a fo , so 
por si, nao Iransporla as moiilanlias , a nao 
ser no ejlylo ("iLfiirado; e que a iiiaiilaiilia 
nao se resolvendo a cainiiiliar para JMaiio- 
niet, obriga Malionict a caininiiar para a 
moiitanlia. 

D'este qiiadro das for^as iiioloras da ma- 
teria, resulla que na explica^'ao dos plieiio- 
menos curiosos, niecliaiiicos e pli_v>i()ii)j;icos , 
das mezas gyranles, o nccessario por iulerdi- 
oto a toda a inlorvenCj-fio da siuiplos voiUade 
para produzir os moviineiilos ; c podera ac- 
creditar-se que no meiado do seculo XIX 
estas verdadt's pljvsicas , tfio vulgares niio so 
nas escliolas, mas no mcsmo povo, teem sido 
desconliecidas por giaudo nuuieio d'eapirilos, 
alias esclaiecidos, arrastados porem pela ima- 
gina9ao para iima esperan(;a cliimeriea ? Em 
quanto porem a certns liabilidosos que pcr- 
tendem passar por illudidos, mas que o nao 
sao para os sens interesses, com esses nada 
tern que liaver a sciencia posiliva, neni tao 
poucc a boa fe. 

Aluitas vezes se tern langado as academias 
a arguijiio de que impedem a marclia das 
ideas e estorvara os progressos scientilicos e 
industriaes do espirito humano. Tal argui^ao 
e' mal fundada. E se nao, conlem-se lodos 
os flagellos de invengoes arriscadas que a sua 
circumspecjao tern atalliado. Vede o cpie vai 
na America, e porque prejo saliem os pro- 
cesses de merecimento real, tendo primeiro 
de se experimentar todos os outros que nao 
foram contrastados! Ja vemos, que nos liao 
de citar o barco a vapor do marquez de Joui- 
froy. J\Iuito bem ! mas tenios a declarar que 
nessa epoclia , antes dos aperteijoamenlos dos 
traballios nietallurgicos sobre a fundiyao do 
ferro e alizamento do corpo das bombas, a 
I'abricaj'io util de urn barco a vapor era tao 
impossive! como o jogo do wbist antes do 
invento das cartas. Nomeados coramissarios 
para receber os productos de todas as no;>sas 
exposifoes, e ultimamente para a de Londres , 
temos de abundancia com que edilicar o pu- 
blico sobre o alcance de numerosas inven- 
9oes, que provarao ate a evidencia a utilidade 
dos corpos scientificos e a necessidade indis- 
pensavcl de espalhar, quanto for possivel , 
as nogoes mecaiiicas e pliysicas, cuja igiio- 
rancia move tantos espiritos activos e zelosos 
em procurad'impossiveis. Ainda nos liavenjos 
de oceupar n'outra occasifn) de deseiivolver 
esta tliese, a prnposito da navegajao aerea. 

Ha certos espiritos ambiciosos, que a ma- 
neira de Alexandre, parece que abafam neste 
mimdo, e que desejariam por-se em rela^ao 
com outra ordem de seres menos materiaes. 
Tem sido esta a tendencia da imagina^fio dos 
homens em lodos os seculos, mas nada de 
real tem sortido de taes tenlatlvas. A cada 
seculo cabe constantemente o condoer-se das 
superstijoes metapiiysicas dos seculos prece- 
dentes ; e dizemol-o francamenle , nao temos 



esperanja alguma de que a magi'a das mezas 
gyrantes consiga da posteridade mais credito 
do que a da pytlionisa d'Endor, alius muito 
mais poetica no motnenlo em que era consul- 
tada por um rci j;i vcllio, enfraquecido rno- 
rahnente pela odade e pela desgriic^a , e que 
n'outro tempo tinlia proscripto a magia nos 
sous estados! Para muilos espiritos fogosos , 
mas iireflectidos , nada lia impossivcl. Estfio 
sempie a ponto de accusar de cega incredu- 
lidade acjuelles que nao admittem, que a 
natureza possa a cada inslanle desmentir as 
suas leis. Mas que nos digam qual e o po- 
der , superior a forja creadora, a que clles 
prctendem recorrer para dominar as leis esta- 
l)el<!cidas por essa i'or^a collocada tao alta a 
lespeito dos homens ! Admitti o inaravdiioso , 
e para isso vos dauios venia, mas lia de ser 
com a condi^ao de que o inaravdiioso nao 
seja absurdo. Na verdade , custa conter o 
serio ii vista da ingcnuidade dos improvisa- 
doies do muudo dos espiritos. Quando a po- 
licia tianceza obstou ao desenvolvimenio dos 
convulsionistas de Sainl-Medard , appareceu 
nas paredes do cemiterio o seguinte pasquim : 

De par le roi , defense a Dieu 
D'uperer miracle ea ce lieu. 

Por ordem do bom senso, fiea prohibido 
fazer com que as mezas fallem , e eompo- 
nliani versos ou mnsica, exceplo sobre os 
tlieatros dos prestigiadores ! 

— Um pagem meio adormecido lia a vida 
de santa iVlaria Alacoque ao velho rei Sta- 
nislao atormentado por uma insomnia cruel; 
o rci, esse tinlia os ollios abcrtos como una 
basilisco, — » Deus appareceu cm viono ;i 
sancta , disse o leitor dorminlioco. — Imbecil, 
grilou Stanislao , dize que Deus llie appa- 
receu em sonho ! — Real senlior , se elle qui- 
zesse podia-o fazer ! « Siio estas as convenien- 
cias que giiardam os nossos ihaumaturgos 
modernos : nao se embara^ani com o ridiciiio. 

As conclusoes d'esta exposigao das leis da 
natureza relalivas ao nosso objecto sao: 

1.° Que tudo quanto e rasoavelmente 
adinissivel nas curiosas experiencias que teem 
sido feitas sobre o movimento das mezas, em 
que se iinpoe as maos, se expliia perfeita- 
menle pelaenergia bem conliecida dos niovi- 
inentos nascentes dos nossos orgaos , executa- 
dos na sua origem , principaluienle seaccresce 
uma iutlueiicia nervosa, e no momeuto em 
que conspirando todas as impulsoes , o effejto 
produzido represenla o elTeito total das atjoes 
individuaes ; 

2.° Que no estudo consciencioso d'estes 
plienomenos mecanico-pliysiologicos , cumpre 
desviar toda e qualquer iiitervengao de for^a 
mysteriosa em contradic^ao com as leis phy- 
sicas bem estabelocidas pela observa^ao e pela 
experiencia ; 

3.° Que se torna necessario tractar de po- 
pularisar, nfio pelo povo, mas pela classe 



29 



esclarecida da sociedade, os ])rincIpios das 
sciencias. Esla classe tfio iiiiportante, cuja 
aiictoridade devia dar a lei a toda a na^io , 
tem-se apresentado tmiitas vezes abaixo d'esta 
nohre missao, A nota nao e nossa , mas se 
lanto for necessario, nfio duvidamos adoptal-a 
e defendel-a : 

Si los raisons manquaient , je suis s)lr qu'eQ tout caa 
Lea excmptes fatueux ne mc maiiqiieraicat pas ! 

como disse Moliere. Devemos tambem con- 
siifiiar aqiii que a iniciativa das reclamagoes a 
favor do bom senso , contra os presligios das 
mezas c dos chapeos, foi tomada pelos mem- 
bros esclarecidos do clero francez. 

<t.° Finalniente roga-se com instancia a 
todos OS uiilagreiros, que tenliam a bonda- 
de, se de lodo nao poderem deixar de fazer 
railagres, ao menos de os nao fazer absur- 
dos. Irapor crencjas a um niilagre , ja e muito 
para este seculo; mas qnerer ainda em cima 
convencer-nos de uin milagre ridiculo, pare- 
ce-nos demasiada exigencia ! 

BABINET, do Instiluto Francez. 



RELLEXOES SOBRE ARTIGO — MEZAS GYRAN- 
TES DE MK. BABLNBT. 

A explicajao do facto das mezas gyrantes 
offerecida por mr. Babinet, senfio satisfaz 
cabalinante ao espirito despreoccupado , col- 
loca pelo menos a questfio no seu verdadeiro 
ponto, despida do raaravillioso, que fasci- 
nando o entendiinento embarga o poder da 
reflexao. 

As maravilhas, os proclamados mysterios 
da magi'a, os encantanienlos, feiticerias , ma- 
gnetismos, e outras crenyas pueris, e ridi- 
culas nfio sao d'este seculo ; passou-lbes a 
epocba. 

O movimento communicado as mezas pelo 
imperio tnediato da vontade nao passa de um 
phenomeno natural resullante da acgao mys- 
teriosa do poder nervoso posto em acgao pela 
vontade. 

Aos factos que refere mr. Babinet, pode- 
riamos juntar outros, que passani desaperce- 
bidos , seni que sejam menos maravilliosos. 
Quando a vontade de um individuo delibera 
mover uma perna neste ou naquelie sentido, 
para se verificar o niuvimento, ha um jogo 
de ac<;oes mui complicadas em que cada 
musculo representa o seu papel differente. O 
individuo nao faz o movimento parcial de 
cada musculo; porque ate de ordinario nao 
conbece a existencia delles; e o movimento 
cxecuta-se; obedcce cada um a intemjao do 
actor. A ac5ao nervosa e' aqui o vinculo que 
liga o acto mecanico ao acto intellectual. O 
cantor, que para cxecutar uma pe;a musical 
precisa de por em movimentos mui compli- 



cados OS musculos intrinsecos da laringe, 
conbece por Ventura esses musculos? nao 
sabe delles; e elles executam ficlmente a 
deterrninaQao da sua vontade, sem que o 
actor tenba a minima consciencia desses mo- 
vimentos. 

Que admira pois que o mesmo poder ner- 
voso sempre obediente as ordens da vontade, 
desempenhe a determinagao d'esta pondo em 
movimentos mais energicos do que apparen- 
tes OS pequenos musculos dos dedos , e que 
a acgao d'estes communique a forga que taz 
mover a meza , sem que o individuo perceba 
a acgao desses musculos? 

Todo o mysterio , que ba no facto, porde- 
se no grande mysterio do niodo de operar 
dos nerves ; das ligagoes do pbysico com o mo- 
ral do homem. O mysterio nao esta na me- 
canica nein no magnetismo, esti'ina Physiolo- 
gia, O que obedece a vontade nfio e a meza. 

Outros factos, que no mesmo proccsso a 
ma fe, a superstigao , ou a especulagao teni 
creado para armar a credulidade ja estao 
sentenciados por Humboldt e Arago. 

M. 



CREDITO TERRITORIAL. 

CoDtinuaJo de pag. 17. 
II. 

A orlgem das associagoes territoriaos re- 
tnonta a 1770. Durante a guerra dos sete 
annos a nobreza da Silesia contrabira em- 
preslimos consideraveis, de feigao, que a 
volta da paz , estava a propriedade onerada 
com uma divida enorme. A nobreza ia ser 
expropriada, a crise fmanceira estava a pon- 
to de terminar n'uma revolugao politica, 
quando Frederico o Grande, com o seu edi- 
cio de indulgencia, concedeu aos devedores 
a espera de tres annos para solugao das di- 
vidas bypotbecarias. Esta provideucia preser- 
vou , e verdade, da expropnagao os antigos 
senhores das terras; mas acabou de arruinar 
a agricultura, privando-a de todo o credito. 
Os capitalistas conscienciosos afastaram dalli 
seus capitaes, receiando novos arbitrios , e 
so dos usurarios podiam os agricolas obter 
algumas sommas com juros exorbitantes. 

Para por um dique a. torrente de males 
que dimanavam d'este estado desgrajado , 
um negociante de Berlim , Wolfgang Bii- 
ring, propoz que se estabelecesse o credito 
collectivo, mediante uma agenda interme- 
diaria, idea que foi logo abragada por Fre- 
derico II, o qual dotou a sociedade com 
300:000 escudos, para o pagamento das 
primeiras annuidades. Por beneficio da in- 
stituigao, e pela feliz coincidencia de tres 
abundantes colbeilas que se suceederam na 
Silesia, baixou consideravelmcnte a taxa do 



30 



juro, tnrnaram-se possiveis os mcliioramen- 
tos a<;ricola*, e o leito do credito, ale ent.'io 
de lodo cxliausto, recuperou suas aguas fe- 
ci] ndantes. 

A causa do credito lerrilorial vencera aos 
ollios do publico, e devia enconlrar imilado- 
res no3 diversos estados da Allemaiilia. Com 
elTeilo, aiiida nao I'lndura o seculo passado , c 
jd se tinliam I'undado iiistituicjiies de credilo 
terrilorial em Jlaiiovre, em Diiiainarca, e 
nas cidades anseaticas. Termiiiadas as f,'uorras 
da revolugfio IVanceza, a Austria, a Russia, 
a Polonia, Baviera, e Wurtcinbergsegiiiram 
aquelle exeinplo. Dopols , os pequenos duca- 
dos allemaes e a Siiissa estabeleceram oai- 
xas territoriues. A Belgica, finalmenle , aca- 
ba de decretar a fuiida^ao de unia inslitui- 
gfio analoga. Existein hoje na Europa perto 
de qiinrenta bancos tcrritoriaes , que resul- 
tam, na maior parte, da uniao voluntaria de 
proprietaries terriloriaes. 

III. 

Ha diias circumstancias, diziamos, que 
nbstam ao conlacto dos capitaes com as ter- 
ras, fim principal do credito agricola , e vem 
a ser : I ." a pouca soguranga da hypotlieca 
offerecida pelo proprietario ; 2.° a iinpossibi- 
lidade em que fica o capitalisla, dador do 
emprotiino, .de dispor promptamenle dos 
fundos eniprestados. Ora esles dons atravan- 
cos sfio completamente reniovidos pelo syste- 
ma de credito territorial mais geralmenle se- 
guido, e cujas bises vamos apresentar na 
sna maior simplicidade. 

Essas bases sao : 1,° destruir o grande risco 
a que se rxpne o capitalista em presenga do 
cliaoi da legiilagfio bypolhecaria que vigora 
enlre nos , substilnindo-ihe o systema alle- 
nifio, ou qualqner outro (jtie assegure, a quern 
ernprestar capitaes sobre bens de raiz, oeslado 
mati'riai e jiiridico do predio off'erocido em 
liypollieca : 2." atlenuar on aniquilar o risco 
rcsullaiite de poder ser depreciado o predio 
por qnaesquer cansas, subslituindo o credito 
ppssoal e acanliado que tern tim determiuado 
proprietario para com \im determiuado capi- 
tali^ta, pelo credito real e vasto que enlre 
as diias classes deve estabclecer uin interme- 
dio, que centralise as t'orgas da amorlisag'io, 
que preste garaiUias irrecnsaveis , toinando 
as livpolhccas por dons tergos ou metade do 
sen \alor: 3.° ler p<ir fim esle intermedio, 
Associagao de proprielarios ciijas terras con- 
sliluem o fundo da socii-'dade, emprestar, 
a longo ternio, sol)re j-iypotliecas, nfio ja di- 
nlieiro, mas titulos dc pcnJior , papeis de 
credito que dao ao capitalista que os coni- 
prar, o direilo de haver da Associaguo \im 
cerlo juro do valor que representam esses 
titulos, e ao proprietario impoem a obriga- 
cao de pagar annualmente a mesma Associa- 
gao tanlos por cento de juro, e tanlos para 
aoiorti^ajiio da divida. 



Siipponhamos que se estabelece com eslas 
bases uma Associajao territorial. Alguns pro- 
priethrios abastados , enlre os qnaes podenios 
contar o Goveino, constituem-se em Asso- 
ciagfio terrilorial, liypolliecando as snas pro- 
priedades para fundo da Associagao, rece- 
bendo acgoes representanles do valor desse 
fundo, fazendo approvar sens estalutos pelo 
Ooverno, etc. Observemos a simplicidade de 
suas operagoes. 

Um proprietario qnalqiier, que pode ser 
um dos accionistas, precisando contraliir uni 
cmprestinio , recorre a Associagao: se e ac- 
cioniila, sacca sol)re iima parte do valor de 
snasacgoes, se o n.'io e, olferece em hypo- 
tlieca da quantia que pretende obler nraa de 
suas propriedades, Como uoregistro das hy- 
polhecasi), diz uma lei anslriaca, « serve 
para determinar os direitos dos proprielarios 
sobre os bens de raiz, assim como as dividas 
e encargos sobre elles impostos ", por via do 
regislro conhece a Associagao qual o credito 
a que o proprietario lein direilo. 

A Associagfto recelie a hypotlieca e entre- 
ga ao proprietario um titulo oo porlador., 
representante de metade ou dons lergos desse 
credito, titulo que dd a quem o possuir o 
direilo de haver da Assotiagao tanlos por 
cento de juro do seu valor. O proprietario 
obrigou-se para com a Associag'io a pagar- 
llie esses tanlos por cento de juro, e inais 
tanlos por cento para amortisaj ,'io do capital , 
custeamento daadminislragao, elucro dosas- 
sociados, se, por ventura, deve tnetler-se em 
conta esle elemento.' O proprietario vae coin 
o titulo a um capitalista ou caixa economi- 
ca , e vendeiido-lho por mais ou inenos do 
seu valor nominal, segnndo o estado da of- 
ferta de capitaes ou pedido de titulos, recebe 
o nurnerario de que necessila para melliorar 
a sua industria. 

Chegamos pois a esle resnltado : o capita- 
lista poz OS sens capitaes a juro de tantos por 
cento nas infios do proprietario; mas a Asso- 
ciagao territorial e qiiem assegura ao primei- 
ro o embolso do capital ejuros, otTerecen- 
do-lhe a dnplicada garanlia dos fundos da 
Associagfio e da hypolheca do proprietario: 
o proprietario recebeu do capitalista um 
capital a juro, mas a Associag.'io e que elle 
teni de pagar um e outro , do modo mais con- 
forme a natureza do rendimento das terras — 
todos osannos, e sempre pouco de cada vez. 
Como ha de agora o capitalista conciliaro 
emprestimo a longo prazo (lei da Associagfio) 
e a immobilidade da hypotlieca (natureza dos 
fundos e pcnhores), com a prompla e facil 

1 Em Pospn, por exemplo , o jtiro do capital muluado 
(•4" ecom I ^para amorlisarrio %em aextin^juir-seactiTiii.a 
era 41 aiiiios ; nu Polunia , nlem dos 4 ^ dp juro, paya- 
se 2 ^ d'amuiti?;K;ao , e a di\ida e.\tin;;ue-8t; cm 28 an- 
aos. Obtem-se esle residlado ptio calciilo das annuidades, 



ou resol\endo o systfina de formulas (I-t-r^^ 



« = (r — ijjx, sendo a o rapilal , r o jurg ao diuheiro, 
( tempo , X a auouidade. 



31 



disposi^ao dos capitaes emprestacios? Como 
ha de o propi ietario , liavendo-se obrigado a 
pagar a divida em 28 annos , por exoiniilo, 
solvel-a i)as5ados 4 on 5 aniios de collieilas 
aliundantes? O credilo publico, diz Wolows- 
ki , lia rauito que rc-solveu cstes irnportantes 
probleinai de credilo territorial: os einpresli- 
mos contiaiiidos pelo E^lado sao a ioiigo ter- 
mo , e ale ajuros perpeluos, e lodavia a rca- 
lisagao dns effeitos piiblicos , onde o Eatado 
leiii credilo, e niais facii, que a de qiiaes- 
quer oiilros valores. 

Assim e. Querendo o capitalisla obter de 
promplo o sea capilal, nao tein mais que 
vender a outrem o seu titulo, coino Ih'o veu- 
dera o proprietario ; o proprielario , podendo 
solver a divida anles do lenno fixado, coin- 
pra titulos na pra(;a , e com elles paga ao 
banco, que os recebe pelo seu valor nominal. 
Ainda niais: nao coiivindo a Associa^fio acu- 
ruular dinheiro em caixa , porque delle ha- 
vera de pagar jtiro aos capitalislas , o mesmo 
inleresse da Associagao a Induzira. a empre- 
gar as annuidades recebidas em lilulos com- 
prados na praga, ou sorteados annualmente 
e pagos aopar, como se pratica na Polonia. 
E esle ultimo meio e de cerlo preferivel, 
porque assegurando aos credores a venda dos 
titulos pelo seu valor nominal, previne uma 
causa de depreciajao resullante da variajao 
do curso. 

Eis alii o systema de credilo territorial 
cujos beneficios iiicalculaveis lem gosado os 
povos onde se elle fundou , sysleiua que lia 
quasi umseculo se conserva incolume no meio 
de guerras e revollas que derrocarara e Irans- 
forrnaram instiluiyoes solidamenle eslabcleci- 
das. Se a lua Introducgao em Portugal se op- 
poem instilui^oes injuslas e anteconomicas , 
como a dos morgados; leis confusas e inco- 
lierenles, como a das liypothecas ; que se oc- 
cupe o poder polilico , a quern isso compete, 
deabolir essas institui^oes , de reformar essa 
legi^la(,'ao, subtituindo-a por outra mais con- 
forme com a philosopbia do direilo e com 
as nossas urgenles necessidades , porque em 
removerom-se taes obstaculos estd o poder 
t'uudar-se eiilre nos o credilo territorial, an- 
(jora de salva^ao da nossa imlustria agricola. 

Contiin'ia. jacintho a. de SOUZA. 



COSTUMES AMERICANOS. 

Cuatinuado de pag. 288. 

Alem do casamento for<;ado, existe t>utra 
especie que conjiste em aeliar-se um indivi- 
duo casado sem o saber. A ariiiadiliia matri- 
monial ten) uma verdisella tao subtil, que 
basta ro^ar-se alguem por ella, para near 
logo apanliado. Uma aiiedocla mui recenle 
deinonstrara ao leitor o perigo que lia em 
fol;>ar curii taes brinquedos. 



Um bomem de quarenla e cinco aiino^ dc 
idade, nieslre pedreiro e liorrivelmcntf feio, 
lembrou-se um dia de ir a casa do um seu 
amigo inculcador de creadas, para hi esco- 
llier uma cosiuheira. 

E<tando a conversar no negocio, pergunta- 
llie d'alli o caixeiro da casa. — Porque se nao 
casa o sfir. ? — - Vallia-me Deus! Para rao 
casar e mister acliar com qiiem ; mas eu sou 
lao feio que ninguem me quer. Tndas as 
raparigas mofam de mim quando Ihes fallo 
em tal. — E porque o s-nr. nao procura bem. 
Oihe, entre solteiras e viuvas lenlio abi duas 
duzias : aposlo que o caso em um (]uarlo de 
hora ; lenlio aqui visinlio o juiz que se encar- 
rega de fazer a operagfio. Ande dulii ! escoUia 
a que llic convier, e o demo me leve se ella 
recusar! O pedreiro foi facil de persuadir, e 
escollieu uma irlaiideza recboncliuda e fol- 
gaza, viuva do seu prinieiro marido. A mu- 
Iher levando a cousa de galliofa aoeita a 
proposla : o juiz puxa do len^o, assoa-se, 
escarra, e pergunla com torn solemne: asenlio- 
ra recebe esle cavalheiro por esposo? — Sim 

senlior bi o senhor recebe csta dama por 

sua mulher ? — Sim senbor. — Deem as maos, 
eslSo unidos: sejam felizes. 

O pedreiro conlenle por se ver em fim ca- 
sado, conduz sua mulher a um Oi/slcr room 
da visinlianga, para ambos sosinbos fesK'jareni 
as bodas : era o que a iriandeza qiieria, co- 
meu ben) e nao bebeu mal. Mas a sobreme^a, 
o marido um pouco eleclrisado com as re- 
petldas libagoes, tomou algumas liberdades 
que Ihe pareceram a ella mais que puro gra. 
cejo. O marido reclama os seus direilos, a 
rnulber p6e-se a zombar; elle cnfada-se, ella 
manda-o bugiar, dizendo que tal casamculo 
nao era mais que uma f3ri,-a. A questao foi 
levada perante o juiz que declarou o casameii- 
lo valioso e legitjmo, visto que ella ja viuva 
e mai de filhns devia saber o que era casar, 
e por ijso nao fora surpreliendida como ru- 
pariguinba ignorante. 

Ebta facilidade de casar, na America, seiu 
inforraajcies, sem delongas, sem con^etllimell- 
lo de ambos os conjuges lem na veidade sen 
altractivo para os amantes, mas tarnbcMn I'a- 
vorece em demasia as Irapayas dos cavalleiros 
de iiidustria. 

Como correclivo existe o divorcio legal , 
que raro acouLece porque custa caro. Exige 
longos proce^sos e o consentimenlo de uma 
mullitiao de pessoas, que poiico se condoem 
do que sotlreu) os esposos infelizes. As mais 
das vezes quando um casal nao e bem unido, 
o que solfre divorcia-se sem pedir li('er(;a. O 
marido repula-se einigrar para a CalU'ornia, 
e deixa, segundo a expressao usada , uma 
viuva californiana, que la se consola o me- 
Ihor que pode; outras vezes, mas isto e menos 
vulgar, a mulher e que seecli|)sa executando 
um pequeno elopement. Se tern queda para 
a tragedia, faz como a snr.* Miller, depoe 
d borda da catarata do Niagara o seu veu 



32 



azul, as suas luvas, e escreve iima carta 
niiminciando ao imindo que seu marido, 
inoiiilio de ingialidao, e caiisador de sua 
desj;ta^'a; que ella vae cm fim luriiiinar uma 
vida in<ii|)poitavcl. 

E di-'poiilado o hillietc ao lado do veu , 
lan^a-se, precipita-se . . . . nos l)ra(,'os do sur. 
Arthur, e logo em sej^uida, no (undo de uiu 
caleclie de viagem. liis alii o sublime do 
geiiero; mas d'ordinario a mullier desap- 
parece sem esle apparato, e eutfio o marido 
ot'l'endido quer ao meuos salvar o coffre. 
Publica iminediatamenle nos joriiaes um an- 
iiuncio coiicebido nestes termos : 

a Eu abaixo assignado, teiilio a lionra de 
annuiiciar ao publico que miiilia criminosa 
rsposa dcsappareceu compk'tamonte do do- 
iiilcilio conjugal, abandonando, sem pes nem 
cabpra, a minlia meza e o meu leito, m?/ 
hoard and bed. Em consequencia do que 
declaro que nfio pagarei qualquer divida 
contraliida por essa descarada etc. » 

Assim como os maridos prudentes se servem 
da imprcnsa para publicar a fuga de suas 
inullieres, tanibein muitas vezes celibatarios 
limidos, on tao pouco de cobijar, que nfio 
valem a pena d'uma armadillia, empregam 
o mesmo meio paraofferecerem ao bello sexo 
seus encorreados corayoes. Em um jornal do 
domino-o le-se um annuncio assim concebido: 

« Um honrado single gentleman, bem con- 
servado, deseja unir-se a uma joven lady 
com OS lagos do hymineu ; porem muito 
limido e pouco experimentado em requestar 
uma donzela , deseja evitar estes preliminares, 
]jor via dos annuncios. Tem tiinla annos de 
idade, e um mocetao com todo os seus denies 
<■ cabellos; assegura que ha de fazer feliz 
uma menina virluosa etc., e vende bacalhau. 
A carta deve lanjar-se no correio, com 
direc^ao a L. X. " 

Alguns desfrutadores do mau cora9ao 
tiveram acrueldade de assignar a este caval- 
loiro infeliz oito casas, nos qualro cantos da 
cidade, onde devia achar-seao niesmo tempo, 
de mancira que o pobre do homem dava-se 
a perros, nfio attinando no modo de preferir 
cut re tantos corajoes intlammados. 

Uina das cliagas mais crueis da economia 
domcslica na America, chaga incuravel e 
senlida todos os dias , sfio os criados, e prin- 
cipahnenle os criados luancos, nao ja que os 
negros valliam mais e fagam mais irabalho. 
Pelo conlrario, uma vcz elevados ii nobre 
con(ii(;ao de criados livres, manitestam o 
dcsejo de desforrar-se amplainente do traba- 
Iho tbri^ado do escravo. Ningucni se atreve a 
veprchender uma miscravel irlandeza que em 
sen paiz nao recusava fazer qualquer servi^o, 
sujeitar-se a qualquer liuniilia(,':'to. Apenas 
respira o ar de bberdade e egualdade ame- 
Ticana, torna-se tao pretenciofa quanto antes 
era liumilde. Por pouco que n.'io chega a per- 
luadir-se que sua ama e quern deve servil-a, 
iifto obstante reccber um salario que nao 



nierece ; mas em todo o raso, nao se ensaia 
em estabelecer uma espccie de communismo 
de falo; serve-se dos vestidos c cbapeus da 
senliora como dos seus proprios. 
Continua. 



V. OVIDIO NAZAO: 

JDos Tristes — Livro 5.°: Elegia 6.* 
ARGUMENTO. 

Exorta-se Ovidio a si mesmo para celebrar 
o dia natalicio da sua esposa, a favor da 
qiial faz rcligiosas preccs, e louva o dia, em 
que ella veio a. luz, dotada de purissimos 
costumes; e hem que digua scja de mais 
prospera fortuna , exorta-a com tudo a que 
soffra a adversidade com espirito sereno, por 
isso que na virtude so pode fazer-se brilhante 
no meio da adversidade. Pede fmalmente aos 
Deoses, que, com quanto n.'io queiram per- 
doar-lhe a elle, perdoem ao menos a sua 
innocente consorte. 

Da chara esposa o dia natalicio 
Exii:e as honras costumatlas ; vamos , 
O miiihas raaos , dispor-Ilie o sacrlficio : 
Tahx'z o tieroe Lacrcio assim, no exlremo 
Orbc , (la esposa celebrasse outr'ora 
Do festivo iialal o sacro dia. 

— Dos mens lonfros trabalhus deslembrada , 
Deme a Iin;;ua expressoes condi;;nas hoje, 
Ella , que eu jul^o ha\er desaprendido 

Ha muito ja a fallar liu;rua;;em fausta; 
E a ui^ea veste , aos fados nieus adversa , 
^ue uma vez so vestir no anno eu uso , 
Ueste dia em memoria hoje se tome : 
E nni ^ erde altar ile leivas se levanle , 
Tapetado de relva ; e uma i^rinatda 
Os trepidantes foi^os cubra , adornc, 

— Da-me , 6 rapaz , incensos productores 
De oleaijinosas chammas , e o de Baccho 
Precioso licor, que, derramado 

Sobre o fogo sagrado , arda estalando. 

— Optimo natalicio , bem que a ausencia 
Ao Ionise nos separe , e meu desejo 
Venhas caudido aqui dissimiltiante 

Ao natalicio meu : E se a consorte 
Minha ali;uma dor nova araea^a^a , 
Ja mais dos males mens a dor anceie ; 
E aquella , que inda lia pouco sacudiria 
Iu»i por borrjisca mais que todas , grave ; 
Nos dias, que Itie reetam , sem perif^o , 
Qual nao por mar tranquillo as vai,'as curie: 
Ambas, ella e a GIha sua, o i^Ctso 
Lo^'rem do lar domestico e da palria. 
Da patria \\va. embora eu so privado : 
E , bem que do consorte charo ao lonije 
Ser nao possa feliz , da vida o resto 
Nuiens tristes jamais Ih'o enteuebrei^am. 
Vi\a, e ao esposo auscute amor conserve, 
Vislo que a isso obri.i^am , e em diuturna 
Serie va os seus dias consumindo : 
Outro tanto dos mens dizer quizera , 
Se nao fora o receio , que o contairio 
Do meu destino corrompesse os d'ella. 

— Para o homem na vida nada e certo !..,,» 
Queni juliiara que os sacros natalicios 

Ealre os Gelas da esposa eu cantaria ! 

Notai , como o fumoso incenso os ventos 

Para a Italia , a direita posta , levam ! 

Teem sentimenlo pois do furao as nuvens , 



33 



Que foffo exala ; quasi vjlo fiiirindo 

A* dire(;ao que eu dar-Ihes inlcnlaval 

Quaiulo a comniiins exeqviias solire a pyra 

Fazcr maiulava fralernal pieiiaiie 

Aos duua irmaos , que a rnorle arrebatara 

Em alternado duello ; a ardf.'tite flamma , 

A si mesma cniitraria , e coiuu au mando 

Dos inimij,'os dous oliedietiU* , 

Dividida se erijueu em partes duas ; 

Que assira podesse aconlecer , oulr'ora 

(Bern me lembro) cu neg:ava, e em meu juizo 

O fiatliades vale era um falsario : 

Tudo hoje creio ao ^■er o lino , o instincto , 

Com que In , 6 vapor , as cuslas A«illas 

Ao Arctiirio , e d'Ausonia ao riimo apontas. 

— K este o dia pois que se das tre^as 
Rompido nao tivesse, oulro al;^um dia 
Feslivo para mira jamais hou\era; 
Deu este dia /i luz moraos vjfludes, 
Quaes nas Heroinas se ustentaram puraa , 
De qnem fui pal Eel ion , foi pai Icario : 
De costumes pureza , houra e lealdade 
N'elle I'iram a luz ; nao ja prazeres 
Nasceram neste dia , antes trabalhos 

E ancias , de taes costumes sorte impropria , 
Do quasi viu^o thoro justas queixas : 
A bondade porem provada em lancea 
Adversos da forluna , cntiio cncerra 
Maior para o louvor tempo e materia: 
Se ao duro Ulysses cousa ali^uma infausta 
Nao tivesfle occurrido , venlurosa 
Penelope vivera , mas sem jrloria : 
Se victorioso os Echionios muros 
De Evadne o esposo penelrado houvesse , 
D'eila talvez soasse o nonie apenas 
Deotro da palria sua : tilhas tantas 
Tendo Pelias gerado , como illuslre 
Fama obteve uraa 86 ? Ganhou-Ihe a gloria 
Do marido infellz ser a consorte : 
Faze , que ouiro as illiacas areas 
Primeiro com seus pes toque , e Laudamia 
Nada tera , que honrada a iuimortalize. 

— Tambem desconhecida ao mundo fdra 
(Mais o quizera assim) lua bondade 

Se prospera a forluna me ventasse. 

^Deoses , com tudo, e, 6 Cesar, que alrum dia 

Has de entre elles morar , mas s<5 volvidos , 

Iguaes aos de Nestor compridos annos : 

Nao a mira , que o castij,'o Iiei merecido 

For propria cunGssao , a rainha esposa 

Perdoai , que nenliuma dor merece , 

E na dor se deGntia e se amargura. 

Cmlinua F. DE CARVALHO. 



ESTUDOS DE ECONOMIA POLITICA 

ou 
Breve explicagao dos elementos dcda sci- 
encia — por A. P. Forjaz — /omo 2.° — 
1.° cadcrno — (heoria da distribuigdo e 
do consuiiio. 

A sciencia e longa e a vida e breve, dizia 
um pliilosoplio : e a espliera dos conbeci- 
mentos liumanos dilala-se cada vez inais, e 
a vida e cada vez inais curia. Na ordem 
pliysica, e mister achar o modo de produzir 
mais e melhor em menos tempo; porque 
as necessidades crescem incessanlemente : na 
ordem moral, a civijisagao siijeita o espirito 
a uma condijao analoga de seu desenvolvi- 
inento — e forsoso deseobrir como abranger 



no tempo, que fiea sempre o mesmo, se nfio 
dirniniie, a sciencia, que augmenla sempie 
cm piofiuideza e exlensac. 

Des^anios as coiisas que nos tocam mais 
de perto. E^iidat em um anno uma sciencia 
nos livros que a cerea dell.i teem escripto 
antigos e inodcrnos, e' cotisa impoasjvel. Quem 
tivesse animo de einpreiiender essa larefa , 
acliar-se-liia , por fim , com o entendimento 
povoado de mil opinioes contradjctorias , de 
no^oes imperfeitas, que inuito prejiidicariani 
qualquer esludo ulterior. Havendo, porem , um 
bom compendio que o |)rofessor ex[)lique, e 
nao teniia de refutar a cada passo, aplana- 
se muilo o caminho, porque lia um guia 
seguro, lia um iiucieo em torno do qual se 
podem engrupar as ideas adquiridas com a 
leitura dos que melbor escreverani sobre a 
materia. Todavia o que estuda lem ainda 
de lutar coin grandes difficuldadas , mormente 
liavendo de applicar-se, com egual afan e 
no mesmo periodo , a oulras sciencias. Por 
isso as ligues lithogrnphadas , contra que 
tanto se fallou, e de que tanto se tern 
abusado, satisfaziam , ainda que mal , a uma 
necessidade realmenle existente em algumas 
aulas da universidade. 

Resumir em um livro bem elaborado o 
que iia melljor e essencial em qualquer 
das sciencias ensinadas nas faculdades aca- 
demicas , conciliando a inevitavel concisfio 
com a clareza e bom metliodo , e evidente- 
rnente fazcr um relevante servi^o aos que 
estudam essa sciencia, niiiiistraiido-lhes uma 
base sobre que poderao edificar com se- 
guranja t.^o vaslo edificio, quanto llies per- 
mittir o talento e applioa(;rio; e e de certo 
este o unico meio justo e convenienle de 
acabar com as iiijoes litliograpliadas, e com 
as consequencias de seus abusos. 

O snr. A. P. Porjaz nfio so fez um excel- 
lente compendio de ecoiiomia polllica, mas 
esta pubiicando a explicagfio desse compen- 
dio intitiilada — Esludos de Economia Po- 
litica. Ve-se nesta obra reunida e posta por 
ordem a doutrina mais importante que a cerca 
da producgfio, distribuigfio e consumo, so 
encontra em tnuitos volumes de abalisados 
economistas. Se alguma vez este traballio 
parece nao satisfazer ao precioso dote da 
clareza, nascera porventiira esse defeilo da 
difficuldade que sente uui escriptor didactico, 
quando procura collocar-se bem nas circum- 
slaucias do maior numero dos leitores, d'or- 
dinario dcsemparados dos recursos que o au- 
ctnr lem de sobejo. Alem de que, raro suc- 
cede sair obra lao diflfjcil, logo do primeiro 
jaclo, com o cunho da mais complela uni- 
dade e perfeijao. 

Podemos porem asseverar que estas quali- 
dadas lifio de vir a avullar enlre as muitas 
excellencias daquclle escripto, porque o A- 
lem a peito aperfeigoar os seus Estudos dc 
Economia Politica, e p61-os sempre ao par 
do progresso desta sciencia, condigao sem a 



34 



t]ual nao orfereceriain todas as vanta^ensqiie 
podera preslar. O que varaos dizer auotorisa- 
nos a fazer este jiiizo. 

O A. tratando da renda no compendio, 
considera-a com a maior parle dos ecoiio- 
luistas anligos e modernos, conio unia especie 
de rendimento disliiicto dos outros, coino iitiia 
liljeralidade da natiireza, que o proprielario 
apropria ; porem Carrey e Bastial apresonla- 
ram, sobre este objei'to, oiilras ideas que fo- 
ram de^ellVolvidas por JMartinelli e Foiitenay. 
11 Scfjuiiulo eiles escri|)lores, h diz o A. iios 
seus £s<i/f/o.«, " refortnaiiios o pensameiUo in- 
dicado no §. 79. do compendio, nao considc- 
rando a reiida da terra, senfio como uma re- 
mutiera^ao anaio^a aos outros rendiinentos, 
lima paga de servic^os por servieos, unia re- 
lriljui(;;'io do traliallio consiimido ou peio pro- 
prielario iinmediatamenle, ou por aqiieiles 
que foram antes d'elle, o a quern representa; 
isto e, o iiiteresse dos capitaes fixados no 
solo em ro^as, plantios, tapumes, Irabaliios 
de enxMgamenlo, etc, e em regra cont'undidos 
com elle ; interesses que podein ser maiores 
ou rnenores, conforme as circumslancias que 
deterniinam tixo variadaraente o prego dos 
servigos, mas que nfio alteram, em caso al- 
gum, a natureza que ilies e propria. « 

Temos pois a satisfagao de annunciar este 
trabalho, que o publico illustrado ja conhe- 
ce, em parte, e tera devidamente apreciado : 
assim desempenhamos uma das importantes 
obrigagoes do Instituto, lanto mais rigornsa 
quanto e urn dislinclo socio e antigo colla- 
borador que a sollicita. 



DOCUMEiNTOS INEDITOS. 



Carta que o viso^rei I). Joilo de Castro escreveo a 
el-rei uosso senhor v anno de -16 (1546). 



Cootinuado de paj. 23. 
Capitolo do estado, em que achou afortale%a. 

lalo assi ordenado, me dosembarquei de 
nolle com toda a genie; e a maneira de que 
acliei a fortaleza nao e cousa para se poder 
crer, nem sinto termos por que se possa 
escrever a v. a. Porque os uiouros tinliao 
enlulliadas as casas de maneira, que nao avia 
sinal dellas, nem poderse saber onde forfio ; 
e OS mures derribados ate o fundamento; os 
baluartes tornados, e os mouros poslos em 
sima com muitas eslancias dartilharia, com 
que atiravao as casas da fortaleza : e por der- 
redor donde forao os niuros, tinli.io alevan- 
tado grandes , e poderosos baluartes , e cava- 
leiroi , e poslas grandes monlanhas de terra , 
e pedra, donde tinbao assenlados rauitos tre- 



buquos, com que tiravio muitas jarras de 
polvora, o muitas pedras aas cazas. Arredado 
iiu pouco da fortaleza tinliao feito liua mu- 
rallia de treze palmos de largo , e vinte d'al- 
to , toda de muito fermosa cantaria, com 
muitos baluartes , e travezes, com a qual cin- 
gi/ioii fortaleza de mar a mar. E desla mu- 
rallia , para os nossos baluartes, que elles ja 
tinliao ganliados , emuros, liiao tantas ruas 
cobertas, trinclieiras, laberinlos do paredes , 
(]ue era couza estranlia, e muito pera notar. 
Aulrelles, e os nossos nfto avia mais que liQa 
estroila paredinlia de pedra emso(;'a. Desta 
maneira adefendeo dom Joao Mascliarenhas , 
muito tempo per sen grande esforgo, e cava- 
laria. Estas obras, que os mouros tinliao fel- 
las, fizerfio ciuco engenbeiros, queCojeCjIofar 
mandou bnscar a Costantinopla a soldo de 
cada liu a trezenlos cruzados por mez. 

Acabado de de^embarquar pratiquei codom 
Jofio , e com todolos capitfics da armada a 
maneira, que teria em minlia saida. E posto 
(pie na pralica ouvesse muilas e diversas ope- 
nioes, pareceo-me bem , que por sima de 
todolos incouvenientes devia de sahir am3- 
nliecendo ; porque me pareceo , que se perdia 
muila repntajao saberem , que o Governador 
da India estivera cercado um soo dia. Polo 
que manhii clara ordenei duas balallias de 
toda a gente. A da vangiiarda com toda a 
geiite da fortaleza del ao capitao dom Joao 
Mascliarenhas , o qual avia de levar doze esca- 
das pera sobirmos as muralhas dos mures; 
e en fiquei na retaguarda com a gente dar- 
mada. Na fortaleza deixei por capil'io Anto- 
nio Correa, liome niuilo honrado , e que tem 
muito bem servido v. a. , e valente cavaleiro; 
o qual fiquou inuilo contra sua vontade; mas 
forceyo a isso, assi porque pera cazo com- 
pria pessoa de suas calidades , como por ser 
aleijado dua perna por servijo de v. a. , e 
por esle empediinento nao ter soficiencia pera 
saltar paredes: e por me recear muito, que 
tanto que saisse tora a combaler as mura- 
llias, me entrassem os mouros a fortaleza; 
por cazo de nos terem ganliados todolos ba- 
luartes, e muros; e entre nos e elles nao 
aver outro empediinento, salvo as paredi- 
nlias de pedra emsosa, que ja disse a v. a. 

Saindo dom Joao com sua batallia pola 
ponte, desparou a arteUiaria, e arquabuzaria 
nelle, e Uie matou muila gente; mas nem 
por isso dcixoii de passar avanlo, e cliegiiar 
ao pe das murallias, onde Iraballiaiido polas 
sobir, e os mouros pelas defender, se come- 
50U liua grande, e cruel peleja. A este 
tempo era eu ja saido com miiilia bataiha, 
em a ponte tornou outra vez desparar toda 
a artelharia em mi, e me matou inuita gen- 
te. Os Lascarins, que comigo lii'io, vendo a 
grande grila da batallia de dom Joao, que 
estava ao pe das murallias, e a gente, que 
na minlia batallia cabia niorta da artelharia, 
teraeo, e comessou de recuar: oade uie tive- 
ram de todo ponlo derribado da ponte abaxOj 



35 



e quasi desesperado da victoria. Polo que me 
foi necessario as cotyladas abiir caiiiiiilio pera 
passar adianle com Loureu^o Pires de 'I'avo- 
Ta , que minqua se de mi apartou , e assi o 
secrelario Antonio Cardoso, e frey Antonio 
doCazal, Custodio de Sao Fiancisco com 
hu crucifixo nas niaos. E commessando de 
caminhar para as muraliias, fiz bradar, di- 
jendo a grandes vozes, victoria, victoria! os 
mouros fogem , os nossos vao em seu alcanse, 
e o Governador e passadoda outra bandados 
mouros. Com esta nova falsa abalou a bata- 
llia , e ciiegou ao pe do muro, e sobirrio, e 
passarfio a outra banda, a pezar dos iraigos. 
A este tempo tinlia eu jd comessado a peleja 
com obra de vintaciuco pessoas. Antes de ini- 
-nha gente sobir as muraliias carregou grfio 
pezo de mouros sobre mi, e nie tiverfio de 
todo desbaratado. Lourengo Pires de Tavora 
foi o primeiro que deu nelles, e eu o segun- 
do : digo isto, per nao tirar a gloria a cada 
hu. E logo todos comessarao mui valenle- 
mente a batalha, a qual durariu espa^o de 
duas lioras. 

Em quanto se estas cousas faziao, come- 
ler.^o OS mouros a emtrar a fortaleza per 
muitos logares; mas Antonio Correa Ihes 
rezistio tao esforgadamente , que os fez tor- 
nar atraz, e botados dos muros, se veio a 
porta, e despedio muita gente; pera que me 
fosse buscar , e acompanhar. Em todo o tem- 
po do perigo, e que a couza esteve em duvi- 
da, sempre me acompanhou Louren^o Pires 
de Tavora , fazendo obras de muito esfor^a- 
do cavaleiro. E assi me acompanhou o se- 
cretario , e Custodio de Sfio Francisco, e 
Simao Botellio veador da fazenda , sem em- 
bargo de andar ferido dua freeliada. Os fidal- 
gos , e capitaes andavao denivolta co os mou- 
ros, e como o campo era grande , e as suas 
vontades muilo uiaiores, pera se vingareiii 
delles, fiao tinhfio tento em mais, que em os 
roatar, e veneer; polo que a este tempo nfio 
estava rodeado delles; por llies parecer, que 
assi faziao mais servlgo a v. a. Ora levando 
eu cada vez a mellior dos mouros, os ouve- 
nios de arrimcar do cauipo ; e se foifio reco- 
lliendo pera a cidade, sempre pelejando. E 
seguindo apoz elles , entramos demvolla com 
elles na cidade, onde se couiessou outra bra- 
va , e forte pileja , da qual tfiobom nos deo 
nosso Senlior inleira victoria, tomandollie 
per for^a darnias a cidade. E seguindo o 
alcance a pos elles , entramos polo campo 
espa^o de mea legoa. Jsesla batallia nao en- 
trou dom Alvaro , meu fillio, por estardoen- 
te de grandes febres; mas assi como estava 
se mandou levar em hu leito ao pe dos mu- 
los da fortaleza , aonde esteve em quanto a 
peleja durou. 

Morrerfio na batalha passante de Ires mil 
mouros , a milhor , e mais luzida gente do 
campo , a saber; 'I'urcos, Ai)exins, Arabios, 
e Reybutros; afora outra muita gente, que 
se matou no alcance dos mouros, quando 



fogiao , e no saco da cidade , e em loda a 
illia, que foi numero infinito. Serifio cativos 
mais de seibcentos, por mais que eu o defen- 
desse , e tivesse mandado , que a nenhu se 
desse vida. Morreo tambem nesta batalha 
Ilumequao, capitao geral delrei de Cambaia: 
e a bandeira real delrei foi tomada, e prezo 
Juzarquao, hu dos tres maiores senhores, e 
capil.'iees do reino, e tomadas trinla e cinco 
peras darlilliaria , a saber, basaliscos, lioes, 
esperas; salvages, e outra de muitas sortes, 
entre as quaes entiarao certas pegas, que os 
Guzarates tinhao tornado no tempo passado 
a V. a. em hua galee, que peleijou mal com 
elles. Que nao foi para mi pequena gloria 
tirar de seu poder as armas reaes de v. a. 
Continua. N. 



Reccberam-se na Bibliotkeca do Instituto de 
Coimbra as seguintes obras offerecidas por 
sens rcspectivos aiiclores. 



RESCMO CHRONOLOOrCO DA HISTORTA DE PORTUGAL 

clesde OS primeiros povoaJores ate nussos dia3 , para uso 
das escliolas de instriic^ao primaria , pur Joaquim Loppes 
Carreira de I^Iello. 

COMPENDIO DE CIVILIDADE RELIGtOSA E MORAL para 

USO dos aUimiios das aulas de iostruc^ao primaria, pelo 
niesrao auctor. 

COMPE\DIO DE DOUTRIXA CHRIST* DOfi:\IATICA E MORAL 

jiara uso dos aiumnos das escholas de instnic<;ao priniaria, 
jielo mesrao auclor. 

C0MPE.\DIO DE CHOROORAPHIA DE PORTDGAL E SEUS 

DOMiNros para uso das escholas de instruci^ito primaria, 
pelo raesHio auctor. 

BREVE TUATADO DE CHOROGRAPHrA PORTUGUEZA Ilislo- 

rica politica , offerecido amocidadeporlnguezapeiomesmo 
auclur. 

descrip(;ao da sessao solemse que teve lo^ar no cul- 
le^ifj de uossa Senliora da Conceif^ao em Lisboa, em 8 de 
dezembro de 1853. Offerecido as famil'^s dos aiumnos do 
mesmo colleijio , pelo mesmo auctor,''^ ' 

oil-' 
IS0f;O£S GERAES SOBRE O DIREITO DAS GENTES , pOC 

Antonio da Roza Gama Lobo. 

oRA(;5cs FUNEBREs, recitadas nas exef]nias solemnps, 
que, pelo elerno descanso da excelsa Itainha de Porlu- 
tiii^al a senhora D. M.iriall , celebruram , na real c.ipellii 
da Universidade , os lentes, doutores e professores. 

CURSO CO.IIPLETO DK MATHEMATICAS rCRAS traduzidn 

correclo e aui^mentado pelos lenles calhedralicos da uni- 
versidade e sucios dolustiliito de Coimbra — Francisco <le 
Castro Freire e Rodriiro Uibeiro de Souza Pinlo. 

ELEIMENTOS DE MECIIANICA RACIONAL DOS SOLIDOS, pof 

Francisco de Castro Freire , lente calhedralico da tacul- 
dade de mathemalica , vo^al do cunsellio superior lie ins- 
(rucrao publica. 

TAEoAs AUxrLTARES para calculo dag epliemerides 
astrnnomic.13 do obser\aturio dauni^ersidadc de Coimbra, 
por Jacome Luiz Sarmento, lente substituto ordiuario da 
faculdade de mathematica. 

ELEMENTOS DO PROCESSO CRIMINAL, por FranCisCO JoSe 

Duarle Nazareth, lente cathedratico da faculdade de 
direilo e socio do Instituto de Coimbra. 

EST0DOS DE EcoNOMiA POLITICA ou breve explica^ao 
dos elementos desta sciencia, por A. P. Forjaz , lente 
cathedratico da faculdade de direito , socio da A. R. das 
scicuciaa de Lisboa, e do Instituto de Coimbra. 



36 





OBSERVACOES METEOROLOGICAS . FEITAS NO GABINETE DE PIIYSICA | 






DA UNIVEUSIDADE DE COIMBRA. 








Anno lie 
1854 


J. o 
a « 
a 
= ? 

If! 

f- s s 


PressSo otraosplierica no melo dia 


Estado hygromelrico da 
olmosphera «o meio dia 


S 

o 


Ealado do ceo ao 
meio dia. 




Mez J.- 
Abril 


AUnra ba- 
romelricft a 
0.° cenli?. 


TcojSo do 
vapor aquo.o 
coiuido no or 


Pressuo do 
ar secco 




Quantid. de 
vapor coo tido 
era upi metro 
cubico de ar 














= 5 
OS 




11 


1 


Dias 


Glaus 
ivntii. 


Millimelros 


Millimelros 


Millimelros 


Grammas 






1 


13 


734,812 


6,480 


728,332 


0,5048 


6,52 . 


s. 


Liinpo. 




2 


15 


758,882 


7,555 


731, .^27 


0,5886 


7,00 


s. 


Limpo. 




3 


15 


758,882 


6,807 


752,075 


0,5303 


6,83 


N.E. 


Limpo. 




4 


16,5 


758,698 


7,691 


751,007 


0,5475 


7,70 


E. 


Lirapo. 




5 


16,5 


757,224 


8.037 


749,187 


0.5721 


8,05 


E. 


Limpo. 




6 


16 


757,489 


8,434 


748,055 


0,6188 


8,46 


E, 


Limpo. 




7 


18 


756,887 


7,836 


749,051 


0,5039 


7.80 


S.E. 


Limpo. 




8 


19 


755,157 


9 712 


745,445 


0,5963 


9,64 


O. 


Nublado. 




9 


19 


752,719 


10,688 


742,031 


0,6562 


10,61 


0. 


Nublado. 




10 


18 


754,467 


9,882 


744,585 


0,6437 


9,84 


S. 


Nublado. 




11 


10 


754,721 


10,610 


744,111 


0,6911 


10,57 


s. 


Nublado. 




12 


19 


754,599 


10,929 


743,670 


0,6710 


10,85 


o. 


Limpo. 




13 


19 


750,027 


10,606 


739,421 


0,6512 


10,53 


o. 


Nublado. 




14 


18 


748,371 


10,039 


738,332 


0,6539 


10,00 


o. 


Cbuva. 




15 


18 


752,993 


9,782 


743,211 


0,6372 


9,74 


o. 


Chuva. 




16 


17 


753.573 


10,293 


743,280 


0,7115 


10,29 


o. 


Cbuva. 




17 


17,5 


749,719 


10,957 


738,762 


0,7349 


10,93 


0. 


Cbuva. 




18 


18 


745,849 


10,880 


734,969 


0,7087 


10,84 


s. 


Nublado. 




19 


16 


743,303 


9,591 


733,712 


0,7037 


9,62 


s. 


Cbuva. 




20 


15,5 


739,817 


10,058 


729,759 


0,7601 


10,01 


s. 


Chuva. 




21 


15 


738,607 


9,851 


728,756 


0,7674 


9,91 


s.o. 


Chuva. 




22 


J6 


742,805 


10,177 


732,628 


0,7467 


10,21 


N.E. 


Chuva. 




23 


• 15'."'"- 


746,770 


10,498 


736,272 


0,0178 


10,57 


N.E. 


Limpo. 




24 


15,5 '752,286 


10,184 


742,102 


0,7696° 


10,23 


N.E. 


Limpo. 




25 . 


. 15 ' 753,156 


8,860 


744,296 


0,6902 


8,92 


E. 


Nublado. 




26 


12 


753,624 


6,041 


747,583 


0,5643 


6,14 


E. 


Limpo. 




27 


14 


734,548 


7,454 


747,094 


0,0167 


7,53 


E. 


Limpo. 




28 


14 


732,191 


7,635 


744,556 


0,6317 


7,71 


E. 


Limpo. 




29 


13 


751,207 


8,191 


743,076 


0,7199 


8,30 


S. 


Nublado. 




30 


15 


747,730 


8,698 


739,o:;b 


0,0776 


8,75 


S. 


Cbuva. 




nieilia } 
do mez ^ 


13,9 


731,039 






0,6562 










Coiiu 


bra 1.° Je Maio i!e 1834. 














O Demons 


rador da Fa 


:nldade de P 


hilosoiiliia , J 


\Tanocl ilos i 


antos P 


creira Jfirdim. 






JnstitittrJ) 



JORNAL SCIENTIFICO E LITTERARIO. 



SESSOES DAS CLASSES E DA DIRECC.AO 
DO lA'STlTLTO DECOIMBRA. 

Nodia 9defevereiro desleaiino, reiiniii-:-e a 
classe de sciencias pliyjico-matlieinalicas para 
discutir o parecer dado peia lespecliva coin- 
inissfio ii cerca da niemnria offerecida pelo 
sfir. Francisco Antonio Alves, que nusla scs- 
sfio fuj eleilo socio effecUvo da rnesQia classe. 

A 27 d'abril, por propoala do sfir Flo- 
rencio M. B. Feio, decidiu a direc^iio, que 
a comniiis'io redactora do Inslitiito olTicinSse 
as faculdades academicas, por inlervcni,'ao do 
ex."'° prelado da iiniversidade, pedindo-llies 
a sua el'fecliva collaboragao, conforme o dis- 
posto na porlaria do Ministerio do Reino de 
d de seternbro de 1853: resolveu egualmente 
que, d'accordo com os aiiclores dos artigos 
que se publicassera nojornaljpodesse a redac- 
cfio, quando o jul^^'asse conveniente, mandar 
lambem iinprirnir, em separado por conta dos 
aiictores on acusla do liistituto, esses mesmos 
artigos. Nesta sessao recebeu-se parLo do fal- 
lecimento do socio osfir. conselheiro Francis- 
co Freire de Carvallio, e foi encarrogado do 
sen elogio funebre o sfir. Francisco de Caslro 
Freire. O Secrelario do Inslitnto, 

Jacintho A. de Sousa. 



CO.SSELHO SUPERIOR DE INSTRUCC-lO 
PUBUCA. — RELATORIOS. 

INSTBUC^So SECUNDARIA. 

Conferencia de 28 d'abril de 1854. 

Senhores. — Na conferencia ordinaria do 
conselho geral que teve logar no dia 31 de 
outubro do anno de 1853, relatei-vos nao so 
OS trabalhos que correram mals particular- 
menle pela S.^secjao, eocrescido e.xpediente 
da secretaria do conselho; mas tambem o 
estado bastante lisonjeiro da inslrucgao se- 
cundaria, e as providencias adoptadaspor este 
conselho para o seu adiantamenlo e perfei- 
9ao : porem na que hoje celebramos , como 
complemento d'aquelia, dir-vos-liei que o nu- 
mero total das cadeiras publicas, perlencentes 
a inslrucgao secundaria, e estabelecidas no 
continenle e ilhas adjacentes , e de 248, 
sendo nos lyceus — 12i — e annexas outras 
tantas : que o numero total dos alumnos que 
as frequentaram no anno lectivo de 1852 a 
Vol. III. Maio 15 



1853 e de — -1:209 — em 175 cadeiras : que 
o numero lolal das cadeiras parliculares ate 
hoje e de 48, e que o numero total do, 
alumnos que as frequenlarain no referido an- 
no e de 1:089: que sendo o numero total 
dos alumnos que frequentaram as cadeiras 
publicas e parliculares de 5:298 , abatendo 
o numero total, que foi no relalorio de 29 
de novembro de 1853, — 2:8G3 — , vem a ser 
o accrcbcimo de 2:435. 

Cumpre notar que nfio entra naquelle nu- 
mero a frequencia das cadeiras do dislriclo 
de Porlalegre, por nao ter o commissario dos 
estudos cnviado a este conselho o seu relatorio, 
iiem a das do dislriclo de Ponta-Delgada , 
por nao virem os mappas d'eslas com os da 
inslrucgao primaria, que o commissario dos 
estudos inlerino, por officio delSdodezembro 
de 1853, tinha remeltido a este conselho. 

Sendo pois o total das cadeiras nos lyceus 
e annexas 243, vao incluidas neste numero as 
93 propostas no piano remetlido ao governo 
em consulta do 1.° de fevereiro de 1050, das 
quaes ainda todas n.'io est.'io approvadas, e por 
isso nfio providas. Ha porem algumas annexas 
ainda existenles, por estarcm providas em 
professores anlisos, e que dcvem ser supri- 
midas quando vagarem , ou transferidas se. 
gundo aquelle piano. 

O commissario dos estudos do dislriclo 
d'Aveiro parliciiia, no seu relalorio de 13 de 
Janeiro do corrente anno, que no lyceu d'a- 
quelia cidade houveram melhoramentos no 
anno leclivo findo, nao so quanto ao material, 
com o melhor arranjo interno das aulas, mas 
tambem quanto ao pessoal e economico, com 
o regular desempenho das obrigagoes de cada 
urn dos seus empregados, maior concurrencia 
e aproveitamento dos alumnos em todas as 
aulas, e a creagao da cadeira de linguas 
franceza e ingleza ; lastima porem o impedi- 
mento, lalvcz perpeluo, do professor de 4.°' 
cadeira , na qual por isso mesmo nao p6de 
deixar de haver irregularidade no anno leclivo 
findo, nao obstante lomarem-se conveniente- 
mente as providencias para occorrer a in- 
terrupgao do magisterio. F'requenlaram as 
aulas 214 alumnos. 

O commissario dos estudos do dislriclo de 
Caslello-Branco, no seu relalorio de 14 de 
Janeiro, d.i parte que o lyceu estd vantajosa- 
mente collocado na antiga casa da miseri- 
.1854. " NoM. 4- 



^A^V^^>&^^ 



38 



'cordia; qui- fioquenlaraiii as aula:> 79 esui- 
doiiles: que respeitaveis sao por todos ostitiilo> 
05 actuaes profeisores do Ivceu, que a ijrandes 
hizes nas disclplmai respectivas junlam lar^a 
experiencia do magUterio que exercem ha 
muitos annos; mas que o de fjrainniatica 
latina e o delogica, por siiaavan(;ada edade e 
molestias, estao nas ciicumstancias de merecer 
do goveruo de Sua Magostade a jubila^ao a 
que tem direito, no que muito iuLeressaria o 
servi^o publico: que 6 escliolas parliculares 
de graininalica latina e latiuidadt: foram fre- 
quentadas por 66 discipulos com aproveita- 
niento, segundo a informa(;a.o dos respeclivos 
professores que "Idas referidas escliolas foram 
sustenladas pelos pacs de faniilias, e uma por 
esmolasou donativos: que foram liabilitados 3 
professores para regerera cadeiras de gram- 
matica latina, e que 03 que nSo quizeram 
habililar-se , fecliaram as suas aulas. 

O comrni?sario dos estudos do districlo do 
Porto, em seu relatorio de 17 defevereiro, faz 
ver que as cadeiras, que consliluem o curso 
do lyceu, acliam-sc todas providas, e bem as- 
sim as respectivas substituijoes, e foram todas 
regidas pelos respectivos professores proprie- 
tarios , menos a de latinidade , que pelo im- 
pedimento do professor proprietario foi regida 
pelo respectivo substituto : que o numero dos 
akimnos, que frequeiuarara as aula? do lyceu, 
foi de 252, e o das cadeiras annexas de 133. 

Do relatorio do governador civil d'Angra, 
com a data de 30 de setembro do anno pas- 
sado , consta que as aulas do lyceu foram 
frequentadas por 192 alumnos; que fora do 
mesmo lyceu existem 3 aulas de latinidade, 
que todos funccioiiaram regularmente; e que 
conlinua a ser mui sensivel a falta de uma 
cadeira de latim na villa do Topo da illia 
de S. Jorge. 

A mesma aucloridade faz lionrosa mengao 
do reilor do lyceu e comniissario dos estudos, 
pelo muito zelo que desenvolve no exercicio 
de suas func^oes, e nao menos dos profes- 
sores do mesmo lyceu, que tem louvavelniente 
empregado os maiores disvelos no progresso 
e adiantamento dos seus discipulos. 

O conimissario dos estudos do distrirto da 
Horta, no seu bem acabado relatorio, per- 
lenccnte ao anno lectivo de 1851 a 1852, 
depois d'algiiinas judiclosas retlexoes a cerca 
dalgumas cadeiras internas e externas ao lyceu, 
e da necessidade de um curso de moral theo- 
logica, e disciplina ecclesiaslica para ins. 
trucjfio do clero, pela qual este se habilite 
devidamente para o cabal desenipenho das 
sagradas func(;6es do seu santo ministerio, 
faz ver que, no refendo anno lectivo, tanto 
as aulas do lyceu , como as das escliolas an- 
nexas, foram frequentadas por 133 alumnos. 

O governador civil do Funclial, no seu 
relatorio de 19 de noverabro do anno findo, 
diz que nenhuraa circurnstancia notavel tem 
occorrido , de que deva fazer menjao, nem 
na parte que respeita ao pessoal do ensino, 



dois que 05 profesaores de todas as classes 
continuam, em geral, a desempenhar salij- 
factoriamente as obriga^oes do magisterio, 
nem na parte litterarla, porque os methodos 
d'ensino nao torn snffrido altera^ao alguma ; 
e que forao 12T os alumnos que frequentaratn | 

as aulas do lyceu. 1 

O bibliotliecario de Ponla Delgada, em 
seu relatorio de 30 de setembro do anno pas- 
sado, da conta de que no prinieiro anno da 
sua gerencia tinha conseguido jd o arrola- 
mentode tres mil volumes, e que continuando 
o iiie?mo Iraballio no seguinte anno, sempre 
que o tempo Ih'o perniiltia, conseguira o ar- 
rolamento de 7:250 volumes, faliando-Uie , 

ainda 3 estantes para inventariar; e do map- I 

pa estatislico , que remetteu ao conselho, ' 

ve-se que desde outubro de 1852 ate setembro 
de 1853 foi o numero dos leitores de 1571 
o que, segundo o referido bibliothecario , 
e devido a regularidade com que funccionou 
o lyceu no anno lectivo de 1852 a 1853, e as 
recommenda<;oes que 03 professores fazem aos 
seus discipulos de irem alii consultar algumas 
obras precisas a sua maior instruc^fio. 

Agora, senhores fallarei dos trabalhos da 
2.* secgfio , que tiveram logar desde 17 de ou- 
tubro de 1J553 ate 21 d'abril do corrente anno. 
Foram elaboradas, e expedidas ao governo 
de Sua Magestade 52 consullas, sendo uma 
para a propriedade de cadeiras de latim ; qua- 
tro para o provimento temporario de cadeiras 
da mesma disciplina; seis para a propriedade 
de cadeiras dos lyceus, uma para substituigoes, 
e uma para o provimento temporario dos ditos; 
uma para secretaries de lyceus, e quatro pa- 
ra porteiros dos ditos; diias para commissarios 
d'estudos ; uma para gratificagoes; nove para 
jubilaQoes; duas para exoneraijoes ; duas pela 
necessidade de provimentos de logares ; doze 
para inforines e varios objectos ; uma para 
creagao de cadeiras; duas para a juncfao daj 
aulas do Ivceu de Santarem com o seminario, 
ferias etc. ; uma com os orQamentos da receita 
e despesa dos lyceus; uma com a rela^ao dos 
lyceus, piofesso'-es, e estado das cadeiras 
desde a inslalag.io ; uma com o projecto de 
regulamenlo para os exames de habilitag'io a 
priineira iiiatriciila da universidade. 

llesta-me someiite , para conclusao deste 
relatorio, dar-vos conta do expediente da 
secretaria do conselho. 

Concursos 

Portarias e officios com editaes 96 

Annuncios l* 

Tnformagoes e Inlimagoes 

Portarias e officios 123 

Diplomas Ccriidocs e Titnlos 
Diplomas de provimento temporario de 

cadeiras 2 

Certidoes decapacidade para ensino par- 
ticular 4 

Titulos d'auctorisagao para coUegios . . . 1 

Total.. «40 



39 



CSIVEBSIDADE DE COIPRA-PROGRAMMAS. 

FACULDADE DE MEDICINA, 

1853— 1S54. 

1.** ANNO. 

ClDRIBA d'a:<;ATOMIA HUMANA E COMTAnADA. 

compbindio jamain — nouvkau traitb elrmektilbs 

d'anatomie descriptive. 

Lente — Dr. Setastido d* Almeida e Siha. 

Comei;aremos por definir o que seja Analomia , e o« 
diffetenles lilulns d'esla vasUssiina sciencia. — Deinnii- 
•IraremuS as alfaias e iiistiumentus anatoiuicos. — Indica- 
rcmos OS reaueiites cliimicns maid iisailos era Analuinia ; 
e OS Bens principaes prticessus : a tlisseci;ao , macera(;r»o , 
injeccSo , e inspeccao niirruscnpira , a Qui tie separ;ir e 
di3tin::uir os lecidus do orj^anisnio; as sciencias auxilia- 
fes 1 e auctares mais abalisiadus que devemus cungultar ; 
e as vanta^^ens que tao bclla sciencia ^confcre aos que a 
possuem. Finalmeute , faremus conhecer os varius tecidos 
do ureanismo . dcmonstrandu-os , e «lefinindu-os sobre o 
cadaver: e depois d'esles preliminares , pasaareuiua ao 
cstudu da primeira parte d'Anatomia. 

1.=^ PARTE. 

OSTEOLOGIA. 

Dos ossos €m geral : Esqiieleto nalnral e arliOcini : 
ejqueleto interuo e externo— nervo-os(]ueloto , splanchiio- 
ceqiieleto , e dermato-epquelelo — melhodu de estudar o 
esqueb'to : linha e piano? verticaes e hurizontaes — re- 
gioes do esqueleto, e ussos que as formam — divisao dos 
osios quaiito a sua forma cm lonirns, lariros , curtcs , e 
mixtos — eslructnra dos ossos : siibslancia cumpat-la , 
esponjosa e reticular — caviilades intersticiaes dos ossos — 
lextura e forma das moleculas osseas nas sobredictas siib- 
stancias ; caualiculos osscos , suas camadas concentricas , 
e corpuscuios inlerpostos ; direc^ao o anastomose dos ca- 
caliculos dos ossos das differentes dimensoes — demonstra- 
^iio microscopica de todos esles olijectos — tecidos que 
concorrem para a or^aniza^ao dos ossos : cellular , vasus 
e ner\os — propriedades physicas e vltnes d't-stes 6t^uus 
— sua analyse cliimica — da medulla dos ossos. 

Oateologia dtsrriptica r estudo analylico e synlhetico 
do esqneleto — di\ isao em trunco e extremidades ; ossus 
que constituem o Irunco-^columna rachidiana , formada 
por 24 lertebras verdadeiras, pelo sacro e coccyx, e 
dividida em cinco culuinnas , cauda! , sa^rada , lombar , 
dorsal, e cervical, sobre a qual assenta a cabera — 
descripoao das vertebras que compOem eslas rcL'iOes — 
ossos que concorrem para a forma(;ao da cabei^a ; sua 
divislio em craneo e face^descriprao dos ossos do cra- 
neo ; item dos da face — ossos wormios — poder-se-ha re- 
conhecer nos ossos da cabc^a vestiirios rla forniai^ao vertebral? 
•— Doutrina dos Ijomolo^os: prelt^ndidas Aertebrasocci|iilaI, 
Cenlricipital, syncipital; nasal, maxillar e intermaxillar — 
ans'Ulo facial de Camper ; dicto occipital de Daubentun: 
inspec^ao \ertical dus crsneos , sei!undo Blumenbak , etc. 

Odontologin : I.^ denti^ao ; S.'^ denti^ao — • confron- 
ta^ao dos denies com os ossos — dilTerenles tecidos dos 
dentes : o esmalle, a substancia cortical, o niarfim e o 
cimento — ca^ idade e polpa dentaria — differentes fdrmas 
de denies : incisi^os, laniares , e molares (nohomem). Na 
serie animal encontram-sc denies siniplices e composlos ; 
verdadeiros e falsos molares; conicos dubb'S e enva^-ina- 
dos ; era forma (]e cscova , etc. — E interessante o syste- 
nia dentario, porquerevelaoshabitos, ombral, eaalimen- 
la^So dos animaes. 

Do thorax i formado posteriormentc por 13 pares de 
Costellas. presas aos lados das 12 \ertebras dorsaes . e 
ftdiante pelus cartila^ens coslaes , articuladas com os lados 
do slerno — descripc;"io das costellas e seus arcos cartila- 
gineos ; item do sterno. 

Da pelve : formada posteriormentc pelo sacro e coccyx , 
e dos lados , adiante e por baixu pelos ossos innominados. 
Descripcao dos ossos innominados on coxaes, 

Exlrtrnidades t/iaracicas : ossos da espadoa ou cintura 
scapular — descripcao da clavicula e da omoplata — do 



humero nu otsn do braco — dus oesos do antebraco : cu- 
bilo e radio — dos tin iniio di\idida em carpo , melacarpo 
e dedos. Dt.'scrip(;ao de todus estes ossos. 

Extremidades inftriorrs on ahduminaes : <lo fem«r ou 
08S0 da coxa, arliculado snperioriiientq com a cintura 
pel via na na cnvidade cttlyloidea , iiireriorineiite com r 
rotula e libia — dt'scri]i(;rio d'esles ossos e do perooeo 
que com a liljiji corifurmam a pcrna — descripi;ao do po 
dividido em tarso , metatarsu e deilos — ossus secamoiileos. 

Confrc)nta(,-ao dos esqne!etus do liomcm e da niulher adul- 
tos — item do fcto, considerado nos tres '"-tados , mucoso , 
cariilairineo , e osseo — nuidificarao dos esquelelos scjun- 
do as principaes raras do honiem. 

S.^ PARTE. 

ARTJinOLOGIA. 

No psqnelcto nalnral acham-se us ossos presold enlre si 
[lor li^amerdos e varias ouiras disposicoes — Ires iieneroa 
d'arlicula^oes : 1." a synarlhrose: n'cBte 2:enero os ossoa 
s;1u articulados firmenienre enlre si por jnsta posicSu de 
partes (sutura e liamionia) , sem dependencin de li^'a- 
mentus — 2.^ irenero, a diarlhrose consia de ailiculacoes 
uiais ou menus moveis — 3.° genero ou amphiarlhio&o 
consia {]o arUcnlacocs, nas quaes os muvimentos sao ))ou- 
co nppareulcs — de todos esles Ires irencros , e suas respo- 
ctivas especies , faremos dumonstra^ao sobre o esquelelo 
fresco. 

Os apparellios dos dons ultimos g:eneros coiistam de 
drgaos deslinados uns a farililar os movimenlos, outros a 
liniital-os, prendendo os ossus. Taes apparellios sao mais 
ou menos cumplicados, conformeo niaior oumenor nnniero 
d'orgaus n'elles empregadus: Eignmeutos (rt) de tecido 
fiiini-tendinoso ; (6) de tecido Obro-elaslico — breves con- 
sideracocs sobre esles dous lecidus , e em ^'eral do tecido 
Gbroso-^do periostfo e dura ninler— liiramentos fasci- 
culados, longos e curtos ; dos capsulares — das carlilatrena 
oijducentes, (pierevestem assuperQciesarticuI;ires dos ossos 

— das carlilajens inlenirliculares, racnisras e discoides 
(fibro-carlilai^ens) — das syno^iaes, membranas saccifor- 
mes , qne revcstem as cajisulas e as superlicies articula- 
res dos ossos— suas franjas , corpnsculos e pretendidas 
plandulas de Cloptun Havers — cryptas ou clandulas sy- 
no\'iferas de Gusseiin — obser\arues mlcroscupicas sobre 
totlus esles tecidng. 

Na Jrthrolofiia desniptiva segniremos a ordem do 
cumpendio , fazendu ver em cada uma das arliculacues 
sous moA iinenlos ; stias luxacoes ; e Dnalmente terminare- 
mos este traclado, considerando synthelicameule as ditTe- 
rentes regioes do esquelelo natural. 

3.^ PARTE. 

MTOJ-OGIA. 

Dos musciilns em rjernt : defiai^'iio e elymoloria da ps- 
lavra myologia — diMsao dos mustndos cm dnas grandes 
sec^oes : 1.^ mnsc. da \\i\n animal ; 2.* dii-tus da vida 
or^anica : os primeij"os (no liumt'in) sau massas fibrosas , 
de grande volume, adiicrenles ao esquelelo, molles , mas 
muilo coulracteis durante a \ida, e de ciir ^ermelha — 
c.ula um d'esles driraos , mais ou menos voUiniosos , se 
diviiiem era fachus , esles em fasciculos, e estes em 
fibras primilivas — us muscnios da vida animal chamam- 
se ^oluntarios, porqne a ^ontride impera em seus movi- 
menlos; e nao assini nos da ^ida o^L^^rlica — musculos 
niixlos — musculus solidus, e ocos — niarcha parallela e 
rcctilinea das Gbras dos musculos da vida animal — seu 
comprimenlo nao interromjtiilo no esparo de suas in- 
serrocs — fasciculos prirailivos estriados transversal e 
lun;.'itudinalnienle — qual leiii a causa d'estas estrias? — 
tccidus que concorrem jiara a organiza^ao d-is mnsculoa 

— do tecido cellular em i^eral , e em particular do que 
in\oI\e epenetra os musculos ate as fibras p^imili^■nB (snr- 
culemraa) — do lecido adipuso — pannicnia adr|)osa snbcu- 
latiea — e d'aquelle que penelra os interslicios muscularcs 

— das arterias, veias, vasos lymphaticos e ner^os muscu- 
lares — propriediides physicas e vllaes dos musculos — sua 
analyse chimica. 

Paries iuiegrontet d'esles orsraoB : dos tendoes , apo- 
ncvruses de iniolucro ; de inser^ao — adherencia tendi- 
neo-muscular — item tendineo-ossea — synoviaes dos tfn- 
dues e Ixilsas serosas — difl'erentes bases da nomenclatura 



40 



<los miisculos tla \ ilia animal — divisSa (l'e»l« niusculuB 
em lonsus , larirus , e curtos ; os priiueirui diviiliiios em 
cahe^a . \enlre e cauila. 

Quarttu aus nitisculus da ^i(la or::Rnica, suns ditTeroni^na 
sao a58;is tiuUvcis : 8uii doUiio t* fi^'iirar na furma*;rii) dos 
urEiaos inlenios , de cnjus movmienlos s5o us |)riiici|>aes 
aireiiles - — fi-rma antuillur , on arcifuriuc de swas fibrns — 
c'Stus sJifp chamadas lisas por nao serem Cfetriudas trans- 
versalmenle, e su niui jMiucas no conipndo — tambein 
nao ufrereccm ncxuosidadt's item zigzags cunio as da vida 
aiiiuial — O diam-tro niedi<J dus fjisciculus c de — 0™,013 » 
em cjiiHiilo n mt-dio dus da vida animal e do — 0'",0i. 
FinuiiiK-Tile us iiHJSculus da vida urL;aQica nao sao sujeitos 
ao iinperiit da \i'iitade. 

Na myolui:ia dcsciiptiva set^uireraoi a ordeni do com- 
pcndiu. 

A^ PARTE. 

s^LA^c^^^oLOG^\. 

1" Appnrelho (ligestivo : desgripcao da bocca — plia- 
Tynge — esuphagu — cstomacru e valviila do pyloro ■ — 
inlcstinos delgados : <!nudeno — j'-jnnu — ileon — iiUesti- 
nos gros9u3 : cetro e valvula ileucei-al — colun e rt-cto — 
teciflos <pie cotistilucni cste longo canal — menibranai 
nnicusas <• serosaa eni L;eral , e eiu particular das que per- 
lenceisi ai> lubo dii:estiiu — tunica celhilosa — dicta mus- 
cular— vasos e iier^os — r/taridnlas : divididas em in- 
trinsecas e exlrinsrcr.s — das i^landulaa em peral — ;:laii* 
i\uli\s ititrintecas do canal lUii^i'.si'wo ; t^Iandiilas de Liei- 
berkuhuu, gl. solilarias, de Bruiiner, de Pe}er — glamlulas 
exlrlnsecas : ^I. salivares — descrip^ao das parotidas, 
submaxillares e sublinguaes — do pencreas, fi^ado e baco 
— . demonslra^Ho de lodus estes orgaos no cadaver humano, 
nos rumioantes e nas aves. 

^,° Apparelho resptratorio e vocal : descrip^ao da 
larvriLTe: suas carliln^^ens, liganientus e muscuios — cordaa 
Tocaes falsas e verdadeiras — glolte, seus \entricuIos, e 
seios de fllorsagnl — niembrana iaryngea, vasos, e nervos 

— demoDstra«;ao da laryuge do huraem e das aves — da 
trachea, bronchius e pulmoes — as plcuras custal, dia- 
phragmalica, piiliiioiiar, emediastiuica — systeiua rcspjra- 
torio das aves e cellulas aoreaa — glaodida thymus e 
thyrordea (nos luanmiiferus). 

3.° Jpparelho uritiurio : dosrins, sua fc'rraa, siluat^ito 
e eslructura ; calices — bacineto — urcteres e bexiga — 
Iccidus que coiistilueiii estes orgaos — das capsulas supra- 
renacii — dos corpus de WolfT uo feto, 

4.° Apparclho genital do sexo vinsculino : do penis e 
seus cui pus cavernosos — da urethra (contiiiua^iio t\o collo 
da bexiga) e da glande c seu lueato — dns testiculus e 
sews iii\obicros , ductus deferenles , veaiculas seminaes e 
ductus cjaculaturtus —da pruftata e vesicula wberiana 

— das ^laiiilulas duCuwper — musculos e aponevroses da 
regiiiu perineal. 

S." Appartlho genital da jwdher : partes externas : 
monte de Venuu — \tilvn, graiides e pequenos laliins, 
clitoris, vcstibulu, meato urinario e urethra — fussa na- 
vicular e fruiu — (la alierlura da vagina — da niembrana 
liyinen e carunrnlas iiiyrtirurmcs — partes internas da 
geracjiio— do iitero ~ trumpas de Fallopio^oxarius e 
vesiculas tie GraufT — liganientos larirop e urgai'S do Uo- 
senniuMer — hgamenlos ledondos — musculos da reiriuo 
|)eriiieal. 

5.^ PARTE. 

oaoAos DOS sBNTrnos. 

1.* Apparclho do tacto : da pelle, dcrme on cutis, da 
epiderme e piirraenlo — papillas lai-leis — rede lympha- 
lica — funiculus scbaceos , piluscs; clanduias sudorift-ras 
de Stenon — das unha« e cabellos. A Uile do tarto reside 
no curpo pnpillar da dermc ; porem tudos os urgSus sao 
mais ou menus sensiieis us inipressuea extranhas — divi- 
lau do tactu em acti^o e paesivo, etc. 

2." Jppnrelhu dovlfacio: partes csqueletiras das fossas 
nasaes , em que se expande n niembrana pituitaria — par- 
ies d'esta membraiia que sao a especial scdo d'este 
senlidu. 

3." Apparelho do gosto : asede d'estesentido reside nas 
papillas da membrana mucosa que revesle a iingua e era 
alguos outros pontos da bucca — dos orgaos, cnjas func- 
^5es sao necesgarias pora o cumprinienlo do ^osty. 



■*■** Apparelho da visdo : orgSoa auxilinres d'este «enti- 
do : fossas nrbitarias , sobroih.is , palpebras , eel has , con- 
junctiva e t;landulas de Meibumiu — earuncula , glandula 
pHiiUis e vias iacrymaes — musculos : levautador da pal- 
pebra superior — orbicular das palpebral — musculos du 
jlobo ocular : dos quatro muscnlos rectos , e dus .lu^^ obii- 
qiios — tJescrip(;uo do giubo do ollio — suae mcmbrauas e 
hiimures. 

3." Apparelho da audiqiio : orelha externa — seu pavi- 
Ihau e cunducto extenut — tecidos que os formam , ft 
musculos inlrinsecns e exlrinsecoe — orelha media; mem- 
brana e caixa dotympano — sens qualr.' ossiculos — aber- 
tura* da caixa do tympano : trompa d'Eustachio, orifici'> 
das celluias mastoiileas , janellus oval e redunda , etc. — 
ouviifo intcrno: lubyriulliofisseo : vestibulo , canaes serai- 
circulares , e caracol — labyrintho membranojto , iniitamlo 
em lurmas as cavidailes osseas — lympha e perilvmpha 
(Cutuimi. e Breschel). — Na nevrolugia Iraclaremo* do 
niTvu auditivo e sua* ramiflca^ocs no labyriulho^ e luni 
assim dos mais nervos dus senliib's. 

6.» PARTE. 

a.\<:eioujgia. 

Do cora^tio como orgSo central da circula^ao — vasos 
circuiatorius divididos em sanguineus e tymphalirot j e os 
primeiros divididos em arterias e veias — systenia capillar 

— descrip^Cto do cora^do — forma exterior ; suas aurjculas 
e vculriculos , vaUulas e lacertus — separa(;ao rias dilTe^ 
rentes camadas e acerlos musculares que cunformara esle 
orii^am — suas fibras transversalmente estriadas — das tuni- 
cas que formam o seu pericardjo, etc. 

Dat arteria$ em gerali defini^ao dVstes vases, cha- 
mados tambem vasos dcftrtnles per levarem o sangue do 
eora^ao para todo o orgauismo, d'onde volla pelas veias 
(vasfis afferentes) paraomesnio orrani — confronta^io das 
arterias c veias: quanto A forma e aspecto exterior — 
divisao dendritrica, trajerto o ramiScat^ilo ale se tornarem 
capillaies nos enlerslicios dos or?aos — da injec^io das 
arterias, veias e vasos lymphaticos — coii\eniencia d*esta 
operarao — cautelas que exii;e para obviar suas illusoes. 

Do systema capillar : o que se entende |)or e^ta expres- 
s3o — as jiaredes dVstes vasos, por transparentes, nao 
deixam \cr n'elles doble contorno — seu lumen s<imenle 
admitte um globulo de sangue, e por tanto so com o 
auxilio das injec(;oes e do microscopic se ])odeiu divisor 

— fimc^oes d'esta porcao ilo systrma gan2:nin'-o. 
E-tudo practico das tunicas das arterias e dos veias , 

passiiiemos dep^tis a artcriologia descripUva ^ come^nndo 
pelo sr/stcma iwrticu : da aorta , sua origem no ventriculo 
esquerdo docoraeao — vah ulas sigmoideas — divisSo d'este 
graiide laso eta aorta ascendente e descendente — seus 
troncos, di\isijes e ramifica(^ocs : seus trajectos e reiaeoes 
serao feguidas iia ordeni i!o Conipendio — sysUma pvlmo- 
nar : da arteria pnlmonar : sua origem no \Tntriculo 
dircilo do cora^'ito— valvulas sigmoideos — divisao do seu 
tronco nas duas arletias direita e esqiierda pulnionares — 
sua ramlDcarao ate se tornarem caj'iNaies — systema ve- 
nosu pnlmonar. o sangue ievado aus pulnioes pelHS arte- 
rias pulnionares Tulta pelas *eias isonynias, e embocca 
na airricula rstpierda — des<Tip(^ao d'eslas ^eius — do 
systema venos/j gcmi da rconomin : descrtp^aoda \eiQ cava 
superior — sua eml>ucradura n'auricula dircila do cora^ao 

— suas I'ivisoes, subdi\iso(>s, e ramilifaro.is dos oru'Sus 

— descriprao da \eia ca\a inferior , sua uri:,'em na mesma 
auricula, que a daveiacava superior — suns divisoes era- 
mifiracoes, etc. Da vcia das porlas — e sua ramificai;do 
aileriusa — tla ^Tande e pe(|uena azygos. 

Do systema dvs vusos lymphaticos : dii ididos em vasos 
serosns e cliylileros ^sua prepara<;ao e inject;ao — seu 
aspedo — suas orisens , trajerto , gangUos e plexos — 
snay duas termiiia^-oes nas veias subclavios : ducto Ihora- 
cico , e graude vaso lympbatico direilo — tecidos de que 
sao compostos. 

7.* PARTE. 

NEVaOLOniA. 

parte centml do systema nervom : ou ei\o cphalo- 
rachidiano, cuustituido pelo cerebro e spinal medulla 

— descrip»;iio dos tnvolucros ou nieninires da nia-^ia ence- 
phalica, cuntida na cavidade crar.iiiua — da dura mater, 
arachnoidea , e pia raaler — debcr»p(;ao da uiaisa encepha- 



41 



lica : dos hemtsj>herio8 — pontc de Varolio — cerebello — 
medulla oblongada — e das partes que liirani e relacionara 
estes (irtraos mis com os onlros — das cavidades que entre 
si furmam — aniphracIuosidadtT-s, \*fntricii!()S, f'tr. — ohjcclos 
que se olferecem deiitru d'ellas — das dilTerPiites siiltslan- 
ci«s do cereliru : meilidlar uu braiica , cinzeiita, e ama- 
rellada — a fttibstancia branca em miiitas jjartes c Gbrusa, 
e suns fibrns suscejitiveis de se2;uir-se i)or eiilre oulnus — 
defr<mte du uTaiul'.' biiraco do uncijiital a moiiida oblon- 
gada , furmando iim sitlco horizontal, ('slreita-se , e tonta 
u nome de spinal medulla — esla prussa curda prutei;ida 
peiou iiiMilucrus cuntinuos cum us que encerram a masi^u 
enceplialica, exlemle-sepelu canal racliidiano ate a se^itMi- 
da lertelira l.mjbar , aonde teroiinn di\ idiiido-se em iiiui- 
tns oorvou , que, descetido \erticalinente , constiluem a 
fUamada cuuda equina. — Deuiunstra(;5o de ludus esles 
ufiraim. 

Parle per if erica do sijatema nervoso : desiTJp^ao dos 
doze pares de nerv.iscraniiuius : ildsulfacturios — 'i|iticos — 
molor commnm — ■ palhetico — l^i^cmi(> — abducente — 
facial — aiidiino — ^luiso pharyiigeu — puenmo^astricn- 
spinal de Willis e lijpudusso — de alLfims ^aiitilins dV-eles 
nervus. l)fScri/>^fio doa trintn pares d- nervos eapinaes : 
priiicipaes plexus : u cer^ ical, o bracliial, lumbar e sai^rado. 

Sijstema dos yraudet tympnthicos : descrips;ao dn gran- 
de sjmpalhico dentro do cranco , ni> collo, iio thorax e 
nu abuumeii — 8iia;> runiiexoes cum os nervos craiiianos e 
»j)maes — cumo condrrem para a formarai) dos plexoa 
jjidraonares , cardiacos , eso|.hai,'ianos — dos nervus sjilan 
chnicoii ^ do plexo solar e gan^lios seuiiliinares — dos 
plexus diiiplira^^malicus inferiores — plexos supra-renaes , 
celiaco, coruiiario slumachico ^ hepatico, sptenieo , me- 
seiiterico, e reoal — aas porcOt-s lumbar e »a;:rada : o 
plexo Inmbo aortico — aorlieo propriamente dielu — ple- 
Jtof, misenlerico inferior, e hypo^aslrjco oude Walter, 
d'oDde dimauam o plexo hemorrliuidal medio, o inferior, 
lio testicnio e du diiclo deferenle (no humem). — na mil- 
lUer 08 plexus va^'inacs, uleiinus e nervos do iilero. 

Nenos das extremidades superiures: oriimdos do plexo 
brachial, seis ner\us principaes se di^^trilmem n'esles 
membros , e sao : u bracliial culaneu externa , o mediano , 
o cubital, o cutaneu iiiterno , o circunillexo , e o radial. 

Nervos das cxtremidades inferiures: oiiundos dos ple« 
xos lombar e sa;.'rado , uns sJlu anteriores e outrus posle- 
riores ; de^icriprlio do nervo obturador , do crural, do 
grande e pe<pienu scialicos. 

iA. li Fareiuus cunlu-cer aos nossos aliimnos as cousas 
limit) nutaveis de analumia cumparada , em referencia aus 
objectus de analoinia humana j uu passo que dustes ae for 
tructaiido. 



CREDITO TERUITOaiAL. 

Conlinuado de pa?. 31. 

IV. 

Km que psparn de tempo deva elTeitiiar- 
fe a ariiorti~a(,';\i) ; se hade c-ome^ar de-de 
Icigi'', ae pas^a■ios annos depoi-. de coiiLraliido 
oemprestidin, toinn Lpier \\ olciwski; que pane 
do valor das priiDriedadcs liypntliecadai (los- 
sain represf alar os iJtulos de peuiior ; qiiantos 
por cento haja de pag;lr o pioprielario a 
Associajao; que iiiodil'ira^nes deiaai operar- 
se eii) a iiotsa legislafao snhre prazos, viuL-ulos 
e pnncipalmeule iiypnlli.Ta-; ^uuoulros tautn, 
[jniitos cuja soluyfio depende, ja, de circums- 
laiicias de tempo e logar, jii do sy^lellla de 
direilo civil adoptado eulre nos ; e por isso 
iios liinitamos a euuiicial-os. 

E poreiii uma grave qiiestfio, diz Rossi, 
se a organisagao do credito asrricola deve ser 
abandonada ao inleresse particular, se col- 
locada debaixo do poder, ou pelo mcnos da 
alta direijf'io do (joveriio. 



llelativameiile ao nosso paiz, paiece-nos 
estara ((uestao resolvida. Ila lal preven^ao 
contra os abusos do Governo ein materia de 
credito, que fora diCficil sciiao impossivcl ins- 
titulr, entre nos, iim banco territorial deiiai\o 
desua immediatadirecg'io. Toruar-se-liia geral 
o bern f'undado receio de que seriam os juros 
mal pan'os, asamorlisa^oes illiisoriase, conse- 
quencia inevitavei, os titulos de peahor de- 
piefiados. 

Dado porem que liouvesse bastantc con- 
fianga no Governo, alem de ser estraniio ao 
sen fun intervir directamente no eslabeleci- 
iiieuto do credilo, de que servlria essa in- 
tcivengao? Os capitalislas n.'io neoessitam da 
poderosa garantia queoiistado, em geral, Hies 
pode olieiecer, uma vez que o penlior de sens 
capilaes seja a propriedade territorial regida 
por boa- leis, penlior tfio solido c segiiro que 
u.'io poJe traiisporlar-se de um para outro 
logar como a nioeda. Fora ale inconveniente 
a iiiterven9ao directa do Estado. Se pile se 
cn[istituis>e interinedio entre os capilali^tas c 
OS proprictarios, liaveria uma cenlralisagiio 
absoluia, uma espeoie de monopolio, e entao 
deixara desubsistira importante vantagem das 
associa96e5 livres — a circulagao dos titulos 
entre essas mesmas associa9oes, elemento de 
uma boa organisa^ao de credito territorial. 

iNa Allemanlia e na Suissa existem liancos 
territoriaes fundados por associa^oes de ca- 
pitalislas; mas estes estabelecimentos parecem 
de;dizerda indole propria dos bancosagricolas, 
e por isso Hies enxergamos desvantagens que 
talvez a pratica nao confirme. 

Comparando os fundos das associa^oes nos 
dons syslemas, resulta que a garantia of- 
ferecida pela as^ocia^ao de proprielarios con- 
si^te nas propriedades dos accioni^tas, e nas 
propriedades dos tomadores de emprestimos, 
no entanto que a offerecida pela associarao 
derapilalistas reduz-se unicamenle as proprie- 
dades que OS tomadoies liypolliecarem; exrp- 
plo se as ac^oes dos assoeiados liouverem de 
ticar emcaixa, mas em lal caso recaliira sobre 
OS tomadores o juro desses capilaes estagnados. 

fi certo(]ue, jia liypolliesedese converterem 
em tomadores de emprestimo todos os accio- 
nisla> proprietarios , o que difticilmenle se 
reiilisara, porque os suppomos proprielarios 
abaslados, a garantia seria egual em qual- 
quer dos syslemas. Mas ainda assini, a as. 
socia(,-rio de capitalislas, pondo-se em im- 
mediala rela^ao coui os proprielarios ler- 
riloriae-, nao pode tornar ifiosensivel abene- 
fiea intiueucia de um inlermedio, que modera 
as exigencias daquelles eiatisl'az asnecessida- 
des destes, que <■ o niais iiaere^sado, em tim, 
na exislencia e prospcridade do banco, em- 
bora delle lire pouco ou neiilium inlcresse 
pecuniario. 

Eiu presen^a deltas consideragoes, julgamns 
prel'erivel o syslema d'associae'io livrc de pro- 
prietarios territoriaes, posloque, em quanio 
o noiso paiz se nao alTizesse as instituigues 



42 



de credito agricola , futa convenieiilc (]uc na 
empresa pntrasse alf^mii capilalisla, para que 
a assnciarao tivesse iiina por(;'in de luimerario 
com que occorresse as despesa-i piiinarias do 
eslal>i'h'cijnenlo, a oompia d'alguiis lihdos 
recusados pcloa capitali-las , e a pcqiieiins 
pertiiihu(jnes que pnssain provir de t'.dla de 
cumprimeiilo da parte d'alsuns tomadores de 
einprestimo Fmidado iolidaiiientJ o crediLo, 
lodo ejse capital poder;i ser eiiiprefjado na 
compra do titulos, doude lia-do resultar o 
l)en«ticio <le diiiiiiiuir a taxa do jure. 



As vanla^ens que da in6titui?ao do credito 
territorial tiraria o nosso paiz , sao tantas e 
tao trauscenderite-., que iifio roniporta este 
liiuitadn traballio enunieral-as por menor. 

Ao principio nao conviria ao proprietario 
recorrer ao banco, senfio para ol)ter capitaes 
com que inelliorasse o mal:erial d'explora- 
<;ao; porque e jiecessario dibtinguir duas 
cousas — o rendinienlo do fundo, e o lucro 
da industria do cultivador. Quem pedir etn- 
prestado a 8 i, por exenipio, para comprar ter- 
ras que so rendeni 2 ou 3^ I'aru, com etTeito, 
muito mau negocio; mas quem tomar de em- 
prestimo, para melliorar acullura de suas pro- 
priedades, devera poder pagar nm juro tao 
tievadn como qualquer outra industria. Pros- 
perando as associa^oes lerritoriaes , acon- 
teceria o que seinpre succede, benetrcio ines- 
tiuiavel do credito, descer courideravelmente 
a taxa do juro. Na Silesia, por exeinplo, era 
a taxa 12 ou 13 ° ; fundada a as!Ocia5rio ter- 
ritorial , liaixou a 2 r j. 

Uaia uiassa enornie de numerario que existe 
rcparlido |)or niilliares de rraos, encerrado 
em coffres, e ate no seio doscampos, correria 
a empregar-se em titulos de penlior, ou a 
depositar-se nas caixns eeonomicas. E e^te 
capital [jerdido para a producgao, porque nao 
circula, posto em nioviuiento, levaria at'ecun- 
didade ate os logares inais remolos, onde suas 
parcellas dissemiuadas sao de todo estereis. 

As caixai eeonomicas estabeleceriam rela- 
goes, conta correiite com as associajoes ter- 
TJtoriaes, eutregando-lhes sens f'undos. Oiide 
acliariaiii ellas maisgarautias, inais sPguranca! 
As grandes sommas que se deposilain na? 
caixas eeonomicas constitueui um graude 
porigo para estes eslabeleeimeulos : sao como 
iiuia letia de cambio de muilos millioes sacada 
sobre el la?, e vencida todos os dias. Porque 
as caixas eeonomicas , ,desemparada> das as- 
sociagoes lerritoriaes, n.io podem satisfazer a 
osta dupla condigao de sua existencia — em- 
pregar os depoiilos de um modo lucrative, e 
enlregal-os aos depositanles quaudo estes lli'os 
pedirem. Jiui vez de abaixar o lirnite dos de- 
positos, como se tern feito, o que cunipre e 
regular o emprego dos fundos das caixas 
eeonomicas que, com rasfio, tern sido cliama- 
das escliolas pritnarias dos capitaes ; c para 



i>so e condicao indispeiisavei a organisajao 
do credito territorial. 

As eeoiioudas que o trabalhador deposita 
nas caixas eeonomicas nao sao unicamenle 
uma reserva para os maus dias de sua vida , 
um dote que seaccumula para sens fillios; sao 
tambeai um meio de poder estabelecer-se por 
sua conta, de subir o grau niaisdifl'ieil e inveja- 
do da escala social; saoum meio dceinancipar 
o traballio, de ligar pelo vinculo da depen- 
dencia as classes superiores coin as inferiores; 
sao uma propriedade que se funda, que se ad- 
quire de dia para dia , com todos os seus 
resullados, todas as suas garantias, todos os 
seus beneficios. 

iintre um paiz, cujo solo estivessi* onerado 
com dividas hypotbetarias consideraveis, que 
absorvessem toda a parte do rendimento de- 
stl[iado a mellioramentos lerritoriaes, e oulro 
paiz que, livre de suas dividas, gozasse de 
um credito territorial tloresccnte, empregado 
todos OS annos eui lazer novos niellioramentos, 
nfio baveria concurrencia possivel na produc- 
(,':io agricola. A renda perpetua desses me- 
Ihoramentos, augmenlando o bem estar de 
lodas as classes sociaes , animaria prodigiosa- 
mente as artes, facilitaria a cobranga dos 
im[)oslos, e t'avoreceria empresas gigantes. 



Dizia Colbert, lani^ando uma vista d'olhos 
para os arredores de Versailles: — it quizera 
que estes cauipos fossem felizes, que nelles 
reinasse a abuudancia, embora , sem em- 
prego, sem lionras, banido dosla terra, eu 
soubesse que mas ervas crcsciain no paleo do 
meu palacio. V E quem n:1o sentiia brotar-lhe 
n alma esse lao grande e liuniano sentimeiito 
que expressam estas meuioraveis palavras? 

Os grande-, os ricos proprietarios e capita- 
listas que abandonaram os campos pelas po- 
pulo^as cidadci, ondevivem naopuleneia, que 
se nfio esquegaiu do que devem a terra, no6sa 
mina mats fecunda. 

Os governanles, niandatariosda na^ao, e os 
que sem uiaudato a querem goveruar, (]uando 
repousarem de=se fatal afau da poiiticii , que 
volva[ii OS ollios para o povo dos campo- , 
sempre tao lai)orioso e seujpre deslembrado , 
seinpre Siio util e sempre oppriniido. 

JACl.NTUO A. Dli SOUZA. 



UMA PERDA PAR.\ AS LETRAS. 

Quando desapparece da superficie da terra, 
para se escondc^r nas sondjias da sepultura, 
uni^cultor ifio assiduo daslelias, como osnr. 
Jose Maria cLi Costa eSilva, e dever dos que 
amam a gloria do seu paiz, vir ao tribunal 
da impreusa regislar as virtudes e inereci- 
I mentos d'e^se boraein ; ou isso seja uni in- 



43 



cenlivo para os que viercm depois , ou seja 
um tribiito devido ao que se finou. 

Mais oil inenos assijii o leiu practicado iima 
parte dojoiiialismoporUi^uez, eeii veiiliotam- 
bcm hoje pedir uiiia pii^iiia ao Jnslitulo, 
para, exoiieraiido-nie da divida, alii deixar 
consif^nada uina peqiieiia nolicia de lao il- 
liistre escriptor. Nao a toniem como biogra- 
pliia acabada, que o nTio e, neni o podia ser. 
Por uin lado nfio ha, que eu saiba , bas- 
taiites siilibidios escriplos que consullar, por 
outro lado inal coiilieci osnr. Costa eSilva , e 
so live a lionra de llie i'allar iiiua voz. A esta 
cnlrevibla e que en devo o pouco que vou dizer, 
mas como ainda assim esle pouco e mais que 
o que se tern publieado, e geralmenle se sa- 
be, entPiido que o nao devo occultar. 

O men eslimavel amigo .1. F. Ayres de 
Gouvea liavia-me escriplo de Pariz, em abril 
de 1852 pedindo-ino entre ouLras coisas, 
algiins aponlainentos biograpliicos, afim de 
OS oft'erecer a Mr. Ferdinand Duiiz, que pro- 
seguindo na gencrosa tarefa de se occupar 
das nossas cousas, queria laiilo d'esle , como 
d'oulros escriptores portuguezes, dar uma 
nolicia na grande l)iograpl)ia universal, que 
se cstava puljlicando. Para salisfazer a este 
empenlio prociirei o snr. Costa e Silva, 
expuz-ilie a minlia inissfio, e com (|uantoa sua 
reconliecida modeslia preleiidesse esquivar-se 
a tfio jnsto pedido , consegui, quo o sen de- 
dicado amigo, o ex."'° siir. Jose' Caetano de 
Campos me desse no dia immedlalo alguns 
apontamenlos para a sua biograpliia. 

Osnr. Jose Maria da Costa e Silva nasceo em 
Lisboa a 1& d'agoslo de 1788, Foi o primeiro 
fillio de Francisco Antonio da Silva , llie- 
soureiro, que foi, do terreiro publico d'aquel- 
la cidade , e de sua miilber D. Marianna 
Roza dos Prazeres. Veio ao mundo em lal 
estado de debilidade, que se julgou que a 
sua vida seria de muitos poucos dias; feliz- 
menle este prognostico nao se verilieou, mas 
u sua infancia foi sempre valetudinaria. 

Estudoii latim com o celebre professor 
Jose' da Costa e Silva, o grego com Manoel 
Moreira de Carvallio, rhelorica com o Dr. 
Maximiano Pedro d'Araiijo Ril)eiro, plii- 
losopliia racional e moral, com o padre Fr. 
Joao de Souza , Religioso triiio , Pliysica 
no convenlo de S. Vicente, e theologia na 
congregagao da oraloria de Lisboa. Sens paes o 
destinavani para a medicina, sciencia da sua 
predilecgao, mas circumslancias de familia e 
a morte de sen pae obstaram a verifica<;rio 
d'esle projecto. O sfir. J. M. da C. e Silva co- 
me^ou muilo cedo a cuUivar a poesia. N'um 
dos seus poemas invocando a miiza diz^lhe: 

« Companheira fiel lu me tens sido 
Defitie a mimosa infancia, e me Influisles 
Esta ancia de saber, que me devora 
E lao pouco uiedroii entre as procullas 
D'uma vida agitada I >. 

Companheira fiel Ihe foi desde bem cedo, 
li cerlo; linha apenas 17 annos quando com- 



pos o poema descriptivo intitnlado o Passcio, 
que taiitos elogios Hie merereu ; e se nfio fos- 
sem as procellas d'uma vida agitada muifas 
mais riquezas litterarias teriain ciinobrecido a 
sua juventude. (jiie cabedal <rintelligencia e 
saber nao esperdigou elle vendo-sc obrigado a 
escrever perto de vinle annos para o Iheatro '. 
Que traballios iiiglorios nao leve para laiigar 
ao minotauro da scena, por um lao longo 
espago de tempo, alem de muilos elogios 
drainaticos, mais de duzeutos driimas, tanlo 
Iraduzidos, como iinilados de diversas linguas 
e alguns originacs! Que paginas brilliantes 
nao contaria boje a litteratura portugueza se 
o esperan^oso auctor do I'asseio podesse con- 
tinuar deaassombrado a cultivar os doles da 
sua vigorosa imaginajao? Assim mesino de 
lodos esses traballios, que a scena diaria- 
menle Ihe pedia , e que elle a correr llie de- 
dicava , alguns exislem , que lia lodo o in- 
teresse em colligir, e farii um bom service 
quem OS publicar. 

Entre oulras pegas traduzio o siir. Costa e 
Silva do inglez — The fair;/ penitent, tragerJia 
de Rowe, e o Catdo d'Addison. Do italiano 
a JVIi/rrlia e o Saul, tragedias d'Alfieri, e 
o Sal to de Leucatc — de Pinelemonti. Do 
francez Zclinire e o Cerco de Calais — ambas 
de De-Belloy; — . a ylhiraea Zaira de Voltaire; 
— o Macbeth e Roi Lear de Ducis. 

Qualqiier liomem sufficientemente lido co- 
nhece o valor d'estas pegas. Saul, pega model- 
lada pelas de Sliakspeare, e d'entre as d'AI-" 
fieri a que elle tinlia em maior conta , e a 
que sobre a scena eneonlrou sempre os mais 
constanles applansos. jl Bella Penitente de 
Rowe e um dos dramas do seculo XVIII 
que se conservam com merecida celebridade 
no reportorio do tliealro inglez. O Cerco de 
Calais de De-Bel!oy e a peja coniiecida 
de toda a Fran(;a , a que valeu uma meda- 
llia d'ouro e o titulo de cidadao de Calais 
ao seu auctor, a que Hie troiixe os elogios de 
Voltaire e de todos os liomens esclarecidos do 
sen tempo. Ji'lacbeth e Le Roi Lear, imita- 
tados de Sliakspeare sao duas pecas , que 
fizeram a reputagfio de Ducis, e que por con- 
fissao do proprio La-Harpe, que Hie nao era 
alfeigoado, liveram nos llieatros de Franga 
applausos eguaes aos da Zaira e da Mtrope, 

Das Iragedias de Voltaire nao fallaremos, 
sfio bem conliecidas. Estas obras primas per- 
deriam muilo na Iraducfjao ? Nao o acredila- 
mos. O snr. Costa e Silva era baslanle poeta 
para as comprehender, e era bastante versado 
nas linguas para as traduzir. Do poeta depoem 
OS numerosos versos que nosdeixou. Dotradu- 
ctor depoem a Imaginagdo e os Argonaulas, 
que alii correm impre=sos. 

Entre os seus escriplos para o thealro en- 
contram-se lambem Irez tragedias originaes , 
e d'as<umpto portuguez — D. Sebastido, 
D Jffomo Henrique$, e D. Jodo de Castro. 

Em 22 de fevereiro de 1836 foi o snr. 
CosU e Silva nomeado director da secrelaria 



44 



tl;i caniaia iiiMiiicip;il de Lishna, sem o liaver 
reqiieriilo, coino coiista citis livros da iiiesma 
cainura; e em 17 d'ii;,'osto de 18 U foi no- 
ineado, taiiibein sein o requerer, secrelario 
da mesina mmiicipalidadf, e confiirnado por 
carta rejjia de 17 di- dezeinbro de I8U. 

As obiiijai.oes d'eile cari;o, que elle de- 
seinpenliava eoiiio lioiiiem exaclo e escriipidoso 
que era, iifio o iiiipedirain de eontiimar a 
litteratura e a poezia. De Il!3(! para cii data 
lima jjraiide parte dos sens escripLos, e enlre 
elles sohresalie pelo f^eiiero o — Ensaio 
biograpkico-critico sobre o^ mcUtores poefus 
porlugursts, dcsdc o principio da inonarckut 
ate ao nosso tempo. Eita ol)ia se nao veio 
preenclier veio dimiiuiir iim <,'rarule vacuo, que 
liaviu em a nossa historia lilteraria, se acaso 
tonics o que pode edevecliainar-se iinia historia 
lilteraria. O Ensaio, como o sen mesiiio noun.' 
estii dizeiido , iiao e iiiii traballio complecto; 
para o ser era iDister que existissem niais 
elementos de quo laiicjar iiiao, que o passado 
iios lefrasae mais inemorias, niaior copia de 
subsidies, que consiiltar. Era necessario que 
o seu auclor livesse uma vida de mais 
repouso e o liouvesse eiiipreliendido em edade 
ineiins adiaiitada. Assim niesnio , obra de 8 
bolida erudi^fio, e de consciencia a ponto de 
se n.'io cilar urn uiiico poota , que se nfio 
livesse lido, o Ensaio veio ocoupar um logar 
distinclo enlre as nossus pouquissimas obras 
<le crilica lilteraria, e enlre estas e de certo 
a mais cmnploita que tenios. 

Em IB.Jl diSMO-me o siir Costa e Silva que 
calcidava que rata obra llie deitaria uns dox 
volumes, e que se acliava quasi lerminada 
A morle veio surpreliendel-o quandoa publica- 
(,'10 Ilia no 7.° loino, mas e de crer que o seu 
auclor lionvesse concluido eslo traballio, e 
que aiiida o venlianios a possuir lodo. Alem 
d'esta parte do linsaio , que ficoii por pu- 
Micar, e das pec^as de tliealrn, que lia pouco 
niencionoi , deixou o snr. Costa e Silva em 
maniiscripto : 

Um poema em 13 tanlos, em lercolos, in- 
titulado a Sepidtura dc Maria. — Os qua- 
tro primeiros cantos da traduct^ao da liiada 
d'llomero. — Um grande numero d'Odes, 
Epistolas e outras poesias liijeiras, tanto ori- 
i^inaes, como traduzidas de differeiiles linguas 
anlif,'as e niodernas. 

Impreisas licaram-nos as segiiintes obras : 

A Iriia'nnagdo — poesiade Delille traduzida 
verso por verso, 3 volumes. — O Passeio — 
poema descriprivo em 4 cantos, 1 volume. — 
Os ^mantes Suevos — poema romanlico , 1 
volume. — Izabel on a Heroina d'Aragao, 
poema romantico, L volume. — O E spectra 
■ — -poema romantico em 4 cantos, 1 volume. 
— A traducgao em verso dos ^rgonautas — 
poema d'Apollonio de lUiodes, 1 volume — . 
Odes, 1 volume — fabulas, 1 volume — Epi- 
stolas e Sonelos , 1 volume. — Ensaio biogra- 
phico-criiico , 7 volumes. 

Eis o iiiveniario das riquezas litterarias do 



infali^'avel oscriptor .quo n.1o Juvidou aferir 
OS sens voos pela verd.ide da riioderiia escliola, 
sem com liulo rone^ar as tra<lic(;oes da clas- 
sica, em que I'oi enil)allado — 17 volumes im- 
pre^sos, e talvez mais de 10 por pulilicar. 

E necessario ace te^ceiitar que morn-u pobre? 
Os sens escriptos, uma rep\itac,'ao sem manclia 
e uma escolliida livraria, ajuiitada por espa(;o 
de bO annos, e adquirida com o que sobrava 
da sua deceiite sustentaci'Tio — ois tudo o que 
ficoii a sua viuva, a snr.' D. Rita de Cassia e 
Silva, e a dois lillios menores. Eui 186-1. ainda 
elle podia com verdade repetir o (jue escrevoo 
em 1832: 

** Til so, Miisa , so In visttnr oiisks 

Du jtolire viite o solit;»riu all>er;:in? .' 

Niiu te tni.«|)e(lii upiilenria apparrtlusa 

VictosoH caniHrins, Iremus tlourHdns ; 

PoncdS livros e ami^Mis itiila ineims 

E e.xacta pruljidade — eis mens ibesouros. •• 

Diz-se que a actual verea^.'io prelende dar 
um testiinunlio do apre90 em que liiilia o seu 
secretano, preslando-se a proleger a t'amilia 
do fallecido. Se o t'lzer tera os elogios de 
todos OS liomens que ainda teem n'algiima 
conia a illustra^ao da patria. Nao o ouso 
agora aflirmar, mas parece-me que o poetii 
desceu a sepultura sem que uma unica fila 
llie enfeitasse o peilo. Nao e desdouro o 
trazel' as, mas a liomens como esle, eque ellas 
de preterencia deviam ser dadas. Era socio 
correspondente daacademia real das sciencias 
de Lislioa, socio lionorario da academia 
Lislionen^e das sciencias e das letras, e socio 
correspontente do gabinete de leilura do Rio 
de Janeiro. 

Eis OS litulos lionorificos do homem que a 
morle siibilamente nos roiibou , e que meia 
dir^ia d'amigos fieis acompanliaram a ultima 
morada faz lioje li) dias. Cou^a nolavel! Em 
qiianto, tfio modestamente, se faziam entre noi 
pstas lioiiras luiiebres traziam-iios os jornaes 
da America a noticia de haver fallecido a 
celebre bailarina Rosalia Bu^tamanle, cujo 
enlerro se havia feilo em Havana com uma 
pompa raras vezes visla. 

a O set! saliimento, diziani , foi acompa- 
nliado por arlislas , commeiciantes, ofliciaes 
do exercito e da armada , escriplores pu- 
blicos, poolas , medicos dislinclos , e nma 
grande multidfio de pessoas iiotaveis de todas 
as classes da povoaCj-ao em rigoroso lucto. 
O coche fuiierario era seguido de mais de 
duzentas carruagens. « 

Nao trago islo para censurar os habitantes 
de Havana. O parallelo vem so para dizer , 
sem receio de ser desrnentido , que entre os 
povos do Novo Mundo e mais uma boa 
dangarina, do que entre nus urn liomem de 
letras, niesmo um hoinem de lolras como os 
queria Andrietix , e como era decididamente 
o sfir. Costa e Silva. 

L'accord d'un beau talent et d'un bemi- 
caractere. 

Leiria 18Sk *. x, r. CORDEIRO, 



45 



PRIMEIRA EXPOSICAO 



SOCICDIDE DE FL0R4 E POMONA. 

O Jury noineado porSua Ma^estade El-rei 
<) Si'iilior D. I'V-niyiido, iia ijiialidade de Pre- 
• ideiile da Sociedade de Flora e Pomona, 
para coiil'erir os preinios da exposi^fio, a que 
a mesriia sociedade procedeu iios dias 12, 13 
e 14 do mei! de maio, no Passeio publico, 
depois de examinar coiiveiiieiiLouieiite lodos os 
objectos, que concorrerain a exposi5rio, una- 
idiiiemente concordou no juizo se^'ulnte. 

Que so devem agradecinienloa as pessoas, 
que iinmediatamente concorreram para o 
mndo artislico e gracioso por(|ue as plantas 
alii reunidas foram disposlas, e se otTereciain 
a observa^'ao dos especLadores. Conliil)uiu 
para isso o conhecido boin goslo do sfir. 
Cinnati, e o do sur. Bonnard, jardineiro d' El- 
rei, OS quaes forani encarregados de lodo o 
arranjo do local e colloca^'ao das plantas, 
pt'la coniinissfio nonieada para levar a effeilo 
a prinieira exposi^:^ da sociedade. 

Ouiro reconlieciineiUo lia a tributar; e o 
que se deve ao publico da capital. Apesar 
de ter concorrido ;jrande nuinero de pessoas 
em todos os tres dias da exposijfio, e do llies 
nao Laver sido vedado o aproxitnareni-te de 
cada nni dos objectos, as planlas nfio sof- 
frerarn o nienor prejuizo, e foratn etjtregues 
todas a sens respectivos donos ein tao bom 
e-lado, como aquelle em que liaviaai sido 
iecebida«, p;rai;as ao extreme bom senso e 
docilidade dos liabitautes desta cidade. 

Neste ajunlamento de plantas, o que mais 
imtncdiatamenle feria a altenyao era o nia- 
<,aiifR-o t';rupo de vegetaes dos tropicos, que 
guarnecia a parte mais eminente das lianta- 
das centraes, tonipo^lo (pjasi lodo das nunie- 
rosas e niui viatosas Palineiras, Musaceas e 
Pandanaceas, pertencenles as colli'c^nes do 
jardini das iNecesiidades. Doniinava o centro 
tieste extenso grupo de plantas a niagcsto^a 
Latania borbonica corn a sua magriilka e 
brilliante i'olliagem. A imaginayao poderia 
fazer-nos crer transportados a essas regioes 
intertropicaes, aonde so e possivel ver e 
admirar a vigorosa vegelajao, que cliega a 
crear as brilhantes formas e ao niesmo tempo 
as enormes propor^oas, que as diversas partes 
dos vegelaes alii adquirem. 

De palmeiras os nossos jardins n'lo pos- 
stiiam mais do que a palmeira das igrejas 
(Pba;nix dactylifera) e a muito nacional 
palmeira das vassouras (Chamaerops hutnilis). 
A collec^ao d'El-rei o senlior D. Fernando 
veio alargar este estreito campo da observa- 
5a^, e nos fez conhecer perto de mais quarenta 
especies nos generos Pha;nix, Cocos, Jub;ea, 
Latania, Sabal, Bactris, Cbamaidorea, Co- 
ryplia , Diplothemium , Saribus, Rhapis , 
Borassus, Drymopalseus, Acrocomia , Pi- 
nanga, Ceroxylon, Qualieirna, Daemonorops, 
Copernicia, Astrocaryon, Caryota, Attalea e 



Geonoma. Entre as especies desles generos 
(igurava o coco da praia dos brazileiros 
(diplothemium maritimum); o Ceroxylon an- 
dicola, notavel pi4a quantidade de materia 
gorda que accnmula na base das folhas ; o 
tJorassus tlabelliCormis, e a Corypha gebanga, 
palmeiras do maior prestimo na Asia, pelo 
sueco sacliarino e licor fermentado que ibr- 
nccem, jjela materia feculenla que Ilies apro- 
veitam do tronco, as cordagens, tecidos e 
variados utensilios, que se fabricarn com as 
suas follias. Podia Igualmenle ver-se entre as 
palmeiras d'El-rei urn coqueiro (Cocos nu- 
cil'era) bem desinvolvido e ppgado ao coco 
de qu^e nascera;era da quinta das Larangeiras 
do snr. Conde de Farrobo, idonde lambein 
veio un)a ouira palmeira, que se pensa ser 
do genero Acrocomia. 

E certo porem que esles soberbos vegetaes 
adorno e riqueza das regioes que habitam, 
pelos seus limites geograpliicos de 40" no 
liomisplierio boreal e 36° no bemisferioaustral 
limite, que diflicilmente transpoem, nunca 
poderao, mesmo no nosso clima, esperar em 
geral outro asylo mais do que o das estulas. 
O nosso Cliamserops humilis ja paga com 
sua liumildade a latitude, a que estende a 
sua babitagao: o Pluenix dactylifera, trans- 
portado de^de muito tempo do norte d'Africa 
para a nossa cultura, desenvolve-se, e verda- 
de, bem neste clima, mas nao fructificando 
niostra nao acliar nelle todas as condigoes do 
clima que Hie e proprio. 

Nao sera comtudo impossivel, que no 
menos desle mesmo modo se possa ohter a 
acclimata^ao no nosso solo, e especialmente 
no Algarvc, de outras palmeiras, que poslo 
perten^am a latitudes tanto oil mais austraes 
do que a do Plitenix dactylifera, tcnham alii 
peia maior aliura que liabitam, um clima 
que nao defira muito do nosso. O traballio 
e diligencias dos liorticultores intelligentes e 
per^eveiantea e que poderao resolver o pio- 
bleuia de-sa accliuiatajao ; nao podendo com- 
tudo deixar de recoiiliecer-se que na Europa 
a cultura das palmeiras, ou dos muito bem 
chamados princi|)os da vegetagao, lia-de ser 
sempre cultura so para principes, ou para 
e-,tabelecimentos publicos muito bem dotados; 
e (|ue nunca se devera esperar dessa cultura 
outro interesse mais, que o do esludo, e o do 
orriato dos grandes jardins. 

Sabemos que sua mage^ade El-rei o senhor 
D Fernando conseguira ter da Abyssinia se- 
mentes de palmeiras de regiao elevada da- 
quella parte d'Africa, e que estas sementes 
nojardim das iNecessidades poderam germinar 
bem. Prosegue-se em diligencias para saber 
ate que ponto se podera consegnir o sen de- 
senvolvimento, e ao ar livre. E um bello 
ensaio, muito bem comegado, e rujos resulta- 
dos liao de por certo interessar bastante nfio 
so a curiosidade, rnas a sciencia. 

As Musaceas tinham os quasi unicos tres 
generos que as conslituem, representados na 



46 



pxposi^rio. O ,i;eneio Miisa, de que so co- 
iilieciainos nos jai'dins as quatro especies. 
Miisa paradisiiica. M. sapicntiiiii, M. coc- 
ciiiea, e ]M. Caveiidiiliii ou sinonei?, nos 
inostra hoje mais seis, (pie sfio a M. macio- 
carpa, M. arj,'eiUea, M. violacca, jM bra- 
silicnsis, M. piimiUn, e a rniiilo engrarada 
M. zelirina; lodas das collec(;oi's do jardim 
das Necessidades. 

IgualdtMUe se via a Ilavanala madagas- 
c;ariensi6 do jardim do Liiiiiiar : e a Ilclicniiia 
liirturacea, II. vaneijala, e JI l)iiiai ; todas 
Ires do jardira das Necossidades. 

Todas eslas Alusaceas, novas nos nossos 
jardins, sao lanibcin, exceplo a ultima, de 
if'cenlc inhodiic^ao iias oiiiluras da Iviropa. 

As Cycadcas, alem da Cynas revoliita, e 
da C. circinalis, ju conliecidas nos jardins, 
cram alii rcpresonladas por Ires bons cxeni- 
plares de Zaiiiia, a Zamia picla,a Z. mexicana, 
<■ a Z. lanuginosa ^ lodos das collec^oes de 
Jil-rei o senlior D. Fernando, os primeiros 
que apparecem nos nossos jardins, e tainbem 
de recenle inlroducgao nos da Europa. Enlre 
OS exemplares de Cyeas fez-se notar o per- 
tencente ao sTir. Santos, pelo seu bom estado 
e niaior desenvolvimenlo; era do Cycas 
revoluta, especie alias que a observagao tein 
mostrado receber muito bem as condi^oes do 
iiosso clima. Deste mesmo expositor era unia 
outra planta, o Laurus cassia, uma das arvores 
da canella, e que mais especialniente fornece 
a da China; fazia-se notar pela excellente 
vegelagao e perfeito dcsenvolvimento em que 
se achava. 

As Pandanaceas eram represontadas pelo 
Pandanus utilis. P javaniciis, e iini exemplar 
daCarloduvicasobgea; exceptuundoa primera, 
todas tambeii) de recenle inlroducjfio nas 
nossas culluras, e pertencenles a primeira e 
terceira especies ao jardim das Necessidades, 
• ■ a segunda ao do Lumiar. 

Cliamava a altengao, por suas grandcs 
proporjoes, uin Crinum iiisigne do jardim 
das ^>ecessidades ; dois bons exemplares da 
Bonapartia gracilis, e B. jiincea, e duas 
outras Bromeliaceas floridas, que nfio vinliam 
nomeadas, mas que devem ser do genero 
Pourrhelia ou Tillandsia, das que vegelam 
simplesmento suspcnsas no ar. 

Contribuiam tambem para constituir o 
grupo central de plantas a Dracitna nobilis, 
a D. reflexa, a D. umbiaculifera, o Cal- 
ladium bicolor, o Dracontnim pert.isum, e 
uma nova JMaranta, a M. alro purpurea do 
jardim do Lumiar. 

Depois das Palmeiras e demais plantas, 
que temos indicado, e que assim sobresaiam 
no centro daexposigao, a alten^iio nao podia 
deixar de se fixar em duas grandes collecgoes 
de Coniferas, que se viam do lado esquerdo. 

Uma destas collecgoes e do jardim das 
Necessidades, e contava para mais de cento 
e vinte exemplares, a outra do sfir. Bento 
Antonio Alves linlia uns oilenta. 



Alem das Araucarias maisconliecidasexislia 
a Araucaria Bidwillii, c um exemplar com 
a indica(;fio de A. columnaris, cuja exactid.'io 
porem ficoii para nos em duvida li vista 
da descrip<;rio e estampa que vimos da A- 
columnaris no jornal Flore des Serves. O 
exemplar pareceu-nos ser da Araucariaexcelsa. 
R cerlo que as duas Araucarias aiidaram con- 
fundidas, o que prova a sua siinillian^a. Se 
iusistimos nesles pormenores e porque scndo 
o exemplar, a que nos ret'erimos , a verda- 
deira Araucaria columnaris, tornava-se uma 
novidade importante, mais uma especie que 
veriamos representada nos nossos jardins, per- 
lencente a um genero, que nos merece o 
inaior interesse pelo bem que o nosso clima tern 
liospedado outras especies congeneres, e pelo 
i'litiiro que promelte ii sylviciiltura do paiz. 

Quasi todos os Juniperus conliecidos, grande 
nuniero de Cuprcssiis, de Pinus, de Tliiiya, 
de Taxiis, de Cedrus tinliam individuos neslas 
collecgoes; alem disso, erain reprcsentados os 
generos Libo-cedrus, 'J'axodium, Ciyptomeria, 
Pliyllocladus Callilris, Biota, Dacrydium, 
r'renella, Chamiecyparis, Ceplialotaxus, Wi- 
dringlonia, Jletinispora, e Podocarpus. A co- 
lossal Sequoia gigantea, que no seu paiz, a 
California, cliega a ter tresentos pes dealtura 
e trinta pes de circumferencia no [ronco, lii 
tinha tambem um peqiieno representanle. 
Tambem os tinliam a Saxe-gotlncaconspioua, 
e a Fitz-roya patagonica, novissiinas especies 
introdiizidas na liorlicultura, e Irazidas dos 
Andes da Patagonia por um collector da casa 
Veilcli de Exeter, o siir. Lobb. Sao tambem 
arvores, que lomam grandes dimensoes, liabi- 
tam regioes frias, proximas mesmo aos gelos 
perpetuos, e que soffrem alem dos effeitos da 
baixa lemperatura o embate de forlissimas 
ventanias; dovendo por tudo csperar-se destas 
arvores excellentes povoadores para as cu- 
miadas de nuiitas das monlanlias da Europa. 
A Saxe-golliaea rccebeu o nome do Principe 
Alberto, de Inglalerra, a quern fora dc- 
dicada. 

A proposilo das Coniferas devem mencionar- 
se dois exemplares de Araiicaria-excelsa , 
obtidos no jardim das Larangeiras por estacas 
feitas com os ramos lateraes e enxerto nelles 
da cabeij'a da arvore ; um dos modes porque 
se tern conseguido mulliplicar a especie. Os 
dois exenqilares assim obtidos eram perfeitos 
nas suas lormas, e bem desenvolvidos. Mas <> 
problema da verdadeira niultiplica<;ao da 
Araucaria-excelsa por semente lia-de resolver- 
se em poucos annos no nosso paiz : attesta-o 
a Araucaria do Lumiar, que todos allipodem 
ver, actualmente guarnccida de immensas 
flores masculinas, e de bem formadas pinhas 
na sua parte si;perior, apesar da especie ser 
dioica; e promette-o principalmente o pequeno 
e interessante pinlial de Araucarias, manda- 
das plantar em Cintra por Sua Magestade 
El-rei o Senlior D. Fernando. 

O goslo pela cultura das Coniferas teni 



47 



augmentado muilo entre oi horticullores mais 
intelligenles. Procuram-se individuos desta 
ordem de plantas em lodas as regioes do 
globo, e fazem-se constaiites diligeiicias para 
as trazer as cuUiiras da liuropa. O motivo J 
obvio ; sfio arvores pela maior parte de maxiiiia 
utilidade por siias madeiras, resinas, etc. ; e 
muitas dellas giiarnecern ao tnesriio tempo 
agradavelmente os nossos jardins, pasaeios e 
bosqiies de recieio. Pode anlever-se quanlo 
ha a esperar da cultura das Coniferas em 
Portugal, refleclmdo-se que nas matas con- 
taaios apetias o Piuus maritima, o P. pinea, 
e o Cupressiis glauca ou cedro de Goa, que 
tao bem se accliniatou na serra do Bussaco ; 
e pondorando-se ao mesmo tempo, que a 
maior parte dos nossos terreuos moutauhosos 
e do littoral estiio sem arvoredo, alias tao 
indispensavel. Qiianto nao e por isso digno 
de appluso e de iriiitajao o exempio de El- 
rei o senhor D. Fernando, fazendo povoar, 
como o tern em parte conscguido, a serra de 
Cintra, deste tao valioso arvoredo ! 

A menos altenta observa(,'ao deixaria co- 
nhecer a todos os visilantes a variada collec- 
^ao de craveiros tloridos do mais agradavel et- 
feito, a de muito boas variedades de Geranium 
e de Fuchsia; pertenciam ao jardiin das 
Necessidades. Outra coUecjao rica e visloaa 
era a dos llhododendros e Azaleas do Lumiar, 
alguns ainda em magnifico estado de tlores- 
cencia. Era igualniente para notar-se a 
variada collecj'io de Iris-germanica, de Gla- 
diolus, e de Antirrhinum majus, pertcncentes 
ao snr. Bonnard. Guarneciani tambem as 
bancadas, em grande extensao, numerosas 
petunias, parte do jardim de S. Pedro de 
Alcantara, parte perteacentes ao snr. Bon- 
nard. Appareceram tambem as petunias de 
S. Pedro de Alcantara, devidas aos cuidados 
do snr. Conselheiro Agostinho da Silva, que 
apreseiitou iguahnente uma numerosa e varia- 
da collecgao de amores peileitos, agradaveis 
Verbenas e Fuchsias, e alem disso um exem- 
plar da Swainsoiiia coccinea. 

Nao faltou dexposijao a bem conhecida e 
variada coUecgfio de Cactos do snr. Macha- 
do, unica desta ordem que existe em Lisboa. 

Os Fetos e Lycopodiaceas nfio foram 
esquecidos pelos expositores. Appareceram 
bons exeniplares de fetos indigena= e da 
Madeira, perti^ncentes ao snr. Alves. 

O snr. Alonrc'i apresentou um exemplar 
vistoso de Pteris elegans, e outros da Daval- 
lia pyxidala, de alguns asplenios, do Lyco- 
podium scandens, e o Plalicerium grande, 
feto curio^o pelas formas e niodo de vegela- 
53.0, que pode obter, adherindo unicamente 
a uma taboa. Outro Plalicerium muito bem 
desenvolvido e curioso foi exposto pelo snr. 
Schmiltaus, a queni a cxpoaigao deveu tam- 
bem alguns bons geranios. 

Recommendavam-se por fim a altengfio 
por sen perfeito desenvolvimento, e boa cul- 
tura, por sua belleza ou novidade ass^guintes 



plantas, que os observadores achariam dis- 
persas por toda a exposijao. 

Pertcncentes ao jardim das JVecessidadcs : 

Rhopala corcovadensis : proteacea de muito 
recente inlroduc^-fio na Europa. 

Stiptia chrysanlha; composta arborea, e por 
isso menos commum entre as da sua ordem. 

Simplocos limoniedia ; simplocacea tam- 
bem de moderna introducgao nos jardins. 

Spathodea speciosa ; bignoneacea. 

Eugenia villosa ; myrtacea novamente in- 
troduzida. 

Stadmannia australis ; sapindacea da N. 
Hollanda. 

F^anciscea speciosa, e F. longifolia;«species 
tambem muito novas nos jardins. 

Theophrasta longifolia; myrcineade Carac- 
cas. 

Allanianda verticillata, e A. spec. ; apo- 
cyneas. 

Hexacentris mysorensis ; acanthacea. 

Coleus Blumei ; vistosa labiada. 

Clivia nobilis; muito mimosa Amaryllidea 
do Gabo de Boa Esperanga. 

iJ m Metrosideros em flor, que fora de pro- 
posito arrancado da terra para vir a exposi- 
Sao. 

Pertcncentes ao jardim do Lumiar do 
siir. Duquc de Palmella : 

Tres formosas Catleyas em flor, das quaes 
excitou a adniira^ao de todos por sua belleza 
a Catleya mossiai. 

Erica Cavendishii ; mui vistoso exemplar 
cheio de llores nmarella;, que todos igual- 
mente notariani. 

Diosnia crenata, ^ D. ciliata ; ambos tlori- 
dos. 

Jpomiea.Horsfeldii;especie muito brilhanle. 

Aralia quinquet'olia ; araliacea. 

Sehaidophylluni pulchrum. 

Ramos tloridos da Grevillea robusta, m'li 
da maior parte das arvores da mesma especie 
que se tern espalhado pelos outros jardins. 

Outros rainos tloridos do Philadelphus 
mexiianus, eda graciosaF'umariacea Diclytra 
spectabilis. 

E alem destas baslantes outras plantas de 
recente introduc^ao nos jardins da Europa. 

O snr. Marquez de Vianna, que do sen 
rico jardim de Cintra nao podia mandar 
vir, sem as sacnficar, maior numero de plantas 
das suas ju. muito extensas e bem escolliidas 
collec(;6es, remetteu para a exposigfio, conio 
docunientos daquella riqueza, rainos tloridos 
de muitas plantas de estima(;ao, e alguns 
vasoscom plantas inteiras. Entre esles obje- 
clos distiiiguiam-se boas Rosas, algumas 
Calceolarias, muitas Acacias, boas varieda- 
des de Azaleas, de Crataegus, a Brunia la- 
nuginosa, a vi^tosa Erica linoides, al,i;un5 
Ribes, a Magnolite tripetala, variadas Ver- 
benas, alguns Phlomis, e cutras plantas que 
attestavam o vaiiado e subido erao de cullurit. 



48 



em que se aclia o.jardim de Cintra do mesmo 
sfir. Marquez de Vianna. 

O sfir. Ayros de S;i oxpoz inn exemplar 
bem creado do jaboticareiro, e oulro do cam- 
bocareiro ; e nao aprescMtou iiiais plaiitas, 
porque o passeio publico, reoiganisado por 
siias incessantes dilij;enciai , e todo elle uina 
exposijao conslante , e vivo documetito da 
sua aclividade e zelo que lem desiuvolvido 
pela liorlicultura. 

Do sfir. Bonnard, alem do que ja se re- 
feriu, appareceram outras plantas, das quaes 
podem indicar-se mais especialuienle as se- 
guintes : 

Xvlopliylla Innajifolia; cupliorbiacea. 

\\ eslringia a;raiidillnra; labiada vi^t03a. 

Hoteia ou Spiraea japonica; saxifragea. 

]i,ueliia maculata; l)^'lla acaiiUiacea. 

Concluirenins e~ta rapida eiiumera^ao men- 
cionando aiuda uma pl.inta das expostas , 
Hiuito liumiide na appureiicia, e para a qual 
o maior numero de pessoas de certo nao 
preslou atten(;ao por falla de prevent o, mas 
que a merecia debaixo do porito de vista 
scientifico, e ainda aoutros respeitos. O seu 
nome era o de Tavaresia angolensis, e per- 
tencia ao sfir. Mom 6, a queiii a mandou de 
Angola o snr. Dr. Frederic WelwiclUz. O co- 
hhecimenlo da planla e fruclo das excursoes 
deste naluralista no solo africano, aonde esla. 
E' uma Stapeliacea, reputada forniar nao so 
especie, mas genero novo. Pelo direilo que 
assiste aos naturali^tas nas suas descubertas , 
o sfir. Welwiclilz escoUieu um dosseus amigos 
para llie dedicar o novo genero, e eate ami- 
go foi o sfir. 'I'avaies de jjacedo; ficaia por 
isso sendn a planla uma 'I'iivaresia, e o bom 
nome do snr. Tavares de Macedo, pnr erle mo- 
livo mais, vogislado nos livros da ^cie^cia A 
planla liabita nos campos de Loanda , perlo 
do silio do Penedo e do Cacuaco ; o seu lia- 
hiloexlerno e o das Slapelias, mas os orgaos 
floraes, segundo a observa^fio do snr. Welwi- 
chtz , affeclam a apparencia das Orohideas. 
A exi-tencia desla Slapeiiacea no silio aonde 
foi acliada, e por elle considerada tanlo niais 
imporlante, quanlo e sal)ido que na Afiica 
tropjcal se nao linliam ainda eneontrado es- 
pecies desta ordem de vegetaes. Coinpraz-nos 
ler esl.i otcasiao de recordar o nome d'nin 
naturalisla, a quern o e^Uldo da Flora por- 
tugueza muito deve , e que laml)eui prc^tou 
bom servi^o a liortieultura em Lisboa. Quei- 
ra a Providencia, que a saude e as forgas llie 
nao faltem , para preslar a sciencia os muilos 
servijos, que na actual situajao , elle |6Je 
fazer. 

Foram lainl)em expositores o snr. Pastor, 
e algumas outras pessoas, cujas planlas se 
nao mencionam , por serem de cultiira mais 
ronliecida; nao deixando por isso de haver 
motivo para agradecer a estes , como a todus 
OS outros expositores, a boa vontade com que 
concorreram ao cbamamento que se fez, e 
conlribuiram para guarnecer a exposigao do 



modo agradavel e satisfaclorio por que se 
apresentou a todos. 

'I'emos ainda de fallar de alguns instru- 
[iieulos agrarios, que appareceram como que 
consliluiudo o fundo do gracioso quadro d'esla 
exposigao, a saber : um ventilador para lim- 
peza de cereaes c legumes, perteiiccnle at) 
snr Conde do Farrol)o, e exposlo pelo sen 
jardiueiro; e oulros objectos pertencenlcs to- 
dos ao Institulo agricola. Eulreellesse notava 
um carro feilo por um modelo, que o snr. 
Conde do Farrobo nianddra vir de llalia; 
consta-nos ler todos os seus movimenlos tao 
faceis, que pode conduzir, com inenos inconi- 
raodo dos animaes, o dobro do peso que os 
nossos carros ordinarios costumam carregar : 
a charrua de Domlia^le, a de roteagao, a de 
sub-solo, o arado inglez, o sacliador de Dom- 
basle, o belga de llo-.t', o extirpador de 
Griguon, e o rolo Kro^kul; inslrumentos 
todos de reconliecida ulilidade na agricultiira 
das na<;6es mais cullas, e quasi deseonlieci- 
dos ciitre nos E seria uma grave falta desle 
relatorio, se por ventura nelle nao agradeces- 
semos ao Insliliilo agricola do Lisboa a boa 
voulade e preate^a com que concorreu por 
estc modo a nossa primeira exposicao; es- 
perando para o fuluro da illustrada direcgao 
do mesmo Insliluto, que elle concorrera com 
osvariados produclos liorlicolas da suaquinta 
exemplar, para tornar mais variadas e mais 
complelas as expoji^oes da sociedade de 
Flora e Pomona; tornando-se ignalmentc por 
esle modo aquella utillissima instituic.'io mais 
prnveilosa ao paiz, que tanto deve esperar 
della. 

Quanlo ao ventilador, e'o que os francezes 
oliamam 'i'arare: oVi^ervamol-o Iralialhando, 
e podemos assegurar, que pieencbe muito 
bem o seu lim; extremando com a maior 
faoilidade o Irigo ou cevada liinpos, a pallia 
miuda, e a terra, que lem mislurada; o 
expediente deste appaiellio e tal, que no 
traballio regular de um dia e possivcl limpar 
ciucocnla moios de trigo. Suppomos scr um 
apparellio muito para r eommeudar aoj nossos 
laviadores, e cnja pralica devera subsliUiir 
com inuita vaiilagem o proccsso de arneirar 
o trigo antes de o recollier. 

O jury lendo a dispor, conforme o pro. 
gramma da sociedade, de Ires medallias de 
ouro, Ires de prata, e Ires de bronze, poz 
primeiramente lora da competeucia as col- 
lecgoes dos jardius reaes, como Ibe foi orde- 
nado por sua majeslade F!l-rei o senhor D. 
Fernando, presidenle da sociedade; e consi- 
derando todas as outras, inlendcu conferir os 
premios da maneira seguinle: 

Ao snr. Bonnard, director e jardineiro dos 
jardins rears, uma das medallias de ouro pelas 
planlas que expoz, e alem diiso pela pericia 
de que deu sempre provas no desempeulio do 
seu cargo como cnltivador. 

Ao sfir. Alves outra inedalha de ouro pelo 
zelo e saciiticioi que Ibe tern merecido a 



49 



liorticultura, e pela importanle collecjao que 
apresentou de Coniferas e de Fetos. 

Ao snr. Weis a outra mcdallia de oiro , na 
qualidade dejardineiro dosfir. Diiquo de Pal- 
mella, como bom e inlelligente cullivador, 
e pelas plantas que concorreu a fazerexpor, 
vindas do Lumiar, principaliiieiite acollec- 
Sao de Rliododendros , de Azaleas, [e Orclii- 
deas. 

Ao snr. Bonnard , filho, uma medallia de 
prata , conio jardineiro do snr. Marquez de 
Vianna, e pelai numerosas e bem cultivadas 
plantas vindas do jardim de Cinlra; especial- 
mente algumas Eneas, Azaleas, Coniferas, 
Acacias, e um dcs vislosos exeniplares da In- 
digot'era decora, que appareceram na expo- 
sijao. 

Ao snr. consellieiro Agoslinlio da Silva 
iinia medallia de prata, pelas cnllec^oes que 
apresentou do jardim de S. Pedro d'Alcan- 
tara, cuja cullura e sabido Uie merece espe- 
ciaes cuidado?, e como amador que e entliu- 
siasmado da borticultura. 

Ao snr. Pedro Maurieu uma medallia de 
prata, como jardineiro do snr. conde doFar- 
robo, e pelas Araucarias obtidas de enxerto 
que apresentou, bem como a maquina delim- 
par cereaes , cuja intioduc9rii) no paiz Ihe e 
devida. 

Foram considerados dignos de men^ao hon- 
rosa : 

O snr. Machado , como uni dos zelosos e 
intelligentes amadores da horticullura, e pela 
sua conhecida e estimada cnllecjao de Ca- 
cteas. 

O biir. Monnj, pelos curiosos exemplarcs 
de Fetos, e pela interessante Tavaresia an- 
golensis queexpoz; certo, alem disso, que 
o snr. Monro e um dos zelosos promotores 
da borticultura entre nns. 

O snr. Santos , pela sua bem desinvolvida 
Cycadea , e bem creado exemplar do Laurus 
cassia. 

Concluindo este relatorio , entende ojury 
que n(is podemos felicitar pnr esle primeiro 
ensaio de exposi^ao dasociedade, que corres- 
pondeu a quanlo podia esperar-se, tendo para 
isso concorrido principalmenle a muito deci- 
dida protec^ao que a cste ol.ijecln se dignou 
prestar Sua Mageslade EIrei o Senhrr D. Fer- 
nando , cujos desejos e diligencias e de espe- 
rar sejani correspondidas pela sociedade e 
pelo publico, a fim de conseguirmos a intro- 
ducjfio do niaior numero de plantas uleis , a 
sua acclimalayao , o maximo aperteigoamen- 
lo em lodo o genero de culturas, e a pros- 
peridade e bem-estar geral, que tudo isso 
necessariamente traz ao paiz. 

Por toda a parte as sociedades horljculas 
tern sido um poderoso meio d'alcan^ar esles 
beneficios; devemos, por conseguinte, enipe- 
nhar estorgos , para que a nossa. nao salisfaja 
menos o seu lim. 

Sua Magestade Elrei o Senhor D. Fernan- 
do visitou repetidas vezes a exposi^.ao, e 
acompanliado de Sua Mageslade Elrei o Se- 



nhor D. Pedro, e de Sua Alleza Ileal o Se- 
nhor Infante D. Lujz , dignou-se presidir o 
jury encarregado da distribui^ao dos premios. 

Aos mernbros do jury foi particularmente 
agradavel a impressao que Ihes fez o muilo 
conhecimento de causa que os jovens Monar- 
cha e Principe mostraram, percorrendo os 
objectos da exposi^ao; e o modo por que a 
atten^iio dos Augustos Visitadores se fixava 
justamente nas plantas, que por sua novida- 
de on oiilro motivo de interease a deviaui 
excilar. 

Sua Alleza Real o Senhor Infante D. Luiz, 
como quern Ihe era tudo muito familiar, es- 
colheu na collec^'ao dos pinheiros do sfir. 
Alves, e para niais completar a do jardim 
das ISi ecessidades, todos os exemplares, que se 
recommendavam pela maior novidade ou im- 
portancia das especies, e que mais inleresse 
proniettem por sua introduc^ao na nossa cul- 
turn. 

Uma tao esmerada educagao, como a que 
deinonstram similhanles factos, e' da mais 
liiongeira esperanja para um paiz, como o 
nosso, que tanlo precisa e tern a obler do 
espirito illustrado dos Soberanos, que o hao- 
de continuar a governar. 

As sciencias naturaes, que entre nos tern 
quasi sempre sido tractadas como filhas bas- 
tardas, nao obstante a dependencia em que 
dellas esta, immediatamente a resolujao de 
quasi todos os problemas do desenvolvimento 
social, teram por lim nos chefes do Governo 
zelosos protectores, porque teem ja, e terao 
quern as comprehenda e estime. 

Este solo fertil, e este bom clima do nosso 
Portugal convidam-nos incessantemente, e 
quasi ()ue nos arguem sem eessar do nosso 
inqualificavel atiazo nas differentes culturas; 
nos que somos dos povcs que as poderiamos 
apresentar no estado mais tlorescente da 
Europa. Mas se ao abrigo de uma paz im- 
perturbavel, e sob a direcfao de um Rei es- 
rlarccido, a Belgica pode reorganisar em 
1326 a aniiga confraria de Santa Dorothea, 
debaixo do nome de Sociedade de Horti- 
cultura de BruxcUas, que e hoje talvez o typo 
classico das sociedades d'esta ordeui, qtie n.ao 
devemos nos tambem esperar da nossa Socie- 
dade de Flora e Pomona abrigada sob o 
manto de um Principe lao esclarecido, r> 
votado cordealmente a todos os progressos 
agricolas d'esta nos^a abengoada terra I N6> 
esperamos sinceramente que ajudados pela 
Providencia, e dirigidos pelo conselho tao 
competeiite e illustrado palrioti^mo de nosso 
Presidenle .Sua Mageslade Elrei o Senlior 
D. Fernando, desenipenharemos fielmente o 
nosso programma, e concorreremos de uui 
modo mui assignalado para a ptosperidadc 
de tndas as culturas em Portugal, que ^ao 
a prime! ra de suas industrias. 

.Mair/ue~ de Ficalho:^^. Harao do Castello 
de Paiva — Cactano Fcrrrira da Silva Eciruo 
— Duarle. Cnirm — Dr. Bernardino Antonio 
Gomrs. (^Diario do Governo.) 



50 



ESTATISTICA PATIIOLOGIC.V DOS HOSPITAES DA UNIVERSIDADE. 

BOUENS TRIMESTBE DE JANEIBO A MABQO DE 18oi. 



SIOI.ESTIAS. 



Febre F»slrica 
Febre inleriiJitlenle 



I 
I 

8 

!^ 

I 
1 
1 

a 
1 

14 
21 



I 
1 
I 
3 
I 
I 
1 
7 
17 



Bronchite 

Ascile 

„ M Anasarcd 

„ ,. Diarrhea 

,, „ Oislriic^ao do fia^o .... 

« Vermes 

, JJlceras no vcH palatino pendulo 

Febre intermitlcnie gastrica 

Angina 

Pnciiiuunia 

Pleuresia Iraumalica 

Gaslrile chronica 

Splenilc — Anazarm 

Cystile 

L'retrile 

Olibtalraia 

Rheumatlsrao articular ....••••• 

Riieumatisiuo articular clirunico 

Bronchite 

M Febre inlermiltenU 

Rhcumalismo articular chronica . ■ ■ 

„ Hemorrlioidas ■ 

Pvstvtas nas pertias 

Mania 

Asma 

Cephalalgia 

Gastralgia 

Apoplcvia 

Paraplegia 

Amaurose 

Tisica piilmonar ■ 

Ascite 

1, Febre inlcrmiltenle 

Fehre inlermiltenle — annsnrca . . ■ ■ 
Febre inUrmiltenle — obslrucQuo do Ijoqo . 

^ Anasarca 

>^ Aniavrose 

u Epistaxia 

„ ObalrucQao do ba^o 

Hydrothorax ■.■''' 

» Ascite — ObstrucQUO do bago . . • 

„ Tumpanite — Ictericia 

Hy<Irocelle 

Anasarca 

V, Bronclute 

„ Sarna 

Edema na glolle 

EJema nas pernas 

„ ti Broncliite . . . • - • • 

Hemoptysis 

n Siirna 

Hemerrhoidas 

Diarrhea * 

Ileus 

Escorbuto 

Ictericia 

Cachexa 

Congestao pulmonar 

Obstruci;ao do ba^o 

Cancro do estomago 

Vermes 

Miliare 

Herpes 

Elephanliaee . . ■ • 



215 



EDADES 



.'"5, 



1 


2 


16 


13 


1 


„ 


)i 


2 


i> 


2 


» 


>, 


19 


9 


1 


„ 


11 


1 



19 



81 



84 



31 



14 



lai 



49 



3 
35 
1 
4 
2 
I 
34 
1 
1 
1 
1 
8 



1 

215 



51 



Movime7tto 



Exifltiam 

Entraram 

Sairam • 

Falleceram • 

Reiacao dos fallecidos para os entrados 

para os s;iido3 

para todos os tralados (existeotese entrados) 



Janeiro 



Movimento de to.ias as enfermarias dos hospitaes 
(la itniversidade 



Existiara 

Eotraram 

Sairam 

Falleceram 

Rela^rio du3 fallecidos para 03 entrados 

para os saidos 

— — para lojos os tratados (exislentes e en 
trados) 



Homens 



126 


85 


375 


251 


343 


194 


31 


23 


1;12,1 


1:10 


1:11 


1:7,7 



1:19,3 



67 

62 

56 

6 

1:10,3 

1:9,3 

1:21,5 

Mttlheres 



Fevereiro 



65 

59 

67 
4 
1:14,7 
1:16,7 
1:31 



MllTQO 



54 

08 

77 

5 

1:17,6 

1:15,4 

1:28,4 



1:14,4 



Hotnens 



18 



Observarjes meteorologicas ' 



( Teiuperatura ataiospberica ao meio dia 
Media \ 

C Altura barometrica a 0.° C 

Venlos predominantes 



Janeiro 



C"? C. 

mil 

75:!, 759 
S. e SE. 



Mutheres 



10 
3 
1 




Fevereiro 



9.° 8 
757,357 
E. e N. 



Trimestre 



209 
200 
15 
1:13,9 
1:13,3 
1:18,4 

Todot 



239 

632 

538 

5B 

1:11,2 

1:9,6 

1:15,5 



Marco 



12.°4 
757,831 
N- e E. 



• Inslittjto (!e Coimbra n.°" 21 e 23 do 2.*' anno e n." 1 do 3.** O gabincte de physics, onde se fazem 
cstas observa^oes , apenas dista 13^° do hospital do colle^io das arleg. 



Tenlio comprehendido todas as enfermarias 
de homens nas estaListicas patliologicas de 
1352 e 1853; mas n't-ste primeiro trimestre 
de 13o-l coinego a publicar so a estatistica 
das enfermarias de molestias internas, que 
se acham a men cargo. Nao ha grande in- 
conveniente n'esta restricgao, em qnanto nao 
se publicar uma estatistica geral de todos os 
hospitaes da universidade. 

O doenle de febre intermitente , que appa- 
rece na casa dos fallecidos, morreu da ascite 
que veio coinplicar aquella febre ; e os 14, 
que se acham na casa dos nao curados, sai- 
ram antes da cura da abstracgao do bago , 
mas depois de curada a febre intermittente. 
A cura da obstrucjao do bajo em 20 doentes 



de febre intermittente, e em 2 que entraram 
so com a primeira molestia, deve-se em gran- 
de parte ao emplasto de iodureto de potassio 
da Ph. de Lond. , juntamente com os de- 
sobstruentes internos. 

A um dos doentes de bydrocelle nao se fez 
a operagao, por ser ainda pequeno ocuraulo 
do Iiquido. O outro foi curado radicalmente 
por meio de injecgoes de partes iguaes de 
tintura de iodo e agna dislilada. Anterior- 
raente havia-se tentado , sem proveito , a 
mesma cura radical corn uma parte de tintu- 
ra de iodo , e tres partes de gua distillada. 

A morlalidade de 1:13,9 em relagaos aos 
entrados em todo o trimestre nas minhas 
enfermarias, e ainda a morlalidade de ]:11,3 



52 



lie loilo o liospiuil , coiuinun ollorecendn ex- 
iraordinaria vaiilagem sobre a morlalidade 
ilo liospilnl de S. Jose de Li>l)oa, i|ue foi 
lie 1:4,9 no mi'smo trinicstre. ' 

Com a media de 1000 doentps frasla o 
iiospital de S. Jo>e 130:000,3000 lois ininual- 
tiR'tite ^ ; e lodos sabeiii ijue , loiifje de haver 
tlfbperdicios iia boa admiiiislra^'io d'esta 
casa , ainda als'ims niplliorainoiitos se v;"io 
addiando por falla de meios Na inesrna prn- 
fjor^i'io OS liospilaes da universidade, com 
a media de 210 doenles, deveriam pastar 
."•1:200^000 reis. Cusla acicr! O Lendiiiieri- 
lo dos bens dos liospitaes eslii teduzido, 
.•i:!)63jSloO rcis, qiiejunto a b 031t5'9IO reisa 
<|ue dii o lliesoiiro, conslilue iiiiia dotac^ao 
certa de 8:89O0'OCO ici;-. De leceita incerta 
apeiias tern a imporlancia dos pugamenlos 
militaio« das pra(;as une alii s;'io Iratadas , 
i]iie podciu dar 876jS)()00 leis ^ , e dns doen- 
les nito pobres que andai;i ))or 80^000 reis *. 
J-;sl;i pois reduzida a 9:8olgS0(>0 reis ' a re- 
ceita cerla e inceiia doshospitaes da universi- 
dade, qiiando estesdevenam frastar, em pro- 
porsfio com o de S. Jose, 31:200^000 reis ! ! 

Tirem os liospitaos da universidade da mi- 
seria em que se acham ; menislrem-llie uma 
•lota^ao regular e rasoavel , que a boa casa 
do novo hospital, no bom clima de Coim- 
bra, de pressa se converterii n'um dos liospi- 
laes niais concorridos eacreditadosdaEuropa. 

* Jornal de Pharmacia e Sciencias Accessorias de 
l.isbua n.*"^ de ftiveieiro . niar^o e abril de 1854. 

^ O Hospilal de S. Jose e annexes em 1053. Opus- 
cnlo por Alanoel Cesario de Arauja e Silva . pa^'. I'jJ. 

■* A media da rece'tta dos nitimos 3 annos foi 
12:745^540 , mas figuram nqui Aerbas exlraordiiiarias 
com que nao poderaosaclnalmentecontar, como Sao — l.° 
lima graode parle dos 11:589^440 reisde;vencimentos niili- 
tares , que se achava em divida ao hospital antes d'estes 
3 annos : 2." 914^040 reis com que a dotai;ao dos esta- 
belecimentos da universidade acudiu aos aptiros do hospi- 
tal : 3.° l;0005000;reis que deu a misericordia de Coim- 
bra , em virtude d'uma portaria du poverno. 

^ Calculando 10 pra^as diarias no bosjiilal. 

^ Vm pouco niais do termo meilio dosiiltimos 3 annos. 
A. A. DA COSTA SIMUES. 



Hcccbo am-sc na Bibliotlieca do Institulo de 
Coimbra, alcm das mtncionadas em o n.° 
3 deste Jornal, as seguintes obras offereci- 
das por seus respcctivos auctorcs. 

poEsiAs por Antonio deSerpa, socio da A. R. das 
sciencias de Lisboa e do Inslituto de Coimbra. 

BOSgUEJOS BlOGRAPHicos, abbade Correa daSerra e 
Felix'Aveiar Brotero, por Francisco Antuuio Rodrii;;ues 
de Gusmao, bacharel formado em medicina e cirurpia, 
sbcio do Instituto de Coimbra e membro correspondenle 
da sociedade das sciencias medicaa de Lisboa. 

A ORQAMSAl^AO DOS ESTUDOS MEIllCOS EM PORTUGAL, 

discurso proferido na sociedade de sciencias medicas de 
Lisboa pelo socio da niesma, Antonio Joaquim Ribeiro 
(ioraes d'Abreu, socio do Instituto de Coimbra. 

OS viNCULOs Eiu PORTUGAL, por D. Aiitonio d* Almeida 
1." e 2." folhelo. 

coNsELHos TESDENTES A mETENiR, abrandar e curar 
a doen<;a dag \inlias, para o anno de 3 854, escriptos por 
.Antonio Jose da Silva Leitao. 



co^]PE^UIO da iiistokia de poutlgal desde os pri- 
meiros povoadorcs ate nossos dias, por Joaquim Lopes 
Carreira de Mello. 

ELEMEVTos nc -METniPHvsicA, por M. da Conceie'io 
R.irros. professor de phibsopliia racional e moral e priii. 
cipios dedireito natural, noseminano diocesano doBra-ra- 

a' SAtDosissiMA 3IEMUKIA da serenis.sima Princeza im- 
perial a scnhora U. Maria Amelia — folheto, jielo mestre 
da Finada. 



VAUIEDADES. 

RKPi.ANTAc.to DOTRiGO. — No jardiui bo- 
tanico de Cambridge fez-se uma cunosa ex- 
perieucia soliie a replanlagao do trigo. 

Havendo-se semeado em junlio algunsgr.HOs 
de trigo, um dos pes q\ie nasceram pareceii 
querer ramilicai-:-e. Arrancaram-no em agos- 
to , e dividiram-no em 18 partes, cada uiuu 
das quaes foi separadameiite plantada. As 
novas plantas que nasceram dos. rel'.enlOi la- 
leraes arrancaram-se no litii de seternbro , s(-- 
pararam-se e pjantararn-se novamenle. Ob- 
tiveram-se assim (i/ pes de trigo que licarain 
na terra todo o inverno. Em abril seguinte, 
e-~tes 67 pes foram outra vez divididos e pre. 
duziram 500 pes, donde se colheram 21:000 
esjjigas, que deram 21 Uilogrammos degr;i05. 

Segundo a qiiantidade media de graos con- 
lidos em um kilogrammo, pode-se dizer que 
um so pe de trigo dividido e plantado repe- 
tidas vezes, produziu um niimero total dc 
676:840 graos. {Cosmos ) 

RF.pvBLicA DK LIBERIA. — Este pequeno 
estado nascente fundado na costa occidental 
do continente d'Afiica, cujos cidad:'ios sao 
negros arrancados a escravidao e reexportados 
da America pela intluencia das sociedadcs 
abolicionistas, marclia co.m passos rapidos no 
caminho do progiesso. Esla sociedade negra 
procura imijar, omellior que pode, a oivilisa- 
jao do antigo e novo mundo. Ha pouco 
comejou alii a publicar-se um jornal que 
deve salisfazer u^ nccessidades inlellectuaes 
politicas e commerciaes da colonia. Este jor- 
nal denomina-se Liberia Herald- e escripto 
em iugiez, e sens redactores, edictores, im- 
pressores, etc. , todo o pessoal e exclusiva- 
mente composto de negros. (^L\4thenwum). 

RECTii'icAcAO. — ?so artigo — Enxofra- 
gem a sccco publicado em o n.° 24 do 3.° vol. 
deste jornal, conforme com o que vein no 
Journal d' /Agriculture practique, vem men- 
cionada a despesa que demanda a enxofra- 
gem completa de um hectare de vinhas. Se- 
gundo mr. Dubreuildevem recti ficar-seaquel- 
les dados do modo seguinte. 

Para um hectare de vinhas 

60 kiiogr. de llor d'en.xofVe .... 21 I'r. 

6 dias de traballiode uin homem 12 fr. 

total 33 Ir. 

A enxofragem a secco foi aconselhada em 
Franija por uma commissao official composta 
de mrs. Rendu, Bonbardat, Chatin, Du- 
bieuil e Ducharlre. 






i) Jiietitiit0) 



JOlllNAL SClEI^iTlFlCO E LITTERAUIO. 



CONSEI.HO SL'PEKIOH DK INSTRUCCAO 
I'lBI.ICA. — UEI.ATORIOS. 



INhTKLCl.AO SllEilOJt. 



Coiifereiicia de 28 d'ahril tie li;34. 

Senliorcs : — Para ciinipriineiilo Jas olirigri- 
5oes impnstas pel' regulaiiicnto de 10 de 
nnvembro de 1845 tern d'apiesenlar-si' pi'la 
3.' sec5ao (a d'inslnicgao superior) d'osle 
consellio iim relalorio soljre o cstado, e necos- 
sidades da instrncf'no superior no semestrc, 
que decorreu desdu ouUibro idlinio alpgora, 
acornpaniiado dos iiiappas correspondenles. 
Miiito imperfeito foi jii o que cm outubro 
proximo passado se apreseiUou, porqiie a 
maior parte dosdelep;ado=dnrnii5uliio superior 
tiao tinliam reriieltido 05 que deviam pelo arli;;o 
37. ^. 4.° do sobredito regulamento; porem 
mais imperfeito lem de ser esf.e porque deade 
outubro alcgora iieniiuiii dos deieirados reinel- 
teu relalorio respectivo a esle semeslre: e 
tendo o consellio superior rcprescntado ja a 
S. M. em cnnsullas de 16 de jnneiro iillimo, 
e 4 do corrente, agnardain-se ainda a? provj- 
dencias, queS. M. iimiver porbem, para fazer 
cessar tacs faltas, que tornani inipossivel ao 
consellio superior o cumprimenio dos seus 
deveres. Adianle vai a rela^ao dos relatorios, 
que ainda faltam pertenceiUes ao anno findo 
cm outubro de 185?i. ' 

Dos relatorios, que fallaram em outubro, 
so veio posteriormente em 21 de dezemliro, 
o da universidade pertencente ao anno lectivo 
de 1852 a 18&3. Nelle se reiereni os melliora- 
mentos, que no decurso de todo o anno tiveram 
logar em cada uma das facwldades e estabe- 
lecimentos annexos para aperi'ei(;oamcnlo do 
ensino ; e se pedem providencias, e algiins 
meios para outros mellioramenlos, que nem 
o prelado, nem os conselhos das faculdacies 
podem adoptar scm serem auxjliados pelo 
governo de S. M. — Alguns dos niellioramen- 
tos nesse tempo ainda pendentes acliam-se 
ja concluidos, como a mudanga dos liospilaes 
para dillerentes edificios. — Algtimas das pro- 
videncias ja foram pedidas em relatorios ante- 
riores, como a annexagfio da cadeira de lingua 
hebraica para <i faculdade de theologia; — 
Vol. 111. JiNHO 1 



a uniformidade de compendios para o ensino 
nos lyccus ; — reforma dos estudos na facul- 
dade de philosopliia, Icndcnte a tornal-os mais 
practicos, para na universidade sc crearern 
nao so liomens sabios, rnas cidadfios uteis ao ' 
eslado pela applicagao das scicncias, e evitar 
divorcio entre a tlieoria e a praclica ; — 
meios pecuniarios para grandes concertos 
indispensaveis na real capella da universida- 
de.. — Sobre outras ja pelns respectivos con- 
selhos das faculdades, e reparlijoos compe- 
tentes,se tern representado directaniente, como 
a conveniencia de se transferir de Viseu para 
Coimbra o Institute agricola ; — augrnrnlo 
d'amanuenses para a secrctaria ; e mrlliora- 
nientn d'ordenados a alguns empregados. — 
S<ibre algnmas j;'i n consellio superior teiii 
representado, e ate feito propostas em annos 
auteriores, romo — a cerca d'ensino particu- 
lar de disciplinas preparalorias para matricula 
na unversidade, feito fora das aulas publicas; 

— exame de gtego para matricula de ].°nnno 
nas faculdades, em que seexige; — ensino ce 
geometria n'uma cadeira especial no lyceu 
d'esta cidade, e ser essa disciplma prepara- 
torio obrigado para lodas as faculdades. — As 
outras providencias suo de lal modo pedidas, 
e exposta a necessidade e conveuieiieia dellas 
no relatorio da universidade, que bastarii of- 
ferecel-o, e eleval-o a soberana ronsicieragfio 
de S. M. com os especiaes, em que foi fun^ 
dado, para se poder esperar, que serao al- 
lenJidas, como a S. M. mellmr parecer cm 
sua alta sabedoria : e com ellas ficara mc- 
lliorado o en-ino em cada unia^das faenl- 
dades, e. no lyceu, que forma uma secrao 
da universidade, como os respectivos con- 
selhos desejam, e e reclamado pelo. bem 
puldico. 

A universidade no ;inno lectivo de 1852 a 
1853 foi freqiientada pnr 970 alumnos, con- 
tados individuahnente, incluidos os do lyreu ; 
e as matriculas na universidade, incluindo 
as repetidas nas faculdades, e sciencias na- 
turaes, e algumas em posilivas, foram 951. 
D'estes perderam o anno 96; nao fizeram 
acto, para que ficaram liabilitados, 104 ; foram 
approvados nemine discrepante 687, e sim- 
pliciter 60; e foram reprovados 15; forain 
premiados 28, e tiveram honras d'accessit 41. 
Tudo se ve circumstanciadamente pelos map- 
pas da secretaria, que acompaniiaraui o 

— 18S4. >"rM. 5. 



'tUlS^*-^ 



54 



relalorio. O l)'ccii loi frequentado por 316 
alumnos; e fizeram-sc 1:247 exarnes prepara 
lorins paia maLriciilas na iiniversidade, iios 
quaes t'oram approvados neniine discrcpante 
7CG, simpliciler ^2b!i, c ri-provados 226. 

A receila de propiiias de niatriculns, e cartas 
de formatura iiiiportou em I9;243j^l76 rcis, 
a despesa toda da iiniversidade em pcs- 
soal, material, c expediente importoii em 
J3;670;^880 reisvindoa ficar solire o tliesouro 
^OInenle a despesa de '6i^A^Q7:70b. Custou 
cada aliimiio incliiiiido os do lyceii, ao thesou- 
ro 35,^492 A'., reis. 

No relatorio d'esta scc9rio d'inslrucgao su- 
perior, apresentado em owlubro ultimo se dis- 
se, que o conseilio superior estava cuidando 
dos projcctos de regulaniento para desen- 
volvimciUo e execucgfio das leis de 17 e 19 
d'agosto ultimo; mas agora declara-se que 
Ja ambos forarn devados a soberana presenja 
do S. M., scndo uiu — sabre jubila^oes, 
aposenla^oes, vencimentos dos professores em 
casos de liceuga, moiestia, commissao do go- 
verno, e dos substitutes pela regencia de ca- 
deiras, — e oulro a cerca dos coiicursos para 
provimento de substitutes extraordiiuirios na 
Iiniversidade e proraogoes dos logares do 
inagisterio superior. Alem d'estes regulamen- 
tos expediram-se desde 17 de oulubro ultimo 
ate' 2-1 do corrente por csta sccgao d'instruc- 
5ao superior mais as 103 consultas, portarias e 
otTicios constaiites do mappa da secretaria, 
que vai junto ^ : no semcslre d'abril a outubro 
de 1853 tinliam side 26 as consultas, e as 
ordens para concinsos 64. 

'Academia real das sciencias 
Conservatorio real 

Eschola Medico Cirurgica do Funchai 
Dita de Liiboa 



' Consultas : 

Sobre propostas para cadeiras 

n Iransferencias de professores .... 
" aposenta(,'nes e jubilafocs com 

augmento d'ordenado 

>i V e continuajiio no magi- 
sterio 



n vencimentos 

51 admissao a exarnes de Pliarmacia. 
)! varies objectos e informes 

Contra a rcpresentagio da Eschola 
Medico Cirurgica de Lisboa propnn- 
do a adop^ao dos e.tames vagos oraes. 

Propendo varias providencias para ob- 
star as cartas falsas no exercicio da 
inedicina 

Propendo a suspen^ao por 3 mazes do 
Lente — Lima Leitao . 

Com o regulamenlo para habilitajao 
aos logares do magisterio na univer- 
sidade e escholas d'ensino superior. 



Com o projecto de lei para o restalie- 
lecimento da cadeira de clinica cirur- 
gica na taciildade de medicina(/{<;so/- 
vida contra) 

Com o projecto de lei para augmento 

do pessoal na faculdade de medicina 

" — » — para compra de maquinas, 

inodelos etc, para a faculdade de 

pliilosopliia 

Propendo a separagao dos empiegos 
de Cirurgiao ajudanle e Fiscal dos 
liospitacs da iiniversidade 

Portarias e officios para coiicursos, in- 
formnyues e intima'goes 



1 



6b 
T03 



COMMEMORACAO. 



Uma tri^te nova, atiavessando, lia pouco, 
as vagas do oceano, veio envolver-nos o cora- 
^iio no crepe da augustia. 

Esconden-se mais uma existencia querida 
no p6 do tumulo ! 

O astro, que scintilava com uma ku tao , 
vivaz, tocou o occaso. 

Foi mais uma alma, que rasgando o seu 
fragil involucro voou para o Creador. A 
patria conta hoje de menos um fillio, o Ins- 
titiilo, um socio. 

O sr. Antonio Alves da Silva soltou o 
derradeiro suspiro no fatal dia 19 de Janeiro 
do corrente anno, sorrindo para a esposa que 
o estremecia, e para a mae que o idolatrava. 
Havia completado 31 aiinos. A sua morte 
foi pungentemente sentida por lodos. A im- 
prensa, tanlo do contincnte como d'liltra- 
inar, esqueceu os odios politicos para tribu- 
tar unisona a mernoria do distincto finado a 
homenagem devida li virtude e a intelli- 
gencia. 

Is'os faltariamos a um dever sagrado, se 
por Ventura n.'io viessemos tambem derramar 
uma lagrima de sincera saudade. 

Que de rccordai^oes nfio aviva aqui o nome 
do sr. Alves da Silya, aqui, em Coimbra, 
oiide die passou a quadra dourada da sua 
curta pcregrinagfio, oiidea universidaile Ui'ex- 
oruou a fronte com os laurels immarcessiveis 
da sciencia, onde a anliga Revista academica 
recebeu as primicias litterarjas do seu, entao, 
esperan^oso lalento, onde o Institute, desejoso 
d'esplendor, vendo-o ceroado pela aureola da 
gloria, o cliamou para o seu gretnio, e o 
considerou sempre, como um dos Ijibos mais 
predilectos I ? 

Jii que nao podemos ir ajoelliar sobie a 
camjja, que occulta as suas cinzas, mur- 
muramos uma prece fervorosa pelo eterno 
repouso da sua Candida alma. 

T0BBE8 B ALMEIDA. 



-* v>^>:^'<w<.; ->,— 



r*^ 



55 



A CONCORRENCIA. 

O elemento economico, urn dos ftindamen- 
taes da ordem social, tern lido scrnpro uina 
grande missfio a cumprir — a fusfio das indi- 
vidiialidades, e das na^oes : aquella inani- 
fesla-se mais particularrnente na iiidiislria e 
no commercio inlerno; esta, no conimercio 
exlerno. Desde que a indiistria sn relegoii 
para uma classe despresada e oppriniida, ate 
que foi emancipada pelas conqiiistas da egiial- 
dade, que vasto e vaiiado quadro se nos 
nao apresenta ? O escravo no eigastulo, o 
servo adstriclo a terra , o operario vergado 
debaixo da prepotencia do privilegio, sfio 
phases de opressao que, tristes sim, mas pro- 
gressivas em seus effeitos , forarn preparando 
para o future a absoluta emancipajfio social, 
o nivelarnento peranle a lei. 

Hoje que o credilo e a industria sao uma 
potencia donde se pode esperar que nasija 
um dos maiores elemeutos de inelhoramenio , 
a delertnina^ao da sua marelia e uma quesliin 
vital para a snciedade. j Que alrazo nao pode 
resultar d'uma errada dirccgao? Ifespaulia e 
Portugal alii estao a dar-nos djsto irrecusavel 
e triste testimunlio. 

Eslabelecida e garanlida a propriedade in- 
dividual, reconhecida, jjor isso, a legitimida- 
de do capital, mil questoes , tndas iuiportan- 
les, se aprcbontam no campo da economia 
applicada ; mas entre ellas levanla-se uma, 
que as dornina todas, e a da concorrcncia, 
laulo interna como externa-] queslao que so 
pode ser apreciada em face dos principios 
que expendemos de direito social , ns quaes 
doterminam a acjao do Rstado, influiiido e 
deleruiinando loda a vida da economia social. 

A queslao da concorrenoia pode ser enca- 
rada debaixo de Ires aspectos : em relaoao a 
sua nalureza, indagacao loda subjectiva , ou 
transoendente ; ao estado actual da socieda- 
de ; e a sua sorte fiilura. 

j A questao da concorrencia sera a queslao 
da hberdade, a mellior con']uisla da epocha 
actual, a ullima palavra do prngresso, o statu 
qxin para todas as gera^oes fiituras ? Ou pelo 
conlrario, filha do individualismo, e niae da 
pobreza, sera a concorrencia nm syslema de 
exterminio, uma tyrannia infaligavel para o 
povo, e para o rico um ameago permauenle ? 
Sera a morle da familia, pela miseria que 
vai derramar em seu seio ? Iia buscar ofillio 
do pobre ao bergo para bem deoressa Hie 
soffocar a intelligencia , e depravar o cora^ao , 
ao passo que Hie roe ocorpo? Sera finalmente 
a concorrencia uma causa niinosa para a 
burguezia, logo na sua infancia; a senten^a 
exterminadora do principio da egualdade? 

Em nosso entender, encarar assim a que- 
stao e collocal-a n'um falso campo, donde 
resultarao sempre consequencias exageradas , 
se nao lalsas para ambos os partjdos. A con- 
correncia nao e nem a melhor conquisla da 
intelligencia, absolutamente fallando : nem, 



t'lo pouco, o penr elemento das sociodades 
modernas, que haja de as conduzir ao precl- 
picio — in medio consistit virtus. 

As epoclias provocani os elemenlos sociaes , 
e estes trazem a mudan^a das epoclias. Re- 
provarabsolulamenle quaesquer daquelles ele- 
meutos cm si , sem indagar as causas que os 
provocaram , as circumslancias, em que pre- 
dominaram, as consequencias a que condu- 
ziram, e sem apreciar, em sum ma, todo o 
nieio social , em cujo centro se dcsenvolve- 
ram, e querer recusar a obra da humauida- 
de, langar sobre ella o stygma d'uma ropro- 
va^ao absoluta, e, aproveilando-nos dos seus 
traballios , nao querer bemdizer a niao bene- 
fica que os prodigalisou ; e legar um Iriste 
exemplo as gera^oes I'uturas, que egualmente 
nos poderao pedir contas dos nossos traballios, 
e despresando-os, lanijar sobre sobre nos o 
analliema que fulminamos contra as gerajoes 
passadas. 

ln^lilui5^lo alguma social, embora defei- 
liiosa em si mesma, deixou de convergir para 
o futuro desenvolvimento da liumauidade. 
Esta nao progride senfio pela lei da serie, e 
pnr isso qualquer elemento social exige que 
o analysemos em liarmonia com o meio em 
que se desenvolveu , e que o provocou. E o 
que succedecom a concorrencia: germend'uni 
grande desenvolvimento social , apresenta-se 
nns como um elemenlo de transijfio que aca- 
bara, logo que tenlia realisado o fim a que 
se dirige. 

■^ Porque ordem de successoes desde os pri- 
nieiros tempos liistoricos, nao tern passado o 
elemenlo que linje cliamamos burguezia'!' 
Sujeilo ao duro dominio do senlior na anli- 
guidade, realisava, como escravo , os mesmos 
misteres cpie hoje cumpre como livre ; ffuarn 
por uma parte necessaries seciilo^, e todos os 
Irafialhos tlieoricos d'uma religifio de egual- 
dade e amor, todas as lucubragoes da pliilo. 
sopliia ; e por oulra parte , toda a importancia 
resullanle do seu aiigruento parallelo com o 
enfraquecimento dos sens doruinadore* , para 
que elle alcangasse saeudir o p6 da abjccjao, 
e respirar n'uma almospliera mais livre. Mas 
esles passes ainda o nao emanciparam de lo- 
de : se o escravo da antiguidade nao permaue- 
ceu lao ligado ao sonhor, foi para ficar prozo 
a terra pela servidao da gleba. Elemenlo 
vicioso, como as prelerilas formas sociaes, n 
feudalismo nSo podia aspirar a perpetuidadc 
sem dar um desmentido anaUireza liumana ; 
linlia de caliir aos golpes da philosophia dos 
seculosXVII eXVIlI : foi o que suc-cedeu ; 
e a burguezia sentiu aproximar-sc a liora da 
sua emancipa(jao, com e cahir do privilegio. 
Pore'm e desmoronar do principio feudal, e 
do privilegio levou, coino ja niostramos, an 
principio da grande centralisa^an, que, como 
meio forte para fazer face as tendencias reac- 
cionarias do individualismo poderoso queaca- 
bava de ser derrecado, foi antes uma ncces- 
sidade do que um abiiso. Com quanto porem 



jO 



dcilii vicisem bens relatives, porque em gran- 
de parte t'oram ossas as toriiias provdcaclas 
pi'las lu'CPssiiladus das epoclias, isso iifio im- 
pediu tpio sirndliaiUes foruias iiivolvessein em 
.-i vicios radicaes, q\ie apressarain cada vez 
iDais a sua riiliia. A liiimaiiidade iiao para. 

Apeiias euiaiiripada do domiiiio do privi- 
le^'io excliisivisia , a biirf;iiezia ii'io nos pare- 
ee haver-se acliado desde logo preparada para 
I) systeiiia nidiislrial a que a iiossa epoclia se 
encaiiiiiilia, o qual symbolisa o fiiliirodasocie- 
dade, o triuiiipho seifuro da iiidividualidade. 
l)e fiijlo, iiiio teiido cessado rapidameiile os 
elomeiuos quo, decaliindo, davaiii loijar aos 
iiovos , porqcie lal ea iiaturoza dascoiisas, 
t'jia iiiflueacia secimdaria que os velbos ele- 
nientos de t'or^'a ficam exerceiido em os no- 
vos , coiiatitue a parte que priiueiro scvai, 
em cerlo modo, gastando, e cedeiido li ac<;ao 
do novo principio, e assim progressivamenle : 
e per isso que; a queda do privde^io nao 
arrastou comsigo todos os tnonopolios, que no 
systema actual constituem a sua auonialia. 

Aproximando estas con=idera^oes geraes da 
organisa^ao inoderna da socicdade, e espe- 
(.•lalmeute d'uin dns seus elementos vjlaes, a 
concorrcHcia, vemos nesta, nao obstante os 
alaques que so Hie teni tVilo, o elomento que 
ha de provocar no futuro o systeuia da graa- 
de associaijao livre. 

'J'odos OS elementos que conlradizem a 
constltuiy.'o moral do homera, sao, por isso 
io, anom.'ilos na ordeui social, e quando lega- 
lisados, tpem sido elles que, pela major parte, 
derail! origem aos successlvos cataclysmos 
por que a ordom social lem passado na suc- 
cessao dos tempos. A liberdade e' um desses 
elementos tonslitutivos do homem, que e mis- 
ter respeitar sempre; d'outra sorte desceria 
a personalidade da altura em que deve deseu- 
volver-se: assim e one a liberdade de impreii- 
sa, a liberdade de suI'lVagio, e de reprosenta- 
^'ao, a liberdade de cojisciencia, a liberdade 
de escollia em todos os fms liumanos, quando 
nao Iranscendem os lindtes do direilo, sao 
conqui^tas theoricas, que a liumanidade nun- 
ca mais abandonara, mas antes procurara 
alcangar-llies garaiitias reaes. liste principio, 
em nosso entender, niio pode solfrer excep^'fio 
abioluta e radical em qualquor dos meios, 
que o homem empregue para realisar o sen 
destino sobre a terra; elle e que deve servir 
de guia no exterminio das anomalias, que 
impedindo a sua acjfio desafrontada, causam 
perturbagoes, que nao contemplaremos agora. 

Se as conquistas progressivas da liberdade 
se devem os passes que a liumanidade tern 
dado desde o sea comejo, cada um dos quaes 
e um tesljmunlio indelevel do predorninio da- 
quelle |)rincipio sol>re um ou outro ramo da 
activid>ide bumana na sua realisajfio exterior ; 
pretender agora destruir esse elemenlo natu- 
ral do homera, e do progresso, desde as pri- 
meiras idades, e pretender iiuo so buscar um 
meio de aperfeigoainciito liumano n'uma mu- 



tilajao, mas ate despresar os Osiorjos foitos 
pela liumanidade, de-de o sou berjo, para 
obter a sua eniancipae^ao; d utn delirio simi- 
lliaiite ao da preteudida I'olicidade d'um esla- 
do de natureza i'cira da sociabilidade. Ao 
nossO parecer, pois, todus os eusaios repressi- 
vos da justa liberdade para nielliorarom a 
soeiedade, levariain ao resultado oppoato. O 
reinado da cecraviiJao ja vai tao longe que 
nao iia retrogiadar para o seu principio fun- 
damental; no I'uturo, nao ja uo passado, e 
que esta o destino da soeiedade; o passado 
eiitra na graiide evolu^ao social coma meid 
organioo, e iiuuca eomo tim. 

Em nosbo tempo uns exaltam a liumanida- 
de ate o extremo, esqiiecendo-se das suas im- 
perfeiyoes, desconliecondo ate a pujsibilidade 
de novos progressos; outroa, laii(,undo mac 
dessas iiiiperf'r'ier,e>, deprimem a liumanidade. 
ati' o aviliauieiito. O ipie notamos na aclua- 
lidade acliainol-o cgualiiieiile realisado nas 
apreeia^oes do passado: Jlerder e Dunoyer 
attacaiu l{nma de IVeiite, e ella parece suc- 
cumbir ao5 srusgolpes; Montesquieu c Lau- 
rent engrandocem as suas vittudes, e ella se 
nos niostra oomo unia republica de heroes, 
j Haverii tal coiitradij.io no campo da reali- 
dade ? Por certo que nao : e porque uns apro- 
veitam os claros, outros, as sotubras do qua- 
dro. 

Similliantemento, na ordetn industrial nao 
tem I'allado escriplores, desde remotos tem- 
pos, que teidiani atacado a iiiduairia conio 
iiieoiiciliavel com oespirito de liberdade. Nas 
primeiras epochas da soeiedade, a indiistria 
era alacada por servir de obstaculo us pai- 
xoes guerreiras sobre que se bascava a soeiedade 
de entao. Alais tarde notaram-se-llie os def'ei- 
tos opposlos, e a industria t'oi considerada 
couio um incenlivo para a guerra : o raal 
d'um estado commerciante e o ser condemna- 
do a fazer a guerra, diz Bonald ; o que cousti- 
tue o |)roveilo d'um, causa o dainno do ou- 
tro, argue Montaigne; se uma fortuna se 
augmeiila, e mister quo as outras se dimi- 
nuam, condue (.ialiani ; Kousseau nao acre- 
dila que na soeiedade possa haver inleresse 
eommuni. Por outros a industria e accusada 
de ser um principio de duprava(,ao , materia- 
lisaudo o homem; de malar a )magina(,'ao e 
o gosto ; de substituir o ideal por uma reali- 
dado grosseira, depravando as artes da mesma 
maneira que corrompe os costumes. Outros, 
pelo contiario, veem na industria o mais po- 
deroso elemenlo civilisaclor ; ocentroem roda 
do qua! se tem desonvolvido a hiimaiiidade, 
ate, sem se elevareni ao ideal da industria, 
veem nolla a imagein da realidado, a que 
julgam unicameute dever attender-se. Mas 
nos ainda diremos que do anibas as maneiras 
nao se I'az uma exaeta idea do eleincnto in- 
dustrial. Os primeiros alliibiiem I'l industria 
o que nfio podo ser coiisidorado como sua 
cousequencia necessaria , mas sim o resiillado 
de mil circumstancias viciosas, ipje mancliam 



57 



a sociedaJe: os ses^iindos dao nnia errada 
idea de industria, n.'io se elevatido aos priiici- 
pios siiperiores que a doniinadi, e nfio apre- 
ciando as conseqiiencias civilisadoras a cpie 
conddz otrabalho intellipente. 

Conlirtiia. i. B. da s. f. de c. MARTENS. 



A POESIA SLAVA iNO SECULO DECIMO-NONO 

SEli CARACTEB E SUA OllIGEM. 

O facto mais notavel da historia das litlcra- 
turas slavas no seculo XIX, e o de voIuuxmii 
outra vez a poesia de ra^a e us origeas po- 
pu lares. O respeito pelas tradi^oes aacic- 
naes, e que distingue essenciahneiitu o inovi- 
meiUo actual destas litteraturas dos periodos 
d'iinitafao e de teiilativas iricolieieiUes que o 
precedeiain. Dcade o seculo XV ate ao seculo 
XVllI pode com et'felto alfiimar-se, que a 
poesia Slava, nos seus rrionuuientos escriptos, 
nfio passou de unia reproduc^ao, mais ou 
menos fiel, das litteraturas da Europa ger- 
manica ou latina. Pelo cniitrario no secido 
XIX, uina vida nova se infiltrou nesta poesia 
e o gouslo ', restituido ao aprejo antigo por 
grandes poetat, foi substituido, coino f'onte 
d'inspirayfio, as influenciasestraiigeiras. De=de 
entao. com o elemento uacioiial, a origiuali- 
dade e a vida se mostraui tauto na litteratura 
escripta dos Slavos como na sua poesia po- 
pular. 

Eate novo despertar, que ainda se esta coin- 
pletando debaixo dos no^sos olhos, todo eate 
moviniento contemporaneo de renascencn, e 
para onde desejamos parlicularniente dirigir 
OS nossos estudos. 

Como e que se operou este moviniento; 
como e que alcanrou triumpliar esta intliitu- 
cia do goudo'^ que rela^oes se podiam esla- 
Lflecer entre os novos poetas e os cantores 
pcpulare= ? E esta a primeira questfio que 
cumpre e.Naminar, e que nosobriga a aio^trar o 
latjOque liga a poczia doa rapsodas ou gouslars, 
que e lioje a base da poesia coutemporanea 
dos Slavos, a vida desles povos, e as suas 
crenjas mais vivas. Se conseguinnos csclare- 
cer este ponto, o estudo do movimento poe- 
tico actual dos Slavos deixara de ot'ferecer- 
nos obscuridade. Coinpreliender-se-ha entao 
como a poesia dos sabios soube aperfeigoar 
OS elementos foriiecidos pela poesia cantada, 
e sera facil recouliecer asobras que resullaram 
desta alianga da inspirajfio natural com o 
geuio disciplinado pelo estudn, enriqueoido 
pela sciencia e pelas experiencias modernas. 

I. 

O segredo deste imperio que o gouslo esta 
lioje exercendc, acha-se no proprio caracler 

* Llt\a\xo deste nonie coraprehende.se a poesia nTio 
esc-'iptii, cle que os rapsodas tla\u>. tocadores du gouslo 
ou goiis'a, sau os depo.*Uarios. 



de ra^a, cujns inetinctos elle re(lect<' pro- 
fiindamente. E por issoquco genero do maravi- 
llioso ou do ideal que llie e proprio se resume 
n'uui culto geral da naluicza viva, e este 
culto e' a feicj-ao dislincliva das popula^oes 
slavas. Podem parecer extravagantca as 
superstigoes que perpotua, mas li cerlo que 
conservam a nacionalidade ; pelo eiicauto das 
alias recordacoes, ellas relevani aos cllios dos 
opprimidos as tristes vulgaridades da sua vida 
actual. Lavradores, mais que ludo, os Slavos 
acliam-se por mil modos ligados com os 
plienornenoa do muiido pliysico, sobre os quaes 
o sen genero de vida os obriga a ler os ollios 
constantemente abertos. A sua poesia aclia-se 
assiin compenetrada com o caracter das esla- 
5oes, com a cor dos lag-os, das nuvens, das 
florestas, e do proprio solo em que se radicou. 
Os Slavos como que tern conservado uma re- 
corcla5rio vaga daa antigas cren^as da metem- 
psvcoae, e nas suas legendas dao sempre 
aiiimagfio a toda a natureza. 

O papel que diatribiiem as feiticeiras ou 
vilas corresponde a esta lendcncia do genio 
slavo. N.ao lia fonle, nem collina, que nfio 
teiilia por guarda uma feiticeira ou vHa. 
Eatas nymplias erase represenlam propicias, 
ora inimigas; cavalgam atravcz das florestas 
em animaes incantados . a noite dansam todas 
em roda a borda dos ribeiros; tomam-se as 
vezes de amores pelos mancebos, mas niinca 
se deixam apanhar. Como as vilas, tambem 
as aves sfto objeclo d'lima especie de culto. 
Contam as mullieres servias como uma me- 
niiia, que perdera sen irmfio, iiuncase piidera 
oouaolar; e a for^a de gemer e cliorar, acabou 
por ser transformada na ave lastimosa a que 
lioje se da o iiome de cuco. Eata ave e o 
syiiibolo dos funeraes, e muitas vezes se en- 
contra represeiilada na cniz dos cemiterios. 
Na Piussia, na' Polonia, por toda a parte, 
o grito do cuco faz nascer presentimentos 
bigubres e aniiunoia as desgra^as das familias. 
Em quanto ao rouxinol, syniboliza para lodos 
OS Slavos a tristeza; e quando de noite se ouve 
a sua voz, e p-ira os amantes urn presagio 
d'iufidelidade. E por isso que se le n'uma 
krucovkika ' ; n Fallou verdade a avezinha 
melodioaa que, esta noite, no bosque, me 
annunciou trail i(;'io ! — Nfio, nao sera a mi- 
nlia noiva, aquella que lan^ou a oulros um 
olliar de meiguice. As aves apparecem muilas 
vezoa feilas mcnsageiras de Deus. Os Bui- 
garos conhecem nos seus Balkans uma especie 
d'aguia, que dizem parte para o Jordao, 
qiiandosellieapproxima a velliice. Banliando- 
se no rio sagrado, recupera uma plumagem 
branca, e vojia para as suas monlaulias pura 
e remogada. D'alii a origem da aguia branca. 

Em todas as can^oes guerreiras dos Slavos, 
o cavallo faz sempre para com sen amo o 
papel de conseilieiro, de sen companlieiro in- 
telligente. E assim que Marko, o fillio dos 

^ Canliga para dan<;a. 



58 



reii on krals, consuUa a 5iui cavali;adnr.T, o 
I'amosn Charats, iias circumstanciaj dilUccis. 
E c C/iarals que clioroso aniiuncia a Maiko 
que lucve vae morrer. Quein iifio coiiliece as 
apostrophes conlinuadas do giierieiro polaco 
ao seu cavallo? Qiieiii igiiora que os Cosacos 
do Don amain os seus cavallos quasi coino o 
Arabe ama o seu. A niesma iiispirayfio que 
por esla foruia idealisa os animacs, iiiulliplica 
as person ificajoes da naluieza iiiaiiiinada. As 
ujonlaiilias, os rios, tomam parte tauto nas 
alegrias torno nas penas do liomem ; auxiliani 
OS heroes com os seus consellios e combateni 
a par delles como os deiises d'Homero coni- 
baliajn a par dos Gregos. Assiui, no canto 
bolieniio de Zabin, os rios que o exercito vi- 
ctorioso vae enconUando successivamenle na 
sua passagem, sepullarn nas suas ondas os 
Aleinfies, e lanjam os Tcbeki)S saos e salvos 
sobre a outra margcm. 

O Danubio interrogado rcpelidas vezes 
pelos Servios, responde quasi sempre inoroso 
e aspero, em barn)onia com a lurbulencia 
das suas aguas. n O'Danubio, rio proCinido, 
por que assim corres tain fogoso ? l''oi o veado 
com as suas pontas ou o voievoda Mirtclieta 
com a sua langa, queni te ha turvado a 
limpidez da tua corvente ? NTio e o veado 
com as suas ponta«, nem o voievoda Miit- 
ohela com a sua lan^a, quem lurva o cristal 
das minlias aguas; sao essas raparigas mal- 
ditas, que, todas as manhas, veni ;is niinhas 
margens arrancar flores, e lavar as suas 
brancas faces, ti Represenlam-nos o Danubio 
como muilo amigo das dangas ; tem-no em 
conla do piimeiro niestre de niiisica dus Inca- 
dores do gousle j e e elle quedirige os choros 
Iriuinpbantcs dos guerreiios. Esta considera- 
jao dada aoseu rio pelos Illyro-Servios eslen- 
deu-se ate ii Russia. Um arclieologo de Mos- 
cou, jNIalsrul', no seu livro das tradigucs rus- 
sas, cila uma cangfio de mvujik, que diz : 
^. Danubio, Danubio nosso, os mogos te con- 
vidani a que venhas presidir-ilie as dangas, e 
assentar-te nns nossos Cestins. O Danubio, o 
joven Danubio veio assistir as nossas festas 
religiosas, assentou-se com nosco nos ban- 
quetes, e tocou-nos lindas cantigas para a 
danja n Cumpre porem nolar que para os Rus- 
sos e' nas margens do Danubio que de ordinario 
se pafsain as scenas mais lugubrcs das suas 
legendas, o assasinato dos seus heroes, a der- 
rota dos exercitos, ou a desesperagfio das 
raparigas abandonadas pelos seus arnantes. 
Para os Russos, o Dan\ibio e um rio inimigo; 
ao contrario do Volga que e uma ribeira toda 
amiga e benefica. Chamani-llio em todas as 
cangoes a mde volga, do niesino modo que 
OS Alernaes chamain pae ao Rlicno. O 
Don e tambein para os Russos o objecto de 
um culto snperslicioso. Um poderoso genio 
preside li sua origem, nas profundezas do lago 
de S. Joao, perto de Poula, na Jloscovia. 
O Don, como um fdlio docil, obcdece ao 
inqjulso palerno; corre tranquillamenle pelos 



steppes, e entra no mar com o norac de rio 
manso ( Tskhy-Don.) 

FiMaimcnte na poezia do gouslo, as estrel- 
las, OS ventos, as doengas eo raio fidlain, teai 
paixocs como o liomem, eentram como actores 
na sua vida quotidiana. Uma cangao servia 
da Bosnia mostra-nos uma menina, que, 
erguendo-se, sauda a eslrella d'alva e a in- 
terroga sobre o seu noivo. 

II Salve ! estrella Danitsa, minha irman ! 
Tu que passas d'oriente aooccidente por cima 
do Ilerlsegovine, ves lu la o men voievoda 
Stevfio ? As porlas do sea bronco Iconak. 
(palacio) estilo abertas? Manda clle sellar o 
seu arabe fogoso ? Estii a armar-se para vir 
ter com a sua noiva? — A estrella Danilsa 
Ihe responde com suavidade: — Minha linda 
irmaiizinha, eu vou de oriente a occidente, 
passo lodas as manhas por cima de Her- 
tsegovine, e agora estou vendo o hello voievoda 
Stevfio defronle do seu konak. As portas 
brancas do seu palacio eslao abertas; o 
seu cavallo de telizes doirados o espera todo 
enfreado; o heroc arma-se para ir ter com a 
sua noiva escoUiida. Mas essa 'noiva, nao es 

tu. )) 

Contim'ia. 



VM BANHO NO TKJO. 



e logo jiresa 

A vontfide senti de ttil iitnncirn 
Que inda nao ainio coitsn fpie mats f/ueira. 
Camues, 

Tt'jo , Tl'jo , oncle levas tnas onHas , 
Que as quero seiriiir, qiiero puiiil-as 
IJt; inisart'in . loiicas , imprimir mil l)eiJ09, 
Nas puras lares , nas donraiias tran(;aa , 
No niveo cullo, nos airosos brai;o3 , 
No peito virf;:iiial <lo Iiem que adnro. 
Mais oiisarani as Iciiras ; mas nao posso , 
Nilo me qiiero lenihrar do mais qne ousaram. 
Malilitas onrlas , caslijrar-voa quero, 
Quero luclar comvosi'o, ou\ir o pranto. 
Que, domadas por mim, em \ao sultanles, 
E se tal nao purler , ondas , matae-me ! 
Matae-me , por piedade, qne nan quero, 
Nao posso raais Tiver. Ouvi mens rogos ! 
No peito me opaiiae o fo^o vivo 
Que mil raorles me da , sem niinca a vida 
De todo me lirar. Oudas , matae-rae ! 
Arrojae-me depois a praia i;;nola , 
Qne dos homens, jamais, solTresse o trilho ; 
Alii deixae-me, qnal gelada roctia, 
Expoato ao temporal , endiora leuha 
O ceo por campa , por nuTtaUia o lOdo, 
Por preces , o carpir do mar profundo. 
E tu , mar que me escutas , se al;::um dia 
Tn gosares tambem Ventura tanta , 
Nao permillas , o mar , por este pranto 
Mais amariro ipie o sal das ajruas tuas, 
Nao permillas que as onrlas, que me mrdam, 
Depois de Iteijrrs mil , vao sobre a praia 
Cnspir a injuria vil na face fria, 
E o morto cr)rai;fSo pisar fol^ando ; 
Nar) permillas, prris lemo que ao senliNas, 
Mornas ainrla do rol:,'ar conlinuo, 
Deixe , mau erado men, a paz da campa, 
P'ra de novo soiTrer , viver de novo. 
Lisboa ]84. . . . 



59 
SECglo DE MATHEMATICA. 

Principiamos a publicar na cnnfoimidade do que se dissc a paginas 1.* e?.*, um traba- 
llio iililissimo que obtivemos do snr. Rufino Guerra Ozorio lente catliedratico da faculdade 
de matbemalica , per quein foi feilo quando na qualidade de lenle substitute da cadeira de 
hydraiilica explicou as respectivas doutrinas pelo tfalado de raeclianica de S. D. Poisson , 
onde no liydrod3'iiainica e acustica , julffou necessario para niellior intelligencia do livro, 
introduzir esta importante amplia<;rio soljre intcfjraes definidos com formulas, que servetn 
para determinar as circunistancias do tnovimento de uma corda ou vara elastica; e tainbem 
as do calorico nos corpos liquidos ou solidos, em casos parliculares ; e as do ar nos tubes 
cylindricos. Os RR. 

INTEGRAES DEFINIDOS. 

1. Siipponhanios que ^(x) nao e iiifinita quando x e igual a x^,'oii a a:„, ou quando 
,r esta coinpreliendjdo entre estes limites. 

Dividamos x„ — a?^ em n paries, em geral 5 desiguaes, e sempre mui pequenas em 
coinparajao de x„ — x„. Designemos por S,, ^., 1?,, $^, . . . . , S„ a estas partes; de sorte que 
seja x„ — .r,,^ J,-|-*,4-,y, + 5'„. 

Ilepresenloino3 por 4i(^) uma funcjao deseonhecida de x, porem ligada a (f{x) pela 
seguinle igiialdade : 

(1) d. ^(a;) = ip (x)dx. 

Trataremos de deduzir algumas formulas, por meio das quaes se possa calcular 
•i {x„) — i^C-^o) com uma approxima(;ao indeflnida; quando for conhecida a expressao analy- 
lira de <f{x), ou quando rf{x) e as suas derivadas forem quantidades dadas. 

Fa^amos por brevidade ,r„+ *,^=a:,; a;,+ <?, + J^^^a;,; ^■^o + ^.+ '^i +^„=^,. 

Pelo tliporenja de Taylor achareinos : 



H^,) = H^.) + ^,tM + l^v'M + Y7rj'f"i^')+-- 



H^,) = i{^,) + ».9(^,)+^9'i^.) + j§j9"i^.)- 



n^.) = ^ (^0 + ^. t C^J + {f,'e'(^,) + T^l! *" (-^'^ • 



Sommando e reduzindo, obteremos: 



+ etc. 



60 

For quanlo (a-„_,)=:a-„ — ,J„ , e ,j,(.r,_,) = ^(.t„— ^„) ; poderlaiiins ti-r procediilo 
seguinte modo : 






Das quaes equayoes lirariamos, como acima: 

— j^[J;o'Gr,) + .j:<?'(^.) + ^>K) + K,'{x„)] 

— etc. 

Se fizermos j^ =^j:= .S", = . . . . =^n 5 e designarmos por cj sua commum grandeza ; 
lauto a equagfio (2) como a equa^ao(3), poderao escrcver-se : 

(4) <- (-r.) — * (■^o) = ^ 2 vI-J-.) + , „ 2 ¥ ' (^O + 7-^ 2 9 "Uo + etc. 

(5) -K-^O — '!'('^J = *2'9C^.O — /:j29'(^.)+T^2?"(''-0-'=Lc. 

Cada soinma indicada per 2 t^ni " lermos que se formam , na primeira equajfio , dando 
a i todos OS valores desde r=0 ale i=n — 1 ; e e isto o que pertendemos indicar, pscrevendu 

2 anles de 9; do mesino modo discorroreraos a respeilo da segunda equa(jrio. 
Sotnmando (4j e (6), e reparlindo por 2, tacilmenl.e acliarfmo^ : 
(G) K-^-") — 'K'^.)='^2¥(.n) — — [a(.r„)+,p(a:Jl 

+ t5i S" ^'"^ ~ lit' "^''" ^ + ' "^''"^ '' 

Farainos )n = a{x„') — oG^o)- »«';== o ' (j^™ ) — o'{x^): m'' := o'' {.t„) — o"(a:J: elc. : 
e tanahem >^,= 29'(x.): -</,= 29"Gri) ^ y^3= 2 ? '" (^J-O ^ etc. A eqiia^ao (-1) dara as 

(=afO i=»0 J=0 

segiiintes ; 



61 



I'or liieio destai equajoes, obleremos ; 

^ ^- f.1 M ?.l 

iJ, = m - -m' + — m'- ,73;jy^ [m"- - ^, - cLc. + j^ ^„ + elc] 
For ciinseqiieiicia , aprovciundo as sexlas potencias de i, viid: 



Da eijtia^'no (7) deduzem-se as seguintes : 



l.'i.S - 1.2.3 1.2.2.0 1.2.3.2.2.3 1.2.3.2.3.1.0.G 

■ ^ r^ 7n" 7n"' + 771" 



1.2.3.4 = 1.2.3.-1. 1.2.3.4..3 ' 1.2.3.1.2.2.3 



1.2.3.1.0 ' 1.3.3.4..D 1.2.3.4.0.2 ' 1.2.3.4..i.2.2.3 

1.2.3.4..X6 '"'"'" 1.2.3.4.5.G~"'' 1.2.3. l..£).(i.2 

v4. =:: 771' 



1.2.3.4..D.6.7 '- 1.2.3.4..3.i;.7 



62 

Sommaiido todas estas eqiiajoes, e representando por .S' esta soonina, acliaiemos 
S=:m — — m' + m'" , — ni* - 



2.2.3 2.3.10.6 2.3.2..J. 4.5.6.7 

Pondo em 6' os valores dc m, m', iii,'" , etc., e escrevendo o rosultado cm (1), coii- 
cliiiremos : 

(«) n^")-H^.) = *'ir(W; + ^[<p(^.)-?(^„)]-|^[9'Cx„)-?'K)J 

H U"'(ar„) — <p"'(a; )] — ■ ^^ [9* (.r,.) — <f' (a:„)| 

2.3.4.5.6'-* V ; f ^ ,.;j 2.3.2.3.4.5.6.7 1-* ^ ' ^ ^ "'^' 

Despresando iiesta eqiiagao os termos multiplicados por y', y, etc. , fjcara : 

vl'^'.j— vl^o; — ^ H ;3 1 5 "^ ;^ i 



i(^„) = ^ I 



Se OS ^ sfto Ifio pequenos que podenios considerar, como linlias rectas, as por^oes itc 
curva, comprehendidas entre duas ordenadas, separadas pelo intervallo*, leremos 

y(jr,)+pG-»^.+.) _ pr,+.-r,+. p „,Q5 _o acharemoi : 

Se (p (a;) niio tor dada por uma expressao analytica de forma conliecida , e somente 

tivcrmos em numeros os valores della, naopoderemos acliar em (8) o valor, ^j, (jz-„) — i!/(a:J, 

aproveitando os termos, em que cntra S', islo e', aproveitando -^-r [?' (-^n) — f'i'^o)]' porque 

3.4 

nao podemos formar as derivadas o'(,r;;), ^'(a;^). Trataremos pois de remediar esla dilTi- 
culdade. 

Sendo OS i pequenos podemos suppor que a curva representada por if[x) se confunde 
sensivelmenle com a curva parabolica a-\-bx-irCX- em cada exlensao '2^ da abscissa. 

Seja i um numero inteiro posilivo, a hypolbese precedenle reduz-se a dizer que 
<p[x) ^= a -{- bx -\- cx^ para o valor de a:, desde x-\-i^ ate' a; + ;> + 2<!' incliisivamente. Os 
paramelros a, 6, c, variarao com o numero i; e com elles podemos, para cada numero i 
fazcr passar <f (x) = a -}- b x -\- c x'^ por os tres pontns, correspondentes as abscissas 
.T -{-is : x-\-iS- -{-S : jc -\-iS-\-Q,S : isto nos permit le alcangar a, b , c para o indice getal i. 

Para termos um numero exacto de arcos parabolicos, que correspondam a hypotliese 
do que cada um deiles passa pelos ponlos respectivos a .r -)- z> : a? + z^ + ^ : jr + !> + 2J : 
admittiremos que o numero dado de ordenadas e impar , nu que ar„ — Xo se compoe de uni 
numero par 2m de paries iguaes. Ora ou o numero dado de ordenadas e impar, ou se 
pode reduzir a isso pela interpolagao. 

Posto isto, sejam a, 6, c, os parametros, que pertencem ao arco parabolico, que 
passa pelas extremidades das ordenadas , cujas abscissas sao x + iS : x -\-iS--\- S : x-\-i^ +2^ : 
teremos : 

? (or.) =0 + 6 (.r„ + / S) +c (i. + tS)': 

^{x,^,) = a + b{x^ + iS + S)-\-c(x,+ i&-lrrj': 

logo «, (T.+,) - 9 (.r,.+.) =: 6 ^ + c [2 x„ + J (2.- + 3)] * : 

'9 C^i) - (2'.) = 6 * + <^ [2 ^. + ■^ (2/ + 1 )] -J •■ 
ou 9 (^'0 — 2(p (cr,.).,) -[-o(.r,.).3) zsSciJ' : que eo mesmo que: 



63 

(10) 2[y(x,) — 29(^.+,) + t(^.+^)]=4«*'- 

As derivadas de a (jr) dfio : 

/(a',) = 6 + 2c(a„+i/) 
(p'(a.-,-j_,)=:6 4-2c(a;„+J> +2^). Destas duas equagoes resulta : 

(11) S[cf'(xi+,) — f'{xi)] = 4,cS- 

Das equagoes (10) e (11) conclue-se : 

(12J ,' (a:i+0-9' (A) = ?t?(xO-2o(.T.+.) + <p(.,V|.. )J. 

Da equa(;ao (12) deduzem-se as' /a seguintes : 

y'(,r,)-v'(i-,.)=j[9K)-29(^-,)+»(^:)] 
^/(i-J-9'(,rJr=|[9(a;J_2<p(Tj + v(^.)1 



» ' (■s;-;™) — ¥ ' ('7::„_j) = y [ <P (^=».-;) — 2 9 («:,„_,) ± ^ (a:^„)]. 

Sommando todas estas equagoes , e reduzindo, acharenios: 
2 f 

<?'(--^=.")— 9'(^o)=7|v(^o) — <p(>2^:i:..) — 2[v(a.-,) + 9(^.0 + 'f(^Vs)---+¥('^="-')] 

+ 2[9(^J + 9G'--,,) + 9K)..- + 9(^.-)]( 
Mulliplicando toda a equagao por -, podetnos-Ihe dar a forma : 

(13) -il[9'(a:^)-9'(^J]=23[9(.:r.^)-9(^.)] 

— -3 [9 (a:,) + 9(3'.) + 9 (^ J +9(a^::<»)] 

A equac'io (8) pode pois lomar uma nova forma pela substituigao do valor (13); para 
o que em (8) faremos n = 2m, e deapresando 03 termos , em que S entra iia quarla 
potencia, virii : 

+ (-■^2^.)— +('^.) =*[?('^o) + <?('^.) + ¥(''^J + 9C'^j) +9C'y=».-.)] 

+ 3-[¥('S,)+9('2^;) + 9(«3) + 9('^7) +9('2^:^.)] 

— ^[?('^J + ?('^J + 9C'^\) + 9('Z^0 ■V'ik.Xz..) 

, . + Y[?(-^2".)— 9(^«)]- 



G4 

Juiilando ao segiindo nicinbrn a quantidado nulla -f- -^t^(,r,„) — '— ,p(.i-j,„) ; junlandi; 

— -., «(■?») a leiTciia liiilia , e + t?(^„) a quarta; acliaromos : 
•«> * It ' 

— .:,[¥ K) + 9 (.2--.) + 9 (■^■.) + 9 (•^•,) +9 (.r,,) I 



— tJ[9(^^)+9(^.,)]• 
Iletlectindo n'csla somma, ve-sc facilmontc que: 

A somma dos tennos coin iiidk-o irnpar, e: 

+ J {2 [, Gr,) + a (.vj + 9 (^'J .... +;9(''-.™-.)l I : 
A somma dos lerraos com indice par, e: 

Finalmentc, a quarta linha podc esciever-se : 

2i (I -I 



Logo: 

2^ 



-K-r.™) — 4'(^o) = y|[9(^,)+9K)+9('^-.) + 9(-^:) + 9(^-=".-.)] 

+ [ 9 (■^o) + 9 ('^,) + 9 C-^:) + 9 (^-J + 9 (-Cj +0 (x,™) j 

Ou tambem : 

Qi c 
(J'l) . . . . ^, (a-,„) _^, (^J = -|[^ (a;„)+9 (:i'.+^)+9 (^.+2'^)+9 {■^o+3S). . + 9 (a'.+ S;;)*)] 

+ [ 9 (arc>+^)+ 9 (x.+Si) + 9 fx.+ &^J. . . . + , (.r„+ (2m-i;*)] 

O primeiio multiplicador de — , na primeira linlia, e a somma de todas as ordcna- 

o 

dat : a segunda linha, contem a somma da scgimda, qiiorta, sexla,. ... , ordenadas ate d 

pemdtima : em_ fim a ultima linha , e 3. scmi-somma das ordenadas cxlremas , tomada com 

o signal menos. 

Continua rcpino giebba OZORIO. 



i) 3n0titiitir^ 



JOUNAL SCIENTIFICO E LITTERARIO. 



r 

C.IIVERSIDADE DE COIlI!{RA-ftOGR\l!5I.lS. 

FACULDAUE DE ME^CISA. 

l8o3— 185'f. 
2.° ANNO. _ 

CiDEIRA PB FHYSIoLOGlA C UVGIK.\H. 

COaiPHNDIO J. J. DC M(-:LL0, PRI.IieiRAS I,IMTA3 DE 

PHVSIOLO(»[\. J. r. V. gALa'aO — CUUSO ELCMUMAlt 

Dij HV(;ir,.\r. 

Lenle — Or. Jeronymo Josft de Mello. 

PHYSIOLOGIA GEIIAL. 

Defitii^^lo. Divisiio. Ente.o oriranicos, e aiiorcanJcos. 
Caraclered cominuiis — tlilTerenci.ies— viila — inoprieiladns 
vilnea — iirupri'-dadcs pli^sicaiS, e rhimirjts — relai^rio 
(IV'stad e (Jas vilaes. ImiMinderaveis — ucruo d'esles iins 
corpus vivos — Leis conslaiites do priiicijiio vital — vida 
or;;.itiic.-i, e animal — Curao ciieiranios ao conhecimenlo 
diis for<;a3 em i!;erdl— coiiio nos elciamos art daa vilaes. 
Phi'iiouifiius coiumiins a ciilea or^anicos e aiiurganicus. 

PIIYSIOLOCIA ESPECIAL. 

San:;ue — qiinnlidade no homfni — qiieslSo dc homo- 
geneidade — vid.i no s.Tni^rie — IransfiL^riu — furm.ir^to t\o 
uanicne^compusirao physira — ronipusierio rliiuncii. 

Circulanrio do sanpiif; — ireral — rt-.-pirator ia — ["-rt.d. 

— CircnUi;iio nus \ejleln\idus — nos inverlehnulos — Cur i- 
^iio ronsiderado como ceiilro de circnia(;rio — Acnstica 
do corarao — Arierias ; sna ac^-iio na cirenla^rio — Syslc- 
ma capillar rnliro — vcla-i ; aci^iio d't'stas na circuIn<;;"io — 
Aci^to dus va^os no pruccsso da alisurpi^uo — caucus de 
ubsorjn;.*io — dillcrenra de al;surp(;oes. 

Lympha, vusos Ivuipliiiliros, curaro<^s lyniphalicos — 
oritrem da lymjdia — caiisas do uiuviuienlo no systema 
iympUaliro 

Itespira^-fio — nos vertelirados — noa invertehrados. Pro- 
priedadea do ar — Aijparolho regpiratorio — Prucesso e 
lOCcliiMiismo — Hfiiialgse Theoria da rr-spirara.t — in- 
finenL-ia i\va nervos na re?pirii(;riuj plienuuitu^s physici.s, 
chimicos, c vil:ies ilcllx 

Nulrii;rio — crescimrnlo — rt'L'pnera(;rio -:-Th(*ori,» da ntt- 
lrii;ao — Processo nnlrilivu — Prurcssos re2:cneradoies. 

*^'aIor animal — Analyse das diiersas theurias da caluri- 
ficac^ao — DifTcrenras du ciilor nu3 entea org.inicos — Dif- 
ferciK^as na especie hiiniaua, segundo idades, temperaiuen- 
tos, t'stados, climas. 

J^iiieslao considera'la cm (odus os animaes — No lioiuem 

— Func(;oes preparalorias da di^'eslao — seiitimenlo de 
fome, e scde — cunsas d'estas it-nsa^'oes — Cunsideraroes 
geraes sobre alimentus — Digeslau eslomacal — duodenal 

— inleatinal. 

tsecre^ao — Divisao ile setTf<;ocs^ Apparelhns, ceystc- 
roas vasculares secrtlores — Theoria dasecrfrao — secre- 
^ao renal-culanea — cellular — mucosa —orgSos de secre- 
^iu duviduSa. 

YUSCr^OIZS AMJIAES. 

Defini^So— Divisao— Nervos — Pbysiologia comparada 
da ac^ao nervosa — Nervus or^'anicos — aaimaeB — rcsjii- 



VOL. ill. 



ralorios — Tliooria d'ac<;rio nervosa — Leis de ac^au dui 
nervo8 — Aci^or's nc-r\osaiJ renexas— Aprccia^So da d.-u- 
Iriiia de M. Hall — Dontrina de symiialhias — Vinao — 
Riidii;ao — olfarlo — f^o^lo^lacto e loque — Senlidoi in- 
tfrnos — Duutriiia plirenoloy^ica — exanie, ft apreciat^ilo 
d'esta doulrin.'i — DilT(.'ren(;a de opinioes entre os raeta- 
physrcos e plirenoltj:.'islas — Dunlrinas philosophicits de 
Kant, IIp;reI,SihellJng;, Condillac — Tlieuria ]ihi8iulo^'ica dt' 
sent iilus internos. — 

Moviinf'nio — orgSos de niovimrnto nos flifferentes ani- 
mal's — Mecljanira animal — thenria da voz e loquella. 

Gera(;ilo — cunsidcrada em luda a classe animal — re- 
lai^.lo d'estas com as (uilras fnncroes — Gerai^ao esponta- 
nea — Processus tie gcrarrio sexual — Funrt^Oes de gera^So 
sexual — Thooria da {rerarao — Influencia dus pais n.i 
prole — Parlo — propnrt;ao de nascimenlos com relaijao a 
sexus — cria(;jo dos recem-nascidoi. 

Somno, soiihos, sonarabniismo, ma^nctismo animal. — 

Alorle — sii^naes da mortc — g:eral — parcial. 

Cnrso pralico de physiologia experimental (na prima- 
vera). 

HYGIENE INDIVIDUAL. 

Defini^iio — DivisSes — Rela^ao d'esia comoutras scien- 

rias — DifTerem^a de pianos nos Iratados de hys:iene — 
DiiTerem^as orjanicas individnries — Modtficadorea inlernos 
— Applicarao dog principios irtraes as func<;i5es do orga- 
nisino — Educai;ao physica — Kdnca«;ao inlellectnal, e m(»- 
ra! — Melhoraniento Je raras— rela^oes da sciencla com 
a civilisacao — Influencia d*ella sobre a arte dc curar. 



CADRIllA DE OPmiAroES CIRIIRGICAS, 

COMPIS^DIO — IlEfilN -MiUVEAUX ELE.UENS DE CHIBUROI 11 

<JV DE .MEDICINE UfERATOIRE. 

Lenle — Dr. Francisco Fernandes da Costa. 



CADEIRA DE PATHOLOn lA GER AL , THERAPRUTICA GERAL, 
PATHULOGIA E THEK APEt/Tf CA CIRLRGICA, 

^o:.IP(:^DIo — chomel — fvc-mens de pathulogib c;e- 

.■\EiiAl.. — BE;IN NOUVliAUX EtE•.lE^S DE ClitRURGJE 

ET DE ."IIEDICI.NE urEUATOIRE. 

Lt-nte — Dr. Cciurio Auijvsto Percira d'Azevcclo 



CADEIRA DE MATERIA WEDICA E PHARMACIA. 

CO.MPEtSDIO BOL'CHARDAT MA^UEL DE MATIBUK 

aiEDIC. 

■■ ■ ■ ' '■ ALCANO COUTGO PHARMACEt TICO 

LLSITASO. 
I 

Lenle — Dr. Florencio Peres Furtado Gahao* 

PHARMACO_\OMlA THEORtCA E PRACTICA. 

Definirao de Pliarmaconomia — partes em que se divide 
-dffinir'fto i\-. medicament .s e sua divisao pharoiu- 



JtMfo 15 — I85i. 



.Ni,M G. 






66 



ceutica — titensilios — fornallias — vasos — inslninieiitoa 
— pesos, e m«iliiJns nHcioiiaes — franceaes — iiiijlezes — 
rela^So (I'lins c>.n\\ oiilros — Ijaroniclro — Iberiuumelro — 
rediic^rio dus princi|)i;es (I'mis eiii oiilrt;:s — ureuiui-lius — 
reiliic^iio iriiiis em oiilros — alcoulometro — opera^oes 
chimicu-pliariiiiiCeulicttS — (Uvi^^n), exlriic^rio, processu 
*le tleslui'in;Hu, niisliiii, Hi*(;fia cliimica — esculh^j e co- 
llieilii (l;is iliu'isas paries tlus vi-^eUies, *: animues — sua 
exsica^ao, const'r\»(;rii), rc[uisii;riu e (liirar'u — classiflca- 
^at) pIiarmacunumicH dos inudicaiiioiilus — excipieiites, e 
siias piiri(icu(;ot'S — hydrulicos, mi prepara(;Oes, cujo I'X- 
cipieiile e a a:;iia •^Iiydrul.it>is, ou ai;nas dislilaJas pur 
iliversus prurtssus — livdri'iiifusus, uu infiisijL'a aqiiosas ^ 
Ijydrusoiutgs oil slIui^Oi-s — deatclus — succus expri-ssos — 
sua prepara^it'i, chissilira^ai), ilepuraeau, c ronserva^aa 
por diversos pruressufi — caldus inediciiiaes — hydroleos 

— exlractus a'piosus ubtidos purdecocla, iiiriisiiu, digcstao, 
uiacera^jo, snccus depiiradus, e nau depiirados, e ptlo 
processo da dt-slocn^riu, ffitus em divcraos ulensilius e\a- 
puralurius — stiii classiric.i<;."io e consi-rva^ilu — viiiuieioii, 
oil vinhits mediciiiaes — exlraclos vinosos — akuulicos, uii 
preparatjues, cnjo cvcipiento e o alcoul — pur desluca^ilo 

— alcuulatos purdisersLis processus ^evlraclos alcoulicus; 
ou prepara(;oes, cujo cvctpi'.'ule c o viiia:.'re — aceloleos, 
ou viiiagrea medii'iiiaes — cxtraclus acelosus — brjtolicos, 
on prep:ira(;urs, cuju eMMpiciite ca i'er\eja — oleus Qxus— 
oleos volati-is, on esseuciafS — saccoroUcos (iuipiu|iriameri- 
te)oii prfparai;5es, cujo exL-ipienlesaosuslancias saci'arjnas 
— 'Xaropes por sului^'ao, por ebulli^ao, e mislos — ap- 
plic'i^ao d,i llieoria dos dt-cuclos, iiiludos, maceralus, e 
Biiccos exprcssos aos xaropes —sua cuuserva^ao — rael- 
liles — oxymclliles — Iherolicos, ou prepara(;oes5 cujo 
excipiente o o olherlheoria dos elliers — tllieroleus, ou 
linluras ethereas — ammuiiialcuulicus, on prepararooa, 
enjo excipiente e a ammoniaca — amnionialcoolius, on 
tiuluras \olaleis. Pos medicmaes por di^ersjs processos — 
feculas — pulpas — conservas — elecluarius — paslas solid as 
— piliilaa ciu piii:ladur — ti sem c!le — t-alajdasm-is — es- 
pecies — olcoleos, ou oleus composlos — Lalsauius. ou niyro- 
Jicos^liniuienlos — ceratos — pommadas — • uni,rueidos, ou 
relinoleos molii-s — einplaslos ou retiuoleus durus por di- 
versos processos — sparadrapos feilos em macliiiia — prepara- 
(;3es chimicas — Iheoria dos saes — reat;enles cliiiuidis — 
aguas luineraes, e seu eusaio — principaes nacii>iiaes — 
arteficiaes — m>>do de preparar, rlui;ar, e adniinistrar v-i 
medicamfnlos homa?opalIiicaiuenle. 

PIIARMACOLOniA. 

Defini^ao de PharmacoIi.):;ia, e de Materia Medica — 
dita de medicaiiRnto — dilfereiUj'a entre allmetilo, me- 
dicamenlu, veneno, e remedio — ori^eai dus medicameulos, 
e alirueulos — diveisos modus de delerrainar e cuiiliecer 
as \irlu(Ie3 dos uiedicament<-'S — j>eliis caracteres pliysicus, 
chimicos — por unaIo;,'ias bulanicits — pur experieociits t-m 
animaes mars simillianles ao Homem — dllas no Homein 
enfermo — dilas no Huniem no e^itado physiulo^'ico — 
ac<;ao dos mcdicauieulus, chluiico. dynauiico, chimico- 
Jynauiico — cffciloa dus medicameiilos, primarl'is, ou 
physiolo;iicos, sfcnndarius, curativos — locaes, distauley, 
ou remotus — csles pur que vjas se Iransmiltem, coiuo se 
explicaai — afliuidade tdectiva dos medicamenlus pira 
delerminados orj;aos, system.is ou apparelluid — llu-oria 
homoeopalhica a este respeito — iuflumcia do Ii;tbil.i 
subre OS effeilos dos me<licamenlos, e a explica^-iio 
Jiomuenpalhica — adminislracao dos medicamenios, e por 
(|ue vias se faz — doses d'elles, e effeilos fe^undu ellas 

— sua nalureza — medicamenios simples, e composlos — 
luonopliarmacia — polypliarm-'icia — aprecia^iio d'auibag 

— a lo de foruudar, e leis porUuMiczas, (pie a reg^ulani em 
especial — clasaificaqao dos medicamenios^ a que poiilo 
pdde ser con\eniLnte n'esle ramo de scieucias, c no 
eslado actual — nui^oes do doulrina Iiomoeopalhica em 
jjeral. Re^uiremos o tijxto iia pliarmacologia especial, por 
isso estudarenios ja os medic;iiuenlos narcoticos — conside- 
ra<;oes geraes li curra do seu moilo de obrar em geral, e 
de cada uma sribstancia em particular — sua descrip(;ao 

— suas ajjplica^oes therapeitticas geraes e especiaes — 
doses — preparat^oes — siibstancias incompaliveis — o 
mesmo das solnneas virosas — o mesmo das ombelliferas 
lirosas — o mesmo dus elleboreas — o mesmo das cyanicaa 



— o niL'imo das lelonicis— ij mesmj dus medicament. i» 
emuit*ua^o;:o8, excitiiules do ulero, dus propriamenle 
diclos, dus aborljvos — o mesmo dus mt-'licanientos anti- 
spwsmudicus — o m<'smo dus mediraiuc^ntos eslimulantes, 
ou excilauli's — o mesmo dos medicamenlus nplirodisiacon 

— o mesmo dos medicamenios sudorilicus, e diaphoreticui 

— Hydr(»llier.ipia -^ o mesmo dus medicamentos dlurellco* 

— o niL'smo dos cliamailus cxpeclufanles — o mosuio dus 
nu'dicamenlos fmelicus — o mesmn dus niedicameulos 
pnr^'antfs — o mesmo dos mediramoiitog emollienles, e 
analeplicos — o mesmo dos uifdicaan-nlos contra eslimii- 
lanles, e teinperantes — o mesmo dus medicamcnlo* 
adsli iimculfs — o mesmo dos medicaiiienlus lonicos, e 
corrobur;uiU's — o mesmo doa m*"dicamen[us allerantes e 
snlistituiljvos — o luesmo dos medicamentua rpvnlsivo*. 
rnbcQcienles, e cpispacticos — o mesinr) dus medicamentu- 
anIhelmiidici'S. — Analysf" pharuiacenlica, e pharmncolo- 
yica das furmulas da Plianuacoputi porlngueza Ie;ra!. e 
subsliluirao d'ellas por outras. 



(POESiA SLAVA MODERNA). 



Conlinuado de jiai;. Jili. 

Por este papcl dislrilniido us diCfereiilo? 

for^as da naLuieza, beiii se ve que a poesia 

dos gouslars corresponde a luna das mais pro- 

mmciadas inclina^oes do caracler slavo, que 

ella liioiiijoa lanibcrn cclebrando essa anliga 

crenga iios prcsagios e nos presonliinenlo?, 

que exerce ainda ao preserUe tarnardio impc- 

lio sobie estes paizes. Uma menina cantada 

nas piesnas (balladas) servia-;, vae colhendo 

cravos ao looLC" de uin ribeiro; faz com elles 

Lies coioa?; poe uiija sobre a sua cabe^a para 

Ihe realgar a tormosura, guarda a se^unda 

paia sua irma, e alira com a terceira ao ri- 

beiio, dizeiido : voga, minlia coroa, ale de- 

(roiUe da porta do nicu amante. Se la clie- 

gares, sem to afimdar, nao sera uma prova 

de que sua infie consente que elle me despo- 

se ? aO excellenle drama intitulado Gorski 

rienats, obra prima do derradeiro vladika 

dos Monleiiej^rinos ', apprcseiUa-nos, iTum 

grande banquete comuium de todo o povo, 

OS veliios, a maneira dos antigos augures 

etruscos, k'udo os destiiios de cada uma das 

tribus, inscriptos pela mao da nalureza, em 

s!gnos ou liiihas inisleriosas, sobre as e?pa- 

doas doa bois e dos caMiciros servidos no bau- 

quLHe ou sacrificio nncional. " O serdar (juiz) 

Jaiiko ppga iriiiiia espadoa decarneiro; Lira- 

Ihe a carne coin o seu culello, e olhando-a 

com admira^ao, exclama : De quetn era est** 

caineiro?*; — Respondem-lhe : De Martinlio 

Baitsa. — Bemaveuturado pae Baitsa, replica 

o serdar, o teu carneiio traz uma inscripcao 

maravilhosa sol>re o glorioso futuro da lua 

familial Evi , que tenlio descarnado inilliares 

de espadoas, riunca eui nenliuma dellas li urn 

lao bello deslino ! — E esta coxa, em que 

agora pegueij de quern era ella! Vejo que 

' Pedro II. que por suas obras numcrosas se collocoii 
na primlira urdcui dos poelaa iliyrico-scrvios. 



67 



a rara do seu doiio vnc e.\liiigiiir-se. O galo 
deixa de carilar as lioias iia i-iia casa , que se 
transforma n'limataveijia t'miebre, ii'iirn vasto 
sepulohro, ondc upiodrccem mais de vinte 
cadaveres, sahidos lodos d'uiii mesino troii- 
co. » Uni MoritenegTino incrediilo zoiiiba en- 
tao dos sens coinpaidieiros. a Eblaes-rtie pa- 
recPiido , diz elle, as nosjas vellias avos , que 
leein a sigria as creanras na palriia dasmfios, 
on Hie fazeiii lirar favas a soile. tlomo e que 
OS ossos cozidos e mortos podcm saber o que 
tem de acoiitecer aos vivos?!! PoJe a logica 
can^ar-se a fallar, mas nao alcangaia punca 
destriiir os instinctoa. 

Na Polonia, o povo aclia pelo niesino 
llicor presagioa iioj accideiites mais fortuitos 
da natiiicza, na direccfiodo venlo, |)or exein- 
plo, romo prova esla can^'ao litiiuariia u Sobrc 
o ramo florido de iima lillia, eslava enipo- 
leirada iiiiia avczinlia. Do alio de iima co|- 
liiia, lima meiiiiia examinava iuquieta de que 
lado sopiava o venlo. Era por es^e lado, pen- 
sava ella, que devia cliegar o seu aniado! — 
Ah! o venlo sopra dos valles de Kovno. O 
men joven despcisado cliega da Sainogitia: 
corre apressado, o seu cavallo prelo bran- 
qiiea do escuma o froio dourado. ?) 

A me^ma lendencla que impelle os Slavos 
a interpielar oj plienoinenos da natureza, e a 
dar uma vida my^^erio^a tanto aos auimaes 
como aos seros inanimados, marrou lambem 
com o seu cuiiho cerlos apologos, dos quaes 
oft'erecem mais que urn exempio as canligas 
das muUiuier, e que tem loda a apparencia 
de t'abulas, sem ler o sen senlido moral. Sao 
visilas muito polidas entre os atiimaes dos 
monies on as aves das capoeiras, conversas 
enlrc as arvores de frucla, on e um noivado 
de aveziniias carilado mm todai as miudozas, 
ou n casamenlo de uma mosca viuva com um 
joven mosiardo. Alguiiias vezes tambem de- 
para-se no meio deales capriclios com cerla 
agudeza e oiigiiialidade, conio por exempio, 
na picsna moiiteuegriua iutJtulada: A mais 
linda Jlor dcste. iiMiido. 

«L'ma larangeiia, ciiberta de boloes de 
suave perfume, galjava-se a borda do mar, 
que nao liavia n'aquelia hora por lodo o 
mundo nada mais lindo que ella. — Sou mais 
llnda que lii, exclamou o prado esmaltado 
de boninas. — Nenlium de vos pode compa- 
rar-se comigo, dissc a ambos nm vaslo cam- 
po cuberto de branca seara. — Uma videira, 
carregada de caclios nascentes, escutou-os e 
disse: — Nao vos giorifiqueis por esse rnodo, 
que a lodos vos levo vanlagem. — lintao uma 
menina solleira, que ouvira esta dispula, disse 
lambem: — Vossa belleza c passageira, nao 
val a miiiLa belleza. 

Um joven que ia passando, respondeu sur- 
rindo: — As laranjas, cor d'oiro, qiiando esti- 
verem niadura?, Iiei-de comel-as. O prado, 
quaiido acabar de tlorir, liei-de deilar-llie a 
tnice. A branca seara, iiel-de ccifal-a. Do 
cacho veriuellio, Lei-de cxtraliir um succo 



generoso para beber em companliia dos bra- 
vos. Em quanto a ti, menina, quando tc clie- 
gar a edade, eu te desposarei, e tu seras mi- 
nlia. — Nao ha por lanto em lodo o universo 
tlor mais linda que um rapaz inda solleiro. 

Um camponez siavo conheeeu todas as fa- 
milias das planlas e das aves da sua terra; 
tem nomes para um numero pasmoso dee^re- 
las; forma um relojo particular para cada 
estajao, para cada mez do anno. Em qualqner 
momeiilo da nolle que Hie pergnntardes as 
lioras que sao, olliara para o ceo e vos re- 
spondera sem se enganar. O Cos-aco tem nos 
seus olhos lima bussola natural : se o man- 
darem a uma provincia djslante onde niinca 
teiiha ido, parliia direilo como uma freclia, 
e chegara ao seu destino no dia marcado. O 
izvostchik moscovila ', perdido na steppe no 
meio d'um redemoinho de neve ou de area 
fina, espera que passe a lenipestade; depois, 
ainda mesmo que o a^oile da lempestade 
lenha apagado lodo o vesligio dos caminlios, 
conseguc orientar-se, e coalinua a sua der- 
rola atravez do deserto. E-la uniao intima 
dos Slavos com a natureza leva-os a acredi- 
tarem facilmente, se nao nos sanctos, pelo 
menos nos prodigios. Em ncnhum oulro paiz, 
como entre OS Slavos, se fazem em lao subida 
eschala as roniarias as irnagens milagrosas de 
Nossa Sen bora. Os antigos Polacos julgavam 
que a sancla Virgem (a Bogarod-Jca) mar- 
cliava a sua frente nos combales ; pcla mesma 
forma que os Russos mndemos lem vislo, 
por mai,de uma vez, apparecer-llie, no meio 
do fuino da artilheria, a imagem veneranda 
de S. Sergio, Nao devemos porem concluir 
daqui que o mundo sobrenalural tenha um 
(lajjel distiiicio na poe^ia do o-ouslo. Por 
mais que se remonlc, a for^a de esludo, ate' 
as primeiras origens desta poesia de ra^-a, nao 
se conseguira descubrir nella, como na poesia 
dos llindous, dos Scaudinavos e dos Gregos, 
ocaracler sacerdolal. E-tranlia a loda a especle 
de myslici.-mo, conservase coiislanlemente ou 
p<ililica ou domeslica. Todas as na(;f"ies slavas 
cantam os seus heroes, as suas glorias e des- 
grajas terrestres ; mas preoccupam-se pouco 
do mundo invislvel. A religiao dos primitivos 
Slavos limitava-se aos sacrificios nos cespedes 
ou Koiirgans funeraes dos sens chefes mortos 
pela palria ; o sen paraizo nao se elevava 
acima das nuvens dos monies Karpalhos; era 
lii que pairavam os manes dos seus anlepas- 
sados, em conslanle rdajao com a sua poste- 
ridade. E hi, que ainda hoje vagiieam erran- 
Ips as sonibras do AVu^6t;/(; ^ Marko, de 
Skanderbeg, do erimila Sava, dobealo Lazaro 
de Kossovo. Na Russia, Vladimiro e Olga 
sao tidos pelos genios da sleppe; Sancto 
Alexandre Nevski vive deilado no seu caixSo 
de Pelersbourg, e Pedro Grande ve'la semprc, 
no meio dos nevoeiros, pela sua crea^ao do 
Neva. 

' livostcbik, especle de poBlJlbSo. 
■^ Filho (le Krats. 



68 



Nao insislireiiios ir.ais sobu' cstas provas 
do inslincto ntilural dos Slavos, taos conio 
nol-as odorece o nouslo. O que pertcndiamos 
nioslrar per ineio il'algiini cxcinplos, eo la(;o 
ejireito q\n\ liua a poesia popular dos Slavoj 
com as snap iL'ndcucias iiaclouaes. Parece- 
11(15 que e esle o uicio mais facil do explicar 
como a iiidueru'ia dcsta poesia passou do 
doriiinio da vida douieslica para o da liUera- 
tura doi sabios Rcsta-uos a^'ora iiidicar a 
ulliina causa do |)rostigin qui; excrec o gouslo : 
a saber, a sua iuliiua uinao com a iiuisica. 

Continua. 



l.vstruccao pubuc\ na suecia e 
norue(;a. 

■ C»>tiliiiuaiIo (Je pag. If). 

III. 

ESCHOLAS DO DOMINGO. 

A'^iu-so ja coino eslavain orsanisadas em 
Slockliolmo as escliolas do dnuiiiigo. S;lo 20 
•1 numcro d'ellas, lia Q-t mcstres ordiiuirios, 
e o termo tned[o dos alumnos e 750. As ca- 
I'liolas da classe media, e as da SncUdadc das 
nrtes e ojjicios devem coiisiderar-sc lambeiri 
como escliolas da larde ; porque ale'm do do- 
iningo, esl.'io aberlas de tardi' cerlos dias d,.i 
semaiia, pcio que devezoui leiiipo careceui df 
iiie'tres supplemenlares. 

As lualLM'ias do ensino nas escliolas decate- 
cliismo Icem por lim priucipal n estudo da 
religiao; nas do soletracdo, a leilura; nas da 
classe mediae dos officios, a estripla e o cal- 
culo; fiiialiiipnto iiiis e=clinla> da Socicdadc 
d(ts arlcs e officios, os esludos tecliiiologicos. 

TaiUo iia Suecia como na Noriiega as es- 
tbolas do domiugo teem tido impugnailores. 
Pcilendeu-se que a major parle d'ellas, iiao 
differindo das efcliclas priuiarias propria- 
inente dila?, podlam seiii iticoiiveiiieiite sup- 
priniir-se. Algiuis espiritos scrios e pracllcos 
encariegaram-se lodavia da di'fcza da iiisti- 
tuij.'io conibalida, c pelos sens argumciilo-, 
que referireiiios, iiiellior podeiii apreeiar-se o 
complexo do sysleiiia. 

() ejlaluto real de 18 de iiinlio dt- 13(-3 
sobie a iiistruc^ao primaria, lomaiido ciii 
1 ouiiderajao a Impoasihilidade que uiuilos 
laeniiios linliam deseguir um curso complelo 
de esUidos escliolares, obrigou-os someute ao 
^nini-.rto d'inslrucj.'io, que "se reduz aos se- 
guinles pouios : 

1 " Leilura corrente da lingua materna ; 

■2 ° Conlieeiineiito da doulriiia clirisLfi c 
da liisloria biblica, no grao necessario para 
>cg(iir as lieoes do catecliisino da priiiieiru 
comiiiiiidiao ; 

.'!.° Cuiilo da cgreja ; 

4." E-cripta ; 



0.° Arilliiiieliea ale as fiac^oes exelusiva- 
menle. 

Com elYeilo, sc das r.-eliolas priii arias 
OS meninos saliiirern com estc iitinimo d'iii- 
struci.'ao, de que serviiiam as escliolas di- 
caleehi!mo bem como as da classe niedia (; 
dos officios! Mas a e.xperieucia moslra que, 
uem sequer um teredo dos meiiiuos que Ire- 
qiienlam as escliolas primaria?, olilem o 
Iitinimo official, 

AUiibuir seuiellianle resullado a vicio na 
organisat^.'io d'eslas e^cllo!as, >eria injustiea. 
E a prova esta em que os meninos cpie ae- 
giiiram regnlarmenle os cursos, salisfazem a 
lodos osartigos do seu programuia. Se alguns 
sao iuferiores, e porque tendo-se matiicula- 
do, com ludo laras vezes compareciam nas 
aulas. Uns foram so.uenle ciiico seinaiias, e 
oiilros duraiile um periodo escliolar apenas 
alguns dias. A vcrdadcira causa eslii im pobreza 
uiiseria das familiasque careceui dolraballio 
dos meninos, aiiida em tenia edade. Em Slo- 
ckliolmo lia so duas escliolas que obviam Csle 
iuconveiiieule : a de S. Jacques e S. Joao, e 
a de S. riiilippe; poripie indepcndentcmenle 
da inslrucean, dao lambem a sens alumnos 
sustenlo e veslido; mas esla bem de ver que 
taes o^labelecimentos nuo podem niultiplicar- 
se em grande escala. 

Assim que, bem longe de ser inutil ain-ti- 
luiij'no das escliolas do doiningo, pelo con- 
trario s.'io para as escliolas primarias como 
auxiliar iiidispensavel, ou- supplemoiito na- 
tural. Ainda mesmo aos que nienos aprovei- 
taram nos cursos elemerlares, sao de grande 
vanlagem. E ifio facil dcixar esquecer na 
casa dos paes, ou nas officinas, o que os 
meninos teem aprendido, que as escliolas do 
domiugo lornam-se nccessarias ate para con- 
servar e fortalecer n'elles os ronlieciinontns 
adquiridos. Alnn d'isso, qual seria o meio do 
roparar a falta d'instruc9ao nos adullos e 
nas peji-oas d'edade inadura, que ou por ne- 
gligeiicia, ou pela falalidade de sua posi(,'ao, 
a nfio receberain na infancia 1 E observe-se 
que ate' aqiii consideramos a? escliolas do do- 
niingo quanto no ininimo official ; porque se 
atleiidermos ao fim mais complelo e serio, a 
(pie se propOHUi elevar estc ramo da iirsiruc- 
(j'fio, mais evideiite sera a sua ulilidad''. 
Oulra ()ue^t^lo contra as escliobis do do- 



miugo, (? a cerca da sua organisa 



Di 



(pie do modo pnr (pie e-lfio orgauisadas em 
SlocUliolmo, nao differem umas das outras, 
e por isso podem considerar-sc sem fini es- 
pecial, e al(; serem jndifi'erenleinenle freqiien- 
ladas por qualquer e.-.pecie d'alumnos. 

Uma tal appreliensao deixa d'cxistir t\ 
respeilo das escliolas de (atecliisnio e de so- 
letrajfio. Poslo que a doulriiia elirislfi e a 
leilura, cnlrcm no piogramnia de todas as 
outras escliolas, nao formam lodavia espp- 
cialidade exdusiva; s.'ioapuias accessorio on 
iiislriimenlo. O estudante admillido aosc^tu- 
dos siiperiores deve necessariamenle saber l(?r 



69 



econliecer cs primeiros elemenlos da rcligiao. 

A queslao lorna-se mais delicada enlre as 
escliolas dos officios e as da classe media. E 
na verdade parece que umas e outras lendem 
para o inesiiio fim ; e de tal sorte o publico de 
Stocliliolmo lem-se ]jreocciipado quc,cadadia 
esla lirando os meniiios das priineiras para 
OS mandar as segiindas. L uiii erro. Ainda 
que as cscholas dos officios se propoeii) coino 
as da classe media a formar bons artislas, 
OS meios que empregara para o conseguir 
nao sao identicos. As escliolas dos officios 
sao para as da classe media o roesnio que os 
rudimenlos a respeito da sciencia, e a inicia- 
5ao para o aperfei^oamento. A consideral-as 
no todo, pode dizer-se que e um estabeleci- 
raento unico em dous graos. Assim conio e' 
necessario passar pelo grao inferior antes de 
subir ao grao superior, assim tambem nos 
ados dos fundadores das escliolas sobresahe 
bem claramente esla necessidade, por quanlo 
assignaram sete lioras d'estudo por semana as 
escholas da classe media, e Ires somento as 
dos officios, 

O aniagonismo das escholas da Sociedade 
das artcs e officios com as da classe media 
ainda e mais especioso. Todavia os ha- 
bitantes de Stockholmo nao teem cedido 
u apparencia, de sorle que o contingenle 
respective nas duas escholas tern sido, como 
devia ser, superior nas da classe media. Entre 
a eschola da Sociedade das artcs e officios, 
e a eschola da classe media, as rela^oes sao 
as mesnias que entre a ultima e a eschola 
dos officios: uma e o desinvolvimento, o 
aperfeigoamento daoutra. lintra-se naescliola 
da classe media para adquirir conliecimentos 
de redacgao e de conlabilidade que exigem 
as profissoes indiistriaes, depois passa-^e a 
eschola da Sociedade das artes e officios para 
fazer applicagao lochnica d'estes conliecimen- 
tos. O menino ou adulto que salie da eschola 
da classe media e^ta habililado para vir a 
ser um bom artisla, ou habil industrial; mas 
ja o devp ser quando sabe da eschola da So- 
ciedade das artes e officios. 

Cada escliola do doiniiigo tem por lanlo 
seu fun especial, e funcgao independente ; 
nenhuma rivalidade existe enlre ellas, nein 
e de recear que a prosperidade d'uma pro- 
mova a decadencia ou exiincg.iod'outra ; mas 
por mais isolada que seja a sua esphera d"ac(;ao 
respectiva, ha um lagoque as line uistiucliva- 
njente, e que de certo niodo as submetle a 
lei d'uma solariedade commum. Donde resulla 
para os fundadores a obrigagfio de as nfio 
separar em seu zelo, mas antes apertal-as 
cada vez mais n'uma estreita jerarcliia, e sem 
diminuir a forga particular de cada uma, 
fazel-as convergir todas systemalicamente para 
o fim principal. 

Para melhor fazer sentir esta necessidade, 
diz Walander ' , e para esclarecer ao mesmo 

' Om Stockholmi stalls SondagBskolor, 1851. 



tempo aqnestao, conve'm estudar, como termo 
de compararao, as escholas do domingo 
em todos os paizes da Europa, ondc sua or- 
ganisa<;rio offercce as melliores condigoes. 
Por este motivo escoihe as de Munich : e 
com effeito as escholas do domingo em loda 
a Allemanha sfio as que mais se distinguem 
pela excellencia de seus resiiltados. 

Wallander apresenta um bosquejo geral 
do syslema d'escholas practicas ou teclino- 
logrcas estabelecidas na Baviera, coniprehen- 
dendo tanto as escholas quotidianas como as 
do domingo. 

Desde OS ultimos annos que em toda a Al- 
lemanha este genero d'escholas leve immenso 
desinvolvimento. Tal devia ser o effeito das 
tendencias progressivas d'este paiz para a 
vida practica. ISa Baviera, o estabelecimento 
das escholas technologicas data propriamente 
de 1033, epocha em que o rei reorganisou 
n'este sentido quasi todo o syslema d'inslruc- 
5ao publica de seus estados. 

O systema d'instrucgao publica da Baviera, 
considerado no todo, parteseem duas grandes 
divisoes, a saber: 1.° divisao scienlifica, sub- 
divldida em duas secgoes, classica, e techno- 
Ingica superior; 2.° divisfio popular, ousecgao 
technologica inferior. O esludo da lingua 
ialina e obrigatorio para todos os que seguem 
OS cursos da divisao scienlifica. 

A secgao technologica inferior e a que tern 
relagao com o nosso objeclo, pelo que nos oc- 
cuparcmos especialmenle d'clla. 

A ordenanga real de 16 de fevereiro de 
1833, une a esla secgao tres generos de esta- 
belecimentos: lyceu , gymnasio, eschola.^ 

O lyceu, verdadeiro institulo polylechnico, 
e o ponto culminante de loda a instrucjao 
technologica popular. 

Segue-se o gymnasio, que forma industriaes 
e agricultores; n'elle ha tres escliolas do do- 
mingo, sendo uma dellas d'lnslrucgao pri- 
maria. 

A eschola finalmenle, prepara para o gy- 
mnasio, e occupa-se tanto dos elemenlos de 
technologia, como dos principios d'instrucg.'io 
popular. 

Alein da universidade technologica, islo 
e', da eschola superior para a instrucg'io te- 
chnico-scientifica , cuja se'de e em Munich, 
lem a Baviera tres escholas polytechnicas 
estabelecidas em Munich, Augsburgo, e Nu- 
remberg, vinte eseisgynina>ios technologicos, 
e grandenumero deescholas do mesmogenero 
diffundidas por todas as localldades do paiz. 

O alumno e'admillido na eschola desde a 
edade de seis annos, e conlinvia ate a edade 
de doze ou treze annos. Passa depois, se 
quer proseguir em sens estudos, ou para o 
gymnasio industrial, ou para o agricola. Se 
escollie o ultimo, a sua educagao lermina 
desde que seguiu todos os cursos; se preferiu 
o primeiro, pode ainda depois frequentar a 
eschola polytechnica. No caso de sahir da 
eschola para loraar um estado que Ihe faja 



70 



inteiTomper seus esludos , ser;i obrigado a 
frequentar al^uma cscliola do domingo. 

iisle rapido nshogo inostra de que niodo a 
inslriiccao lechnolofjica da Baviera esUi or- 
"anisada; mns para forinar ideia inleirainenle 
coniplela, ciinipre examiiiar qiial e o pro- 
"rainina d'e^lndos eni viguf nas escliolas do 
domingo perlencenios aos gymnasios, isto e, 
nas escUolas que correspondem as dos oflicios, 
da classe media, on da Socicdade das artti c 
officios de Slocliliolino. 

Desde 1793 que na Baviera existem esclio- 
las do domingo; mas em lii33 foram, como 
se observou, reot-ganisadas e ligadas ao syste- 
ma {^eral da inslruc^ao publica do reino. A^ 
tnaterias que fazem ohjecto do ensino, se- 
gundo o prograrama publicado em 1837, e 
em pleno vigor, sao as seguintes * : 

1." Rdigido — Doiilriiia christa. Historia 
resumida dareligiSoda egreja. Moral eciirso 
abbreviado de jurisprudencia, comprebenden- 
do as qucsloes de direitoque mais frequenles 
vezes se apresenlam na vida civil. 

2." Mathcmaticas. — Algebra ate as equa- 
goes do segundo grilo incliisivamenle. Geo- 
melrra. Geometria descripliva. 

3." Historia natural. — Botanica. Zoolo- 
gia. Pliysica. Techuologia cliimica. Techno- 
logia mechanica. Estudo de mercadorias, isto 
e, das materias mineraes, vegelaes e ani- 
maes, como arligos de commercio. 

O ensino d'estes diversos ramos deve set 
puramente popular; nao e permittido^ aos 
mestres Iratar as questoes theoricas senuo as 
que fnrem absolulameiile indispensaveis para 
intelligencia das questoes practicas ; pois que 
o fim das escbolas teclinologicasdo domingo 
nao efazer sabios, pori'jn bomeiis deapplica- 
gao iliustrada, e de tralwillio ulil. 

4.° Sciencia dtis vwcliinas. — Rodas. Pa- 
rafuso. Emprego das cadeias, cabres, t'erro- 
llios, etc. Hydrodynamica e macliinas de 
vapor. 

5." Mechanica practica. — Emprego das 
diversas ferramentas ou instrumeritos mecha- 
nicos. Fabricai^ao de modelos dos instruinen- 
tos de pliysica, d'oplica e de inatliemalicas. 

6.° ^rlcs ceramicas. — Moldar em cera ou 
n'oiUras materias ornamentos, baixos-relevos, 
bustos, capileis,candelabros, vasos, etc., ludo 
segiindo OS trabalbos dos inelhores moatres. 

7.* Desenho. — Desenlio d'ornato. Archi- 
lectura. Macbinas. 

8.° Estudos praciicos. — Calligrapliia. Or- 
ihograpbia. Formulas de commercio. Conlabi- 
lidade. Syslemas monetarios. Historia e geo- 
grapliia, consideradas com relajfioii industria 
e aos productos naturaes. 

Taes sao as materias da instruc<;ao nas 
escbolas do domingo da Baviera. E de adver- 
lir que cada escbola particular nao compre- 



* Pro^ramm. iilier die verschio de neo Unlerriclils- 
Gejens stand der Ilnndlw. uad Feierlagsichulc in 
Munchcii, 1037, 



lionde lodas cslas materias ao me=mo tem- 
po ; sfio distribuidas por muitas escliolas, de 
sorte que o seu ensino tern logar simiiltanea- 
monle em sallas spparadas, ou nas mesmas 
sallas em lioras diflerentes. Todos esles esla» 
belecimenlos porem , sejam quaes forem a* 
suas condi^oes d'exercicio , esl.'io ligadoS 
eslreitamente, formaiido um syslema d'escho- 
las donde dimana a mais perfeita unidade 
d'ensino. 

Comparando as escbolas bavaras corti as 
de Slockliolmo, resiilla nova prova da ulili- 
dade, ou antes iieccssidade de cada lima das 
ultimas, e sobresalic! egualmenle um modelo 
magnilico pelo qual a Sociedade das arUk i 
officios, bem como as escbolas da classe me* 
dia e as dos officios , nao teriarh mais do que 
regular-se para estabelecer com toda a per*, 
feij.'io essa unidade systematica que somente 
pode a sua ac^.io assegurar cfficaz efleito. 

Por fim Wallander faz longas ronsiderai 
<^oes a cerca das reformas que ainda sao ne» 
cessarias nas escbolas do seu paiz para cbfei 
garem a maior grao de perfei^.'io, e pfopoe 
OS meios para o conseguir, e que em geral 
consistem em centralisar a adminrstrat;.no de 
todas as escbolas do domingo, e feorganisar 
o programina das doutrinas debaixo de novo 
piano, intervlndo para se realizarem as refor* 
mas propostas o governo, por cujo concurso, 
que effectivamente teve logar, as escbolas do 
domingo na Suecia dentro em pouco eguala- 
rao as da Baviera. 



CONCOURENCIA. 

^.Continuado de pag. 57. 

Mas, voltando ao ohjecto de que nos oc- 
cupamos, vemos que na ordeai economica o 
facto da especie bumana nao ter a, sua dis- 
posig.TO um fundo de riquczas inesgotavel, 
creou, em comedo, a concorrcncia, edepois a 
accumulag.'io das for^as, a fim de fuzerem 
convergir sompre para o interesse commum 
todos OS resullados da actividade, pela vanta- 
ge™ reconbecida dessa reciprocidade. A con- 
corrcncia pois lem a sua origem na insuf- 
ficiencia dos bens, a que se aspira, e no desejo, 
bem natural, que cada um tern de obter a 
mclhor parSe. .. Nascida com os homens, ella 
vivera em quanto estes n.'io tiverein .^cliado 
o meio de multiplicar infinitamente todos os 
objeclos dos seus desejos. n diz Cb. Coque- 
lin. 

Que a base ou origem da concorrencia scja 
a que assigna este estimavel economisla, nfio 
o duvidamos; que ella porem, tal qual boje 
se apresenla, haja de ser a sorte permanente 
da socicdade, n.io o acredilamos. Em jliosso 
entender, a concorrencia e um elemento de 
transigao entre o systema de privilegio, e o 



n 



da livre e geral associagao a que a coticor- 
rencia lia de conduzir. Com esla idea nSo 
queremos proclamar a anniquilajfio da con- 
correneia ; e ella a lei superior da ordem 
economica, lei que sempre a lia de acompa- 
nljar ; queremos sim dizer, que a concorfen- 
cia teude a manifeslar-se debaixo d'uma oulra 
face: a sua esseucia porem e a mesma. 

Se a lei das necessidades e uuia lei neces- 
sarian a lei dos meios de as salisfazer deve 
sel-o ej^ualmente. Tal e a lei suprema que 
subordina loda a espbera economica: desen- 
volvainol-a. O principio das necessidades e 
dos meios de as salisfazer, e o principio su- 
premo de todas as scieiicias practicas, e ainda 
Iheoricas; aquellas satisfazeudo as necessida- 
des da vida praclica ; estas as da vida iiilel- 
lectual, se assira pode dizer-se. Analysal-a- 
hemos unieamenle na espliera economica, no- 
tando todavia a liga^ao queaqui inesmo lem 
a sciencia economica com lodas as sciencias 
fillias da razao practioa, ate mesmo pela 
idenlidade da lei que e chatnada a realisar. 
As necessidades, ou reaes on ficlicias, quando 
sac apreciadas nas suas manifestagoes, reves- 
tem ambas um mesmo caracler ; isto e, sao 
todas determinadas pela natureza liumanana 
qual se contera real ou etnlnenlemente. Se 
no8 elevamos a toda altura dos principios, 
ahi leconhecemos que toda a sciencia eco- 
nomica se refere a esphera das necessidades 
humanas, pela parte ein que dizein respeito 
as exigencias economicas, e aos meios egual- 
mentc economicos de as satisfazer. 

O lioinem carece de meios de desenvolvi- 
mento: eis o typo por onde se liao de aferir 
todas as sciencias, filhas da razao praclica ; 
a nalureza porem desscs meios deterniina a 
natureza da sciencia, a qual incumbe realisal- 
os. Nesta esphera a soinma efl'ecliva das ne- 
cessidades deve, em regta, determinar a som- 
ma dos meios, que teem de ser empregados ; 
e enlendemos por somina effectiva de neces- 
sidades, aquella que resta depois de apre- 
ciadas as condijoes que as embara^'am ou 
modificain, porque so depois de um tal pro- 
cesso de subtrac^-;'io e que ellas se apresenlam 
no faro exlerno exigindo salisfagao. 

jQual e porem o principio que deterniina 
o iiumero e grau das necessidades? ISenhum 
outro, por certo, seuao a natureza liumana 
em todos os seus modos de exigir realisayao: 
a natureza huniana pois e o principio supre- 
mo, e a lei pela qual devern, e so podem ser 
marcadas as necessidades liumanas em seu 
numero e intensidade. IJclativamente aos mei- 
os, e por consequencia a acyao economica, a 
lei deve ser a mesma ; se so a natureza pro- 
voca as necessidades, so ella prxle deterininar 
a quantidade e qualidade dos meios; so pois 
a natureza huraana ea lei suprema na esphe- 
ra economica. Nao basia que todos os em- 
pregos da industria eslejam occupados sem 
solujao de contiuuidade, e sem lacunas; e 
mister alem disso que elles sejani empregados 



na medida conveniente, isto e, que o nut7iero 
dos homens, que os preenchem, e a somma 
das foryas ou dus capitaes que Ihes sao con- 
sagrados, sejam sempre proporcionados a ex- 
tensao real dos trabalhos que devem fazer-se. 
J Quern sera porem capaz de fornecer esla 
justa medida! Se a natureza, isto e, se a 
evolugao livre do liomem e da sociedade, na 
escala social, determinam o nurtiero e inten- 
sidade das riecessidades ', o numero e inten- 
sidade dos meios aclia-se por ahi, e so por 
ahi deleriliinado. Mas se as necessidades sfio 
um resultado da evolu^ao da aclividade livre 
do liomem, na determina^ao das condi^oes 
elle nao pode apartar-se desse carninho, sob 
pena de faltar-Ihe a propotcionalidade : o 
elemento da liberdade e pois utna condicjao 
indispensavel nesse processo, em que sao de- 
termjnados os meios, o seu numero e inten- 
sidade. Se esta deduc^ao porem e logica, 
tainbem oca sua consequencia, e por isso a 
livre concorrencia apparece desde logo como 
expressao ptactica ou realisada desse princi- 
pio siibjectivo. 

Effectivamente supponhamos a hypothese 
opposta, em que a um poder social incumba 
determinar essa ordem de meios em quanti- 
dade e qualidade. Se os meios sao provoca- 
dos pelas necessidades, e devem ser-lhes pro- 
porcionaes, para sustcntar a harmonia econo- 
mica seria mister, ou que esse poder social 
podesse determinar, ou crear as necessidades; 
ou que ao menos podesse prompta e rapida- 
mente aprecial-as, e apreciar egualmente e 
pela mesma forma os meios de as satisfazer, 
para que deterininando-as assim, mantivesse 
o equilibrio e harmonia, em que deve basear 
a sociedade. Cicero dizia que os estados das 
causas eram infmitos, — iiifinitam silvam ; 
nos poderemos dizer o mesmo relativamente 
as necessidades. Com effeilo, pertender que 
o poder social determine as necessidades, e 
uma aberra(;ao tan saliente do senso corn- 
mum, que nao nos cansaremos em refutar 
um tal syslenia. 

Mas nem sequer concedemos a esse poder 
a prompta e cxacta apreciajao das necessi- 
dades individuaes, e por isso dos meios pro- 
ximos de Ihes occorrer. Esse invenlario, por 
assim nos explicarmos, das necessidades hu- 
manas cm todas as suas escalas e variadas 
combinacoes, seria o invenlario das forgas 
todas da huinanidade. j Que forcja artificial 
ha ahi que as possa apreciar a todas com exa- 
ctidiio ? Haveria pois uma impossibilidade 
absoluta, insuperavel, para que um tal poder 
social podesse funccionar. 



* Ainda as mesmas necessidades naliirat's, [tara lerein 
representa^ao na esphera eeonooiica, carecem da mani- 
festa^ao e ac<;?lo livre dos horoens ; e por consequencia. 
quando podem ser chamadas verdadeiramenle economi- 
cas, sao sempre essencialmenle dependenles da liljerdadp, 
porfiue e quando se refcrem a ar<:ao ile Ihes procurar 
realiaarao. 



72 



So a naliircza pois, que delermina ns ne- 
cpssidade>, pode deterniinar o numero c qua- 
lidade dos meios de as salisfazer. O facto da 
offeria e do pedido , manifesta os resukados 
practices dessa niysteriosa ac^ao social. A 
iiiesina ac(,'ao que deterininar as necessidades 
provoca os nicios : esta ac^ao e a ac^'ao da 
natureza toda, e a ac^.'io da lilieidade, e por 
isso, ein phrase economica, a concorrencia. 
Ori^inariamenle e o pedido o que detenniiia 
aofferta; esta depois inline no pedido, mas 
a ordem natural e a que indicauios. O lio- 
inern, sentindo necessidades, provoca a sua 
satisfaij'ao, — pedido: os outros liornens, reco- 
nliecendo este chamamenlo, concorrem olTe- 
recendo os meios que possuem capazes de 
satisfazerem essa ordem de necessidades, — 
offeria. lilevemos esle processo a loda a altu- 
va da llieoria , e teremos a concorrencia. Eis- 
aqui a base da concorrencia, tanto individual 
coino social, aquella, em que se du uma 
especie de conibate entre individuo e indivi- 
duo, ha de provocar esta, como meio niais 
proficuo de salisfazer as exigencias indivi- 
duaes, fazendo-lhes peider esse caracler todo 
accidcnlal de guerra, que inostraremos nao 
ser essencial a concorrencia. 

Noseio de uina vasta associaQao economica 
para os socios internamente nfio lia guerra ; 
todavia essa associagfio, pelo facto de nao ser 
forgada, conserva era si o eleniento da liber- 
dade : e' elle o seu motor. E entao mesmo 
que a liberdade encontra o seu triumpiio ver- 
dadeiro, desprendendo-se de toda a foija ex- 
tranha que a liinitasse. Generalize-so esta idea 
a toda a esplipi'a social, consliluam todos os 
ramos sociaes vaslas assoclagoes, diversifican- 
do so pelas localidades, mas intimainente li- 
gadas pelos iuteresses, e eisa gcneralisajfio 
^era a solugao do grande problema social. 
Mas a concorrencia e a liberdade ; consequen- 
temcnte a concorrencia, como lioje a conce- 
liemos, perde tanto do caracter de verdadeira 
concorrencia, e por ls;0 de liberdade, quanta 
o a acgao coercitiva dessa liberdade, islo e, 
em proporgfio C(im a intensidade da acgao, 
que liinita du reslringe a liberdade; o reiua- 
do pois da concorrencia ainda nao estii che- 
gado : o que existe e urn i(nperfeito preparo. 

Nesta ac(,'ao da liberdade, que produz, on 
tem como elfeito a concorrencia, manifesta-se 
esta como o maior eslimulo da arlividade 
geral. ^^ao podeinos todavia negar que pela 
concorrei'cia individual, isto e, fora d'um 
eslado co.npacto de associag.^o livre, ao pas- 
so que muitas vczes e exaltada a aclividade, 
outraSj pela nalureza da acgao da concorren- 
cia, essa actividade, e extincta ou neutra- 
lisada. j Como podera o pequeno industrial, 
por inais habil que seja, concorrer com um 
grande capitalisia, que na mesma localidade, 
e na mesma induslria, pela forga dos capitaes 
de que dispoe, centralisa esse ramo de in- 
dustria, reduz o cmpresario inferior a dura 
condisao de ou ir engrossar a empresa do 



capitalista, na qualidade de operario, ou ler 
de mudar de empresa? Aqui evidenlcmente 
a concorrencia produz um effeito coutrario 
ao que naturaln)ente se llie nota. Esse facto 
reproduzido conduz a uma diminuigao do 
emprego da actividade, porquo onde cessa a 
liberdade, ou e reprimida, os seus effeitos o 
siio tambem. 

Ja as^im nao succede no regimento da as- 
sociajfio livre; ahi, sem predominio de for^'as 
sobre fcrjas, a actividade do houiein ha de 
juanifestar-se em toda a sua extensao, por 
isso que obra com loda a sua liberdade: 
consequentemente o reinado da concorrencia 
nao e o regimen economico actual, pois 
que nelle a actividade nao se desenvolve 
sempre livremente, e por isso com toda a 
sua inergia. O eslado actual pois e uma 
tiauH^ao para o eslabelecimento da ver- 
dadeira c livre concorrencia das forgas hu- 
manas, desembarajadas de qualquer coacjao 
ou embarago exterior provenienle da vontade 
do homem. So a associajfio livre satisfaz esta 
exigencia. 

J Se a concorrencia de hoje tende a destruir 
por toda a parte o moiiopolio; se esse facto 
e Cbsencial a concorrencia, qual sera o motivo 
por que delle nao havemos de tirar as ulti- 
mas consequencias ? Se a concorrencia faz 
guerra aos monopolios legali^ados com o ca- 
pital, com este mesmo ella a deverd fazer 
aos monopolios do capital, porque os capitaes 
mais diminutos, nao podendo a sos concorrer, 
procurarfio na associagio a poderosa alavanca 
com quepossam destruir essas de^egualdades, 
que OS opprimem. Se o traballio, cotnprehen- 
dendo o seu [toder, se apresenlar ein frenle 
do rapilal (irabalho accunuilailo), de qual 
sera a victoria! Nao duvidamos aflirmar que 
o capital, sob pena de ficar improductivo, 
lera de abrir suas portas ao operario, e re- 
conhecendo nelle um capitalista, associar-se 
para procurarem conjuntameiite o seu engran- 
decimenlo, em vez da sua destruijao, a paz 
em vez da guerra. 

ContinUa, i. b. da s. f. de C. MARTENS. 



0BIGI!)1 DOS NOMES DE MAR YERnELBO, MAS 
iMARELLO, MAU BRiXCO, ETC. 

A existencia de cerlos plienomenos locaes, 
como algas microscopicas rubras ou amarel- 
las, de que por vezes se tem occupado a 
academia de Franca, nao esegundo Paravey 
a causa porque os mares diversos teem sido 
denominados por essas cores ou por oulras. 

Ignora-se que no Mediterraneo, chamado 
mar Branco no Oriente, tenliam apparecido 
algas brancas ; niio se tem encontrado algas 
negras no Ponto-Euxino, donde recebesse o 
nome antigo de mar JVegro. O golpho Persico 
chama-se mar f^crde entre os Oricntaes, e o 



/ 3 



Oceand, a cslo da Cliiiia, tciii e?;iialineiUi' o 
nome de mar p'crde ( Tsini^-Hay) ■ n'elle 
nfio tcpin sido achadas algas iiiicioicopicas 
colnradas de veide. 

O calendario Yue-ling com\irii\.o no tempo 
d'AIPxandre, e conservado na Cliiiia, calen- 
dario romliinado cm Assyria, paiz cenlral, e 
n.'io na Cliina, dcsi^na : o norte^ dc negro; o 
eslc, pcla cor vcrdc • o S7(/, pcla rubrdj o 
(icste, do branco • e o centra pela cur amarel- 
la oil iiliiranjada. 

\'. aiiida liojc as cldades orienlndas do reiao 
de Tong-lcing teem as portas do iiorle 
|)iiit.adas de negro; a esle, de verde; do sul, 
de verniellio; a oesle, de l>ranco ; em qiiaiilo 
o palacin cenlral do sobcrano e', coriio tam- 
liein na Cliina, coberto de lellias esinalladas 
e amarcllai. 'J'al sviteiiia riinemonico e\isle 
desde a iiiais reniota aiili^iiidade na A^ia, e 
cnire o? anligos Arabes c Clialdeos. 

Siipponlia-5c estar junto dn Palmyra, como 
cenlro, e na Syria, paiz central e mnarello, 
senlido cssenci.il do tiniiie de Si/ria, e que 
fez chamar o Jaxaiie, Sir-Dariaou rio Aiiia- 
rello, cntre noj cor de cera; ao norle fica o 
Ponln-Hiixino, d'alii iionieado mar Negro j 
ao sul o goI|)lin Arabico, doiide vem diicr-se 
f^eriiitllioj a c's/eogolplioda Persia, cliamado 
mar Fcrde enlre 03 Orienlaes; a ocdc o Me- 
iliterraneo, denoiiiinado av.v: Branco (acTlia- 
lissn) pelos Oiientaes. 

syslema antigo da civilisacio liierogly- 
pliica da Assyria e da Syria, e segiiido aqiii 
do niesmo inodo que o Coi depois na Cliina, 
quaiido OS livrns da liabylonia e do Egyplo 
])ara alii foram levados para scrern feliziiiente 
conservados, mas ainda nfio coriipreliendidoj. 

Todavia os Scijthas qne miiito antes de nos 
sabiani que os monies Paiiier eram o ponlo 
enlmiriaiit.e do ginbo, applicaram os mencio- 
iiados nonies dos qualro pequcnos mares aos 
qiialro Oceanoi limiles da Asia, onde liabita- 
vam. 

O Oceano Glacial foi cliamalo mar 
Tcnebroso ou Negro ; o Oceano ao sid dos 
monies Pamer c dos Indos, foi nomeado 
mar Erijlhreo ou yermclho, jjorcjue recebeu 
tainbem o norne d'um rei que alii dominou, 
e que citam os livros conservados na Cliina: 
o J\hditcrranco, a oe'ste, conservou o nome 
de mar Branco j e o nome de mar Kcrdc, 
do golplio Persieo, dou-se como fica dilo ao 
Oceano que banliaa Cliina a e=le, niar Tiins- 
Hay. 

O mar Caspio e ccntralj onde de-agiia o 
rio Atnarello, Sir-Darin on Jcjc.nte^ era 
poia o veidadeiro mar ^^hnardlo^ por i:;so que 
oanlia a JMcdia^ ou o paiz do JMcio ^ c bc o 
^^olpho de Peking tern sido cliamado mar 
.^marelloi foi pelas me^mas causas deor;juiho 
(pie depois d'AIexandre fizcram com que a 
Ciiiiia por muilo tempo barbara, se chamas- 
se J/npcrio do JMcio. 

^Final.'iieiite como prova d'antigas migra- 
qoei d*Asia para America, Paravev mortra a 



5emelhan(;a de dtias palavras que significam 
plnnta, uma em Guarani, e a otilra em Co- 

chinchinez. 



P. OVIDIO NAZAO: 

Dos Tristcs — Livro 5,°: Elcgia 14. 

AUGUMEMO. 

E esta elegia, a ultima dos cinco livros 
dos Irisles, dirigida por Ovjdio a sua esposa, 
na qnal Ilie promette uma gloria immortal, 
e accrescenta que muilas liaveri'i, que embora 
a tenham por miseravel, liao-de assim mcsmo 
mvejar-lhe a sorte, e julgal-a feliz. Diz-Ihe 
mais, que nao poderia dar-Ilie um bem niaior 
do que immorta!isaI-a nos seus escriptos ; e 
sendo assim, exliorta-a a que Hie permane^a 
sempre fi^I, a fun de que por ninguem po5- 
sa jamais ser accusada : e prova-ilie coui 
graude numero dc exemplos de igual fidelida- 
de de diffiirentes e?posa3 para com seus ma- 
ridos, que a memoria destas nunca em tempo 
algum deixou de ser celebrada. 

Quanta os mens versos nomeaJa posaaui 
D ir-te, o ctinsurte, para mhu mais chara, 
Du que a mim mesiuo o suii, bem ves, beru sabes, 
Embura ao sen aiiclor roube a fnrtuna 
Quanlj bom Ihe aprouver ; lu sempre iilustre, 
Do men eni,'enho viveras una obras ; 
E, em qiiaiito en liilo filr, a fama lua 
l;,MiahnejUe sera liila comi'^o, 
\em tutla poderas iH Irisle pyra 
Nos ares tiesl'azer-te e e\'aporar-(e. 
Do inarido infeiiz possas embora, 
ParcctT com o infuiluniu niiserantia, 
Algiiinas acliaras, que ser qiiizpssem 
O mc^mo que tii <J3 ; e que ditosa, 
Te jnk'ueni e le invejeni doa meus male^, 
O ser, bem como tn, parlicipaules : 
Nem, se riquezas miiitas cii te desse, 
^Iiiilo mais te daria : (ii muila sly;::e 
Nada It-va ij'inn rico a vacua sombra). 

— Dei-le do um nome perennal o friictu ; 
A dadna tens pois maJor, que cu puile 
OiFejUr-te: accrcscenla-lhe o quilale, 

Da honra nao exi:;iia, que te eiifeila, 
Da iinica seres defensura miiilia. 
De emudccida nunca em leu9 louvores. 
Andar a ininha voz ; e um nobre orgulbu 
Deves seiidr, ao ver que o leu consorlc 
Sabe ao jiisto estimar tuas \irlndes: 
Trabaltio j>or fazer, que tfmerarios 
De li ninguem furiuar juizos possa. 
E conjugal lambcm Odelidade, 
ConsL-rva ao t-sposo Ifu misero ausentc : 
Puis sem torpeza conjugal viveste, 
Irreprelienshel na bondade e fama, 
Em qiianto nog unio a sorte eai Roma. 
E a tama propria minlia a tna a;;ora 
Desbarale causou ; com mais conspicuas 
Obras tiia virlude se asslgnale. 

— Facil cousa e ser boa, quando ao loii;:e 
A causa existe, que o cuntrario veda ; 

Nem a casada lem nada que Ihe obsle, 
A que aos deveres seus de cumprimenlo ; 
Mas, quando sobre o esposo o cto fiihijna, 
Aquella, que a borraeca nao se evade 
Da do amor conju;;al cximias provas : 
Sim e rara a virlude, que a lorluna 
Com sobcrano imperio nao T'overna ; 



74 



Poreui, quando esla foge, a que eui sen poslu 
Estavel se niantom, {sc al^uma e.xisle) 
Do «eu porle em si mesma a j)a;:a t-ncunlra, 
E DOS trances exlrenua se apreienta. 

— Qiialquer o tempo seja. qire ennumeres, 
Nenhum calara seculo o ten iiorae, 
Todus U- admirariio, lo^'ares qiiantos 
Do orlie os caminhus alirem, palenleam ; 
Nao VL'S com apu9 inda exteiisa idade 
De Penelope a i'c louvada exisle ? 
Como d'ella perenne o nome dura ? 
D'Heitor, d'Adiuelo como sao conladas 
Hoje ainda as cspnzas, e a memoria 
Da filha de Iphis vi\p, porque ousara 
Sobre a accessa fu^iicira arremessar-fe? 
Como na fama exisle a Philagea 
Cooaorte, cnjo esposo o chiio Iroiano 
Com sens lijrciros pes calcou primeiro ? 

— ■ N.'io precisHS por mim uiorrer, so basia 
O moslrar-te fiel e lerna amante, 
Sem buscar lama por difficeis artes : 
Nem jiilfijar deve?, purque assim iiao obras. 
Que estas admneslaruL's eii te dirijo ; 
Desfraldo as vt-llas, poslo que o naviu, 
So dus remos levado, as ondas curia : 
Quern le admocsia e exliorla a que pratiques 
O niesmo que ju J'.izes, quando admoesta 
Tambem ao mesmo tempo as ubras tuas 
Com a sua c\burlai;rio luu\a, e approva. 

F. DE CARVALHO. 



DOCUMEMOS IXEDITOS. 

Carta que o viso^rci D, Joao de Cnstro esrrcvco a 
el-rei nosso senhor o anno dc 4G (1546) 

Cunliiinado Je |)0g. 35 

Taoliein llic toniamos inais lodalas monijoes 
de seu canipo, c aos Laacarins coucedi o saco 
da cidade. Da ruinlia gente iiiorrerao obra 
de sessonta liom(~», e ficariao I'eridos trezen- 
tos. Os mais dosles niortos e feridos forao ao 
sair da fortalcza, e Irepar das imirallias . que 
sobiinos sem escadas, iiem ouLro eslonneuLo 
de gucira , salvo ajiidando liuns a outros. 
Para o que nos den giande alivio ISicolao 
Gon^alves, o qual com a armada das fustas, 
que lliedeixei, arremeteo a praya do haluar- 
le de Diogo Loprs cm amunliecendo com 
grande eslrom de Uombeta?, e alabales , que 
era o tempo , que eu sai'a da forlaleza , despa- 
raiido toda a arlelliaria dos iiavios. E no de 
luais se deo a tfio boa maidia, inoslrando 
que dczembarquava , e fazeudo clieguar as 
t'ustas si prava, que teve sospenso muito leiii- 
po liil capilao, que com muita genLe estava 
eiii deircusfio della, para registir a sayda por 
aquella parte. Oqual capilao nutiqua acabou 
do coiihecer a cylada, senao depois q\ie 
linliamos avido grfio parte da victoria: de 
maiieira que foi grande ajuda, e mui impor- 
tante a desle ardil ; como qucr que constran- 
gco aos mouros a tirar de sobre a fortaleza 
ruuila parte de sua arlelliaria, e gente, pera 
a por em del'cnsao desta praya. O numero 
da gente, que estava sobre a fortaleza era 
sessenta mil liomcs; a saber, Rumes, Ara- 
bics, Abe.xiiis , Reisbutros vinte mil: e de 



Ciuzaratcs coienta mil. Esta victoria assim 
como t'oi a maior, que se vio em todo o 
Orienle, assi he bem , que v. a. a festejc; e 
saiba, que se iifio podia alcansar sem muitos, 
e evidcntes millagres, como todos tem por 
couza mui avcrlguada , e os mouros o afir- 
mao, verem sobre a igreja lu'ia mollier muito 
resplandeconle , que oscoguava, e nao dei- 
xava tcr o ro.-lo direito aos clirisl.'ios. Polo 
que lie necessarin , que v. a. mande fazer miii- 
tas porci^ops, e dar muitas gramas a nosso 
Senhor; pois llie fez tamanlia merce : que a 
dez de novetnbro, vespora do Sfio Marlinlio 
Hie deo de novo toda a India , e liua tama- 
nlia victoria com obra de dous mil bomes , 
que pcra todo seinpre ficaraa della memoria 
ncstas partes. V. taobem fazerrne merce da 
minlia joia, como sempre foi costume dos 
reis e principes, quando alguu seu capitao 
vonce batallia, ou torna cidade, o que eu 
tudo fiz em liii soo dia com ajuda de nosso 
Senlior. Mas |)orque pode ser , que v. a. ma 
fa(,'a dalgiia cousa im[)rc)pria a niiulia condi- 
^fio , e maneira de vida, Ilia queronomear, 
e pedir, e lie, que me fa(;a merce de lui casta- 
nlial , que tem na serra de Ciiitra, onde clia- 
mao a fonte delrei, que estaa a par da mi- 
nlia quinta; p.lra que, lendo os mens mogos 
que comer no mcu , nao vao dcslruir, e fa- 
zer damno no allieio. O castanbal poderaa 
valer do compra dez on doze mil reis; mas 
para ml scrfio muitos mil cnizados. 

llos homes nobres , e lidalgos , que nesia 
balalha morrerao sao os seguintes: dom Joan 
Manoel , hlho de dom Beriialdo Manoel , o 
qual foi hu dos primeiros homes, que ciie- 
guarao as murallias: ferido de liua espingiiar- 
dada, e leiido hua mao em siuia pera snbir, 
Iha cortiir.MO, e com a outra tornou a ferrar 
do muro: e comessou de sobir, sem embargo 
de 1 he da rem muilas feridas, e sobitido em j 
^iola desparou nelle hila peca dartelharia, I 
que o malou logo. Moneo mais Jorge de 
Kousa , fillio dAurrique de Sousa , que taobeiu 
foi dos primeiros ao sobir dos miiros, e o 
matarao nessa demauda como valeute cava- 
leiro. Falfceo tambem Francisco dAzevedo 
na dianleira, de liua espiiiguardada que Uie 
deu, e Gosruo dePaiva, alein das murallias, 
e Jam H'alc.'io como valeute home que era. 
Morreo mais Va.-co Fernaudes, capitflo dos J 
pyoes de Goa , e Julifio F'ernandes, Duarle \ 
Uodrigues Mousinlio, Lucas dAbreii, Bal- 
tliezar Jorge, Ayres Gomes de Quadros Os 
feridos forao: Manoel de Souza de Sepiilve- 
da, o qual, ao passar das murallias, Ihe 
derao com bu canto ua cabcja , e oulro no 
rosto, de quo o desatiiuirao; mas tornando 
cm si ; tornou a emlrar na batallia. 'I'aobeni 
foi ferido Jorge de Meudonga , Miguel da 
Cunlia, Pero Lopes de Souza, Jam Figuei- 
ra , dom Jofio dAbranches, (ilho de dom 
Anlao , Garcia Rodrigues de Tavora , filho 
de Christovao de Tavora , Manoel Telles , 
Alvaro da Gaina, filho de Antonio de Sequel- 



75 



ra , Lopo Botelho, fillio de Jam Guago, 
Luis dAliiieida , que sieve em liua caravella 
na balaria, Siuiao Bolellio, vcador da Fa- 
zenda, e Tiislfio de Paiva- 

IIo service, que este dia fiserao 03 fidalgos 
a V. a., e quao bem pelejarfio lodos, e quao 
bein me aeom|)aiil)arao sempie em loda a 
Jornada com grandes gaslos de suas fazendas lie 
couza para nunqua se acabar de <llser: asaber, 
Gracia de Saa, dom Manocl de Lima, doni 
Manoel da Silveira, Maiioel de Souza de 



Sepulveda, Franciaco da Cuiili 



Pai 

llodrigues d'Araujo, caplL'io, que foi, de 
Cocliiui, Jorge Cabrul, o quo!, lendo sua 
mollierem Goa, nun(|uase quis ir leseacaba- 
remasohras, e Irabalhosde Dio: Dyegalvares 
'I'elles, Jam Juzarle, Anlouio de Saa, doui 
Jnfio Lobo, dom Alvaro de Craslo, doui 
Roque Tcllo, com oj quaes me acouselliava 
sempre eiu lodabis cnuza<i,que avia defuzer; 
por nelles aver muilo sizo, e cavalaria , e 
grandes dezejos de em ludo servirem v. a. 
E assi fui tauibem mui ajudado, e giiardado 
de Francisco de Abneida, Muuoel Sodree, 
dom Jorge de Saa , lleronimo de Souza, 
Fernao Peres d'Andrade, Jam de Magalliaes. 
Polo que lodos rnerecem a v. a. fazer-llies 
muila lionrra; e merce. Pois os ielerados nfio 
comerao.seus ordenados niuito ociojos; |)or 
que o sccretario veio em liua t'usla, oouvidor 
geral em oulra com mullos liomes, e arraas, 
OS quaes na batallia se oiiver.'io mais coujo 
valentes cavaleiros que como Ielerados mui 
sesudos que piles sfio. As fuiezas, (jue lizerao 
OS cazados de Goa e Chaul nunca se ler.'io 
de Romauoi ; porque us suas custas, e com 
muilos liomes vierao servir v. a. e nao con- 
teiites com islo, me ol'ereciao dinlieiro pera 
as couzas de seu servj^o. Km todo o lempo, 
que durou o lerco derao de comer a muila 
genie, e vigiarao a fbrlaleza, pelejando em 
todoios combales mui calremadamenle, Tris- 
tao de Payva, Jaui Guarces, IJomiugos Fer- 
nandes, Antonio Fernar.des, Jacome do Coulo, 
Domingos Pires, Paio Uodrigues d'Araujo, 
Jorge de Souza, Pero Prelo, 'Irislfio d'Orla, 
o qual veio couiigo em iu"i gaieiio com muila 
gente, e sempre deu mcza a muilos homes, e 
assi na batallia, como no fazer das obras 
^ervio V. a. muilo bem. Anlonlo Marlins 
laobem Irouxe muila gcnte, e llie deu bemjjre 
de comer, e servio grandemenle nas obras, e 
em todalas outras couzas, que se qua fizerio. 
Miguel Rodrigues , cazado de Goa, me 
ofereceo por muitas vezes dinlieiro pera as 
necessidades, que eu linlia, e veio com doui 
Alvaro em liua fnsta com muilos homes, aos 
quaes deu de comer lodo o lempo, que durou 
o cerco; pelejou sempre muilo bem. O dia 
da balalha foi ferido ao passar das murallias; 
rnas nem por isso deixou demtrar na balalha, 
e peleijar como valenle home. Polos quaes 
servigos v. a. me fara a merce descrever hua 
carta a cidade de Goa, e oulra li de Chaul 
de muilos aguardecimcnlos e contentamentos 



do quo fizerao; porque sera a grande parte 
para doulras vezes folgarem de guastar suas 
fazendas, e pur em risco suas pessoas por 
servi^o de v. a. li assi escrever particular- 
niente, a todalas pessoas, que nesta carta Ihe 
nomeey ; porque nenhiia couza da qua espirito 
aos homes, e os avivenla lanlo como as cartas, 
e f'avores de v, a. 

Acabado de ine nosso Senhor dar esta vi- 
ctoria, a primeira couza que fiz, foy cortar as 
pontes, comque o rio eslava atravessado, e 
lazello navegavel de mancira, que ficasse em 
ilha como danles. E logo mandei recolher 
loda a artelliaria, e moniyoes para denlro da 
lorlaleza, e juntamenle mandei derribar os 
muros da cidade, que correm ao longo do rio; 
para que hcaase aberta da banda do mar. 
Eaas ponies erfi hua obra tfio espanlosa, que 
parecia esc.irecer as que Xerxes fez sobre o 
Elesponto pera passar a Europa; porque com 
ellas ajunlarao a ilha de Dio da oulra banda 
da lerra firnie, e por esta mancira ficava a 
ilha em terra ("irme. A primeira ponle, que 
fizerao, a dalfaiidegna da cidade ate a villa 
dos Rumes, tern de comprido cento e Irinta 
bra^as, de largo seis, e dalto oulras seis, toda 
de mui grandes, e poderosas pedras lavradas. 
A poiite de sima he muilo mais comprida, e 
larga. As obras que fizerao sobre a fortaleza 
parecem mais que de luiiiianas ; porque o 
proprio capitfio, e moradores d'eila me nao 
sabiao dizer onde e^lavrio os baluartes, e por 
onde corriao os muros, e o liiguar, onde 
jazia a cava : lamanlias monlanhas de pedra 
liulifio lansado cm todas eslas partes, de ma- 
ncira que parecia impossivel, e hum traballio 
incouiportavel poder tirar esta pedra e lerra, 
e tornar a erguer a fortaleza polo luguar, 
por onde primeiro eslava. Polo que me foi 
Tornado fazella de novo perfora da cava; assi 
porque se piidesse fazer neste verao, como 
por ser por eMi parte mais forte; por caso 
de hiis oiteiros altos, oiide os baluartes caem. 
O que me dera irniito trabalho, senao acerta- 
ra de vir do reino Francisco Pires; porque 
nfio^ ha qua official, quesaiba nada. E por esta 
rezao me cunipre lello qua esle verao, e nao 
no iiiandar a Mogambiqne. A maneira de 
que iajoa fortaleza lie polio debuxo de Ceytn. 
Parece-ine, que espantaraa muito a gente desta 
terra, mayormente depois que se fizer hiia 
cava per fora do muro novo; porque entao 
ficaraa Dyo com duas cavas, e duas raura- 
Ihas, remedeando-se os muros velhos dema- 
neira, que fiquem em terraplenos sobre a 
cava anligua. 

li posto que os modemos nao aprovem a- 
ver muilos recnrsos nas fortaleza'; lodavia 
para e.-les moiiros servij assi muilo, e vem 
mais a preposito; maiormente, que nao era 
possivcl poderse fazer doulra maneira denlro 
dejte verao, por em todo elle senao poder 
fazer liig-uar polos muros velhos pera comes- 
sar a obra, como jd tenho dito a v. a. iiu 
eslive muilo pcrto de acabar de desfazer de 



76 



lodo csla foitaleza, e lulla fj^er iia illia dos 
inortos: porqiie rreia v. a. que Dio daa 
iniiito maioi oprc5:lo ;i India, que 05 llutnci; 
e cada vcz que qciizcr clrey di' Cambaia poraa 
lodo o e.-ladn da Ijidia a lul tombo do dado; 
iiem nos serve esla forlaleza qua peia oulra 
couza, salvo pera 1104 pur de conluio as tri- 
pos iia boca : o que eseuzaia de todo, se a 
fizera iia ilha dos niorlos; por caso de ser 
liua illia niui forte do sytio, e estar tiiais a- 
pajlada da terra firtiie, e ter grande, e sin- 
{;ular porto, no qual coui todolos ventos podeui 
eiilrar e saliir. Polas quaes reznes a iiao ])o- 
dia nunqua vir cerear elrei de Cambaia, e 
M.'io iia cercando, liie puderanios fazer laiila 
jjucrru por mar, que fora nosso Iribulario: o 
que ate {;ora ; por nao podereui os governa- 
dores levar o uiillior de Cauibaia llie sotVe- 
ram tanlas injurias e ofensas-, para l!ie ufio 
vir tcrcar Dio : per onde linlifio jaa os porlu- 
ijuezes pcrdido todo o credito e reputa^ao 
erilre to, Guzarales. Mas leiiibrando-ine que 
}oi prc','oaclo em I'ortugual nos puljjilos a 
totnada de Dio; e que em lloma se tizerao 
iDuitas perci^oes, e de toda a clirislaiidade 
iDandarfio dar os profa^as a v. a. : nHo ouzei 
•de fazer lanianlia novldade. E tfiobcm estava 
j;i em toda a India tao assenlado nos niouros, 
o genlyos, que elrei de Cambaia linlia lomado 
esta forlale/a, que, se a deixara, setn euiliar- 
go da grande victoria, que ouvo, e a descer- 
car com lamanha iionrra de v. a., nunqua 
acabarao de cier a couza como passoii, e 
icara per lodo o mundo, que elrei de Cam- 
baia iios tomdra a lorlaleza de Dio. E como 
quer que n'estas partes, mais que nontras 
algclas se viva de credito; podera nos esta in- 
tamia vir a fazer muito nial. 

Tendo per esla maneira que digo a v. a , 
discercudo a forlaleza de Dio, provi logo a 
tosla do Malavar, e mandei a ella Francisco 
de Sequeira para a guardar; por =er iionn~ 
<]ue a millior salje de todo^, e llie loreni em 
lodo I\]alavar grande medo. O (piai Francisco 
de Sequeira veio servir v. a. a Dio com qiia- 
iro fuslas suas mui bem aparelliada?, e ar- 
madas, c no dia da balaliia fez Iju grande 
oiquadrao de frecLeiros malavares, que pelei- 
jarao iiiaito bem; pello que v. a. llie deve 
i^screver muitos agardecimenlos, e fazer muilas 
inercoo. E assi mandei doin Manoel de Lima 
a fazer a guerra na emscada com vinte fuslas ; 
c Antonio Moniz a cosla de Mangalor. Dom 
JManoci queiiiiou duas cidades, a "saber Gof^a 
o Gandar; e destruio-aj de demaiieira, que 
quasi nao dei.xou maneira dellas : destroindo 
tfiobem oulros inuitos iugares da co.la e 
<|Meimando niailas nuos, e navios. Antonio 
Moniz <leslroliio laobem liQ grande liiguar, 
que so cliaina Poor, e fez oulros damnos^roia 
coila. ' ' 

Continua. -^ 

' Parece-me qne li.i aqni huma lacuna ; porqne oqie 
se segue nao tem li{;a9rio immdiala com o que fica dilo 
iintes. (Nolo do conn.ilador d'esles documentos. 



MATIIEMATICAS. — DISCUSSAO DE DOUS 
AIETHODOS. AUABES. 



O conliccimcnlo de dous melliodos arabes 
para determinar urn valor approximado de 
sen. l.° e, segundo \VoepcI;e, devido a Se- 
dillot {Prolcgomcnos das Ttiboas aslronomi- 
cas dc Olnug-Iieg , traduc^'io e commenla. 
rio pag. ()!) — 83), (pie osdi^tinguiu na obra 
mui extensa de Mcriem-Ai-'J'clielel>i , com- 
ineiitad(;r deOloug-lieg, e que n'elles eiicon- 
trou uina prova do consideravel desinvol- 
vinienlo da Algebra cnlre os Arabes. 

O priinciro e nin melliodo de inlerprda^'ao 
semelliante ao que empregara Ploleineo para 
deteriiiinar acorda de I.°, pnrem mellior eiu 
teiidido e dando resuliado mais exaclo. Woe- 
pcke conqjara esle melliodo com o de Plole- 
ineo, deinoii5lra a sua siiperioridade, e exa- 
miiiaseus ponlos de seinelliaiii,-a com as for- 
mulas inodernas d'inlerpola^fio. 

O segundo melliodo trala directamenlc o 
problema do teix-eiro grao, de que depende 
a^determina(;ao de stn. 1 °, estahelece a equa- 
q'j.0 ])or que seexprime, e a resolve numerica- 
inente por uni processo que se reduz no essen- 
cial a desinvolvimenlo em serie, ou a fazer 
applieajao do melliodo dos coeflicientes inde- 
terminados. O segundo melliodo ale'm de 
levar a um resultado ainda mais exaclo do 
que o pnmeiro, c- eurioso nao so por diffe- 
rentes particularidades que apresenla, senfio 
lambem pcia engeidiosa ideia em que e fun- 
dado. 

Do que fica e.xposto lesulta nova prova do 
iulereise que apre=entam as indaga(,-oes sobre 
IrabalLos dos geomelras arabes, para escla- 
recer uma das partes menos averiguada da 
liistoria das sciencia? iiialliemalicas. 



KfJHATA DO i\.° '). 



P'lg, Col. Link. 



1 



Ilu tl.ijuig, 50 Honu-ns — Irime- 
stre (le, etc. 



51 



/Nomovinietilo 

lie tudas as en- j 
I fermari:is-re- 
' la^uo ilus fal- ] 
I teciJus para I 
' lodos OS tra- 



I:iy.3 
1:14,4 



Emciul. 

Moniens — ciirer- 
Miarjas ile mole- 
-slias interna^ — 
irimcstre de, eto. 



1:14.4 
1:13,4 



51 I* 14 abstrac^ao 

5i »-*onic.mdas)j^^ 3 ^ ^^ 



I, 2, 5,3, 4 



© JujgitittttiJ, 



JORNAL SCIENTIFICO E LITTERARIO. 



INSTRUCCAO PLBLICA. 

Minislerio do reino — 1* direcg.'io — 1.* 
reparli9rio — livro 12. — n ° 40 = Sua Ma- 
geslade E!-Uei, Regente em noine do Rei, 
sendo-llie presente a ropresentaijao do con- 
selho superior de instrutgno publica, de 24 
^e jineiro findo, na qiial o mesmo consellio 
pede licen(;a para piiblicar no periodico de 
Coimbra inlilulado — Insliluto — os seus 
relatorins annuaes, enviados a este Minis- 
lerio: Ha por bem conceder a pedida perniis- 
sao, para que os diclos relalorios sej;iin ef- 
feclivamente publicados, conforme o que o 
conselho superior propoe, a coinegar do pri- 
ineiro por elle elaborado, e assirn successiva- 
mente os oiitros, segundo a sua ordeni chro- 
nologica, ate o ultimo, que naosera, todavia, 
em regra, publicado sein que liaja decor- 
rido urn anno depois da sua remessa a eite 
Ministerlo. O que se participa, peia secre- 
taria de Kstado dos Negocios do reino ao 
mesmo conselho, para seuconhecimento. Pago 
das Necessidades, em 1^ de jullio de 1854. 
Rodrigo da Fonsecn JMagnlhdcs. 
Esta conforme. 
O Secrelario Geral , 
Jose Antonio d' Amornn. 



CONSELHO SUPERIOR. 

RELATORIO ANNUAL DA I.XSTBICCAO PLBLICA- 

18i4— 1845. ^ 

O conselho superior de instru cjo publica, 
lendo de levar a presenga de ■pVl. o rela- 
torio do estado d'aquelie ramo iWadiiiini>tia- 
gao no passado atjno Icctivo, n.no pode dei- 
xar de ponderar a inipossibilidade, em que 
se acha de o fazer com reguiaridade eexacli- 
dao, por falla dos subsidies e esclarecimentos 
necessarios. Na porlaria circular de 6 do 
agosto proximo passado, Foi V. M. servida 
de ordenar a lodos os directores de estabele- 
cimentos lilterarios , que remettcssem a este 
conselho os respectivos relatorios ale o fini 
de sepleinbro : porem muilos d'elles deixaram 
de cumprir este dever ; e a maior parte dos 
que o cumpriram, em logar de fazer uma 
exposigao melhodica, e muito circumstaiicia- 
da do estado material, lillerario, e moral dos 
Vol. IU. 



eslal)elecimentos, como Ihes foi ordenado na 
citada porlaria, encheram os relalorios com 
projectos v'los e chimericos, e alguns com a 
renovag'io de pretensoes caprichosas, ja des- 
attendidas e rejoitadas. 

Nao prelende o conselho, allegando esia 
falla, eximir-se do cumprimento do seu de- 
ver: porem, tendo a sua obra de sair imper- 
feila, espera que V. M. se digne desculpar os 
defeilos, atteudendo a ser invencivel a causa 
d'elles. 

A instrucgao publica acha-se ctassificada 
em tres graus no decreto de 20 de sepleinbro 
de 1844; e por isso a exposigao do seu estado 
deve seguir naturalrnente a mesma ordem. 
Mas convirii dar primeiro alguma noticia do 
estado da sua organizagao em geral ; e por 
isso o relalorio sera distribuido nos capilulos 
seguintps : — 1.° Organizagao geral de instruc- 
giio publica. — 2.° Instrucgiio primaria. — 
3.° Instrucgao secundaria. — 4.° Instrucgfio 
superior. — Coaclusao. 

CAPITULO I. 

Organkagdo geral da inslrucgdo ■publica. 



</■" 



A inslrucgao publica forma desde muito 
tempo entre noi urn ramo especial de admi- 
nistragfio; porque, na verdade, o.^ seus obje- 
ctos teem uma natureza tao particular, c 
demandam conhecimentos tao especiaes, que 
nial se podiam confundir na administragao 
geral. Assim, ja em 1759, por alvard de 28 
de junho, foi creado um director geral dos 
estudos, cuja direcloria passou para a mesa 
censoria por alvara de 4 de junho de 1771 : 
d'esta paia a comniissfio geral de censura, 
por carta de lei de 21 de junho de 1787: 
d'esta para a juncta da direcloria geral dos 
e-tudos por carta regia de 7 de dezembro de 
1794: e d'ahi para o conselho geral director 
pelo decreto de 15 de dezembro de 1836. 

Esla direcloria, porem, coinprehendia s6- 
mente os estudos chamados menores, e de 
humanidades; e nao os superiores : e no en- 
tretanto e certo, que todos os ramos de in- 
striicgao teem entre si lal ligagfio, e sao tSo 
dependentes uns dos outros, que mal se po- 
dem organizar separadamenle. No desinvol- 
vimento da inslrucsao deve haver variedade, 
porque o genio e livre ; mas na sua direcgao 
JoLHOj." — 1854. Nhm. 7. 



78 



deve haviT uiiidade, para cvilar a anarcliia 
moral, que c origem de todas as oiitras. Foi 
com estas vistas, que o deorelo de 20 de 
se|)tembro de 181-t creoii um coiisidlio siipi'- 
rior do iiistrucc'io piiblica, que, deliaixo da 
presidencia do iiiinistro dos nej^ocios do rciiio, 
servisse de centre a loda a instriicijrio pii- 
blica. 

Este cnn-^cllio, lendo sido instnllado cm 9 
de oiitubro de 1344, tractou loffn de foniiar 
as Ires seccjnes, ein quo aqiielle decreto o 
maiida dislril)iiir, reparlindo por lodas ellas, 
ns vo^aes ordinarioi e extraordinarios iia or- 
dcm,em que vao deaigiuidos no mappa n.°4. 
Assiiii or^aiiizado, e teiido a ^ecrela^ia, (|Ue 
tora do cousellio geral director, na loiciia 
indicada no mesiiio mappa, come^ou os seus 
traballios, que teem coritiuuado ale lioje, pro- 
rurando correspoiider ii alia confianc;.! que 
V. M. n'elle tern depo^itada. Aleiii dos ne- 
gocios do expedienle ordmario, liuha o cou- 
sellio a formar os regulameulos, i[i3lruc(,oes, 
e mais provideiicias necessarias, para dar au- 
damento a uma Iii=lilui(,-ao nova, ou refor- 
mada ; e por isso, einpregando as suas con- 
t'erenciasallernadamenle u'eslesobjeclos, con- 
scguindo sali>t'azer o primeiro com regulari- 
dade, e levar li approva<,rio de V.M. os proje- 
ctos do regulamcnlo doconsellio, dasescliolas 
jiormaes, de provimenlo dos professores de iu- 
struc^'io primariae secundaria, das jubilacjoes, 
apo3enla(,'oes, exoneragoes dos professores , do 
processo das follias, veriticayfio de lallas, e 
pagamentos : inslrucyoes para os professores de 
fhelorica, bisloria , geograpliia, e clironolo- 
gia, e de grego dos lycens; para os comuiis- 
sarios dos Cftudos, e para regular os cursos 
de habililagao para a universidade : program- 
mas para osexames dos professores de inslruc- 
<;ao secundaria, ediversas consullas com pro- 
videncias geraes e permaneules. 

Bern cimliece o consellio que, a pezar d'estes 
seus irabailios, ainda llie resla iiuiilo que fa- 
zer, para lornar complela a execug.'to do 
decrelo de 30 deseplembro de 1844: edesern- 
penhar cabalmente a alia missao, que llie 
foi encarregada ; mas lauibem conhece que, 
se todas ns insliluigoes precisam de tempo e 
experieiicia para o sen complete desinvolvi- 
raento, lias de inslrucgfio publira sfio essas 
duas condigoes indispensaveis, para veneer 
habilos e prejuizos, sobre que nada podem os 
meios maleriaes, mas somenle os moraes ; que 
sao senipre lentos, e morosos ; e cu ja falla lorna 
muilas vezes inelTicuzes, e ale prejudiciaes, 
providencias o mais bem calculadas. 

Depois do Consellio, nao lia empregados 
que lenbam iuspecj.'io sobre loda a luslruc- 
^•ao; mas acbam-se os diversos rau.os, em 
•que esta dividida, coiifiados a diversas aucto- 
ridades. Os eslabelecimentos de instrucg'io 
superior estae confiados aos respeclivosclietes, 
como e a universidade ao sen reilor ; a aca- 
demia polyleclinica e escliojas cirurgicas 
aes seus direcleres, debaixo da iiispeccao do 



cotiselho; c loilos elles leem desempenliado 
com ponclualidade osseus devcres. A inslruc- 
gao primaria e secundaria esui debaixo da 
inspecjao dos commissarios dos esludos na 
[larle jilteraria; e no que nfio e litlerario, 
aelia-se confiada aos governadores civj's, e 
adminislradores dos concellios. 

Os governadores civis teem procurado 
cumprir as ordens do conseUio : pori'm entre 
elles alguns, como o de Beja, Caslello-Bran- 
co e Porto leem moslrado urn zelo mais fer- 
voroso em promover a inslrucijNo publica, 
cumprindo nao so com ponclualidade, mas 
com deverjao este dever ; que e um dos mais 
imporlanles, que eslii a seu cargo. Em qiian- 
to aos commissarios, apeuas se aclia nomeado 
o do districlo de Braga, que ainda ba poli- 
ce lomou posse. O consellio lem lovado u 
presenga de V. M. as proposlas da maior 
parte dos outros; e lu'io se descuida de loniar 
as informagoes necessarias para as comple- 
tar; porque reconhece, que sein commissa- 
rios, nao pode haver inspec(,:'io, e que sem 
inspec<,'ao ser.'io baldados todos os esforgos, 
para promover a instruc<;ao publica. 

E verdade, que no decrelo de 20 de se- 
plembio ainda se aclia outre meio de iiispec- 
crio, pelas visitas exlraordinarias : mas e 
destinado somenle para os cases iirgentcs, e 
extraordinarios; e por isse nfio pode supprir 
a inspec<;ao ordinaria, seguida e permanente, 
que somenle pode ser feila pelos commissa- 
rios e seus subdelegados, e por alguma cem- 
missae, de que tiles se aiixiliem no desein- 
peiilio de seus deveres. E por isso que o 
consellio ainda n.'io deu providencia alguma 
para dissolver e consellio d'inslrucgfio publi- 
ca da provincia oriental dos Azores ; porque, 
em quanlo nao estiverem as aiicloridades 
deslinadas pelo decrelo de 20 de seplembro, 
para a iiispeccao lilleraria, julga que nao serii 
pniderite acabar com as que exislcm, post" 
que sejam extranhas aquelle decreto. 

CAPITULO II. 

Instrucrdo primaria. 

A inslnioijao primaria, a pezar de ser a que 
inline mais directamenle na felicldade dos 
povos, e que por isso e denomiiiada, por 
excellencia, nacional, porque dispoe o lioniem 



para os uses mais 



ordinaries da vida ; foi 



com tude a ultima , que enlrnii no quadro 
da administrav'io do e»tadn, Quando jii a 
secundaria e superior se acliavaiii conlem- 
pladas na universidade, fuiidada pelo sr. D. 
Diniz, ainda a inslruc^rio primaria andava 
abandonada aesfuidados dos parliculares, e 
pelos clauslros dos cabidos e conventos, a 
quern o eslado pagava, quando inuilo, algu- 
ma pensao parao suslenlo de alguma cadeira. 
Uecebeii poreui lal impulso no decrelo de (J 
de novembro de 1772 e seguiiites, que nao 



79 



teve que invejar a das iia^oes civilizadas 
d'aquelle tempo. 

A pezar d'isso, o syslema, com quefoi pro- 
niovida, resoiitia-sc, principalmenle, de dons 
defeilos, que a experiencia tornoii scn^iveis. 
A eicollia de boiis prot'essores e coiidi^fio 
jndispensavel para o plog■re^so da iiislriic(;ao 
primaria; porem nial se podera. fazer os^a 
cscollia do professores, seiii provideiicias para 
OS formar, e eram esta^, que fallavarn n'a- 
quelle systerna. Alem disso era deficieiile 
nos objcctos de ensino, porc]iie, limitando--'e 
aos conlieciinentos iiiai'S elernctUares e coiii- 
muns, deixava incomplela a educagfio do 
povo , e iinperfeilns os coiiliecimcntos neces- 
sarios para os eiiipregos uiais ordinanos da 
vida. Era per laiilo Corfoso aos que os que- 
riain cotiiplelar, recorrer aos estudos s-upe- 
riores, era que adquiriam habitos e tcndon- 
cias, que os desviavam da carreira, que as 
suas circumslancias llies linliam tuarcado; 
Iaii<,'ando-os ii'ouLra, ern que, a iiiaior parte, 
nao linliain saida ; e por isso sobrecarrega- 
vani o publico de prolelarios e parasitas. 

Para refortnar esles inconvenienles e que, 
no decrelo de20 de seplembro de]844, se or- 
denaram as esclioias iiacionaes, e se augnieu- 
taram os objectos do ensjno, accrescentarido 
o 2.° grau ; porem a sua execujao ainda n-io 
pode ter pleno effeito, seudo precise veneer 
obstaeulos maleriaes e moraes, que somenle 
o tempo pcdera aplanar. O estabelecimcn- 
lo das escholas normaes Iraz comsigo despe- 
sas, que o eslado da fazenda publica obriga 
a economizar; e demanda directores e pro- 
fessores, que, no estado actual, nao e facii 
encontrar. O consellio, tendo levado a sauc- 
9ao de V. M. o projecio de regulainento para 
aquellas escholas , jiilga necessario eiisaial-o 
primeiro n'urna ein Lisboa, sobr'estando no 
tstaljeleciinenlo de oulras ate verificar o sen 
resiiltado. 

No entretanto talvez seria conveuiente, 
ensaiar lainbem oulro syslema para a forma- 
Vao de professores, que, a pezar de niais iui- 
perfeilo, serd por Ventura mais acconimodado 
as nossas circumslancias acluaes. A cre;i9rio 
de ajudantes para as escholas do 2.° grau. que 
pela frequericia e aproveilaniento dos disci- 
pulos dessem provas de niaior desinvolvi- 
niento, seria talvez uni meio de formar pro- 
fessores com pouca de.-.|)esa; porque a grati- 
licajao, que o eslado Ihes desse, era paga 
com o servi^o que faziani : e csle syslema da- 
ria occasiao para aproveilar algum aluiniro 
4a eschola, que desse provas de voca^rio para 
o magisterio. 

Em quanto as escholas de 2.° grau, a falta 
de professores tern retardado o sen estabele- 
oimento, por quanto os oppositores as cadei- 
ras acluaes, que sao consideradas de l.°grau, 
apenas, com raras excep^oes , teem mostrado 
aptidao sufficienle para escholas parochiaes 
do campo; vendo-se o conselho na necessi- 
dade de os prover teraporariamente, para 



nao privar os povo? de loda a instnicc.'io ele- 
menlar; e por isso mal pode ler a esperanga 
de OS encontrar habilllados para o 2.° grau. 
Allendendo a esta falta, ja o conselho propoz 
a V. M. a conversao das cadeiras de ensino- 
inuluo nas de 2.° grau ; porque, a pezar das 
duvidas, quese teem levantadosobreasiia utili- 
dade, sfio enlte nos as niais frequentadas , 
talvez pela maior aptid.'io dos prolesfores : e 
no entretanto nao se descuida o conselho 
de preparar o |)rovimento de outras, tendo 
fi'ilo o regulamenlo para esse provitnento, e 
remetlido aos examinadores os respectivos 
programmas para se prevenirem com os co- 
iihecimentos necessaries para os desempcahar, 
logo que, pelo exercicio das escholas nacio- 
naes, ou por outro qualquer motivo, possa 
havT esperan(;a de ter professores mais qua- 
lilicados. 

O numero das escholas publicas no conti- 
nenle, sustenladas pelo estado, nao exced'i 
ainda a 1:116: aigumas teem sido Iransferi- 
das para locaes mais convenienles ; e tem-se 
provido outras, que de ha muito estavam 
vagas. Silo 1:075 do sexo masculino; e 41 
do feminino: 1058 do methodo siinulianec; 
e 17 de ensino muluo; havendo 16 d'estas 
em exercicio e frequentadas por 2:766 disci- 
pulos. i\as Ilhas ha 73 escholas primarias, 
com a que ha pouco se creou na Ilha do 
Corvo: 5 de ensino mutuo; 68 de ensino si- 
multaneo: 3 d'estas , 1 de ensino mutuo, sao 
escholas de nieninas. 

Acham-se as cadeiras distribnidas pelos 
ditTerentes districtos adminislralivos na forma 
que se segue : 

Aveiro 68 — Beja 43 — Braga 76 — Bia- 
gan^a .56 — Caslello-Branco 49 — Coimbra 
70 — Evnra 28 — Faro 29 — Guarda 92 — 
Leiria 41 — Lislwa 144 — Portalegre 41 — 
Porto 84 — Santarem 52 — Viana 45 — Vil- 
la-Ueal 69 — Viseu 129 ; = 1:116 no conti- 
nente : c= Angra 30 — Funclial 14 — Horta 9 
— Ponta-Delgada 20;=:73 nas ilhas. 

D'estas cadeiras insulares 18 sao pagas 
pelos rendiinenlos das cnnfrarias; e 2 con- 
junctamenle pelas confrarias e thesouro pu- 
blico. 

Ha no continente 1:084 escholas particu- 
lares, sustenladas, em geral, pelos alunino^, 
com poucas excepjoes de algumas in-tiluidas 
por legados, e outras creadas e sustenladas pela 
beneficencia particular Nas ilhas, onde se 
teni seguido a practica (digna de ser imilada ] 
de applicar a instruc(;ao primaria os sobejos 
dos rendimentos das confrarias e junctas de 
parochia, ha proporcionalinenle maior nu- 
mero de escholas particulares ; nao podendo 
ainda designar-se o numero total, por falta- 
rem alguns eiementos estadislicos. 

O numero dos alumnos frequentando as 
escholas publicas no continente, pode hoje 
calcular-se approximadarnente em 45:500, 
pelo augmento de concurrencia experimen- 
tado, principalmenle, nos districtos de Beja e 



80 



CasU'llo-BrancOjdevidoaosefleitos da persua- 
sao dos governadores civi'j respectivos. N'cste 
numero entrain 1:G41 do sexo feiiiiniiio. As 
fiscliolns particular's sfio freqvieiiladas por 
10:776 aliimnos de ambos os sexos. 

jSas illias podererno, dizer (|ue iiao e pro- 
porcioiialiiieiite inferior o niiincro, sef;i"ido 
as noticias va;;as, (pie leinos reccbido: I'altain 
porem oinda os iiiappas esladislicos, que de- 
veriam ler cliegado. 

Avaliada em 3.41'-2:600 liabitantes a popu- 
ia^ao total, e approxjinadaiiiente 1 para 53. 
D'onde se pode iiiforir que vai progressiva- 
ineiile crescendo a intclUctuolidade nacio- 
Jialj porqiie lia poiicos aniios a propor(,;io 
pelos calciilos estadisticos extrangeiros era a 
de 1 para 83 ; e no anno findo era o nosso 
oalciilo de 1 para 65. Feilo o calcuio em 
reiagfio a popula^uo das provincias da em 
resultadn ; 

Km Triis-os-Monles, conio 1 para 43 — 
Beira 1 para 60 — Minlio 1 para 43 — Alem- 
tejo 1 para 76 — Algarve 1 para 92 — Estre- 
uiadura 1 para 83. 

Mas comparando o numero de aiuninos 
com o de iiidividiios de 7 a 15 annos, em 
edade ecircunistancia; de freqiieiitar as esclio- 
las, desapparece a grande desproporgao, para 
licar rediizida a n)ais justo valor, formaiido- 
se um calcuio approxiujado, pelos poucos 
esclarecimentoi, que ategora leenn cliegado a 
secrelaria do consellio. 

K cerlo que o sexo feminino se aelia ainda 
iniiito desfavorecido ; e pode offerecer-se em 
prova o concellio de Povoa do Varzim com 
.'JOO meninas de 5 a 12 anrios, e deatas ape- 
nas 1 10 apt>iicadas a inslruc(,aoelementar. 

Traz-osMontes, Beira e Minlio sao pois 
as provincias aonde a iiistrucCjfio primaria e 
mais frecjuentada. Egiialmente sfio as que 
tein mais liabeis professnres, e as que oflere- 
cern maior concurrencia as cadeiras vagas 
As provincias da E^lstremadura, Alemti'jo e 
Algarve teem-se feilo nolaveis n'esle poiilo 
pela difficuldade de acliar mestres , pela in- 
bufficiencia dV^les em geral , e pelo pequeno 
numero de discipulos. 

N'esle rarno de instrnccrio somos actual- 
menle inferiores aos Lstados-Unidos Aiiieri- 
canos, a Prussia, Baviera, Reino Lombar- 
do-Veneziano, llollanda, Ingialerra, Austria, 
Franca e Suissa : e superiores por veiitura 
iinicarnente a Russia e I'olonia, se accredi- 
larmos os jornaes de estadislica. 

O numero de professorcs de instrucfao pri- 
maria e egual ao das escliolas, se exceptuar- 
mos as de eiisiiio mutuo, cm que lia de mais 
um €ijudaiile paia cada cschola , e alguns 
substilulos creados por iiiipedimento dos pro- 
prietaries. Nem o nosso systema de iiistruc- 
ijiio admille a congrega^fio de avultado nu- 
mero de alumnos, que exija em geral mais 
de um professor por cschola; nein a frequen- 
cia actual o conscnlc nas escliolas de ensino 
tiinultaneo. 



A despesa total da instrncjao primaria no 
conlinenle, paga pelos cofres do cslado, anda 
por 103 !)13g8321 rcis. Nus illias a despesa 
liubrua nfio cxcede a 5:951^990 reis; sendo 
uma parte da despesa paga pelas confrarias 
cm numcrario, ou generos cereaes. 

Comparada a despesa da instruc^.'io pri- 
maiia entre nos coin a frequencia das csclio- 
las, fica a despe-a de cada alunino por 
2^285 reis annuaes, muilo superior a d'oii- 
tros paizesj mormente da llollanda, Austria 
e Franca, nfio obstante serem niaiores os 
lucros dos professores n'aqiielles estados A 
difl'ereiK^a recoiiliece por causa a inenor fre- 
quencia das escliolas ; ee por eate inotivo que 
o consellio se nan tern deliberado a propor, 
por ora, a ciea^ao de roais escliolas, a pesar 
das rppetidas inslancias dos povos. 

Nao pode porem o consellio deixar de re- 
conliecer, que o numero das cadeiras existen- 
tes nao satijfaz as necessidades dos povos, e 
que em quanto as nao mulliplicar de modo, 
que torne facil a sua frequencia, nao pode 
exigir d'aquelles a rigorosa observancia do 
arligo 32.° do decrelo de 20 de seplembro de 
1844 

Fara satisfazer a esta necessidade, e alten- 
der, ao mesmo tempo, as do lliesouro publi- 
co, tomou o consellio o expediente de pro- 
mover a crea^;^lO das cadeiras somente pelo 
mode indicado nos artigos 9.° e 45." daquelle 
decrelo, ja practicado nas illias ; porqiie as- 
sim, alein da vanlagem da I'azenda publira, 
livra-se de preleiisoos inlcressadas, que as 
caniaras nao li.'io de querer pagar, c obriga 
eslas a tomar na inspecj.io das escliolas uma 
parte activa, e a nao a olliar com indifleren- 
<,a, como succede qiiando sao inteirainente 
pagas pelo estado. Assiin tomara a instruc^ao 
primaria o verdadeiro caracler de nacional, 
ou antes municipal, que mais llie convem. 

N'este senlido jii o consellio encarregou a 
lodos OS governadores civis o importante ser- 
viro do proiiiovereni por rneio dasjiinctasde 
dlstriclos, e por lodos Oi que eslivcrem ao 
sell alcance, aquelle expediente : e em breve 
espera poder levar a pre5en<;a de V. M., al- 
guiiias propostas d'aquella iiatureza. Jiilga 
porem o coiijellio, que se aquelle systema for 
do agrado de V. M., iiiuito conviri.i desper- 
tar o zeli) dos governadoies civis, em o pro- 
mover, com especial reci)mmenda<,ao de V. 
M. . 

Ainda esle sy^teIna se poderia levar a ef- 
feito com mais facilidade, se para a Instruc- 
(j'lo primaria se estabclece^se um giau infe- 
rior ao l.°, que seria sulTicienle para algumas 
aldeas de pequena con»idera<,rio, e facililaria 
a concurrencia dos professores com um orde- 
nado mais modico, e os recursos para o pa- 
gamento d'este. Alem disso, e^tabtlecida uma 
escala de Ires graus, por onde os professores 
podossein ir suliindo, dar-se-liia considera^'ao 
a lodos, accreiceiilando a esppran(;a aos pro- 
ventos reaes, e uin estimulo para estudarem 



81 



e fazerem esforgns por inclhorar eserem pro- 
movidos. Esld geralnienle reconliecido, que 
o progresso sorncnte se pode esperar, da car- 
reira aberta ao talento : em quanto os ordc- 
iiados, e recotnpensas, por maiores que sejam, 
nao o despertam, se se llie lira a seductora 
perspectiva de um fiituro mais feliz. 

O conselho tem feilo todos os esfor^os por 
fazer collocar todas as cscliolas etn edificios 
publicos, pore'm a falla de edificios do estado 
em muilos concelhos, e a de recursos dos 
municipios etn oulros, ainda llie nfio perinil- 
tiu Icvar a pleno effeilo esle empenlin ; de 
que, com tudo, nfio desisle, convenrido de 
quanto a disciplina das escliolas n'elle iiile- 
ressa. 

Todas as de ensino-niuluo se acliam col- 
locadas em edificios publicos, e algumas das 
oulras , ainda que pouoas : porein o consellio 
espera do zelo dos governadores civis, que 
veiicerii os obslaculds , que ale'gora se leein 
opposto a coUoca^fio de lodas. 

Outre enipenlio do consellio tern sido o 
arranjo de livros elemeiitares; porque sem 
dies n.'io lia que esperar progresso na instruc- 
^fio priinaria. Tem encanegado aalgunsdos 
vogaes extraordiiiarios a forma^fio ou traduc- 
^ao dos que jiilgareiii mcllioros: e com esses, 
alguns, que llie teem sido offerecidos, e ou- 
lros , que se acliavam publicados, espera po- 
der formar uma coUec^fio de todos os ramos 
de inslrucj'io popular para uso das escliolas. 
Por esla resuinida exposi^ao do estado 
actual da inslruc^iio priinaria, se ve, que 
nao e' plenamente satisfaclorio, se o compa- 
ramos com o incremento progressivo, expe- 
limentado em povos , que reconlieceni a 
instruc9rio, como a base da organizaqao das 
socledades modernas, e principio elementar 
da forca dos governos ; mas confrontado com 
a decadencia anterior a 1834 e innegavel- 
menle um estado de mellioramento sensivel, 
e abonada fianga a um fuluro elevado. 

CotUinna* 



MIVERSIDADE DE COIMBRA-PROGRAMMAS. 

FACULDADE DE MEDICISA. 
1853—1854. 

4.* ANNO. 

C40BIRA DB PATHOLOOIA E THERiPBL'TICl UBDICA 
B APHORISMOS, 

00MPB:>DI0 — HUFFELAND, MANCBL DB MBOBGINB 
PRATIQDG HYPP0CI1RAT18 APUORISMI. 

Lente — Dr. Joao Lopes de Moracs, 

Come^a pela Pathologia e Therapeutica, definindo 
o qtie e uma e oulra, consideradas em geral ou em 
wpecial ; e dcpois enlra-sc Da exposirilo e explica^Sodaa 
generali'ludes do livro que serve de texlo ; as quaes fazem 
para nssini dizer tjoia lransi^3o da Palhologia geral, e da 
Therapeutica para a Palhologia e Therapeutica medicas, 
a que servem de prologo. 



Enlra-se depois na Pulhologia eiipe^inl, secnindo a clai- 
iiiicarjio e mclliodo iidoplhdo do compendio ; porque 
leria confiioito adoplal-o, e re^eitar-Ihe o methudo: enlre- 
tanto iiHs t'eneralidades se Icni addtizido coiifitleraijaea 
subre OS differentes metliodog e cla-^iGcu^-Oee, apuiiUiinIo 
o8 uiais Be^'uidfts no fslodo oclual ij.i sriencia ; e con- 
cliiindo pela oecpssidade d'adoplar algiim ; preferindo o 
do conipL-ridio pelo faclo de o ser, e tomaiido-o corao 
ponlo de conipara^rio com os mats segnidos, mluplando 
d'csles o que melhur parece a inedida que Be vai Iralando 
da materia. 

TcHlando de rada riasse, Bcc"e-se por lanto a ordeoi 
adoplada no lexlo ; expondo os caracleres da classe, 
tirailtjs dog syinptouias commuiig, cujo grnpo e couibina- 
(;ao ci.nstitne o tlijcnusliro ph}sioj;rapUiro da nu^suia ; sem 
com tudo deixar ilc curriijir de qiialqner uiaiicira <» quo 
se jul^a a proposilu se^undo <> Cilado actual da seiencia ; 
supjtrindo principalownle a falla dos caraeleres ariulo- 
niuiicos nas classes de uiolestiaa, em ip:e elles se d3o. 

l)(i mrnma mnneira se prucedc a reapfito da Palho^renia ; 
sem dcsprcsara doulrina das (rt!usti.i projcinias), nduptada 
pelo aiiclor ; c pondo-a em harmuni.i com o estado da 
medrcin.! em Franca, aonde parece dar-se-Ihe menus at- 
ten(;rio, mas qui? nem pur isgo se <lt.*.spre8a ; puis se acha 
conBii^nada no Dm i!e cada capidilo J-Ob classes, i^t-neros, 
ou especiea de molestias df^baixu do litulo — naturcza 
— do mcsmo modo se procede a respeilo dos geiieros 
e espL'cies de molestias. 

Eni quanto a Therapeutica das molestias, consideradas 
coiuo classes, generos, especies ou indivjduos, expoe-se 
a do compendio com as modiDi.-atjSes, addi(;oea, ou sub- 
stituicues qnc reclamani o esljdo da scienciaj subre tudo 
em Franca; o clima e as observarOes e nieomo os usos 
merliros do paiz, em que se etiaiiia ; j)rocurando em tudo 
conciliar a ob8erva(;ao e a experiencia cum o quo dicta 
a razflo e a pliilusuphia. Nao se re^eila systema ou 
metbodo algum, cscolhc-se de todos o que melhur parece^ 
e a experiencia coiifirma. 

Finalmente, segundo o nosso methodo d'ensino, todo 
didaclico e sem apparalo, era li^Ces diarias, ("or^oso 6 
que h.ija um compendio que firva de texto; porque sem 
elle nao pode haver expIica9ao nem commentario ; mus 
nem por i&so se jura nas palavras d'esse texlo; deixa-se 
a cada nm o direito d'exaroe, d'analyse, e de critica, 
que o Professor lambem gosa, substituindo, ainpliando, 
corrigindo e mudificando eumo llie parece mclhor, fietrundo 
o eslado da seiencia, e as suas (troprias obser\ arises. 

Em quanto aos Aphori>mos consiirnadus, n'etla cadeira, 
por uma especie de humenagem ao creador da seiencia, 
dii-se primeiro uma breve noi^iio liistorica do eslado da 
medicina na Grecia antes de Ilypocrates ; qu'il e o 
espirito da sua doulrina luda fundada na observarilo, na 
experiencia e na razao ; e qua! e o estado em que elle 
deixou a medicina. 

Depots entra-se na explicarao e interpreta^ao de alguua 
dos seus Aphonsnioa, se^undo o espinto da dontrina de 
HypocrateSj e comparando as suas sentenf^as com o que 
offerece o estado actual da seiencia, em conQrmarao oh 
reprova(;.lo das mesman. 

Eis-aqui em sunima o programma, seguido oas li<;oeg 
consignadas a cadeira de Pathologia e Therapeutica 
medica e Aphorismos, Escusado eentrarem minudencias, 
porque seria indispensavel copiar o indice do livro que 
eer^e de texto, aqiiillo em que e substituido, modificado 
ou alterado pelas doutrinas de Grisolle e outros Palho- 
lusistas modernos ; e o que pode lirar-se de proveiluso 
du8 varios dicciunarios de medicina, e que o tempo 
permitte expender nas li^oes d'esta cadeira. 



JERUSALEM E MaR-MORTO. 

ARCHEOLOGIA HEBRAICi. 

A roligiao, a seiencia e a poesia, consagram 
o iTierecido tributo das suas lioinenagens a 
csta terra assignalada pelas *rloriosas tradif;oc^> 
dos livros sagrados. A religiao comtempla 



82 



/illi com verdacleira eniofao o Uimiilo do 
Hoiiictii»Dciis ; a scieiicia encontra nesta rc- 
gino, outi6ra tain llorefcente, os mais ricos 
mnnancifies da liistoria ; iim ceo lirillianle, e 
,» icmiieiisidade do deserlo, rcpresentando a 
iinagein do iiiGnilo, excitam no poeta as mais 
sublimes inspiracoes. Nao liu paiz algiim, se 
i-xccpUiarmos Meca, t]iie em seu seio lenha 
conlado laiilos peregrines como a Terra san- 
cla. D'esles os priineiros pertencein aquelle 
seculo exlraordiiiario, apaixonado do proje- 
lyiismo, cm que a religiao, depois de cnieis 
persf'gui5oe3 e longo capliveiro, Irinmfihanle 
oe sens iiiiinigos, lograra em fim a auclon- 
dade, que por lanto tempo llie fora dispnlada. 
Assegnnda? peregriiia^nes appareccm no meio 
d'essa era cavalleirosa, cm que oclirislianismo, 
modificado pelo primitivo tliaraclcr das nardes 
occidenlacs, servia de prctexto ao e^pirito 
guerreiro, e ao genio avcniuro-o, que fora a 
cliaracteri^tica da socicdade curopeia nesta 
epoctia. Em fun, quandn os nllimos peregri- 
nes penelraram na Judea, a Kuropa lomiira 
ja uma nova face pelo contacto com a anli- 
guidade profana, e entnira nesle periodo, as- 
signalado pelonasciinento da modcrna civilisa- 
gao, e que vira desapparecer os uUimos ger- 
mens da barberia. Hojc o viajante percorre 
aquella terra, clicia de tantas recorda<,'6es, 
nao ja braiidindo a espada, porem lomando 
na niao a Bibiia, e a penna. Nesta criizada 
de nova espccie, animada pilas sublimes 
aspiraCj'oes a que tende a sociedade moderna, 
o vinjanle nao se limita so a contemplar 
n'aquelles venerandos monuuieiilos as glo- 
riosas Iradigoes consagradas pela fe, e pela 
religjifio ; os costumes, a geograpliia, e o clima 
d'aquelles sanctos Ingares fazetn tambem um 
dos principaes objectos das suaa invesliga(;oes. 
Assim a fe e o amor da sciencia se ligam 
admiravelmente, e sfio o verdadeiro incenlivo, 
que transporta ao meio d'estas regioes essas 
pacifitas cruzadus, que no volver dos annos 
5u vao suceedendo umas lis outras sobre aquel- 
la terra inhospita. 

ISo comedo d'este seculo o illustre A. do 
Itinerario de Paris a Jerusalem abriu esle 
novo e ale entao quasi desconhecido caminlio, 
dirigindo as suas observagoes com a exacli- 
dflo, e soberana liberdadc de \im verdadeiro 
sabio, e de iiin pliilosnpho tonsummado. O 
exemplo do illusire viajante teve numerosos 
immitadores. Desde logo os dois grandes 
cenlros da religiao reformada, a Allemanlia, 
ea lnglalerra,assim como a America do Norte, 
que parece cuiiliecer so um nnico livro, en- 
viaram successivamente sobre as costas da 
Syria novos observadores para explorar este 
paiz. Aquelle unico livro desla ra<;a empre- 
hendedora, criada sobre nm soloainda virgem, 
aquelle livro, que, desde a queda do paga- 
nismo, tern, como oulr'ora Jioma, governado 
o Occidente, e a liistoria da Judea. A bibiia, 
abstraindo de sua divina origem, e coiiside- 
rada so humanamentc, e um poema sublime. 



A verdadeira liistoria dos triumphos e dos 
grandes infurtunios d'aquelle povo singular, 
que parece fi)ra talliado para viver inteirar 
mente separado dos oulros povps, e desctipla 
n'aquellas eloquenles paginas com l.'io vivo 
colorido, com tanla forja de expressuo, em 
estilo tf(0 conciso, e ao iiiesino passo lao 
energico, quenenhum oulro livro pode ainda, 
nem se quer egualar. Na imineiisa variedade 
das suas descripqoes a bibiia abrangc Judo 
quanio conslitue a lli^toria pliysica, moral, 
e politica de um povo, que tao dislincto logar 
occupa nos annaes do inundo ; os scus uzos 
civis, e religiosos, suas leis, e sens costumes, 
seu clima, confii;ura<;ao, e geograpliia ; o eis 
a(pii porque a hiblia e o primeiro, e mellior 
giiia do viajante, n'aqiielle vasto tliealro de 
lao memoraveis acontecimentos. 

N.^o vem ao iiosso inteiito referir aqiii os 
profuiidos e imporlantes Iraballios scieulificos, 
do que a bibiia lein sido objeclo sobre liido 
cm Allemanlia, ondc a crilica moderna, e o 
espirilo de livre exame lanlos progressos tern 
feito ; o que imporla notar, e o facto singular, 
e caracteristico da arclieologia lidbraica — a 
completa ausencia de todos os elementos, que 
constituem, o que ordinariamenle se cliama 
untiguidade figurada. Kste facto mui notavel, 
e attestado por todos os viajantes, e confir- 
mado pelo lestemunho dos liomens mais emi- 
neiites na sciencia desde Rosenmuller ale 
Gesenius, e desde Micliiielis ale Ewald. 

Dii-se o nome de antiguidade figurada as 
obras d'arte, que tem escajiado a. destrui(,-ao. 
Quando a antiguidade lilleraria parece fugir- 
nos, ou perder-se na obscuridade dos seculos, 
a antiguidade figurada vem, por assim dizer, 
servir-nos de marco niilliario nesta longa via, 
onde o viajante se perderia em mil encoi>- , 
Iradas conjecturas. As recorda^ues, a tradi- 
(|-ao e OS soiilios do passado lornam-se palpa- 
veis, e apresenlam-se-nos aos oHios com loda 
a for^'a da realidade. 

Em llerculano , e Pompeia a antiguidade 
figurada revela ale os faclos mais particulares 
da vida e cost.iines dos seus antigos mora- 
dores. Na India, na Italia, e na Grecia os 
templos, e as eslaliins sao documentos elo 
qiientes das magnlficencias do paganismo. 
A Judea pelo conlrario nao nos offerece um 
unico monurnenlo da sua primitiva civilisa. 
y.'io, ou de sua antiga religiao. A raga, que 
primeiro pisou este solo, como todas as rajas 
semiticas, linlia pouco goslo pelas imagens, 
e ja mais so dedicou a. culliira das bellas 
arles. Na Judea ii.'io se observam, como sobre 
OS promontorios da Sicilia, ou junto das 
margeiis do Nilo essas bellas rtiiiias, que 
Inriiam a pai-;agem tfio rica e lao variada ; 
nfiose veem alii nem cdificios coroandoa crista 
das montanlias, nem pedeslaes sem estaluas : 
falla esla bclla iiarinonia da naturcza e dos 
inoniimentos. N 'aquelle paiz nao se conliece 
a ligajao do Acropole com o Partlienon, 
liga(;rio tarn intima, que o rochedo allie- 



83 



niensc seria o mais espantoso rocliedo do 
mundo, se tiao tivera aquella fortnosa coroa 
de alabastro. Eslas sublimes hainionias, la- 
Iliadas para a pliantasia do pintor, e para a 
imaginajao do poela, nao e.xistoin na Judea, 
porque tao dilTicil e lioj ■ reconheoer os ves- 
tigios dos primeiros domiiiadores deste paiz, 
como achar as pe^adas dos arabes na area 
do deserlo, que esui as siias porlas. 

E de feito a iiagfio judaica leve um iinico 
moiiuniento, destruido lia dois mil annos. 
Deste grandioso moniimento resla apenas 
a confusa dcscripgao, que se Ic nas pa- 
ginas sagradas. E por isso que os auclores, 
que se tern occupado da archileclura das na- 
96es aiitigas sao conformes cm dizer, que 
inui pouco se sabe da dos liebreus. K Mi- 
chaelis, um dos mais diilinclos e abalisados 
conhecedores das antiguidades biblicas, iiao 
duvida susteiilar, que no tempo de Salomao 
« ainda muilos annos dcpois os arcliitectos 
judeus erao mui ignorantes. Copear os 
plienicios parece tor sido o objecto de todos 
OS seus esforjos. 

Ora como os phenicios nao deixaram um 
unico monumento, digno deste nome, f'acil e 
de ver, quam difficil sera conhecer, e avaliar 
exacta e rigorosameute a architectura dos 
hebreus. 

Nem era para estranliar aquella ignorancia 
n'uraa ra<;a tao proxima do deserto, e no- 
made por consequencia na sua origem ; que 
cerlo nao poderia medir-se na arte de cons- 
Iruir com as na^oes agricoias e sedentarias. 
Outias circunstancias, porem, nao menos im- 
porlantes, vcm confiimar o testemunlio dos 
iiistoriadores no que respeita a completa aii- 
■sencia dos momimentos biblicos. AJudta f'oi 
por largos annos tlieatro de sanguinoleiitas 
lutas, e conlinuas devajlagnes. A terra clas- 
»ica dosmilagres, nao tern sido tnenos — a ter- 
ra das revolugoes. A Judea era o vasto cami- 
nlio para os conqui^tadores do Egypto on 
da Asia. Odiosos aos outros povoa, os judeus 
viviam cercados de poderosos inimigos. A 
una liistoria e uma constante alternaliva de 
sangrentas victorias, de crueis revezes, e de 
longos capliveiros. Batalhando incessante- 
mente por libertar-se do jugo estrangeiro, 
livernm por fun que ceder, e sua capital ate 
o nome perdeu. Jerusalem desassete vezes foi 
saqueada, c um milliao de seus beroicos de- 
fensores deram a vida peja iiberdade junto 
de scusmuros. E no meio de tao espantosas ca- 
tastrophes impossivel foradescobrir asreliquias 
da architectura iiebraica, ainda que os Judeus 
possuissem esta arte em tao subido grdo, 
como OS Romanes. A todas estas causas, que 
seriam de persi bastantes para fazerdesaparecer 
de sobre a face desie paiz ate os uitimos 
vestigios da primiliva civilisagao Iiebraica, 
aoaso se juntara uma outra, niio menos 
poderosa, se nao, talvez, mais effic.az, e dura- 
dOra. O genio hellenico com todas as suas 
galas, cercado de todos os primores d'artc, 



cslendera sua doininajao sobre as aridas 
montanhas da Judea. A sua magnificencia 
ainda hojeseadmira tias magestosascolumnas 
de Palmyra, e ate sobre os rochedos de 
Petra. A nova Jerusalem, levanlada sobre as 
ultimas ruinas da cidade de David, e um 
glorioso Iropheo da grandcza e excellencin 
d'aquelle genio portentoso, que cm todos os 
seus monumenlos dcixara eslampado o cunho 
das artes e das sciencias. A lerceira ree(li(;ca- 
<;ao do tempio de Salomao fora, segundo 
Herodoto, obra prima da riquosa, e ele- 
gancia de Athenai on do Corinlho. Assim 
do lantas grandezas restam-nos hoje ruinaa 
de ruinas ; os vestigios de uma nova civilisa- 
^'iio, que fizera desapparecer a da gera^ao, que 
a preccdeu, e que para sempre liciira con- 
fundida no p6 dessas mcsmas ruinas. 

A irnpossibilidade, porlanto, de encontrar 
05 nrienores vestigios da antiguidade hebraica, 
e um ponto assenlado, e sobre o qual as 
tradi^oes, o teslemunho dos mais eruditos 
antiquaries, dos peregrines, e viajantes estam 
ein pleno accordo. 

Um illustre viajante, porem, n'uma recente 
publica^ao ' pertende reconhecer ii'alguns 
nionunientos da Judea a obra primiliva 
d'antiga civilisa^ao hebraica, das suas artes, 
e da sua industria. Em apoio desla theoria, 
contradicta por tanlos e tao numerosos docu- 
mentos, Saulcy invoca o descobrimento do 
tumnlo de David, e das ruinas de Sodoma. 
A aiUenthicidade, porem, destesfactose ainda 
mui problematica, e nao sera porventura dif- 
ficil reconhecer n'esla theoria as erradas conse- 
queneias d'alguma preoccupa^ao, ou de um 
false sysleuia. A questao e evidentemente uma 
das mais imporlantes, que pode offerecer-se 
no estudo da archeologia hebraica, e que nao 
deixara por isso de merecer a atlenjao dos 
erudites. 

Continua. 



CONCORRENCIA. 



Continuado de pa^. 72. 

Accusa-se geralmente a concorrencia de 
arrastar comsigo a miseria d'uma classe, ao 
passo que oenlralisa no dominie do capilu- 
iista todas as fortunas ; que o capitalista se 
torna e rci da seciedade, a btirguezia a sua 
escrava ; que a miseria cresce a medida que 
a civilisagao augmenta. E uma queixa simi- 
lliante a. que se fa? relativamente a mo- 
ralidade; em nosso entender esta accusa^ao 
basea-se n'um duple erro. 

A conconencia absoUita nao dotnina ainda 
hoje a seciedade, porque os monopolies lega- 

' Saulcy. Voyage anionr de la Mer-Morte et iaus 
let Urrei bibliqiies. i vol. Paris 1853. 



84 



lUado5, e o monopolio do capital ainda of- 
ferecem uma barreira ao livre desinvolvimen- 
to da liberdade, como lenios foilo ver. Mas 
se a Iciidencia geral o para a generalisa^ao 
da livre associayfio ; se esta tend<Micia cada 
vez niais se realiza pelo conlieciineiilo das 
vantagens que dclla roiiillaiii ; e se esse pro- 
gresso se apreseiila como resukado da liber- 
dade, como o cnriiplerncnlo, a que tendo o 
svsleina actual, pois que e o cninploiuenlo 
da liberdaile de que a actualidade apresenla 
iini grande ensaio ; e incxacto suslentar-se que 
as tendencias acluaes se dirigein a exlreiiiar 
duas classes ; uma que so procura cenlralisar, 
e estabelecer o dominio exclusive para si do 
capital; oulra que augtneiita proporcional- 
menle na miseria. A logica poretn leva-nos a 
uma coiiclnsao inteirauienle differente; por 
uma parte inoslra-iios a conoorreiicia muilo 
longo ainda de ser a lei da sociedade, mas 
dirigindo-se todavia para esse fim; por outra 
t'az-nos ver que u riqueza esld hoje melhor 
repartida, que uao o estava em epochas ma is 
remotas. Tudo quanto levamos dilo prova, 
nos pareco, a primeira conclusao ; os Irabu- 
llios esladisticos corit'irmani a segunda. 

Iloje u.'io e possivel sustcnlar-se que o facto 
do accrescoritaineuto da:, liquezas seja supe- 
rior ao da sun diffusao. Se Mr. Blanqui diz 
que a miseria publica e um grawde I'acto so- 
cial, particular aos tempos modernos, inani- 
festando-se cada vez niais a medida que a 
civilisa^fio se diffutidc; nos respotidenios ao 
estimavel e elocpierite economista, quo o que 
e particular ao tempo actual e a agitii9ao de 
todas as classes ; e a sua inquieta9:lo, a sua 
impaciencia e a impossil^ilidade de conteutar- 
se ; porque, vendo raiar a aurora da sua total 
emancipa^fio, conscia do seu poder, jti nao 
pode, como outr'ora, sol'frer o jugo, ainda que 
niuito mais suave. 

A e|)oclia actual mal podera confronlar-se 
com exactidfio coui as da antiguidade em. re- 
la^fio ao problema da miseria. A dilTeretic^a 
cssencial que reiiia na vida inlima da socie- 
dade d'lioje para a da autiga sociedade, e a 
causa dessa difficuldade. Que miseria nao de- 
veria haver n'uma sociedade seni commercio 
e sem industria, cujos unices elementos de 
producg.'io cram a guerra e a pilliageni ! Onde 
as classes niedins olliavam o trabalho conio 
uma obra servil, e a ociosidade como o attri- 
bulo do cidadao? Mr. Moreau-Cliristoplie faz 
ver que nos antigos povos, especialrnente os 
romanos, entri- a lierilidade e a servidao liavia 
uma classe proletaria, composta de cidadfios 
pobres on d'uma fortuiia mediocre, que nao 
tintiam escravos, que os nao podiam ter, e 
para os quaes a sua liberdade original era 
precisarnente uma origem de indigencia, de 
oppressao e de miseria; liberdade que consti- 
tuia para elles uma especie de titulo de no- 
bresa, que nao Ihcs permittia entregarem-se 
a occupa(,'oes manuaes exclusivamente reser- 
vadas para os escravoj. Km Roma apresen- 



lam-se frequenles cxemplos, que bem pro- 
vam a existencia dessa classe proletaria vota- 
da ;i pobresa : quantas revollas, fructo dessa 
miseria, nfio presenciou a Cidade por excel- 
lencia? Mas, quando inesmo antes da epoclia 
em que comc^aram a linver libertos, nao se 
(|uizes5e udmittir mais que as duas classes de 
senhiires e escravos, estariam os escravos sem- 
pre ao abrigo da miseria, prodigalisar-lhes- 
hiarn sempre sens senliores com que sallsfi- 
zessein a todas as suas necessidades? As me- 
drdas severas contra os escravos fugitives; as 
rebel iocs dos Ilotes em Sparta, dos escravos 
em Roma, sao uma triste recorda^ao da mise- 
ria d'esses inft-lizes ! Ila hoje acaso pinlura 
dos males que allligem a humanidade, por 
mais liabil que seja a mao que a desenhe, que 
poisa eguaiar a impressao de horror, que nos 
causa a so idea d'um ergastido ? ! 

Que idea poderemos nos fazer da sexta 
classe romana, cuja denominagao de proleta- 
ria 6 o mais manifesto testemunlio da miseria 
que a devorava ! N'uma republica onde a 
riqtieza consistia principalmente em terras, 
que idea se pode fazer do proletario ci>amado 
tambem inops, porque nao possuia um so pal- 
mo de terra ; e capite ccnsi, porque so eram 
recenciados por cabe^a ! E desta classe conta- 
vam-se em Roma no Iem|)o de Cesar trezen- 
tos e vinte mil, quando a massa total da po- 
pula^ao n.'io excedia a quatroceiitas e cin- 
coenta mil almas. Quern desconhece o — 
pcincin el circenscs? Um peda^o de pao, po- 
ne;/?, acompanliado de festejos e de jogos 
circcnscs, e distribuido cada dia gratuitamen- 
te a cada um dos trezentos e vinte mil ociosos 
de que lemos fallado, oonstituia para esta 
massa degradada a maior somma de felici- 
darle que ella podia ambicionar. 

Garnier de Cassagnac diz, que a mendici- 
dade era um facto quasi desconhecido dos 
antigos nos tempos da servidao primitiva, 
por causa do pequeno numero de libertos, 
que havia antes da eta christa : esta opiniao 
hoje n.'io suslenla o rigor da analyse. Depois 
da batallia de Cannas, Roma armou oito mil 
dos sens escravos, a que deu a liberdade; ' 
desde « anno 340 a 210 antes de J. Christo, 
mais de cem mil libertos haviam entrado na 
sociedade romana; e acabaram por tornar-se 
tao numerosos, que Scipiam Emiliano dizia, 
que o povo romano nao era outra cousa. 
Quando Mario ipiiz destruir em Roma a 
aiistocracia da nobreza, encarregou deste ciii- 
dado milhares de democratas infelizes, que 
elle foi buscar d'entre os escravos; Sylla 
distribuiu a cada uma das Irinta ecincot-ibus 
dez mil novos cidadaos libertos, que haviam 
sido escravos dos patricios proscriptos. Isto 
fez com que Cicero dissesse de sen tempo, 
que OS libertos piedominavam nao somente 
nas quatro tribus urbanas, mas ate nas Irinta 
e uma tribus ruraes. Jii se ve pois que antes 
da era christa liavia grande numero de liberies; 
mas se attenderraos a massa da mendicida- 



I 



85 



(Ic, nao so acliava laiita nclles, porque traba- 
lliavaiTi, codio nos cidadiios ociosos de que 
f'allarnos, os <]iiaes nao tiahalhando, e nao 
lendo patriinonic, deviain foffrer as Iristes 
consequencias d'lini tal eslado. Alem diaso, 
OS escravos eiiferiiios e inqiiissibilitados de 
trabaihar aiii^mentavaiii graiidomenle o nii- 
rnero das vicllnias da fonic. 

Na epoclia da barbaridade o quadro ainda 
e mais canegado : quasi loda a parti; penal 
da lei Salica, prova Mr. Pardessus, (^ra con- 
tra as rapinas e assassinates ; de trezenlos e 
quarcnla e tres artigos dc direilo penal, Cjue 
esta lei conlinha, diz Mr. Guizot, liaviaiii 
cento e cincoeiila que se referiam a casns de 
roiibos, e cento e treze que se referiam a 
alaqnes contra as pessoas. Nestos tempos 
calainitosos nao era possivel andar pelos 
canipoj scm o perigo eniinentc de taliir, on 
nas mfios dos bandos de ladrofs, on nas dos 
ininiigos. Os nome? antigos das rnas de Paris 
testemnnliam ocspirilo anti-social desle tempo, 
e a iniseria, que era a sua consequencia. O 
ter(,o ou talvez a inetade da populajfio da 
Enropa, e d'nma parte da Africa e da Asia, 
succumbiu pela guerra, pela peste e pela 
feme! Quando Julianno passou para a Gal- 
lia, qnarenta e cinco cidades acabavam de 
ser destruidas pelos Allemaes. Depois da in- 
vasao d'Atlila so duas cidades foram salvas 
ao norte do Loire — Troyes e Pan's. Em 
Metz OS Hunos degolaram toda a gentc, ale 
as criari(,'as. Salvianno conia ter visto cida- 
des, cujos vivenles eram unicamente as feras 
e as aves, que devoravam os cadaveres em 
putrefacgao. Em Hespanlia as feras em- 
liarayavam olransito pelocampo, ecliegavam 
a atacar as povoa^'oes. Uma muUier linlia 
quatro fillios, malou-os e devoroii-os a lodos I 
Na Africa os Vandalos arrancaram as vinlias, 
as oliveiras e mais arvores frucliferas, para 
que os povos encerrados nas cidades live^sem 
de perecer a necessidade. 

Ka Asia, diz Cliateaubriand, as invasiies 
dos Godos produziraui unia fome e iima 
peste que diirou qninzc anr)Os; cinco mil pes- 
soas morreram n'nm so dia. a Roma, qnatro 
vezes sitiada e. toniada dnas vezes, soffreu os 
males que liavia feito soffrer a terra. As mu- 
Iheres, seguiido S. Jeronymo, nao perdoaram 
mesmo aos I'lllios que peudiarn de seus peitos, 
e fizerain entrarde novo em sen seio o fructo 
que dalii acabava de saliir. Roma lornou-se 
o lumulo dos povos de que liavia sido a mie. 
A luz das najoes e\tinguin-se, decepando a 
cabeCj'a do imperio rnmano, abateu-se a do 
mundo ! u A peste e a foine cspantosa forarn 
as consequencias necessarias dcslas devasta- 
^oes. 

Mais adianle a liistoria nos faz ver, desde 
o fim do seculn decimo ate ao principio do 
duodecimo, a fome, que nos seculos prece- 
dentes havia jil feito terriveis estragos, lornar 
a apparecer treze ou qnalorze vezes, quasi 
seinpre acompanliada da peste, durando cin- 



coenta annos n'lini periodo de cento e doze 
annos; a liistoria nos iiioatra uma fome tal 
em Inglaterra, que tliegoii a comer-se carne 
huniana. 

O seculo dezesseis n.'io apresenta sigiiacs de 
graiide inellioramento para o proletariato. 
Fortescue, que liavia pereorrido a Franca 
no tempo da Reforma, dizia, fnllando dos 
colonos: u files bebeni agna, eomein pomos, 
fazeni com centeio uni p'lo negro, e naci 
fabem mesmo o (pie e carne. » No tempo 
de Liiiz XIV contavam-se em Paris 40:000 
vagabundos e mendigos, e 200:000 em toda 
a Fran<;a : eja desde o seculo XII a mendici- 
dade de profissfio era tHo nnmcrosa, que se 
havia tornado objecto de serias inquicta9r")es. 
Vauban (an. 1698) este liomem tao conlie- 
cedor do estado da Fraii(;a no sen tempo, ex- 
piessa->e as!ini : « E certo que o mal da 
iiidigencia tern siibido em excseso, e se nao 
se tratar de llie dar reniedio, o povo baixo 
caliira n'unia exlreniidade de polireza, de 
que nfio se tornara a levantar. As estradas 
principaes do campo, e as rnas das cidades e 
das villas est:lo clieias de mendigos, que a 
forne, e a nndez d'alli fazem saliir. Quasi uma 
decima parte do povo e,t<i rediizida d mendi- 
cidade, e elTectivamenle mendiga; das outras 
nove partes, cinco nao estfio en> estado de 
darcni esniolla a esta, porque muito perlo se 
acliarn da mesma condicgao; e das quatro 
que re^tam, tres sao muito pouco abastadas. ;> 
Hoje a Franga, paiz que tanto tern augmen- 
tado em induatria, nao apresenta um qiiadro 
de pobreza comparavel com este, e a Frani^a 
lioje e povoada por 34 millioes de liabitantes, 
e enlfio apenas por Mi. 

Entre nos mesmo, n'lo obstante Portugal 
ser uma nagao agricola, e a ferlilidade dos 
nossos cainpos offerecer ahundantes recursos 
contra a miseria, todos sabem de quantas leis 
nao I'oi objecto a mendicidade de-,de os anti- 
gos tempos. As leis de D. Fernando contra os 
mendigos sao disso um testemunlio; e em 
tempos mais proximos os alvaras de 9 de 
Janeiro de 1604, de 25 de dezembro de 1C03, 
de 2& dejunho de 1760, edital de 17 de maio 
de 1780, etc. 

Jii se ve pois que a razao e a liistoria 
contradizem formalmenle esse augmento sem- 
pre progressive da miseria, que snstenta a 
opiniao que impugnamos. 

j.B. DA s. P. DE c. MARTENS. 



PHYSIC A DO GLOBO. 



KXPOSKjIo DO SVSTEM* DOS VE>TOS. 

O vento e uma parte denossa atmosplipfa 
posta em movimenlo por alguma altera^ao 
em sen equilibrio : esta alterafao e prodnzid.i 
por dilferen^as de lemperatnra. 



86 



Scndo o ar inais qucnle, c por ecinscguinlc 
mais rarefeilo junlo do eqiiaiior (\ne dos po- 
los, eflabelecciii-sc, cm cada heiiiiaplierio, 
correiilcb dar cpit se dirigeiii dos polos para 
o equador. Kstas conenles cliamadas vcntos 
polarcs, ordiiiariaiiionte nas zcnas lempera- 
das soprani cnlre o noroeste e o norle no 
licmisplierio boreal, c cnlre o sndoeste eo sul 
ro austral; a direc^fio d'ellas approxiniase 
de leste, ao passo que avan^ain para a zona 
torrida, onde forniani os venlos alizados. As 
iiuvens i'reqiienles vexes indioarn, qne as cor- 
/eiites variarn niaia depressa nas cainadas in- 
feriores que nas superiores, c que conservam 
sua priinitiva direcyao nas regioes elevadas. 

Al'^umas vczes os venlos polaies totnani 
proximo dos polos a direc^iio enlre o norle o 
iiordnste ou enlre o sul e sue^te, conforrne o 
liemisplierioj c a conservam ale' na zona lor- 
lida, e nas inais elevadas regioes da alinos- 
pliera. 

Os venlos polarcs occupani uma cxlonsao 
limilada; mas reinain ao mesmo tempo em 
muilos logarcs, e nos intervallos que os se- 
param, encont^am-^e os vcntos liopicaes, i]iie 
soprani enlre o sul e oesle no liemisplierio 
boreal, e enlre o norte e oeste no austral. 
Estes ventos sao ordinariamenle as contra- 
correntes dos ventos alizados do liemisplierio 
em que sopram. 

Oj venlos alizados forraam diias corre:ites 
distinclas, que eslao ern contaclo nos mares 
livres e sobre as coslas orienlaes, a uma 
distancia do equador, que depende de sua 
jntensidade relaliva. Eslao as vezes afastados 
uns dos ouUos a oeste dos conlinenles, nos 
mares eslreilos ou semeados de numerosas 
llhas; no iiilervallo que os separa, cxislem 
calmarias, ou antes ventos que sopram entre 
o sul e oeste no liemisplierio boreal e enlre 
o norte e oeste no austral : clianiam-se venlos 
variaveis da zona torrida ^ mas nos mares 
da India da-se-llies o nome de mongao do 
sudocsle ou mongao do noroeste. 

Os ventos sao pola maior parte as contra- 
correnles dos ventos ali/ados do hemisplierio 
opposto aquelle, em que sopram. 

Quando os venlos polares e os vcntos ali- 
zados teem nnia cerla intensidade, podem 
cbcar lis niais elevadas regioes da almos- 
pbera; mas quando s.'io fracos, os ventos do 
liemisplierio austral passam por cima dos 
venlos polares e alizados do bemispherio 
boreal, ou vice-versa. 

Em qnalquer logar que os ventos polares 
e alizados deixam de reinar a supcrficie da 
terra, sao subslituidos pelos ventos superiores. 
Quando os venlos alizados dos dous hemi- 
spberiosesl.'io em contaclo, os venlos superiores 
tocam a supcrficie fora dos limilcs cxtcriores 
dos ventos alizados ; mas desde que as zonas 
d'esles ventos se scparam, o intervallo e pre- 
encbido pelos ventos superiores. 

Estes ventos reunem-se ora aos ventos Iro- 
picaes, ora aos ventos variaveis da zona tor- 



rida, e ate algumas vezcs a ambos. .^uglncn- 
lain de intensidade que todavia e' pouco con- 
sideravcl, exccplo se 'os venlos polares ou 
alizados do liemisplierio a que cliegam, Ibes 
oppoem obslaculo; e apenas variarn a oeste 
do sudocsle ou do noroe'stc por effeilo dos 
mesnios ventos. 

Os vcntos tropicacs formam inuitas vezcs 
nina zona ou parte d'uma zona comprebcn- 
dida enlre o parallelo de .S5 graos c o de 45 
ou ()0 graos. Grande numoio de correntes 
d'ar polares eslabelcceni-^e ao mesmo tempo 
enlre esta zona e a dos vcntos alizados; cstas 
conenles teem origem junlo doa polos, inaj 
lendo menos intensidade que os ventos tro- 
picacs, passani acima d'cstes, e retoinam sen 
curso a supcrficie da terra perto do limile 
equatorial dos venlos tropicacs. 

Quando os vcntos polares sopram enlre o 
norte e nordcsle ou cnlre o sul e sueste, segiindo • 
o bcmispberio, tivcram origem junlo dos 
polos, e doniinain a superficie do mar. Se 
sao mais fortes que os venlos tropicacs, con- 
linuam sen curso u superficie, e obrigam 
estes a rcmonlar :is regioes elevadas; mas se 
sao mais fracos, dcsviam-se de sua primiiiva 
direcgao, e loniam a do le'ste ou de les- 
suesle no hemispbcrio boreal, e a direc(;ao 
do le'ste e de lesnordeste no cutro liemis- 
pberio. 

Depois de calmarias, o venio eleva-se or- 
dinariamenle nas zonas temporadas do sus- 
sueste, no bemespberio boreal ; 'varia depois 
ao sul c ao sudoeste, e ate ao oessudoesle, 
donde passa inslanlancamenle ao noroeste. No 
hemiipberio austral, gj'ra cm sciilido inverso; 
coinega ao nornordesle, varia depois ao norte, 
ao noroeste e a oesnoroesle, donde vira ao 
sudoeste. 

Os ventos polares adquirem logo que co- 
mcij'am a soprar, grande I'or^a que conservam 
por um periodo que dura Irca dias junlo dos 
tropicos ; cxlcndem-se depois para oeste, c 
ate as vezcs Iraiisporlam-se n'esta nicsma 
direcc^fio; poreni esta niudan^a nfio scei'feilua 
com regularidadc a nao ser a grande distan- 
cia das coitas e abaixo do parallelo de 35 
graos. Os ventos tropicacs sabem ao mesmo 
tempo dos logares em que estavam, e que 
passam a ser occupados pelos venlos polares. 
Nos dous bemisplierios, os ventos polares 
n'uina esta^ao diiram a respeilo dos vcntos 
tropicacs muilo mais tempo nas costas orienlaes 
dos conlinenles que nas occidcniaes; e vice- 
versa na eslai;ao npposta, em que os ventos 
tropicacs sao mais frequenlcs nas costas ori- 
enlaes que OS polarcs, e o conlrario a respeilo 
das coslas occidcniaes. 

Os ventos ali;,ados approximani-sc ou a- 
fastarn-sc do equador confornie a intensidade 
dos venlos polares de que s.io a conlinua- 
<;rio, e conforme a intensidade dos vcntos do 
bemispherio opposto; pelo que os sens limilCs 
variam consideravelmentc ainda na distancia 
de alguns dias. 



87 



Os vcntoj variaveis da zona toirida oc- 
fiipain graiidc exlonsao, que nugmenla ou 
(liniiniie com a inlcnsidade do5 veiilos alizados 
dos dous lieiiiUplicrios ; os sens limiles oc- 
cideiitaes a|jproximam-se dos coDlinenlcs an 
pasio que os sens liniites jjolares se approxi- 
cnam do cqiiador. 

A causa principal das dififerenlcs rarefac- 
loes do ar que produzem os ventos polares, 
e o sol ' ; mas etn virtude da configura^-no do 
tcireno, o como por outra paile este astro 
aquece e rarefaz inais ou menos a alinospliera 
truiii hcinlsplicrio que no outro scgundo as 
f^la(,■ocs, OS venlos polares adquireiii lanibcni 
dilTerenlcs inlensidadcs nos dous liemrsplierios. 
Pelas dirferen<;as d'inlensidade e que os ven- 
tos n'lo se dirif^em em todas as paries das 
^onas leniperadas constantemente dos polos 
j)ara o ecjuador. 

(iV. Larligtie, da Acad, das Sc. deVranca.) 



DOCUMENTOS I.NEDITOS. 



Carta que o riso^rei D. Juao tte Castro escrcvro a 
el-rei nosso senhor o anno de. ,-iti ^(la-iti) 



Conliniiado de pag. 76. 

Priuieiramenle fa^o lembranja a v. a. que 
iiao devia de ter qua nenhu governador, iiij 
official assf de justi^a, como de fa/euda mais 
tempo, que de tres annos ; posto que llie af- 
flrmassein, que saravfio cufermos, e resucila- 
vao mortos ; porque a terra e de tal calvda- 
de, que nao sinlo qnal seja a naturcza tao 
forte, que possa resistir muilo tempo as co- 
bijas, e vicios, que se nella uzao, e pratiquao: 
OS quaes tein cobrado lanianlia posse, e au- 
'tlioridade, que nenliiia couza se pode jii qua 
lazer, por feia que seja, que dos liomens jcja 
estrardiada ; iieJii pello eonlrairo algu genero 
de virtude, que se aprove, e aja por beni 
feita, e delles seja bein touiada, c recebida. 
Ora pois, senlior, se em Portugal acaso po- 
deinos com pessoa, que as priineiras palavras 
nos nao Iragam a tnenioria coino lia paraiso, 
e inferno, e a pouca conia, que devemos 
fazer desla vida, salvo para obrar, e fazer 
bem ; e hi lia lantos pregoeiros das virtudes, 
e acuzadores dos vicios, e pccados ; e com 
ludo isso nao deixa daver quem sirva mal v. 
a., e Ihe roube a sua fazenda, a que laa, e 
qua chamfio saber, e aproveitar: que fara 
n estas partes da India, onde tudo sc faz polo 



' Na socieilailc nieleorologica de Londres, iruma das 
•rssuea do principio do correiile anno, fui lidu uma me- 
inoria de C. Bulard sobre cerla lei esislenle na direci;ao 
dos ventos, Duas mil oliservat^oes le^'aranl o anctor a 
concluir que e direc<;3o dos ventos depende principalmen- 
le da diffcreni;a de declina95o do sol. e da luo. ("Aola 
rfa rsffac^ao.) 



contraiio, e nao ere nenliua pessoa, que liaja 
hymais de nacer; e morrer, sem terem, nao 
digo por pecado, mas por cousa mal feita; 
fazerem furtos, azarem mortes, vivere cm lu^ 
xurias, e, em conclusao, em nenliua nuldade 
o, podcm coniprelicnder, de que ajam hua 
piquena de vergoiilia. Eu confesso a v. a., 
que nao sou jii o que party de Porlugual, e 
que cada vez me vou encliendo de ferruoem, 
e apodreceiido como as armas dos sou" al' 
mazeis. Mas com tudo tenlio muita esperanca 
em Deus, que aid tics annos me nfio arrombe 
de todo. Polo que pe^.> inujto por meree a 
V. a, (jue nao queira clieguar ao cabo de 
espirimentar n'crla terra minlia conslancia e 
(ortaleza, e aja por sen servi(,'o mandar outro 
governador: poique llie juro em vcrdade, 
que os iraballios da India me tern gua-tado 
as carnes, e os cuidados de lanlas, e tarn 
desvairadas couzas moidos os ossos, e o mac 
vivcr dos liomPs danada a alma. Demaneira, 
senlior, que cnmpre niuito a v. a. nao me 
ter qua uiais tempo que tres annos; e ;i mi- 
nlia coMciencia rccolher-me outra vez aos 
iiiatos da seria de Siiitra, pera dar algus 
dias a Deus de quantos annos me tern levado 
o mundo. H nao me empute v. a. a fraqueza 
desejar eu em estremo de me sair dua ter- 
ra; pois sao Ihome recusava (anto de o nos- ' 
so ben lor mandar a ella. E taobem nao he 
possuel poder-se mais tempo soster hij ".q. 
yernador sem mostrar o fio ; como quer que 
he sobejamente perseguidodos homGs, dos qua- 
es bus Ibe pedem dinheiro, outros o peitao com 
die, e outros pedem officios, e viagens, e elle 
ainda nao tern cinco paCs, e dous peixes pera 
cinco mil homes, nem merccimento pera nos- 
so benhor fazer millagres por elle. 

Garcia de Saa he hu fidalgo muilo honr- 
rado, e todo o tempo, que esteve em Portu- 
gual servio v. a. na corte, eoque esleve fora 
o servio na guerra. Quando vim a descercar 
esta tortaleza de Dio estava sua mollier muilo 
doente; e sem embargo disso adeixou, e veio 
comigo servir v. a.: e depois de me Deus dar 
victoria dos mouros Ihe trouxer'io novas, que 
sua molher era falecida, da qual Ihe ficarao 
duas filhas inuito fermosas, e muito virtuosas: 
beijarei as mfios a v. a. favorecello no con- 
tracto, que com elle fez do gingivre; pera 
que coniisso que puder guanliar possa cazar 
suas filhas. Elle estaa pobre, e anda rauito 
desfayorecido de v. a., por nunqua Ihe escre- 
ver. Se i^to e, por ter aigua maa enfoima^ao 
d elle, eu Ihe juro em minlia conciencia, que 
Iha derao fahainente; porque o lem tSobem 
servido em Malaqua, que ii.mo sei quem che- 
gasse a elle : e assivelho como he, em todalas 
couzaS do servijo de v. a. lie o primeiro, que 
se oferece, e que o serve per obra; e toda a 
merce, que Ihe fizer, elle a nierece por sen 
servijo: e em satisfajao de quanto tern gas- 
tado ; e taobem com ella einpararaa v. a. 
suas filhas. Vasco Fernandes, capitfio dos 
pifics de Goa, que morrco na balallia, era 



88 



iiiuilo vuleiilG cavaleiro, e tinha i-ervido v. a. 
om Africa, e qua na India se tinlia acliado 
em lodalai coiizas de giierra. Era imiito po- 
bre : cuido que a caiiza dislo era ser inuilo 
bom lioiiii;. ricao-liie dons lillios, e muilas 
filhas: beijarei as nifios a v. a. tomar-llie os 
fillios por seus 1110903 da cainara ; porque 
soaraa qua inuilo l)eiii nas oieihas do povo 
verem, que eslaa v. a. eiiipaiando de cinco 
mil le;i,'oas os filiios dos lionies, que morreni 
em sou servigo. 

Ho doulor SimHo Martins ouvidor geral 
da India lie lu'i dos boos homes, ou o millior 
que nunqua veio a esla terra de sen officio; 
porque he niuito livre, e izento no fazer da 
jusli^a, e tao inteiro, que nao loma hu pucaro 
dagoa de nins;ucm ; e com islo e inuito bein 
quisto de lodos; por verem sua bondade, e 
direila justi^a. E5taa lao pobre, que se 
pode aver delle muila piedade. Anda sempre 
comigo, na gucrra o acho a par de mi, como 
cavaleiro, na pax nie aproveito de seu conse- 
Iho : porque lenlio por cerlo, que nio daa 
bem, e verdadeiramente. Na balallia, que 
com ajuda de nosso Scnhor vency, ganhou 
muita lionrra : polas quaes couzas, receberei 
em inui grao merce de v. a. mandar-Uie o 
liabito com vinle mil reis de tenja. Bem sei 
' que toda a outra pessoa Ihe mandtira pedir 
mais peraelle; mas eu eslimo tao pouco ren- 
das, e riquezas, que venho a ser mao juiz, 
e mao requerenle dos inerccimenlos alheios ; 
e por isso venho a pedir tain pouco a hu rei 
como V. a.j sobre todolos outros liberal, c 
virtuozo, o que me faz inda mais culpado, 

O anno passado escrevi a v. a , pedindn- 
Ihe por merce, que tomassc Duarte Pereira 
por cavaleiro de sua caza ; bem creio, que 
me faria essa merce; mas porque pode ser, 
que com outras occupajoes llie esquecesse, 
Iho torno agora a pedir outra vez ; porque 
te muito bem servido v. a. n'estas parte?, 
n'esta Jornada de Dio trabalhou grande- 
mente. Elle foi o que meteo mens filhos em 
Dio no tempo do iiiverno; por ser o mais 
soficiente home de navios de remo, que ate 
o dia doie tenho vislo. ' 

SELENOGRAPHIA.^ 

Com o lilulo de — Relevo do hemispherio 
visivel da lua, executado por Th. Dickert, 
guarda do museu de lii^toria natural da uni- 
versidade de Bonn, na cscala de 1:()00,00() 
para as dislancias, e de 1:200,000 para as 
alluras, foj presente a academia de Franca 
em sessao de 5 de juiiho um opuscuto, im- 
presso em allemao, redigido por J. — F. Ju- 
lius Schmidt astronomo do observatorio de 

* Esla longa, e tarn nolarel carta no naniiscripto nSo 
lem data ; ma« bem se ve, que foi escripta Jojo depois 
ila ^rande Victoria de Dio nos fins do anno de 1416. 
(Nota do compilador d'eeles documentos.) 

-^ Eila palavra derita-eo da rai2 grega eclefU lua. 



Olmulz, na Moravia, opusciilo do qual o 
secretario perpetuo fez as seguintes cilajoes; 
Oi diametros das a'nteras propriamente 
ditas variam de seis milhas apenas alguns 
centos de pes. Sao numerosas e eiicontram-se 
em todas as regioes da superficie da lua. As' 
paredes cjrculares teem quasi sempre conside- 
raveis jirofundidades. A silua^ao de muilos 
milharesdc peqi.enas crateras fez presiimir aos 
observadores, que algumas sfio d'origein re- 
ceiite, por isso que veem-se clarameiile os ef- 
feitos produzidos por ellas nas montanlias an- 
ligas em que eslao abertas. 

\i fend as que teem a forma de regos ou 
fossos estreitos e piofundos, sfio de grande 
nuiiiero de miUias de comprimento em quasi 
todas as regioes da superficie da lua, coiisti- 
tuem lima formacao particular, e u, excepijao 
de tres, todas as outras teem sido descobertas 
nos ullimos trinta annos. A direcgrio das 
mesinas parece ser inleiramente independente 
dos accidentes do solo nas suas proximidades, 
ou sejarn montaiihas ou |)lanicies; atravessam 
em sen ciirso montanhas inleiras bem como os 
elevados contornos circiilares de crateras pro- 
fundas. O delirado estudo telescopieo deixa 
vir n'ellas um phenomeno eslreitamenle 
ligado a formaj.'io de crateras alinliadas. Nas 
fendas descobre-se a forniagfio a mais moder- 
na d'accidentes na superficie da lua, e talvez 
actualinenle ainda outros tenliam logar. 

£sta iioticia e aconipanhada d'um pro- 
gramma das diversas regioes mais imporlan- 
tes publicadas por Th. Dickert; a saber: 

1.° A regiao de Mosenberg e o lago de 
Meerfeld, junto de Mandersrhicd no Eifel; 

2.° Os banlios de Berlrich e suas circum- 
visinhan^aj ao jie da Moselle; 

3.° O lago de Uelmen e sous arredores 
no Eifel ; 

4.° A ilha de Palma, no archipelago das 
Canarias ; 

5.° A ilhadeTeneriffe, com opico de Tcyde. 
Os rclevos sao executados em folhasdelga- 
das de coljre, o que os lorna de facil Iransfe- 
rimenlo, resuitando assiin a grande vanlagem 
de nos cuisos ser a vista patente a demostra- 
5ao dos phenomenos geologicos. 



SOCIEDADE GEOLOGICA DE LO.NDUES. 

Na sessao de 22 de mar^o mereceu especial 
men^io um traballio extenso e consciencioso 
de Charles LyelL sobre a geologia de algumas 
partes da Madeira e das illias visiulias, oiidc 
o aiictor esleve muitos mezes na companliia 
de C. Bunbiirv, que dirigiu lambeni iima 
commiinicajfio sobre as plantas fosseis, urze^ 
e dicotvledones, descobertas por Cli, Lyell, 
debaixo da camada de basalto na barroca de 
Gorge, ao norte da ilha da Madeira. O natu- 
raliita allemao Harlung, que estava no E'un- 
clial, ciilrou n'esta ex plora<;ao com Ch. Lyell. 



89 



ESTATISTICA P\THOLOGIC\ DOS HOSPITAES DA UNIVERSIDADE. 

HOMEKS. ENFEBHARIAS DB MOLESTIAS INTERNAS TRniESTRB DB ADBIL A JUNHO DB 185i. 



UOr.ESTIi.3. 



EDADES 



4 Febre nervosa . . . 

5 Febre gastrica 

»• " j4popUxia 

t> *i Anasarca 

49 Febre inlertuittCDLe . 



6 m pneumonia 

w m Bro/tchite 

m >* Ascile , 

» ■ Ana$arca 

m .1 Anasarca-Obttruc^do do bti^o 

n n Sarna 

n n Obatriic^ao do baQO . , . 

1 Febre intermitlenle gattrica 

1 An::ina 



1 ParutiJtte 

19 pDeiiiuunia 

H kheumatiimo articular ehronico .... 

» Snrna 

S Pletiresia 

t Cjslile 

1 OphUlmia — Blennorrhagia 

I Er;si|iela 

3 Rheumalj^mo articular 

13 Rheumatisiuo articular chrunico 

»» JJerpts na face 

1 Pleuroilyaia 

1 Li)tnba<^o 

S Embarago gaatricu 

8 Br<«nchile 

5 Rronrhite cbronira 

1 £|tjlep8ia 

1 CephutaL'ia 

6 Guslral^ia 

1 Apoplrnia 

] Hemiplci^ia 

1 Paraplegia incompleta 

1 Amaurosc 

7 Tisica |)tiImonar 

13 Ascile 

t* Febre intermitlenle 

M HydroloittX — pneumonia 

w ()b$trur^do do bn^u . , . 

H f'rrmes intestinuit 

» He rpee 

8 Hy<lrolli..ra.x 

1 Anasarca 

1 Aiias^irra — Asiite 

S Henu'pl}»i8 

n Anasarca — edema pvlmonar .... 

I Hemorrhoi'Ias 

I DialtelKd 

1 Ciilarrho vesical 

1 Diarrliea 

3 Icleriria — Obalnic^do do fgado 

" ()b$lrur^do do Jiyado e do ta^o .... 

1 EscrMpImlas — Herpis 

i Syphilis g^eral 

2 Aiieiiriama do curai^rio — Ascilti-Ut^drolhorar , 

" •» Hydroperiairdio — Hydrotorax 

1 Aneiiriiirna <l» crossa da aorta 

1 ObslniC(;ao du bji^o — Ascite 

1 Oiislrur^ilu do ba^o e figado — Ascile 

I Coocro do esltpraago 

1 Cancro do fi^'ado 

1 Vermes iiileslmaea 



Tlerpe 

Elephanliase 

Prolapso do rprlo ... 

Ahcess.i do Q;^udo 

_MoIesliM iiao clastiQcadag (um enlruu moribniidu) 



i:« 



14 



tt8 






4 
3 
1 
1 

19 
J 
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1 

3 



I 



90 



Sfovimeuio 



E\isliani , 

Eiitraram ••^•^■-.'^ •..•■•...■. < 

Falleceram « '. . . 

Relarao tIo8 fallecidos para og entrados 

|)ara OS saidos 

para lodos os (ralados (exislenteso entrados) 



Mofimento de toiftta as enfertitarias dos hoipitaes 
da iinicersidttde em lodo o trhMstre. 



Existiam , 

EDtraram ,^.'^...j. 

Sairam , ' 

Falleceram 

Rela^So dos fallecidos para os entrados 

— — para oa saidos 

para lodos os tratados (etislentel e en 

trados) 



Homens 



128 

312 

332 

35 

1:9,7 

1:9,4 

1:13,4 



Observa^flet meteorchgicas* 



Abril 



59 

69 

53 

5 

1:13,8 

1:10,6 

1:25,6 

Mulheret 



117 

210 

S34 

23 

1.9,1 

1:10,1 

1:14,3 



( Teniperatilra altiiospherica ao meio dia . 
Media < 

XAICura barometrica a 0.° C L,„.,i 

, r,. i 

Ventos produniinantes '...... 



Insliliilo de Coimlira N.° 3. 



Maio 



70 

41 

57 

10 
1:4,1 
1:5,7 
1:11,1 



Junho 



43 
46 
41 
11 
1:4,1 
1 3,7 



Trimcstre 



Homens 



20 



Abr'il 



15,°9C. 

mil 

751,039 
S.E. eE. 



Miilheres 



12 
1 
3 
1 



Muio 



16, "8 C. 

mil 
751,774 

N.O. E. e 
S.O. 



156 

151 
26 
1:6 

1:5,8 

1:8,2 



Tiidos 



277 

553 

574 

60 

1:9,2 

1:9,5 

1:13,8 



Junlio 



18,°7 C. 

oil 

75i,962 

N.O. N. e 
S.O. 



Dos IrcsdoeiiLcs de febre intertiiillenle, nao 
curados, um foi despedido por conveniencias 
de disciplina, e dois nfio esperarain pelo 
tralainento, saiiido 2i lioras depois da enrra- 
da. 

Dos 5 que morreram de pneumonia, en- 
traiam 2 com seis dias de inoleslia, e 1 com 
oito dias; e o que apparece na casa dos nao 
curados entrou com seis dias de moleslia. 

O doente de cancrodo estomago, Francisco 
Antonio, de 57annos deidade, casado, traba- 
lliador de enxada, naUiral de Ramalliaes, 
freguezia de Aviul, esteve quatro roezes no 
hospital e morreu, sem que a raoiestia se 
revelasse pelos syrnplomas locaes, que a 
costumam caracterisar. Sobresaia grande pa- 
lidez por toda a pelle e na lingoa, emma- 
greciniento geral, can^asso, alguraa tosse e 
faslio. O murmurio respiralorio estava quasi 



sumido, o pulso tardo e linciir, e todas as 
mais t'uncgoes se cxecutavam a custo. Via-se 
o apparato d'uma anemia, e, se quizerem, 
d'unia diatiieze caiicrosa adiantada, sem que 
a percussfio, auscullar.'io, apalpagfio etc, po- 
detscm descobrir lezao organica no estomago, 
e em ncnlnim oulro orgao, que desse a razao 
d'esla deleriora5:'o geral da economia. A 
aiitopsia resoiveu o probleina, mostrando a 
parede posterior do estomago toda cancrosa, 
e esta degeneragfio propagada ao figado e 
bajo, iios pontos de conlaclo destas visceras 
com o cancro do estomago. 

O que morreu de abcesso do figado tam- 
bem oCferece nma parlioularidade, que deve 
registar-se enlre aquelles factos patliologi- 
co3, que as vezes eludom as deducjoes dia- 
gnosticas. Ciiamava-se Joiio Carvaiho, de 
39 annos de idade, casado, trabaliiador. 



91 



natural de Trouxemil. O correr dos sym- 
ptomas iiioslroii com facilidade iima he- 
patite aguda, e revelou ig'ualinente a sua 
terniina^ao por um abcesso do figado. Neste 
estado sobreveiii iirna diairliea sanguineo- 
purnlenla, e depois mucoso-piiriileiita, coin- 
cidindo com ella o abaixamenio do tumor 
hepalico, e unia consideravel melliora no 
estado geral do individiio. Passados 6 dias, 
suspendeu-se a diarrhea, peoroii o e^tado geral, 
e comegou a upparecer um tumor coin flu- 
ctua^ao sobre as falsas costeilas do lado 
direito. Com uma punc(;rio iioste ponto 
dei barda a 8 libias de puz pouco mais 
ou meiios ; e, passados 4 dias, reappareceu a 
diarrhea purulenla, que foi acompanhaudo por 
tres semauas n saida do puz pela abertura 
exterior. O honiein, depois d umadeniora de 
doij mezes no liospital, morreu no estado de 
marasmo e consumpsao propria destas sup- 
pura^oes internas. 
g Tudo levava a suppor que o abcesso do 
'figado, primeiro, seabrira no canal inteitmal ; 
que, depois, obstruida esta coinmunica(,'ao, o 
puz atravessiira os pianos muscuiarcs, para se 
apresentar em tumor sobre ascoslcllas falsas; 
e que, em seguida a puncrfio exleiior, a pri- 
meira abertura interna se renovara, despejan- 
do-se ultimamente o abceiso do t'lgado pelo 
canal intestinal, e ,pela abertura externa. A 
autopsia verificou tudo, a excepyao da abertura 
do abcesso pelo tubo degestivo, de que nao 
appareeeu o menor vestigio. A espessura 
anornial das patedes intestinaes em parte do 
colon e mesnio nas ultimas porgoes dos in- 
testines delgados, e muilas iilceras que se 
viam na sua mucosa, lizerain coahecer a ori- 
gem das materias purulenlas e sanguineas, 
que durante a vida pareciam ter vindo do 
figado. 

A morlnlldade de 1:9,2, em rela^.'io aos 
enlrados nos hospilaes da universidade em 
todo o trimestre, se hem <jue inais favoravel 
que a do hospital de S. Jose e annexes de 
Lisbon, que foi de 1 :H,3 no uiesnio ti iniestre ' e 
com tudo inenos lisoiijeira que a do trirnestre 
patsado ; e esta dilferenca uinda se luriia 
niais sensivel, coiifrontando-se o movimunlo 
das enferiiiarias de iioinens de niolesLJas in- 
ternas nos dois triinestres. iN/io posso deixar 
de allribuir esle augincnto de mortalidade a 
resolu^ao, toniada pela direcloria dos hospitaes, 
de dilficullar exlraordiiiariamenle a aceila. 
9ao dos (loeiites, movida polos apiiros, nfio 
dtrei exlraordinarios, por que desgraj.ida- 
mente sao permanentes, mas apuros lameiita- 
veis do iniseravel cofre d'um eslabclecimcnto, 
que tantos beneficios poderia prestar u huina- 
nidade enferma ; e que, se o nao tirarem da 
penuria em que se acha, ir-se-ha converlendo 
o seu futuro lao esperari<;oso n'uina perfeila 
irius'iopublira, n'umadesgra5a de mais, sobre 

' Jornnl .)e pharmacin e sciencias accesnorios Je 
l.iskun — fullielui dc maio junlio c juliio ik 1854. 



tantas que ja soffrem os deigra^ados que alii 
concorrem. 

Nao se diga que effect! vamente nao au- 
gmentoii a mortalidade, e que o desfavoravel 
da proporgao provem unicamente dadlminui- 
5ao no numero das entradas. O numero ab- 
soluto dos fallecidos em todo o hospital, no 
trimestre de Janeiro a marjo, foi 66 ; e, haven- 
do menoj doentes no trimestre de abril a 
junho, o numero dos fallecidos neste trimestre 
subiu a 60. E noie-se que a diireren<,a ainda 
e inais salienle nas enfermarias de molestias 
internas no hospital dos lioinens, que, tendo 
dado no primeiro trimestre 15 fallecidos, deu 
2(> no trimestre seguinte. Nem podia deixar 
de ser : com a rigorosa dilftculdade na a- 
ceita^ao, os doentes gastavam os melhores 
dias de tratamento em applicagoes caseiras, 
as mais das tezes nocivas ; e, so em ultimo 
recurso, batiam as portas do hospital, ja com 
a moleslia adiantada, como aconleceu aos 
doentes de pneumonia, que entrarara com 6c 
8 dias de niolestia ! ! Aceite quern quizer a 
pesada responsabilidade destes factos, que, 
u'um paiz civilisado, n'lo podera qualificar- 
se. Pela minha parte acompanharei os des- 
validos enfermos no seu protesto, pouco ou- 
vido, mas solemne, contra a Wg-oroso diificul- 
dade na aceitagjo dos doentes, e ainda mais 
contra a miseria, e inesquinhez, da actual 
dotayao dos hospitaes da universidade. 
1. A. BA COSTA SIMOES. 



Na sociedede metereotogica de Londres 
leu-se em sessao de 28 de margo ulliuio uma 
memoria do Dr. Moffat, sobre a inetereolo- 
gia inedieal e a o~~one atmospherica. Entre 
outras concliisoes d'este traballio, o Dr. 
Moffat estabelece que: o maxima das 
doeugas tern logar com os ventos do sul, e o 
miniino de mortalidade com os ventos do 
nnrte ; algumas doengas sao proprias de 
certas direcgoes do vento, a apnplexia, a 
epilepsia, a paralysia e as mortes subltas s'lO 
uiui cotnmuns no tempo de saraiva e de 
neve, e com os ventos em que estes phe- 
nomenos geralincnte se produzem, isto e, 
noroeste e sueste. 



Ainda subsistia era 1337 no concelho ,te 
Balazuc (Ardeche) um antigo uso, a que 
Comarmond da o nome de taurobnlia, e 
que consiitia em immolar um touro todos 
OS annos em dia fixo. Uns fazem reinontar ao 
paganismo a origem d'este costume, dutros 
o reportam somente a epocha d'nma epi- 
zootia. 



92 



OBSERVACOES METEOUOLOGICAS , FEITAS NO GABINETE DE PHYSICA 
DA UMVERSIDADE DE COIMDRA. 



Annode 



Me 2 lie 
Mail) 



Dins 



PressSo otmospherica ao meio dia 



ceiUi;:. 



media , 

(la niei ' 



5 



Altiira baro- 
metrica a 0." 

cenli^'. 



TensSo do va- 
por aquoso cun- 
tido no ar. 



Millimelros 



1 


16 


743,354 


i 


16 


744,821 


3 


15 


745,398 


4 


13 


749,757 


5 


13 


756,094 


6 


13,5 


755.517 


7 


15 


754,572 


8 


16 


753,689 


9 


15 


753,557 


10 


U 


753,934 


11 


18 


754,710 


12 


15 


753,811 


13 


16.5 


753,830 


U 


17 


749,766 


15 


18 


749,138 


16 


18 


748,632 


17 


18 


748.886 


18 


18.5 


751,356 


19 


19 


752,561 


SO 


18,5 


753,384 


21 


17 


754,427 


83 


IS 


752,SI!1 


23 


16 


751,762 


21 


17 


753,566 


23 


16,5 


754,083 


26 


17 


751,539 


27 


18 


751,164 


28 


17 


753,566 


29 


17 


753,06* 


30 


)8 


751,671 


31 


17 


751,033 



16,8 



751,774 



Millimelros 



Tciitiieratvra 

Mavimu absul. . . 19." 

Minima 13." 

Maxima variar. . . 6/ 



9,299 
10,449 
9,752 
8,159 
8,247 
8,656 
9,624 
10,317 
8,161 
7,998 
10,384 
9,745 
8,992 
9,381 
10,883 
11,029 
10,931 
10,239 
10,121 
10,766 
10,153 
11,534 
8,697 
9,202 
9,220 
9,684 
9,655 
10,154 
9,575 
9,298 
9,575 



Pressoo do ar 

St'CCU 



Miltiniflrus 



734,055 

734,372 

735,645 

741.598 

747,847 

740,861 

744,948 

743,372 

745,396 

745,936 

744,302 

744,066 

744,838 

740,445 

738,255 

737,603 

737,955 

741,117 

742,440 

742,616 

754,274 

741,047 

743,065 

744,36* 

744,863 

741,855 

741,509 

743,418 

743,487 

742.373 

741,458 



Estadu hygrumelricu ila 
utmosphera ao meiu dia 



Prcsiao atmospherica 

Maxima aUsollila . . 756,094 

Minima 743,354 

Maxima exciirsao . . 12,740 



U = 



0,6879 

0,7724 

0,7684 

0,7314 

0,7309 

0,7508 

0,7579 

0,7622 

0,6*^7 

0,6717 

0,6762 

0,7674 

0,6436 

0,6464 

0,7087 

0,7182 

0,7118 

0,6J62 

0,619« 

0,6795 

0,7041 

0,7511 

0,6425 

0,6381 

0,6590 

0,6715 

0,6131 

0,7041 

0,6640 

0,6055 

0,0082 

0.6891 



Qiiantidade tie 
vapor C'jutido 
em urn melro 
cnbico de ar. 



Gramnus. 



9,332 


S. 


10,485 


S. 


9,819 


S. 


8,273 


0. 


8,362 


N. 


8,761 


N. 


9,690 


0. 


10,355 


N. 


8,217 


N. 


8,081 


N. 


10,348 


S. 


9,812 


N. 


9,007 


E. 


9,321 


0. 


10,820 


0. 


10,991 


N. 


10,893 


E. 


10,198 


E. 


10,051 


E. 


10.710 


N. 


10,153 


0. 


11,466 


0. 


8,727 


N. 


9,S02 


N. 


9,235 


N. 


9,684 


N. 


9,6»1 


N. 


10,154 


N. 


9,575 


N. 


9,265 


N. 


9,575 


N. 



Gran de humidade do ar 

Maxima abaoliila . . , 0,77S4 

Minima 0,6055 

Varia^iio maxima . . 0,1669 



Coimbra 1." de Junho de 1854. 

O Demonstrador da Facnldade de PhiloBophia, Miguel Leite Ferreira Ltao. 



® Jnetitwta^ 



JORINAL SCIENTIUCO E LITTERAUIO. 



CO.NSliLllO SL'PERIOR Dli I.NSTRUCfjAO 
I'UBI.ICA. 

IIEI.ATOHI0 AXNUAl..' 

1811— 18iS. 
Cuitliutiado de pa;;, ni. 

CAPITULO in. 

Inslntcrao sec undaria . 

A iiisUuc^'ao secundaria foi urn dos pvinci- 
paes objecloi da irl'orina do inarqiicz de 
Pombal ; porque, ncliando-se alii ciilio coii- 
fiada aos padieida cumpanliia de Jesus, i'oi 
pieciso reparar os estragos, lalvcz oxai;gera- 
dos, que llics iiiipula o auctor da Deduc^'fio 
ChroDologica. Comecou aquella rel'ojina no 
nlvaiii de 20 de junlio de 1759, c iristruc- 
roes, queoacouipanliarain: poreiii reseiitiu-se 
do inesrno defeito, que iiotauios iia da iiisUuc- 
<;ao piimaria, cm quanto a eslieiteza das iiia- 
lerias dc ensiiio. 

A instrucr.'io secuiidana e a que I'onua o 
homein, e pnr isso ineieceu o iiouie de liu- 
manidadcs, porque coiHpleta o dejcnvolvi- 
ineiito da sua iulelligencia, com reluffio aos 
empregos ordinarios da vida, agricultura , 
comtnercio e arfes. Deve por laiilo abranger 
lodos 05 coniieciincnlos iieceasarios , para sa- 
lisfazer cste fim : pore'm a meiicionada refor- 
ina reduziii.'a7;iiisl.ruc<;ao secundaria a pouco 
mais, do que os esliidos classicos e lillcrariob ; 
locando apenas nos scienliiicos. No enlre- 
taolo e certo, que somente pela allian(;a d'es- 
las dy^ qualidades de esludos, se desenvolve 
a intelligencia humana, polindo-nos o nosso 
cspirito, e elevaiido o nosso pensamcnto; e 
allargando os oulros a espliera dos nossos eo- 
nhecimcnlos, com rela^fio aos usos niais or- 
dinarios c indispensaveis da vida. Com esle fim 
foi aquella reforma adeanlada no detrelo de 
17 de novembro de 1836, e mais aiuda no 
de 20 de seplembro de 1844, entrando na 
instruc^ao secundaria os esludos scienlificos, 
prineipalmenle os ramos industriaes. 

Anles pore'm de planlar e preriso dispor o 
lerreno ; e por isso no arligo 49.° d'este de- 
creto, se deixa a prudencia do governo o 
crear algumas cadeiras d'aquelles estudos, 

' 0« mappas a que se refere esle rclatorio c tc!;uin- 
tes, serio publirados no Gm da collec^lo. 



Vol. hi. 



qunndd o julgar eoiiveiiicnle. () eonscllio, 
convcncido da iiecessidade d'esla inosma cau- 
lela, em quanlo an proviinenlo de alguina'- 
ja creadas, procura dispor os elemenlos in- 
dispensaveis para o sou exercinio ; lendodislri- 
buido pelos vogaes exlraoidiuarios' a forma, 
jao de conipendios, insli ue^'ocs fl'prograni- 
tnas : e ijuando liver fijilo Csles preparos, nfMi 
se desciiidarii de fazer a proposta d'aquellas, 
que liouver espcran(;a de lerem professorcs e 
nlumnos; porque a experiencia lem mostra- 
do, que mesmo algumas das oulras, ja pro- 
vidas, sfio pouco iVetiuenladas : e nao sera 
juslo dispcnder a fazenda publica seiii provoi- 
lo , como o consellio ja ponderoii na consul- 
la, que levou a prcsenca de V. M. sobre esle 
objeclo. 

li esle urn dos uiolivos ])or que os lyceus 
se acham ainda iucoinpletos , e ale' mesmo 
algiins por inslallar. Apenas esliio constilui- 
dos deiinilivameuLe os cinco priiicipacs, de 
Lisboa, Porto, Coimbra, Evoia e Braga : e 
nas oulras cajjilaes de dlslriclo, vfio-se dispon- 
do OS elemenlos para elles. Assim me^mo o 
de Evora e tfio pouco frequenlado, que o 
consellio, em logar de proper o provimcnlo 
de m^is cadeiras para elle, proporia a sup- 
pressao de alguma*, que apenas sac fre- 
queutadas por urn on dous disci pulos, se nao 
livessc a esperan^a de ver removidos, com 
o Icmpo, alguns dos embara^os, que inipedem 
a frcquencia d'ellas. Pelo contrario o lyceu 
de Braga leiii grande concurrencia ; e por 
isso o consellio vai fazer a proposta de algu- 
mas cadeiras, que nelle faltam. 

Outra causa para os lyceus estarem ainda 
incomplelos, e a falla de comrnissarios, por- 
que apenas se aclia nomeado e em exercicio 
o de Braga: e no enlretanlo, tendo elles de 
ser OS reilores dos lyceus, e d'elles, que o 
consellio espera informti^fio , para saber as 
cadeiras, que serfio frequenladas, e mesmo 
para formar o seu regulamento econoniico e 
lilterario, sem o qual mal se podem consli- 
luir, e inuilo menos ler andamenlo regular. 
Os csludos dos lyceus ainda se nao acliam 
dassificados; e por isso e livre a qualquer 
alumno, depois dos de latim, applicar-se nos 
que bem llie parecer ; mas entre elles lia uiis 
que dao luz para os oulros: alguns prccisam 
de uma intelligencia mais desenvolvida do 
que outros; e per isso e indispensavel dislri- 



Ji'Luo 15 — 1854. 



Num. 8. 



^ 



9i 



liiii|.(.3 Pin cl.ii.-i's, para que it tiuo possa p;is- 
>ar iliis infi'iioios jiara as siippriorej, seiii dnr 
prova>, p.ir cxaiuf, ctn pll^5^llr os coiilicci- 
meiiloj (l'ai|iii'llas. Aj'Siiii liaveiii occasi'ii) clu 
leiiiovcr da iii>lriK'(;;'o i^i'iiMularia, lnj;o iia 
I'liliada d'flln, os aliimno?, que sc inosliaioin 
iiu'ptos c deiciiidadiis, e ii.'io llic periuiUir 
iim; ontitHeiiliarii ii'dla, ictu piuvcilo, o leui- 
po, que podom ciiipix'gar com vaiilagem em 
Diilio mister, para i|iio leiiliam a|)lidfio. 

I'ora dos Ivceiis at'liam-se cm exercii'io 
aly;iiiis cursor hietinars e cadoira:. de laliui: 
porem no CaUil)el<Ti(iioiil(i d'aijuelles ortlTO- 
ce-s('jjrai]dedifiiriildadc iios logare.*, aoiido as 
I'adeirai teem prol'essori'iaiilijjua; pori|iio niui- 
Itis d'ellc?, iiao leem os coidiccimejilos picri- 
-os : no eiilrolajilo, iiao llie> londo sido oxi- 
jjidos para o scu proviri:eiito, :-ena dure, se- 
iiao iiijuslo, jirival-cs d'cllu por uma i'alla, 
(■II) rjiie n'lo sao cidpados; e ijiie mukos iiao 
I'slaiao om circiimslaiiciaj de podor reine- 
diar. Liinitoii-bc por isso o coiisellio a retom- 
ineiidar o desempenlio do curso, mas iiao 
1)1112 iinpor rigorosa olirifiajfio, como jii le- 
vou ao coidieciiiieiilo de V. M. 

l:ni qiiaiilo as cadeirasdc latim : o coiise- 
llio rccebe coMtiiiiiadameiite lepreseiilacoej 
das camaras, pedindo o seu angmento; po- 
rem teiii-se liniitado ao numero cstabelecido 
no decreto deSO de sopleriibro de 11541^ saii,- 
t'azendo alguinas d'acpiellas rcjjreseiitayoes 
coin a Iransferencia das cadeiras, que ^ao 
pouco freijueiiladas em alyiins lo;;ares. E 
liein longc de proper o augmeiUo d'aquelle 
nuinojo, allies jiilga que o eiisino do latim 
se deve ir reconceiilraiido nos l^'ceus. fi ver- 
dade que a miilliplica(,'fio d'aquellas cadeiras 
evita aos paes de t'ainilias, que as leem :i porta; 
o sacrificio da sopaiayao dos lijiios, e da 
despesa, que com elles lazem em logar di- 
slaiite: porem a in>triiC(j-rio secundaria e 
deslinada para as classes uiedias da socieda- 
de, que devem Cazcr aquelles sacrilicios, para 
a lerem (lerfeita. 

Quando a iuatrur^no primaria era incom- 
jilela c liinilada a leilura e escripta, serviam 
us cadeiras de latim de a completar , por- 
quo someuto n'ellas se podiam apprender os 
jiriucipios graniuialicaes ; e por isso juslo era 
que se rnulliplicassem ; mas logo que na 
inslruc(,'ao primaria lia o 2.° grao, que com- 
jjreliendo iiao so Grammalica Porlugucza, 
mas todos os conliecimentos necessarioi, para 
as classes iiifenores da socicdade, o (!aludo 
de uiu pouco de laliiii servo somenle para ar- 
redar Cssas classes, das prolissoes propriasdas 
juas circiimslancias, e ohrigal-as a despesas o 
sacrificio?, com que nao podem, para susten- 
tar a vaidade , que aquelles esludos Ihes des- 
pertam. 

No decrelo de 20 de septembro de 1844 
lambern se acliam compreliendidas na inslruc- 
<;ao secundaria as duas acadeiiiias de bellas 
arles de Porto e Lijboa, e o coiiservalorio 
real : porem a academia de Lieboa iifio en- 



u.iii .lo coiK-clho o ri'lalorio ; e por isso uao 
pode elle dar nnlicia a!E;iima do seu estado. 
Ivm quaiilo a do Porlo : coiisla do seu rela- 
loiio lerem eslado em exerclcio as suas c.i- 
deiras , com IVequencia e aproveitameiito ; 
c ai-iiar-se em bom estado aqiielle eslabdeci- 
mcnlo, meiios no que respcila ao cdiiicio, 
em que se aclia collocado ; jjorqiie e o d.i 
academia polvleclmica, aoiide iiao lia accoin- 
modaCjfio paia lodas as aulas: e por isso 
<'5irio iilgumas em cdificio separado, rom ;^ra- 
ve poijiiizo do eiisino. Seria conveiiioiiU! 
ccunpU'lar uquelle edil'icio, porque n'elle, se 
[loderiam accommod:.r os dous eslabeloci- 

lUL'llIOS. 

() eniiscrviaoiio real do Li-'lioa levc 107 
abimims : porem l.'iO d'esles iVeipienlaram a 
eseliola de miisica, que se aclia em grande 
pingres^o, devido aos cuidados do professor 
Laurel i; em quaulo as oulras tie declama- 
5'io e diiLij-a, se aeliam cm grande decadeii- 
cia. As provideiicias que no reluloiio d'aquel- 
le e?labelecimeiilo se iiidieam, para reinc- 
diar este mal, deuiandam, pcla maior parte, 
siicrificios pecuiiianos , que o coiiicllio julga 
inrompaliveis com os apuros da t'azendu 
publica : e parecendo-llic que a frequencia 
d'aipiellas escliolas, depciide principalmeutf 
do cuidado e zelo dos prol'essores, e mesmo 
dos capiiclios do gosto e da moda, espn'ra 
ijiie com o tempo esle se forme. 

Aiiida o consellio nao pode conseguir dos 
governadores civis uma informacrio exncla 
dos coUegios e escliolas parlieulares, a pesar 
das rccommendaroe>, que para isso lem fei- 
lo : apciias o do Porlo no seu rclalorio dil 
alguma noticia dos do seu dislrirlo. Procede 
rsle delVilo de se iiHo ler cumprido o arligo 
04.° do decrelo dc 20 deseplembro de 1844; 
poique deixando os direclores d'aquelles eslu- 
belecimeiitos de apresenlar aos adminislrn- 
dores de concellio e commissarios ou reito- 
res dos lyceus as suas !)abililai;oes, mal po- 
dem aquellas anctoridadcs ter noticia d'elles, 
para mformarem os governadorcs civis e 
ojIcs o consi'lho. Julgou por tanlo o conse- 
llio que devia mandar observar aquelja dis- 
posifao, expedindo circularrs com as instruc- 
(j'oes necessarias para isso, e espera que os 
governadores civis , con~eguindo, ])or esle 
uiodo, iiiformaij-oei exactas d'atpielles esta- 
belecimeiitos, nao dL-ixar.'io de dar ao conse- 
llio nos seguintes lelatorios inrormacoes e 
efclarecimenlos a esle re-peilo. 

Aquellas providencias erarn tanlo mais 
necessarias, quanlo a falta de frequencia dos 
lyceus, e devida, em grande parte ;i facili- 
dude, com que nas escliolas parlieulares, se 
ensinam os preparatorios para a instruc5.'io 
superior. E verdade que esle abuso tem o 
principal corrective no rigor dos exames: 
porem seria nao conliecer a fraqucza do co- 
ra^fio iiumano, para confiar tudo d'aquelle 
remedio ; e por isso niellior e mais seguro 
sera accompanbal-o do da frequencia, c estii- 



9; 



do rcj^'iilar, que sao as itiais scgiiias garanliiis 
do sabur. 

C) inappa n " 2 ^, rnosira que n niimero 
(lo!> aluiiiiios da iiislrncf'fio secundaria no <:on- 
liiicnle do reino o de 3:932, e por i^>o esia 
para o lolal da pripulai,'ao 3:,')91:772 na ra- 
7.no do 1 para 1:1&G. I''>ta proporrfio poretu 
van'a em c-ida utn dos di:.lrictos, como so vc do 
niesmo inappa , simuIo os de Bt'ja e Guarda 
OS menus favorecidos, c os do Lifboa c Cuiin- 
I)ra aqnelles ern que a proporrfio e niaii vaii- 
lajosa; mas a qnalidade do ser unia capital 
do rcino e a onlra o assento da nriiversitlade 
explica a raziio d'esia grando difforen<,a. 

O inosmo inappa nioslra ser de reis 
48:o03i3^333 toda a dospesa da iii>trnc<;.1o 
seciindaiia: e por isso sendo o nuinero dos 
ahiniiios 2:!}32, cusla cada uin no e.ilado reis 
16f3^6t5: proporCj'fio esia, que tainbein vari'a 
rm cada uni dos dislriclos, spi.;uiido a nalu- 
reza dos e3lahelociment.os, quo conleeui. 

Por esles calcidos esladislicos so doprebon- 
ds, que a inslrucrao secundaria onUe nos 
nfio e lao restricta , neiii luo cava, tonio 
alguns perleiiderti inculcar; porque see in- 
terior a da Prussia, aonde a piopor^fi" dos 
aliimnos corn a popuiajao c de 1 para 189; 
« superior a da Ilollanda, aonde esla do 1 
para 3.015. 

Accrcsce, que pela falta dos relatorios par- 
eiaes, nfio vuo incluidos n'aquelle calculo os 
alurnnos, que frequentain as e,-cliolas parli- 
culares, com os quaes se podeiia lalvez du- 
plicar o nninero calculudo: e enlao desu|)pa- 
ceria quasi de todo a desvanlajjern para corn 
a Prussia, e duplicaria a vantagom, quo le- 
vanios a Ilollanda. 

'lambem a Hospe-a da instrucjao secunda- 
ria nao e, eiiUo nos inuito mais croscida do 
que n'aquellas duas Na<;oes; por quanto ain- 
da que a quantia de reis 16 JIG 15, ([ue enlre 
n(Ss cusla cada aluniiui, seja superior ;i de 
(J4 fr. c 51 c, que cusla na Pru?sia, e a de 
(>3 fr. e G3 c, que custa na Ilollanda, como 
entre nos a inslruc^fio secundaria e toda na- 
tional, e paga polo oslado, nao sobrecarrcga 
OS tnunicipios, como n'aquellas nagoes, em 
que em parle e mimicipal ; e por isso seria 
preciso levarem conta a despesa dos munici- 
pios, para a compara^ao ser exacia; e talvez 
desapparecesse avantagem, quenos levam por 
»c comparar somente a despesa do estado 

O seguinto e o resullado do calculo dos 
alurnnos, que frequentarain a instruc(;ao 
secundaria nos Ivceus e cadeiras dispersas , 
em rela^ao ;i populagao dos 17 districtos do 
continente do remo ; a saber : 

No districlo d'Aveiro, de 1 para 1:774- — 
Beja, de 1 para 4:978-:- Braga, de 1 para 
900 — Bragancja, de 1 para 1:083 — Caslello- 
Branco, de 1 para 748 — Cninibra, de 1 para 
G93 — Evora, de 1 para 1:580 — Faro, de 
1 para 1:863 — Guarda, de 1 para 2:203 — 
Leiria, de 1 para 2:066 — Lisboa, de 1 para 
ti85 — Poilalegre, de 1 para I:7C0 — Porto, 



de 1 para 2:007 — Sanlaro'm, do 1 para 
2:100— Vianna, do 1 pnr.i 1:029 — Villa- 
Real, do 1 para 961 — \'i-ou, <io I para 
1:374. 

CAPITl l.O IV. 

Jnstrucrdd superior. 

A iiiatrucijao superior «i do.-liiiada para as 
dasjoi elevadas da sociedado, d'ondo sacm , 
pola uiaior parlo, os funccionaiios publicos : 
o e por isso Lalvcz, quo tanlo enlre nos, como 
nas outras na(;ocs merecou (js prir;ioiros cui- 
dadiis aos governos. Ainda a instrucf;ao pri- 
uiarla e secundaria andavam abandonadas aos 
cuidados dos parlicularos o de alguuias cor- 
pora(;oos religiosas, e jd a univor^idade, aon- 
do a in>trucr,'io superior so acluiva recoucen- 
Irada, linlia sido generosanionle dotada , e os 
sous piot'osjores gozava;;! da niaior con-^itlo- 
ragao, e nniitos linliani asseiilo nos maiores 
Iribunaes do reino. 

Dosla dobigualdade pore;n, com que cram 
conleuiplados os diversos ranios de instruc- 
(;ao |jubliea, proveiu o nial, cpio ainda lioje 
so some, da doina^iada affluoncia do abiinnos 
para a superior, sem os coniieciinenlos necc-.. 
sarios, em que esta podesse asbcntar, para 
ser bolida ; e sein quo todos os que a seguom 
poisaui ler emprego ; porque o sen numero c 
u.\cessivo, principalmcnto nas scioncias po- 
silivas. Esle mal teui Jd o principal reuicdio 
na exteiisfio, que so deu aos estudos da ins- 
Iruccdo primaria e secundaria ; porque com- 
preliendeudo lodos os conhccimentos neccs- 
=arios, para os usos ordiuarios da vida, dispensa 
niuitos de os procuraroni lui in5lruC9;'io su- 
pe''ior, que os desviava da carreira, que as 
iuascircumslancias llios inarcavani, lentando- 
03 a eulrar n'outra, em que nao achavaui 
saida; e por isso oiam muilas vezes levados 
pelas necessidades, e desesporacao a excessos, 
a que so teriain poupado, se livessera seguido 
outro desliiio. 

Mas ainda a experiencia reclama outro 
ren)edio, que sord por veritura, o mais elTicaz 
para evitar aquello mal. Os exames de ba- 
bililacjao para a instruc^.'io superior, segundu 
o arligo 95.° do deereto do 5 de dezembro 
de 1836, mandado observar pelo arligo 130 
do do 20 de seplembro de 18 J4, sao feilos 
por sec^oes em cada unia das di=ciplinas das 
divorsas cadeiras : de uiodo quo sendo estas es- 
ludadas em difloreiiles lempos, e descuidando- 
se OS alumnos de as rccordar, depois de 
feito o respeclivo exame enlram na inslruc- 
^ao superior, lendo esquecido o pouco, que 
dellas tinbam aprendido, para satist'azerem^u 
um exame iinmediato, ao sen estudo. Nao 
succederia a^sim, sendo o exame uin so sobro 
todas asdisciplinas; porque para asconservar 
na memoria, seria preciso estudar com in- 
telligencia, e recordal-as conlinuadainente. 
O exame de liabilita^ao, deve ser o reiunw 



96 



da in5triic(,'ao i'-'ciiiidiui.i, ijiie 50 julgar noces- 
saria para o raino d<! instiiic(,';io siipeijor, a 
<)ii'! o oxaiiiiiiaiido sc destiiiar. li qiieui i!0 
iiiomeiUo de eiilrar para I'sta, nfio podcr dar 
provas dc que pos-iii; loda> as partes eispiiciac^ 
daquella, nao dovo <c[ adiiiiUido; porqiip 
IjretiMHierla formar lUii edificio scni alicercc. 

As lial)ililai,Ties para as iiiatricidas sao 
objeclo de disposic^ijes rc^ulaiiienlarcs, se. 
giiiido o arligo l(io.° do decri'to do 20 de 
seplcmhro de ISM; e por isso, se aqiiulia 
allera^ao no sysleiiia d'ella for do a;;»rad<> 
de V. M., poder;i o consellio deseiucdvel-a 
rnais circiniislaiiciadainenle, no coinpelcnle 
re;;iilaineiiln, para quo a sano^fio de V. jVl. 
possa ser dada corn mais ronliecimento do 
causa. Assirii podora a inslruc^'fio superior 
as^enlar ecu nllcercos mais solidos: e serao 
rcmovidos della, logo a pnria, aquclles que 
nao livorem dado esperanea do lirar proveito 
tlos seirs esLudos, 

A maior allluencla na inslnic^'fio siipcriiir 
e para os esludos jiiridicos da universidade; 
porque sendo liabilit.a(,'rio essencial para a 
magistratuia, dao e^peran(;a de emprego. Ei- 
sa esperan^a, porein fica illudida em niuitos, 
por nao cliegar para lodos os logares da ad- 
niinistra(;ao judicial : e dessa illusfio segiiocn- 
se as pretcnsoes, com que assallain o governo, 
e a guerra que nuiitas vezes passa das se- 
crelarias para a pra^a. li^la concurreiicia, 
poderia talvez dividir-je, forniando urn curso 
deestudos economico-polilico adiniiiislralivos, 
como lialiilil.KjHo indispousavel paia oseinpre- 
gos do fazeiida e adininistiaeao civil. Em vor. 
dade : se e precisa uina liubditajfio para a 
administra^'io judicial, que tern uma uiarclia 
legal e invariavel ; rnal se jiode conceber, coiiio 
na civil, dcpendente, pela maior parle, do 
arbilrio e talento do adininistrador, se deixe 
a escollia desle ao azar, sem d.ir provas de 
esludos, econliecimentos, quo deem esperanjT, 
dp quo aquelle arbilrio sera bom regulado, e 
o lalctito illustrado e intelligente. 

E esta talvez a unica rcforma de que 
precisem os estudos da universidade, porque 
a ultima feita no decrelo do 20 de scptembro 
de 1814, accresccntando alguns que o pro- 
gresso das sciencias loruava necessaries ilevou- 
os ii perfei(;rio dos das mais bem constituidas 
da Europa. Aquella reforma, lendo sido pela 
maior parte, o resultado dos volos do cada 
uma das t'aculdades, foi por lodas abra(;ada 
com a maior voutade, c por isso, se aclia em 
plena execujao ; inostrando-se todas empe- 
nliadas em promoverem o acerlo d'ella, pelo 
sen bom resultado. 

Ha porem uma falta, que, principalmente 
nas sciencias naturaes, nao deixara. collier 
aquelle resultado, em quanlo nao for reme- 
diada. A reducjao feita na dotagao dos 
estabelecimentos indispensaveis para o des- 
envolvimento practice das sciencias, nao 
permitle a conservaciio delles, e rauilo menos 
o- seu inelhoramentOj porque a quantia de 



seis coutns de reis, sendo absorvida, na maior 
[)arte, pelas necessidades do hospital, a que se 
nfio pode fallar, af)enns cliega para os reparos 
dos edilicios. Assim a bibliollitx-a, cstabcleci- 
menlo indispcnsavel n'uma universidade, 
aclia-se reduzida a nfio poder prover-se do 
livroi modernos, nem mesmo dos jornaes lil- 
terarios, e •■cientificos ; interrompendo as col- 
I(>c(,'oosd"clle5, queassim incompletas, perdem 
o seu valor: e nem mesmo pode coinplelar 
o arranjo das livrarias dos convenlos, com 
(pie foi flolada. O observalorio astronomico, 
e <is diversos gabineles tlo museu , estabolec;- 
menlo grandioso, e forinado com niao lao 
lirga, nao potlem adqiiirir novos productos, 
o niacliinas, nem melhorar as antigas. O 
laboralono cliimico, jardim bolanico, e final- 
menle lodos os eslabelecimenlos d'esia na- 
lurezii, ()uc para serem uteis, dr.mandam 
coutiiiuados uiolliorauientos, estao ealaciona- 
rios, e mesmo em decadencia, em quanto V. 
lAl. sen.-io digiiar deaugmentar aquella dola- 
(,■.'10; corno foi iudicado no or(;amento da uni- 
versidade, para OS mellioramentos ordinaries; 
porque os eslraordiuarios precisam d'ella mais 
avultada. 

O iinico eslabolecimento que se acha em 
lermos de prosperar e o da imprensa da uni- 
vorsidatle, porque tondo satisfeilo, pelos ciii- 
dados e boa economia da actual adminislra- 
cfio, as dividas, com que a anterior a deixara, 
sobrecarrogada, tem um saldo importante, que 
poJe ser convertido no seu mellioramenlo ; c 
lira de ^i mesma coulinuados recursos, que 
po.Jem lornar progressivo atpielle melliora- 
menlo, ale a levar a perfei(,fio, em quo se 
aclia a imprensa regia de Lisboa, que, sc- 
guudo o relalorio respective, se aclia no es- 
lado de maior prosperidadc taiito no pes- 
soal conio no material Porem esta pieciseu 
para is50, de ser auxiliada com recursos do 
governo; e a da universidade contenta-se com 
OS proprios ; sendo a sua adininistra^ao au- 
ctorisada para os empregar em melhora- 
menles, de que darii conlas. 

As escholas medico-cbirurgicas de Lisboa 
e Porto occiipam uma boa parte dos seus 
relatorios, com a repioduc(;rio da antiga 
rivalidade com a faculdade de mcdicina da 
universidade. A do Porto ja se conlenta com 
a concessfio dos graos em chirurgia, para os 
sens alumnos : porem a de Lisboa lacha de 
itijustiga manifesta, tudo o que nfio for dar 
a todos igual considera^ao a dos da universi- 
dade, com pleno exercicio de mcdicina, seni 
a restricjao do decreto de 25 do junlio de 
1825. 

Colierente com esle systema de cngrandc- 
cimento, argue de instifficiente a quanlia de 
um conto de reis para a sustenta<;rie, des es- 
labelecimenlos de que a escliola dove cercar- 
se : e insia pelo auginento da sua dola^ao, 
n.lo so para sustentar os designados no de- 
creto de 20 de septembro de 1844, senao 
tambein para crear muilos oulres, que julga 



97 



nrceisarios tlepois que Ihe i'oi concodklaaquel- 
In corisidera^uo. De modo que, scrido eslas 
cschnlas, na sua orijjem dealiiwulas para o 
finsino da cliirurgia, instaraiii pelos estiidos 
de mediciiia coiiio auxiliares daquelle; agora 
dnpois de llie seiem concedidos, substiluem 
(IS meios ao fun, trocaiii o acci'ssorio pelo 
principal, e qinindo o publico espcrava dims 
pscliolas do chinirgia, aclia-so com tre5 facul- 
dades de inedicina ! 

A experiencia tcin ni05trado, <)iie as sci- 
rntias para prosperar, precisaiii do estar 
re.inidas em grander centrosscicnlifico-, cercu- 
dos de bibliotlieca5, innseus, observatories, e 
oulros eslabi'leciinentos indispeiisaveis para o 
sen deserivolviuicnlo, hem I'oriiecidos e dola- 
dos, OS quaes por isso n;lo podem ser miilli- 
piicados, ainda nas nayoes iiiais ricas, do 
<)iie a no^^a ; mas qiiajido todas prociiraiii 
reconcentral-os, soijierite erilre noi se forteja, 
|)t-la dispersao d'elies, desmeiiibraiido a uiii- 
versidade, e creando Ires I'aciildades de riie- 
dicin.i, com lal apparato, que apet:ns ii'urna 
bC podi! sublentar. 

Algiinias oiitras providencias reclaniam 
aqiiellas csclioias, que nierece.'n maii atleii- 
rao : porem depende de urn regiilaiiietilo de 
que o eonseilio se occupa, procurando obler 
OS esdareciiueiUos uecessarios para o formar. 
JiiUre elias e as commi^soes adminislralivas 
dos lio^pitaes teem-je levaiuado cimllitos, que 
lornaui complicadas as sua, prcleii=oes, e o 
coiiselho, antes de as resolver, prerisa de 
averiguar a verdade, o que iifio e inuilo facil 
i\o niiio de laes torillirtos. 

'J'amliem nas proviucias Jnsulares as es- 
(•lirila>, dietas medico-cliiiurgicas teem cor- 
rido, ale agora, sem direc^So regular. A fdlta 
de regulaiueiilo, que dcienvolva a lei da 
sua crea^ao lem-na^ consuiniclo exrenlricas 
a admiiiistra^'ao liUeraria. O consellio, reco- 
nbccendo a urgente tiecessidade de revestir 
He caracler lillerario aquejlas esclinlas, coni- 
Hadas, ale' agora, aaduiinistra<;ao e quasi ex- 
rlusiva fi-calisajao das coniuiissoes adminis- 
lralivas das ini'crieordias, vai propor em 
breve nil] projecto de regidamento geral, que 
as lia-(le colliicar no logar, que dedireilo liies 
pertcnce no quadro da in7.truc^rio publica. 

A ac.idemia pnlyteeliniea do Porto merece 
ao consi'llio especial cuidado; pnrque e^la-, 
belecida no raeio de uma populaf^ao nu- 
iiierosa, rica e laboiiosa, nao pole deixar de 
prosperar; quando a ulilidade do sen fnsino 
»e for loniando sensivol. Por vezes tern ella 
rpclamadoum regulumenlo para o sen governo 
lillerario, e cconouiieo, de que o coiisellio se 
nao deseuida : porem n'lo e obra mwi facil, 
oxtrair dos pmjectos, que Ibe foram enviados 
um que salisra(;a pleiiamenle a todas as ne- 
fossidades daquelle fstabelecimerito. 

No enlretanlo aclia o conselho mui digna 
de alteiijao a rec^ui5i(,r;o, que a dirla aca- 
deiiiia faz de um local para jardim biUanico, 
e laboraloriocliimico, e de auguienlo de dota- 



^ao para a firmac-rio d'elles e de gabincles 
de liialoriu natural, pliyt-ica, niineralogia, e 
o\itros accessories indi>pensaveis a um e^la- 
beleciuiento daquella ordem. Para jardim e 
laboraloiio lembra clla a cerca do convento 
das exlinctas religio-,as Carmelitas, <|ue a 
nao iiaver algum inconveuicnle seria bcm 
aproveitada paia aquelle fun. 

O numero dos alumnos da inctrucgfio 
superior, segundo o rnappa n." 3 e de ]:7l() ; 
e a sua despesa imporlaem reis 95.0.31^833 ; 
e por isso esla parao da populagao na razao 
de 1 para 1:976: e cusla ao eslado cada 
alunino reii hb^'679. 

Fallam porem naquelle numero, osaluranos 
da e.-cliola polylechuica de Lisboa, que nao 
estd debaixo da inspec^.w do conselho; e na 
despe-.a da nniversidade nao vae descontado 
o produclo das matriculas, cartas e sello, que 
importa em viute e lantos conlos, e reverie 
em favor do tlie^ouro: e cada uma d'estas 
uddi^'oes lornaria luais vantajosas as propor- 
cocs. 

Assiin mcsmo nao sao inferinres as tU'i 
Prussia, e Hollarida ; porque n'aquella es- 
tao OS alumnos para a popula^'ao na razao 
de 1 para 2:5-15, e custa cada uin ao eslado 
348 fr. e 47 c ; e n'esta estao na razao de 1 
para li'iOS, e cusia cada um 390 fr. e 28 c, 
como se ve dos mappas, que acompanliam 
a niemoria de Mr. Ciuisin sobre a instruc- 
(jio publica na Hollanda. 

CAPITULO V. 

Conclutdo. 

A falta de muitos relatorios parciaes, nao 
permute fazer esle g';ral inaiscircum?lanciado, 
e regular; uem dedu^ir d'elle comhinagoes e 
resullados (iratlicos, em que consisle a maior 
ulilidade de laes obras. Com a praclica e 
natural ()ue se vd emendando aquelle defeito, 
sendo e--sa a sorte de todas as in5titui56es 
naseenles, comecarem imperfeitas; e quando 
o conselho tiver elementos estatisticos, em 
que se possa firmar com seguran^a, podera 
eutao expor com maior regularidade o estado 
da inslruci;ao publica, e propor as providen- 
cias, que elle reilamar. 

Por agora parece ao conselho que a re- 
forma eniprehendida no decreto de 20 de 
sepleinbro de 18t4conlem lodos os elementos 
necessarios, para a prosperidade da instruc- 
jao publica, e que aiguus embaragos, que 
a sua execujao enrontra na praclica, sao 
fdlios da natureza do objecto, e taes que o 
tem()o e a mesma in6lruc9fio os hao de ir 
appl.inando. J(dga por lanto o conselho que 
aipielle decreto nao preci^a de altera9ao 
alguma essencial: e parecendo-lhe que 4 
lustruc^ao publica se promove mullior com 
providencias lentas e parciaes, que o tempo 
e a experiencia vao auxdiaiulo, do que com 
projecto* ijiganlescos e alterai'oes radicaesj 



98 



que tendo, dp oi.liu/irio, m.-ii* di- .iriparatn, 
do que de solidcz, procura liriiilar-se a pio- 
por medidns, que cjlejam ao aliaiice do 
)(overno, e iiao vfio di-sal'iar na tribiina par- 
lameiilar, discuisos c>lrepitns(is, que, miiilns 
vezes, servein inais de abalar a ii]slriic(;'io 
publica, do que de a proniover. liL-diizem-sc 
pois aqiiellas prnvidencias as se^^uiriles : 

1." Recoiiimcndarao aoitfoveinadores civi, 
para proniovL-rein o ejlabflociineuto de ca- 
deiras pelo oxpedieiite aponlado no5 artiffos 
9.° e 45.° do decreto de 20 de seplembro de 
1341. 

2° Estabelecer ties sfr:ios na inslriicgfio 
priraaria seiido o primciro destinado para 
terras de poijca coiisiderae^ao ; cxigindo-se 
dos |)rofeisores mcnos conliecimoiito>, e dan- 
do-se-llics nienores ordoiiados, para facilUar 
a concurrencia d'aqiielles, e os recursos para 
o pagamenio destes. 

3 ° Conversfio da-: e^cliolas de en.ino imi- 
tuo nas do 2.° grao, conservando u'elbis aqiiel- 
le, em quaiilo a experieiieia nao de=inenlir o 
bo2n resultado, que entre hos o aboria. 

4." Creacao de ajudanles para as esclinla^i 
do 2.''f,'rdo, oiais deseiivolvidas e frequenladas; 
nao so para auxilio dos jjrol'essores, se nfio 
tambem coino meio de os tonnar, economisaii- 
do a deapesa da niulliplica(,'ao de cscliolas 
iiorrnaes. 

&.° Classifica^'io dos esludos de jnstrdcf'io 
secundaria: e necessidaile de provas, por 
exanie, para passar das inferiore*, para as 
superiores. 

(>.' Kxames de liabilila(;-io jjara a instriic- 
<;ao superior, reduzidos a urn eo em lodas as 
disciplinas, que I'orem preparatorio para o 
ramo d'aquella, que se perleuder se^;;uir. 

7.° borniaeao de uiii curso de scicncias 
eeonomico — poMUeo — admmistrativas, como 
liabiliiayao iiidespensavel |)ara ser provido 
nos loyares de fazeiida e aduiiiiislrariio. 

8.° Nomearfio dos coiiimis^arios dos eslu- 
dos. 

9.° Ainda o consellio lembraria a reuniao 
periodica dos professores de instruc^ao pri- 
maria e secundaria, perante os commissarios 
dos respecLivos dislriclos, para fazerem o 
rclatorio do estado das suas cadeiras, nictlio- 
dos de ensino, escollia de compendios,e apon- 
tarem e discutircm as provideneias com que 
julgam poder mclliorar-se: mas no estado de 
falta de couliecinieulos em que a maior parte 
delles se aclia, julga que essa provideucia se 
deve diiYerir para nielliores circumstancias, 
ficaudo por agoia ao arbilrio dos commis- 
saries, consullar somente aquclJos, de queni 
possara e>perar algum bom consellio. 

Eslas provideiicias sfio lodas de natureza 
reo-iilamcntar, e por isso se lodas, ou alsumas 
■ d'ellas, nierecereni a cousidera^ao de V. M , 
o consclho as desenvolvera nos compelenles 
regulamentos, para as submelter a approvajfio 
de V.M. — Coimbra, era sessfio ordinaria do 
consellio de 2 de dezcmbro de 18 15. =Conde 



de Tcrcna, vi(c-prt^H>4enlP — Bnulio Jlhcrto 
dc Stmsa Pitilo — Mtmocl yjntimio CorJho 
d(i Roc/ia — Joao Thomoz de Souao Lobo — 
JcroHijino Jose dc JMclto — ^Jtiloniu Cardoso 
Dorgcs de Figucircdo — Luii Ignacio Fei- 



POESIA SLAV.i MODERN A. 

CoDliouado lie pag. 68. 

Tanlo entre os Gregos anti;,'os como eulre 
OS llebreus, os sons da lyra e da liarpa 
eram o acoompanliamenlo obriijado da poesia 
popular. Entre os Slavos, o goudar nao pode 
recitar os seus versos sern se accompanhar 
de urn instrumenlo. As rapsodias lieroicas 
sfio lodas caiiladas n'uni recitativo musico, 
de notas faceis, e que teiii -nlguma analogia 
com o cantocliao dos p>abiios. K eerto que 
a inusica do goiislo lem muilo de eleinenlar 
e de liinilada, reduziudo-se o sen material a 
Ires ou qualro inslrumenlos. 'J'em a gousle, 
a taiiibura, a duda e as differenles especies 
de suira, ilaula ou pifano. A svira rnais 
comuniMi (• um simples cannudn co(nprido, 
com selLe buracos, que se loca com ainbasas 
macs, e cujo som agudo e mavioso, produz 
uma especie de nieluncolia. Nao se enconira 
pastor que n.lo Iraga esla svira pendente do 
ciuto, pois que se Ihe lorna quasi tfio neces- 
saria como o cajado para guiar os sens reba- 
nlins, que n'lo caminliam bem sem serein 
accouipanliados dos sous da Ilaula. A duda 
e uma especie de gaila de t'olle niuito seme- 
lliante I'l dos serranos de Auvergne e do 
Poilou. A duda e que preside as niais das 
vezes ai ferlas aldeas, dii o primeiro signal 
para a dansa, e de ordinarlo condui os ran- 
clios dos cauiponezes a nioha, islo e, aos 
Iraballios ruslicos i'eilos em commum. Em 
quaulo a tanibura, instrumenlo mais aper- 
lei^oudo, e poslo que inferior ao viol.'io, 
mais nielodioso que as nossas guitarras, esse 
so e locado por nj.aos de mullier. 

Ejn qualquer parte que se oii(;a, ou entre 
arvoredos ou nas cidades, encontra-se urn 
encanto singular nesia musica primitiva, que 
parece transportar-nos pelas suas melodias a 
uni mundo anterior, todo de paz e d'inno- 
ccncia. Enlre os Slavos oricnlaes, ordinaria- 
menle c um homem so que canla em quanlo 
OS outros o esculam ; entre os Slavos oc- 
cidenlaes, a picsna e cantada por dous. Uni 
que imita a voz de mullier, comcja n'uni 
torn muilo agudo e elevado ; em quanlo o 
outro o segue fazendo-llie o baixo, e demora 
o final dc cada verso a espera que o primeiro 
comeca o verso seguinle. Dous Illyrios dos 
Alpes sao capazes de se dcixarem liear assim 
immoveis, assentados ambos por mais de 
doze lioras, bebendo e canlando a. borda do 
Adrialico. Depois, ao calilr da noite, vecm- 



99 



sp saUar ambos dentro de um carro e voltar 
a lodo o galope para a sua a Idea, pondo-se 
iiuiilns vezes em pe, para melhor cxcilar os 
KCiis covallos. 

Jii oin 1829 um Serviode Smyrna, Manuel 
Kolarovitj, havia publicado um centcuar de 
caiitiiijas nationaes das picsnas sei vias as mais 
populares iios paizos Slavos c em volla do 
Daiiuhio. Oulros arlistas completarain depois 
esia colloceao, ao passo que us I5olieii)ios, os 
Polacos e os Rns^os rcuniani da jua bantia 
todos osjiagnicntos das suas anligas melodias 
locaes. E aos Tclieks a quern priiicipabneiite 
cal)e o merilo de haverein revelado a Europa 
o geuio inusieo slavo. Os retto? dos anLigos 
ranlos pagaos , as cantigas para dari'a dos 
Karpallios, os canlicos da epoclia liiissita, 
lodos esses lliesouros d'liartnotiia desenter 
rados das ruinasdeum mundo desapparecido, 
represenlaui-nos, como por encanlo, uuia 
parlo (la inagi'a da edade media. E fora de 
duvida que as melodias Iclieques ja leiii 
jjerdido do seu perfume original ; as dos 
Russos do Sul e as proprias hrakovinh, 
a pezar da sua rara simplicidade, ressenlem-se 
lodavia de um cerlo arlificio, inuilo mais 
sensivel nellas do que nos cantos espontaiieos 
dos Servios; mas todas as melodias slavas 
disli(ij;uem-se mais ou menos por um colorido 
anligo, que lijes da uma nolavel semellian(;a 
com OS prifTieiros fragmeiilos conliecidos da 
niusica dos Ilellenos. Ate mcsmo desde tem- 
pos iniinemoriaes, canlain-se enlre os Servios 
um cerlo nuuiero de melodias idetilicas, nota 
jjor nnia, as melodias dos Grfgos do Piudo 
p da Altiea. Os Ilussos receberam tambem 
evidenlemenle dos Hyzanlinos muitas das 
suas (-auligas, a pezar de que uma grande 
parle deilas na sua oxpressao moslram uma 
origiiialidade coniplela, por que na Slavia 
*sta originalidade e lao inlioreuLe a inusica 
|)opular couio a propria poesia. A maior 
parle das suas arias sao cautadas n'um torn 
menor. significativo da melancolia e do sol- 
IVimeiilo; somenle as caiitigas para dansa e 
as inarclias guerreiras sao em tom maior, 
expressao da alegria e dos transportcs bel- 
licosos Logo desde o seu princi|)io cada 
uma das arias vos arreme^sa, por assirii 
dizcr, com perfeila clareza, o seu pensa- 
Biculo ()ue parcce vjr directamenle das pro- 
fundidades da nalureza ; cada um d'estes pen- 
samenlos, tao simples na appareiicia. dcjeri- 
rolam dianle da vossa imagiuagao um poema 
todo inleiro e como um rio de harmotiias. O 
|)restigio deslas arias nacionaes eslendc-se 
Miiiito para ale'ra dos paizes em que sao can- 
ladas, e poderia tahez affirniar-se sein teme- 
ridadc, que siio os Slavos, pelo inlerrnedio 
dos conipositores Iclieks, quern aviva jnces- 
saiitemenle a musica allemfi. As collecjoes 
dos conLos populares slavos tern pela maior 
parte, ao iado do lexto. as notas por meio 
das quaes esles textos se LransmiUem de paes 
a Gllioi : e sao em numero tao subido e»tas 



coUeci^oes, que baslariam ellas sos por si 
para I'ormar uma pcqueua bibliotlieca. 

A combinaefio do caulo cot;i a poesia, 
entre os proplietas Lebrcus e os poetas gregos 
aniigos, soube guardar um repouso liarmo- 
nico e uma jusla niedida, jii tio meio dos 
Irausporles mais sublimes da alma para Dens, 
ja no meio das mais ardenles paixoes. Ksle 
elemento deequilibrio pcrdeu-se no Occiden- 
le, quando os poetas arremessando com a 
lyra para longe, se puzeram a compor, sol)re 
t'rias al)alrac(;oL-s, versos matlicmalicamenle 
cadenciados. A poesia slava ninda n'lo cliegou 
a esta ultima pliase. Nas regioes em que j;i 
abandonou o gouslo, tern pelo menos conser- 
vado ou recobrado a sua prosodia nativa, o 
seu cslilo do proseguir por longas e por breves, 
o que conslilue uma verdadeira musica. A 
verdadeira poesia nao sera uma intuiijao das 
liarmonias secrelas que prendem todos os seres 
uns aosoutros? A poesia nfio sera acaso a 
linguagem liumana elevada ao estado de 
musica interior? 
Continua. 



CRISE DA PIIILOSOPFIIA ALLEMA. 

Aquillo que menos conhecemos e o que 
temos mais perto de no-, disse um grande 
pliilosoplio do seculo passado. Poderiatnos 
acresccntar, e o que esta em nos mcsmos. 

A luz, que illumina, e faz visiveis todos 
OS objectos, que nos cercam a mais ou menos 
dislancia ; a visfio que de continuo cxercemos ; 
a audi(;'ao; os muitos e variados plienoinenos 
electricos, mormente os dos proces^os por in- 
duc^ao, econtacto; os plienomenos admiraveis 
do Daguerreotypo; as maravilliasdo Stereos- 
copo apresentadas por ^V lieatstone encerram 
ainda myslerios tao sublimes, tao acima da 
nossa limitada comprehensfio, que apenas 
permiltem por ora oexlasiar-se o pliilosoplio 
diante delles, e inclinar a cabe(,'a com 
reverenoia. 

Acima de todos os plienomenos do niundo 
exterior se elevam os da inlelleetualidade no 
liomem. A sua natureza, importaricia, e su- 
blirnidade parcce que deveram ler prendido 
a atten(;ao do espirilo liumano em todas as 
idades para se conliecer a si proprio ; o loda- 
via por uma fatalidade quasi inexpiicavel a 
iutelligencia tem-se dirigido mais ao conheci- 
menlo do que existe fora do liomem. O 
nosce te ipsum foi preceilo, a que geral- 
menle se tem faltado. 

iMas lia alii um molivo poderoso, que 
desculpa a transgressiio, Sfio t.'io elevados, 
de lao superior calhegoiia os plienomenos in- 
lellectuaes, que exigcm uma intelligencia de 
esphera mui superior a nossa para se ILe 
revelarem. A elevagfio da empreza exige tao 
profundo e aturado estudo, tao fadigosa con- 
tenaao de espirilo, que cliega a descoroyoar 
o espirilo mais vigoroso, esclarecido, e perse- 



100 



»eranle, a pczar clos capilar?, qiip no volver 
ilos seciilos vao li'p;aiid() as passiidas as geta- 
<;i">es fiiliiras, e das cnnqiiislas proprias da 
perfet-liliilidade Ininiana. 

Ha uma difl'iiMildade irresislivel, que em- 
barjja o pas^o enlraniio-se iia analyse do iii- 
lendimenlo Inuiiaiio. Decotnpoe sc o r.icio- 
citiio ; res'ilvp-sc nos sons elfinorUos r> j lizo; 
percebe-se a idea; clio;;a-5e ;i seri>il>ilidadi! 
percepliva, coiiin ultiiiio do^ pheiiomonos intel- 
loctiiaes. Mas iirnorando-se a parli; que toca 
ao organisiiio lualeiial; a cada iiina das 
reparli^nes, em que se divide anatoiiiica, e 
pliisiologicaniciili'; as iiniluas rclai^oes eiUre a 
materia extensiva e o principio sensieiUe im- 
material ; as li^M(;oL>s e liariimnias cntre senli- 
do3 externos e iiiternos ; o que e do dominio 
do instinclo, e o (|iin loca a razHo, nfio e 
facil descobrir o ponto de pnrtida seguro 
para proceder na coDslitnigfio do uiiia scieiicia 
iiilellectiia! ; e o fio de Ariadne que sirva de 
giiia no labyrinto, que se ol'ferooe a nossa 
oonteinplagfio. 

Difl'icuIJades de lal ordeni expiicam facil- 
mente, jusliticain ale, os variados svslemas 
pliilosopliicos, asopiiiirics contrariai ecoiUra- 
dictcrias, a marclia do espirito vagaroso, 
contrastada, e iiiti^riniUeiile; a deficiencia, e 
atrazo de iitna sciencia de luque inui suI)ido, 
a Psycliologia. 

Plat'io dotado de uin espirito transci-n- 
dente que Ihe deia o noine de divino, marcoii 
wma epoclia tiio notavcl na pliilosophia, que 
alravez do largos seculos tern cliegado aos 
nossos dias, e prestado os iilicerces a syste- 
rnas pliilosopliicos elevados ;i eelebridaJe. Ad- 
inittindo a eleruidade da materia, expjicou 
a formaijao do iiiiiverso por uma intelligcncia 
infinita; mas levou a ideologia espiritualista 
a ponto que parece esqtiecer-se da rcalidade 
da materia. As ideas eram cm sua opiniao o 
que ha no mundo real, necossario, e absnhilo: 
eram typo, e causa de tudo o que existe no 
universe. A csta elevada alstracjao juntava 
a escl)ola academica formas tao mysteriosa*, 
pljrase lao obscura, e ncbulosa, que nao so 
taz difficil a intelligencia da doutrina, senao 
que frequentes vezes a figura contradictora. 

Noseculo XVII Spinoza segiiiooespiritua- 
Itsmo, admiltindo uma so substancia no uni- 
verse, com dois atlributos, ponsamento, e 
exlensfto. Segundoeslepliilosoplio tudo oque 
vemos no exterior, quanto sentirnos no interior 
sfio meros fenomcnos dessa unica substancia. 
Nao ba contingcncia, nao lia Iiberdade, 
tudo e necessario, tudo se move ao aceno 
dessa unica substancia. Por esta doutrina 
mereceu o nome de tanto do panteismo. 

Ja por fins do seculo XVI Descartes se 
havia levanlado contra o methodo systemalioo 
daj esclinlas. No seu inmortdl dlscurso sobre^ 
o methodo ensinou a duvidar das opinioes 
recebidas como dogmas: e da duvida nasceu 
o principio fundamental do sea syjtema — 
eu penio, lojo existo — eis o facto funda- 



mental que rcsisle a l<ida a duvida. Tomando 
este facto por ponto de partida a piiilosopliin 
n.'io pndia deixar de tender ao espirilualis- 
luo, c Doscaites foi em verdado espirilualibta. 
Mas o es[)iritua!isiiio n.To absorveu o mundo 
material. Se o pensameiilo era, segundo ellc, 
() attril)uto do espirito, a exlensao era o da 
materia. Gombalendo o sensualis.aio de Aris- 
tnteles nao quiz Descartes negar o dominio 
aos senlidos. Sentiu que nem lodos os conheci- 
menlos nos provem dos senlidos externos; 
mas li.'io admilliu ideas innatas, como typos 
preexiitentes em nosso espirito: quiz unica- 
menle assentar o principio inconlestavel de 
haver pensamenios que nao prncediam de 
ol j "ctos exiuruos, nem determina^ao de 
vonlade. O syslema de Descartes purificado 
de algunias dliisoes, e defeitos comnnms a 
lodos OS systenias poderia ainda lioje ser a. 
basf: da vcrdadeira phdosopliia racional. 

Partindo do mesnio principio fundamental, 
mas Inquirindo a fonle e origem do pensa- 
mento chegou Locke a um resiiltado mui 
diverse collocando a origem dos nossos co- 
nliecimenlos na sensajiio; reproduzindo assirn 
a antiga maxima estliolastica — iiiliil est in 
intelUctu quod prips non fucril in sensu. 
Eu penso, dizia o illustre philosoplio, mas o 
espirito n:lo tern oulro ol)ji;cto de pensa- 
mentos, e de raciocinios que as ideas ; e estas 
outra fonte, que nfio soja os sentidos. Mas 
Locke nao rouba o imperio a retlex.lo para 
entregar exclusivamente aos senlidos o sceptro 
da intelligencia. Ao principio da experiencia 
sabe associar odaraz.'io, posto que o pheno- 
meno inicial do pensamento esteja nasen-aj.'io. 

Couddlac quiz biniplilicar o syslema de 
Locke jjilgando a retlex.'io uma complicajao 
desnecessaria. Redusiu as func^oes inlel- 
lectuaes a pura simsa^iio; e esta primiliva, 
ou traiisformada. E foi-Ihe facil a dtmnslra- 
5,'io do sen systema imaginando uma eslatua 
organi^ada, anirnada de um espirito, mas 
destiluida de idea. Vai-lhe abrindo os senti- 
dos por mein de impressoes feilas seguida- 
mente em cada um delles : e como nos effeitos 
das impressoes o ideologista fallava pela 
eslatua era de esperar que em seguida a. 
sensacao encontrasse o juizo, o raciocinio, o 
entendimenlo, o desejo, a vontade, e quanto 
mais constitue o complcxo dephenomenos iii- 
lellccluaes. 

A um sensualismo tfio puro, e descarnado 
era infallivel seguir-se a reacgao. Os anta- 
gonismos nao dominam menos o mundo 
moral que o mundo piiisico. 

As ideas espiritualistas de Platao e dc 
Spinoza ressnscitam em um povo de pensado- 
res profundos, que faciimeiite se elevam at 
regioes da abstracg.^o R'ant encaslellado no 
mesmo principio de Descartes, masdando ao 
— cu uma direcgao bem dilferente da do 
philosoplio francez, tonia assensagocs em abs- 
Iracto como puras represenlagoes indepen- 
dentes dos objectos, modificagoes da facul- 



101 



dade representativa, do — eu — differenles da 
iiiUiigao empirica com refiMcncia ao innndo 
«jiterior. As'im clipga ocliefe do racionaliinio 
a assentnr a razfio como a priineiia fonle 
dos nossos conliectmeMlos, o iiiiindo exterior 
como lima appareiicia em rela^fio a iios. 

CoUocando iia razao o poiilo dc partida 
das fiinccjiVi iiilellectiiaes adinillo ideas a 
priori, as do lempo, e do esparo: e qualro 
calliegorias, on fmic^ocs logicas da razao, a 
quanlidado, a quiilidade, a reia^fio, e tnoda- 
lidade, a que devom ser conformes as repre- 
8enta56es dos ohjoctos externos para luiver 
reaiidade. Donde se dediiz logicanieiile que 
a reaiidade exisle so no siilj'Clivo, a que o 
obj-'ctivo fica subordinado. E na verdade 
abslrahindo de liido o que iia alem de 116' 
cm tudo o que senlimos Iia reaiidade; mas 
Karil coiicentrado lodo 110 sen espirilo as- 
sira como o eslava no sen gabincte, nfio vin 
a quesUio seiiao por um iado; e a for';a do? 
factos o obiigoii algiiina vez a conlradizer- 
»e, concedendo aos seiitidos em segiiiida in- 
slancia, o que Hies negara na priineira. 

Um syslema siistenlado por geiiio lao 
Iransceiideiite comoo de Kanl nao podia dei- 
xar de ter grande inflnencia na pliiiosopliia. 
Com as doiilrinas de Kant come^a eexlruvio 
philosopliico da Alleinanliu, dividida em do- 
gmatismo, escepticisiuo. A pliiiosopliia do — 
cu — , a crilica da razj^o pura teve sectaries, 
e antagonistas il lustres. 

Ficlito levou ao extremo a donlriiia de 
Kant. Nao lia nada real senao o — cu — na 
opiniao do pliilosopho: ludo o mais eiUusao. 
Ainda o ndo eu e o mesmo cu opposto a si 
proprio. O — eu — e aljsoluto, iulniilo, il- 
lirailado ; nelle se eneerra toda a reaiidade. 
O — eu — • tica o rei solitario no iiniverso. A 
condijao social do homeiii desappai fce diante 
desla doiilrina, qiiccondemna a reaiidade de 
quanlo existe; e so pode levar-nosao egoismo. 
e ao allieismo. 

Para combater esta extravagancia levantoii 
Scliclling a sua voz rerpeitada: c luio era 
necessaria tanla aiictoridade. Os nossos iii- 
stinctos sfio inais iudejtrucliveis que as siibti- 
lezas de um pensador abslracto ; e Ficlite of- 
fendia violento os instinctos e a razfio, dando 
ao idealismo iima grandeza heroica ; despre- 
zando os sentidos, e reduzindo a uma illiisao 
a majestade da iiatiireza. Schelling vein jusli- 
ficar as iiossas criMiens; e por nma ironia 
refutoii Fi<:hte adoplando o sen principio, e 
elcvando-o a nin valor obioluto. 

Ha um — eu — obsoliito, diz Sclielling, que 
doniina o universo, quo apparece em todas 
as siias. obras O — eu — subjectivo de Fichle 
nao podia existir senao como dependencia 
do absoluto. Manifestando-su este em lodos 
plienomenos desde o cristal ale' a organisa^ao 
das plantas, e a do animal, nao ha oppo-.i5rio 
entre materia eespirito, entre natnieza e — eu 
— subjectivo; porqiie siio dois modos de ser 
do — eu — infinilo, que anima todo o uni- 



Terso. Nas snas inanifestajoes esse ahsoluio 
vue-se elevando de reino em reino; vae-se 
espiritiialisando inais e mais ate se desenvol- 
vcr no liomem, e cliegar a consciencia de 
si propiio. O — tu — de Fiilite e um retlexo, 
o majs perfeilo do — eu — absoluto —diujna; 
particnla aura:. 

Foi geral o entluisia?mo, a embrlagupz com 
que »e abra5(,u uiiia pliiiosopliia, que satisfa- 
zia ao bom sen^o com que se ere no mundo 
exleiior, iisympatbia qucMiosliga analnreza. 

Hegel teuton dar ainda major desrn- 
volviiuento a llieoria de seu mestre, voltou 
de novo a analyse da razao, e entroii nelln 
com tal vigor de raciocinio, que a iiilelligen- 
ciii tica exla-iada em prescindindo de ludo 
o que vem do mundo exterior, de ludo o que 
nfio lor abstracto, e universal. A logica de J 
Hegel e o seu verdadeiro titulo de gloria. 

£levou-se Hegel a al)5tra5rio snprema, a 
idi'a inais geral, ao conceito irresislivel, a 
idea do acr. O .ser ufio se pode negar; mas 
ao str opp6e-se o nao ser \ e=le poJe signifi- 
car o nada. e algna coiia intermedia entre 
o nada e o ser. lluscou um meio lermo que 
conciliasse os dois extrcmos, acliou o ser po- 
tciicial que nfio e ser, nem e nada. Mas o 
espirito nao socega, nfio para nas conside- 
rajoes do nada, do ser poltncial, do ser sem 
que cliegue li idea do ser absoluto, em que 
ri'ponsa. Parlindo da certeza mais iiiabalavel 
Hegel com dialectica invejavel vae filiando 
lodus as opera^oes inlellectiiaes por forma 
que se pode asseverar luiver feiloa phisiologia 
da razao, de que lizera Kant a anatoiiiia. A 
logica de Hegel e a pliiiosopliia do infiiiito, O 
intinilo, segundo elle, nunca se pode inanifeslar 
no linito ; e assim o absoluto nao se inani- 
fosta no liomeni, mas na liuinanidade. Fal- 
lundo dos attributos do ser absoluto Hegel 
affe ta um tal mVsticisnio, que nfio e facil 
prcocrutar o seu verdadeiro niodo de pensar, 
parecc ate por vezes caliir em coiitradicgao. 

Os dj>ci[)nlos do Hegel foram mais francos. 
Nos annaes de Halle desenvolverain os ex- 
Iremos da pliilosopbia do nieslre. jNegaram 
sem rebnijo Dcos, o Ceo, e a immorlalidade ; 
e estes principios snbversivos pns?arani infe- 
lizmente dos baiicos da esclmla para a praga. 

Scntiram algnns pliilosofos meuos preoc- 
cnpados que a lodos os systemas, de que lia- 
vemos fallado, fidtava o verdadeiro caracter 
de sciencia. Kranse quiz remediar essa falla. 

Tonion por idea fundamental a do ser, o 
ser compretiende lodos 03 seres com lodos os 
sens altribntos ; e assiiu representa a unidade; 
e esta e a priineira catliegoria do ser. As 
calliegorias iminedialas a esta iiio a subslancia- 
Lidade, e a toUilidade. A primeira refere-se 
ao scr siibsislente por si, e |)ara si; a segnnda 
ao mulliplo na unidade. Adinilte em todas 
as coisas um fundo, que cliama Cssencia : a 
.-eaIisa(;ao desta dii a existeiicia; de sorle que 
ba um germen que se vae desenvolvcndo, i- 
inanifeslandodediversas formas, sem que baja 



102 



'mudanja na essencia dai cousas, As essencias 
individuaes eniaiiain da essencia fiindatiiciilal 
do e^piriLo universal: e eslaosscncia oflcrccc- 
se em dnas maiiilesta^oc:-, espirilo e natu- 
rcaa. lim ainbas as expiessocs lia commiinida- 
de de essencia coino o ser ahsoluto, apezar 
da ditTerenijM da materia e do espirito. 

Para conibiitcr todos os syslemas do idea- 
lismo transcendoiUal l)aslava exigir as provas 
do que se as-evcra ; pnr que lodos se rcduzcm 
a mera> iiypotlieses onloioi^icas. S'lo sy.-tcmas 
subjectivos, a que nfio corresponde realidade 
ohjecUva. Serfio cvidencias para sens auclores, 
que vivem de sua ima;^itia(;fio ; mas evidencias 
que n"io convencein ; porque evidencia in- 
dividual p6:le ser urn crro de boa le. O pan- 
iheismo idealista seni, quando muito, a poesia 
da intelligericia. 

A razao e inquestionavclrnenle uin principio , 
do3 nossos coidicciuientos. Mas lia oulro, que 
e a experiencia. Setn que ainl)as se assnciein 
nao ha sciencia possivel. A esla vordade clie- 
goii ultimauieute Sciielling cmpenliaJn ern 
combater os Hegrlianos, e fazcr a npo|n:;ia 
do clirislianismo. A plidosopliia, que clle lioje 
ensina em Berlim, contradiz a que de pii- 
ineiro ensiruira em Municli; e de balde se: 
esforga o illustre pliilosoplio por 110= persua- 
dir que nao ha coulradiogfio, repulando esla 
doutrina de lioje a segiitida parte do seu syste- 
jna; dizeiido que na primeira se elevi'ira pela 
razao ao absoluio, e pela experiencia agora 
dcscera a realidade dos faclos. Uina doutrina 
repelle a outra. O Dens pessoal, a que o 
philosopiio chega i)elo principin da expeiien- 
cia, nao e o absoluio cahotico, que se vae trans- 
formando nns tres reinos da nnlureza. Aduiit- 
tido o sesundo principio, abjurnu o primeiro 
O que Scheiling dcmonslra nesta segumla 
parte, antes phi^e, da sua philnsophia e que 
<ima pliiloiopiiia puramenle logica nao poJe 
sercliristii. Se houver um Pierre Ic Rnux que 
Ihe neguc o clirislianismo, desaba todo o edifi- 
cio que estd levnntando. 

A criseda philosophia Iranscendenlal cnme- 
<;ou com a plirenologia de Gall, e a cranion-o- 
))ia de Carus. A psvchologia organica abriu 
brecha no pantlKtiiiuo idealista, que reprcsen- 
tam todds esses syslemas pliilosnphicos vdzados 
no niesmo molde ; porque, couijjarados clloi, 
ve-se que n'lo sao mais que evoUK;oes do 
primeiro systema do pae do racionalisrno. 
Kant descnliou aestalua queosoulros abriram 
a seu bebprazer, dando-lhe os ronlornos, 
rasgando-llie as feicoes, que mais convinliam 
ao seu fiui. 

A retlexao cliegou, O absoluio ou e uui 
pure ente de razao; ou a diviiulade creadnra, 
tora dns douiiuios da philosophia natural ; ou 
esse principio auimador universal, que Hart- 
ley cliamou ether. 

Abaladas as crengas, vai em decadencia 
ff3«a philosophia transcendental. A transi(;ao 
I'sla sendo preparada por um dos seus mais 
robnstob campeoes. M. 



A IMITACAO DE JESUS CII/ilSTO' . 

Foutenellc insigne cscrilnr do ultimo seculo. 
fallando da Imitnj.'io de Cliri>lo, diz: « Ksta 
obracauiais bella que tern sahidodamao do; 
homens, porque o Evangclho tern oulr.i 
origem. « 

I'oderii por veulura haver rnaior elogio do 
que este, no qu.il a data e o noine do auclor 
dd tao verdadeiro, tao juslo valor ? Couio 
f.izer melhor sobresahir o subido mcrilo d"um 
livro, que ao inesmo tempo 1; a (!ousola(;ri<i 
dos aujmos mais puros, e faz as delicias dos 
cspiritos mais cultivados, c que teve a feliz 
e singular sortc de ser adoplado seiri cojitro- 
versia pelos catholicos, pt'los protestantcs ! 
'I'raduzido em todos os tempos, em lodas as 
tiiiguas, em verso e em pro>a, as diversa^ edi- 
goesd'esle precioso livro sfio s-cmpre csgotadas 
lapidamenle, e i'orraaui sospor si iima biblio- 
thcca iinmensa. 

Ila duas d'cntre todas ellas, mais dignns 
de sercm assigiudadas. A primeira velu do 
tcindo da Allemaaha, e deve-se aos exlremados 
doivelos do sabio director do gymnasio catho- 
lioo de Dresda, Joao llrabiela que den um 
texto latino ^(ie Imilalioiie C/irisii, lexto 
revisto com graiide cuidado sobre os mais 
antigos manuscri|)loi (cod<.i dc ndnocatisj 
e sobre as edi^oes de Desiiillon, de VVeigl e 
de Geuce. O volume impresso em caracteres 
claros e faceis de ler, termina pejo ordinario 
»da missa e por alguns de nossns hymnos 
sagradns mais bcllos. 

Na Franca um novo e mode, to editor acaba 
de dar a luz uma cspecie de fac-simile 
delicioso d'es-es edificalivos e bons livros 
d'outr'ora, onde o texto revisto com escru- 
pulosa alleugfin c pnr assim dizer com verda- 
deiro zelo, onde os caracteres finamente dese- 
nhados, n papel bem escolhido, lorinam um 
complexo lao raro de qualidades, que poucas 
vezes OS bihiiophilos as encontrar.'io reiinidas. 

I'allamos da reimpressfio d'uma Iraducgao 
feila ha mais d'- dons scculos, e a qual o 
nome do auclor o ehanceller i\1iguel de Ma- 
rillac augmenta o valor. A Iraductj-ao foi 
com|)osla antes da desgraja d'esle magistra- 
do, e revisla por elle em s^'U duro captiveiro. 
As palavras de Lauiennais, juiz compelenle 
cm semelhaute mateija, sao o seu melhor 
elogio : a A mais anliga das traducfoes que 
merocern ser citadas, tern por auctor o chan- 
celler (le Marillae e foi publicada em 1631. 
Approxima-se mais do que neuiiuma outra 

' Uina nova e(Ii(;lo, revisU e ciii'lailosamenle correcU 
por IT. S. lie Sacy, ila Iniita^iw tie Jraus C/ir/5/0, Grl- 
menti! trailuzida do l:ilimpur Mi;,'UpI li'* Marillar, cliancel- 
Ut (le Franra, foi no correnle anno |iu!iltcaJa cru Paril ; 
a cerra d'elta pnrcccunos di^'no de fspecial mriK-ilo o 
resumido niait assaz jinpurtanle .irti^'o de Os. de W.dlevil- 
le tjiie, eu» assiiniplo de Imnaidiu inleresse relis'iuso e li[- 
lerario, .•ipre.-eata coin pi-rfi-Uo cutiliecimenlo Iiido o que 
eilHva vm mais iniineili-ilt rolarao com este objeclo, 

'■ ])e jmilalione Cliri»li. Iil>ri quaUiur atl oplima 
cxcmptaria, collala cum rctu8tii..>iiinu codice qtlem nan- 
cnpant de adyocaljg, accurule edilt, enra\it Jo'muiua 
Urttbiclu. I. \ol. in — 12. l^eij'Zi:;. 



103 



rlo texlo nri(,'inal, e tern nns labios d esle 
ancifio lanla j,'rai;a oomo caiuhua, sendo que 
oj traductor»s subsequeiitci iiada mais Icm 
leito do que a ciisto iiiiital-a. » Sacy reviu 
e^la cdi^ao e ajuiilou-llio um prefacio. 'I'er- 
»e-hia j ilgado que liidu c»lava dilo a ceica 
da Iinila^'ao, tiias kudo o prefacio recoidiece- 
se o conlrario. Ja que os estreitos liuiilos 
d'uui arligo iifio /los peimiUeiii apre»eiital o 
por cxleuso; s-iivira de prova o I'ragiiieiito 
em que Sacy examina qual foi o auctor da 
linita^rio. Nunca probleuia lilterario exci- 
lou conlrovcraia niais vehemeiUe. Sera por 
Ventura a S. Bernardo, a fr. Tliouiaz A 
Kenipis, ao clianceller de Franga Jofio Ger- 
son, ou a Ger.en abl.ade de Verceil, que 
deve attritiuir-se e;ta olna prima? Centena- 
res de criticos, os inais illustres, leeui pro 
econlra eicrilo iiiilliarcsde voliiincs. Ducangc, 
Mabilloii, Naude, Quatremaire, Hosweide, 
CajeUii, o cavalbeiro de Gregory, Geuce, 
O. Leroy, Faugercs, e muitos oulrcs leeiii 
defeiidido calorosameule seui campcoes, e 
a peiar de tao sabiab diiCiis.-oe», e ineiino ale 
da resolu^ao do parlamento de Paris com a 
uala de 13 de fevereiro de 1652, declarando 
que o livro da Imitagfio nao seria inais im- 
prcsio com o noine de Joao Gerjou, mas 
com o de Tlioinaz A Kempis, a questao 
Ticou ainda indccisa, e a Sacy coube apre- 
jenlal'a sob forma inteiramenle nova, como 
vanios ver. 

- Quaiilo li queslfio de saber qiiem e o ver- 
dadeiro auctor da 1 mitajao de J Esus Cituisro, 
nao entrarei n'cila por iiao ter feilo o pro- 
fuiido eohido que seria mister; persuado-nie 
lodavia que jamais sera rcsolvida sem cou- 
Irariedade. 

.' Uraa das bellezas moraes do livro e no 
meu entender a duvida que lia sobre o nome 
de scu auctor; c uma graga especial coin que 
a Deus aprouve glorificar a liumildade do 
piedosoauctorqualquerqueseja. Naconsidera- 
<;iio pnramente lilteraria, e admiravel que a 
Imilajfio de Jesus Cuiiisxo naoteiiha auctor 
' certo. Nao lia auctor para uni livro como 
K eale, senao a liumanidade clirista lodainteira. 
Assim rorao os poenias de Homero eram o 
livro de toda a Grecia, ou antes ogenio grego 
em si mesmo, assim tambem a Imilagfio de 
Jesus Christo e o rcsumo de todos os senli- 
inentos cbrisl|aos, a propria alma clirista. 
Livros de la| xi^ilnreza U.i poucos , ab^orvem 
o auctor e fazem-no esquecer ; o auctor 
perde-se, a bcni dizer, no meio de lanla 
;;loria, e a sua obra adoplada pcia liumani- 
dade, nao e ja d'um so, mas de lodos. E de 
adveitir lambem que ou pcrlenca a compooi- 
(j-ao da Imilagfio de Jesus Chkisto aoseculo 
XV, como qucrem os que segnem a opiniao 
de 'J'liomaz A. Kempis e de Gcrson, ou ao 
seculo XIII, Como qucrem os seguidores de 
Gersen, os contoniporancos parcce nao tercni 
conliecido senao a obra, sem preocciiparcm- 
bC a terca do auctor. A coiilroveriia duraru 



por lanto eternamcnte; ningucm se data por 
vencido. Gersen leru senipre defensores, c 
n'este seculo ainda leve urn muito sabio, 
Gregory. lia alguns annos, parecia que Ger- 
son ficava vencedor em virtude dos esforgos 
de Onesyme Leroy, e mais recenlemenle a 
causa de' 'I'ljomaz A Kempis foi sustentada 
com summa liabilidade por Malou conego 
lionorario da calliedral de Bruges. Como 
esta obra e a ultima, diz Sacy, que eu li 
sobre a Imilagao, inclino-me em favor de 
Tbomaz A Kempis, mas nao se me accuse 
de abandonar o interease da Franga, que 
revindica a Imitagao de Jesus Christo para 
Gerson, pois que, ainda outra vez o digo, 
creio que a lionra de ser esquecido e uma 
graga concedida por Deus ao sanclo au- 
ctor. ' 51 



NOTICIA SOBRE A BACIA CARBONIFEBA DO C\BO 
llONDEGO. 

Descripgdo do jazigo. 

A bacia carbonifera do Cabo Mondego 
existe no terrcno jurassico em um grupo de 
roclias arenaceas e caleareas , que e pouco 
descnvolvido para S S.K., lerminando proxi- 
mo do casal da Serra, e apresentando-se por 
eale lado com condigoes favoraveis para a 
lavra na exlensfio de £',d^a 3',0 da cosla. 
As camadas cnntinenles e o carvao teem 
inaior de»envolviuiento para O.N.O., corre- 
spondendo a maior espessura d'esle a linha 
da costa na praia. Continuam alem d'esta 
linlia no solo (jue forma o fundo do mar, nao 
so por.pie a camada de carvao leni alii niaior 
pos^auga e pureza, mas porque se acliou ef- 
I'eclivaaienle no avaiiro dos traballios antigos, 
que peuetram 200'" por baixo do Oceano. 

N.'io se conhece o lunile d'esta bacia, no 
scnlido da prufundidade ; lem-se reconliecido 
que tontiiiiia iW abaixo da galeria geral 
d'esgolo, e e provavel que se estcnda ale 
250'" de profuEididade sobre o piano da ca- 
mada a coular d'esla galeria. 

A camada ein lavra apresenla dois acci- 
dentes nuii iiii|)orlaulPS no senlido da sua 
direcgao: — 1.° o adelgagamenlo ate -i eoiii- 
plela desapparicao do carvao; esle accidenle 
produz nolaveis lacunas no deposito; — 2.* 
a exijteiicia de setlas de calcareo carbonoso 
scliisloide, (pie dividcm a espessura da cama- 
da em Ires gros^as laminas. 

As camadas d'esle grupc, e o carvao que 
conlem, seguem a direcgao geral O.N.O. a 
E S.F>. inclinando 40° para S.S.O. O leclo 
c muro sao de calcareo algilo-carhonoao con- 
sistente c eslavcl, condicao impoitante para 
a economia da lavra. 

' Eslas palavras fazem Ieml)r.ir uraa passagfm siil.li- 
me da Imilor-So ; ■■ Scnhor concedei-me a prai;a de miir- 
rer par.i lod'as as rousas miindiin-u, e de por amor d» 
vus Jfsi-j.ir ser rot-Qusprezado e d.^sc.jcbccidu dj munds. .. 



104 



O corvao e negro, brilhanlc , em laminas 
grossas parallelas a stralil'ica(;'io , gordo, e da 
coke muito pnioso; o sulpliiirelo de forto, 
4ue abunda ni'llc, toriia-o iiiappticavel a mui- 
loi usos. Os scliii'.o, cail)onosos pyrilileros, 
expoilos ao ar, entrain espoiitaiieaMienle ein 
comlMistfio lenta, que dura por muilo tempo 
Bte se coiisiimir loda a porjao caibonosa que 
conlein. 

O prison appareceu uina iinica vez no anno 
de ISo'i, em urn dos tallioes da mina Farro- 
bo; a sua pre^en^a foi anniinciada por uina 
violenla delona^ao, que apagou as Iuze5,e 
feriu Ires hotnens; con^eguiu-sc por o niassi(;o 
incominunicavel, e desde essa epoclia nao toi- 
nou niaii a manifestar-se esle lerrivel acci- 
denle. 

Continua- 



UMA TRAGEDIA ARABE ' . 

Vivia ein Bagdad utn mancebo, Abder- 
Rahinati-ben-I;niail, que por sua exlreina 
bellesa, e suprriores dotes iiilellectuaes nie- 
recera oappi'Uido de Brilhanlc. Enamorou-se 
d'elle tio perdidamente Oumui-el-Beiiirie, 
muUier do kalifa ]^1 OullJ l)en abd-ol-Melik, 
que veiu a adoecer. 'I'odos os dias queria 
vel-o no seu quarto, e se acaso vinliarn ler 
com Vila, quando e^lava com o scu amanle, 
escondia-o n'um dos seus cofres. 

Certo dia fizeram ao kalila presenle d'um 
rico collar d'ouro e brillianlos; tao liiido o 
acliou elle, que disse " guardae-o para minha 
inullioriie cliamando uin escravo o mandou 



por ello a si 



liana. 



Quando o escravo chegou a porta do quarto 
d'ella, para cumprir as ordens de seu amo, 
I'icou surpreliendido, vendo-a aberta, e depnjs 
de scisniar no que isto significaria, e.ilrou 
pe ante pe, ouviu gargalliadas de rizn, e, 
dirigiudo-se para o logar d'onde vinliaui a- 
quelias rizadas, toparam seus ollios com os 
rio mancebo, cujo rosto se cobriu com a pa. 
jidez da moite. Mai Oumm-el-Beuine deu 
por isto, logo escondeu no cofre do costume 
o seu amante ; mas era tarde: o eicravo tinlia 
percebido tudn, e, apresenlando o collar a 
sultana, disse-llie » Senliora, pi-^o-vos urna 
d'eslas joias. ii Indiguada com lamanlia ousa- 
dia, Oumm-el-Benine, t'el-o sair immediata- 
mente do seu quarto, dizendo-llie u afasta-te 
da minlia presenga, crcatura immunda. n 

O e,-cravo, ardendo em laiva, delern)inou 
vin;ar-se ; foi procurar o sullao, e disse-llie u 
Seidior, vi Imjc! urn liomem em familiaridade 
com vossa csposa ; eucoiilrei-os auibos s6> em 
tal aposento; elle ficou sobiesalteado com a 
tniuln preseuga, mas a sultana escondeti-o 
precipitadauieute em tal cofre. u 

' E\tiaiilii I'a — Reiiie de i'l}rie»l, alifil il- ri5*, 
« inili'zidi de iirabc jiara o Snincri pnr M Ch'-rliun- 
Ml art. 



Ouvindo cstas palavra^, o kalifa, em vez de 
enfurecer-se contra sua mullier, vollou a sua 
coiera conira o escravo; e ii'un) accesso de 
desesperacao cxclatnou litu nientes crioinrjelu 
e dirigindo-se aos guardas do palacio, gritou- 
llies « cortai-liie a cabeoa ,i e alguns iuslan- 
tes depois a cabe(;a do pobre escravo rolava 

por terra ! 

Terminada a fatal execuj.^o, o kalifa le- 
vantou-se, cal(,'ou as cliinelas, e dirigiu-se aos 
aposeiilos de sua esposa, que se eslava ton- 
cando; e seutando-se defronte d'ella., no cofre, 
que llie deslguara o escravo, perguntou-jlie u 
porque tens lanla predilecj.'io por esle quarlo ?» 
por que tenlio acpii os mens vestldos, e as 
minlias joias « respondeu Oumm-el-Beuine. >i 
Queres tu, conlinuou o sult.ao, dar-me um 
dos cofres, que ornani este quarto ?ii Rsco- 
lliei, senlior, o que niais vos agradar, ;i 
excepjao d'aquelle, em que estai-s sentadon 
« pois e este exactamente o que eu tpiero, di^se 
o kalifa, [Hirtpie me e necessario. u linluo 
e vosio, disse el-Benine depois de uns mo- 
mento de iudisivel perturbajfio. C) kalifa 
fez nin signal aos negros, que fora da poria 
aguardavam as suas ordens. a Levai eate 
cofre, llies diz elle, para a sala do men 
consellio, e esperai-me la. n lim qnanio os 
escravos cumpriam e>ta dflerminarao do seu 
senlior, lodas as feicoes da aullana se desfi- 
guravain de um modo espantoso. u Que lens 
tu Uie perguntou El-Oulid, por que (-stiis 
lao desfigurada ? Acaso sera caro ao leu cora- 
^■fio acpielle cofre f Nao, senlior, perdoai-me; 
nao tcnho nada, que me prenJa a esse coire; 
se a rainlia pliysionomia ^e altera, e porcpie 
me smlo indi^po^ta a Deos te curara » di^se 
o k'difa, saiiido do quaito da sultana. 

Quando El-Oulid enlrou na sala da au- 
diencla ja o cofre e^tava pousado no pavimen- 
lo. II Levanlai a aicatifa, disse elle aos negros, 
e abri uina cova da altura de um lioiiiem, " 
depois, mandando clicgar o cofre a borda da 
cova, e poiido-llie um pe em cima, prouun- 
cion as seguiiites palavras. n Dera.ii-nie uma 
uolicia; se ella e verdadeira, seja a lua inor- 
talba o teu veslido, e esle cofre o ten caixao 
morluario; e Deos e que le immola; se a no- 
licia e falsa, nao se perdem si^nfio iiinas 
poucas de laboas ; ii e fazendo com o pii um 
pequeno moviuienlo, o cofre lomboii no fundo 
da cova ...... " Que Deos me perdoe n dis- 
se elle entao, lan5andi>-llieein'iima um punlia- 
do de terra. Os negros arrasaram logo a 
cova, e tornaraiu a estender por ciaia a 
aicatifa. 

Concluido este acto, o Kalifa senloii-se na 
cadeira, em que costumava dar atidiencia, e 
a liora do alinoco enlrou no sen quarto, 
aonde os dois esposos (.onfundiram suas almas 
n'uuia coinnium alegria, comose cousa alguma 
^enialra nfio liouvera occorrido entre ellej ; e 
a mail) dilosa paz nniu estas duus cxi>lencia> 
ate a bora du uiorte. 



105 
SECC^AO DE MATHEMATICA. 

INTEGRAES DEFINIDOS. 

Continiiado ile pag. 64. 

2. A loniuila (4) on (o) do n.° 1 e a de Francoeur Calc. int. n.° 843, edig. de 
Cijinilira dc 1839. A formula (C) e a de L.Tcioix Calc. int. 3,° vol. pag. 118, edit, de Paris 
(l<; I 98. A torjiiiila (8) conipreliende a de Poissoii Mecli. 1.° vol. n.° 15, edit, de Paris de 
1833. De (9) sahea foniiula de Fontaine Mem, da Acad, das So. de Lisboa. A formula (14) c a 
de'SimpsOii , em ciija deducCj'fio sognimos a nota ao calcido de Francoeur, que vem no f2.' 
vol. nag. 273, cdic;. de Coimbra, e q\ie foi feila pelos Traductores. 

3. Se na formula (6) do n.° 1 tirarmos (p(^„) para fora do signal 2) e despresarmos 
depois OS lermos, em quo enlra y-, ^', etc, e na I'orniuja (8) do mesmo n.° rejeitarmos 
OS lermos da mesma ordeni cm S°, ^% etc., lanto a formula (G) como (8) ficarao reduzidas 
:i seguinte expressfio: 

(1) / ? Gr) ./.r = nTla^i) + TTa r? (••^" ) -? K) I- 

Se aoaso e pequcna a differen<;a numerica eiitrc if(:c„) e ip(a?„), e se alein disto if(x„) 

1 .119 ('^n ) 9 ( ^n ) . 1 

e o(a;„) tern o mesmo signal, a quantidade : -—^ sera tambem muito pequena, e 

' I' Ail' 

por isso quando for n extremamente grande, o que siippoe J extremamente peqiieno, pode- 

mos desprezar o segundo termo do scgunclo membro de (1), e escrever siniplesmente : 



(2) / ^(x)dx = S2f{Xi). 



Poderii iimdar-se em integral uin somnialono , quando as fimcgijes extremas foran 
pouco differcntcs, quanta ao seu valor numerico, e tivcrem alem disso o mesmo signal. 

4. Pela equa<jao (2) do n.° 3 conhecemos que nos e permittido parlir urn integral 
definido em tal iiumero de partes, que nos cnnvier : por exempio, seja Xr=^ a ; ■2"i=:6 ; x^^^c, 

i=n — I 

aonde r, k, s, sao nuineros inteiros, cada urn mcnor do que n: a somma $ 'S,<f{'''0 ptjci"^ 
decompor-se nas seguintes: 

i^ar—l iaaA^l leaf— 1 133^.— 1 

Slf{xi) +^2¥(,.-r;) +*2<p(.r,) +&2<f{x!); 



cuja somma e o mesmo que 

,-a /.6 ^c nx„ 

j a (x) dx -^ j if (x) dx ■]- I If (a:) dx -\- I if (.t) dx. 
" X, "^ a "^ b ^ c 

Entendemos no que fica dito : que r<,k; i<s; s < (« — 1), Em conseqiiencia disto, 
se (p (x) mudar de signal , em certos valores dea;, podemos decompor (2) do n.° 3 em par- 
tes, cada uma das quaes de a somma de termos positives debaixo do signal/: seja por 



106 

«\emplo o (i) posiliva desdci-=.r, aloa- = j-,:= (7 ; c,p(a) ne^ativa dcsdca;=: oate a-=: j-„: 
podeinos escrevcr 

j ^(^x)dx=j (f{x}dx — / If (a-) da; ; aonde / ,f(x)dx, p j ^ [r) dv sio i|iiantidadri 
• .T, ' X, •■ a '' X, 'a 

positivai. 

5. Scja (J, (,r) posiliva desde x = x^ aid x=^x,, e inclusivainenle neile? limiles; e .M (> 
maior, assim conio m o raenor valor, que ip(j;) lem desde x=ix„ ate x = ,r„ , cnmprelien. 
dendo tambeni csles limiles : digo que 



(1).... 
Porque : 



'M(x,~ xj> I ^ (x) dx 

, (X) dx 



f [M— , (.r)] dx=: Mx—f^ (a?) dx , 
f [9 (x) — ?n] dx =y 9 (x) dx — mx. 
Passando aos limiles , acharemos : 

(2) / fW — 9 [X)] dx = M (x,— xj — f<f'(x) dx , 



C3) 






Porem considerando esles integraes, como ioinma de elementos difl'erenciaes. os pri- 
ineiros membros de (2) e (3) sac esseucialmenle positives: logo as designaldades (1) 3S0 
verdadeiras. 

Se (j)(a;) fosse negativa, em logar de posiliva, lomariamos por M o menor valor ihega- 
livo do f {x) , e por m o maior, e concluiriamos : 



9 {x) dx , 
(4) ] 

(.r„— xj > / ^{x)dx 



Seja 9(T)daf6rma/(a-) <p| (x), posiliva nos limiles da integra^ao , e dentio d'clles, e 
3eja alem disso / (.r) rfx inlegravel, de modo que //(a ) (fj: = F (j:): supponliamos tam- 
bem , como acima, que Me m sac o maior e menor valor que <p, {x) pode ter : digo que 



(5) 



■M[F(x.)-Fix,)]>f/(x),,(x)dx, 
[F (x.)-F (X.)] < f}\x) 9, (X) d^. 



Porque f[Mf{^x) — f{x)^^{x-)]dx — MF{x)-ff{x),X'>')^^ 

/{f{x) ,, ix) — mf {«)] dx—ff{x) ,. («) rfflT — Tn F(,«). 



107 

DomJo, pnssando aos limites, se conclue a exactidfio das desigiialdades (51. 
(). Seja a funcj.'io pioposla if(x, a), c adraiuanios em primeiro logar que a;„ e .r n-io 
TJiri,-Mn com as varia^Oes de a: digo que tercmos ; 

(1) • ^ = LA::±(^±^..j^. 

da / da. 

^. 

Por quatito / <f [x , a) dx = ^{jr„, a) — i(x^, a), segue-se que, se tivermos de achar 

« dcrivada oni ordmn a a, do primeiro membro da equa(,-So, devemos neile fazer somenle 
variar o que no segundo nieuibro varia toui a,: mas tcmos lambem pela equagao (2) do n." 3 

-Ka-n, «) — .} (.r„ , «) = * [,p (a:, , «) + <p (j-, , a) + ? G«. , a) + ] : logo 

d.[^ (j-„, a) — ^ (x^ , a.)] _ ^ ^f!-f(x„^a) , d.^(.v,, ,) d.,p(x,, a) 



SI ^7 'H -^ 1 -r^ \- J. 

Lua O, a, da j 



:*2 






c-.omci tinbamoi asseverado (1). 

Seja em segundo logar: Xn.^^ F [a] : a;„ = i^, (a): acbaremos 



d . j ^ (_x, a)dx 

J T 






E na vcrdade 



e lemoi 



,„, d.if{3i:„, ^)^(d .;!f(xn, a)\ (d.}f(a-„, a)\ idx„\ 

^'^ da ~\ d^ ; + l dx, )\-dz)^ 

, , , '^ • 'I' (^. ■. «) _ ( d.ii{x^, g) - A< j,^r„,g) \ /c?a;A 

^^ da \ da )^'\ dx^ )\da)' 

Pore-m a equa^'So (1) do u.' 1 dd ( ^ " ^j^^ '^^ )^ , (x„, g); e ( ^ ' ^j^° ^ '^ )=ry (.-., .): 

. demons.rado ser (^ • ^ ^'"n, a)\ /d. ^ (^„ , .)\ T'^d ■ , (.x . .) _ ^^^ , 

\ da ) \ da ) J da ^ ' 



mando a difierenca do3 primeiros membros das equajues (3) e (4) obleremos 
«Mj(2;., a) — K'^o ) «)1 _ / d.^ix.a) 



d 

equafiio (2). 



=/-%^- '^^ + ^(--) (^)-'^^. -) (S)"'- '= » 



7. Se na equacao (2) do n.° 3 se lornar i infmitamenle pequeno , ou se fizer- 
Taoi Sz=dx, sera lambem n — 1, ou n = co, o que suppoe que naquclla equa9ao e debaixo 
do signal 2 entra lambem <({x,). 



108 

Cliamuremos functjao par afjuella funcrfio , que coiucrva o mesmo valor , quando s« 
Vlao a variavel dous valores iguaes, mas dc signal contra] io; assiiii y, em y=zx', e uma 
tiincf'io par. Polo contrario y=:pa: dara para 1/ uma fiinc(;ao impar, pnr que para os 
valores dea;= + o,!/ lem o mesmo valor mimerioo, mas de signal contrario. 

Seja I uma quantidade easencialmente posiliva, e (lue possamos fazer dt'crescer tanto , 
quanto quizermos, do niodo que ella possa cliegar a ser monor do que qiialquer (intra 
quantidade dada , por mui pequena que csta seja. Posto isto, acliaremos : 

(1) / <f{x)dx-{- ^{x)dji:=dx\[,((—a) + ^((i)] + [^{—a^) + ^i<J.)] 

' -a J , 

+ [9(-.)+?(0] + [¥(-O + ¥(O] \ 

Seja'^ uma func^ao par, ou 9 ( — a:):=:<p(a;) : resultaia 

(2) / <f(.r:)dx-\-j <i{x)dx=zQ <((x)dx. 

Seja (J) uma funcgfio imj)ar,ou o ( — a:) ;=i — ? ('^) roaiillara 

(3) / If (^) dx-\- 1 (p {x)dx=^0. 

•J ~a ' , 

Ora eorao nos podemos fazer decrescer t ate abaixo de qualquer grandeza, por mais 
pequena, que esta grandeza seja, segue-se que as relajoes (2) e (3) serao aiiida realisaveis, 
quando nellas fizermos t = 0. Mas neste limitc do decrescimento de t temos, polo n.° 4. , 

Por consequencia : 

<({x) dx = Q i a(x)dx , quando ^ (j;) :=a ( — x) , 
■a J „ 

(.}) j 9 (x) J>j;=:0, quando (p (>r) = — o( — x). 

J -a 

8. Em hypotheses particulares c' convenienle c pennitlido extender os limites doj 
integral definido. Seja, por exemplo, dado 

(1) F = l ^{x)dj£. 

*' -a 

Supponhamos que e i,, k.,k^, , t; umaserie de valores positives, ecrescentes; el 

que sabemos, de qualquer modo, que tp (a-|- i,):=0; ip (a + A,)=:0; ; (p(a+ <•,) = : 

e tambem que ,p ( — a — i-J = 0; (p( — a — k^) = 0; ;?( — a — A-,) = 0. 

Seja tambem a differenga successiva entre dous valores de k tao pequena, quantol 
quizermos. Se F pode considerar-se , como somma de elementos differenciaes, equa5ao (2)1 
do n.° 2 J sera. 

/>a ^a -{- k ^a-\-k^-\-k^ 

f2) F— <((x)dx=l ,{x)dx=. ,f{x-)dx 

J. a --(a+A) ^' '{a+k,+k,) 

Continua, itiFi>'o aiEiiai OZORIO. 



® Jnjsititiit0) 



JORNAL SCIENTIFICO E LITTERARIO. 



CONSELHO SUPERIOR DE INSTRUCCAO 
PUBLICA. 

BELATOaiO AMNL'At. 

1816—1847. 



Quando no decrclo de SOdeseptembro de 
1841', confinnado por lei de 29 de novenibrn 
do mesiiio anno, Vossa Mageslade lioiive 
por bein ordeiiar a reforiiia da iiistnicjio 
publica, e criar o conselho superior para a 
superinleiider e duiifir, os vogaes ordinaries 
que enlao tiverum a lionra de ser por Vossa 
Magestade chamadosa coinpor este conseilio, 
possuidos do seu dever nao se poupavani a 
trabalbos, para levar a effeito o profundo 
pensamenlo desenvolvido n'aqiiclle deeroto. 
Coiifiados no seu zelo, aliiriPntavain a espe- 
ranij'a do poderern em breve, fazendo-o execu- 
tar, preparar entre nos^ inellioros dias para a 
instruc9:'io, e para as sciencias, e offerecer a 
Vossa Mageslade iim novo molivo de satisfa- 
<;:io ; e assim ousaram indieal-o nos rela- 
torios de 184i e 184j. 

Porem a desgrartida rrise porque iiltima- 
ruente passou a nafao, nao so inutilisou todas 
as tnedidas, e deslruiu lodos os inelliora- 
meiitos principiados ; mas vein por em tao 
complela desordem este ramo de adniinislra- 
<;ao, que nao teni sido possivel, ate agora, 
reslUuil-Q cuiiiplclQinonIp nn spii nnrlanicnto 
regular. A pezar da dispn^ic^'fio da lei, e de 
repetidas instancias, ainda nfio cliegarani os 
relalnrios d'alguns eslabelecimentos ; e a 
niaior parte dos que se teni recebido, em 
logar de e.\porem o quadro da instrtic^ao, 
li[nilanri-=e a nanajfio dos estragos, que ;of- 
freram, e a simples decjaiagao de que, nesle 
periodo de dous annos liveram de todo, ou 
quasi, interrompidos os seus traballios. 

Nesles lermoj, o relatorlo que o conseilio 
em observancia do sen regulamcuto, tern iioje 
d.e levar a Augusta preseu9a de Vossa Ma- 
gestade, nao pode ser scnao muito imper- 
feito. Como o ensiiio esleve sem exereicio, 
e impossivel por falls de elemenlos, salis- 
fazer o ponto mais inlercssanle em docu- 
mentos desta natureza; e inais imporlante 
para se fazer nolar peranle as camaras legis- 
lalivas; e por isso especialmenle tecommen- 

Voi. III. Afiosjp 1.°- 



dado na lei, que vein a sffr o juizo compara- 
livo do adiantanienlo on decadencia da ins- 
truc^fio e das lelras com o dos annos anle- 
riores a visla do numero e aprovcitamenlo 
dos alumnos, do zelo e desenvoivimenlo dos 
professores, e da observancia e execugao dos 
regularjientos. O conselho nfio pode fazer 
uiais do que expor o eslado do ensino nos 
principios do armo de 1846, e dar a nolicia 
dos acontecimenlos mais imporlantcs, que 
depois sobrevicram era aiguns eslabeleci- 
menlos. E para proceder com clareza nesta 
exposi^fio, entende o conselho dever prin- 
cipiar pela organisagao ou direcgfio geral de 
toda a inslrucjaoj seguindo depois pelo ensino 
primario, secundario, e superior. 



Direcgdo geral da Instrucgdo. 

A superintendencia e direcgHo da inslruc- 
gfio esld. encarregada a este conselho superior 
que consla de 8 vogaes ordinarios presididos 
pelo prclado da nniversidade, e dos vogaes 
exlraordinarios que sao os aspirantes as ca- 
deiras das faculdades, todos repartidos nas 
3 secgoes da instruc^fio. Pelo decurso desle 
periodo niio houve outra alleraf;ao no pes- 
soal dos vogaes ordinarios, senfio a ausencia, 
em commis>ao, do vogal o doulor Jose' de 
Sa Fcrreira dos Sanclos Valle, o qual havia 
sido substiluido pelo doutor Antonio Kibeiro 
de Liz Teixeira, ha pouco fallecido, cuja 
fali^ " '^'^n^pljio denloia. 

.\'o decurso do anno de 1346, OTTOnselUO, 
alem do expcdienle ordinario, occupou-se em 
preparar os regulamentos, que ainda fallavam 
para execular o decrelo de 20 de septembro ; 
aiguns dos quaes estao ja depeudenles da 
approvaj.io de Vossa Mageslade, como o das 
escholaschirurgicas do uitramar, o da criagfio 
das escholas do 2 ° grau : em outros traba- 
Ihava-se com assiduidade e zelo, como o 
regulamenlo para a academia polyleclinica, 
o regulamenlo dos lyeeus, o regulamenlo 
para os exarnes preparalorios da nniversi- 
dade. As desordens da guerra vieram enlao 
irilerromper esles traballios. O conselho en- 
lendeu que n.'io devia abandonar o seu poslo, 
mas cnllipcado no centro da lucla, liinilou- 
se a algumas providencias de expediente 
esperando as ordens do governo. Nem podia 
nbrar d'outra maneira porque, alem da in- 
— 1854. Nkm. 9- 



110 



terrupfSo das correspoiidencias, o pessoal da 
8iia secrelana nao pode cscapar a. voragein 
dos partidos, e em iiiii corpo di'libeiaiiU? 
a falla do secretario, que deve estar seiilior 
dc lodos (13 ncgocios, nuo pode deixar dc 
prejiidicar p;ravoii]onte o sen andamcnto. 

Anticipadamenle liiiliam pelas seccoes do 
consellio sido eiicarro^jados aos voj;aei ex- 
traordinai io?, Ual)allios de grande valor para 
a instrucofio, c proprios a exercital-Oj para 
o seu adiai\lamei>lo, que eram em jjrande parte 
OS coinpendioi para as dilTerentes discipliiias. 
Ac consellio parcce que lodos se applieavaui 
a esla tarefa coir) zelo, e alguns elTi'Ctiva- 
menleja linhain apreseiUado Iraballio d'algutii 
merecimento. I'oreiii com a desordem a 
iiiaior parle viram-se obrigados a ahandonar 
esta cidade, de maneira que iia confereucia 
geral que nitiinaiiieulc celebrou esle consellio 
em 25 de noveiiibro do corrcnle anno, grande 
parte nao apparcceram, e os que foram pre- 
sentes, soniente offereceran) esrusat: allen- 
diveis, e promessas de tontinuar os Iraballios 
interrompidos. 

Um doi olijectos que nos principios do 
anno de 1316 levou ao conselho os sens prin- 
cipaes cuidados, foi a noinea^ao dos com- 
missaries nas capitaes dos districtos adminis- 
trativos, em crntormidade do artigo 161 do 
decrelo de 20 de septembro; por meio dos 
quaes, alem do servi(;o de reilores dos lyceus 
que Ihe incumbe, o confelho espera obter 
execugao mais prompta, e inspecjao inais 
csclarecida no ramo da instruc^ao, do que 
dos governadores civis, que alem do pezo 
d'outros negocios, dtrigcm este scrvi^o por 
via dos admlnistradorcs dos contellios, or- 
dinariamenle pouco habeis para interpor 
juizo seguro sobre objcclos litterarios. 

ElTectivamente cslfio nomeados por Vossa 
Magestade, sobre proposta do consellio, os 
commi-sarios dos districtos d'Aveiro, Beja 
Braga, Bragan^a, CastelloBranco, Evora, 
Faro, Guarda, Lisbna, Portalegre, Porto, 
Sanlarem, Villa-Roal, Vizeu, Angra, Ilortn, 
e Fiinclial. 

<;oes do seu cargo, dirigiu-lhes as instriicgoes, 
qm; conslam do documento n.° 1. Como o 
seu exeroicio activo somente agora vai prin- 
cipiar, o consellio espera a continua^.-io dos 
seus Iraballios, e pro^as do zelo, para ajuizar 
do merecimento de cada iim. O cnnselho 
espera egualmente ter em breve oblido as in- 
f'orma(;oes necessarias sobre os sub-delegados 
que na forma do art." 161 §. 3.° do mesmo 
decrelo devem coadjuvar os commissaries. 

Jnstrucgdo prmaria. 

No anno de 13t5, o numero das cscliolas 
de ensino prima rio pagas pelo governo no 
coiitinenle, entraiido 41 de meninas, era de 
1116 e liavia noticia olTcial de 1081 parli- 
culares frequentadas urnas e oulras, por 



61:276 aliimnos, os quaes esiavam para a 
popnlagiio na razio approximadanionte de 1 
para 5.3; razao que nuo e inf-.Tior a d'alguns 
dos paizes da curopa que p:i?.sam por cultos. 
E ainda que o consellio nfio possa attestar, 
que na enumera^ao dos alumnos n.~io haja 
excesso, ou ao menos, que tnuitos d'elles, 
que fignram na cifra da malricula, nada 
aproveiteiii na instruc^fio, conludo insiste em 
que iieste grau da instruccfio se notava uin 
progresso sensivcl, assini na frequeiicia das 
etcliolas, como no zelo e assiduidade dos 
profe.-sores 

O consellio se occupava entfio principal- 
mente de dar nina organisar^fio regular ii 
superintendencia e vigilancia dos commis- 
sarios sobre esle ensino, obrigando-oj a ad- 
quirir conlieciuiento especial decada eschola, 
por meio de corre?pondencias reg'ulares, e 
visitas periodicas, exigindo-llies eontas fre. 
quentes do seu movimenlo niensal com a 
nota do merecimento assim litterario e moral 
como pedagogico dos professores: recom- 
meiulando-llies a escellia e indicarao dos 
melliores metliodos, e o estimulo dc socie- 
dades que promovessern nas aldeas o gosto, c 
zelo pela instrucg.'io. 

A guerra civil vein cortar estes melliora- 
meiitos: alguns professores, estpiecidos dos 
deveres do seu ministerio, compronietteram-se 
e soffreram a necessaria consequencia das 
vicissitudes dos parlidos Nao foram inuilos, 
mas todas as escliolas se rcsjenliram, mais ou 
menos, das desordens da juota, <io abandeno 
das autlioridades, e da irregularidade do pa- 
g;imento dos ordenados. 

A crea^-.'io das escliolas normaes, aonde os 
professores fossem apprender a praclica do 
ensino, e adquirir o senlimento, o o habile 
d'uma moral severa, para a transmitlir aos 
meninos, era um dos objectos que o governo 
de Vossa Magestade tinlia, n'esse tempo, 
mais a peilo, em execu^ao do art." 10 do 
decreto de 20 de septembro. Ja por decrelo 
de 21 de dezembro de 1815 se linha manda- 
di) crear uma escliola dcsla', junto a Casa 
Pin r.,r. Drlo,., i X. p.jjllcado o regiilnmento 
para ella, e ainda ultimamciite por decrelo 
de 17 de mar(,'o de 1816 foi para alii no- 
meado iim professor. 

A educa5.ao moral dos povos, que antiga- 
menle cstava encarregada a ordem eccle- 
siastica principnlmcnte aos parodies, esta 
lioje em tal estade de desorganisatjao, que 
deve caiizar mui serias appreliensoes sobre a 
sorte fuUira do paiz. O clero depois da 
rcvoluj.'io porque passou, n.lo p6de deseni- 
penliar aquelle encargo ; perdcu a inlluencia; 
e a niaior parte dos paroclio~, ale estae es- 
quecidos, de que era aquelle o sen principal 
dever. Longo espaco hade decorrer ate' se 
formar iim,novo clero, capaz de moralizar 
OS povos. E necessario por isso encarregar 
esta missao aos professores, os quaes nunca 
a podcrae desenipcnliar dignameiitc, se elles 



-*: v.y^. 



Ill 



mesinoj por meio d mnci eclticatj'fio rc^^ulai, 
nao estiverein posiuidos do senlimcnto da 
virliide, e do habito de a praclicar ; por quo a 
moral ensinasa mais com o cxemplo, do 
quo com a p:ilavra. As cscliolas normaes que 
tern esle fim, sfio per isso iiidispensaveis no 
estado actual : e o conseliio eiitendo que 
qnalquer sacrificio do tbesouro que se faga 
para as eslabelecer, dari'i em resuiiado, mui 
transcendcntes vanlagens que o indeinnizem 

No niesmo decreto de 20 do septembro 
maudavnni-se crear citliolas de en>)no pri- 
niario do 2.° grau, nao differen) das do l.° 
sen.'io em ensinar-se nellas o ensino priniario 
em loda a sua laliuide, e com inais perfei- 
5ao. A grauimalica porlugueza, o desenlio, 
a geograpliia, a escriplurar-fio, a aiitlimetica 
sao as disciplinas cspeciaes desto griiu. Estas 
escliolas pertencem as povoagoes dadas a, 
induslria, ao comiiiercio, cujos liahilantes 
querem seus fil'hos liabililados, para nia- 
nejarem com inlcliigencia as suas profissoes, 
&em OS passar ao ensiiio socundario. Mas 
para o seu eslabclecirnenlo, ali'iu do local 
com grande capacidadc, e' indispensavel o 
concurso de muilos professorcs , cotno se 
pracllca em Frauja, e nas nayoes do norte. 
O consi'llio julga possivel converter neslcs 
estabeiecimentos as escliolas d'ensino-niul.io 
onde se acliam jd aiguns elementos, sobrc o 
que ja love a honra de fazer subir um pro- 
jeclo a Augusta presea^a do Vossa Mriges- 
lade. Mas coruo este piano exige augmenlo 
de despesa, o coiiselho nao se attieve pro- 
por Movos encargos sobrc o lliesouro; e julga 
prudenle esperar occasiao opporluna, ein 
<|Ue se pos:a obter das camaras municipaes 
respeclivas os principaes subsidies para esles 
C5labeloci;nentos ; que nao sfio de immediate 
inloresse sen'io do cada urn dos municipios. 

Km exccujaodo art" 5.° do decreto de I.") 
de novembro tie 1836 tinliani-se creado nas 
capilaes dos di^lrictos aduiinistrativos do con- 
tinente escliolas primarias pclo metliodo d'en- 
sino mutuo ou de Lancaater, que ainda entfio 
era gcralinento applaudido: eque sendo mais 
vantajoso para as escliolas mui numcrosas, e' 
sem inconvenienlPS no ensino das disciplinas, 
em que da parte dos ineninos senfio exige tanlo 
a rellexfio, como a proaiptidao eumaespecie 
de facilidade macliiiial, como na escripta, na 
leitura simples, na aritliaielica : ainda que na 
verdade nao pode prodiizir resultados senfio 
mui lenlos, em quanlo as disciplinas em que 
se exige pensamento e retlex.'io; como dou- 
ctrina, historia, graminatica. Como em poucas 
das nossas escbolas primarias se ensinam estas 
ultimas disciplinas, o metliodo d'eiisino mutuo 
|)arece ate agora ter produzido entre nos 
bons cITeitos. No anno de 18t4 — 15 escbolas 
por este metbodo cram frequentadas por 
^-.'23') aluiiinos. Porem depois quo se vul- 
garizou a viagem de Mr. Cousin a Hollanda 
para observar a instruegfto, e que apparecerao 
em publico as rcflexoes dos grandes profes- 



sorcs J'.iquilla nai^fio. pouco favoraveis ao 
metliodo d'ensino mutuo, elle ja n.'io aclia 
apologiUas. No decreto de 20 de septembro 
nada se diz em seu abono. li ou seja por 
essa, ou por causa das nossas dissen^oes, as 
escliolas por esle metbodo vao em decaden- 
cia, a de Braga es!;i fecliada , e mandada 
por isso converter em ensino simullaneo ; a 
de Evora esta quasi sem discipulos; .a de 
Bragan^a, c a de Coimbra lifio de decair 
pela saida, para outros empregos, dos bons 
prot'essores que ate agora as regiam. Em 
taes circumstancias estas escbolas v.'io-se en- 
caminliando para a conversao em escbolas do 
segundo griiu , que fica indicada, logo que, 
se proporcionem os subsidies indispensaveis. 

Ao conseliio continuadamento cbegam re- 
presentayoes dos povos a podirem a creagfio 
de novas cadeiras d'este ensino : o conselho 
conliece que o numero actual d'ellas e infe- 
rior as necessidades da popiilagfio, mas no 
estado do lliesouro nao se attreve a propor a 
Oste , novos encargos: limita-se a insinuar 
estes estabeiecimentos pelos rendimenlos das 
juntas de parochia, ou das camaras, em 
quanto por lei se Ihes nao impoem djfiniti- 
vamente este encargo. 

A instrucgao das meninas esta entre nos 
apenas em principio; em Lisboa exislem 18 
escbolas, no Porto G, e iima em cada uina 
das capitaes dos outros districtos do conti- 
nente, e mais uma em Lagos, e oiitra em 
Lamego tola! 41 : que em 181-4 foram fre- 
quentadas por 1:335 meninas. 

Se do conlinonte se nao tern podido obter 
lodos 03 esclareciinentos sobre o ensino, mui- 
to menos se tern conseguido das ilhas. Ape- 
nas se recebeu o relatorio do comtnlssario de 
Angra donde consta que o numero dos me- 
ninos que frequenlaram este ult'mo anno a 
inslruc^fio primaria fora de 1:2G5. Do map- 
pa n." 1 vera V. M. o numero das escbo- 
las de ensino primario eni cada um dos 
districtof, assim do contlnente, como das 
ilhas e o seu estado, assim como o numero 
de alurnnos, que as frequentaram, ainda no 
rrieio cins dosordene Ho nllirno anriO leclivo; 
a excep^ao d'aquellas de que nao cbegaram 
ainda os relatorios. 

No meio dos barullios da guerra, impossi- 
vel seria, csperar trabalhos litterarios, ou 
livros elemenlares para a instrucyfio. Entre 
aiguns que apparcceiam, o conselho somente 
julga dignos de ser meiicionados, os que elle 
auclorisou para iizo das escliolas, cuja rela- 
5ao V. M. podera ver do mappa n.°2. 

A despesa d'esta parte da instruc(,'ao feila 
pclo lliesouro era no anno de 1345 no con- 
tinenle de 106:023:324: e nas ilhas de 
5:951:906. 

InstritK-cdo secundaria. 

A inslruc^.'io secundaria, denominada em 
outro tempo, estudos das humanidades ou 



112 



aulas inaiores, tinha entfio por unico fun lia- 
bilitar aliimiios para a onlem ecclesiaslica, 
e para oi estudos da ^lniver^idaJe ; aos quaes 
servia como de degrau. Ilediizia-se por i>so 
entao, aos esliidos tliainados classicos, laliiii 
c grego, rlietorica e logicu ; a que nos iil- 
timos tempo?, se acoresccnlou a liisloria. 
Hoje porein aleiii d'aquolle, a inslruf<;ao 
secundaria, seguindo a teiideiicia do nosso 
seciilo, e a praclica das oulras najoes, pro- 
poe-se um oiilro fun ; que vein a ser, o desen- 
volvinienlo da indiislria, assiin agricola, co- 
como fabril ou commercial : e e para o obler 
que tanlo no decreto de 17 de novcnibro de 
1837, como no oulro de 20 de septembro de 
1811-, se incorporaram aos lycous os estudos 
das lingiias vivas, e os de geometria applica- 
da as arles, e economia industrial e agricola. 

Kste ramo da instrucgao consta d'um ly- 
ceu em eada uma das capilaes dos districtos 
administtativos, com o nuincro de cadeiras 
proporcionado a sua popula^fio e circumstan- 
cias, que aqui nso vao indicadas por conslar 
da lei. Assim o de l.isboa compoe-se de 3 
secjoes collocadas em tres differentes poulos 
da cidade, a saber: central, oriental e occi- 
dental, e a elle esla tambem annexa a sec- 
^ao commercial. Este o do Porto, e os de 
Coimbra, Braga, e l'>ora, que podemns clia- 
inar principaes, est'io jii ordenados em esla- 
belecimento regular com reitor e secretario, 
e apenas estfio ainda vagas algumas cadei- 
ras, parte, por se presumir, que niio terao 
ouvintes, e parte, por nao terem tido oppo- 
sitores. O consetho jd publicou os program- 
mas para differenles cadeiras, como V. M. 
podera ver do inappa n.° 3. Os restantes 
estao encarregados aos vogaes extraordina- 
rios. Os lycens das outras capilaes ainda nao 
estao iiistalados em forma regular: nem o 
poderao ser tao breve; porque, ale'm das dif- 
ficuldadrs do tliesouro para supprir o exees^o 
da despesa, em niuitas nem casas publioas 
ha accommodadas para aquolle fiiii ; e alem 
disso porque, devendo supprunir-se alguns dos 
districtos adminislrativos, ainda se nao sabe 
quaes serao. Accresce, que na forma da lei, 
csica lyucus consiain de tres professores a 
saber: um que ensina latim, outro logica e 
geometria em curso bieniial, e outro liistoria 
e oratoria, tambem alternadamente. Aiguns 
dos professores provides antigamenle estfio-sc 
ainda preparando para poder ensiuar aquella 
disciplina, que de novo llies eencarregada, e 
em quanlo o pessoal nao estiver ainda com- 
pleto, e habilitado, mal se podem dizer or- 
ganisadas. 

Nos quatro districtos insulares existe tam- 
bem um lyceu em cada uina das capitaes, 
Oconsellio nao recKbeudalii os rclatorios, se- 
nao o d'Angra, redigido pelo liabil e zeloso 
commissario Jeronymo Emiliano d'Andrade, 
professor da 5.* e 6." cadeii-a, que da do seu 
eslado uma idea vantajosa, pedindo a crea- 
\'fio d'uma cadeira de theologia moral. 



Do mappa n." 3 consta o numero de ca- 
deiras de cada uni dos lyceus, e a disciplina 
respcctiva com a indicagfio do seu estado, e o 
numero dos discipulos, que o frequenlaram 
no ultimo anno. 

Alem das cadeiras cncorporadas nos lyceus; 
existe.ui em todos os districtos um maior, ou 
menor numero das de latim, collocadas nas 
povod^oes centraes, e mais iinpnrlanles, que 
e necessario cons°rvar , e lalvez ainda crear 
mais algumas como permitle o decrelo do 
20 de septembro: ou 'seja por contemplagao 
ao antigo prejuizo dos nossos paes de fami- 
lias , que jilgam que nada se poJe saber, se 
se nao comejar pela lin^'ua latina , ou seja 
por attender a necessidade das familias me- 
nos necessitadas das aldeas que commununente 
destinam sens fillios para o minislerio eccle- 
siastico. Cadeiras fora das capilaes dos distri- 
ctos que nao sejam de latim so existem duas, 
em Lamego uma de logiea e outra de orato- 
ria. Do mappa n.° 2. consia oiuunero d'eslas 
cadeiras, o seu estado e alumnos que no 
ulliino anno as frequenlaram. 

O consellio nao pode deixar de observar 
que, nao obstante todas cstas providencias , 
csle ramo de instrucijao nao progride : o que 
facilmcnte se collige assim do |)cqiieno nu- 
mero comparativo d'alumnos que frequen- 
tam OS lyceus como do seu pouco aproveita- 
mento. O povo ainda n'lo conliece a. vanta- 
gem das disciplinas tendenles ao desonvolvi- 
mento industrial e economico : nao sabe ava- 
liar esta parte da instrucgao. Nos estudos 
classicos encontra-se uma falta inui sensivej, 
entre o grande numero d'alunuios, que todos 
OS annos vein examinar-se para seguir a car- 
reira da universidade , inuito poucos sabem 
com perfeijao a lingua lalina : com o desap- 
parecimento da eloquencia sagrada entre nos, 
acabou a applica<;rto a oratoria. IIojc encon- 
Ira-se nos alumnos dos lyceus, uma tinlura 
do francez , e de mais algumas disciplinas 
do que antigamenle, mas em geral, menos 
solidez de coulieciinentos, e menos perfeicfio. 

Ainda prcscindiudo dns occcurencias poli- 
ticas , a causa d'este dcsniento provem do 
elleito das rcformas e das circumslancias, da 
nossa epoclia de traiisijao. Kntre nos, e.m to- 
dos OS tem|)05, poucos paes mandavam sens 
tillios u instrucj'io secundaria com o simples 
fmi de saber; a maior parte soinente a consi- 
deravam como liahililayao para o seu adian- 
tamento fuluro. Em quanlo a ordem eccle- 
siaslica offereceu a um grande numero, uma 
carreira rica e brilliante, as classes das aulas 
maiorcs estavam chejas de alumnos , lioje 
aquella carreira esla de todo ol)slruida. Os 
bispos depois de 1835, por necessidade, na 
lalta de outros mais inslruidos, tem admilti- 
do as ordens alumnos que apenas sabem la- 
tim , e mal. Nao restam por isso lioje a fre- 
quentar as csclialas dos lyceus, senao os man- 
cebos que se destinam para a instrucgao supe- 
rior, numero pcqueno ainda quando se nao 



113 



(lescontassom .iqiielles que fazem os sens eslu- 
dos em casas particulares. Os professorej 
vendo-se sorn oijviiUes, e inal pagos desf^os- 
tara-ie, e este desgosto Iraz comsigo a falla 
do apeifeiroarncTilo, e dalii a decadencia, 

O nieio mais proficuo, i|ue o consellio jiilga 
proprio para aniriiar eslc; ratno da iiislrucjao, 
seri'aexigir pnrlci os diplomas dos ciirsns dos 
lyceiis, coino liahilita<;ao indispensavel, on 
ao menos como iiiolivo de prefereru'ia no 
provirnento de qiiacsqiier einpregos publico:., 
cm que se necessiie d'algiiina instrucjao, ;i 
excep^ao d'a<|Uclles em que ja se exige a 
superior; providL-ucia que se aclia ja em al- 
gumas das leis novissimas, mas que ate agora 
se nao tern execnlado. Este meio, alem de 
cliamar ahimnos aos Ivceus , leria a vanta- 
gem do fecliar a porta dos empregos ao grau- 
de numero de perteudenles indignos, que im- 
por^tunam o governo. 

E verdade que osla idea nfio pode ser exa- 
ctamente levada a effeito, em quanlo as disci- 
plinas dos lyceus nfio forem organisadas em 
cursos differeules, accojiimodadas aos conlie- 
cimentos, queespecialuieute se requerem para 
odesetDpenljode cada urn dos empregos; por 
que seria duropara osaiumnos, e laivez sem 
vantagem, para a iiislruc^'fio, exigir-llies o 
estudo de todas as disciplinas. O conselljo 
occupa-se actualmente d'um regulamento ge- 
Tal, d'este ramo de inslruo^ao, cm que se 
execute este peiisainento, assim como se pro- 
videnoeie sobre a [iiaiieira, porque lifio-de ser 
examiiiados, e passados os diplomas aos estu- 
danles, que tiverem frequenlado as escliolas 
que ainda nao e^t^lo conslituidas em lyceu : 
e tern esperancjas de que por e^ta forma me- 
Ihorara o ensino secimdario 

Os rejatorios das duas academias de bellas 
arles de Lisboa e Porto, on pretengani a esle 
grau da inslruc^fio, oii pertenc^am a superior, 
nenlinm esciarecimento dao sobre o estado 
d'estes estabelecimenloi, sen'io a noticia de 
que durante a gnerra civil, cstiverain occu- 
pados mditarmente, e por tanlo interrompi- 
das, nao so as li(,'6e5, mas tambem todo o 
outro service. 
Continua. 



mmmm de couiiiRA-PRociiAiniAs, 

FACILDADE DE MEUICLSA, 

1853—1854. 

4.° ANNO. 

Cuntinuadu de pa^'. 81. 

C4DEIHA DE PARTOS, DAS MOLliSTlAS DE PLBKPEKAS 
E DOS REC£M-> ASCIDOS. 

COMPENDIO — CHAri.LV , TRAITE PRATIQUE DE l'ART 
DES ACCOLCHEMENS. 

Lente — Dr. Joiio Mario Baptista CalUsto* 

O objeclo dii cad(?ira de parlos , das moleslias de 
puerperas, e dus recem-nascidos, creada pela lei ile 5 
de dezembro de 183(), e coiirirraada pela de iO de 



selembro Je 1844, e mais vaslo e comprehenda maior 
nuraero de coiisiderarues, e cle factua, du <|iie os que o 
sen enniincindo exprirae, (pie coiisidero jiicoraplecto, e 
por jsso iiie.\acto. 

O olijfclo da sobredila cadeira, considerado d'lim 
modo mais geral e philosophico, deve coinprelieiider todi 
a sciencia dos p^rtos, ou e urn rompk-xo de todos oi 
conheciiiieiitus reiativos a reprodiic*;au da especie consi- 
deraila no sexo feminino, e no jirodiiclo d^i conceirjlo. 

P>ste iiilercssanlu ramo da sciencia medica, que \)6de 
denominnr-se — Toculoi^ia ; divide se em parte theorica, 
e prarlici. — A primeira furuia-^e de lodas as no(;oes 
acienliricas, que pop sua nalureza perl'Micem a ramo» 
particuhires dn im^dicina, ilus qiiaus se leem Sfparado. & 
fim de se reunirem em nm corjiu de doutriiia, para escia- 
reciiiienlo ilus prliicipios cspeciaes. que se tliri;,'em mai» 
parlicularmeule ao liui praciico d\irle i\oB pantos : taes 
s.lu a Atialomia, a Physiolugia, a Hy^'iene, a l*.iUioloi:ia, 
etc. A sc'j,ninda so deve ser coiisiderada na sua applica- 
<;au aos casus oecorrenlcs na pracMca. 

Todus OS cunbecimeiitus pois, ile cujo complexo t for- 
mada e.sia sciencia sao cuus!dera(;3es, e faclos analomicos, 
e pliysioluij'icos solire a eslriiclura, e ac^ao dus orgaoa 
da mulher, que servem direclamenle a rcproduc(;ao, e ao 
parto — subr<; a forma^'ao e desenvolvimenlo do feto, ou 
a Embnjolofjia — sobre todas as mudan^as iius orfjaos da 
mullier diiiaiile a prenliez, no lempo do parlo, e depois 
d'ellc — e sobre as parljeularidrtdes d'estrucUira , lie 
funrrot's, e modo d'existencia dos recem-nascidos, Siio 
alem d'isso as considera^oes, e os farlus pli)'siolo2;ico3, 
e palUulu^irus, relalivos us condict^oes, lanlo exlernas 
como inlernas, que podem allerar a fuiic<;5o da reproduc- 
^'au na mullier, e auiea^ar a inIeL;ridade, e a vilalidade 
do felo — Siio todaa as niolestias, que tiram a sua origera 
da dispusi^ao especialissima, eiu que se acham enlito as 
muUieres, ou que leem rela^'io mais ou menos directa 
com esla disposi<;ao. — Sao finalmente todas as coDdic(;oe» 
favoraveis a sande dos recem-nascidos ; e todas ns causas 
morlti Picas, e moleslias diversas de que podeiu ser af- 
fecladas as crianras, duranle as primeiras rela^oes com 
sua mai, ua \ida extra-uleriaa. 

De ludos estcs couhecimentos, e dos do mechantsmo 
do parto em particular, se deduz'-m, pela maior parte, 
OS preceilos, e reyras liy^^ieiiicas, Iherapeuticas, e opera- 
lorias que constiluem propriameiile a arte obstetricia. 

Tal e quadro jjeral e resumido de todas as noyoea 
que furniam a sciencia dns partus ; e tal e pur conse^uinte 
o oliji'cto da cadeira, de qtie me acho ericarrcgado, e 
ciiju eijsinu publico a lei me tern commelliilo. 

Para salisfazer puis ao que se me exige, e apre§enlar 
o pru;,'ramma do ensino publico da refer ida cadeira, 
passu a indicar mais mituJainente cada uma das partes 
(I'aquelle quadro ger^l de todus as no^Oes, que conslitueiu 
a sciencia dus partus, as quaes fazem o object o das 
minhas prelec<;ues ; e a cxpur ao mesmo lempo a ordera, 
pela <pial trato das diversas paries de lao inleressante 
materia. O que farei pelo modo e maiieira se;,Miinte. 

Para proceder cum a ordem, e melhudo, que mc parece 
ser mais natural, divido ludo este cuisu em cinco partes. 

PRIMEIRA PAUTE. 

Principio n'esla primeira parte pela descripijuo — dos 
orgaos da mullier, que mais direclamenle concorrem para 
parto — da Imcia considerada em geral. e em panicu- 
lar, e as modificai^oes, que as partes mulles delerminam 
na sua estructura — dos or^iius ^enitaes femininos, tanlo 
inlernos, como exlernos — em Qm, dus or^^aos anoexoi 
do apparelho da gera^So. 

SEGUNDA PARTE. 

N'esta 8C?imda parte Iralo : da prenhez considerada 
debaixo dos dilferenles pontoa de visla pliysioiogico, 
hyijienico, e palholo^ico, desde o momento da concei^3o 
ale a epocha em que principia o parlo. 

Depois d'al;j:umas breves cunsiderat^fles sobre a concei- 
(;ao, trato — da prenhez simples considerada no cstndo 
normal — dns modificai;5es do ntero e do proiiuclo da 
concei<;^o, nos diversos mezes d'ella— do sen diai^nostico 
em geral, e em cada mez cm particular — do toque, da 



114 



patparrio al'd»n:innl, e Oa nnsctiilac^Tio, conio meloa <lf 
(!iu;;n(.slifo — i\<t ovo liuin.ino tin gt-rul e ilu ft-lu a- 
Itrmu em |)nTlu-iilur ; d-i sim attittiilc ifesla i>|)(M-hii ; da 
tuiA jiliuiul.'L'iu nil I'limrOo ; e da sua ca)i«cida'le jMn» 
viver \ida exlrn-iitLTiim. — Kin>t;::iiidji, tratu — dii pruiilifi 
coaipuula, dn preiiliez unuiniMl, cxltn-itkriiiH ; da pretihei 
Oilra. u das circiuublaiiciu^ aiiuniiaea que Ihc pudem dar 
(jri^eni. 

Pa.s!)u (lepoii a (r.itnr dos iiirouimudus, e mulcsti<i> (pie 
pudem solireMr ilnriinle u ciirsu ilu prenlicj — das h-so»-« 
das diviTsas fiinf(;ufs ; dos vicius da ruiifuraifi^au da 
liacJH^du iisu du peltjnielru — du pnttu prfiiiatnro 
iiflifloial — dus i icius da (•oiifuriiiarriu das pjirlcn niul- 
les — da d<'.slitca);ao du iilefu — ilu tiinu-fdrau e durei 
dus peitus — -da Iriisau das patcdes abduiiuiiues, e coin 
esjifcirtlidadc da pcllf. 

Pur esla uccasiao Iralo do alurlo, e ila heniorrliatria 
durante a preidiez — dos lufius tin roiueiliar os acriileuk-y 
(pie a puiteiii ci>D)plirar, e da sahida das pureai ii'e.^te 
acciitenlL' — liu parto prfinaliiro natural — ila ruptura 
tlo uleru — dos siiriiafa da iiiuitu do fclo — e da preiibej 
cumi)licada d'ascil'-s. 

Final nteiile, leniiiiio csta par to cum os prcccitos e 
re;;ras hy^'iuiiicaj, relaljvas a prr-idieK ; e cota a iiiOuL-iicia 
d'este estado sohrc as niuU*st:js. 



TEIICGIU \ 1' xiiTi:. 



E iresla lercoira parle (pie eu tralo — do parlo em 
?;eral — dus nasrimenlus anteuij>ados, e lurdius ; du p:irlu 
fspuntancQ alernio — das sujis cansas — do^ plinnunienus 
plivsioloiiicos do parto, con.iideradoi nas siias dillerentfs 
I'puchas; e de ali^nms dVsles em separailo — da sua dura- 
t;ao. 

Depoi3 d'isto Iralo das ajiresent.u'oes , .c posirufs 
\ariadas du felo — da apresenla<;i(u i\o verlico ci:i par- 
ticular, — das suas raiisas, e dia^iiiuslifo — du m<?cliani3- 
itio do parlo esponlaiieo — e dus suas aiiunial ias — tlo 
partu pelo vcrtiee ria preiilit'Z duS ^emco» — cuui Aeu 
dia;:nuslici», e pronoslicu. 

Os cuidados que se deve ler com a muiher, durante 
o parto — OS inslrumerilo*' e mais otij»'flus, de que o par- 
Ifiro deve mnriir-se — oscuidados, que se deve ler para 
cm a mae, e para com o Gllio lu;;o dfpuis do |>artu ; e 
a sahida natural das sei'iindiiia!!, lut-rccem a minha par- 
liciilar a|icn(;no. 

F^rocuro indicar, e d'-arrever com o maior empenlio : 

— us accidentcs, que p-idcm apparecer duranlo o parlo, 
na aprt'senta(;riu do \frlice^ os accid^'Ules propnos a 
relardar, ou a impedir o parto, e os meios dc os remediar 

— as moleslias ej-lranlms no partu, que necessilam os cui- 
dados, ou a inler>fn(;au do partt'iro — us accnicutf/^, que 
potlem compromcller a \ida da mfie, e du (iliio — e as 
difflculdades resullaidfs das anumalias, no n'.ecliaitismu 
du partu, sei^unilu os dilTerenles lempos d'elle. 

JuIlio nniito a proposdo o tratar em sejjiiida^dus 
diverges oljstuculos niechanicos ao parlo — das operaijoes 

..I.Bl*.lrioifto |*ri>i.ri.io yartx iifmslar UlUltos d'elles — do 

furcepji, e da sua applica(;rio Daa di\ersas circnmslaiicras 
da apresfr'nla^ao do\crlii"e, e najj variadas posi(;oes d'esta 
a|)reseiitaqao — das cirrunibtaiicias, que excluem o uso 
d'este iiislrtimento quandu a cabet;a seacha encravada no 
estreilo superior — e dos accidentes que podem resuJUr 
da sua applica^So. 

Cuidiiiuu amda com al3;nnia9 coiisidera^ues relalivaa ao 
U90 da ala\anca — c luuito priiiciiialuiente com a des- 
crip^ao da versau, e das suas especifs, e em particular 
cum a da versao pelviana — com a deacriji(;aoda ceplialoto- 
mia, corapreliendendo h perfora(;aodocranoo, e aapplica- 
^ao do ceplialolribo, ou forci-ps compressor da calie(;a — 
e Com a dus oj>era^'oes que se pralicnm na muHier, laes 
corao — a synipliyseotuiiiia, c a opeia^ao cezareana. 

Tcrmino era tJiii esta tcrceira parte, fazeu'lo aapplica- 
cT\o das mommas corHidera(;oes, e dus niesmos prnnipios 
que acabo de fazer n'esta apresenta(;5o do vertice, re^pe- 
ftivaraenle a ajiresentarao da face — a apresenlat;ao 
pehiana — c as di\ersas opresenlai;oes do tronco : nau 
cs<piecendo por cbla occrrsiilo de tratar — do parlo ar- , 
lifiiial das secundinas — das suas causas — e accidentes. 



(ji'AKT^ I'ARri:. 

Fm o (tlijecto d'esia parh', somente — a ei£[)oii^ao doi 
nccid'-ntes, e nioli-slias (ariailas, ron!<cciilii'a* ao parto, e 
ipte poilem a'Tectar a mullicr pui;rpera : assiui como a 
hi>luria das diversus molcstias, a ipie estam sujeitos u* 
rccom-naicidus. 

QL'INTA p. ILTrMX PAftTR. 

Coucluo Oualmeiile o mi^ii curso, n'esta ullima parte, 
tralandu da educacao pliysica das creaii(;as, desde o 
m«pmenlo do seu iia^cimeido ale ao rim da amamentai;a.». 

— Ktilao tratu tambem — da amauienlacjao malerna ■^ 
da amamoula^ao feila pur mullier eslr.inha, ou por ama 

— e da amaiiu'nl;u;ri.i arlilicial. — fcl por nllimo leiilio 
muilu em coii-iideratj-ao o Hulicar us preceilos, e re;:rraa 
liy;,'i<MucaSj judijipeiisaveis a saude dos recem-nascidus, 
ou a sua hij/jicne. 

Eis arpii mais cirrnmsl:inciadamfrdf' os numeroaos, e 
\jiriado* otiji-clos do riuidru jj:eral de tuda.- as n<it;ues, que 
Cuusliluriu .1 sci'-iicia dos pafl<)3, e <pie fazem u ubjecto 
das minlias lirues: e eis aipii tantbeni a urdem, pela qual 
ui cxjionlio , analyso, e eusjno, cm lodo este curso. 



Todas H8 considera^oes, e factus, que arabo de apre- 
senlar, e todos os prim-ipios, que d'elles se deduzem, for- 
mam a parte Iheurica da scieiicia dos partos, cnja utilidade 
real, e immediata scria apenns recoidieci(ia, como a de 
oidra qualqucr scimcia, «e o seu estiido fosse somenle 
Coiisiderado d'um ui^nlo abstraclo, i; especulatlvo, e sem 
a necessaria applii-arao dos seus verdudeirod principios 
aos casos orcorrent-cs na practica. 

A [heoria C"'m effeito nito deve ter por fim sefiao me- 
Ihurar, enperfei<^oar a praclica ; porque seni esta a Iheoria 
ch'^^M a Utopia, ou especularao. E nao pdde certamente 
haver boa pracHca, sexn que ^fja esciareciiJa pela Iheuria, 
ptprque tauibem sem e?ta a pracliea vem a deffcnerar em 
rotiua. Por coiisequencia e>las duas partes da scieiicia 
devem prestar ambas um muluo npuiu, c devem aml-as 
caiuiubar a par, a fim de »ervirem ao seu verdadeiro 
proeri'sso, e aperfei^oamenlo. 

PruiMiro por Iniilo combinar quanto me e possi^'el, em 
alteri^-ao aus meios de que pusso ilispor, a exprisi9ao, u 
a analyse de todus us fautos, e prinripios, no ensino da 
parte Iheorica d'arpiidln scit-ncia, com tudos os exercicius 
pradifos, proprios para o seu e3cl;trecimenlo, e \erdadL'ira 
iiilellijencia, iisandu para este Gm das di\ersas machina?, e 
apparellios, e aiixiliaiido-me frc(|iient'-menle cum eslampas 
npropriailas ; e com a su>i applicaijau a todos us casos 
occiu reiib'S na practica do hospital, aundeexistem effect iva- 
meide os e.\em|d;tres necpssarios iiu enfi-rumria de partus, 
()U cum a clinu-a de ptrtus ; para que do eiiaiuo publico 
d'esta siicticia, lao humana, como iideressant'', pelo aeu 
fim, a luda a sociedaile, se possa tiriir atpiella utilidade, 
qu<! sempre nus resulta, quaiulu depots tie dicturmos a 
rc^ra, e o preceilu, apuntamns o exem|do. 

Tal e o pro;jramma que siiju eni lodo o cnrso da 
cadeira da ?ciencia dos partus, cujo •:nsino publico me 
e commtllido. 



UEL\t;oCS LITTEnAIUAS COM AS UMVERSIDA- 
DES bE IIESPAMIA. 

A neoiissidade de ealahelocc^i- relarocs lit- 
terurias entre a iiossa iiniveisiJade e as do 
reiiio visitilio era de ha mtiito rcconliecida, 
quaiido, poroccasiao da viiilfi, c^ue em 1052 
lez a algiimas ciHades de llesijanlia, o silr. 
douclor Viceule Ferrer, aproveilaiido as boas 
dispoai^iji^s dos mais diaU'tictos profcssores 
d'atjucllas academias e espocialniente do niiii 
digno reiLorda universidatje de Aladridj o snr. 



IIT) 



marqnez de Morante, propnz ao goveino de 
S. M. que se adoptassi'iii alirvimaj provideii- 
cias para reulisar aquulle luipoilaute pensa- 
iiiento. 

O que se la/.Ia mais que tudn necessaiio, 
era a reciproca Iroca dus coiiipeiidioa ado- 
pladoi iiai aulas, e dos jornaes e obras lil- 
lerarias ou acienlificas, dadas a luz pelas 
iiniversidade*, ou pelos sens iiieiiibroa em 
ambos os pai/es, que, a pesar de lao estroila- 
inenle uriidoj pela sua posi(,rco fjeograpliica, 
e ate pela corijuHiiiidade de iutere5>es, viviaiu 
mais separador, e ii^norados no que respeila 
ao si'u Irato lilterario, e ao sen desiiivclvj- 
iiiento iiilelletlual, que as najoes iiiais afasta- 
das de v.Oi, e coin queia iiao leinos quasi 
rela(^6cs alguiiias. 

O governo auclorlsou logo o preiado da 
uiiiversidade para eiivlar ao reilor da univer- 
iidade de Madrid uiija collecgao coinplela 
das obras ecDiiipendios, que serviaai de lexlo 
<ui de couiriieiilario as li^oes iios mrsos de 
ladas as faculdades acadeuiicas. 

O snr. vice-reilor, que eutfio era da iiniver- 
sidade, o ex °'° blapu de liragai!(;a, salisf'ez a- 
quella deteriiiiua^'fio renielleiido a indicada 
collecfiio de obras portuguezas, e da legisla- 
jj'fio sobre iustruc(;fio publlea em data de 23 
d'agoslo de I8o'i, de que demos eonla ncole 
jorual ' . 

O governo liespanliol pel i sua parte, at- 
tendendo ao que llie represeuliira o iiiarquez 
de Morante, cxpediu em Oil de Janeiro uuia 
real ordein para que a uiiiversidade de Madrid 
letr^eltesse a de Coimbra as rollt'c(,'6cs de 
obras licspanbolas que aquella academia 
julgasse digiias d'esie destiao. IZ et"i\'ctiva- 
iiieiitelui recebida na bibliollieea de Coimbra 
unia iiiui riea, e imuorlaiUe collec(;ao das 
priiieipaes obras dos mais acieditados aucto- 
res hespanlioes, de que ja fizemos meiu;rio 
iiCsle luesmo joriKii ■" 

iSa remes^a, porem, que a universidade 

fez para Madiid nao se comprelieudeiam se- 

iifio as obras portuguezas, quetiiiliaui u;o nas 

aulas, e aiuda d'eslas alguuias fbiain omittidas. 

m.: lira poilanlo mdis|jensav(;l nfio so re|)arar 

Bk esta mvoluiilaria t'alta, mas couliruiar regu- 

^^fc larmente a remessa das obras publicadas desde 

^^■aquella data pelos diversos piot'essorcs da 

^^■universidade e das outras escliolas do reino, 

^^Baddlcionaiido-llie tamlK;m as obras iiiais im- 

^^HpottaiUes, (|ue iiltiiuameiite se teem publicado 

^^Bem porluguez por diversos au^tores estraulios 

^^K ao iiiagisterio, para d'esie niodo correspoiider 

^™ aos votos das universidades do reiuo visinlio 

e realisar cababiienle o I'un que estas corpo- 

rajoes se propozerain. 

Para salisl'azi'f a esle iiiiportante traballio 
o ex."" snr. vice-reilor da universidade Jos(' 
Ernesto de Carvallio e Rego, noineou uma 
tommissuo, de que elle e presideule, e com- 

' Vol. I!, pag. 82 
^ Idem- 



pn>ta dos sfirs. diiuctores Vicente Ferrer Nelo 
Paiva, lerite de direito, Joae Ferreira de 
Macedo I'into, lenle de niedicina, Florencio 
Mago liarreto Feio, lenle de malliematica, e 
Jose Maria de Abreii, lenle de [iliilosopliia, 
e do decano do lyceii de Coindjia Antonio 
Cardoso [jorges de Figueiredo, professor de 
e|. quencia. 

A toinmiss'io iiistallou-sc no dia 29 do 
mez findo, di^lrilmiiido pelos seus meinbros 
o traballio de colligir as mais importantes 
obras relalivas aos diversos rarnos desciencias, 
e litteralura para coin a possivel brevidade 
serein enviadas a universidade de Madrid, e 
se cslabelecer regularmente para o future esta 
correspondencia litleraria, que ifio proveitosa 
lia de ser para o progresso dos e-tiidos nos 
dois paizes, e para o credito das respectivas 
universidades e acadeinias. ' 



OS ISRAELITAS EM ROMA. 

Ila em Roma um bairro separado para 
OS Israelilas; eo G/iello, banliado pelo Tibre, 
e siluado eiitre a poiite dos qualro Capi, e 
a I'cntc-roltn; e uin dos mais iristes, e 
immundos bairros da cidade ; na occasi.'io das 
encliPiites ascasas ficam alagadas, eosdesgra- 
^■ados habilantes veem-se obrigados arefugiar- 
se nos andares superiores, aonde se ton- 
servam ate que o rio tome a entrar no sen 
leiln, e ha bein poucos annos ainda esle 
bairro tinlia nmas portas, que se fetliavam 
todas as nnules; porem a revolng.'io de IS-tS 
abuliu fisle costume; mesqiiiuho progresso, 
em coiiiparayfio dos que ainda carcce, para 
(jue OS judeus em Roma gozem a liberdade, 
que dislVuctam os de Franca; devemos com 
tiuln recoiiliecer, que a sua posi<,'ao tende 
sempre a nielborar-se, e (|ue estamos betn 
loiige dos tempos em ipie o papa, depols de 
lan(,ar a bencao ao povo catlioiico no domin- 
go de pasclioa, lanc^ava o analbema s^ibre os 
fillidS de Abraliao. Alas, vollaiido ao Giietlo, 
o observador, <]ue para alii for passear, vera 
as mullieres senladas em seus balcoes, I'lando 
linlin, ou remeiidando o facto de sens maridos, 
e fillioH, em (piaiilo estes se enlreteem brin- 
cando pelas mas com bandos de galinlias, 
que abuiidam na judiaria. l-.ste quadro pin- 
tado de uuia maneiia tfio risonha pela ima- 
gina(,'an, e, vistoa luz da verdade, bem desa- 
gradavel. Nas faces palida-;, e niaceradas 
das miiUieres traduz-se o soffi imento ; o typo 
oriental, que destingue a ra(,'a licbraica t(j 
alli se faz iioiavcl |)ela fealdade ; nao se en- 
contra no Glielto uma so destas bellas pidias, 
t.'u) communs nos'nossos paizes; a persegui- 
^•fio e o soflrimenlo leui degenerado o type 
priinitivodos israelilas romanos. Dcscrevemos 
as orcupiicoes dunieslii-'a: da-, mulli'^r's: cum- 



116 



pre-nos fallar tambem dos homens. A excep- 
<,'ao dealgims cordociros ou clia|)i'lciros, todos 
OS niais >e dfto ao iiegocio, e nmn elles podiam 
occiipar-se de oiiira cousa, poi», que mesino 
adiniltiiido, que as leis urn dia llies penniUam 
o accesso a lodas as carrpitas, e indiistrias, 
OS numerosos piejuiznb que lia a sen respeiLo 
pntre os romaiio!;, Ilies lian dc servir lorigo 
tempo de obstaciilo. 

(Archives isracllics.J 



EDUCAgXO DOS ANIMAES NA ANTIGUIDADE. < 

Os rnmanos excederam a todos os povos 
da antiguidade na arte de amesLrar e do- 
inesticar diversas especies de aiiimaes; mas 
OS sens cuidados nos ultimos tempos da re- 
publica, e durante o iinperio versarain mais 
sobre as especies, que concurriain para os 
prazeres dos seus espectaculoi, on para o liixo 
dos sens banqiietes, do ipie sobre aqiiellas, 
ciija miiltiplica^uo e aperfei^oameuto podia 
contribuir para o progresso d'agricuUura, on 
da industria. 

N'aquelle ponto os romanos nada tern, 
que invejar aos modernos. Nos iilliinoa se- 
culos da republica os cousules e ediles deram 
nas pragas de Roma o triste especlaculo de 
immolarera muilos animaes de graude prejo 
pelasua raridade. Nos jogos, quesecelebraram 
no anno dc 65 por occasifio da inaugnra^uo 
do tlieatro do Poinpeo, forani mortos sobre 
o circo quatrocentas e seis pantlieras, sci.- 
centosleoes e vinte ojefjnte?. Cansado, porem, 
jd o povo deste l)arbaro divertimento, come- 
garam a industriar os aniinaes nos diversos 
exercicios, em que os i'aziani andar nos dois 
pes, para assim excilar a attenjio pnblica. 

Marco Aureiio foi o primeiro, que eni 
Roma fe2 conduzir o sen coclie por iima 
parelha de leoes. Heliogabalo fez outro tanto, 
»)uerendo comjiarar-se a mae dos Deuses, e, 
immitando Bacclio, jungiu tambem ao sen 
caiio ligres, e ulgumas vezes veados, e ate 
caes. Avestruzes de extraordinana grande^a 
puxaram o carro do imperador Firmo com 
tal destreza, que mais partciam voar do que 
correr. Estes factos nfio sao seni exemplo na 
epoclia actual. No tlieatro de Paris uin do- 
mador de feras se aprcsenton, nao lia muito, 
dentro dc nm carro tirade por dois leoes; mas 
de elelantes danyando na corda, como muitas 
vezej se viu em Uoma, niio ba niemoria na 
epocha actual. 

Germanico, diz Pouciiet, n'lim traballio 
mui importante sobre estes animaes, apre- 
zentou elelantes (juedansavam grosseiramente. 
^os jogos instituidos por Nero em bonra de 

' Extraliido Je uma obra de I. G. de S. Hilaire, 
ainila nu prclo, Bobre a ediica^Ho e aoturalisa^So do» 
aniDiaei utcii. 



Agrippina foram vialos com geral admira- 
fio alguns destes animaes dansando sobre 
uma corda teza; facto est? atlestado por Cas- 
sius, Plinin, Siietonio, e Alarco Aurelin. 

A aite de domar os animaes, diz Cuvier, 
eslava tao aperfejgoada, como a de os cagar. 
No triumplio de Germanico os elelantes 
dansavam em pe sobre a corda. No tempo 
de Galba um destes animaes subiu n'lima 
corda com um cavalleiro romano em cima 
ate ao tecto do tlieatro. Cuvier assevera, 
fundando-se n'uma passagom d'J'llien, que 
05 eleiantes assim adestrados linliaui nascido 
em Koma de individuos desta es;)ecie, que 
viviam em pris.'io ; a auctoridade, porem, 
d'iilien nao parece sullicieiile para firmar 
um facto, inteiramente contrario a todas as 
observa(;6es feitas na Europa, e ate na India. 

A par d'aquella arte niaravilliosa de ensi- 
nar os animaes a tao variados exi^rcicios, os 
romanos cuidavam com muito esmero em 
niidliplicar, eengordar ai|uelles, que sorviain 
para os seus banquetes, e parlicularniente as 
aves, de muitas das quaes ainda lioj • usamos. 

« Clausiie pascuntur aenata:., (juerqaedu- 
lae, boschides, phalcrides, similesquevolucret 
quae stagna et paludes rimatitur. r> 

Engordavam as lebres, arganazes, pavoes, 
grous, e sustentavam em grandes lapadas 
jrivalis, veados, e cabritos moiUezes, que acu- 
diani ao son de uma trombeta. Tambem, 
segundo Bureau de Majle, sujtenlavam cara- 
coes, que llie serviam coijo eguaria tiiui es- 
liu'.ada. 

A plscicultiira estava levada a um grau 
de perfeigao, a que ainda boje eslanios mui 
longe de cliegar. O sargo fora trasido do 
mar da Grecia para o da Toscaiia, onde se 
naturalisara. 'I'inliam grandes viveiros d'agoa 
doce, e salgada. I'ara eslabelecer um destes 
viveiros, Lucullo mandou cortar uma monla- 
nlia, pein (pie Pompeo o chair.ou— Xerxes 
logatus. Neates viveiros cnava-se uma pro- 
digiosa miiltidao das mais eslimadas, e varia- 
das especies de peixes. 

Ell lun a m lilt i pi icarao artificial dos peixes 
estava em practica, e ja entao se obtinliani 
especies iclitli^'ologicas liybridas ; e esles pro- 
cesses artifi;iaes applicavam-se ateaalguma* 
especies de moliiscos. 

Os romanos neste ponio faziam lia vinte 
seculos, mais, do que nos ainda lioje pia- 
cticamos. 



PHYSICA DO GLOBO. 

I.NFUE.NCr.V DA LIA NOSTEUnEMOTOS. 

Desde a* mais remnlas eras aciia-sc ar- 
reigada na maioria da populayfio de todos os 
paizes a cren^a de que a lua intlui^ poderosa- 



117 



meiile em imiitos dos phenoinenos pliysicos 
e vilaes, que se passain na terra. 

Uninens dados ao eUudo da natureza re- 
geilaram por lonj,'o tempo esta crenga, na 
inaii)r parte dos sens poiitos, como precon- 
ceito popular; talvez porque o amor da 
sciencia, por niais pure que seja, tern sempru 
alguma liga d'amor proprio, que procuia 
lisonjear-iios daiido por impos^ivel oqiie nao 
podcmos cnmpreheiider. Mas na presen^a de 
factos constantemenle repelidus parece for- 
(;050 reconlieccr, que a attracgfio daUiasobre 
a terra e atmospliera, e por ventiira a sua 
acgao cliiiuica sobre a luz solar que nella 
se rcdecte, toriiam sensive! a inthioncia d'este 
satellite em muitos plienoiiienos que so pas- 
sam acima, na superficie, e no interior do 
nosso globo. 

Entre estes plienomenos avulta o dos 
terremotos, qiiC rnuito importa saber se 
devem considerar-se como resultado de per- 
cussoes causadas na crusta solida da terra 
por mare's internas. Na verdade, se em virtude 
de sua elevada lemperatura, a parte interior 
do globo lerrcitro se conserva fluida, devem 
a lua e o sol causar nella movimentos, se- 
nielhantesas mares doOccano, qnedependam 
em diree^ao e intensidade das posiroes d'estes 
astros; e a rosistencia opposta pela crusta 
sniida a accnmulagao de tluido, que esses 
movimentos tendein a produzir na direcgao 
dos raios veclores dos mesmos astros, pride 
causar rnpluras e abalos nos pontos cor- 
respondentcs da superficie terrestre. 

Ve-se pois, que esta explica9rio, estabe- 
lecendo nma mutua dependeneia entie a 
lluidez da parte interior da terra e as mares 
internas, manifestadas pelos terremotos, e de 
summa imporlancia na primeira e mats dif- 
ficil qucslao da geologia. 

■ Nas sessoes da academia das sciencias de 
Paris de i2l de marijo de 1353 e 2 de Janeiro 
de 1864) apresenlou M. Alexis Perrey uma 
inernoria, e uu)a nota, ciijo objecto e mostrar 
a influencia das posijoes da lua em relagao 
ao sol e ao perigeu sobre os terremotos em 
geral, e das suas posigdes relativamente ao 
meridiano d"um logar terrestre sobre os ter- 
lemr.tos nesse logar. 

Na memoria o auctor da conta de todos 
OS terremotos, de que pOde obtcr noticia, 
desde o anno de 1801 ate o de 1850; e 
computa-os de tres tnodos differentes, enu- 
nierando : no primeiro os dias em que tevc 
logar algnni terremoto; no segundo todos os 
terremotos que liouve, quer no mesmo dia, 
quer em divcrsos dias; no terceiro todos os 



abal 



OS que se sentiram, quer pertencessem ao 



nies[no terremoto, quer a terremotos differen- 
tes. Procedendo assim, a collecgfio apresenla 
um quadro de 5:338 plienomenos pelo pri- 
meiro modo, e de 6:596 pelo segundo. Pirn 
quanio porem ao terceiro inodo, nao pode 
M. A. Perrey obter noticias que referissem 
OS abalos de cada terremoto senao a respeilo 



d'alguns d'elles ; e por isso apenas conscguiu 
fa/er um quadro de 931 abalos scntidos na 
America Meridional, que acliou consigna- 
dos no 5.° volume das viagcns as partet 
ccntraes da America do Sal de M. de 
Caslelnau. 

Formou tambem pelo primeiro modo uni 
quadro de 423 dias de terremotos desde 1841 
ate 181-5. E finalmente organisou quadro5 
parciaes, repartindo cada quadro total em 
grupos correspondentes as subdivi^oes do pe- 
riodo da lunagiio media 29'', 531 em doze, 
dezeseis, e oito partes. 

Em todas estas combinajoes, pondo de 
parte algumas anomalias, aclioii o auctor 
uma preponderancia dos numeros relatives 
lis syzygiai sobre os relativos as quadratnras, 
a qual o levou a concluir que: ha meio se- 
cido OS terremotos sdo mais frequentes nas 
si/zt/g'ias do que nas quadratnras. 

Examinando a mesma collecg.'io d'obser- 
vajoes, e usando dos rnesmos tnodos de con- 
tagem, de que se servira para formar os 
quadros rcferidos, M. A. Perrey contou os 
terremotos correspondentes aos dias das pas- 
sagens perigea e apogea da lua, e aos dois 
dias auteriores e aos dois posteriores a cada 
uma d'ellas ; c subtraindo o numero respe- 
ctivo a cada positj'io proxima do apogeu do 
respectivo a posijao correspondente proxima 
do porigeu, acliou differengas positivas, que 
divididas pelas sommas davam quocientes 
compreliendidos entre j^ e -~. Eslas differen- 
gas indicavam pois uma preponderancia sen- 
sivel dos numeros relativos ao perigeu sobre 
OS relativos ao apogeu ; d'onde conclulu o 
auctor, que os terremotos sao niais frequentes 
na passagem da lua pelo perigeu do que na 
passagem pelo apogeu. 

Reconliecendo a importancia do trabalho 
do sabio professor de Dijon, poderiamos 
talvezdesejar que, seguindo um metliodo seme- 
liiante ao que Ibe serviu na repartigao dos 
quadros em partes correspondentes as sub-di- 
visoes da lunajfio media, e applicando-o nao 
to ao mez synodico, mas tambem ao ano- 
malistico, comparasse separadamenle : os nu- 
meros proximos da mesma distancia da lua, 
mas correspondentes a diversas phases lunares, 
para estabelecer com mais clareza a proposi- 
<,'ao relaliva a influencia d'eslas phases; e os 
numeros proximos da mesma phase, mas cor- 
respondentes a diversas distancias da lua, 
para estabelecer a proposi(;;1o rclativa a 
influencia da distancia. 

Finalmente o auctor da nota discutindo 
OS 824 abalos sentidos em Arequipa, que 
re.''ere a citada obra de M. de Castelnau, c 
calculando as boras decorridas desde a pas- 
sagem da lua pelo meridiano ate o instante 
de cada iim d'elles, achou, quer por este 
modo de comparar, quer pela rcpartij.'io do 
dia medio lunar, 24'' 50' 30", em dezeseis 
ou em oito partes, e dos abalos em grupos 
correspondentes : que o maximo numero d'aba- 



118 



los teve logar na vijinlinn^a das passagens 
da Ilia pelos ineriJianos superior e inferior; 
e o niinimo, qiiando a lua estava proxiiiia 
do !)0° de dislancia ao meridiano. 

De todo este traballio resiilla a conclusao 
sepuinte. O nunieio dos tcrremotos c maoclino 
nas sijtygias, c minimo nas quadraluras • 
maxiuio na dislancia perigni da lua, e 
ntininio na apogi'a- maxuno para um logar 



na pussagein da lua pclo $cu meridiano, c 
minimo a 90° d'cslc. 

O que concorda com o que deve aconle- 
cer, se os terreuiotos siio devidos as mares 
inlerioros do globo terreslre que produz a 
altracjfio da lua. 

Para lornar iiiais seiisiveis estes resuitados M. 
A. Perrey procura repreacnlar os iiuineros de 
cada um dos quadrospor expressoes da forma 



■ ^ sen {I + a) + iJ sen (2 / -f p) + C sen (3 / J- ^ )-p , 



scndo HI, .'/, B, C,...., constaiUes da na- 
lureza de ^ ; m p > f- • . ■ j aiigidos constantes ; 
e ; adislancia angular da lua aosol, coutada 
desde 0° ate 360°. E deleruilnadas as constan- 
tes de modo que satlsfajam ansnuineros, acha 
que na furva rehuiva a catla uin dos qiia- 
dros a maxima ordenada principal correspon- 
de as syzygias, ea minima lis quadraluras. 

A commiss.'io da academia, que examiiiou 
I'sle trabalho, daudo-llic grande inporlancia, 
propoz que fos-ie approvado, e que a acade- 
inia empregasse uma parte dos seus fundos 
eui auxiliar a continuagfio d'elle. 

(Vej. o ConipUs Rcndus de 12 de junlin 
de 18.34). S. P. 



NOTICIA SOBRE A DACIV CARBONIFERA DO CABO 
MONDEGO. 



CoDtiniiado (te pog. 104. 



Hiiliirta da miiia. 



Os Irabalhos comegaram n'esta mina clia- 
mada de Buarcos, em 1775, por conta do 
Governo, scndo dirigidos por um capitTio da 
toinpanliia de mineiros da praja d'EIvas, 
eliamado Jose Nunes, com dois soldados da 
mesma companhia ; estes Irabalhoi duraram 
• loze nnnos. 

\'.m 1787 foi c^le eapitao substitiiido pelos 
irmfios (Ricardo e Fraucisco) Raposos, ma- 
jores engenlieiros, sobrinlios do Inspector que 
•■iit.'io era do Arsenal do Kxercilo, o tenente- 
general Bartliolomeu da Cosla. Abriram tres 
galerias descendeutes na poula inais occiden- 
tal do Cabo e mcstno ao nivel da camada 
(le carv.'io, sendo a dislancia da 1.* a3.° bo- 
ca do ll-,0, e a da 2." a 3." de 2f."',0 : e=tas 
galerias eram abobadadas, revcstidas com en- 
xilliares de canlaria ate grande dislancia das 
Ijocas, e teem na secg'io d'eslas 4 metros de 
altura I,°'3 e 3,"'0 nas bases, lloje esl.'in en- 
lulliadas e coinpletamenle inutili?adas. Fo- 
ram levadas a 100'° poiico mais ou nienos 
sobre o piano da camada; abriram-se nellas 
avan^os, que enlraram pclo fundo do Ocea- 



no, e corlaram-se estes por oulras galerias 
para relalliar o nias3i(;o em pilarcs prisma- 
licos ; um sarillio movido por bois fazia a 
extrac^fio pelas bocas de servigo. O carvao 
de primeira qualidade era Iransporlado 
para Lisboa e empregado na refmagao do 
sal i Ire. 

A lavra era pouco activa, pclo limilado 
consumo que linlia o combuslivel, e por i-.so 
durou annos este campo de minerat^ixo, e 
coutinuaria por inuilo mais se nfio occorres- 
se um sinislro cm 1798 ou 1800, que a in- 
terrompeu completamente. Uma galeria as- 
condenle cliegou muilo porlo do afllorameiilo 
da camada no fundo do Oceano, a dislancia 
de 23"' da Pedra da Nau ; as nguas do Ocea- 
no romoerain a inossa que as separava dos 
trabalhos, e precipilaram-se nelles abrin- 
do uma ampla brcclia. 

Em 1801 foram os Raposos subslituidos 
pelo doutor Jo^e Bonifacio de Andrade, iio- 
ineado eiilao iiitendenle geral das minas e 
melaes doreino: inandou abrir a mina Mon- 
dego a iS.li. das primeiras bocas, e a d"',0 a 
8",0 acima do sen respectivo nivel ; por nieio 
d'csla mina communicou com a parte dos 
velhos Iraballios nao alagadn. 

F]sta mina deu, com varias inlerriipjoes, 
o carv.'io necessario ate' 1819,' e o doulor 
Andrade fez consLruir um forno de cal, a 
traballio conlinuo, e oulro de cozer tijolo 
junto a miiia, nos quaes consumia o carv.'io 
miudo, conliiuiando a ser conduzido para 
Li.dioa o carv.'io grado, de primeira quali- 
dade. 

A ausencia do doulor Jo;e Bonifacio de 
Andrade, que se relirou para o Brasil, a 
abundancia de pyrite que o carvao encerra, 
a ignorancia dos encarregados dos trabalhos, 
foram as caiisas pelas quaes o Governo, sof- 
frendo perda na lavra da mina, ordenou a 
sua sus|jens,'io em 181!', on antes em 1822, 



1 Em 1803, coin a sai'da de D. Rodrigo de Soiisa 
Coutintio (to Ministerio, furam si!5pi*iisos todos os traba- 
thus, e por lanto os d'osia mina jmr ordem do Presidente 
do Real Erario, I.uiz di; Vascuiicejl.is ; o que causou a 
mina dVsta mina, porqiie se encheii de a^na, mas re- 
come(;aram oiitra ^■ez em J804; a invasao dos francezi'i 
era 1807 vein de novo snsjiendct-os ale ao priiicipio de 
1012. Em 1816 lizeraiu-se (ral)ulliar por conia da Admi- 
nislrai;ao das minas os forno:* de cat em Alcantara para 
dar coniumo ao mtiilu carv3o, mindo eiifitente nas ciras 
da miua. 



119 



por ordem do ministeriro do leino, sobre 
proposta da dircc^fio da real fabrica das sodas, 
que liavia sido em 1801 eiicarregada da I'lsca- 
Ijsar^'io das iniiias. 

Por Alvara de 5 de Jidlio do 18'25, con- 
Iratoii o goveriio a lavra das miiias decarvao 
com uiiia Coinpanliia, qiiedeixou a de Buar- 
ctis em Inlal abandnno. 

Em 1B3!J para 1839 lentou ocessionario da 
coinpanliia, Jacinllio Dias Damazio, esgolar 
OS traballios da mina, e proseguir na sua la- 
vra: pozerain-se em actividade os trabailios 
da rnina Mondego , tirou-so algiiin carvao, 
e inandoii-se dcspilar. Logo depois, abrindo- 
so nma sanja depesqiiiza da linlia dc maxima 
inciina(;'ao do inonte, deparou-se com a con- 
linua^So da camada de carvao poucns nie- 
tros a N.N.E. da mina anlecedcrilo, e em 
po>i5?io mais eievada sobre o monle ; abriu- 
se um novo caaipo de lavra, denominado 
JMina Esperanga, que mais larde se fez com- 
municar com a mina ^l/oJic/eg-o. Este campo 
de^ceu poncos rnelros abaixo da actual gale- 
ria de avanco, polas difficnldades de extia- 
^ao e esgoto, ciija despcsa nao era compon- 
sada |)clo prejo do carvao oblvdo, e ainda 
mais pelo mao syslema de ataqiie, fazondo- 
fo ii exlrarrno, serviijo, esgoto, e ventilaoao 
por duas bocas conliguas, aliertas ao mesmo 
nivel, sobre o affloramento da camada. 

Osavan(;os pralicados nosta mina tocaram 
a lacuna, que llie fica a E.S.E., e como re- 
cearam dcscer alem dos liinitos que tocavam, 
resolveram procoder ao despilanieiito da mina 
lisppranja. 

Passnu-se a aborlnra da mina Farroho, a 
uns 300'° dc dislancia paia N.K. da preco- 
denle, e em posigfio mais elovada por se ter 
dcscoberto a camada nesse ponto. Execula- 
ram-se os traljallios an modo ordinarin, mas 
nao desceram muito com elles (aposar de se 
apresentar alii a camada com melhores anspi- 
cios), porque as aguas eram abcmdantes; a 
lacuna aS.E. era jii conliecida ; nma jjcsqui- 
za i'eila mais para N E. no Valle das Fon- 
lainlias, provavelmente sobre algiima das ca- 
iiiadas dolgadas, dou apcnas 0"',2 de possan- 
^a ; e sobre tudo, por se ignorarem as con- 
dirjoes em que a camada se aclia, e os acci- 
denles que frequeniemenle interrompem a 
coiitinnidade das camadas de combuslivel. 
Acri'dilou-se por estas razoes, que o carvao 
acabava todo nosla mina, e suspenderam-se 
OS trabalhos della em 1345 a 1846. 

Appareceram nesteanno de 1846 em Lisboa 
Miclion e Casimir Pierre, mineiros francezes, 
que visilaram as miiias de comlnistivel, e 
dirigiram a companhia propostas para a sua 
lavra; a companhia cnnlratou com Jliclion 
a lavra da de Biiarcos. 

Para renovar a lavra da mina Farrnbo, as- 
senlaram-se na buca dagaleria nma macliina 
de vapor da for^a de doze cavallos, e as 
bombas necessarias para o esgoto: em pouco 
tempo se esgotaram as aguas dos traballios, 



e recome^ou a lavra. Em 1847 cresceram as 
aguas siibterraneas; as bombas nao podiaui 
esgolal-as, a accumula^rio era rapida e a 
mina foi iniindada. 

Ma presen^a destesinislro Michon e Casimir 
investigaram os meios de salvar a mina pro- 
cedendo aos esludos para esse fim necessarios. 
Detorfiiinaram a direc(;ao e inclina^fio da 
camada, fizeram o nivolamenlo do lerreno 
cntre a boca da mina Farrobo e o solo onde 
estuo as bocas da tnina vollia ; reconhecoram 
que a linlia di; direcgao da camada que pas- 
sa no lerreno conliguo as minas vellias (a 
passar proximo da mina Farroho a 130'" 
de profundidade, a contar da boca da refcrida 
mina, e a 600"' na liorisonlal, tiradas polas 
bocas das primciras minas. Projeclaram a 
abertura de uma galeria de esgoto geral, se- 
gnindo csia linlia, e comejaram a executal-a 
em 1847. Esta galeria, avanjando sempre 
sobre o muro da camada, atravessou o fundn 
dos traballios das minas Mondego e Esps- 
ranra, e neste segiindo ponlo eslabeleceram-se 
alguns traballios descendentes, que fodavia 
foram pouco profiindos. Em 18ol cbegou o 
avan<;o proximo do campo inundado; os 
Iraballios coiilinuaiam por meio de tres furos 
de exploraijUO de sonda, ate' que chegando 
ao dito campo, se operoii o esgoto, derivan- 
do-se assim as aguas para os traballios ve- 
Ihos. 

Esla galeria e' uma obra importantissima, 
porque toriia aproveitavel a mina de Bnarcos, 
apesar de ter sido so destinada, no principio 
ao esgoto das aguas accumuladas na mina 
Farrobo : cortando a camada a mais de ISO" 
dos affloramenlos, permitte a explora^ao da 
camada, e a sua lavra por galerias descen- 
denles mais prompta e economica, do que 
pelas galerias abertas li superfioie : moslran- 
do a continuidade da camada no senlido da 
sua dircc(;ao, faz ver tanibem que o sen eixo 
esla longe do piano da galeria ; facilita con- 
sideravelmente os esgotos; torna rapido e 
economico o servijo de extrac<,ao, o permit- 
te fmahnenle uma mcllior ventdajfio. 

Em oonsequencia d'eslas reconliecidas van- 
tagens lem-se progredido com esta galeria, 
que contava em Junlio d'esle anno 950" a 
1000'" de coiiiprimenlo ; com o sen respeclivo 
cnminho def'erro; aclia-se pois debaixo do 
Valle das Fontainlias onde se devera abrir 
uma galeria ascendenle de 80'", pouco mais 
ou menos, ate a siiperficie, para servir a. 
ventilagfio e a lavra da parte da camnda 
superior a galeria geral. 
Continiia. 



Pag. 



ERRATA DO N. 



Col. Link. Erro. 

1." 60 tie Hie 



Emend. 
de 1546. 



120 



OBSERVACOES METEOROLOGICAS . FEITAS NO GABINETE DE PHYSICA 
DA UMVEIISIDADE DE COIMBllA. 



Annode 



Mez de 

Juiiho 



3 

4 
5 
6 
7 
8 
9 

la 
11 

13 
13 
H 
15 
16 
17 
IS 
19 
20 

ai 

22 
23 
21 
25 
26 
27 
28 
29 
30 



media } 
do mez $ 



E -.2 

;, C 0^ 

H 5 S 



(Jruus 



17 
16 
17 
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IG 
17 
18 
18 
IS 
18 
16 
20 
19 
18 
20 
20 
19 
18 
19 
19 
20 
20 
21 
41 
21 
20 
20 
19 
19 
19 

18,7 



PressSo atmosiiherica ao meio dia 



Alturft ba- 
rometrica o 
0." cenli;:. 



JMilliQletrus 



748,752 
747,370 
749,006 
749,008 
746,095 
748,500 
749,137 
731, 7iO 
751,670 
753,898 
753,688 
756,590 
756,713 
755,650 
754,473 
749,399 
748.040 
752,683 
755,346 
755,649 
756,792 
758,058 
755,636 
755,100 
754,341 
754,970 
752,793 
755,093 
755,952 
754,586 

752,962 



Millinietro^ 



Tentjicratura 

Max. absol. . 21.° 
Minima . . . 16.° 
Max. variai;. . 5.° 



7,588 
9,523 
10,155 
10,143 
9,911 
10,154 
11,0^9 
11,175 
10,374 
9,655 
8,794 
11,281 
12,802 
11,250 
13,094 
13,754 
12,517 
10,883 
11,655 
12,018 
12,857 
12,261 
14,117 
13,904 
13,904 
12,801 
11,368 
11,517 
12,020 
12,331 



Pressao do 
ar sec CO 



Millimetrus 



741,164 
737,847 
738,851 
738,860 
736,784 
738,346 
738,108 
740,545 
741,290 
744,343 
744,894 
745,309 
743,911 
744,400 
741,379 
735,045 
736,023 
741,800 
743,691 
743,631 
743,935 
745,797 
741,489 
741,196 
740,437 
742,169 
741,424 
743,575 
743,932 
742,255 



I^slado hygromt'lrico da 
atiuosphera ao iiieiodia 



^5 "^ 



0,5262 
0,7035 
0,7012 
0,7037 
0,7322 
0,7041 
0,7182 
0,7277 
0,6755 
0,6287 
0,6497 
0,6487 
0,7832 
0,7326 
0,7529 
0,7909 
0,7719 
0,7087 
0,7130 
0,7352 
0,7393 
0,7050 
0,7633 
0,7518 
0,7518 
0,7361 
0,6537 
0,7046 
0,7354 
0,7544 

0,7135 



Quantid. fie 
vapor coDtido 
cm tim metro 
cubico de ar 



Grammas. 






7,588 
9,556 
10,155 
10,148 
9,946 
10,154 
10,991 
11,136 
10,338 
9,6n 
8,824 
11,165 
12,714 
11,211 
12,958 
13,613 
12,530 
10,845 
11,575 
11,935 
12,725 
12,135 
13,913 
13,715 
13,715 
12,670 
11,253 
11,428 
11,950 
12,246 



N. 

S. 
S. 

s. 
s. 
o. 

N.O 

N. 

N. 

N. 

N. 

N. 

N. 

N. 

N.O. 

S.O. 

O.N.O. 

N.O. 
N.O. 
N.O. 

N.O. 

N. 

N. 

N. 

NO. 

N.O. 

N.O 

N. 

N. 

N. 



Prfssuo atmospltcrica 

Ma.\-. absol. 7 58,058 
Minima . . 746,695 
Max. excurs. 11,363 



Gran lie huinidade do ar 

Max. absol. . 0,7909 
Minima . . . 0,5262 
V.ir. max. . . 0,S647 



Eatado do ceo e do 
lempo. 



Claro c limpo. B. temp. 
Nublad. temp, chuvos. 
O aiesoio. O mesmo. 
O mesmo. O mesmo. 
O mesmo. O mesmo. 
Enrobcrlo. B. tempo. 
\iililado. O mesmo. 
Clar. e limp. O mesmo. 
O ivesmo. O mesmo. 
O mesmo. O mesmo. 
O mesmu. O mesmo. 
O mesmo. O mesmo. 
O mesmo. O u.esmo. 
O mesmo. O mesmo. 
Nnldado. B. tempo. 
Encobert. T. clim'iscos 
Encoberto. T. ventoso. 
Niiblado. B. tempo. 
Encoberto. B. tempo. 
Nublado. B. tempo. 
Encobert. T. chuvisc. 
CI. c limpo. T. sereno. 
O mesmo. O mestno. 
O mesmo. O mesmo. 
Nublado. B. tempo. 
O mesmo. O mesmo. 
O mesmo. O mesmo. 
CI. e limjio. K. tem]»o. 
O mesmo. O mesmo. 
O mesmo. O mesmo. 



f'cntot predominanUt 
N. e NO. 



Coimbra 1.° de Julho de 1854. 

O Demonslrador da Faculdade de Philosophia, Joaqtiim Augusta Simacs de Carvatho. 



€) JniSititttt0^ 



JORNAL SCIENTIFICO E LITTERARIO. 



CONSELHO SUPERIOR DE INSTRUCCAO 
PUliMCA. 

BEL.ITORIO ANNUAL 

1846—1847. 
CuiUinuado dc p»^. 113. 

Insiiucgdo superior. 

A iiislruc^fio superior commollida u diroc- 
rfio rlo consplho, compoe-se da uiiivcrsidadc , 
da aeadeniia polvleclinica, e das diias csclio- 
las iiiedico-cliinirgicas de Lisboa e do Porto. 

A iiniversidade de Coinibra, notavel pela 
sua antigiiidade, e pelo credito lilteraiio, dL' 
que tem gozado em todos os lempo?, princi- 
palmenle no reinado de elrci D. Joao III no 
seculo XVI, e no de eirei D. Jose' I no se- 
ciilo passado, forma enlre nos nm centro 
d'inslnicgfio ifiosolido, que nao tem podido, 
ate lioje, ser abalado, ncm pelas vicissitudes 
do lempo, nem peios ataque; de outros esta- 
hjlecimenlos livaes. liila contem os elemen- 
tos snfficientes para alii se ensinarem todas 
as sciencias, com a ultima perluijao ; nfio so 
em razao do grande luimero de cadeiras, 
como por nieio dos graiides, e ricos estal:>ele- 
cimenlos qne Hie estao reunidos. 

O ensinn continiiava nelia com a rogiila- 
ridade ordinaria no anno leclivo de 1815 a 
184C, qnando os aconleciinontos daquclie 
lempo vieram interrompcl-o : foram despedi- 
dos OS estndanles sem poderem fazer os sens 
ftCios. Em outiibro seguinte, por ordem do 
governo, foi mandada abrir, mas apenas osla- 
vain principiados os aclos, que as novas dc^or- 
dens vieram, outra vez interrompel os. D'esde 
entao ate agora, o en^ino esteve fecliado ; o 
o edificio foi pcla maior parte occnpado nii- 
litarmente. D'esta desgra^ada epoclia por 
lanto, nao tern o consellio nada qne deva re- 
latar a respejto d'esle estabclecimcnto, liiiii- 
tar-se-ha a fazer algnmas refle.Noes sobre sen 
estado actual. 

O ensino na universidadc, consta de cinco 
facnidades, cnjos professores de cada nma, 
se podem reunir em consellio, para promove- 
rem o sen andiantamento respectivo; e sfio : 
Iheologia, direilo, medicina, matliemalica, e 
pliilosophia. Do mappa n." 4 verti V. M. o 
quadro das cadeiras, e o seu estado. 

Vol. UI. Agosto 15 



Ainda que a lendencia das reformas mo- 
dcrnas, por toda a pntte, se dirija manifes- 
lamcnte a dcsinvolver os intcresses materiaes 
da Immanidadc, e que csteja lioje mui esfria- 
do o zelo cspiritual, e jior isso acoUiidos, com 
nienos favor, os estudos tlicologicos, com tu- 
do a facnidade de theologia, colieVente com 
05 nossos coslnmes, serve de cxprimir a nni- 
dade da religiao clirista, proclamada na 
Carta, como a religiao pul)IWa do estado; 
e de protesto contra o indil'ferentismo rcli- 
gioso, que com o nome mais lionesto de to- 
lerancia, tem penetrado na maior parte das 
nacoes, que v.'io a testa da civilisa^fio da 
Einopa. Alem disto esta facnidade, depois 
que admittiu as suas lii^oes, com o nome de 
onvintes, uma classc d'alumnos tnodestos, que 
nfio aspiram j;i aos grandes empregos eccle- 
siaslicos d'outro tempo, mas somente prelen- 
dem liabilitar-se para o exercicio parochial, 
liojc mal rctribuido, salisfaz ale certo ponto, 
uma das maioies necessidades da epoclia. 
Em quasi todas as dioceses do reino acaba- 
ram, por falta de meios, as cscliolas ecclo- 
siasticas para a instruc^fio dos ordinandos: 
a facnidade de theologia encarregando-se da 
instrnccao d'esta classe, nao so snppre esta 
falta na diocese de Coimbra, mas hoje que 
esta. ordenado, por decrelo, o proviinento 
canonico dus egrejas por meio de concurso, 
habilita alumnns iiistrnidos que por este meio 
em breve, se irao dispcrsar pt-las oi:tras dio- 
ceses ; e talvez a esta circumslancia se deve 
o angmento de disripnios, que nella se nota. 
A facnldide de direito, e a unica que tern 
constaiilemente oblido nma notavel aflluen- 
cia- de alnmnos. O seu numero annual sem- 
pre lem exeedido a 500. Alguns consideram 
esta aflluencia, como uma calaniidade nas 
actuaes circumstancias polilicas. Ao conselho 
niio compete decidir sobre este modo de pen- 
sar; o que Ihe parece provavel, e, que esta 
facnidade, ha de ser senipre mnito frcqiien- 
tada. Mao lem outra eschola, que Hie dispu- 
te a concnrrencia ; e ofl'erece o ensino a um 
grande numero, como habilila(;fiO legal, para 
a maior parte dos empregos do eslado, a 
oulros como meio de induslria; para o exer- 
cicio do foro, e a todos como instrucgfio, para 
reger as suas casas, e se dirigirem nos nego- 
cios quotidianos da vida civil, e domestica. 
lisla mesma circumslancia, e a outra da 
— 1854. Num. 10. 



^^ 



122 



conl'us'io da legisla^ao palria, tern servido 
de psliinulo a algmis dos pinfessores, para 
piiblicar oliras, que accredilaiido-os , con- 
Iribiiem pcidL-iosamenle para o mellioramen- 
lo da srieiicia. 

A faciildade de medicina tem sempre go- 
zado, e goza aiiida lioje, d'lirn credilo deci- 
dido, que os seus rivaes se nao altrovein a 
negar: proveiiieute nfio so dos prot'iindos c 
vaiiados coiihccirnentosj prrparatorios coiun 
projiriamenle medicos, que exigo nos sens 
aliiirinos, coino do distincto nierecimenlo de 
muilos profpssores que a tem illiislrado, econti- 
nuatn n illustrar. A regulaiidade do ensiiio, 
assim tlioorico, coino piaclico, que ii'ella se 
niinislra, e igual ao rigor e severldade das 
provns, porque faz passar os alumiios, antes 
de llie confcrir o diploma da liabilitajao. 
K'esla parte, e tao superior as academias 
da maior paile das outras na^oes, que a pe- 
zar da nossa, fiinl eiilcndida predilecgao por 
tudo que e estrangeiro, os medicos, que nao 
sao da esclioia porlugueza, nao Icm entre 
nos acliado favoravel acolliimenlo. E^la fa- 
culdade e frequenlada por poucos aiuinnos, 
o que e devido as circuinslancias peculiarcs 
da profissao medica, a penuria do paiz, e 
sobre tudo a concurrencia das duas escljolas, 
de Lisboa e Porto ; onde se habililain alguns 
alumncs, senao perfeilamenle instruidos, ao 
menos inunidos d'nm diploma, que Ihes ia- 
culta o uso da medicina. 

As duasfaculdades de matliemalica e plii- 
losppl)ia, alias iiotaveis pcla importancia das 
disciplinas, que as compoem, e pelo dislin- 
clo mereciineiilo domuitos dos seus membros, 
a pezar de ter poi; I'lui princi|)al, a applica- 
5ao ao desinvolvimento da iiidustria, e nie- 
llioramento material dos povos, que faz alen- 
dencia da epoclia actual; com tudo, como 
sempre aconteceu, poucos niais alumuoscoii- 
lam, alem dos que se destinam a medicina. 

E' faril acliar a causa d'e.te plionoraeno 
no pouco valor, que no estado do atraza- 
mento da nossa industria, se d;i a laes co- 
nliecimentos, e na concurrencia das duas po- 
lyteclmitas de Lisboa e do I'orlo; onde os 
alutnnos acliam imia iuslruccao menos seve- 
ra, e menos solida. Em quanlo se nao exe- 
cular o artigo 116, do decreto de 20 de se- 
plembroj e se nao deslinareni empregos, ex- 
clusivatnenle para lacs alumiios, dobalde se 
preleudera tornal-as mais frequcntadas. 

Dos oulros estabelecirncnlos dependentes 
do conselho, soinento se receberam os rcla- 
lorios das bibliolhecas de Lisboa e de Braga, 
c da imprensa nacional. A bibliotlieca de 
Lisboa corresponde a. grandeza e impor- 
tancia, da capital: e se se ajuizar pelo mo- 
vimenlo dos que alii vuo consullar livros, a 
litteratura entie nos nao decae. A de Braga 
esleve fecliada e occupada, mililarmente, 
durante a guerra: felizmenle nao soffreu 
estragos notaveis. A imprensa nacional de 
Lisboa lem chegado a lal pcrfei<,'rio, princi« 



palmcnle depois que contem alguns prelos 
movidos a vapor, que egunli as melliores da 
Europa. Os cstalielecimentos annexos a uni- 
versidade, resscntcm-?e da falla dos subsidies 
do thesouro : quasi todos desfalleccm pouco e 
pouco. A pezar dislo no observatorio astrono- 
mico traballia-se com assiduidade naeplieme- 
ride; e os sous trabalhos soljre este objccto, ja 
cliegam ao anno de 1850. A imprensa da 
universidade a pezar das perdas que soffreu, 
por occasifio da guerra civil, ainda se suslen- 
ta com lustre. 

A academia polylecbnica do Porto creada 
por decreto de 13 de Janeiro de 1837, lem 
por objecto privative o eiisino das sciencias 
industriaes ; e liabilitar pessoas que promo- 
vam o desinvolvimento da industria em lodas 
as suas direcgnes; engeiilieiros de minas, de 
pontes, eestradas; engenlieiros conbtructores; 
officiacs do marinlia, pilolos; commerciantes, 
agricultores, e arlistas de todas as classes. 
Para eslo fim aproveilou-se a academia real 
do comraercio e marinba que jii alii existia, 
augmcnlou-se com grande numero de ca- 
deiras, e estabeleceram-se os cursos neces- 
sarios para o fim especial, a que cada um 
dos alumiios se propoem. 

Esta academia esta em principle ; lucta 
com vigor contra as difficuldades do comedo, 
e sobre tudo contra as desgra(;adas occur- 
rencias, que desde a sua creajao, ale agora, 
nao lem cessado de al'lligir a naijao. A sua 
principal necessidade, e a de eslalulos on 
regulainenlo ; o qual este conselho lia pouco 
tempo acaba de submctler a approvagao de 
V. M. Esleve fecliada como todos os outros 
estabelecimentos no ultimo anno. O conse- 
lho nao pode remetler o mappa do quadro, 
e estado das cadeiras, por que o nfio recebeu. 
As aiiligas escholas chirurgicas creadas em 
Lisboa e Porto, com o fim unicamente de 
liabilitar cliirurgioes, foram pelo decreto de 
2!) de dezembro de 1836 elevadas a calhe- 
goria de escholas medico-chirurgicas, aug- 
mentadas corn o ensino das disciplinas me- 
dicas, e com um pessoal mui dispendioso. 
O conselho nao recebeu o relatorio da de 
Lisboa, i; o da do Porto contem a nolicia,. 
de que tambem esteve fecliada, e a expres- 
s.'io do receio de grande decadencia por falla 
d'aluiTinos. No mappa n.° 5 sera pre'enle a 
. V. M. o quadro dos professores. A unica 
redexao que o conscHio julga poder fazec 
aqui sobre estes estabelerimentos e, que nem- 
as necessidades do paize.xigem, nem as forgas. 
do thesouro permilLcm, Ires escholas de-; 
medicina cm Portugal. Seria necessario re-i 
duzir e^tas duas, ao que foram na sua origem ; 
porera esta idea nao pode desde ja execu- 
tar-se, talvez o tempo aplanara o caminho' 
para isso. 

Em resullado do exposlo o conselho nao 
se lisonjea de apresenlar um quadro brillianle 
do estado das letras, ou da inslruc^fio entre 
nos. Permitta V. M. que o conselho accres- 



-X^^ 



.^Vvk 



123 



ceiile a esle respeito uma obaervagao que 
naliiralraente se oft'erece. As scioncias, e as 
bellai arles, s'lo tmii tnelinJrosas : sao fidal- 
gas, perinitta-se a expressao ; nfio eslabelecem 
o sen domicilio nas nac^oes, senao na epoclia 
da sua grandeza e prosperidade ; npcnas 
estas vfiocm decadencia, asscieiicias cnmecjam 
a relirai'-se;sealgumas conliniiam, vivem uma 
vida valetudiiiaria, e enfezada. O liomeui 
sabio iifio pode yiver no meio da anarcliia : 
preciea de recursos para subsistir com decen- 
cia, e procurar os livros, e meios d'instrucgao. 
Os estabelecimenlos publicos em penuna, 
iiao podem minislrar lis sciencias os nieios 
progrcssivos do dcsinvolvimentn. Eis aqui o 
eslado em que nos acliamos. Nfio e sem um 
senlimeiUo delrisleza, e magoa, queocoiisellio 
faz esta observa5ao; mas julgou devel-a 
consignar aqui, para servir de resposta as pes- 
soas menos reflectidas, que se lembram de 
atlribuir a falla de zeln do governo de V. M. 
on dos seus agentes suballernos a decadencia 
das letras enlre nos. Provc-m de causas mais 
graves, que a ninguem e possivcl direclamente 
remover. Coimbra em conscliio de 21 de de- 
zembro de 18-i7. Bnsilio Alberto de Souza 
Pinto servindo de presidtnte — jigoslinlio 
Jose Pinto d\/llmeida — Mayioel Antonio 
Coclho da Rocha — Joao Tlioma% de Sousa 
Lobo — Jeronymo Jose de Mello — Antonio 
Cardoso Borgcs de Figueiredo — £,;«;; 
Ignacio Ferreira. 

(Segve documenlo n.° 1 cHado rCeste relatorio.) 



raiVERSlDADE DE COITOA— PROCRAMMAS. 

FACULDADE DE MEDICmA. 

1853—1854. 

Coiiliiiuado tie pag. 1I-4 

5." AS>0. 

1.* CADZIKA DE CLINICA (cLINIC* DR MULHEREs). 

Lfule — Dr. Joao Alberto Pcreira d" Azevti'.o 

(A esta aula concorreni lambem oa csliidantes do 3.' 
e 4." anno), 

2 ■ CADEIEA. DE CLIMCA (CLIMCA DE UOMEKS). 

Lente — Dr. Manoel Paes de Ftg'tei'redo. 

(A eala aula concorrem lambem as csludanles do 4." 
atinu). 



CADEIRA DE MEDICINA LCUAL. 

C()MPR%DIO I!RIA^D, MANUEL COMPLET DE MEDECINE 

LEGALE. — .\0VISSI.M1 REFORMS JUDICIlRI\. — CODIGO 
ADMISISTRATIVO PORTLGDEZ. 

Lente — Dr. Antonio Joaqnim Barjona, 

Por determina^^io do consellio da faculdade niedica, 
lem de aer eosiaadas n'esla cadeira iiao so a Mediciiia 
Inreiise, e a Hysiene pubiica, mas lambem a Historia 
<l:i Mcdicina. 



Come^arei pela deCnfi^ao de Juri-'pruduocia modica, e 
pela divisiio d'eeta sciencia nos duiis rjinos penai t- ii'vil. 

Fiillarei lugo depois da nalurcza i\ii liomeui, expondo 
0% plicnomenos desims fijnc(;6e3, comespecialidade osipic 
perteiicem aa fnnc^ofs aiiimaes, e fazcii-lo ver a applica- 
^ilo dVsta doiilriiia a phylusophia da Jiirispriidrncia. 

Do ramo penal da Jurisprudencia niedica, farei nmn 
divisuo secnadaria em diias sec(;ues ; a priineira d'eslas 
comprehtMide as leis criniinaes relalivas ils func^oM neces- 
sarian para a conserva^'ao do iniliviiluo ; asegunda conlera 
as que dizem respeilo ;is runc^'uea da conserva(;ao da 
esjiecic, 

Fallarci parlicniarmente, na primeira sec^ao, du3 feri- 
mecdus e do veneficio : na segunda do esliipro viulenlo, 
do aborto promuvido on procurado, do parto prematuro, 
serolinu, simulado, e do infanticidio. 

O ramo civil da Jurisprudencia niedicn, seri'i tiuiibem 
di\idido em dnas sec^oes, e a diviailo sera fundinJa em 
jirincipius similliunles aos que serviram de base a divisSo 
do ramo pen;il. 

Na primeira sec^-ao tralarei darela^ao entre ntidireitos 
civis e as condi^ot.-s physicas e menlaes do Iiomem, fal- 
laiido com a possivel individiia^ao do que e cuncernenle 
a faciildade de teslar : e na segunda e.vpljcarei as con- 
di<;oes cssenciaes ao eslado do mafrimonio. 

Antes poreni de enlrar na disiMissao especial de cada 
urn dus r.'imos da Jurisprudencia meuica, occiiparme-hei 
do exame das di\ersas i<iades di) homcni ; muslrarei o 
ueo dVsle e.vanie em varias qnesloes importantes dodirei* 
lo ; e provarci a iililidade das sciencias physicas n'alijiimag 
cans.is niais delicadas de identidade de pessoa. 

Acabada a Medicina forense, explicate! a iLeoria da 
flciencia admiiiistraliva , com referenda .a administra<;3o 
medica, propriamenle dita, edarei uma breve nolicia du 
pessoal d'esta admiuislrai^ao. 

Dislribuirei por rinco sec^oes lodaa as dilTerenle* 
malarias da Hygiene publica. 

Tralarei na primeira dascondi(;oes sanilarias daspovoa- 
rues em tempos ordinaries. Fallarei especialmenle das 
cumidas, das bebidas, do ar, dos edificios, etc. Pur oc- 
casijio da salnbridade do ar, exporei as caulelaa com que 
devem ser conslruidos e conservados oa mat.idouros, as 
a^oiignes, e os eemilerios, 

A segiinda sec^ao perlencem ascondi^oes eanitarias das 
povoa^oes nns circnmstancias em que e preciso prevenir 
uu combaler uma doen^-a conlagio.sa on epiilemica. 

A terceira tem por objecto a salubridade dos iogarei, 
em que vive um grande numero d'iiidi^iduos pur um 
tempo mais ou menos longo dentro d'uni espat;© limitado. 
Esta sccf^JoccmprelicnJe ascasaa d'expostos, osliospilaes, 
as cadoas, etc. 

A quarla nao e mais que a iovestis'at^ao das condi^oes 
physicas e muraes, que devem reunir os liumens quo at* 
deslinam a certas prolissoes especiaes, como a militar e a 
marilima. 

A quin*a finalmcnte limita-se aos signaes de morle em' 
geral, e de morte violenla em particular. 

Terminada a Hygiene publica, passarei a Historia da 
Medicina. Di\ idil-a-hei em antiga e moderna : aa des- 
cobertas de Harveo, relatiYas a circula^ilo do sangue, 
formam a epocha diviaoria. 

A Hi$toria anliga divide-se em sets pcriodos : 

O primeiro abra9a toda a Historia medica deade o 
principio^da sciencia ate o tempo d'Hyppocrates ; 

O segundo conlem oque decorre dcsdeHyppocrales ale 
Galcno ; 

O lerceiro o que vai de Galeuo ate a destrui^uo dai 
letras pelug Barbaros ; 

O quarto come^a com a Medicina dos Arabes, e finda 
no priiii*ipio du decimo quinto seculo, ou n'applicaqito da 
Chimica a Medicina ; 

O quinto acaba na eschola de Paracelso ; 

O sexto principia n'csta cschula, e tcrmina coin a 
Historia anliga. 



A Historia moderna t dividida em ctnco perioiloi 
O prirueiro e marcado pelas obras de SyJenham ; 



124 



O scjMiiJo pclns cscliolas ile Stahl, Bocrhaave e Of- 
finnnn ; 

O iLTCf iro pelii llieoria tie Drus^n ; 

O qiiiirlo pt-los priiiieirus escriptoa ile Brotissnis : 

O qiiinlo rliou''T it t-pcrha presoile. 

\*to (U'ixarei de nii'ltcioDnr.^ em c.iJa iim ilos rcferitlos 
pcrioUos, o (pic e privalivo »i.i Medirina porluu'iipza. 

A pr^rlica tiaTo\icLtlo;;ia sera cnsiiiaiia depois decon- 
cliiiJo tiirso theorico. 



JERUSALEM E MAR-MORTO. 



ARCEIEOLOGIA HEDRAICA. 

Conliuuado de pug. 83. 

O liiniulo dos leis ' e o mais Lello e mais 
iiolavel moiiuineiito, que se encontra nas vi- 
sinliangas da cidade sancta. Todos os pe- 
regrinos , que viiilam Jerusalem, vfio admi- 
ral- sempie a<|iK"llas veiierandas reliqiiias do 
nnligo jazign real; olj'cto de parlicularos 
estiidos doi differenles archeologos, que teem 
liiado a plania d'aqiielle moiiiimeiito , so- 
lire ciijo funereo deitiiio reiiia a maior incer- 
leza. A pompoia, designa^'io de tumido^ 
reacs , e t'lO vaga , que deixa a. imagina- 
<^ao vasto campn para se espraiar em mil en- 
conlradas conjecluras. Jsem e' empreza ta- 
cil atinar quaes Fossem os reis, ciijo, reitos 
morlacs allijazein; alguns perlendeni que 
ft)ra alii o jazigo de Herodes o Telrarco, e 
outios de Helena, rairdia deAdiabena; Sau- 
Icy pela sua parte sustenta, seiem atpielle 
OS verdadoiros lumulos dos rels de Judii; 
mas esla opiniao singular tern contra si o 
teslemuulio das paginas sagiadas, e o con- 
senso unaniine de todos os lii>toi iadores , que 
assignam o jazigo dos reis de Judii, sohre o 
monle Siao; arclieologicamenlc considerado 
aquelle niorniuicnlo , a sua arcliitectura se 
apiesenia muito mais caractorizada peioestilo 
gTego , do que polo gosto oriental. 

Saiilcy, pore'ui J para susleiitar a sua opi- 
'niuo, soccorre-se iinicarrienle a iiUerpreta^fio 
das palavras — cidade dc David, com que 
nas cscripturas liebraicas se designava o balrro 
mais anligo, e mellior fortiricado de Jeru- 
salem. Aquelle arclieologo pencnde, que a 
cidade de David, nfio cornpreliendia exclu- 
sivamente o bairro , levantado sobre o ro- 
cliedo de Siao, mas loda a area sobre que 
estava assentada Jerusalem, e por consequen- 
cia, que assepuUuras dos reis de Juda, tan- 
to |>odiam exislir deutro do recinlo da cidade 
dc David proprjamente dicta, como em qual- 

' A nici.a niilha de Jernsalenl , saiiido pela |>or(a de 
Dair.asco , soltre iinia plmura , imde cregcein algiimag 
oliteiras, enct'iilra-sc uma e\cava(;rto, cuaio de iiina j)e- 
dreira abatidonada ; tini caaiiiilio larj^o e unl poiico em 
declive da ser\eiUia ale ao fiindo d'esla eitra\a<;iio, onde 
se enconlra iiuia arcaria , pela (jiial se enlra para iniia 
sala talliada iia rocha ; esla sala le,m trinla pes de cniii- 
priilo , e'doae a fjninze de atlura, Os arabes , d.'m a esla 
excata^ao o nome de Qhonr-et-Mohuk, que signiflea , 
gritlas react o'j inmutos dos reis, e. vixet. 



qiior outro poiito d'aquclla vasta povoag.-io. 
Para apreciar dcvidainente esla liypolliese, e 
mister examiiiar a topograpliia de Jerusalem. 

No tempo de Flavio Jose, a cidade assen- 
tava sobre duas collinas, fronleiras uma a 
outra, ao iiorte e mcio dia; uma d'ellas era 
mais elevada , e enlre ambas corria utii valle 
prol'iindo; a cidade com|)unha-sc por tanto 
de dois bairros, occiipando um a parte 
mais baixa, e outro a mais elevada. A ci- 
dade alta , ou a anliga Jerusalem , occupava 
a collma mais meridional, que uma cstreita 
garganla torneava an K, S. e 01'^. l'!ra o 
pequeno valle dos fillios dellinnon. Pilo nor- 
te uma grossa nuirallia circumdada de torres, 
defendia o bairro alto. Esle ponto culminan- 
te constituia a coiljna de Siao. A collina 
do none , que so cliamava Acra , dnmiiiava 
o teuipio levantado sobre o moiite Moria ao 
O., q.ie era um appendix dacollina de.Si'io, 
coin a qual communieava por uma ponte 
laui^ada sobre a eUreita garganla , cliaiuada 
'I'ljropcoii, ou valle dos q\ieijeiros. Jerusalem 
occupava por lanlo um terreno coiUido por 
muitos valles eslreitos , e prol'undos, que o di- 
vidiam em luimerosas planuras, e llie da- 
vam umaspecto, que fazia lembrar a cidade 
das sete collinas, que na liistoria, e no res- 
peilo do muudo llie dispulava a jirimasia. 

Siao, eslando sobranceira a toda a cida- 
de , devia naturalmcnte ser escolliida de pre- 
fereiicia ao monle Acra por David para sua 
liabilagao ; accrescera, porem , um outro 
molivo, que determinou aquelle rci a fun- 
dar alii o sen jjalacio, e dar a esle bairio 
da cidade o seu nome. David conquislara Je- 
rusalem aos Jebusenos, seus priineiros nio- 
radoies, tomando-llies a fortaleza de Siao , e 
ertabeleceu por isso aqui a sua residencia. Toi 
eale o principio da verdadeira Jerusalem. ' 

Comoaudar dos tempos, e sab a prolecjao 
dos reis da casa de Juda, a cidade de David 
crescera em riqueza e popiilagfio, e tanspon- 
do OS ECUS antigos eestreilos limitcs, cslende- 
ra OS bragos sobre o monle Moria, onde edi- 
(icara scu tempio, e sobre a coUina d'Arra; 
mais tarde eslendera-se para o norle sobre 
a cnllJna Bezclha. 

R dc feilo assim devia acontecer pelo pro- 
gresso da civilisacao , e pelo descnvolvimen- 
to das diversas industrias, que augmentando 
a riqueza e oliixo dos moradores da cidade, 
creara nelles novos liabitos, o novos gosto?, 
que nao podiam Ingrar, rediisidos so ao aper- 
lado reciulo da priuiiliva cidadella ; era por 
isso natural seguirem o pendor da collina , 
para buscar naamenidade dos valles a frescu- 
ra , e commodidades , que llie nao ofl'erew 
recia o rocliedo natal. Algumas vezes os oro- 



^ Esla cidade fura por miiito tempo iinia aldeia , co- 
nlieciila com o nome lic SalfJtt, e su deptiis de conqiiisla- 
da por Da\id, e que come(;ou a ;;.izar (^e maior couside- 
rai^ao. Juab, sobrinho de David, coiiliiuioii us Irabalhos 
cumec;adus pelu prophcla rei , e Jerusalem lumuu entao 
nova furma. 



125 



phetas, e os poelas, fallando eniphaticnnien- 
te, e coin liberdade poetica, tomavam a parte 
pelo todo, daiido a Jerusalem o titulo da ci- 
dade de David; no livro, poreiii, dos Mac- 
cliabeos o nome da cidade de David, e ap- 
plicado exclusivamente ao nionte de Si.'io , 
(jue o hisloriador dos Jiideos chaina sempre 
cidade alta, querendo miii de indiislriacallar 
onoine de David, masassignando-llie os nies- 
mosllmiles, que os livros san;rados, 

u David , dizMr. Calien, foi sepultado em 
Jerusalem, cliainada cidade de David, por- 
que era a sede da sua corte , e o bergo da 
sua dinastla. 55 D'esta passagem d queSaulcy 
pertende deduzir, que o tumulo d'aquclle 
rei podia eslar fora das porlas de Siao. A 
inexactidao, porem, d'eslaasscrgno, e' de lodo 
o ponto evidenle. Quaiido o j ideii Nrliemias 
foi auctorizado por Artaxerces Longa-Mao, 
para' reconstruir Jerusalem, dislriljuiu oslra- 
ballios da reedifioa^ao pelas priucipaes pes- 
soas da cidade, que parlicularmente se oc- 
cuparam de levantar as raurallias, e diz a 
Escriplura , que Sellum , filtio de Cliolosa 
fora encarregado «de reedificar aniuralha da 
piscina de Siloe ao longo do jardim do rei, 
ale aos degraos que descem da cidade de Da- 
vid. » Depois d'elle , Nehemias filho de Az- 
boc , conlinuou a reslauragao da muraiha 
da cidade de David nate a frcnle dos tumic- 
los de David, ale' a piscina, e ale a casa 
dos fortes de David, n Esla prova irrecusa- 
vel da hisloria liebraica, nao deixa a menor 
duvidasobre a exislencia dos lumulos d'aquel- 
le rei na exiremidade meridional da cidade 
de seu nonie. A anliga topographia, e indi- 
cada aqui por uma lesteniunha muda, mas 
incontestavel ; e a piscina de Siloe, que ajn- 
da hoje exisle ao S. O. do rocliedo de Siao, 
onde o valle dos filbos de Ilinnon vem de- 
sembocar na garganla deTyropeon, no iogar 
em que oulr'ora eslava o jardim do rei. 

K' verdade , que eutre os povos da anli- 
guidade, e parlicidarmenle enlre os jideos, 
era costume coUocar os cemlterios fora das 
povoa^oes ; mas nao e menos cerlo que a 
respeilo dos rejs , e dos proplietas sc fazia 
uma excepjao a esta regra em loda a Pa- 
leslina por uma especie de homenagcm tii- 
butada a aucloridade d'aquellas persona- 
gens. Samuel foi sepultado em liamallia, 
na sua propria casa; Ba^a, general dos exer- 
cilos de Madab, que Iraiyoeiraiiiente occu- 
para o llirono, etn Thersa cidade, que es- 
colhera para capital. Amari, fundador da 
Samaria., Joaclias, rei de Israel, e seu fi- 
lho Joas, foram sepultados na cidade de 
Samaria. Nao ha por lanto razao alguma 
para suspeitar, que os habitantes de Jerusa- 
lem praclicassem na pessoa do seu illustre 
fundador urn acto, que seria offensivo a sua 
niemona , e a venerag.ao, que Hie deviam. 

Saulcy deixara-se dominarneste ponto pelas 
ideas de Prisse d'Avesnes, que na sua hisloria 
inedita da arte entre os Egypcios perlcnde, 



que 03 Gregos e Hebreus aprenderam a arclil- 
lectura dos Egipcios, que, inais adianlados 
nacarreira da civilisa<;ao e das artes, deviam 
transmittir aos outros povos siias ideas, c 
estilos. Mai pode, poreai, susleiitar-se uma 
till opiniao, quando s.'io completamente desco- 
nliccidosos nionumenlos plienicios e liebraicos, 
que podiam servir de ponto de compara<jiio 
enlre as differentes arcliitecturas. Alem ditto 
as relajoes entre o Egypio e a Grecia dalam 
apenas de seiscenlos aiiiios antes da era clirisla, 
e nao remonlam alem do reinado de Psam- 
miliclius. A raja egypcia essencialmente se- 
denlaria, era pouco apaixonada pelas expe- 
digoes longinquas; leniiain tanlo confiar-se ao 
capriclio das ondas, que os Pharaos n'lo liriham 
no Medilerraneo um unico porto, e por largos 
tempos as costas septemlrionaes estiveram 
fecliadas aos eslrangeiros, como ainda hoje 
tuccede no Jap.'io E n.'io era por cerlo com 
disposigoes taes, que se podiam transmittir fa- 
cilmente as ideas, os costumes, e ate o gosto 
das artes, e das sciencias do Egypto aos oulros 
povos, quo tao isolados viviam d'esle paiz. 
Neil) por outro lado e verissimil, que a in- 
comparavel delicadeza da arte grega, e sua 
infenita variedade fosse o simples desenvolvi- 
menlo de um germen orionlal ou egypcio. 

Nem tao pouco pode suppor-se, que essa 
eneanladora liberdade, que e uma das maiores 
bellezas da archil^ctura liellenica, nascesse 
sob o dispotismo asiaticn, ou debaixo da 
rigidez egypcia. A delicadeza e sublimidade 
da arlc grega cerlo n.'to podia ajustar-se com 
tao rudes elemenlos, ea hisloria da sua deca- 
dencia nao deixa a menor duvida sobre a 
causa dessa archileclura hybrida, que se 
observa em lantos monumenlos da epochs 
da dominagao dos imperadores romanos, e 
que provavelmente lem dado Iogar asduvidas 
e escrupulos de alguns archeologislas, que, 
n'lO ponderando bem eslas circumslancias, 
procuram allribuir aos hebreus os vestigios 
de uma archileclura, que llie e completamen- 
te eslranha, e que fora obra dos seus con- 
quisladores. 

Osdocumcntoshisloricos provam por tanlo, 
que nao pertencem a familia real de Judd os 
chamadoi tumu/on-dos reis, e que por conse- 
()uencia carecem de fundamento as conjeclu. 
ras dos que perlendem ver n'clles um monu- 
mento da pimitiva archileclura hebraica ; 
pelo conlrario a construcg.'io e ornatos d'este 
monumento revelam claramente una iniato 
do estilo grego e romano , que caracleri- 
sa esse periodo raemoravel , em que lodos os 
cultos, e todas as civilisa<;oes se confun- 
diam, consliluindo uma verdadeira Babel na 
hisloria profana, e que fora uma epocha da 
decadencia para a archileclura da Grecia, 
que dominaddra no Orienle e no Egypio por 
seu genio, e tuas antigas conquistas perdera 
no conlaclo com estes differentes povos a 
pureza de sua elegante simplicidade , seme- 
Ifaante ao caudaloso rio, cujis cristalinas 



126 



agiias perdem sua limpidez, transboidanrlo 
sdbre suns marfieiis. Kd'acjui nasccvi esta arclil- 
lectuia si/ncrct/cii, que Saulcy lomoii eoiiio 
ty|)o d'archilecliira liebraica. 

Chateaubriand dcscreve com rara siiigpli'za 
(' coiicisao as priiuipacs fei^oes do luniiilo 
dos reis, neslas pnliivias: « No cr-nlro da 
niurallia do iiieio dia ha utra grande porta 
quadrada de fvrdetn dorica, aberla iia roclia 
a grande profuudidade ; mn friso fanlazioso, 
inas de esqiiesita delicadoza esta esculpido 
por snbre a porta, priim-irainente o uin tri- 
glypho seguido de uuia tnelopa oriinda com 
urn siinpli!S anel, depors um cacho d'uvas 
entre diias conins, e diias la^as. Deznito 
polgadas a einia d'este frizo h.i uma foltiagetii 
enterla<;ada de piiihas. » 

Fallando d'este niesmo inoiiumento, o A. 
do tiielhor livro, que sp conlieco sobro a Jiidon, 
diz 11 esia roclia esta i-loganleinenle esciil|)lda, 
porem perlence a ultima epoclia da arte eulre 
OS roinarfos, in the latter Roman sti)l,e,' 
Saulcy porem considera estes lumulos, (jue 
Chateaubriand comparava nos banlios de 
architecl'ira romana, e que evidentemenle sfio 
uma amosira da decadencia da arte grega, 
conioum iiiaiavilhoso especimeu da arcliilec- 
tura hebraica, um edil'iGio eomlemporaneo 
de Homero, que excede em antiguidade a 
lodes OS iiionumentos gregos, e que data de 
mil annos antes de J. C. ! Saulcy viajando 
a roda do Mnr-morlo, encontrara nopaiz de 
Aloarb o capi'.el de uma cobimna derrocada, 
este capitel, diz olle, fiao tern com o capilel 
ionicosenfio mui remota analogia, e certo fora 
trabaihado per selvagen*, que provavelmente 
precederam os artistas gregos, a qiiem devcmos 
as bellas proporQoes da ordem ionica. « A 
descoberta deste capitel sobre o solo arabe 
no meio de ruiiias, que Saulcy considera como 
auteriores a civdi^a^ao grcga e romana, e o 
principal fundamenlo da sua nova e mui 
singular tlieoria sobre a archilectura hebraica, 
llifjoria que se re-ume iiestas palavras. u O ro- 
chedoemqne eslaabertc o vestibulo dos tumu- 
loi reaes apresenta triglyplios e ta^as, as mol- 
duras da cornija tem a elegancia dasmoldu- 
rasgregas; mas quem podera aflVraiar quesfio 
de invcngao grega as ordens dorica, e ionica? » 
is queiu podera assegurar que aqucllas 
ordens foram originariainente invenladas na 
Judea, oil que passaram por ella antes de 
chegar a Grecia ! 



JARDIKS D ACCLIMATACAO ^•A MADEIRA E 
ANGOLA NA AFillC^ jVy?T|»0-OCClIJBJ;ir^L. 

O doscnvolvimento consider.avel que tomou, 
mormenle ne^te ultimo dijcwinio, a horii- 
culuira em Porliigal, e uio fiacio por lodos 

\ nopjjisoa — Bibtiful Reft^rfh , v» Pff^ttiiie. 



reconhecido , o quo poreui njo e menos ccrlo, 
e que, a maior p.irlo on quasi todos os vcge- 
laes que hoje estno ornando oi jnrdins por- 
luguezes, teem sido com[)rados e introduzidos 
da Belgica, Franca e Inglaterra, levando 
d'esta arte cada anno sommas assaz conside- 
raveis para fora di'ste paiz. Ora, ponderando 
altentamentn o bonan^oso, e comtudo lao 
variado clima de Portugal, e a iVliz posijfio 
goograpliica das suns provincias ultrama- 
riuui, que ol't'erecem uma escala complela de 
todos OS ell mas, desde o temperado ate a 
zona equatorial, dovemos concluir que este 
reino, em logar de romprar todos os adornos 
dos sens jartlins aos estrangeiros, podia e 
devia ser elle mesmo o grande emporlo das 
riquezas liorticolas para toda a Eurojxi : sim, 
l^isboa e Porto deviam ser o mercado abun- 
dante, aonde todos os paizes menos favoreci- 
dos pelo clima viessem coiiiprar, tanto as 
[jlanlas ornameiitacs, como todos os mais 
vegetaes utHs, exigrdos cada anno em maior 
niimoro e vanedade pclas culturas rural e 
llorcstal dos mencionados paizes ; e conquista- 
dos, cada vez eir> maior proporc^ao, ate as 
mais longinquas regioes, por uma liabil e bem 
enlendida acclimata5rio em estabelecimentos 
creadoi para este fun nas differentes Posses- 
soes ullramarinas de Portugal. Queremos 
couceder c]i:e algiimas d'estas conquistas ostao 
feitas ; pois ji se encontram nos jardins de 
Lisboa, Coimbra e Porto, etc., varias plantas 
ornamentaes alii edi>cadas de sementes vindas 
das provincias ultramarinas do Portugal e 
d'oiilros paizes remoloi; mas, com tudo isso, 
e mister confeisar que estas isoladas curiosi- 
dades nao passam das primeiras tentativas, 
e o>t,io ainda inuilo longe d'aqnella grande 
pert'eicj'fio e d'exten^ao a que estas culturas- 
pndiam chegar n'um palz dotado d'um 
clima tao variado e fovoravel, e que possuc 
nas suas collinas tropicaes e sub-lropicaes 
uma fonte inexhaurivel de vegetaes preciosos 
a liorticnltura, agricultura eacultura Gorestal. 
Era portanlo mnito para desejar que se tiras- 
se mellior pioveito da fertilidade e do excel- 
leute clim-a do continenle do reino, exploran- 
do e aproveilando simnltaneamente as im- 
mensas riquezas vegetaes das provincias ultra, 
marinas. Entre os meios d'akanjar tao 
desi'javel fira em maior escala e no mais 
breve tempo possivel, julgo dever apontar 
principalmente tres, os quaes, sem cansarein 
grandes despezas ao Estado, quando conve- 
nientemente applicados, nao deixarao de 
conduzir ao mais prospero resullado. Sao 
estes meios: — 1 °a fundaraode jardins d'ac- 
climala^ao em varios pontos das Possessoes 
ullramarinas; — 2° a coadjnva^ao energica 
dos einpregados mais habililados nas colonias 
e no servigo da marinba do Estado; e .3.* 
fmoimente— persevcran(,a da parte do governo 
de Sua AJageslade. Eu digo miiito de pro- 
p.osito — persfverari^a da parte do governo, 
pprqiic, te.ndo tornado parte acliva, desde lia 



127 



ddze annos, na sticcesslva metamorphose que 
8e operou na liorticiiltura d'esta ctipital e sens 
contornos, chegiiei a conhecer pela propria 
experiencia os nuinerosos obstaciilos, que, 
tanto na funda^fio cotno na gcrencia posterior 
d'estabelecimeritos horticolas, se alevantain 
de toda a parte; ohslaciilos f|iie, sciido jii 
bastante fortes no conliiiente do reino, por- 
ventiira se tornarao ainda niais embara^osos 
em remotas provincias ultramarinas, e que 
so poderao ser vtncidos por um desvclo 
energico e perscverantemente contiiiiiado. Os 
jardlns d'acclimata^fio, ciija fundac^ao desde 
ja julgo dever leinbrar ao Govenio de Sua 
Magestade, sao dois: lira na ciJade capital 
da provincia d'Angola, em S. Paulo de 
Loanda, e outro no Funclial, na illia da 
Madeira. O jardim eslabelecido etn Loanda 
deve-se considers r o tractar como jardint tro- 
pical, sujeitando n'elle os vegetacs uleis d;is 
Konas tropicaes, desde o Capricornio ati- ao 
Cancro, a uina cultura regular; Ciludaiido-sf 
ao inesmo tempo o tnodo mais conveniente 
de propaga^'ao e mulliplica(;aod'estes vegetaes 
hem como as qualidades climalicas e de ter- 
rene que cada urn especialmente exige, etc. 
etc. O jardim creado no Funclial fonnara 
uta jardim sub-tropical, recebendo os vege- 
laes tropicaes ja habituados a certa cultura 
regular, naturali»ando-os alii, para depois se 
poderem cuUivar com mellior rcsultado em 
ciimas menos quentes ; bem como d'oulro 
lado acostiimando as plantas, para ahi remet- 
lidas de paizes mais frios, a vegetarem n'uma 
temperatura maiselevada, adaptando-as d'este 
modo a nao estranliareui tanto a sua cultura 
em regioes da zona tropical, etc. etc. Oj 
jardins scienlificos eni Liaboa, Coiuibra e 
Porlo offerecem convenientemente o terceiro 
e infimo grau d'esla cscala de successiva ac- 
cliinatagao, recebendo do jardim do Funclial 
OS vegetaes tropicaes e sub-lropicaes alii ac- 
climatados, e reincltiuido-llie em retribui^-fio 
9S plantas uleis viiidas de paizes mais frios, 
para ahi se acclimatarern. Seri'a de grande 
vantagem, nfio s6 para a clinuitologia gcral, 
como particulariiR'ute para adiantar os conlie- 
ciraentos ainda lao fragriientarios a cerca das 
condi^oes cliuiatolugicas da Africa tropical, 
te em cada um d'esles jardins d'accliinala- 
^fio se fizessem obscrvagoes metercologicas a> 
mesmas lioras e debaixo de principios ideii- 
ticos previamenle fixados. Se a naturalisa- 
5ao de vegetaes iiteis de todas as reguV-s 
phytogeograpliicas do globo lerrestrc, e o fiin 
principal dos jardins d'accliiiiaLajao, eale, 
comludo, nfio e o unico destino d'elles ; pelo 
conlrario, podem estes estabelecimenlos, me- 
diante uma organisajao conveniente, ao 
mesmo tempo vanlajo^amente servir de pas- 
teios de rccreio e d'instrucgdo aos habitantes 
das cidades em cujos contornos forem funda- 
dos. Ora, tanto a capital da ilha da Madeira 
como a d'Angola reclamam, por causa da 
sua posisao isolada, e por ainda serein in- 



teiramenle desprovidas de rccrcios inilruc- 
tivos, desde ha ninito tempo, a crea^'ao dt 
jardins publicos; e como nao e difficil orga- 
nisar um jardim d'accliinataijao de modo 
que possa servir igualinente de passcio publico, 
alcan^ar-se podem ambos estes fins seni aiig- 
tnentar muito as despesas, ornando as ditas 
capitaes com estabolecinientos, que por todas 
as naynes cultas sfio considerados como um 
dos ineios mais poderosos d'intliiir suave c 
benelicainente sobre o eslado moral e intel- 
lectual da populagfio circiimvisinha. Mas 
para colonias agricolas, cujo prospero futuro 
depende principulmeute d'unia bem arertada 
escollia e conveniente varia^'io dos generos 
mais apreciados de sua* ciilluras, os mcncio- 
nados i-slabeleciineiitos adquireiri ainda maior 
iuiportancia, e toruam-se em inslitnlos dc 
maxima ulilidade e d'inealculavol vantagem 
para to<la a coloiiia. I'ois um jardim d"ac- 
climatayfio orgauisado conforme os prin- 
cipios de climaUdogia e phylogeographia 
moderna, e modilicado complelamente para 
servir de passeio, nfio so offerece aos ociosos 
ntn passalempo saudavel e divertido, mas 
desperla quasi involuntariamente no auimo 
dos que o visitam um sem luimero de refle- 
xoes proveitosas a. cerca da patria, do modo 
de cultura e da applicacao dos respeclivos 
vegetaes ; e conlribue deste modo efficazmente 
a excitagao d'mna nobre curiosidade, e 
medianle esta a diffusao de muitos e variados 
couliecimenlos que era breve se tornam pro- 
licuos aos colonos, e por Cfinseguinte a mesma 
colonia intcira. De mais a mais, se o gover. 
no de Sua Magestade pnrvenlura chegar a 
eslabelecer cadeiras d'liistoria natural nas 
provincias ultramarinas, o que de certo haviu 
de coulribuir muito para o prospero desen- 
volviinento d'ellas, por serem as sciencias na- 
turaes a cbave de quasi todas as operagoes 
agricolas, os competentes lenles destas cadei- 
ras eiiconlravam nos jardins d'acclimatagao 
jii OS priuieiros e mais necessaries clemeuLos 
para a inslrucgao practica dos sens discipulos. 
Se O) arguuiciilos acinia apontados, talvez 
jii por si ^6 paiecem assaz valio;os (jara con- 
vidar o governo de Sua Mage.-tade a crea- 
(,i\o dos lembrados estabelecimentos, accres- 
cem ainda, tanto em respeito a illia da Ma- 
deira, como em lelagfio a provincia d'Angola 
vaiios outros molivos e.-peciaes, que, seudo 
compcteiitemenle pouderados, designatn a 
presente epoclia como a mais opporluna para 
empreliender, quanto antes, as supra indica- 
diis tentativas. 

Conlinua. dr. f. WELWITSCH. 



ESPIRITOS PERCCSSORES. 

Uma das ultimas sessoes do senado Ame- 
ricano tornou-se nolavel por um incidsnteas- 
sax curioso, eque deu logar a grandes rizadas. 



128 



Eis aqiii coino a cerca d'elle se exprimij 
Sliiekls: 

>t Tcnlio a honra d'aprescntnr ao seiiado 
lima petirao corn 15:000 assignatiiras sobre 
objecto lao sinp;iilar coiiio novo. 

a 1. Oi signatarios represeiitam que algiins 
plieiionienos physicos e iiioraes, de iiatun^za 
toda mysleriosa, allraliein a allenCj-fio publica 
no paiz, e ale na liuropa. A analyse parcial 
d'esles phenomenon revcia, dizeiii dies, a 
exislencia d'linia for^a occulta, que se palen- 
tea por agitayao, eicorregadiira, suspensao, e 
por fim inovimenin, (pie cornnmnica aos 
corpos ponderaveis de niodo conlrario as leis 
natiiraes. 

« 2. Eta for<,a manifesla-se por claroes 
oil luzes que apparecwin subilaineiUe em lo- 
garesonde nenhiiiiia ac^So cbimica, neni plios- 
pborescencia poderia desinvolvcr-se. 

11 3. Manifejta-se lanibem por sons myste- 
riosos, senielliantes ora a paiicadas batidas 
por nin espirjto iiivisivel, ora ao znnido 
dos ventos ou ao eslrondo do Irovao. Algumas 
vezes ouve-se o soii» de vozes Imiiianas ou 
d'algum instrumenlo de miistca. 

It 4 As func^oes aniinaes interroinpem-se 
as vczes inslanlaneamenle, e por lal agenle 
mysterioso teem desapparecido allecjoes repu- 
ladas incuraveis. 

11 Os requerentcs discordam entre si quanto 
a origem d'estes phenomenos, que uns al- 
tribuem a potencia intelligjnte d'espiritos 
despojados da apparencia material, e que 
oulroi pretendem poder expticar-se d'u[na 
maiieira racional e sati^factoria. Mas eslao 
todos conformes a cerca da realidade dos 
plienoiiienos, e pedera que soja nomeada uina 
coniini-.sao jiara proced(!r a luadura e scien- 
lifica invesligaCj'ao. 

.1 Tenlio lielinente exposto o resuiiio d'e^ta 
peli^ao, que, a pezar do seu objecto, e' redigida 
conveuienteuientp, poij que lenlio adoplado 
o syslema de nao vos apresenlar pelr^oes of- 
feuiivas. iMas tendo preencbido este dever, 
perniilla-se-ine agora dizer que o iiiiperio de 
seineihanles aberra(,'oei eui graiide nuuiero de 
nossos conleinporaneos, e n'uin seculo lao 11- 
luslrado, proveni a meu ver, ou d'uin syste- 
ma defeiluoso d'educa^-ao, ou d'urn de=arrunjo 
parcial das faculdades inteilecluaes, produ- 
zido por alguma desorgani^a^fio pbysica. Nao 
posio tainl>eui crer que laes aberra^oes ejlejaiii 
tao gene^ali^adas couio indica csla peti(;;io. 

11 Ein ditTereules epoclias do mundo teem 
bavido ilbisoes do nu-?nio genero, A aleliiuiia 
por [nui;os seculos occupou a atlenjao de 
lioinens eniinentcs Co(n ludo bavin, quanto 
ao esseiicial, alguma cousa de sublime e real 
na alcliimia ; estudava-se com aiTiiico a natu- 
reza, e se os alcbimislaj nao ol)tiveram quan- 
to espcravani, fcjram lodavia recotnpensados 
com descoljrinieutos inuilo jiiiporlniites. » 

Alem d'iito meiiciona Shields as iUusoes e 
decepgoes dos Ffosa-Cruzes, e di; varios 
espiritualibtas, comprelieiiderido Cagliostro, 



esse celeljre profcisor que vendia a iminorta- 
lidade aos vellios, e a belleza aos jovons ; e 
lermina com a seguinle senlenga de Burke : 
A credulidade dos parvos e tao inexgotavel 
coino as artimanhas dos impostores. >i 

Ueferiremos tambem, o que u cerca do 
mesmo objecto se passou nlllmamen'-e n'uina 
sessao da academia de Franca. 

liayer commuiiicou a seguinle observajSo 
e experiencia do doulor ScliiCf, de Francfort 
sobre o Meno, relalivas aos espirilos percus- 
iores : 

11 Teni-se presenlcmenlc fallado murto de 
cerlos ruidos on eslroiidos que se attribuem 
a suppostos espirilos pcrcussores, e o nosso 
colloga Clievreul pul)licou a cerca d'este 
obji'clo uni Iraballio notavel no Jornal dos 
Sabios. Mas nenliunia experiencia tinha side 
feila eni Franca nerii iia Allenianha, com 
o fiin de explicar laes rnidos, antes das obser- 
vances do doutor Scbift'. A respoilo d'uma 
joven, que teve occasiao d'observar, e em 
caaa da qnal nuviani-se estrondoS attribui- 
dos aos espiritos percussores, reconlieceu elle, 
que a percussao tinba logar no corpo d'esla 
joven e nao fora ; e demo?trou experiniental- 
inenle que semelliante estrondo pode ser pro- 
duzido pela desioca^ao reilerada do lendao 
do longo musculo peroneu, da sua membrana 
passando atras do malleolo externo. C'om 
effeito Schiffchegou a produzir em si niesmo 
o phenomeno absolutamente coino tinba logar 
naijiiella menina sob a inlluencia do sup- 
po^to tspiritu percuisor. 

u Quandoa membiana fibrosa em que escor- 
rega o lendao do longo peroneu, e di'licada ou 
esl;i rp|a\ada, o phenomeno p inais facil de 
produzir. A percussiio pode todavia efl'eituar- 
se, sem que se observe no pe, iiiovimento bein 
apreciavel, e soinente quando se appoia o 
dedo por delias do malleolo externo no nio- 
inenlo eiii que se prodiiz o eslrondo, e que 
seule-se perfeila e mui distinctamente a deslo- 
cagao allernaliva e reilerada do lendao, 
animado d'um nioviineulo de elevagao e 
abaticnenlo n>iii arrebalado. Esta experiencia 
de Scbiir considerada pbysiologicamenle of- 
ferece verdadeiro iiileresse. u 

Por couvile do secretario perpetuo, a que 
sc Junlaram lambern as initancias de inujloi 
mernbros da acadeuiia, o doulor ScliilT, que 
liiilia continuado a eslar presenle em quanto 
se leu a sua nieuioria, repetiu perante a 
acadeniia a experiencia. A percuss.'io e liio 
diitincia que paJe ouvir-se a muitos melros 
de dislancia, ainda que nao baja complete 
sileucio; e os pes roHocados bem li visla, 
nao parecem animados de niovimenlo algum. 
( Atktnacum Franc.) 



GEOLOGIA. 

Jazigos do ouro e da prala. 
M. Murehison acaba de publicar uma obra 



129 



com o titiilo de Siluria, em que perlende 
provar por con>idera5oes geologicas, que nao 
lia motivo para recear a baixa do ouro em 
relajao a prata, pcla descoberta dos jazia^os 
auriferoj da California, e da Australia. De 
feilo o ouro e de lodos os melaes preciosos o 
niaii escasso na sua distribui^ao naliva. Pelo 
conlrario a prala e o cliumbo argenlifero 
existem l.'io larga e profundamenlo dissemi- 
nados nas roclias, que a sua exploragao nao 
pode deixar de ser niui lucrativa, inormente 
empregando-se ncstes traballios melliores .ip- 
parellios niccanicos, e novos melliodos que 
facilileni a minerayao. 

Um relatorio ullimainente apresenlado pelo 
encarregado de negoeios de Inglaterra na 
Bolivia demonstra, ijue a prata pode actual- 
niente cxtrair-se em enormes por^oes das 
minas de Copiapo, e d'oulras d'America do 
Sul. Em I'lm a sciencia moderna confirma ple- 
uamente as palavras do prepliela Job. 

"A prala tern um principio das suas veias : 
e o ouro tern um proprio logar, onde se for- 
ma.' !i L'Institut. 



MOLESTI.\ DAS VI.MIAS. 

A sociedade propagadora da iiiduslria na- 
cional em Fraii<^a , destinou uma sornma para 
premiar os auclores das melhores memorias, 
fundadas em rigorosas observagnes , e expe- 
rienciasauthenticas sobre a origem , progres- 
so e natureza iiilima da mok'atia das vinlias, 
e sobre os resultados obtidos pelos diversns 
meios preventivos , ou curativos, applicados 
para a di-lu'llar. 

O concurso terminou a 31 de dezembro 
ultimo. Cento e dezeseis concurrentes apre- 
sentaram as suas memorias sobre este inipor- 
lante assumpio ; mais de quarenlu memorias 
foram dirigidas a sociedade depois de feciia- 
do o concurso. 

As cento e dezeseis memoria-, foram remet- 
lidas a uma commissao, composla de rnem- 
bros das diias set-^oes de agricultura e arles 
chimicas. Em sessao de 14 de jullio ultimo 
a commissao apresenloii o conipeteiile relato- 
rio, de que extractamos os spguintes periodos. 

»A vossa commissao, sius , jnlga que as 
duas principaes questoes, que foram obje- 
clo do concurso, islo e, o tratameiilo tnais 
efficaz da [nolestia das vinhas , e a naliireza 
d'ell.i , n.ao csl.'io ainda completamente re- 
solvidas ; enlretanto reconlieceu , que muilas 
das memorias, que liie foram enviadas, Ian- 
gam uma nova luz sobre muitos plienome- 
nos importantes , e que sens auctores s.'io por 
isso dignos de alguni premio. N'estas circuni- 
stancias a commissao propoe, que se al>ra 
novo concurso, cujo prazo deveru terminar 
no ulliuio de dezembro do corrente anno. 

•I O governo , associando-se aos vossos ge- 
nerosos es-forjos acaba de eslabelecer um pre- 

' Cap. XXVIII, V. I. 



mio de seta mil francos, para seaddicionar ao 
primeiro premio, proposto por esta sociedade, 
que era de Ires mil francos. E este e mais 
un) motivo para se abrir de novo o concurso. 

"Entre todas as substancias ale hojeernprc- 
gadas para destruir o oidium nas vinlias, a 
que tern produzido melliores cffeitos, foi iiicoii- 
teitavelmentea flor d'enxofre. Esta subslancia 
desde 1848, deu os melliores resuilados a 
Keyle, liorticultor inglez deLylon. Em 1351, 
foi ella empregada com vantagem nos jir- 
dins de Veraailles por Ducliartre, ent.lo pro- 
fessor do Instilulo agricola. Carecia-se , po- 
rem, de um ineio commodo para Ian9ar a (lor 
de enxofre sobre as videiras atacadas do mal. 

Gontier imaginou para este fun um folle, 
que pelasuaefficacia, ebarateza reuiiia todas 
as condi^nes, que podiam desejar-se na pra- 
ctica. Por este nieio Gontier conseguiu de- 
bellar complelamenle o nial das vinlias, nos 
annos de 18.31, 13oi2 e 1863, mas ti preciso 
empregar este remcdio desde o momento em 
que a molestia se manifesla. Primeiramen- 
te regam-se as cepas com uma boinba porta- 
lil, inveiilada tanibem por Gontier. A reo-a 
por meio da bomba deve ser feila debaixo 
para cima, para humedecer as folljasdeam- 
bos OS lados, em scguida langa-se por meio 
do compelonle apparellio a flor d'enxofre, 
que cac sobre as videiras, como uma niivem 
de p6. A rega e de^necessaria, qiiando a vi- 
nlia esta liumedecida pelo orvallio. 

uO nielliodo de Gontier, foi empregado 
em grande nfio so nas estufas, mas laiubem 
nas vinlias de Tliomery , perto de Fontaine- 
bleau A enxofragcm a secco , deu tainbem 
excellenles resultados. As vinlias nao tracta- 
das pelo enxofre foram accomcltidas da mo- 
lestia a par d'aquellas, que, tendo-se-llie em- 
pregado o proeesso de Gontier, ficaram com- 
plclamente livres d'llla ; de maneira (jue as 
expprieni-ias comparativas n.ao deixaui a me- 
nor duvida sobre este ponto. A enxofrageiu 
repete-se tres vezes , e calcula-se a despesa 
em cmco mil e duzentos reis , por cada he- 
ctare, de:.peza nao nuiilo consideravel para 
as vinlias, que dao vinlios de superior qua- 
lidade , ou boas iivas de comer. 

II Mas nao tera o empiego do enxofre al- 
gum inconveniente ? As experiencias I'eiias 
nn inuspu de liistoria natural em Paris, leui 
deixado algumas apprehensoea sobre os maus 
effeilos, que poderiam resullar paia as vinluia 
Iractadas por este proeesso. Esta circumstaii- 
cia obriga a vossa cominisaao a esperar no- 
vos ensaios, nao vos [iropondo por isso, 
que se de o piemio, e,tabelceido no pro- 
gramma, a M. Goiilier: entre lanlo a me- 
moria por elle apresentada, e digna dealgu- 
rna recompeura, e vos fareis um ado de 
justiija, dando-llie em remunerayao d'eatetra- 
ballio, que numerosas experienuias teiii com- 
I'lrmado, uma gralificayiio de mil francos.!) 
(■toiirnal d'Jgicult. Pratiq. n.° 15 — de 5 de Agoslu 
J'= "*j*0 Conlinua. 



ISO 
SEC^;A0 DE 3IATHEMATICA. 



ADVERTENCU. 

Annuimos a publica^'io d'estes aponlamenlos pela imprensa, por nos ler nioslrado a 
f.xperiencia que d'elles pode resultar ali,'iima nlilidade no estiido eleinentar da Trigomimelria 
ipheriea. a qual faz parte do curso de matheinaticas piiras na faculdadc de malhematica. 

S P. 

APONTAMENTOS DE TKIGONOMETRIA SPHERICA. 



I. O thooreina fundamental 



cos a' — cos 6' cos c' 
sen 6' sen c' 



(I) 



costuma demonslrar-sc construindo o quadrilatero , de que sfio lados as tanfenlcs e secantej 
dos dois arcos b' e c' do triangulo splierico, e de que e um dos angulos o angtilo <i do 
mesmo triangulo. Mas aconstruc^fiodeixa de ser a mesrna, quando nfio s.io menorcs que 90' 
ambos os lados b', c'; porque, se urn d'estes lados e >90", a secante respeoliva n'lo encontra 
B taiigente , mas siin o sen prolongamenio; e se um dos mesinos lados e ^OO", a secante 
respectiva e parallula a tangenle. 

No entretanlo, sein fazer nova construcjao , pode mostrar-se que ainda nos casos 
mencionados tern logar o tlieorenia (I). 

I. Se 6'<90°, c'<90''; a construc^ao da, coroo 
dissemos, no triangulo A B C a. formula (1). 

II. Se i'<90°, c'>90°: produzam-se BAcBC 
ate coraplelar era B' o fuso spberico BB'. No triangulo 
jB'^^seran: 

B'A= 180°— c', B'^C=180°— o, JB'C= 180°— o', 
e a formula (1), que tem logar para o angulo B'AC 
d'este triangulo, da 




cos B'AC = 



cosB'C— cos // U'coi^C 



■■" (1)- 



^en A h' sen A C 



III. Se i'>90°, c' >90'': o triangulo B'AC, relativamente ao angulo B'AC esta 
no caso precedente (II); e por isso ainJd tem logar a mesma demonstrac^'io. 

Ou fambem : produzindo os lados BAe AC ate eneontrarem em fi' e C o arco 
BC produzido, sera no Iriangido CAB': 

B'ACi = a, A B' = lSO'—c', AC'=180°—b', O B' = a' ; e applicando-lhe o 
liieorema vira a formula (1). 

IV. Se 6' =90% c'=90°: a formula (1) da 



i: 



"para o angulo a, 
para os angulos 6 ou c 
o que concorda com as propriedades conhecidas dos polos 



cos arr^cos a', aTz=a' "^ 

, cos 6 = o, 6 =:r 90°; cos c = o, c — 90° J 



V. Se e s6mentec=i90°: produza-se, ou corte-se AC, ate que seja AD = 90°. 
\.° Se B D nao e = 90°; o tlieorcma sera applicavel ao angulo D no triangulo 
C BD ;e dara 

cos a' — cos B D cos C D 
'''" seaBDienCD ' 

que, per ser cos D=zo, se reduz a 

cos a' = coi B D coi C D:= cos a sen 6' ; 



131 

« coma a formula (1), applicada ao angulo a no iriangiilo ABC, da laoabeiti 

cosa=: oil cos a'=cos a sen 6', segue-se que aquella formula e ainda verdadeira 

sen 6 
nesle caso. 

%.' Se e B D — 90° : como tambem e ^ B = 90', sera B polo de ^ C, e conspguin- 
teinente a' = 90°; logo (IV) o theorema e ainda verdadeiro no caso de que se trucla. 
(Veja-se a Anal. appl. a Geometria de M. Lcroy nn. 453 — t5d ; e a meinoria do sr. J. 
Cordeiro Feyo nas da acadeniia das scienc. de Lisboa de 1839.) 

2. A formula (1) da 



^ / .,„(.i±^)..„(g3E|EF) j 

Q. ' Ren b' sen c' 



/ /a' + 6' + c\ ,y + c' — fl' 
i / sen I 1 sen ( 

1 \ \ 2 ; V i^ 

co5-a=;V n ) / 

2 sen o sen c' ' 

Seja t' o maior dos Ires lados. Serao o' + 6'>c', c' + 6' > a' ; e para que sen - a seia 

real , teremos a' + c' > &'• Logo : a somtna de dots lados ijuaesqucr c maior que o Urceiro. 

Para que seja cos -^ a real, deve ser a'+6' + c'<; 3G0°. Por tanlo a somtna dos Ires 

lados esla comprebendida enlre 0° e 360°. Se esla somina fosse 0, o triangulo seria recti- 
lineo; e se fosse 360°, o triangulo serin urn fuso splierito. 

3. A mcsma formula (1) applicada aos tres angulos a, b, c, e eliminados depois 
6', c' , da 

/ /" + l' + c\ /b+c — a\ 

1 , \/-'°'{-^)'''"{-^—) 

sen - a' = V ; . 

» ' sen 6 sen c 

Seja a o maior angulo. A expressao de sen - a' mostra qne , para que ella seja real 

deve ser - — > 90° c < 270°, on a + b + c> 180' e < 540*. Por tanlo a somma dos 

tres angulos esta comprebendida entre 180° e 640°. Se esta somma fosse 180°, o triangulo 
seria rectilineo ; e se fosse 640°, o triangulo tornar-se-liia em uma semi-spbera , de sorte 
que OS sens tres vertices seriam ponlos do circulo niaxinio. 

No caso de n.'io ser a o maior angulo, a expressao de sen - a' moslra qne ainda deve 

ser: b + c — a< 180°; e por isso esta propriedade tem logar, qnalqucr que seja o angulo o. 
As propriedades relativas aos angulos, que acnbamos de referir, resullam egualmenle 
como deve ser, das relativas aos lados, qnando eslas se applicam ao triangulo supplenien- 
tar. Porque a' + b' + c' >0, e < 360°, e a' + b' > c', dao .540° — (a + b + c) >0,e< 360° 
e360° — (a + 6)>100° — c, ou (2 + 6+c<540°, e > 180°, e a + 6 — c< 180°. ' 

4. Para evitar cnganos nos signaes podem os quatro tlieoremas fundamcnlaes, que 
todos se encerram no ( 1) , enunciar se do seguinle modo : 

1.° Cosetto d'unj lado i egual ao coseiw do angulo opposto miiltiplicado pelo prodtt- 
clo dos senos dos o\ilros dots lados , jna/s o produclo dos cosenos dos luesinos lados, 

2 " Senos dos an^idos sdo proporcionaes aos senos dos lados opposlos. 

3.° Produclo dos costnos das paries vtedias e egual a differenga dos senos das inesniiii 
partes multiplicados respeclivamenle peluf eolangenles das extremas , lado com lado e an- 
gulo com angulo • sendo lyrgalivo o Icrmo em qu,e ha so angulos. 

4 ° Coseno d'tim angulo i eguol ao coseno do lado opj>osto multiplicado pelo produ- 
clo dos senos dos outros dois angulos-, intnos o produclo dos cosenos dos mesnios ani^ulos. 

Kos tbeoremas 1.*, 3.°, e 4.° e negativo np segundo membro o termo em que entrani 
so angulos. E note-se que a inicial n de negativo entra na palavra angulo, e n.vo enira na 
palavra lado : observacao esla que lorna impossivel o engano nos signaes. 



132 

5. Adverliremos que no 3.° tliRorema tanto imporla dizer que entram Huis lados e 
dois ani^iilos, sendo iini d'elles comprelicndido e o oiilro opposlo , coino dizer que ha 
qualro partes conjunclas. Coutinuando o, 6, c a designar angulns , e a',b', c' os lados 
op|)oslos , as partes medins serfio dims letras diirerentes , iima applicada a lado e oiitra a 
angulo, e as partes exlremas ser'io a lerci-ira lelra applicada a angulo e a lado. 

Por exemplo: se iorem a' e b' os lados, ec o aiigulo compreliendido , teremos 

a', c, I)'; 

e a quarta qiianlidade seru urn dos angulos opposlos a a' e b' : de sorle que se formar;i 
iiin dos systemas 

h , a' , c, b' ; a' , c , b' , a; 

nos quaes s.io medias as ietras dil'ferenles a' e c, on c e b' , uma angulo e oulra lado, e 
extreinas a terceira letra 6 ou a , applicada a angulo e a lado. 

6. Applicarido a uui d'estes svslemas, por exemplo, ao prirneiro , o etnirniado do 
llieorema 3.*, aelia-se 

cos a' cos c = sen a' cot b' — sen c col b. 

E dividindo anibos os membros por sen a' sen c, resulla a equa5ao 

cot b' col 6 
cot a' cot c: 

na qual so entram cotangentes e senos, e que da para o theorcnia 3.* o noro enunciado 
seguinle : 

Producto das cotangentes das partes medias e egud a differenga das cotangentes das 
exlfemas divididas respectivamente pelos senos das mesnias medias , lado com lado e an- 
giilo com angulo ; sendo ncgativa afracgdo cujo numerador tern angulo. 

Esta transformajao , a. qual, como seve, corresponde tambem urn enunciado que 
facilmenle se pode decorar, foi lembrada pelo dislinclo geometra portuguez o sr. Manoel 
Pedro de Mello, lente de malhematica na universidade , cujo nome por niais d'uma vez 
se le na Astronomia de Delainbre. [Vej. Astronom. de Delainbre, toiiio 1." cap. X n.* 

194 (#)]. 

Lenibraremos com ludo que niuilo convein acostumar-se cada vim a enunciar os liieo- 
remas d'uin so inodo , para evilar a confusao que do lialiilo conlrario resulta seiiipre, 
como nos tem mostrado a experiencia, 

7. Quando se quer usar dos logarilhmos no caloulo das formulas, deduzidas dos qua- 
Iro theoremas fundarnentaes, ou se transformam estas formulas nas de seno ou loseno d'a- 
inetade d'arco ou d'angulo (nn. 2 e 3) , ou se emprega a Iransformarfio seguinte, quando 
a expressao proposla e da forma: 

jM cos a.-T iVsen a. 

Como esta expressao cquivale a 

,. / -^ '\ »- /•''W , \ 

Jli f cos a + -T7 sen o ) , ou A' ( -nr cos a + sen a.) , 

as hvpotliesfs — =tangip,ou — = col ^ , Iransformam-na em um dos systemas : 



M -■■°t"" AJ 






} 



M cos (a. a) JVCOS (oc o) 

:lang »; c —, ou 

cos (], sen ip -' j^'_: 

cot ^, ; e LlZJLi , ou i- — IZ 

sen ^ cos iji J 



8. Eslas Iransforma^oes analyticas sao as mesmas que se obtem , quando se decompoe 
o iriangulo proposto em dois triangulos rectangulos por meio d'um arco perpendicular 
abaixado d'um dos vertices sobre o lado opposto. 



133 

Mas n'esia decomposi5So convein abaixar a perpendicular de modo que parta o manor 
luimero d'elementos que eiiUam na qiiest'io. Se cstes elementos sfio dois lados e dois angulos 
opposlos , a perpendicular aljaixada do lerceiro angulo n"io parte nenlium dos eleinentos; e 
cada um dos Irianj;ulos rcclangiiloi tern entfio dois elementos , com os quaes e com a per- 
pendicular comnium se forinani duas equagoes, e se elimina entre ellas a mesiiia perpen- 
dicular. 

No3 onlros casos o menos que se parte e um clemento, angulo ou lado , e ficam 
entao dois elementos em um trianguio, e uin no outro trianguio. Com os dois elementos 
do primeiro trianguio delerniinam-se os segmcntos do clemento que se partiu : depois for- 
ma-se no scgundo trianguio uma equa^ao entre o clemento d'elle, o segmento acliado , e 
a perpendicular; e no primeiro trianguio out'ra equagao semellianle entre as paries analogas 
d'elle: e fnialmente divide-se uma d'estas equa^nes pehi outra, o que elimina a perpendi- 
cular. Ficam assiin duas equagoes, a primeira das quaes da o segmento, e a segunda dli 
o elemenlo que se procura. 

O segmento e o angulo auxiliar, de que se fallou no n.° precedente. 

9. N'cste calculo dos triangulos pode haver duas especies d'erros, que sfio: erros dos 
elementos, e erros das tabnas dos logarillimos de que nos servimos. E necessario pois co- 
nlieccr a influencia d'estes erros soI)re as partes que se procuram , ou para escollier as 
tbrmulas, ou para apreciar o grao de confianga que se deve ter nos resultados. 

Examinemos, por exempio, a expressao de sen- a (n.° 2). Se para o culculo d'ella 

usarinos das taboas de logaritlimos das linlias trigonomctricas com um dado numero de 
casas decimaos , por exempio, dc sete nas laboas de Callet , o limite do erro d"um loga- 
ritlimo c 0,5 d'essa ultima casa, e por conseguinte o limite do erro do logaritlimo do segundo 

membro e — ;^— ^::=1. Fazendo pois sen _a = Jl/, ^ log sen - a = J' log w1/< 1 , e cha- 

mando m o modulo, resulta, em minutos 

2 tang 1 a. (/?') 
* o = i log 71/; 



<inde {W) e o raio em minutos, ou , sem erro sensivel , lB}\z^ . Ve-se pois que a 

' sen 1 

iormula proposta pode dar erros consideraveis quando o angulo auxiliar for muito proximo 
de 130°. 

Semelliantemente fazendo acxpressao de cos - a= N , vem 

Scot - a. (Ri) 

Sa= J log N ; 

ill 

e a tormida e muito sujeita a erro quando o angulo a e muito pequeno. 

Emfim, dividindo uma das equagoes pela outra, resulta lang-a=:P, que dii 

sen a. (R') 

» a = ^ — '- s log P ; 

111 ° 

por onde se ve que a nova formula e muito vantajosa quando o angulo a e muito pequeno, 
e que nunca e sujeita a grandes erros. [Vej. calc. das Eph. Astr. n." 48 (*)]. 

10. Em quanto aos elementos, devem escollier-se aquelles cujos erros menos intlui- 
rem nas quanlidades procuradas ; mas, feita a escollia, nao iniluirao por parte d'elles no 
resullado as Iransformagoes, que se fizerem. 

Com effeito, qualquer que seja a forma da fimojuo/ (a?, ?/) = 0, sempre se lirara 
d ella 3/ = (p(a?), sendo tp a mesma para a mesma questao ; e por isso a relagao entre os 

erros de y e x sera sempre -p=f' (x). 

f^O"''>"'C- RODniGO RIBEIRO DE SOUSA PINTO. 



134 



Conla dcmonslrativa iV applicagao ([uc Icvc ci verba de 9:5JO/ooo, rolada 
no orgamenlo para o anno economico de 1053 a 1854, para despcsas dos 
divcrsQS esluhelccinicnlos da Unir< rsidadr de Coimbra. 



Destffnii^ao da dcspcsa. 



LYCEL DI-: COIMBRA. 

Desposus d'oxpodiento , 

DiUis de ii'paros feilo; pela casa das obrai 

UNIVERSIDADE DE COIMBRA. 

SeCBKTARI.i E GERAES. 

A amanuenses extraoidinario?, einpregados na sccrctaria, 

c servi^o da Vice-reiloria 

An armador da salla dos capellos 

Despesas d'expcdiente da secrctaria, aulas, e conscllios 
das faculdades acadernicas 

TUEATGO ANATOMICO. 

Ao ajudante preparador, gratificagao concedida pela por- 
taria do minislerio do reino de 30 de dezembro de 1852 

Ao 111050 pelo sen vencimenUi de SJ'OOO pnr me/. 

Aocoveiro, pela conducg.io de cadaveres para o llieatro 
analomico 

Pela coinpra d'uni mic-roscopio, um triloupe , e nma l^'nte 

Despesas em livros e encadernagoes l^D'^O 

Dilas d'expediente c reparos (i(!^'750 

LABORATORIO GRIMICO. 

Ao gtiarda , gralifica^'io concedida pela portaria do mini- 

sterio do reino de 18 de dezembro de 18.52 

A um aprendiz , de salaries 

A iini niogo effeclivo 

Despesas em livros e encadernagoes 4^bi-0 

Ditas de oxpedienle, e manntenj.'io 71^'885 

Ditas de reparos feitos pela casa das obras .... l;!oJ[455 

GABINETES 

DE UI9T0RI1 NATURAL. 

Ao guarda, gralificajao concedida pela portaria de 30 
d'abril de 18.J3 

Ao mesrno guarda, gralificagao pelos preparados, qne apre- 
sentou, segundo a portaria de 3 de margo de 1837.... 

A iim aprendiz , de sens vcncimentos 



f'crlas parcines 



'If) ,3:010 

CljS'195 



101,;S'GOO 
lOj^OOO 

201jS600 

82J'770 



109j5'600 
3G,^'000 

17;^'200 



1G2|'700 
85.5'3-IO 

7I,;S'670 



30.5000 
43^840 
43j^6l0 



117/430 



2141880 



301^000 

60/000 
64|080 



134/080 



'J'lildUiladts. 



107/205 



284/370 



319/710 



332/360 



1:043/645 



135 

Designa^no da despcsu. 

Trunsporte 

Despesns d'expediente e cosleameiilo 9jl^260 

Dilas de reparos feitos pela casa das obras .... 1 jf750 

I)E MINEKALOOU E CEOLOGIA. 

Despesa em compra de livros para a aula 

OE PHVSICl. 

Despcsas d'expedionle 

JARDIM BOTANICO. 

A iini aprendiz, rao^os effecLivos e jornaleiros 

Despesas em livros e joriiaes . 5Gj^440 

Dilas de expediente, uLeiisilios e reparos.... 7djf210 

OBSERVATOniO ASTIIONOMICO. 

Aoi dois collaboradores temporarios para o calculo das 
epliemerides aslroiinmicas, segiiiido a portaria do ministe- 
rio do reino de 6 d'oiUuljro de IS-iS 

Despesas d'expedienle, e condiicjfio dos iiovos 

iiislriimeiilos 31,^795 

Dilas de reparos feilos pela casa diis obras . .. 26Jf485 
: OCTl 

HOSPITAES. 

Dietas dos doenles , e comedorias dos empregados 

DISPENSATOBIO PHABHACEUTICO. 

A pharmaceiilicos Ictnporarios 21^^440 

Ac 111090 da bolica . 4j^800 

26^210 

Alcdinainentos c oulras despesas 170^325 

BIBLIOTUECA. 

A urn 1111150 elTeclivo a 200 reis por dia 

Despesas em compra de livros, joniaes, e eiica- 

dernaijGes 141,^120 

Ditas d'expediente 21,|,330 

Dilas de reparos feitos pela casa das obras .... 20831395 

CAPELLA. 

A03 dois mogos da capella, de sens vcncimenlos 



f'erbas parciaes. 



Tolalidadet. 



134J'080 
11^^010 



146j^090 
80/989 

6/r>d0 



397/640 
131j^650 



290/000 
68/230 



4:488/000 



196^^565 



73/000 



370/845 



91/995 
91/995 



1:043/645 



232/729 



529/290 



348/280 



4:684/665 



443/845 



7:282/354 



136 

Vesigiia^uo tttt tlespeaa. 

'J'ruiispoi'le. ....... 

Aos dois inogos da capella, para becns, que voiicein de 

dois em dois aiinos 

Aos ditos iiara Ijarreles 

FESTIVIDADES. 

Saiila Isalx'l 01j:i20 

Pre5li(o a Santa Clara cm 1G53 !)),580O 

S. Miguel, e o jiiramcnto 1'2^-1'J..D 

'I'odos OS Santos 2,|'520 

Conceit-no ....„..,.,: 12^(i70 

Pdrifiea^-ao . . . ^^.4 . j-.- 17a^'235 

Arniiiiicia(,-fio n.J3-10 

Seaiana Santa 254.j:365 

Excqiiias do sfir. D. Joio III , 48 J'loO 

Propinas aos lentes e mais empregados 60^800 

717JG15 
Divcrsas despesas : . . . . 22 J 935 

CiSA DAS ODRAS, 

Ao mestre das obras , a 300 reis por dia 

Ac fiel apontador, de seu vencimento 

Jornaes, materiaes e reparos nos edificios , e estabeleci- 
mentos nfio especificados 

AnCHEIBOS. 

Aos 10 aiclieiros, pelas suas soldadas a 160 re'is diarios a 
cada u m 

Aos ditos, por compra de pannos para o fardamento annual 
de policia 



I'erbus parciaes. 



I)l^!)!)j 



24/000 
IrfS'llO 



117,^435 



710|'.370 



]09J'500 
100^000 

209/500 
509/7'rO 



584/000 
C6/371 



Reis ... 



Tolaliilades. 



7:282/354 



858/005 



719/270 



J 



C50/371 



9:510/000 



,f:t 



RESUMO. 



Despesas feitas com o lyceu 

Ditas com OS estabelecimentos e reparlijoes da universidade 
Ditas com os liospitaes, e dispensatorio pharmaceutico . . . . 



107/205 
4:718/230 
4:684/565 



Reis . . . , 



9:510/000 



Secretaria da Universidade em 13 de Jullio de 1854. 



Vicente Jose de Vmconcellos e Silva, 



Eugenia Antonio Galeae. 



€> 3n0titttto, 



JORINAL SCIENTIFICO E LITTERARIO. 



UN1VERS1DA.de DE COl.MBRA. 

Ministerio do reino — 1.' direccao — 1.' re- 
parlifao — livro 12 — n.° 293.=Sua Magesta- 
de El-Rei, Regente cm noine do Rei, a quem 
foi presente o officio do vice-reitor da uni- 
versidade dc 7 do correntc raez, dnndo conta 
do resultado dos examcs preparatorios fcitos 
no lyceu nacional de Coimbra, e do modo 
como neste servico se liouvcram os prcsiden- 
tcs e vogaes dos divcrsos jurys qualificadores : 
Manda pela secretaria d'estado dos negocios 
do reino, que o mosmo vice-reitor louve em 
seu real nome os ditos presidentes e vogaes 
pelo zcio, que uns e outros mostraram, tanto 
na assiduidade do trabalho, corao no bem 
cntendido rigor e na igualdade da justica pa- 
ra com todos, — e bem assim odoutor Luiz 
Albano d'Andrade Moraes e Almeida, pelo 
aprovcitamento com que tem cido por elle 
regida graluitamente a cadeira de geometria, 
em cujos exames teve grande parte. Paco de 
Cintra em 18 d'agosto de 18oi. = Rodn'go 
da Fonseca Magalhdes. 



r;" APONTAMENTOS BIOGRAPHICOS 



SOBRE ^OSSO INSIGME POETA Ll'lZ DE CAMOES. 



Quando abrimos o livro d'ouro, com que o 
principe dos poetas portuguezes enriqueceu a 
nossa lingua, e illustrou a nossa historia, ele- 
vando a superiores regiOes as acfoes estrema- 
das daquelles portuguezes, que tanto se des- 
linguiram no Oricnte, no seculo XVI ; e lemos 
aquelles versos cheios dc conceitos, e harmo- 
nias poeticas, que aili sc encontram, nao sa- 
bemos qual se deva mais admirar, se o genio 
da poesia, em que a alma se arrebata contem- 
plando tanta sublimidade, se o amor da pa- 
tria, que tanto em Luiz de Camoes avulta, 
nap movido do premio vil; mas daquelle fogo 
d'iraaginafao, daquclla viveza, e forca d'ex- 
pressao com que faz esquecer quanto ha de 
sublime nas antigas e modernas Epopcas, para 
levantar um padrao eterno a memoria glorio- 
sa de seus compalriotas. pocma de Ca- 
moes ha dc ter tanta duracao, c ha de ser esti- 

VoL. III. * Setembro 1.°- 



mado pelo niundo litteralo em quanto durar 
a lingua em que foi escripto, apezar dos de- 
feitos, que unia apurada critica Ihe nota, bem 
desculpaveis, certo na apoucada humanidade, 
cujas obras jamais podem sair perfeitas! 

Que um tao insigne poeta, um tao raro en- 
genlio, um competidor nao indigno dos subli- 
midades de Uomero e Virgilio, vivesse e raor- 
resse na obscuridade, e um tao extraordinario 
phenoraeno, que nao podemos encaral-o sem 
nos subir a cor ao rosto, contemplando o pou- 
co zelo, com que os seus contemporaneos dei- 
xaram delinhar na miseria, e no leito da morte 
tao aprimorado auclor, csquecendo logo sua 
honrosa memoria ! 

Fluctuando em incertezas sobre a-sua filia- 
cao e naturalidade, e sobre os particulares de 
sua vida toda cheia de mysterios, e d'amar- 
guras, apenas ousamos arriscar conjeeturas, e 
firmar hypotheses para dellas tirarmos con- 
sequencias sem podermos ale'gora descobrir 
documentos, que nos guiem a vcrdade, e nos 
dissipem as trevas, que quanto mais queremos 
penetrar mais pareee se condensam. A pouca 
Ventura d'este poeta, e sua natural infelicida- 
de talvez se possa mais attribuir a este secreto 
destino da Providencia, a esta ncgra fataMda- 
de marcada por raao occulta na sua estrada da 
vida, do que a outras causas, que, como con- 
sequencias d'esta, prepararam seu desgracado 
estado durante sua existencia, como a historia 
nos mostra em rauitos casos semelhantes, ele- 
vando uns e abatendo outros, segundo seus 
desvairados capriehos! Alexandre Pope, bem 
conhecido poeta, depois de muito estudo e 
meditayao, alem de outras obras com que cn- 
nobreceu a sua patria, offereceu ao publico 
a sua traduccao de Uomero, e para a sua 
publicacao as subscripcoes que obteve subiram 
a duzentos mil cruzados, com que fez a sua 
fortuna, e segurou sua subsistcncia, como 
nos diz um grave escriptor. Milton compoe 
um poema elegante, e original, que tanto 
honra os annaes poeticos da Inglaterra, e 
morre na indigencia, sem auxilio, e desco- 
nhecido de seus compatriotas, e ainda hoje o 
fora, e sua memoria estivera no esquecimento 
se nao fosscm as annotacoes de Adisson, que o 
fez conhecer ao mundo illustrado! cantor da 
Jerusalem, Torquato Tasso, depois de immor- 
talizar a memoria das cruzadas, e perpctuar 
1854. Num. U. 



138 



T 



a k'liiliranra do rojnado do scu hcroe Godo- 
frodo em fraula xonora e helicosu, atravcssa a 
Calabria quasi descalco, c clicgando as portas 
de Turim os {;uardas llie vcdam a cntrada 
fonio se fosse um ciiiiu'stado, vciulo-o coherto 
de lairapos, palido, e cnliado. cantor dos 
Lusiadas, (]ue laiita lionra deu ao iiome por- 
luguez; oslromado hisloriador das navoga- 
coi's do iliustre Gama, morre pobrc, c iguo- 
rado, soiii com certeza sabcriiios se no liospital 
de Lishoa, se em casa sua ! Tal e o destino que 
a |iro\ ideiuia tern marcado aos liomcns iia 
sua breve carrcira, como clle proprio diz na 
estaiuia 38 do caul. 10. 

Ocniltfis o« j lizos (le Dcoa sHo 
As ecritcg va.is. qnt- iiriii uN enlen-ierain, 
(.'h.imain-Ihe fH<!o ni;io. forltina cscura, 
Seiulu so jiro\ iilt'iicia tie Ueus puru. 

Grande e ainda a duvida, que ale'qui tern 
enleado os biographos sobrc a naturalidade 
do nofso poeta. Manoel Correa, seu amigo, e 
couteiiiporanco, como elle proprio conl'essa 
iios sous commeutarios, podendo de tudo dar- 
nos cabal conliecimeulo ; tao escasso, e avaro 
-se mostra era demasia a tal respeito, que nada 
grangeamos de sua leitura, que satisfaca 
iiossa curiosidade, c nos sdte as difficuldades 
cm que nos acliamos. Uesculpa neiiluima clle 
merece per tao censuravcl silencio, ou antes 
reprehensivel reserva! Pedro dc Mariz, que- 
reudo remediar a folia do precedente, caiu em 
cngauos, de que com bastantc razao o accu- 
sam os criticos. Manoel Sevcrim de Faria, 
chantre d'Evora, incansavel era doscobrir 
com muila diligencia, e boa crltica docunicn- 
los com ([ue tanlo enriqueceu a nossa littera- 
tura, nada iez para nos tirar das duvidas, e 
dos enleos, em (]ue nos acbamos cnredados. 
ilanoel de Faria e Sousa em nada inferior ao 
precedente, e talvez antes superior cm conje- 
ctiiras, que faz com deuodo, nem corta os 
embaracos, nem solta as duvidas, que sobre 
estes pontos a cada passo se Icvaulam. 
iliustre, e eruditissimo bispo de Viscu o snr. 
D. F. k. Lobo na memoria sobre CamSes, que 
ofl'ereceu a Academia, e corrc imprcssa entre 
as da mesma como seu socio, tendo consulta- 
do todos OS que escreveram sobre a gencalo- 
gia, e vida do nosso poela, ainda que dcclara 
seus paes e avos, nao produz documenlo al- 
gum em prova de sua opiniilo, nao devendo 
por isso ter mais credito, do quo aciuelles 
donde elle tirou taes noticias, e que primei- 
ro as publicaram. Nao fez por tanlo mais do 
que escollier a(iuella que mais avisada ilie 
pareceu cntre as difforcntes opiniOes dos que 
antes delle escreveram; extromando a que 
achou mais conveuicnte, fundado cm conje- 
cturas c argumeutos a ccrca da sua natura- 
lidade! 

Tao pOHco rclevante ella se conhece, que 
no programma da mesma Academia para o 



anno de 18o6, que *o annunciou na sossao pu- 
blica de 5 de juMio do presente anno, vfi-se 
publicado para concurso = L'ma vida de Luiz 
de Gamoes mais completa, e mais exacta, que 
as atc'gora publicadas, fundando-sc o seu A. 
quanio for i)ossivel em docuraentos, ou testc- 
munhos ineditos. ' = Daqui se conhece quanto 
e incerto tudo o que ate'gora se tem escripto 
rclativamente ao nosso poela, e quanto c dif- 
licil penetrar certos myslerios debaixo dos 
quaes se csconde a bisloria da sua vida; por 
que aonde os dorumenlos fallecem nada esla 
pode aflirniar, sem receio dc dcgenerar em 
tabula. 

Uiversas sao as opiniocs, que atc'gora teera 
corri<lo sobre a sua naturalidade, dizendo uns 
scr de Goimbra, oulros dc Lisboa, e outros 
dc Santarcm. A segunda destas se inclina a 
citada memoria do erudito bispo de Viseu, e 
para prova scrve-se da Elegia III do poela — 
« cm que dc ccrlo modo se diz desterrado da 
« patria ao mesmo tempo que e constante, 
« que a escreveu andando desterrado de Lis- 
« boa. Alii se compara com o terno Ouvidio 
« que — de sua patria os olhos apartando — 
« ia dizendo aos monies e rios as suas quei- 
« xas: e fallandoem maviosos versos com as 
« aguas do Tejo ihes diz que espera aquelle 
« alegre dia — Que eu va onde vos ides livrc, 
« c ledo. ^ — Mas mal pode concluir-se d'este 
pcqucno razoado que fosse Lisboa a terra da 
sua naturalidade, quando graves fundamen- 
tos me induzem a pcnsar de differente modo, 
como adiante direi ; e quando mesmo o pro- 
prio poela, fallando das margens do .Mondego 
e suburbios de Goimbra na canrao IV parece 
inculcar esta cidade como terra da sua natu- 
ralidade, pois dirigindo-se as aguas claras do 
Mondego, e sobre cllas soltando suas queixas 
por nao gozar ja daquelle riso brando, e suave 
olliar sereno, que sempre n'alnia Ihc estara 
pintado; assim scexprime: 

Nesla floruia lerra 

I^eda fiesta e scren.l 

Ledo contente para raim ^ivia 

.... Cunk'iite tura a |iena 

Que Je t.lo bellus olhus prosceclia 

UlQ (lia no oiilro dia,... 

LoDiro lenipo passei 

CuQi a \ida fulu'uei. * 

eic-. 

Mngucra exprimiu ate'gora o tempo do ti^ 
rocinio academico por toufio tempo (|ue pas- 
sasse nesla terra, antes elle mesmo parece 
lastimar-sc de sua raolina sorte o fazerapartar 
della, e viver iongc daquella, que tanto do 
coracao amava, e a quem parece dedicar tanla 
ternura, como pessoa conbecida, c rclaciona- 
da ja desdc o primeiro verdor dos annos, cu- 
jas impressoes mais dilliccis sao de apagar. 

* Vej. o discurao on relr.torro da Acad, real dasscienc. 
danilo conta da fessao de 5 di- jiilho de 1054. 

^ Tom, 1.** dassuas obras, pa^. 89. ' 

* Camues. Uimas — Canr-io 4.* 



139 



Sc della pois sc nuzcnlou, como c certo, cm 
idade ja adulta, lenho para mini que nella foi o 
seu berco e de alguns mais dc sua familia, ate 
que de todo se extinguiu, perdcndo-se com 
seus bens a memoria de todos cllos na escuri- 
dade dos tempos. 

Foi Luiz dc Camocs filho dc Simao Vaz de 
Camoes, segundo diz o citado c crudito Bispo 
de Viseu' c ncto de Joao Yaz de Camoes, 
c nao de Antonio Yaz, como ellc diz scm pro- 
va algiima. Assim o cnconlro cm urn docu- 
cumcnto scm duvida, nem suspcita alguma. 
E cste documcnto uma cscriptura de renova- 
cao de prazo, que o Cabido da cathedral dc 
Coimbra fez cm 3 d'agosto de 1552 ao dito 
Simao Vaz'' de umas casas que ja tinham sido 
de seu pae Joao Yaz de Camoes (que nos 
diversos documentos do Cartorio da dita 
cathedral c designado com o alcunho dc Yilla 
Franca), e que clle possuia na rua da Porta- 
nova, que hojc conbeccmos com o nome de rua 
dos Coutinhos ; as quaes tcndo sido mais tardc 
alheadas, foram compradas por Manocl de 
Brito Barreto c Castro, e actualmentc perten- 
ccm a snr.' herdeira da casa da Portclla e Yil- 
la Franca, em que ora vive o sr. D. Salvador 
Manocl de Yilhena, e sua esposa, viuva que 
ficou do sr. Antonio de Brito, hcrdeiro que 
foi de toda a casa de seus paes. 

Foi Joao Yaz Camoes (que d'alcunho chama- 
vam Joao Yaz de Yilla Franca, como Ilea dito) 
fidalgo e cidadao d'csta cidadc, e ja em 1302 
nella vivia; porque cm 9 de Janeiro d'estc 
mesmo anno elle renunciou a terceira vida quo 
tiiiha em um prazo no sitio do Alvor, pcrto 
d'esta cidade, e do senhorio clirecto d'este Ca- 
hido, a favor de sua mulher Catalina Pires, e 
para um filho oit fillta d'entr'amhos' , e n'estc 
documcnto se designa o dito Joao Yaz por 
cscholar cm direito e raorador ncsta cidade. 
Donde podemos concluir, que ncsta data era o 
dito Joiio Yaz estudante, morador ou cidadao 
de Coimbra, e casado com Catharina Pires, sua 
primeira mulher, a qual ainda vivia em 1508, 
e seu nome se achava averbado como forcira 
a esta Se no livro dos foros d'azeite daqucllc 
mesmo anno*. Nao aparece d'este anno cm 
diante mais o nome d'csta Catharina Pires: 
talvez falecesse pouco dcpois; por isso que 
cm 1328 acha-se mencionado cste mesmo 
Joao Yaz de Camoes, escudeiro, cidadao, mo- 
rador em a dita cidade, casado com sua sc- 
gunda mulher Branca Tavares.' Mostra geral- 
mente a cxpcriencia tcrcm d'ordinario os pacs 
maior inclinacao e alTecto aos lilhos do se- 
gundo que aos do primciro matrimouio, neste 



* Tom. cit. pag. 27 e 23, e concorila com o que iliz 
Moreri Dice. »rt. CamScs, fazenJo-o nelo Je Anloiiio 
Tai, o que as?im nao i. 

^ Vfja-se ilocuraento n." 1. 

^ L. 4." dos empra7.ampnt03 da catliedral ful. 175. 

•* L. do aicile de 1508 foi. 2. 

* L. 7." dos cmprazamentos foi. £22. 



caso SO achou Joao \'az, porque tcndo tido do 
primciro Simao Yaz de Camocs, achamos o 
mesmo Joao Yaz a contractar cm 1530 com 
seu irmao Pero Vaz, morador na Villa de La- 
gos, reino do .^Igarve, escudeiro do sr. conde 
de Monsanto, a rcnuncia das casas que cste 
possuia na rua dos Coutinhos, a seu favor, e 
de sua mulher Branca Tavarcs, c para um 
lilho ou liiha, dcntrc ambos qual o dcrradciro 
nomeasse cm terceira vida, c\cluindo desta 
sorte seu lilho primogenito Simao Vaz. ' Desta 
arte vio clle passar a casa patcrna aos irmaos 
do segundo matrimonio; cnire os quaes foi 
Isabel Tavarcs a nomeada por successora do 
dito prazo das sobreditas casas. 

Falcccu Joao Yaz pouco mais ou menos em 
1550, pois que cm 7 dc maio d'este mesmo 
anno, se acha uma cscriptura de rcnovacao 
de vidas a favor de sua (ilha Isabel Tavares', 
moradora nesta cida<lc, em casa de sua thia 
(irma de sua mae) Filippa Tavarcs, pela qual 
Cabido a rcquerimento seu, e por ja scr 
falccido seu pae Ihe cmprazou as casas na rua 
da Porta-nova (rua dos Coutinhos) ja mcn- 
cionadas nestcs apontamcntos, por Ihe (ica- 
rem em terceira vida pela nnraeaciio que del- 
las Ihe fez rcferido Joao Vaz, seu pae. — 
Conclue-se do cxposto que Joao Yaz de Ca- 
mocs fora duas vezes casado, a primeira com 
Catharina Pires, de quem teve Simao Vaz, 
e a scgunda com Branca Tavarcs de quem 
teve Isabel Tavares, cuja familia vivia nesta 
cidade com geracao, que mostro na arvore 
junta no fim d'estes apontamcntos, c que pe- 
las vicissitudes dos tempos, e ma fortuna, ou 
antes desgraca dos Camoes ficou confundida 
sua geracao com a dos Tavarcs, e toda a sua 
casa passou para os parentes collateraes (pre- 
terindo a linha de successao) cujo tronco foi 
Branca Tavarcs, e sua irma Filippa, que fo- 
ram OS continuadores da successao, ate que 
de todo se extinguiu esta linha cm 1643, e 
passou algum resto ainda para outros paren- 
tes e collateraes dos Tavares \ como se ve na 
arvore que liz a vista dos documentos. 

Coniiniia. 

JIIGIEL BIBEIRO DK VASCONXELLOS. 



ASTRONOMIA. 

C0NJECTtR.\S SODRE ESTADO PRESENTS DOS PLA-' 
NETAS JCPITEn E SATURNO EM RELACAO A SUA 
TEMPEBATURA. '/ 

M. Nasmyth aeaba de apresentar a Socie- 
dade astronomica de Londres algumas mui 
importantes consideracoes sobre os phcnome- 

' L. 8 ° dito foi. 58. Vcj. o documcnto n." 1. 
^ L. 0.° dilo foi. 167. 

^ Vfj. o documenlo n.* 2 e a arvore a final em que 
vai a descendencia dos Tavares. 



140 



DOS pspeciaes, que caracterisam a superficie 
Jos dois pianolas, c Ihe dao um mui singular 
aspecto. 

Estas judiciosas consideracoes, que aqui 
cxtractamos, foram offerccidas pelo auclorpara 
excitar a atlencao dos sabios e chamar a dis- 
cussao sobre cstc grave assumplo, que se liga 
as mais elevadas tlicorias da cosmogonia, e 
que e por isso digno do mui scrio exame. 

« N'unia memoria sobre a eslructnra e es- 
lado da superficie da Lua, diz M. Nasmyth, 
fiz aigumas obscrvafoes a cerca do principio, 
que me parcce, cxplica a marcha progressiva 
do arrefecimento dos planctas; isto e, sc a 
propricJade de conservar cm si o caior fosse 
devida a massa do planela ; a da sua dispcr- 
sao seria proporcional a sua superficie, c come 
a primeira crescc como o cubo do diametro 
do planeta, cm quanto a scgunda nao au- 
gmenla, senao como o quadrado do raesmo 
diamelro: o espaco de tempo necessario aos 
planetas de tamanho volume, como Jupiter, 
e Saturno para arrefecercm desde o prinii- 
livo estado de fusao e incandesccncia ate uma 
lemperatura, que permittisse a sua materia 
oceanica condensar-se permanenteniente, c li- 
xar-se a sua superficie, seria infinilaincnte 
maior, que no easo de um planeta tao pequeno 
comparatlvamente, como a terra. 

i( Admillindo os rcsultados, que as inda- 
gacoes geologicas teem claramente estabcleci- 
do, quanto a primitiva fusao da terra, como 
guia para reconhecer o estado de todos os 
outros planetas, parece-me, que toniando esle 
ponio de partida, se deve cliegar a estabelecer 
alguma lei rclativa ao estado actualmente 
provavcl, dos planetas de tao extraordinaria 
grandeza, como Jupiter e Saturno, e que 
expliquc cerlos phenomenos, que se veem a 
sua superficie. 

« Dando como demonstrado o estado origi- 
nario da fusao da terra, e remontando ate as 
epochas primitivas da bisloria geologica do 
globe, podem dcscortinar-se alguns vestigios 
da causa d'esses espantosos diluvios, de que 
OS phenomenos goologicos nos olTerecem tantas 
provas, particularmente pelas acfOes chimicas 
e mcchanicas cxercidas sobre as formacoes 
igneas, unicas enlao existentes, e que sos por 
si deviam fornecer os materiaes da crusta da 
terra. Se unicamcnte nos rcferirmos pelo 
pensamenlo a esta antiga cpocha da historia 
geologica do nosso planeta, em que era tao 
elevada a temperatura da superficie, que a 
agua so podia existir alii debaixo da forma 
de vapor, e se observarmos scu estado desde 
esta condicao nao oceanica ate ao periodo, era 
que, ])or elTeito do arrefecimento da sua super- 
ficie, comcrara a terra a ser inundada por tor- 
rentes parciaes, e passageiras do occano, que 
ate entao so existira sob a forma de um gran- 
de involucre vaporoso em torno d'ella; taes 
consideracoes sao, nao so o mais elevado as- 



sumplo de importantcs reflcxoes a respeito da 
primitiva condicao do nosso globo, mas tam- 
bem, segundo parece, uma base Icgitima para 
estabelecer as nossas conjccturas sobre o es- 
tado actual dos dois grandes planetas, que 
por isso eonsidero dolados ainda de uma tao 
alta temperatura, que nao pcrmitlc, que a sua 
materia oceanica abandone a forma vaporosa, 
com que os involve, para se precipilar era 
abundantcs chuvas, deixando-os por consc- 
qucncia expostos a repetidas perturbacoes, 
causadas pclas infructuosas tcntativas, que 
esse mesmo involucre faz para descer tcmpo- 
raria e parcialmenle sobre a superficie ainda 
incandescente do planeta. 

« Lanccmos ainda os olhos sobre esse pri- 
mitive pcriedo da historia geologica da terra, 
em ([ue este plaueta cstava cercado de um 
dense involucre vaporoso, contendo toda a 
agua, que constitue hoje o oceane. A porcao 
exterior d'estc involucre vaporoso deve, cm 
virtude da irradia^ao do seu calorico no es- 
paco, ter caide continuamente em torrentes 
de agua quentc sobre a superficie rubra da 
terra. Uma accao tal devia produzir terrivcis 
e extraordinarias cemnievoes atmosphericas, e 
nos ultimos periedos d'este estado de cousas, 
quando mui grandes quantidadcs de vapor 
aqueso, que mais lardc devia constiluir o 
oceano, se precipitaram em forma de torrentes 
d'agua sobre a crusta ja solida, mas ainda mui 
delgada da superficie da terra, a instantanea 
conlraccae, que estas passageiras inundacoes 
de occano deviam causar sobre essa mesma 
crusta, traria em resultado espantesas des- 
locacoes na sua superficie, e numeresas erup- 
coes do materias cm fusao. As extraordinarias 
dcslocacoes, e completa inversao das primi- 
tivas camadas sedementarias, dos gneiss, schi- 
stos, c micaschistes sao uma prova evidentc 
do estado das cousas n'aquelle periodo, em 
que e oceane, ainda suspense, queria tomar a 
disputada posse da superficie da terra. 

« Sc um expectador collocado por cxemplo 
no planela Marie, po4esse n'csta cpocha da 
historia geologica da terra, lancar d'aquella 
distancia uma vista sebre o nosso planeta, 
de certo se Ihe reprcsentaria com um as- 
pecto pouco differcnte a lodes os respeitos, 
d'aquelle, que actualmente nos apresenta 
Jupilcr. Em quanto o corpo da terra esti- 
vesse occulto pelo vaste involucre vaporoso, 
que cercava, as terrivcis eonvuIsOes, que 
debaixo d'este dense veo se passavara, scgura- 
mcnle scriam indicadas por fachas eu roturas a 
superficie, eguaes as que ainda hoje se obser- 
vam em Jupiter; c cm censcqueucia das erup- 
coes dos immcnses volcOes, que u'esta cpocha 
deviam ter a maxima actividade, o invelucro 
vaporoso aprescntaria manchas, e cintas bran- 
cas eu negras, irregularmente disseminadas, 
como as que em Jupiter ternam tao oaracte- 
ristica a sua regiao equatorial, e que pro- 



J11 



vavelmcntc sao dcvidas as cinzas, pcdra?, e 
outras matcrias, ([ue cstcs volcOes oquatoriacs 
arrojam dc tempos a tempos alii aos limites 
cxteriorcs do involucro atmosphcrico oiide a|>- 
parecem, daiido-lhe um tao singular aspecto. 
Pela minlia parte diivido que jamais tenlia 
podido vor-se o corpo dc Jupiter, (|ue perma- 
necera occullo jjara iios por muitos seculos, 
ate que teiiiia arrel'ecido a ponto dc permittir 
ao seu oceauo Ihicluaiite pousar pcrmaueiite- 
nicnte sohre a sua superlicie. 

« Applitaiulo estas consideracoes a Saturuo 
parcce-me, que pode eselarecer-se um pouco a 
causa das mudan<;as, <iue sc ol)scrvam iios 
seus anneis, mudancas, que tciii exeilado o 
mais vivo inleresse. 

« Sc calor originario cm Salurno ainda 
e tal, que o seu I'uturo oceano esla suspense 
no cstado vaporoso em toruo d'elle, e pos- 
sivel, que uma porciio d'este vapor se alasle 
era virtude de condieocs clcctricas especiae.s, 
que OS anneis podem ter em relarao ao corpo 
do planeta, e que n'esta deslocacao o vapor, 
passando ao cstado de intcnsa congelacfio, que 
e resultado de uma tal situacao, appareca 
em diversas epothas, como acontece com o 
annel phantasma, e que alem disto incrustc a 
porcao interna do antigo anncl interior com 
uma grande camada dc materia gelada, que 
da logar a notavel alvura, que distingue par- 
licularmente esla parte dos seus anneis. » 

(_Edimb new p'lii. Jour., I bi, i\.° 108) 



POESIA SLW.V MODERNA. 



CjnliniKido fie pa;;, 99 



11. 



Acahamos d'imlicar rapidamcnlc (odas as 
causas que devem ter attrahido para o gouslo 
a attpncao dos poetas slaves contcmporaucos. 
Contra semelliantc gcnero de poesia podcm 
formar-se sohcjos artigos d'accusacao, pode 
elle scr arguido das suas tendencias scnsuacs, 
do sou cullo exagerado do passado; mas hem 
longe dc concluir de tudo islo, como muitos 
teem feito, a necessidade da sua completa dcs- 
truicao, cousideramos pelo contrario csta 
poesia primitiva como um dos vi\acissimo.s 
clementos de restauracao e de renascenca, 
que ainda possue o mundo civilisado. Tam 
sensual, como quizerem, o gouslo e actual- 
mente o unico adversario serio das doutrinas, 
que tendem por toda a parte a diminuir as 
influencias da fe religiosa e da nacionalidade. 

Por isso, deixando por agora no silencio as 
imperfciroes do gouslo, nos desejariamos mos- 



trar ciaramcnte, com citacoes iittcrarias e ta- 
ctos historicos, todas as vantagens que jd sc 
tem alcancado, c que se alcancarao cada vcz 
maiores com o cstudo intelligcute dos gouslars. 

Se se prctendesse rcmoular ale as origens 
da influencia exercida pelo gouslo .solire as 
quairo liltcraluras slavas, scria forcoso retro- 
ccder ale cssa cpocha ja hem afastada, cm 
(|ue a lingua lalina dcixou de ser, entrc os 
Slaves occidentacs, entrc os Boheraios, Po- 
lacos c Croatas, a lingua exclusiva dos escri- 
ptorcs. Assini na Bohemia, desde a cdade 
media, o gouslo rcsustitou para rcpcllir o 
gcrn)anismo; mas a theologia nao tardou em 
vir acainial-o, (|uando, nos seculos XIV e 
XV, die Ibrccjava por transformar a poesia 
feudal gcrmanica, arrcigada cm Praga, na 
poesia popular sJava. A raesma cvolucao, com 
pequcnissima dilVerenca, se eO'ectuou na Po- 
lonia; mas alii o gouslo, dcpois de algumas 
fracas tentativas i)ara dcsjiertar, se extinguiu 
ainda mais completamcutc do que nas outras 
partes. Entrc todos, so os Slaves orientaes e 
que aao pudcram nunca csquccer completa- 
mente o sen qucrido gousle; mas nao Ihes 
era permittido servir-sc delle nos paces reaes, 
nos castcllos dos scniiorcs, nas grandcs re- 
uniucs officiaes, a nao ser com a condicao de 
<?antar em lingua esdavonia ou ccclesiastica, 
e csta lingua, muito sancta, niuito austera, 
para exprimir com fogo as paixOes da vida 
terrcna, punha muitas vezes cm constrangi- 
mento os gouslars, impondo-lhes formas de 
convencao, I'rias imitacOcs hihlicas, que ge- 
lavam nelles a espontaneidade natural. 

Assira oeselavao tinha acahado por lornar- 
se para os gouslars do Oricnte, o (jue o latim 
era para os do Occidente. Por fim, quando ao 
esclavao chegou a sua vez de ser tamhem 
exduido, como o latim, das litteraturas pro- 
fanas e nacionacs slavas, nao tardou o gouslo 
a recupcrar o seu logar e a fazer rebcntar de 
novo do seu tronco ja velho florcs cada vez 
mais vicosas. seu revdador fui uma na- 
cao inteira, a dos Servios, nacao onde nao 
na.sce, por assim dizcr, um homem que nao 
seja gouslar c pocta. 

A luta em que o gousle tcvc de cmpcnhar- 
sc, para reconquistar de todo o sceptre da 
poesia entrc os Slaves do Sul, resume-se his- 
toricamente em (piatro ou cinco nomes gran- 
dieses. Tcmes por uma handa os prelados 
Slaves Raitch e iMuchitski, escriptores cuja 
pureza toda classica advoga com uma elo- 
(|uencia suhlime a causa do passado, isto c a 
lingua esdavonia; tcmes por outro lado, a 
favor da lingua vulgar, Dosilhco Ohradovitj, 
Vuk Karadchitj e Sima Milutinovitj. 

monge philosopho Dosithee Ohradovitj foi 
primciro dos Servios que se attreveu a es- 
crever as suas ohras numeresas e ousadas, ini- 
hebidas tao admiravelmente no cspirito slave, 
em lingua toda vulgar, scm nunca se soccer- 



142 



icr ao idioma ccclesiastico. SoflVcu por isso mil 
tlcsgostos (la parte dos campcocs dos temjws 
passados, e a sua liita contra os esclavoiiisa- 
dores duroii ali' a sua innrti'. 

dotinitivo Iriiimplio da pocsia nacional 
sorvia nao podia CDinliido razcr-se ospcrar por 
iiiais liMupo. liispo .Mncliitski, com as suas 
odes siihlimos, csrrlplas todas ollas om liiip;iia 
csclavonia, so alcancoii rclardal-o pnr alsum 
lompo. I'or lim iini pastor ohscuro, Miliili- 
no\ilj apprcsciita-si^ aniiado com o sen (foush 
liosnjii, para arrancar a indole do sen povo as 
i,Mrras da aguia csclavonia. Por dcsgraca cste 
jovcu va(|ui'iro dos IJalkairs scrvios havia 
d('i\ado as suas manadas do hois para ser cs- 
ludanlo cm Leipzig-; a Allcmanha tinha-o 
iniciado em todos os mysterios das suas sci- 
encias e da sua civilisacao, e em quanto ctle 
viveu, conservoH bastanle impcrio sdhrc o seu 
pspirilo t'ascinado. Miliilinovitj nao deixa pnr 
isso de ser o primeiro poeta vcrdadeiramente 
convertido pclo f/niish; com a dflTerenfa que a 
philosopliia occidenlal disputava tLogounlo esta 
alma ardeule, e liie iiiHigia um martyrio ter- 
rivcl, que acabou por dcslruil-o prematura- 
mente. A prova deploravel das lutas inte- 
riorcs desle genio pasmoso, acha-se na sua 
epopca a Serbianka, obra d'lima forea pro- 
digiosa, mas aonde o ideal popular slavo e o 
ideal classico greco-latino visivelmente so 
combatem, e aonde as expressoes esclavonfas 
se cruzam d'um modo o mais extravagante 
rom as expressoes da lingua popular. Tendo 
por scopo a bistoria das extrentadas facanhas 
servias no tempo de Kara-George, a apotheose 
dos heroes da gucrra da indopendcncia, esta 
epopea, mnidada nas lormas das rapsodias 
I)opulares, fez uma imin'essSo profunda sohrc 
todos 06 espiritos cultivados da Jugo-Shivia. 
Todo mundo admiron a Serhianka, mas foi 
pouca a gentfi rpie a leu, e menos amda a que 
soube coni.prebendcl-a. Os olbos ]j6dem adivi- 
nhar as pmporcoes ijigantescas do seu todo; 
mas nas suas dilTerenlcs paries encontra-se 
uma ohcuridade de lingnagcm que a tornam 
inconiprehensivel ; parece, por assim dizer; 
que csia escripta em caractcres hieroglylicos. 
L'nia traduccao resuuiida e apjjroximada da 
Serl)ianka, em lingua vulgar, seria o mais 
proveitosa ensino que poderia dar-se a esses 
poetas, que aiitda se b'nibraui (!e poder con- 
ciliar o racionaiismo occidental e o slavismo, 
e de se tornarem [loetas nacionaes sem deixar 
de ser poetas cosniopolitas. A Serbianka e a 
prova irrcfragavel da incompatibilidade que 
existe entre a fij e o scepticismo, c entre 
OS dois generos de pocsia que emanam destas 
duas origens. 

Milutinovitj pertencc a cssa fiimilia de ta- 
ientos excepcionaes que sabeni crear mundos 
e renovar as sociedades. Se clle se tivesse 
deixado couservar na fe c na vida Iradicional, 
ter-se-liia tornado no llomero do seu scculo. 



II Aconteceu com clle, escrcvc um poeta tara- 
bcm servio, Suhhotitj, com uma ingenuidade 
perfeita, o mesmo (pie se passou com um aldeao 
cuja inimilavcd dcstreza em curar as doenfas 
d'ollios as niiiis reheldes era admirada jjor 
todos OS medicos. Os doulores, |)ersuadidos de 
(|ue este honiem estava destinado para realizar 
trrandcs progressos na sciencia oculistica, 
levarani-no comsigo para inicial-o em todos 
OS segrcdos da mediciiia. Dcpois, quando se 
acliou aggregado a faculdade scicnlilica, e 
quattdo quiz comecar onira vez com as suas 
maravilbosas operacoes da cataracla, esse 
homem nao [)assava de um opcrador vulgar, 
muito inferior aqiudlcs (pie dantes o tinhani 
admirado e prodamado inimilavel. >' Parece- 
nos, que niio (i possivel formular, de uma 
maneira mais frisante, o antagonismo innato 
entre a sciencia empirica c a sciencia tradi- 
cional, entre a indole occidental e a indole 
sbiva, entre a poesia cosiuopolita e a pocsia 
do f/oualo. 

E fora de duvida que foi as escholas dc Ber- 
lin, de Paris e d'lnglaterra, que o regenera- 
dor da Ulteratiira servia no comeco deste sc- 
culo, Uosilheo Ohradovitj, veia pedir a chave 
da iniciacao europC-a, por(;'in logo que esta obra 
de iniciacao se completou, devia renascer o 
antagonismo entre as litteraturas occidenlacs e 
a poesia slava. Apenas foi iniciado na vida 
iiilellectual, o povo servio achou-se, a sen 
pesar, cm contradiccao ilagrantc com os sens 
iniciadores curopcos. Passa de trinia annos 
(iiie OS Servios tent academias modcladas pclas 
nossas, e apesar disso ainda o gosto acadc- 
mico pcla litteratura niio tern podido fazer o 
menor progresso. A poesia do guuslo c o unico 
typo do hello ideal que ainda persisle, o unico 
ccntro para oude gravita a poesia dos sabios. 

Coittitnta , 



BIBLIOGRAPIIIA. 

COMPE>!yiO DE VliTEniNMUA, OU CURSO COMPLETO 
DE ZOOIATUICA UOMESTICA, PELO SB. D.' JOSE F. 
UE MACEDO PIMO, I.ENTE DA FACULDADE DE 

MEIMC.1N\ N\ IMVEIISIDADE DE COlMBnA i." 

EDKJAO 2 VOL. EM 8." 18ol. 

I'm dos mais imporlantes mcllioramentos (fa 
agricullura moderna; a(|uclle, talvez, a (lucni 
clla deve o seu maior progresso e adiantamen- 
to, (!■ grande e extraordinario desenvolvi- 
mento que se tem dado a multiplicacao e aper- 
feicoamento dos animaes domesticos, e por 
conse(|uencia aos estudos veterinarios. IIojc 
aquella industria constitue nao so uma parte; 
essencial de todas as empresas agricolas, mas 
i tambein um dos priiiieiros e principaes ele- 
nientos da riijucza das nacoes, c por isso os 
governos c as sociedades agronomicas, teem 



143 



promovido por meio de prcmios as cxposiroes 
piil)licas dp gados, c prociirado generalisar os 
rstiidos vctcrinarios, iroando esrhnlas para o 
onsino d'csta scknicia, o prrmiando os aiirto- 
ros das nu'lliores obras sobre os sons divrrsos 
ramos. 

Ucdiizida piitro nos quasi a iini simples om- 
pirismo, a Vott'iinai-ia, ou antos a alvoitaria. 
(jiio a taiilo niontavam os coulicciiuentos dos 
nossos poiKos vctorinarios, jazi'ra por longos 
aunos cm (|iiasi comjiloto ahandono, cstraniia 
ao grando impulso i|iu' diialara os limilcs da 
.sciciifia, (' ([ui' t'lcvara a Yetorinaria ao poiito 
0111 inio linjo a vomos nos outros paizos. 

A iiilima ligaoao dos ostudos modioos o 
votoiinaiios; o profundo coultocimoulo da 
aiiatomia o phjsiologia comparadas; a ostreita 
roiaoao das scieiioias jiliysiuas c liistorioo-ua- 
tiiiaos com a zooiatiioa; os piinoipios da hy- 
giono da iiirispiiidoncia Votoiinaria, uram 
de todo dosprosados, soiiao igiiorados nos 
raros osci-iptos dos nossos auctoics de Yete- 
rinaria. 

O ostabolocimcnto da oschola veteriuaria 
mililar, do que ja n'outra ocoasiao nos ocou- 
pamos'/so alguin moliioramoulo iutroduziu 
nostcs estudos, foi oxclusivamonto na alvoi- 
laria. E pode oom vordade dizor-so, quo o 
(^ompondio do Yotorinaria, de que o sr. Dr. 
Maredo Piuto dou a primeira odioao em IHoi, 
foi tambom o primoiro c mais f'oliz onsaio, 
que ontro nos viu a luz publica, dossa nova 
ordoni do ostudos vetoriuarios, aprosontados 
polo A. em harmonia com os mais recontos 
progrossos da scioncfa, c com tanta concisao, 
e olaroza, que do per si rocommendavam 
aqiH lie ini|iortantissimo trabalho. 

publico illustrado acollicu desdo logo oom 
morocido favor o compondio de Yotorinaria, 
ouja avultada odicao so oxaurira conipleta- 
uionlo no primoiro anno da sua publicaoaoi 
(|ue em Portugal raro aconteee aos auotores 
do obras d^' scionoias naluraes. 

Ciirso oouiplolo do Zooialrioa, quo o sr. 
Macodo Pinto acaba do publicar com o mo- 
doslo titub) de « scgunda odicao " 6 uma o])ra 
inloiramoute nova, ondo todos os rauios da 
Yotorinaria sao concisamoute evpostos com 
a maior clai-ozji, c profundo conbcoinicnto da 
nuitoria. 

A obra consta do dojs volumes; no jiriuioi- 
ro A. tracta da Palbologia goral, compro- 
bcndondoa Etiologia, a Svmptomatologia, ea 
I'litluigonia. ,\ segiiuda parte e consagrada a 
Patbologia especial, e eoniprobende as mo- 
lostias da i)olle, e dos difforentes orgaos o 
systomas, indicando a par de cada molcslia 
o sou Iractamento conveniente, oit a sua tbo- 
rapoutica especial. X torcoira parte torn por 
objeclo as molostias privativas dos din'crentos 
aniniaos domesticos. 

' Vul. I, pa-. 320, 



scgundo volume comeca pcia Tliorapou- 
tica goral, na qual comprobondo os agentes 
pbarmacologicos, ou a Pbarniacologia — a pe- 
qnona Cbirurgia — e a Hygion('. 

A Zootoobnia occupa a scgunda parte d'oslo 
volume. Algnns artigos oxtrabidos d'osto ini- 
portante trabalho foram jii publicados polo A. 
no segundo volume d'osto Jornal' , e oscusado 
por isso recommondar a loitura d'osia parte, 
talvez a mais notavol c intoressantc do loda 
a obra. 

Tratando do motboramonto dos animaes do- 
mesticos, c da sua multiplicaoao e aperfoicoa- 
monto, A. nao osquoceu uma so das co'nsi- 
dcraooes, que dovom ter-so em vista para con- 
soguir aquello desejado lim. Expondo as dou- 
trinas, e os motbodos mais acrcditados, o as 
mais recontos observacoes, e experioncias fei- 
tas nospaizes mais cultos da Europa, oA. 
procurou fazer d'ellas util e conveniente 
applicaoao ao nosso paiz. E nao sao unica- 
niente os proceitos da scioncia quo lornani 
digna de especial attcncao esta ])arle do com- 
pondio de Yotorinaria; mas tambom a manoira 
pbilosophica, e verdadeiramonfo tanscendon- 
to, com que sao expostas cm resuniido quadro 
as mais olovadas tbeorias, e os mais imporlan- 
tos problemas das scionoias pbysicas o bisto- 
rico-naturaos em rolacao ao ass'umjito. 

A ultima parte da obra eoniprobende a Ju- 
risprudoncia veterinaria, objocto ontre nos 
(|uasi inteiramente desconbecido. A. divi- 
diu esta parte do seu trabalho em .lurisprii- 
dencia yotorinaria propriamonle dita, <[ue 
tracta dos casos rcdhibitorios; om .Modicina 
legal, qtio diz respoito aos forinientos e cn- 
vononamontos, c em Policia sanitaria, que 
tracta dos moios do prcvonir o desenvohi- 
mento c progrcsso de epizootias, e enzootias 
contagiosas. 

Nesta parte, uma das mais dilllceis mas 
tambem das mars utois do seu trabalho, o A. 
colligiu toda a legislacao patria, que rospcita 
ao assiimpto, aprosentando ao mosiiio tempo 
a legislacao estrangeira nos casos omissos na 
nossa . 

Em (im a obra terniina por urn Iiidico alplia- 
betico goral, coordonado do modo, ([uo so podi? 
considorar conio um diccionarin do Veterina- 
ria, que muito facilita o iiso d'osto livro ate 
aos monos ontcudidos om taos matorias. 

Indicamos aponas mui summariamente os 
principaes capitulos da nova odicao do Com- 
jiendio de Yotorinaria do sr. Dr. .Macodo Pin- 
to, porque nao cabe em pequono espaco fa- 
zer juizo critico d'este valioso e iin|ioi'tanle 
trabalho scicntilico, fructo do longas boras 
de profundos estudos, e assiduo trabalho do 
joven professor, que, illustrando oom taos pii- 
blicacOes seu nome, fez ao son paiz, e espo- 
cialmente a agricultura patria, um relevantis- 

' Vul. II, pau'. 199 c sr;-. 



1 



14 



.>imo M'lviro, toriiando accessivcl a lodas as 
iiitelli^oncias os conhecimciitos volcrinarios, 
rom tanto rigor, c clareza. e foiii tanta ame- 
nidade di' rslilo, que a loitura da sua ohra c 
ao mcsmo tciiiiio iitil c aprasivol. 

Apesar dc vnlumoso, este compeudio pare- 
ce-nos digno do spr adoplado em lodas as 
escholas rcgioiiaos agrionlas, como ja o I'oi na 
uuivorsidade, |ion|ue uma lioa parte da ohra 
uao eareec de scr oxplieada nas respeelivas 
eadciras, mas o nnieamento destinada para sc 
consultar; e os ahininos que tiverem seguido 
com alleiioao a leiUira desta obra, liearao por 
oerlo mui liabililados para se darem a pratua 
veloriuaria. 

J. Ji. DE ABREU. 



.lAUDlNS D ACCLIJIATA^AO NA MAOEIRA E 
ANGOLA NA AFllICA Ai;srH0-OCClDENTAL. 

Cijiitiiuiudo de [in^. 1-7. 

Oi lialjilanles da illia da Madeira, aonde 
uma desastrosa epipliylia no decurso d'este 
anno lem debtriiido os preeiosos viiiliedos que 
atcf agora alii furtnararn o principal e quasi 
excliisivo genero d'agricullura, devem seni 
deniora e mui seriamenle ejfor^ar-se de 
remediar este mal, variando e viultipticando 
OS gencros de suas culturas, e deste modo 
tiror vioior vanlagem d'uiii cliina, que e 
coijsiderado mellior e inais favoravel a certas 
cuUurai do que o de toJas as inais illias 
do liemispherio boreal ; mas para iniciar as 
priiiieiras leiUativas, e jjara experiuientar e 
csludar a cullura de novos gei;eros an-rico- 
las, qual sera o iustiluto luais convenieute 
a csle fim, a uao bor uui jardiui d'aecli- 
rnatarfio? ! A fundac^ao de tao ulil e»Labeleci- 
luento liavia desde ja occupar inuitos bra<,'os, 
que pelo desarUe uas viulias ficaraui_ desoc- 
lupados; o nuiiiero cada vez major de va- 
pores que alli aporlaui, crusaudo o allaiitico 
ern todas as dile('9oe^, offorecia frequeiiles e 
opporturias occasioes d'uiiia rapida cora- 
MuinieaCjiio com as mals longinquas terras, 
facdilaiido assim a prouipta aequisicao de 
muilfs vegetaes raros c apreciados ; e liiial- 
menle, a exisleiieia d'uin bern organisado 
Jardim, povoado roui as mais vislosas pro- 
duc(,-6es da Flora de lodas as zonas, liavia 
tbr^osameute cliaiiiar para abi urn avultado 
liumero de viajajiles curiosos, e augrneiilar 
cousideravelmerile a ja iiao pequena coiiccr- 
reucia de doeutes, e convidar uns e outros a 
mais pridongada deniora n'acjuella ilba dos 
cncanlos. Ponderadas lodas eslas circiimstan- 
i ias t'avoraveis, o avaliadas as vanlagens que 
dellas devem rc.-idlaraos [nadeireiises, pareee 
a crearao d'umjardiiri d'acclimala^fio, com 
as com|)etentei niodilica(,oes, para ao niesmo 
lemi)o servir de pasn-io |)ublico, uma das 



mais efficazes providencias que o Govcrno 
de Sua Magestade acluahnenle podia legislar 
n'aquella ijlia, para mitigar alguiii tanto as 
Iristesconsequeiiciasda deva^ladora epipliylia; 
Ijem como para eviiar a fulura repeUc;rio 
de similliantes desaslres, que mais cedo ou 
mais tarde seinpre se deveria recear, se os 
madeircnses conlinuassoin a basear exciusiva- 
mente, como ate' agora, todas as suas espe- 
ranyasagriooias sobre um so genero de cullura. 
N'um igual estado de crise e de transifao, 
aiiida (]ue por rnotivos bern differenles, re- 
presenla-se a riquissima provineia d'Augola 
na AlVica austro-occidental ; e igualmcnte 
sabiJo que o extenso lerrilorio d'csla valiosa 
possessao, desde ha muilo tempo, era o priii- 
cipal mercado d'escravos, os quaes, junta- 
mente com alguns generos acarrelados do 
interior do corilinente por esses mesmos es- 
cravos, formavam o limilado repertorio do 
commercio colonial. O repentino acabamen- 
to d'este trafico, pouco hone-to, mas sum- 
mauienle liicralivo, destruiu numerosas fortu- 
nas, estagnou o giro d'avidtados cajiitaes, e 
paralisou por um inoniento quasi loda a vida 
commercial d'aquella colonia. Poreiii, ine- 
dianle este estado de geral consternayao, a 
bemfazeja providencia eflectuou a successiva 
transi^ao d'urn povo paramente commer- 
ciante n'uma esperan^osa colonia agricola ; 
e dentro em breve tempo o cafe, o a|i;odao, 
o anil e muilos outros generos coloiiiaes for- 
necerao abundantemenle aquelles inercados 
que n'outro tempo so foram povoados pela 
illicila fazenda d'um Iralico deslmmano. 
Mas, para facilitar aos colonos a ijilroduc- 
(;,'io e naluralisa^ao de novos generos agrico- 
las ; para experimentar os methudos mais 
convenientes de sua cultura, beui como para 
depositar e est\idar os muilos vegelaes uteis 
que sem duvida neuliuma hao-de eticonlrar- 
se no immenso sertao d'aquella provjncia, atu 
agora apenas superficialmeiite explorado ; em 
fim, para saliafa^er a todas eslas exigeueias 
urgenles d'uma naseeutu colonia agricola, 
iiao ha de certo iiiTililui^rio nenhuma que 
seja mais adequada e de iiiaior vantagem aos 
colonos do que um hem organisado e»lal)ele- 
cimento d'accliinaia^ao. Arabando de expdr, 
ainda que em tragos ligeiros, as reciprocas 
vanlagens que se podiam tirar da crearao 
de jardins d"acclimala(jao, tanto para as co- 
ionias aonde forem esJabelecidos, bem como 
para o paiz materno, passo agora a apontar 
algumas providencias que considero como 
mais acerladas e necessarias relalivajnente a 
funda^ao e boa gerencia dos dilos cstabele- 
ciinentos. Km quanto ao local ou silio em 
que se deviam collocar esles jardins, pouco 
se podc dizer sem coidiecimenlo perfeilo da 
localldade e mais eircumstancias modifica- 
doras que influem no prospero desenvolvi- 
menlo de similliantes institiitos; enlrelanto 
julgo devor lenibrar que elles deven) ser 
estabtlecidos tao proximo, quanto possivel, 



145 



das respeclivas cidadcs capitacs, e em silios 
algiiin lanto abrigados dii» ventos reinantes 
ti'aquellas rcgioes, para assirn mais facilinenle 
evilar as n)udan9as ropenliiias da lempera- 
lura, t.'io nocivas a todas as planla^oes ; cm 
fim, o sitio escolhido |)ara fmidagfio dos dilos 
rstabeleciiiienlos dove ofTerecor lodas as con- 
di^ops favoravc'is da pxposi^ao e do lerreiio, 
n deve ser provi'do d'agiias convenieiites a 
lima ciiltiira por sua naliireza e deslino iiiiii 
vaiiada. A direcySi) d'esles cslabelecimen- 
los dcv(! ser i-ntrcgiie a pessoas da plena coii- 
fian^a do Governo, e que leiiham os co. 
iihcciincnios siifficicntcs para priiicipiar e 
conliiiuar com a cidliira c mulliplica^ao dos 
vegelaes que para alii forein eiiviados, bein 
corno para I'azor os necessarios apontainenlos 
iiielercologicos e d'oulias observa^oes pro- 
vcilosas, que por for^a liaviam de rfsullar 
das varias lenlativas de eullura. Probidade, 
inclina(;ao para occupancies desle genero, e 
coiihecimeiilo', moniienle praclicos, das dif- 
f'ereiiles niatiipula^oes de jardinageni, sao 
qiialidades itidispensaveis para quein dirigir 
fimilliantes instiliilo-. Defmis d'eslabeb'ci- 
dos OS jardins, sera eoiiveniente dar o Go- 
verno de Sua Mageslade ordens aos governa- 
dores das pn vincias ultiamarinas, bem conio 
a todos OS consules de Portugal em paizcs 
estrangeiros, para estes diligenciarem a ac- 
quisi9So de seineiiles., ccbolas, luberculos, 
eslncas ou pes de quaesquer planlas inipor- 
tantes, rcineltendo-as com a pos-ivel brevida- 
de e convenieiilemenle acondicionadas, ou 
directamenle aos ditos jardins, ou a Lisboa, 
para d'a<pii se remelterem. Da niesma iiia- 
neira se deve animar os eoinmandanles dos 
navios do eslado para alcangarcm e manda- 
rcrn collier sementes, eic, etc., de qiiaesquer 
planlas uleis ou ornamentaes nos paizes oiide 
aporlareni, Irazendo-as ou remetlendo-as ao 
supra deslgnado destino. Os ecelesiasticos e 
chirurgioes cpiese dcslinain para o eiiibarque, 
ou ao servico no Ullrauiar, devem receber, 
antes de scguir vlagem, breves e bem con- 
cerladas inslruc^oes (se for possivel im()ressas) 
sobre a maneira niais conveniente de collier 
e acondicionar os objectos em cima aponta- 
dos. Acliaiido-se uina vezos jardins do Funclial 
c de Loanda em certo estado de prosperida- 
de, devia-se proceder a crea^ao d'analogos 
jardhts Jilidcs iias mais provincias ultrania- 
rinas, parlicularnienle nas illias de Cabo 
Verde, em S. Tliome, Quilimaiiee em Cioa, 
pois em todas estas terras, siiiiilliantes insli- 
tulos nao deixariio d'excitar e de furnenlar 
pod<"rnsaiiienle o goslo para a liorlicuilura c 
agricullLira, como isso se esta cxperimentan- 
1 do nos jardins d'acclimatagfio em Cayenne, 
' Pondicheri/, Cuba de Boa-Esperanga, Col- 
: cutd e Balavia, creados pelos francezcs, in- 
I glezes c liollandezes, para fins analogos, e 
em grande proveito para as respeclivas co- 
lonias das na(;oe5 inencionadas. 

BE. P. WELWITSCH. 



SOCIEDADE ASIATICA. 

O coronel inglez Rawlinson relala de 
Bagdad tiovos descoljriinenlos que kz, prin- 
cipalmente de cyjindros d'argila desenler- 
rados das ruinas d'Um-Queer (anliga Ur dos 
Clialdeos). Dons dos cyjindros examinados 
por esle sabio arclieoiogo, continliam a 
eniimera^ao dos Iraballios niandados exe- 
cutar por Nabonidos, ultimo rei de Ba- 
bilonia, na Clialdej meridional; laes eram 
a reedifica^.io de templos que liavia dez 
seculos linliain sido conslruidos pelou mo- 
narchas Clialdeos, e a desobslruc^iio de 
canaes abertos no tem|)o de Nabopolassar e 
Nabucliodoiiosor. O ponto mais imporlante 
esclarecido pelo descobrimento des-les cylin- 
dros e que, o fillio primogenito de Nabonidos 
cbamava-se Bel-sliar-ezar e governava junla- 
menle com sen pai. Bel-sliar-ezar e mui 
provavelmente o Ualtliazar de Daniel, e 
facil agora se torna compreliender que este 
principe fosse governador de Babilonia, 
quando foi lomada pelas for^-as combinadas 
dos Medos e dos Persas, e que morresse no 
ataque, ao inesmo tempo que Nabonidos, 
ehegaiido em soccorro da praya, era derrola- 
do e conslrangido a refugiar-se em Borsippa. 
Por fim apresenta Kawlinson, fundando- 
se nos mais recentes documentos, um bosquejo 
liistorico das dynastias babylonicas e assyria- 
nas. 



R. COLLEGIO URSUMXO DAS CHAGAS 
EM COIMBRA. 

PROGRAMMAS. 
185i. 

Por dccrelo de 21 de junbo de 1861 foi 
dado o convento de S. Jose, em Coimbra, 
para definitivo assenio do real Collegio Ursu- 
lino, que fOra fundado na villa de Pereira ; 
e no dia 13 de dezembro do niesmo anno 
verificou este Colleg-io a sua Iransferencia 
para acjuella sua nova casa. 

O edificio de S. Jose, considerado em 
quanto a sua posiguo, a mais bella, sadia e 
piloresca de Coimbra, mcllior pode ser repre- 
sentado por obra de pincel, do que de penna; 
jiurque seiii sempre curia qualquer narrajfio, 
que se pretenda fazer de suas beliezas. Hni 
quanto ;i sua capacidade, nao pole fazer-se 
idea d'ella pela liumildade de sua entrada, 
que parece buscada de proposilo para en- 
cobrir a largiieza do interior. Tern oplimas 
salas para aulas e dormitorios, quartos are- 
jados e bem aliimiados, corredores alegres e 
desafogados, boas casas de cosinlia e refei- 
torio, e outras commodidades para todas as 
oflicinas. Eui um dos lados, fazendo angulo 
com o mesmo edificio, corre de nascente a 
poeiile lima espa^osa varanda, que, abrigada 
do norte, e aberta ao meio-dia, n.'(o pode 
liavel-a mais a geito para gozar o soallieiro 



146 



no; (lias de inverno, e o fresco cm as noutcs 
lie vorriD. Soliraiiccira ao Alondego, e se- 
nborcaiido snas deliciosas niargens, d'clla 
pode nHo so c?praiai-se e dL'Icilar-so a vista 
])elas muitas qiiiiilas, liorlas, c laraiijaos, que 
liordaiii uiiia o oulra boira do no, c que na 
major parte do anno inarileoin verdiira per- 
petiia ; mas laiiihoiii, desfnirlar-se a foniiosa 
porspecliva da cidado, que a poiica dislnucia 
Jjoiisa doccmente reclinada na eiicosla de uni 
motile, com a fronte ao occidciile, coroada 
polos magestosos edit'icios e reaes pa(;os da 
universidade. 

Estende-se na frenle d'aqiiella varanda, e 
ao longo de lodo o edificio, inn bcllo jnrdim, 
ccrcado de muro, e dividido per miiilos ale- 
gretes em ruas de murla. o qiial olTcrece as 
meiiinas passeio o mats aprazivel, e di^trac- 
gao a mais agradavol, para n'clle se rccrea- 
rcm, sein serem devas>adas de parte alguma, 
e podendo ser observadas das jjncllas do col- 
legio, que quasi todas para all cacm ; riao 
faltando para inaior desafogo uma extvnsa e 
bom siliiada cerca, aonde, acom|)anliadas das 
mestras, as meninas podem dar mais longos 
passoios, lao reconimendados como liygienl- 
cos, ))ara o desenvolvimenlo pliysico, e con- 
fcrvacao da saude. 

As Religiosas Ursulinas, querendo satis- 
fazer aos encargos de sou Inslitulo, que lein 
por fnn e objeclo principal a ueducagao e 
jiistruc^ao do sen sexo n e desejindo cor- 
responder a protec^ao regia, com que sempre 
teem sido, e ultimatnente lao soberanarneiite 
foram conlempladas ; bem como ao benigno 
acolliiinento, que teem recebido do publico, 
eslao decididas a ein|)regar os meios ao sen 
alcance para aproveilarem as connnoJidades 
d'esta bella casa, a fnn de n'ella eslabelece- 
rem todos os ramos d'ensino necessario a 
suas edueandas; e aperft'i(;oarem o dos eslu- 
dos e prendas, que acUialmenle professam, e 
constam do seguinte : 

PROGRAIIMA DO KNSINO. 
I. 

ENSINO UELIGIOSU, MODAL E CIVIL. 

Doulrina clirisia: catecliismn : piepara^-fio 
para a primeira couimunliao: piactica dos 
exercicios religiosos e cliristaos, clc. 

Jixplicac^ao succinla do Evangellio : applica- 
rao moral de todas as suas niaximas aos 
uses da vida, etc. 

Priiicipios e regras de civilidnde, compre- 
hendendo os elementos do estilo eputolar, 
«lc. 

11. 

EXSmO LITTERABIO. 

SKC(,'AO I.* 

Ler, escrcver, e contar ; Grammatica Por- 

lugueza. 
Grammalira Franceza, Italiana e Ingleza. 

SECIJAO 2.* 

Dcsenho linear coin applicagfio aos lavores e 
bordadura. 



Geogra])liia : Cliorogrnpbia I'orlugucza ; no- 
^oes do Cosmogia|)liia (iralado da cs- 
pliera) e de Cliroiiologia. 

Historia: Sagrada do antigo e novo Tosta- 
mento. 

Profaiia, especinlmente a Portugupza. 

ftlytliologia (elementos oscolliidos). 

SliCI^AO 3 * 

Principios, regras e uzos geraos de econouiia 

domeslica (governo de ca-a). 
Nojoes elementaros de Hygiene. 

Ill 

ENSINO AIITISTICO. 
SEC(,"AO 1.* 

roNTO DE MALiiA. I'azer meia : rendas : cro- 
chet, espigar : fazer luvas, e variedade 
d'obras de la, etc. 

cosTuiiA. Cozer : talliar, e marcar, etc. 

BORDAuunA. Bordar de branco; a CDrdotmel : 
a cabello, etc. : de nializ ; a sedo : a froco: 
a escomillia: a ouro e prata: ;l niis?anga: 
a p6 de la: pelit point: em vidro, de vaiios 
modos; em madeira, etc. 

SECrio 2.* 
MUsrcA. Canlar e locar piano. 
FLORisTiCA. Fazer flores : c de cera. 
uEziiNHO. De figura, paizagein, etc. 



COXSELIIO SUPEKIOU DE LNSTRUCC-XO 
PUBLICA.' 

INSTniCfOES PAHA OS COMMISSABIOS DOS ESTIDOS. 

Art. 1.° As atlribui^oes dos commissarios 
dos esludos acliatn-se prineipalmente iiidica- 
das nos artigos 78 e Ifil do dccreto de 20 
de seteinbro de I844, e podeui reduzir-se 
as funcjoes de reilores dos lyceiis, e u vi- 
gilancia edirec^fu) dasescliolas de ensino pri- 
mario e secundario com suliordinn^'ao aocon- 
sellio superior de instruc(;ao publica. 

Art. 2.° Como reilores dos lyceus , iii- 
cunibe-llies o desempenlio das f(inc(,oes mar- 
cadiis nos artigos 63 e segiiinles, do decrelo 
de 17 de novembro de 1837, c em oulrosi 
logares da legijlai^ao sobre a in^trile5aa, da 
qunl devein obler perfeito couliecimenlo ; e 
n'esle sentido perlence-llios : 

^. 1.° Fazer execular as leis, regulamen- 
los e mais providencias, por (|ue se gover- 
naai os lyceus ; e evilar qualquer relaxa^ao, 
ou abuso, que descubram nessa execurao. 

§. 2.° Convocar o presidir aoi conselhos 
dos lyceus seuipie que o ^ulguem convenien- 
le , ou llies for requerido por algum de sens 
membros, nllegando molivo juslo. 

c^. .T.° Piopor ao consellio do lyceu as 
providencias, yuejulgarein necessarias para 
promover o melborainenlo dns esludos, ou 
seja na parte lilleraria, ou seja na discipli- 
nar, ou na ecouomica. 

§. 4.° Fazer execular as resolucjoes do 
consellio do lyceu nos objeclos de sua com- 

' DuciiTenlo n.** 1 cilado a paj. 123. 



147 



pctencia ; e propor em nome d'clle ao con- 
selho superior o que depeiider de aucloriza- 
jao superior. 

.' An. 3.° Na meiina riualldade compele- 
llies fazer proceder, e pie^idir ans exainei doi 
profesjores , que pieteiideiii liahilitar-se.asslu) 
para as. cadeiras dd en^iiio publico, coiiio para 
etHinar p.irticulanneale , guiando-se pelas 
)M*lr!ic'c;('ie6 e prop:raiiiiiKis respcclivos. Deere- 
lo de 20 de seleiiibrn dt- iJJlt, artifjo 18, e 
de 15 de hoveinljrri de 133lj, ailigo 13. 
.. Art. 4.' Os spcrelarir)s dos lyccus servi- 
jf'io de sccrelaiios do collHlli^sarlo unicaiiieii- 
fe para aqiieiles ados, (pie nao pode'rem ser 
expedidos sciii secrelaiio, como sfio oi exaiiie-^. 

§ wiiico.. Nas capilaoi de dijlrjcLi), otide 
B.io esl.iverem aindu coiisllluidos os Ivccuj , 
para esles actos, os coininis,-ario5 rcqiiiailaruo 
iun offieial do governo civil, que s rva de 
SPOielario, liecn com'O a casa e uten i; neces- 
saries para o inesuio tun. 

Art. 5.° Em qiianlo a diiecijao do ensiiio 
primaiin e sccuiidaiio, compeleni-llics as 
func(,'6es, que pido arti^o 37 do decreto de 
15 de iiiivemljro de 183(), liuhain sido fi\a- 
das para as cornmissocs inspetloras , a salier: 
guiar e dirif^ir os profe. sires , assim de pala- 
vra , como por e^cripto, no que diz respeito 
ao ensino; provideuciar nosrasos de sua coin- 
petencia ; dar coiila ou represenlar ao con- 
sellio superior ludo o que a e\ceder ; cumprir 
as ordens d'esle; inforinar com exaclidao as 
aucloridades; e formal izar e renietter os re- 
latorios e mappas estali5licos uos lermos do 
artigo 37 do repulamealo do mesuio conse- 
llin de 10 de novenibro de 1815. 

Art. G.° Para satislazer estes fms , e es- 
pecialmenle o rclatorio , cpie devem remetlcr 
ail consillio por occasiao das duas couferen- 
cius ordeuadas no arligo 21 do mesmo re- 
gulamentfi, dever.'io em cada semestre fazer 
anlecipadaminile uma visrla a lodas as e.^clio- 
las do scu iliitricto, na (pial procurarfio olitor 
perfcito cordieriuienlo do estado asim pes- 
joal , como mateiial e lillerario d'cljis, iio- 
laiido as alieragots , (pie iios intervollos fo- 
rem occorr(Uido, 

' §. 1.° Em quanto ao pes:^oal : nolar'io em 
fada uma o giau de meiecimeiilo dos pro- 
fessores nas Ires considera^oes da sua capa- 
cidade lilteraria, do zelo e aplidiio para o 
eiisino, (! o do sen compoitamenlo moial e 
rellgioso, indicando, ipiaiido o julguem ne- 
Oessario, os faclos comprolialivos do sen juizo: 
inarcando oulrosini o nunieio e aniueiicia 
dos moniuoij a sua regiilaiidade e aprovei- 
lamento, o iiumero d'elles, (pie aiinualriien- 
le saem siilticienlcs, e o tempo, que ordina- 
riamente paia iaso gastam. 

'^. 2.° Em quaiito ao material : nolarao 
se a escliola csla collocada na posiyuo mais 
lavoravel, attentas as circumslancias para 
a concorrcncia do maior numcro d'alumnos; 
se em casa puldica, ou particular do profes- 
sor ; a capacidado e disposi^oes deila, bem 



como a mohilia c iitonsi's; com outras qoaes- 
quer oliscrva^'nes. 

§ 3 ° Em qiianto ao litlerario e ccono. 
mico: exaininaraoo methodo de ensino nsado 
na escliola, se o mutiio, se o simultaueo on 
mixto; a mancira por que o professor o 
desem|)eulia, e os sens resiiltados; as differen- 
tes classes dos alumiios, e as di^ciplinas, quo 
nejias se ensinam, com especialid.tde as que 
dizem respeilo a moral e religiio; os livros, 
labelias, improssos e maniiscriptos, de que se 
usa na escliola, interpnndo o sen juizo sobre 
elles, e lembrando e aconsclliando os mellio* 
res; averiguarao outrosiin a djjciplina da 
e-clinhi, as lioras das liijfV's, e o inodo" de as 
combinar com os traballios e nocessidadcs 
dos povos; c promoverSo a praclica dos exa- 
mes annuaes feil(.s com a pnblicidade e im- 
porlancia propria a estimular os meninos, Ci 
sati-fazer os paes. 

^. 4° li toda! eslas observaroes torao 
uui registo c(mf6rnie o modelo junto, que os 
liabilite para ministrar iiuae3(pier esclareci- 
inenlos que Hies forem pedidos, e donde 
extractem os mappas eslatisticos, que dcveni 
remelter ao conselbo superior nos termos do 
artigo 37 do regulamenlo. 

Art. 7.° I'or occasiao das visitas, ou eni 
outra qualquer, que llies parc(;a favoravd, e 
sem inconvenienle para as li^oes, farao reunir 
aquelles professores, que llies parecerera mais 
zelosos e mais habeis para o fun de confe- 
rirem com elles sobre a excellencia dos dif- 
ferentes metliodos, sobre os nielliorcs com- 
pendios, reforma da dlsciplina escliolar, e 
meios de a fazer observar, e em fun sobre 
quaes(]uor niellioramentos, que se possatn 
effecluar, ou seja no syrloma geral do ensino, 
ou no especial de algumas escliolas, beni 
como sobre a mancira de propagar nos povos 
o gosto da in-truc(;.'io. 

Art 8." Promoverao o estabclecimento 
dp a^socia5(^es de beneficeiicia, e fiindaji'cs 
de escliolas e ca-as d'asylo, dando parte 
ao coiisellio superior nos termos do artigo 
23 do citado decroto de 20 de si^leinbro. 

Art. 9.° Ivm quanlo as escliolas e col- 
legios particulares, cxecularlio, na parte que 
llies diz respeito, o dispo=to no artigo 83 o 
scguintcs do mesmo dcerelo. 

§ xtnico. Tacs escholas e colltgios s.mo 
sujeitos tanibem a inspec^.'io e virita dos coin- 
missarios, e dovem fazer parte da estalistica 
em mappas esprciaos. 

Art. 10.° O que fica dito a respeito das 
escliolas de mcninos, t: lambem appiicavel as 
escliolas do sexo feminine, lendo em c(^iniide- 
ra^ao a parte, que perlence as prendas, que 
n'ellas se devem ensinar. 

Art. 11.°" Para a execu(;,'io d'estas func- 
^(^es poderao, no case de impedimenlo, os 
couimissarios fazer-te coadjuvar pelos sub- 
delegados, de que falla o artigo 161, §.2, do 
citado decreto de 20 de setembro; mas em 
todo o caso sob sua propria reponsabilidade. 



148 





OBSERVACOES METEOROLOGICAS , FEITAS NO 


GABINETE DE PJIYSICA 










DA CMVERSIDADE DE COIMBRA. 








Anno lie 
1854 


— 3 

E- E B 


Preasiiu atiuuspherica ao meio dia 


Eiitadu lij'jfromclricg da 
utiiiospbera au meio dia 






Me. de 
Julho 


Alliira baro- 
nu-lrica a 0." 

centi;j. 


Tensrio do va- 
por almosphe- 
rico. 


PressHo do 
ar sccco 


-1-2 

O S 


Quaotidade (Ic va. 
por a(|aoio conlidu 
em Bm nielro «u- 
bicu dc ar. 




Dias 


Grans 
cenliff. 


Milliuietros 


Millimelros 


Millimetrus 


Grammas. 




1 


20 


754,677 


13,004 


741,673 


0,7551 


12,07 


N. 




2 


21 


753,075 


13,902 


739,173 


0,7590 


13,71 


N. 




3 


20 


753,461 


13,290 


740,171 


0,7676 


13,15 


N. 




4 


20 


753,461 


13,125 


740,336 


0,7581 


12,99 


N. 




5 


SO 


750,667 


13,993 


736,674 


0,808i 


13,84 


S. 




6 


19,5 


750,738 


11,678 


739,060 


0,6951 


11,57 


S. 




7 


19,5 


754,538 


10,940 


743,598 


0,0512 


10.84 


N., 







19 


754,064 


10,976 


743,088 


0,6739 


10,90 


N. 




9 


19 


753,454 


10 8S0 


742,034 


0,6643 


10,74 


N. 




10 


19 


752,692 


11,217 


741,475 


0,6823 


11,14 


N. 




11 


19,5 


753,901 


11,732 


742,169 


0,6933 


11,63 


N. 




13 


20 


753,461 


12,073 


741,388 


0,6973 


11,94 


N. 




13 


21 


749,248 


12,439 


736,809 


0,6791 


12,«6 


N. 




14 


20 


749,776 


11,835 


737,841 


0,6J36 


11,71 


N. 




15 


20 


752,982 


12,580 


740,402 


0,7266 


11,45 


E. 




16 


21 


750,888 


13,058 


737, B30 


0,7129 


12,83 


E. 




17 


22 


755.454 


13,419 


742,035 


0,6911 


13,19 


N. 




18 


21 


750,888 


11,705 


739,182 


0,6391 


11, 6t 


N. 




19 


21 


749,248 


11,971 


737,277 


0,6336 


11,00 


E. 




20 


19 


753,302 


11,282 


742,020 


0,6937 


11,20 


O. 




21 


24 


752,892 


16,789 


736,103 


0,7700 


16,39 


E 




Si 


24 


752,892 


15,291 


737,601 


0,7013 


14,93 


O. 




23 


24 


752,133 


17,350 


734,780 


0,7957 


16,94 


O. 




24 


22 


754,206 


]5,98i 


738,222 


0,8232 


15,71 


O. 




25 


22 


754,460 


15,782 


738,678 


0,8128 


15,51 


O. 




26 


22 


753,393 


15,026 


738,367 


0,7739 


14,77 


N. 




2T 


23 


752,305 


13,434 


738,872 


0,6529 


13,16 


N. 




28 


22 


753,749 


12,871 


740,878 


0,6629 


12,65 


N. 




29 


22 


753,749 


14,044 


739,705 


0,7233 


13,80 


N. 




30 


23 


754,084 


15,552 


738.532 


0,7558 


15,23 


O. 




31 


22,5 


750,200 


14,905 


735,795 


0,7451 


14,63 


N. 




niedi.i } 
<l» mez J 


21 


752,726 






0,7196 








a 


Te 


Mjiei-atnra 


Prcssao almospherica 


Crdu (Je hu 


nitia.te do or 






-3 


Maxima 


absoluta. . 23° 


Maxima absoluta . . 755,454 


Maxima absol. 


. . . . 0,8232 


i»= 




s 


Miaiina 


19" 


Minima 749,248 




. . . . 0391 


•• S 




bJ 


Maxima 


variai;. . . 4" 


Maxima excursao . . 6,206 


Maxima varia^itc 


) . . . 0,1841 






Coiui 


bra 1." de 


Agotio de 1854. 

O Demonalrador da Faciildade de Philoaophia , Mu 


noel dot Santos i 


^eretra Jardim. 







^< 



® Jnetitiita, 



JORINAL SCIENTIFICO E LITTERARIO. 



CONSEIllO SIPERIOR DE INSTULCCAO 
PL'BLICA. 

BELATORIO ANNUAL. 

1847 — 1848. 



Senliora! rolatorio, que o conselho su- 
perior de instrucrao publica tern a honra de 
levar a Augusta Prescnca de V. Magestadeem 
observancia do art." 40 do dccreto de 10 de 
novembro de 1845, se nao der do estado da 
instruccao publica do paiz, uma noticia tao 
completa e satisfactoria, como o conseJho 
sinceramente deseja, e desveladamcnte pro- 
move, desdc primeiro momento da sua 
existencia, dara, pelo menos, um conbeci- 
mento fiel, e tao exacto, d'aqueile estado, e 
das necessidades do ensino, quanto se pode 
exigir dos poucos elcmentos estadisticos col- 
ligidos dos variados ramos da administracao 
litteraria, elementos, em que, sera embargo 
de incessantes esforcos, ainda nao foi pos- 
sivel alcancar o grau de perleirao indispen- 
savel a trabalhos positivos d'este genero. 

Progrediudo lenta, mas gradual e regular- 
mente, como de razao, em objecto de tal na- 
tureza, os nicllioramenlos excilado.s ua in- 
struccao publica pelas .sabias provisOesde 1844 
e 1841), vierani subita e incsperadamcnte 
OS desastrosos acontccimentos poiilicos de 
1846 paralysar o andamento regular da ad- 
ministracao litteraria, e nao obstante o era- 
penho sincoro e assiduidade do conselho, os 
effeitos d'aqueile violento abalo ainda se nao 
dissiparam; o por algum tempo tornaram a 
marclia dos nicllioranientos litterarios vaga- 
.rosa, conlrastada, c iutcrrompida. 

Wuito fizeram rccuar (e I'orca dizel-o) a in- 
struccao do paiz OS movimentos politicos, por 
que temos passado nos dois ultimos annos 
decorridos. E que as letras fogem do estridor 
das armas ; e so no remanso da paz, e a sombra 
da prosperidade podem mcdrar. A machina 
da instruccao publica, dizia o maior gcuio do 
- nosso seculo, deve ser como a macbina do 
mundo — morer-se sem se senlir — , e com 
quanto parallela, scmpre distante da esphera 
da polilica. 

A instruccao primaria foi a que mais sentiu 
OS lamentaveis clTeitos das discordias civis. As 
apuradas circumstancias da fazenda publica, 

YoL. III. Setembko 15—1854 



nao podcndo acudir ao pagamcnto regular dos 
profcssores, teem motivado o abandono d'al- 
gumas cadeiras, que estao sem exercicio, por 
nao ter apparecido quem a ellas se opponha 
em concursos, por vczes repetidos. Era natural 
este rcsultado; porque os profcssores d'instruc- 
cao primaria, mais desamparados de mcios, 
iiao jwdem supportar o atraso de ordenados, 
de que geralmente falando, vivcm exclusiva- 
mente, e suas familias. 

Na secundaria tem apparecido tambem algu- 
ma falta de concurrentes aos logares vagos; e 
por isso ainda nao esta completa a organisacao 
dos lyccus em todos os districtos : nera ainda se 
achani constituidos os de Braganca, Villa-Real, 
Avciro, Guarda, Castello-Branco, Leiria, Por- 
talegre, Beja, Faro, Ponta-Delgada, c Dorta. 

A instruccao superior mais consolidada, e 
robustecida.'podemelborresistir asoscillacoes 
politicas, c crises linanceiras. Os interesses 
que ella offerece ainda convidam ao concurso 
para os logares do magisterio, a pezar da dimi- 
nuiyao e irrcgularidade de pagamentos. Mas e 
nesle, mais do que nos outros ramos, que a 
djsciplina das escbolas se sentiu quebrantada, 
em consequencia da febre do delirio, que 
costuma de preferencia invadir a mocidade 
fogosa e inexperta. 

Mas e de esperar que o restabelecimento 
da ordem, e conscrvacao da tranquillidade 
publica, ponham tcrmo a estes males; e pre- 
stcm abonada tianca a um fuluro mais agra- 
davcl. Cumprindo o sen dever vai o conselho 
dar coBta do — estado da instruccao. 



Administracao central. 

No servico do conselho superior houvc na 
maior parte'do anno apenas cinco vogaes. Dois 
falleceram, cuja pcrda o conselho dcplora, e 
um nao foi ainda sub.slituido : oulro foi empre- 
gado fura de Coimbra cm commissao gratuita. 
Continuando rcpartidos em tresseccocs os tra- 
balhos do conselho, mal podiam os vogaes em 
exercicio satisfazer as exigenciasquc o service 
Ihes incumbe, sem se achar completoo numero 
da lei, que nao e de sobejo para os muitos, 
variados, c graves negocios de administracao; 
e para a discussao necessaria d'estes, e dos 
trabalhos deprojectos, que repetidas vezes tem 
de offereccr a consideracao de V. Magestade. 

Num. 12. 



^' 



^M^-^^ 



150 



Nil secroUuia do consclho tambem faltou urn 
oiHcial ordinaiio, que ainda nao consla ao lOii- 
selho fosse suhslitiiido; e faltaiu, sobre liido, 
OS meios para pagar a amauiK'nses, por vezcs 
indispt'iisavt'is para a prompta oxpcdicao dos 
ncgocins. 

Ainda nao lia rommissarios d'i'stiidos nos 
districtos di' I'onla-Delfjada, Funclial. Hi-ja. 
r.astello-Brani'o, Coimlira, Porlalogro, Viana, 
Uorta. Algiins d'eslcs ja noinoados nao toeni 
loinado posso dp sens logares; oiitros nao 
I'oram propostos por falta das informarOes nc- 
cessarias. 

A creai-ao dos sub-delogados e iudispensavel 
para a regular iiispecfao das estholas. cou- 
selho sttperior, roconheiendo a necessidadc do 
mais pcrfcito accordo enlre estcs empregados 
e OS commissarios, a quein sao subordinados, 
tcm recommendado a estes que Ihe indiquem 
as pessoas mais capazes de hem dosempe- 
uliareni o importaiile mister, que se llics ha d^ 
fonliar. A circuiuspeccao e madureza, que 
devem presidir a oscolbas tao mclindrosas, 
sorao por ventura a causa de sc nao rcalisarem 
com a promplidao que o couselho deseja , e 
alguns commissarios reclamam. 

Os governadores civis cm gcral teem pre- 
stado sinccra e efficaz coadjuvacao ao conse- 
Iho ; e alguns teem ate mostrado decidido zelo, 
e dedicacao a instruccao publica ; mas n'uma 
instiluicao nasceate, niio e logo de esfrtrar 
toda a perfeicao de service, e por essa causa 
OS resullados sao per ora raenos valiosos. 

Servicos geraes. 

As circumstancias excepcionaes, em que o 
paiz tern estado, teem estorvado as visilas de 
inspeccao, que os commissarios de estudos 
devem lazer em seus respeclivos districtos. 
D'estas visitas, e d'ouiras prescriptas no art." 
162 do decreto de 20 de septembro de ISii, 
feitas nao regular e periodica, mas inespera- 
damente, colbera a iustruccao copiosos fru- 
ctos, (juando a ordem publica e a seguranca 
individual sc achem plenami'nle consolidadas. 
No districlo de Lislwa e, sobre todos, neces- 
sarid essa fiscaiisacao, e inspeccao, como em 
sen rclatorio conl'essa o corantissario respe- 
ctivo, quandn para aqiielle imporUuite traba- 
iiio se ache liabilit;ido com a coadjuvacao 
dos sub-dcli'gadns. 

Us negucros de e\]>edien'te do consellio nao 
se acham alrasados, nao obstante a falta que 
houve de alguns vogacs ordinarLos, de urn 
official do quadro da secretaria, e de meios 
ipecuniarios. 

consellio tcm colligido dos livros ele- 
mcntares naeionaes, os mais adaptados ao 
ensino da instruccao primaria ; e annualmentc 
tem communicado ao governo de V. Magesla- 
do a colleccao a<lopiada. E para lamcntar que 
aiuda se uao publicasse a colleccao relattva ao 



corrente anno littcrario ; e que esta falta tenha 
molivado as duvidas, que alguns commis- 
sarios de estudos expocm sobre os livros con- 
venient!^ ao ensino. 

Nesta colleccao lignram alguns, cujos au- 
ctorcs sao vogaes do conselho superior. E tanto 
neste, como nos outros ramosdeensino publico, 
tcm-se estampado obras de merecimento dis- 
tinclo, adoptadas hoje por compendios nas res- 
pectivas escbolas. 

As Typograpbias publicas teem procurado 
mclborar-se. Na Imprensa Naclonal teem pro- 
gredido os melhoramentos a pouto de hoje riva- 
lisar com os miiis accreditados da Europa. 

Das liibliolhecas pubficas apenas pode o 
consellio superior dar conta das de Evora c 
Braga, unicas que cumprirara o seu dever na 
remessa dos relatorios. A d'Evora, contendo 
25;0()0 volumes singelos — 5;000 volumes do- 
brados — 1800 codices mss. — ^6:000 e tantas 
medalhas, e 300 e tantos paiueis, precise, diz 
relatorio, de meios para a conscrvavao do 
que existe, e acquisicao d'outros productos. 
Requer o bibliothecario auctoridade e meios 
para elTeituar compras Ibrtuitas e fugitivas, e 
um escriptiirario. A de Braga acha-se em la- 
stimoso estado, cstando mais de 20:000 vo- 
lumes cm estantes velhas depinbo que ameacam 
arruinar o deposito dos livros contido em 31 
cubiculos uupropi^ios para salas de bibliothcca. 

Servieo especial do comsdho. 

Consta actualmente o pessoal do conselho 
superior de sete vogaes ordinaries, c i'i 
extraordirarios (mappa n.° 1). D'estes acham- 
se ausentes 19. A secretaria tem menos um 
officiaJ ordinario do que compete ao seu quadro 
provisorio, por nao ter ainda sido provide o 
logar (jue vagara. Crcscc de dia para dia o 
numero de negocios do expediente, como era 
dc espentr, a mcdida que se fosse centra- 
lisando uma administracao, CHitr'ora vaga, e 
(Ii.«persa ; e se creassem os novos ekiuento.s 
de administracao, e inspeccao indispensaveis 
a unidade c forca dc direccao. 

Os vogaes extraordinarios pertenccntes ao 
corpo univcrsitario, e como tacs subjeitos aa 
service de suas respectivas faculdades, nera 
sempre podem empregar, no service de conse- 
lho, leda a assiduidade e zelo, que a voca- 
cae, e o seu proprio interesse Ibcs podem in- 
spirar. E nao foi por outre motive ((ue no findo 
anno lilterario, nao poderam cuniprir com os 
tralwilbos de organisacao de compendios, que 
pelo conselho Ihes foram encarregados : acham- 
se todavia afguns d'esses trabalhos muilo 
adiantados, c conlia o conselho, que no decurso 
d'este anno possam ser apresentados. 

Nao obstante a repeticao de avisos a todos 
OS dclegados do conselho, e a especial mencao, 
que nos relatorios anteriores se tem feito, da 
falta de cumprimento dos §§. 2, 3, e i." da 



^^SkS^i." 



.'.^e^' 



^>N 



151 



aft." 37 do decreto dc 10 dc novcmbro de 
18iS, ainda nao foi possivcl oblcr, com rc- 
i^ularidade, os csclarccimentos e niappas esta- 
disticos, que dcvem scrvir de base ao rclatorio 
geral da instnirrao publica. Sao todos inconi- 

Sletos OS rclatorios dos commissarios c chefes 
e eslabelecimentos litlcrarios: faltam mappas 
dc frequpncia c aprovcitamcnlo dc 337 pro- 
fessorcs d'instnirrao primaria; do niaior nu- 
liittro dos d'instiucfiio secundaria ; e dc todos 
OS cstabclecimciUos scientificos dc Lisboa. 

Esperava o conselbo que cm septembro ao 
menos se cumpiissc rigorosamcnte o dcver, 
que de todo se csquece nos outros periodos 
niarcados no cilado decreto. Infelizmente assira 
nao acontcce; e julgando indispensavelalgum 
excmplo de scveridadc, sem o qual nao pode 
ja nutrir espcrancas de eonseguir o cumpri- 
ihcnto da lei, nao dissimulara a falta em que 
cstao OS delcgados das Ilbas Adjacentes, que 
nunca ate agora satisfizeram as citadas dis- 
posicocs, e actualmente collocam o consclho na 
impossibilidade de dar noticia do estado da 
instrucfSo n'aquella parte da monarcbia. 

klkm dos trabalhos de servico diario, e da 
cxpedifao de portarias, officios, e provimentos 
tcmporario? a muitos professores d'instruccao 
publica c particular, tem o conselbo rcmettido 
. ao governo de Y. Magestade, desde dezembro 
de 1847 ate ao principio d'este mez, 103 
consultas sobre objectos de intcresse geral ou 
pcssoal, expedido 3 circulares aos sub-delega- 
dos; e discntido 2 projectos dc regulamentos, 
^ucprepara para submettcr a regia approvacao 
de V. Magestade, alem do que fdra offereci- 
do em consulta de 26 de maio do corrente anno 
para a administracao da bibliotheca de Braga. 
Contimia. 



APONTAMENTOS BIOGRAPUICO^ 

SOBRE NOSSO INSIGNE POETA LlIZ DE CAMOES. 
Coiitinu-iilo de pag. 139. 

Simao Yaz de Camoes, filho do dito Joao Vaz 
de Villa Franca e Calharina Fires, viveu em 
Coimbra, e tendo servido na guerra d'Africa 
e na Marinha', esteve ausentc d'esta cidade 
como era indispcnsavel a quem andava em ser- 
vico do rei e da patria alguns annos, duran- 
te OS quaes e natural passasse seu pae a se- 
gundas nupeias com Branca Tavares, com a 
qual ja em 1328 se achava casado; e devia 
seu neto Luiz de Caraoes ter neste tempo 
quatro annos, creando-se em casa do avo 
que entao residia nesta cidade", e aqui havia 

' Bispo lie Viieii, lora. 1 |ia(f. S7 c £8. 

' Cit. bispo (Je VisL-u, p;ip. S9, fallando do anno tin 
que o nosso poeta natceu, di2 = o anno do jeu naicimrn- 
lo nao fui o de 1517 .. .. mas o de ISSi. = 



de continuar ate que nuidando-se a universi- 
dadc de LisbOa para Coimbra ein 1537 para 
1538, nclla comcfaria os sous cstudos por 
esta occasiao, pois devia conlar ja 1.4 annos, 
tempo em que urn talento pcnctranle, e urn 
engcnbo dotado de uma vea rica e fina, em 
breve cstaria prompto para com bom aprovci- 
tameiito se aperl'eicoar nos cstudos superiores, 
e continuar estc longo tempo que nesta cidade 
passou, como elle diz.' 

Ausentando-se depois dc Coimbra, provou 
todos OS contratcmpos da forluna, e os accr- 
bos fructos de Marte, como elle proprio conta*, 
que obrigaram a sair do rcino, e a ir nas 
avenluras do mar e terras estranbas buscar a 
fortuna, que a sua ma sorte Ibe nao pode fazer 
propicia. NSo podemos .saber o anno, cm que 
saiu do rcino; mas, segundo as mais discrctas 
c precatadas conjcciuras, tendo estc aconte- 
cimcnto tido logar depois de 1530, foi neste 
nicsmo tempo que sua tliia, mcia irma de seu 
pae, Isabel Tavares, rcuovou em si o prazo 
das casas na rua dos Coutinbos (/jue como ja 
dissemos naquelle tempo se cbamava da Porta- 
nova), vislo ter succcdido nelle pela morte de 
seu pae; o qual possuiu por dois annos, findos 
os quaes renunciou as vidas e dircito que nel- 
las tinba , a favor de seu irmao Simao Vaz de 
Camoes, fazendo-as reverter a seu irmao pri- 
raogcnito, mediante uma doacao, que estelhe 
fez de muita parte de sua fazenda para ella ca- 
sar com Alvaro Pinto % como consta dos docu- 
mcntos extraidos dos livros dos emprazamen- 
los da Slide Coimbra; documcntosque mostram 
a qualidade da pessoa e familia de Simao Vaz, 
por nelles se dcsignarem as coudecoracoes que 
tinha, e a sua rosidcncia nesta cidade; e que 
por arranjos domestiios, c para casar a dita 
sua irma com o dito Alvaro Pinto, bavendo-lhe 
ccdido a maior parte da sua fazenda, ella Ihe 
ccdeu as casas de que se lavrou escriptura em 
3 d'agosto de 1552 \ para ncHas viver, po- 
dcndo-as nomear a um filbo ou filha que ti- 
vesse ate a bora de sua morte. Pareee que por 
cste novo conlracto seabria um novo caminho 
para a successao de Luiz de Camoes na casa 
paterna, e nos mais bens em que devera ter 
quiuhao; mas a forluna, que sempre Ihe era 
avessa, em breve Ihe tornou a fugir, porque 
Simao Vaz, auscntando-se para o Porto, alii 
esteve residente alguns annos, em quanto o 
filho vagava pela India, c com a sua prolon- 
gada auscncia, a casa se arruinou, e Luiz de 
Camoes, tambem ausentc, ncm tractou, uem 
podia acudir ao dcsmanlelamenlo dos bens, 
que a prolongada ausencia dos donos dcixa 
perder, e em breve cair em ruinas', ate que 
voltando outra vez do Porto com animo de 



' Cani;ao IV. 

■' Can^lo XI. 

^ Vej. o duciimento n " 2. 

* Dociim. cit. D.° S. 

' Vfj. o dycum. n." 3. 



152 



residir nesta cidade, novamente requereu ao 
Cabido senhorio direclo das ditas casus iuiio- 
vaiao do lonlrai'lo omphytfutico por mais ou- 
tras tres vidas, alcai das ([ui' jii tiiilia, alteii- 
dendo a niuila ruiiia em quo o predio so aclia- 
va, e a niiiila despcsa (luc iielle liiilia de fazer, 
que tudo o luesiuo (".aliidii llii- concedeu por 
escriptura imu 22 de seleiuhio de loTO '. Nem 
uesta, nem na anteredenle escriptura lavrada 
a 3 d'agoslo de lii."i2, se faz nicu(;ao da mu- 
Iher de Siniao Vaz, que dcvia sor Anua de Sa 
e Macedo', sigual de ser ja fallecida nesta 
ultima data; nem tao pouco se falla era lillio 
que detla houvesse, e este slleiicio nos faz prc- 
sumir, que ou desgostoso Simao Vaz de seu 
rtlho por algum verdor d'annos, (que nas suas 
limas clle da a entender) o teiia feito enibar- 
car para a Africa, c na votla daqui para a 
India, o que teve logar cm 1553 ' ; ou que a 
ma sorte do nosso pocta, seu genio fogoso c 
insoffrido, o faria despresar todas as reiacOes 
doiuesticas, e os lacos da propria convenien- 
cia, e abandonado de sens mais proximos c 
familiares parentes correr a discripcao e von- 
tade de sous caprichos, exulado de todo da fa- 
milia a que pertencia. Nem podemos imagi- 
nar outra coisa, vendo preferidos os ramos col- 
lateracs da madrasta ao proprio (ilho, verda- 
deiro successor dos bens paternos, quando 
voltando o poeta da India, e sendo seu pai 
ainda vivo, se nao bouvesse estas anteceden- 
cias, nao deixara cair na miseria o proprio 
fdho, de qucm lanta honra llic vinha, com a 
publicacao dos Lusiadas, que viram a luz pu- 
blica em 1372, e no mesmoanno, nova edicao; 
foisa original nos annaes da nossa litteratura! 
Tao grande foi o entliusiasmo que com esta 
produccao elle adquiriu, que todos a portia 
demandavam um exemplar da sua epopea, o 
que egualmente demonstra o bom gosto e aprc- 
co da nossa litteratura no seculo XVI *. 

Teve Joao Vaz de Camoes, d'alcunba o do 
Villa Franca, outro irmao por nonie Pero Vaz, 
d'alcunba deCoimbra, ambos foram cidadaos, 
emoradores nesta cidade'; e Pero Vaz, como 
se estabeleceu no Algarve, abi esteve por 
escudeiro do conde de jMonsanto, como se diz 
na escriptura de 9 d'agosto de 1330. 

E por que aqui so falla no conde de Mon- 
santo cm cuja valiosa proleccao se acbava 
Pero Vaz de CamOes, farei uma pequena di- 
gressao sobre esta familia, a quern o nosso 
poeta foi devedor de mui assignalados favores. 

Eram os condes de Monsanto dos princi- 
paes, e mais nobres fidalgos portuguezes. A 
sua ascendencia (seguindo D. Luiz Salazar no 



* Docmii''nto cil. n." 3. 

'■' Ri'pu lie Visi-u cil. |i.i;;. S9. 

* lacm |>.i:r. -if} e se;,'uintPs. 

* li. pa-'- a? .= qii.uicio C.iinues app.irccia ii.is riias 
lie Lislioa [innivain as peFsoas, tjue iam pnssanilo a vel-o 
e nao cuuliiiimiam mm quo priiiniro fivi'sie ilc-sai>|iarc- 
ci'lo. = 

* V'-j. o djciimtjily D." 1. 



livro intilulado — Glorias da Casa Farnese — 
ao mesmo tempo que se entronca na estirpe 
real de D. Garcia, fillio de D. Fernando o 
grande, rei de Castella, perde-se na escuridade 
dos seculos: mas approximando-nos mais aos 
leuijws modernos sabemos, que o 3.° conde de 
Monsanto 1). Pedro de Castro, foi alcaide mdr 
c fronteiro mor de Lisboa nos reinados de 
elrei U. Manoel e D. Joao III ', e era ncto de 
I). Fernando de Noronba, 1 ." marqucz de Villa 
Real, |)or ter sido sua mae D. Joanna de Castro 
casada com D. Joiio de Noronba, iilbo do dito 
marquez.' Seu Iilbo D. Luiz de Castro 4.° 
conde do mesmo titulo, casou com D. Violan- 
te de Tavera, lilba do 1.° conde da Castanheira 
D. Antonio d'Ataide, c de D. Anna dc Tavera 
(da casa dos condes dePortalegre). ^ Sous ne- 
tos com senborio de Caseaes passarara a 
marquezcs d'este titulo, e havendo faltado a 
descendencia dirocta acba-sc boje encorpora- 
da a casa e titulos na dc Niza.' Deste tracto 
mais familiar e frequente dc Pero Vaz de Ca- 
moes, tbio do nosso poeta, com o conde de 
Monsanto nasceu senao com eerteza, prova- 
velmente a eslremada amisade com que Luiz 
dc Camoes foi bonrado por D. Antonio de 
Noronba, Iilbo dos condes de Linbares, e dos 
mais bdalgos seus parentes, grangeando com 
ella favor que na India Ibe deu D. Constan- 
tino de Braganca, e D. Manoel de Portugal, 
da casa do Vimioso'' favor que elle retribue 
com agradecida correspondencia nas suas 
eclogas, elogias e sonelos, cm que se nota a 
amisade ou antes veneracao que tribulava ,9. 
tao elevadas personagens. Voltemos porem ao 
nosso assumpto. 

Casou sobredito Pero Vaz no Algarve 
com Brites Gomes, alii deu princfpFo ao rarao 
d'algumas familias nobres, que ainda boje 
aparontam com a do nosso poeta pelo lado 
d'este seu tbio, pois que a descendencia de seu 
pai f!Om elle se perdeu, licando so a de Filip- 
pa Tavaros, irina de sua madrasta Branca 
Tavares'. Sabia, e discrcta provisao da Pro- 
videncia, que nao querendo croar outro genTo 
egual ao nosso poeta na linha desccndente de 

' F.iria e Leraos. Pulil. Mor. e Civil lom. i.° pag. 
.'lOl. 

- Moreri Dicriitn. art. — C.islrn — ondc refere esta* 
nolic'i.is que alcan(jMm niais do que as rcferidai na Hislo 
ria G'Mifaio;;. da C. K , e pw is80 as vamos sejruinilft. 

- Proias da Hisloria Geneal. torn 11 cap. 5 11.° 15. 
paj. 9:i0. 

■• MiMiiorias para a Hiat. Eccles. do Alsrarve pcio socio 
da Aculemia rjilta Lopes, 18*11 p.m. 493 onde se dil 
adrainislr.ir a casa de Moiisanlo o vinnila que o bispo 
.\lao insliluira em Lisboa na cjreja de S. Barlholoiteir, 
e hoje a casa de Niza. 

> Sobrc oi fa\ore3 dost'S fldaljos veja-se e que dil o 
bi«po de Viseu na s'la Memoria citada no lom. 1 dai 
sriag obras pa:j. ."8. e sobre os versos aos liilul^'os leani-se 
as Rimas rle Camoes mi3 lojarea ai)onlados, aonde d'clles 
faj (special Icnibrant;a. 

' Sua irma Isabel TavareJ, que deiio casada com 
Alvaro Pinio, presume nilo ler lido g.-rarao , por que 
resto dos bens de SimiSo Vaz, ludo passuu aos collaleraM 
dctia, ate qi-,c »c cslir.^'uiu de lodo cm 1643. 



153 



sua familia com elle terminou toda a sua poste- 
ridade. Sobre a qualidadc de sua pessoa nao so 
era lidalgo d'elrei, seu pai SimaoVaz; senao 
tambcni seu avo Joao Vaz, para cuja prova 
basta so ver os documenlos juntos a cstes apon- 
lamentos, ondc sao dcsignados por escudeiros, 
e cavalieiros, sohre cuja norao diz o Elucida- 
rio' — Em quanto os fidalgos sc nao armavam 
cavalieiros serviam na milicia com o nome 
de escudeiros. — Ora sendo Joao Yaz designa- 
do por csta qualilicacao nos documenlos que 
oITercccmos, lica manifesta a sua nobreza na- 
quellc tempo. Da dcsccndcncia de Pero Vaz de 
Camoes, que se estabeloceu no Algarve, da 
testemunho com outros o citado e eruditissimo 
bispo de Viseu% e porque nao e do nosso 
assumpto descrcvel-a, passo-a cm silencio, ate 
por nao ler visto documentos, que me podes- 
sem por a salvo d'alguns cnganos, excepto o 
que no seulogar apontamos, e quedemonstra 
a sua existencia no reino do Algarve. Ora ten- 
do seu avo vivido nesta cidade e designando- 
se cidadao, assim como seu pai Simao Yaz, 
tendo nella bens e propriedades, grandc pre- 
sumpcao me lica (para nao dizcr certeza) de 
ter sido a sua naturalidade d'esta, e nao da 
cidade de Lisboa. Faria c Sousa, apurado in- 
dagador d'anliguidades, tendo-o dado por 
natural de Santarcm, na segunda vida que 
deu do nosso pocta, muda de parecer fazen- 
do-o natural de Lisboa. DomingosFernandes, 
na dedicatoria das Rimas que offereceu a uni- 
versidade de Coimbra, e publicou em 1607, o 
declara natural d'esta cidade, dizcndo — pois 
nascendo elle nessa vossa cidade de Coimbra 
^expressao que denota estar certificado mais 
que OS outros biographos da sua naturalidade; 
que ludo combina muito com os documen- 
tos que nestes apontamentos oderecemos, a ver 
se algum mais habil indagador pode descobrir 
outros que nos soltem as difficuldadcs, e escla- 
rccam as trevas em que nos achamos envolvi- 
dos. Em lS8i ja Simao Vaz era falccido, e as 
suas casas tinham passado para urn parente 
de sua madrasta, que casou com sua segunda 
mulher D. Francisca, a qual tinha ficado her- 
deira de seu marido Simao Vaz de Camoes, e 
por esta razao encontramos uma determinacao 
do Cabido concedendo a um sou conego Fran- 
cisco Pessoa, dircito de as revindicar da mao 
do Dr. Roque Percira Tavares, que as possuia, 
por sua dita mulher D. Fraheisca, viuva do 
sobrcdito Simao Vaz. ^ Daqui se conclue que 
tambem Simao Vaz, dcpois que voltou do Porto 
em 1570, novamente casara nesta cidade com 
uma D. Francisca, cujos appellidos mais se nao 
podeni saber pelo apoucado do assento, e falta 
noticiosa que encerra. Nao encontramos o re- 
sultado e decisao da queslao que o dito conego 
Francisco Pessoa intentara contra o referido 

' Vilerbo. Eliici,!. arl. C.ivallciro, no Hm. 

' Mem. d'CamSes nns suas ubras lorn. 1. paj. 88. 

' Vcj. o (locumenio n ° 5. 



doutor. A.cho porem que era 160b esle requc- 
rSra ao Cabido para nao emprazar nmas casas 
na rua de S. Christovao a um seu cunhado, 
sera Ihe darem vista ' do requerimento e pcr- 
tensao do dito cunhado, e em 1628 se encon- 
tra outra pertensao de Manoel Corr6a, a quem 
Dr. Roque Pereira tinha deixado o direito 
de renovacao do referido prazo, signal de que 
nesta data ja era falecido, nao se sabcndo se 
tambem teria tido egual sorte sua mulher D. 
Francisca, viuva do dito Camoes. Tacs sao as 
noticias que encontramos nos emprazamentos 
da cathedral, unicos que descobrimos, c assim 
mesmo ainda minguados de csclarecimentos 
maiores, que muito se desejam para poder 
documentar uma hisloria, que tao cara se 
torna a quem tern amor pela patria, e p«la 
gloria nacional, de que o nosso poeta foi 
estrcmado admirador, e sublime pregociro. 

UIGLEL BIBEIRO DE VASCONCELLOS. 

CoHlinua, 



NOVAS TABOAS DA PARAI.LAXE DA LUA. 

FOB J. C. iDtHS. 

Pela comparagao da parallaxc das taboas 
lunares de Burckhardt com a parallaxe que 
Dainoiseaii deu em suas taboas, Adams acLou 
que miiilas das peqiienas equajoes da paral- 
laxe deduzidas das taboas de Biirckliardf, 
difTeriain comj)letarnente de sens valores tbeo- 
ricos dados por Darnoiseau. Foi enlfio que 
elle soiibe Wr ja Clausen advertido (vol. 
XVII doi ^stronomische Nachric/ilen) que 
liavia iinja difVeren^a entre as equajoes da 
parallaxe de Burckhardt c as de Biirg e 
Dacnoiseau, ii'uma analyse comparalivad'eslas 
taboas. 

A inexaclidao dos coefficientes de quatro 
das pequenas eqiia(;oes da parallaxe, explica 
Adanif, suppondo que Burckhardt einpregou 
por engaiio a longitude verdadeira em \ez 
da lonj^itude media do sol, na formayfio dos 
argumenlosda evec^ao eda variacSo. A respei- 
lo d'uma outta d'eslas equagoes o seu coef- 
ficlente foi lomado com signal contrario, e 
finalmente n'outra equa^.io mais o arguinen- 
lo c falso. 

No toino X das Memorial da Sociedade 
real ostronoinica de Londres apresentou Hen- 
derson uma nova delerniina^ao da parallaxc 
da lua por meio das observaCj'oes que tinha 
feito no cabo de Boa Esperan^a, e das cor- 
respondenles feilas em Greenwich e Cambridg; 
para constanle da parallaxe achou 31-22",'l6, 
comparando a parallaxe observada com a pa- 
rallaxe calculada pelas taboas de Damoiseau. 
Mas como a parallaxe das taboas e estricta- 
mente o seno da parallaxe reduzido em segun- 

' Documenlos n." 5 e 6. 



154 



ilos tl'arco, e necessario por isso lirar 0'',15 
Je oi28",46, o que rtidaz ic-gmido Henderson 
a 3+83'',31 a constaiUe da parallaxc. lisle 
reeullado estii em ptirfeito acconlo com o valor 
de 3432'', o2.> que Adams Q!)leve fundando-se 
tips llieorias de Daiiioisoau c Plana, 

Triipsforinando a expiessfio da parallajo 



dada pela llieoria, a lun de dopendor dns 
arjjnmentoi de longiliide de Udrckliaidl, 
Adams cliegou u se^iiintu formula, em que os 
argumenlos da evec(;iio, anomalia e varia5ao 
sao expresses por E, A, V, c os argnniento5 
dus pe(|iion.i6 oqua^oes por sen niimero, coino 
em Uiirckliardl : 



0",3t— 0'',34coi (1) 
1,73 -4- 1,73 cos (2) 
i.U ■+■ 1.4G cos (4) 
0,87 -1-0,87 cos (5) 
0.71—0,71 co» (6) 
0,11 — 0,11 cos (7) 
0,62 — 0,62 cos (8) 
1,81—0,05 cos (9)-)-l",81 cos2 (9) 
0,21 — 0,21 cos (12) 
0,16 — 0,16 cos (13) 
0,14 -t-0,14 cos (16) 
0.12 -(-0.12 cos (23) 
O.lO-f-0,10 cos (25) 
36,81 -H 37.22 cos (E) -^0".41 cos 2 (E) 
55'30,92 -4-187,14 cos (A)-h 10,27 cos 2 (A)- 
2(»,18— 0,94 cos (V) -1-26,34 cos 2 



i-0'',64 cos 3 (A)-i-0'',OV cos * (A) 
(V)-+-0.t6 cos 4 (Yj. 



N'esta formula desprezou-se urn pequeno 
termo, menor que 0",01J. 

A peqiienissima dilferenga que lia enlre a 
somma 3422",29 das constantes da formula, 
e a constante da parallaxe adoptada por 
Adams, e uma consequencia da raudanja na 
forma do desinvolvimento. 

As novas taboas de Adams foram por lan- 
toconstruidas pcla dila formula com os mes- 
nios arsumenlos que as laboas XXXVf, 
XXXVll, XXXVII!,e XXXIX de Bur- 
ckliardt (edi(,ao de Coimbra). Assim que, len- 
do-sc formado os argumenlos 1,2, 4, etc. c os 
argumenlos da evec^ao, anomalia e varia^.'io, 
dovcm procurar-se com elles nas taboas cor- 
respondenlesde Adams, as equajoes da paral- 
laxe liorisontal equalona. 

Adams deduziu laml)em a formula por que 
foram construidas as laboas da parallaxe de 
Burckliardl, e acliou a mesma que vem na 
edirao de Coimbra a pag. X da explica^ao. 
Burckliardt diz exprc^samcnle na inlroduc^ao 
das suas laboas ler seguido quanlo a. paral- 
laxe a llieoria do Laplace; porem omiltiu a 
forma que Ibe deu apropriada aos argumen- 
los que adoptou. 

O emprego da longilude verdadeira em vez 
da longilude media do sol, produziu na for- 
mar.^o do argumcnto da variajao, erros 
nos copfCicienles das equaooes 2 e 12, e na 
forma(;no do argumenlo da evec^.io, erros 
nos coefficicnles das equa^oes 4 e 13. Os er- 
ros da parallaxe provenientes d'aquellas equa- 
^ocs, serao geralmcnle grandes em mar^o e 
setembro, e pcquenos no printipio de Janeiro 
c julbo, cm que se da coincidencia quasi enlre 
o logar verdadeiro e o medio do sol. 

A qua^.'io 6 foi tomada com signal con- 
Irario, e na equa^lio da varia^'io parece Icr-se 
enipregado 3 (V) por 4 (V). 



O erro total das taboas da parallaxe de 
Burckliardt pode cliegar a 6", independenle- 
in<?nle d l",8 que n'ellas a conslanlo da pa- 
rallaxe tern de menos. 

Depois de liavermos dado noticia das taboas 
de Adams, acrescenlareinos quo no connaii- 
sance dcs temps para o anno de 1856, ontle 
encoiitraraos as novas taboas copiadasj* do 
JS'autical ^Ibiianac do mesmo anno, ainda 
n.'io vem caloulada a parallaxe da lua por 
ellas, de sorte que as nossas epbemerides para 
o anno de 1857 podem saliir com mais e*le 
apertelgoameiUo, alem dos que ullimamenle 
foram n'ellas introduzidos; e nSo ficara par 
este lado niais avanlajado o conliQcInientiQ 
dos tempos de Paris. 

Para acmellianle effeito acbam-se ja no prelo 
as laboas de Adams que reduziinos u mesma 
forma em que publicamos as de M. Bur- 
ckbardt, c que servirao de complemenlo a csle 
traliallio, e de subslituij.'io as taboas respecT 
tivas da parallaxe, quando se pretender caU 
cular ssla CQin maior grao de perfei^ao. 
?. M. B. FEIO. 



JERUSALEM E O MAR-MORTO. 

AHCHEOLOGU BKBAIICA. 
CoDllnu^Up dc p.ig. I {6. 

O menos conhecido de tndos os lagos, at- 
tenta a sua grande celebridade, e o Asplial- 
tite. Uni ve'o mysterioso envolve sua origemj 
natureza e produc^oes : collocado no meio de 
um medonlio deserto, suas aguas eslagnad.is 
e immoTcis, em cuja supcrficie verdenegra 9e 



155 



rcflt'cle o ceo, apresenlain urn lao lugiibre 
aspecto, que por iiso llio deram o nouie dc 
JlJnr-niorto. 

Oa aiilig"s tinliain miii escassas nolicias 
a cerca do Ingo Aspliallite, que so come^ara 
a scr mais cstudado noi priineiros aniios d'cate 
jeciiln. Fora eile laj^o, scguiido lodai as 
nrol)al)iIi<la(les, lliealro dc? iitiia graiide ca- 
tastroplio. O notavel aspecLo das siias agiias; 
OS siiigiilarcs plienonieiins, que ellas apreaou- 
lani, altestadoi por lodoi os observadores, 
(ii^nos de niaior crcdilo; e a espanlosa deso- 
la^ao da sua praia meridional, sao oulros 
lamns vealigios de algiiina grando revolii^ao 
pliysica, que tiansformiira complotameiUe 
a superficie do solo n'aqiiella regiao, oiide 
hoje so reina a solidao, e o silencio dos 
luaiidos. Nealc mesmo logar, segiindo a tra- 
difao lieliraica, exislirain outr'ora cinco ci- 
dadc-j, que, lendo iiicorrido na colera divina, 
foraiii fuliiiinadas, <; cornplelarneiile destrui- 
das. Acaio eiilre o facto pliysieo de iima graii- 
de rcvoIuQ.no, de que taiUos indicios reslain, 
ea Iradi^rw liebraica liavera aiguina rela^-fio, 
mas nesle ponlo os iiiais erudilos arclicologos 
nfio estao de acordo. 

Algutis julgain que o lago coexislira com 
o Jordao, e outros rios, que nelle deserii- 
bocain, regellando conio iiiadniissivcl a opi- 
niao de Cellario, que o Jordfio correra ou- 
tr'ora no golplio arabico, porque o Asplial- 
lite recebe ao sul uiii rio, que vein em direc- 
cao inver?a do Jordao, conchiiiido d'aqui 
que o lago j;i existia, quando Levo logar 
a destrui^-ao parcial de que faz iiieiisao o 
Genesis 

O cflebre Micliaelis, o sabio geographo 
Buscliing e outros, suppoem pelo coiitrarjo, 
que podeni facilmente couciliar-se as pagiiias 
sagradas com a historia d'aquelles impor- 
lanles plieiiorneiios da physica do globo. 

A Ivscriptura diz, que o valle de Siddim, 
ou a planicie de Sodoina, coiivertida depois 
em mar de sal, ou lago Asphaltil'3 uconliiilia 
sobre uma va^la exteusao po^os de bituriie, 
e que era toda regada como o paraizo do So- 
nhor, ccoiiio o Egyplo ued'aqui conclulram 
aquelles auclores, que uma parte dasaguasdo 
Jordao, depois de aljineutarem os iiumerosos 
canaes, que fertilisavam aquelle paiz, se re- 
uiiiam formando um lago subterraneo, e que 
no momciilo em que os raios inflammaram os 
po^-os de bitume espalliados ii superficie 
d'esta planicio, o solo seabatera [lela violeucia 
d'estc terrivcl incendio, e as ciJades se abys- 
maram com elle no tundo do lago. 

Ha trinta aimos eata liypotlie>e pareceria 
coinpletaiiiente destiluida de fundamento. 
Uui liabil oliservador, pore'm, que moderna- 
iiiente visitiira o lago Asplialtite, corroborou 
cm parte aquella doulrina, sustentando queo 
lago cobre lioje a antiga planicie de Siddjiii. 
Priineiramcnle, diz Robinson, a parte meri- 
dional do Mar-morto dilTore complelamente, 
quanto ao seu aspecto, da do norle, que llic fica 



separada por uma especic de peninsula, quo 
parececortar eui dois o lago. N'aquelia parte 
meridional o mar e pouco profundo ; na «ua 
extremidade ao sudoesle ve-se uma massa de 
sal gemma na altura de duzentos pes, a que 
d.'io o iiome de I'romonlorio W Usdum, oiide 
Sodoma; as suas margens ao oeste e sudoesle 
sao planas e escalvadas. Obiervada das nioii- 
tanlias do oeste, aquella massa de sal gemma 
pode comparar-se a [or. de um rio na vasante 
da mare. Em segundo logar c^ta regiao e 
toda volcanica e suj 'ila a repeiidos lerre- 
motos, cujos vestigios estao aiuda frescos na 
rogifio do lago Tiberias, que llie fica nfio 
mui distante. Em terceiro logar o asphalto, 
lioji muito menos abundante que antiga. 
mente, so se encontra na parte meridional 
do lago, apparecendo a superficie das aguas 
apoz alguni abalo do terreiio; cm 1334 e 
1337, por occasiao dos grandes lerremotos 
que dcsolarata e^te p.iiz, os ventos arrojaram 
sobre a praia grande quanlidadc d'aquelle 
bilume. 

Robinson admitte por tanlo a Iradi^ao 
liebraica quauto a destruijao por effeito dos 
raios celestes das cidades crimiuosas; mas a 
e=ta causa ajunta a acs'io volcanica, concur- 
rendo simullaneamente para abrasar aquel- 
las cidades, inflammando os numerosos depo- 
sitos de bitume accumulados lia seculos nos 
P090S, de que faz men5fio a Escriptura. Aca- 
so tambem estas grandes massas de bitume, 
exteudendo-sc por entrc as divcrsas camadas 
do terreno, segundo a sua stractificajao, 
tornavam o terreno de Pentapole um im- 
menso foco de inceudios subterraneos. Uma 
ou outra daquellas causas baslava por tanto 
para a dealrui^iio do valle de Siddim, c 
immediata formagSo da bacia meridional, 
resullando d'aqui o eugrandecimento do lago 
Asphallite. Se e»ta catastroplie se realizasse 
por aljalimenlo do terreno, as aguas se preci- 
pitariam neste abysmo formando uma nova 
bacia no Mar-morlo : e se o plieuomeno leve 
logar por sublevajao volcanica, e natural 
que as aguas, transpondo seus antlgos limites, 
se espalliassem para o sul sobre os grandes 
baixos, desde a peninsula de Id-Mozraa ale 
a extremidade do Mar-morto. 

A llieoria de Robinson esla tambem d'ac- 
cordo com a maneira por cpie os geologos 
consideram lioje os bilumi.-s naturaes, ou as- 
pllalto^, que sao conlados entre os productos 
volcanicos indircctos, do mesmo mcdo que o 
sal gemma, as erupjnes gazosas, e as fontci 
tliermaes, e por i^so o distincto geologo de 
Buch uao duvidna confirmar em muitos 
pontos a tlieoria do arclieologo inglcz, que 
um insigne poela, e um alialisado orienta- 
lista lao vivamenle conibateram, talvcz por 
demasiado escrupulo religioso. 

" A presenga iicstes logares d'aguas tlier- 
m^aes, enxofre easplialto, diz Clialcaul)riand, 
nao e prova suftieiente da existencia de um 
volcao; por tanto reporto-me pura esimplcs- 



156 



nienle li Eicriplura sagrada, qiianlo as cida- 
iles abisniadas, seiii recorrer aoi aiguinentoi 
plivsicos. 11 

Qiialreinerc admilte a liypolbeae de Mi- 
cliaelis com alguinas modifica^oes, mas rc- 
gcila expreisarni'iile a ac^'io volcaiiica. a A 
catastrophe da planicede Sodotna, dizosabio 
orioutalisla ; n'lo pode ser o resultado de urn 
lerreinolo, por que eslcs iiiio deixaiii apoz de 
si tanta desola^'io e lao profiindos estragos ; 
sc lima erup<;ao volcanica, on inn lerreinolo 
fojsem a causa uiiica da ruina de Sodonia, 
e das cidades circuinvisiiilias, aquelles plieno- 
inenos deviam ler-se repelido no aiidar dos 
tempos, c Jerusalem teria experirnentndo 
lambem graves calrastrophes. ii Som negar- 
mos a for^a d'estas objecyoes, nao nos parece, 
com tudo, que ellas pos^aiii refular os funda- 
menlos da llieoria de Robinson 

Uma Uieoria, que poderd chainar-se philo- 
logica, p'-Ttcnde siistenlar com numerosascita- 
joes arrasladas para o assumpto, que o lago 
Aspliallite nao occupa o proprio logar de 
Pentapole. Ileland, hollandez de najao, e 
reputado um dos mais profundos sabedores 
em antigiiidades sagradas, e o auctor d'esta 
theoria, que mais tarde Malle Brun apoiara, 
e de que ultimamenle Saulcy se declarara 
ardente partidista. 

Fora na verdade grande loucura da parte 
dos fundadores de Pentapole, diz um dos 
mais illuslres adversaries d'esta theoria, se 
elles livessem preferido um pequeno canto 
de terra, encaixada n'lim eslreito valle da 
ardente moiitanha,a fertil planicede Siddim, 
cortada de tantos riachos e tao aprasivel, a 
pesar dos ardores do ciima, que ai^uns com- 
mentadores acredilam, que tora n'esta pirle 
da Oanaan, que Deos collocara o paraiso 
terreal. 

Nas diflerentes jiassagens de Jeremias, de 
Sophonia, e d'Amos, tractando-se da destrui 
•jfio das cidades criminosas, so se faz inen^ao 
do enxofi-e, de snrg,is, de lilacs, e de incen- 
dios, mas ningiicm igiiora que a linguagem 
dos profetas, e miiilas vezes my>teriosa ; e 
quasi sempre vaga, c allegorica, e (pie nao 
pode por isso ser invocada, quando se tracta 
deavniiar um facto physico, do niesmo inodo 
que iiinguem se lembroii ainda de invooar o 
Apocalypse para resolver uma questao de 
geograpliia, 

Osnuctores profanes ciijo testemunlio citam 
OS defensorei da theoria philologica, n.io pro- 
vam mellior a favor d'ella, (pie os livros 
sagradoj. 

A submers'io de Pentapole nao e contesta- 
da pelos historiadores profanos anteriores a 
Jose, se excepliiarmcs Slrabao e 'J'acilo. O 
primeiro, as*ignando sessenta estadios de cir- 
cumferencia as ruinas de Sodonia, parece, (]iic 
nao visitdra nunca a Judea, coiifundindo at(i 
o lago Asphallile com o Sirbon , situado no 
Egvpto a di>lancia de mais de sessenta leguas 
do Asphallito ; ncm era verosimil ijuc as rui- 



nas de iiina cidade sobre a qiial pezam qua- 
reiita seciilos, e Icvantada por uma pequeua 
Iribu arabe no ineio de um oasi^, podessem 
ainda ter, an calx) de tantos mil annos, Ires 
b'guas do cJrcumfereiicia. Tacito,que faz os 
Judeus oriiindoi do monte Ida, porqiie delle 
lomarain o rioiiie, nao e nesle ponio teste- 
niunho de maior aiicloridade. 

Jos(' nas siias anligiiidndcs judaicas, di/, 
11 que a Sedomlcia desapparece^T, e com ella 
as fnntes, que tornavam esta re;;iao tfio fertil ; 
Sodorna desapnreceu, e o lago Asphallile oc- 
cupa lioje o valle tndo. " 

Estevam de Bysancio, geographo, que 
escrevia no seciilo V, fallcindo de Sodonia, 
(llz lambem que u esta cidade era a capital 
de dez oiilras, cpie jazem sepulladas no lago 
Asphallile. ii 

Por taiilo nein nos escriptores ])rnfanos, 
nem nos sagrados se encontraui fjrnvas suffi- 
cientes em abono da theoria de Ileland , que 
Saulcy perlende su^tentar na sua viagem as 
terras bililicas, loinando como ruinas da an- 
tiga Sodouia, algiins moiitoes de pedra brii- 
la, e calcinada , descriplos ja por outros 
observadores ao norle da monlanha dc sal. 

Nem essas suppo^tas ruinas podiam per- 
tenccr a alguma das miseraveis cidades de 
Pentapole, lao pouco importaiites, que uma 
so noiile bastara para Abrah'io as conqiiistar, 
e que, como a maior parte das cidades do 
oriente ainda lioje, deviam ser corislruidas 
com simples lijolos. Oi Hebreus quando con- 
qiiistaram Canaan, e muilos tempos depois, 
nfio einpregavain na constriici^'ao dos edificios 
publicos e parliculares, seiiao madeira e 
barro. Uma torre de madeira era a unica 
defesa da cidade Sicliem ; e a cada passo se 
le na Biblia a descrip^rlo dessas nie-quinlias 
conslruc^oes , que conslltiiiain toda archile- 
ctura liabraica. A lei de Moises punia com 
a penna de at^oite an lalrao (]ue n'uma nolle 
arroinbasse as paredes de uma casa , tal era 
a solidez que ellas liiihaiii ; e Joli diz que 
miiilas vezes o venio do deserto derribava 
eslas pobres cabanas. 

Eis aqui porqiie em toda a Palestina, e 
nas regioes visinlias nan se encontra um uni- 
co iiioniimeiilo, cuja exialencia remnnte a 
epocha deAbrahio, on mesino li de David.' 
J. u. DE ABREU. 



MOLESTl.i DAS VINHAS. 

Conlinuado de paj. 1S9. 

11 Adnlpho Targioni e Emilio Bechi, de 
Floreiiga, apreseiitarain uma memoria miii 
imporlante sobre a nalureza da molestia das 
vinhas, e lornam-se por issn dignos na opiniao 
da coinmissao d'uma recompensa de mil 

' Vej.i-se a Reeue del Detiz Uond. — Pjris 1831 — 
torn. VI. 



157 



francos. Eslos dois sabios, junlanienle com 
Cozzi e Tliomaz Funk, lem fello niiinerosaj 
analyses cliiiiiicas, que iicis parecem dignas de 
alteiifao. Analysarain cotDparalivaiiienle tniii- 
las variedades du caclioa d'uvas atacadas 
da inoleslia, e oulras inteiiameiito sfis, no 
estado secco, e normal. Fizeram la[iibeni ti.na 
cspecie de analyse meclianica, separando a 
pnjpa, a pele, e grainlia dos diversos caches 
d'livas, e procederam ii analyse chimica deslas 
diflerentes paries do fniclo da videira. Ksles 
auclores acliaram, qne as uvas atacadas da 
niolestia conlinhain \ima porcjao muilo riiaior 
de azote, dnplaj e ale Iripla da que exi^le 
nas nvas sas; no moslo e que se encontrum 
mais subslancias azotadas. O caclio d'uvas 
eonlaminado conlem n)ai3 saes mineraes, e 
menoi maleria sacharina C)s niesmos auclo- 
res analysarani latiibem oulras planlas egual- 
inente atacadas por diversas cryulogmas. 

t! N'uma ouUa meinona Ua-parini de 
Xapoles, de^ereve a rooleslia da viiilia com 
grande talenio, examinando a parasita em 
loclas as plla^es da sua evolu^ao, e lermina 
com uma liisloria mui complela da germiua- 
yno dos spores do oidium tuckeri, poslo que 
OS n.'io observou nas condi^oes normaes do seu 
desinvolvimenlo; por lodes esles molivos a 
commissao cnlende que o A. merecia, como 
prova de di.-linc5rio, uma giatificajao de 
dOO francos. 

u Dois outros concurrenles ilalianos sao 
dignos de mencionar-se pela serie debecn diri- 
gidas ex|>eriencias, que communicaram a so- 
ciedade na cnnformidade do seu programma. 
ii O graiide nuniero de documenlos que 
nos tVirarn eiiv'uidos d'aleni dos Alpes, -e a 
imporlancia das experienrias, que alii tern 
sido feilas, pode avaliar-se pelos grandes Ira- 
ballios de que nos occnpamos ; traballies, que 
revelam bem a gravidade da molestia das 
vinlias na llalia 

u Vos sp.beis, senljores, que, do lodas as 
experiencias, sfio as agricelas as mais diliiceis 
e delicadas; raro acoMtece serem ellas com- 
paralivas, e a ^ciencia agricola carece sempre 
de proceder com a maior cault-l.i 

li O doulor I'olli, professor de cliirnica na 
esciiola leclinica de Mdk'io, e Mannet Bou- 
zanini, ciigejdieiro civil n'aquell.i cidade, 
dislmguiram-se pela boa direc^ao de suas 
oxperiencias sobre o apj)lica^ao das dissnlugoes 
de sulpliidialo de cal, clilorurelo de cat, sal 
coMUnuiM, ^ul|lllalo de zmco, agua auioniacal, 
proveuicnle da rerinai,fio do gaz do carvao 
de pedia, do gesso em |)6, da essencia de 
terelientliina di-solvida em agua, eul fiui da 
Hgua de lavaj;em das follias de labaco, la- 
vagi'm, que se faz em uuia dis=olii(,-rio de sal 
de .'J a 4.° do areouieUo de Bi-aume. Os dois 
"Ijsei vadores ensaiaram eslas diflerentes dis- 
solucoos n'uma vmlia, applicando-as a algu- 
uias videiias collocadas no mcio d'oulrns, 
a que iienliuin lialamenlo se fizera. De todos 
I ales remedios, a agua do Ubaco foi o unico 



que deu um resullado satisfactorio. Seria 
curioso indagar se no emprego da agua do 
labaco e'a nicolina que obra, come nos julga- 
mos ; por que n'este caso a nifolina podeTia 
ser subsliluida por atgum dos alcolioloides, 
modernamenle conliecidos, que se obleriau) 
scm grande despesa, e que deveriam enipre- 
gar-se no estado de saes. M. Fox tinlja ja 
experimenlado com bom resullado a a^ua de 
labaco. 

ii Ha um faclo digno de nolar-se, posto 
que d'elle se nao possa lirar uma conclusao 
delinitiva. Livre o caclio d'uvas do otdium, 
o fruclo corilinua a amadurecer sem diflicuf- 
dade. Muitos meios tem side propostos pelos 
diversos auclores de memoiias p-ira expulsar 
o oidium. Um dos que maior credilo tem 
lido, e o de vapor da agua a ferver. Guillot 
^alvou a coliieita d'uma vinlia efilre' duas 
oulras completamenle perdidas, injectando 
sobre os fruclos, logo depois da llora(;ao, vapor 
da agua d'liui regador quente, condusido 
n'um carro de mao pelo meio das vinlias. 

li Dois pliarmaceulicos Colliuel e Alalaperl 
observaram, (jue barrando as uvas com um 
poluie feilo com agua de sabao e argilla finu 
nio OS atacava o oidium. ji 

O parecer da commissao foi approvado em 
lodos OS seus arligos. 

(Journal U'Agricult. Praliq. n." 15, de 5 d'airoslo d.- 
1854.) ^ 



AS MUIJIERES IIISTORICAMEME 
CONSIDERADAS '. 

Os annaes do mundo apresenlam uma 
singular contradigao na hisloria das mulljeres. 
N'(im mesmo povo, n'uma mesma cpoclia, e 
sob as mcsmas leis as mulberes sao tracladas 
como seres superiores, e como as mais infimas 
creaturas! Poderia dizer-se que algum inson- 
davel misterio occulta na mullier aos ollios 
dds legi-ladores a verdadeira nalureza d'ella. 

Segundo a Biblia a mullier nao podia ira- 
balhar nas vestes sagradas dos sacerdoles 
neu) se Ibe concedia o dlreilo de preslar inn 
jurauiento, por que nao linlia palavra. n A 
mullier, que jura, diz Aloises, nao e ebrigada 
a sustenlar a sua palavra, se o espeso^ ou 
o pailli'o nao concentem » o que equivalia a 
coiifessar que ella nao tinlia alma ! E Inda- 
via o mesmo legislador. Hie concedria o dom 
mais eminenle da nalureza liumana, on antes 
supeiior a essa natureza, o dem da profecia. 
Koma condemnava a mullier a uma per- 
pelua tulella, e Roma a fazia confulonle dns 
designios celestes ! Os oraculos dt! (Jumas 
eraui annunciados pela boca de uma mulliei. 
Depobitaria dos livres sybillinos era lambeni 
uma mulher; |>arece que os deoses so fal- 
lavam pela boca das mulheres. Na Grecia 
a contradicjao era aiiida mais flagrante. Os 

' Legouve, Hist, morale Jos femnies. —Paris 10-19. 



158 



(Jregbs cdiileslaVam a imllher oainor, que e 
a sua propria essencia. Plularco no sen tra- 
clado do amor, diz que o verdadeiro amor e 
iinpossivel eiilro iim liomein o iima iiiullier, 
(• lodavia os Gregos pelo mais nolavel con- 
Iraren50 concodiaiii-llie a sal)edoria diviiia. 
Foi lima miillior que no banquelc de Platfio 
iiiioioii o principe dos pliilosoplios na verda- 
de, e esclarcceu a alma de Socrates, como o 
proprio Plalao confessa. " Eu so comprc- 
liendi a diviiidade e a vida, rcpele elle, nas 
ininlias tonversagoes com a corteza Tlieo- 
pompa. 11 

As'iim no miindo antijjo aqiiella creatiira 
lam dospresada, crasempre per iim ladocoii- 
siderada superior ao liomem. A cortezfi con- 
sellieira de Pricles, e amiga de Socrates e 
como uni symbolo. Nos autigos povos da 
Germania as mullieres nao representavam ])a- 
pel algiim na carreira publica, porem 'I'acito 
diz, que aquelles povos reconheciam n'ellas 
al"uma cousa de divino e de profelico, e as 
ropeilavam como seres, que linhaui rela^oes 
coil) o ceo. Na Galia as funcyoes das dniidas 
er'io superiores as dos sacerdoles desle cullo. 
Na niia de Sena havia um collegio de nove 
virgens, que curavam molestias repuladas 
iucuraveis, e aplacavam o furor das ondas, 
quando llies aprazia. Eslas virgens dictavam 
seus oraculos no meio das tempeslades sobre 
escarpados e agrestes rochedos. Veda iima 
deslas famosas sacerdolisas, invisivel e sempre 
presente, governava todas as povoayoes, que 
llie ficavam em lorno, e do allodeuma lorre 
dictava a paz ea guerra. Eisaqui factos quasi 
incriveis, e que a nossa razao nao pode bem 
cornpreliender. Como podia conciliar-se lanla 
eleva^ao com tamanlia subserviencia ? Como 
e\plicar-se as liomenagens de admira^ao 
npar docomplelo desprezo com que o homein 
traclava creaturas, que na npparencia llie sao 
semelhantes e que elle colloca sempre ou 
Miperiores, ou inferiores a elle? Que papel 
se llie quer fazer reprcsenlar nos designios 
de Deus, e nos deslinos do mundo? 

Por que molivo, em quanlo se llie vedavam 
OS mais simples exercicios, Hies permiltiam as 
mais sublimes funcgoes do saccrdocin 1 I'oi 
que em fim se llie prohibia o exercicio da 
vida, e ao inesmo passo se Ihe deixava lomar 
lao grande parte na formajao e no culto 
dus ideas, que constituem a propria vida 
— na religiao ? 

Ccrto a inulher lein qualidades muilo 
caracteristicas, e muilo poderosas para ter 
conquislado sobre os espirilos um lao reslric- 
lo, mas ao niesmo tempo tao elevado, e sin- 
gular imperio. 

A villa d'este resumido quadro Iiislorico 
podera concluir-se, que a mulher e mais que o 
liomem, e menos que elle ou que a sua na- 
tureza se traduz n'estas palavras. — a Egual- 
11 dade com o homemj porem »gaaldade na 
u differenja, )i 



NOTICIA SOBIIE A DACIA CAIIKOMt'liUA UO CADO 
■ MONPEGO. 

Conlinuadu de pacr. 119. 

Entado actual da minii. 

Sendo a galeria geral a primelra c mais 
essencial obra desta niiua, eski, ern rela(;,'ii> 
a sua importancia e permaneiicia, em parte 
acanliada; as suas diinen^oes sao variaveis: 
salislaz comludo ao servi<,'o, o em todo o seu 
cumprinvnlo circulam wagons de 1'" de 
largura na bota. 

A Idvra da mina e feita de um modo 
simples; divide-se o massi(;o em porgoes 
prismalicas, que se cliainain pilares, por meio 
de galerias de avango, desceiidentes on asceii- 
dentcs : os pilares leni 7'",7 de lado ; as 
galerias 4"',4, dos quaes se enliiUiam 2"',G, • 
licam de vao l^S. 

As aguas aflluem em pequena quaiilidade, 
de verao, aos traballios; nias no inverno, a 
sua ac-cuniula(;ao e sensivel : por em quanlo, 
como todas vem dos traballios superiores, e 
facil derival-as para os traballios velhos. 

A renovaijao do ar faz-se por uma cor- 
rente natural, determinada pels differenja de 
nivel entre as b6cas da galeria geral, e a 
mina Farroho, estando para este Iim inter- 
rompidas lodas as outras communica^oes com 
o esgoto : comludo jd se faz com difliculda- 
de no fun da galeria geral, e exige a prom- 
pta aberlura da galeria ascendeiile, ja indi- 
cada, que communique com o exterior no 
'ilio das Fonlainlias 

As madeiras necessarias para as construe- 
joes subierrancas faltam toniiilelamenlc nesia 
localidade : tem de prover-sc do pinlial de 
Foja, a duas legoas de diatancia: este pinlial, 
ja luui derrotado, deixarii em breve do for- 
necer madeiras, e entfio sera nccessario obtel- 
as do pinlial de Lciria. 
Conliniia. 



R. COLLEGIO URSUr.liVO DAS CH.VGAS 
EM COIMBKA. 



PROGRAMMAS. 
185i. 

D14rOSI90ES BEGULAMENTARKS. 

A educajao reiigiosa, moral e civil ; bem 
como a direcjao especial, e toda a economia 
particular de cada ediicanda, coniprelienden- 
do a fiscalisajao do uso do dinlieiro dado as 
meninas, ainda mesmo para seus diverlimen- 
tos, objectos de rccrcio, etc., C3tao a cargo 
das rcligiosas, mestras directoras, a qiiem as 
educandas, logo que admiltidas e matricula- 



159 



<la5 jio cojlegio, sao eiilregiies e confiadas 
(jela iiiadre supeiiora, disliilnndas em di- 
versas classt'sou t'amilia?, preaidida cada iinia 
d'eslas pela sua respecliva meslra diieclora. 
F.sla* rcliyiosas olliam lainliern com espe- 
cial ciiidadn, cada uina na sua familia, pela 
cdiica^ao pliysica, pela saude das iiieiiiiias, 
etc. 

A iiistriic^ao lilleraria e arlislica corre sob 
a iininediata iiispec^fio de uma religiosa, a 
prefeila das classes: e e dada em diversas 
aulas ou classes, a que correspoJidem os di- 
versos esUidos on ramos do eii^ino, sendo cada 
uma d'ellas regida pela sua respecliva meslra 
professora, e em couformidade com os esla- 
tutos e rejjulamenlos do oollegio. 

As educaiidas tVequentaui as classes, que 
les sao designadas pela mad re prefeila, ouvi- 
las as respectivas piofessoras, e em allen^ao 
ii capacidade e adiaiilameiilo de cada uuia, 
seguiiido depots no curso dos eshidos a ordeiii 
prescripla iios regulaiDentos reipeclivos e 
programma geral do eiisino, precedeiido os 
compelenles exames e approva^oes. 

Oaiiiio elassico principia no l.°de outubro, 
e terinina eni agoslo coin os exames, que 
cada eddcaiida deve fazer iios esludoSj em 
que esliver iiabilitada. 

A exames publicos soniente serao adiiiit- 
tidas as que forern julgadas digiias d'esla 
distiiicjfio. 

Para promover o adianlamento nao so 
e!lf(0 adopLados os melhodos lidos por mais 
convciiienles ; mas laaibetn se empregam os 
meios adequados para desperlar eiilre lodas 
uma nobre einula^ao e amor ao traballio, 
com louvores, dislijiegoes, premios, etc. 

Oi paes oil proleclores das educaiidas, de 
fora de Coiiiibia, lerao regular coiiliecirnenlo 
dr> eslado de aproveilamenlo das que llies 
perleiio'.'m. Aleiii d'esla regular int'ormajfio, 
serao escrupulosamenle avisados os paes das 
educaiidas, qiiaiido alguma d'ellas se ache 
do"'iile com iiiolealia de alguma gravidade. 

As educaiidas to podein receber visilas de 
seus paes, p-eleetorcs ou luloies, lliios ou 
irmaos, e de oiilras pessoas, (pie venliaui iia 
coiiipanliia d'eslas ; exceplo no caso de liceiica 
de seus paes, proleclores. ou liitores, direila- 
menle dechuada ou en.vjada ii madre supe. 
riora, ou a respecliva meslra direcU ra, 

Eslas visilas so pod.'m ler logar nos dias 
sand ificados, on feriados iincollegio; euunca 
e;ii ilias letlivos, aiiida iiiesmo nas lioras vagas 
d.is anl.is; exceplo niiicameiile as de pessoas, 
que veiiliaiii de Coia da cidade, c de Ibra dos 
?nlnirbios; lis quaes purein iifio pode o col- 
legio lazer tiospedagein. 

N:io sfio permitlidas as. sai'das temporarias 
;das educaiidas, ariida mesiuo q prelexlo de 
^ferias ; exceplo em caso de moleslia com deela- 
ra^ao poreseripto do facnllalivo. As que para 
us6^de banlios ou remedios, salisfeila a con- 
;"dii;ao poila, sai'reiii em agoslo, ou allies 
;d ell'-, convern, que se recolham por todo o 



mez d oulubro, para nao soffrerem atraso nos 
estudos, que se leccionam nas classes, desdc 
opriineiro dia da sua abertura : e cujo eiisino 
nao pode lornar a principlar-se [Mr cada uma, 
que se recollie (fora de lempo. 

As educaiidas esU'io sujeitas nao so a eslas 
dispoii^oes mais geraes, mas lambcm aos 
deiuais regulampnlos e bons usos do collegio ; 
qiier sejam dq discipliiia geral, na parte 
respecliva; quer es^ciaes, xeJalivos a educa- 
jao e in-.trucf;ao 

As corresponde,n.cias |.gibr5 adojissao e en- 
irada das nieninas educaiidas deveni ser diri- 
gidas a superiora do C'ol(egio; e dejjois da 
eiiliada, as respectivas me^lras dir.ecloras. 



SOCIEDADE AZUTICA DE LOIVDRES. 

O professor Wilson apresentou iima me- 
moria, em que perlende mostrar, que nfio e 
exaclo, o que ate aqui se tern dilo sobre o 
costume singular das viuvas, no ludust-io, se 
lan^'drem nas fogueiras, onde se queimavam 
OS reslos de seus maridos, para serem devora- 
das pelas cliammas com estes. 

Segundo aq.ielle erudilo professor a ma in- 
terpretas-io do lexto dos liyros dos Veda=, que' 
se invocava para auclorisar aquella barbari- 
dade, ordenava pelo contrario, que as viuvas 
procurassem sobreviver a sens maridos, em 
logar de se immorarem pom elles. O erro 
estava na palavra agre, que on de proposito, 
ou por inguorancia se l^ra agnhe, que quer 
dizer a que ellas caminbem para o fo"-o » 
em quanlo a palavra agrc diz pelo eontrario 
11 que vao para sua casa. « 

Aswalayana, auctor dos Grihya Sutras 
obra quasi de lanta auctoridade como os Ve. 
das, confirma a opinifio de Wilson, por que 
designa ale a pessoa aquem compellia acom- 
pauharacasa a viuva, depoisde assistir aquel- 
la ultima ceremoiiia funebre de seu .naridu 



Com OS annos vem a prudeiicia e a sabe- 
doiia. Com elles se extiiigue a ambioao. 
Ama-se aso lidao, onde o pouco parecesobe- 
JO. Iranquillos em fim no porto, e volvendo 
OS ollios com espirilo verdadeiramente pl.ilo. 
soph ICO sobre as lempesladcs das paix5e= a 
agricullura dos campos paternos, lorna-'se 
nos a mais doce e aprazivel tarefa ; on ao me- 
nos ve se correr placidamente o rio da vida 
qnedenlro em pouco vai perder-sc no Oceniu' 
da elernidade. 

E. si£. 



A iristeza e um dos mais poderosos meios 
de seduc^ao de uma mullier formosa. 

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JORINAL SCIENTIFICO E LITTERARIO. 



CONSELIIO SUPERIOR DE INSTRUCCAO 
PUBLICA. 

BELATORIO ANNUAL. 

1847 — 1848. 

Continuado de paj. 151. 

InstruccSo primaria. 

Ila 1:169 escholas d'instruccao priraaria 
pagas pclo estado no conlincntc do reino e 
ilhas adjaccntes (mappa n.° "2). D'estas sac 
46 do sexo feminine, 20 do methodo de ensino 
mutuo, e resto de ensino simultaneo. Nem 
todas se acham em cxercicio; havcndo actual- 
mente a concurso 64, e muitas d'cllas sem 
que tenham encontrado oppositores era con- 
cursos repetidos; e24 reservadas. 

Do numero d'escholas parliculares, nao 
teve consellio conhccimenlo pclos relalorios 
de sens delegados. Mas e de siippor que, 
tendo estado muilas escholas publicas fecha- 
das porfalta de mestres, nao Icnlia diminuido, 
mas antes augmentado o numero de 1084, de 
que se dera conla no relatorio de 1843. 

Nas ilhas e avultado o numero d'escholas 
parliculares ; por(|ue nestas se contam tambera 
as que ha suslentadas, exclusivamentc, pelos 
rendimcntos de corpos moraes, como sao as 
municipalidades c confrarias. No continente 
ha 13 sustentadas por legados. 

As escholas puljlicas acham-sc distribuidas 
pelos dilTerentes districtos, na forma seguinte: 
Angra 13 — Aveiro 08 — Beja 44 — Braga 
70 — Braganca o6 — Castello-Branco 49 — 
Coimbra 70 — Evora 29 — Faro 29— Guarda 
92— Uorla 10 — Funchal 14— Leiria 41 — 
Lisboa 143 — Portalogrc 40 — Porto 84 — 
Santarcm 1)2 — Viana 43 — Villa-Real 09 — 
Viseu 129 — Ponta-Dclgada 16. 

Sao 744 OS mappas que se tern recebido ate 
fins d'outul)ro na secretaria do conselho; 
faltando 337 das cadeiras actualnicnte em 
exercicio. numero de alumnos que frequen- 
taram as 744 escholas, e de 30:180. Calcu- 
lando approximadamcnte a froquencia das 
337, nao se pode reputar inferior o numero 
total a 43:300, que fora a frequencia era 1843. 
A frequencia das escholas particulares, de- 

VOL. III. OUTUBUQ 1. 



vcndo augmcntar pclas razoes expostas, p6de 
com seguranca adoptar-se a eifra de 18:780, 
que marcara a frequencia no relatorio do an- 
no acima indicado; sendo assim 84:276 o 
numero provavcl dos alumnos do ambos os 
sexos, que frequentaram a instruccao pri- 
ma ria. 

Suppondo que a populagao do reino nao 
tenlia augmentado consideravelmente, pelas 
causas que a todos sao patentes, desde os 
ullimos trabalhos cstadisticos ncste gcnero, 
adoplando-se era consequencia a cifra de 
3:412:300, sera o numero de alumnos da in- 
struccao primaria para a massa total da po- 
pulacao, na razao de 1:33. Mas calculando 
pelos trabalhos cstadisticos d'outros paizes 
era 082:300 o numero total de individuos 
chamados pela lei a frequencia d'cste ramo 
d'instruccao, sera o numero dos que frequen- 
taram para o dos que deviara frequentar, na 
razao de 1: lOf, pouco mais ou menos. 

Nao segue porem razao d'egualdade aquella 
frequencia cm todas as provincias; e neste sen- 
tido a classificacao observara a ordem seguin- 
te: tras-os-Montes — l:8i — Beira 1:10 — 
Minho 1:8; — Alemtejo 1:13 — Algarve 1:18 
— Estremailura 1:16^. 

E porem de notar que, firmando-se este 
calculo no conhecimento que o conselho tem 
das escholas particulares que existem, c ha- 
vendo muitas, que elle iguora, porque a pczar 
das repetidas ordens e instancias, nao foi 
ainda possivcl conseguir que os mestres par- 
ticulares se hahilitem todos, na conformidade 
do art. 84 do decreto de 20 de septembro de 
1844, e possivel que ao menos nas terras 
mais populosas, como Lisboa e Porto, haja 
muitas escholas particulares, illegalmente in- 
slituidas, c subtrahidas a inspeccao geral. 

E por extreme diminuto (forca 6 dizel-o) o 
numero de escholas primarias com relacao a 
popularao e necessidades do paiz, se o com- 
pararmos, nao diremos ja, com alguns dos 
Estados Unidos da America, com a Ilollanda, 
Prussia, Suissa, c Escossia, mas com a Franca 
e Lorabardia, aondc o desinvolvimento da 
instruccao popular data de poucos annos. 
E ainda e mais para lamentar, que das poucas, 
que ha, muitas se acham vagas por falta de 
professores ; e outras regidas por mestres pouco 
competentes, e tolerados por nao privar total- 
1834. Num. 13. 



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162 



incnle a massa peimlar de lodo o genero dc 
iiisirucvao. 

Seiilc-sc, entibiar o dcsejo dc nuiltiplicar o 
iiumcro das cscliolas primarias, quando sc vc 
a pouca fro(|iK'iicia das (|uc uxislem, c a falta 
de concurrciicia iis que vaf?am. Todavia se do 
genero das que exisleni nao e oiiveni augiueiitar 
numero, eiu (luanlo nao tivcrmos professorcs 
tbrmados em eseliolas normaes, sem eujo au- 
xilio sera l)aldado lodo o esforco por melhorar 
estc lamo da iiistruceao, oulras escliolas ha dc 
graduacao inferior, accomniodadas as necessi- 
dades locaes, as quaes podem e devem ser 
creadas por intercsse publico, havendo para as 
disciplinas, ([ue Ihes compelom, mestres con- 
venientenicnle habiiilados. Falamos das es- 
I'holas dc freguezias ruraes, que sc devem li- 
milar ao cnsino dc ler, escrevcr, contar, e 
principios de religiao, c eujo ordenado devera 
ser inferior ao que actuaimentc leem as oulras 
escholas do 1.° grau. 

Jii esta idea foi proposla no relatorio de 
18 13 : c sao estas realmeiite as escholas de que 
mais bavemos niisler; c para exempio da ne- 
cessidade d'cllas, apontarcmos o dislricto 
(I'Evora, era que ha 29 escholas c 112 frc- 
guezias. 

consciho conhece que as circumstancias 
dcsfavoraveis do thesouro offerecem resi- 
stencia, quasi invencivel, a praclica d'esta 
id6a, jusUlicada pcia neccssidade e cxigencias 
dos povos, que diariamente pedem ao consciho 
a crcacao de novas escholas. Mas a inslrucciSo 
popular e digna de lodos os sacrificios; e a 
base da organizacao da sociedade modcrna, 
e a origem real da forca dos governos. Tal- 
vez que applicando ao paiz a praclica adoptc- 
da cm outras nacOes illuslradas, fazcudo in- 
tervir na crcacao das novas escholas os rcn- 
dimcnlos niunicipacs, coiifiando o ensiuo 
d'ellas aos parochos ruraes, se podossc al- 
cancar o dcsejado lira, sem gravame notavel 
do thesouro. 

Tamheni o consciho espera que o paga- 
racnto regular dos professorcs, a medida que 
e^slado da fazenda puhlica melhorar, fara 
concorrcr opposilores as cadciras vagas, 
como d'anlcs aconlecia. Nao se pode crcr 
que a causa do dcsvio seja a pouquidade 
dos ordenados, porque nesla parte nao somos 
excedidos por muitas nacoes. Na Franca era 
menor o vencimento da maior parte dos pro- 
fessorcs primaries, ainda contando o estipen- 
dio dos aluninos, ate o principio do corrcnle 
anno. Na Escossia e na Suissa nao podem 
reputar-se supcriorcs os ordenados. 

que todavia niuito convira, e estabeleccr 
categorias nas escholas existcnles, com re- 
f'erencia a vcnciracntos e collocacao das ca- 
deiras. Assim ira suscitar-sc cn'tre os pro- 
fessorcs salutar principio da emulacao; 
assim se Ihcs abre uma carreira dc espcran'cas, 
c aja.ostra um melhor future; e sera conse- 



quciicia Icgiiima 6 empcnhar-sc cada qual 
por coiiscgiiil-o. Na verdadc o professor, que 
vc no prescntc o quadro de lodo o scu future, 
csfria, esiuorecc, e cai na iudiffercnca. 

Imporla a despesa da inslrucrao ])riniaria 
no coulinentc c iUias, rcgiilando-a pela verba 
votada no ultimo oreameuto, C}u 10S:823^77Jj 
rs. Siiblraliindo d'csla somma o que provavel- 
mcnte sc dcspcude com a parte iiwtcrial das 
escholas, pouco exccde a despesa dc cada 
alumno a 1^000 rs. por anno. 

E superior csta cilia a de outros paizes 
princi|)almeule da Uollanda, .Suissa, Escossia, 
c Prussia ; portjue a maior frequencia das 
escholas n'aquelles paizes diminuc o custo 
dc cada um dos alumnos, ainda dado o 
mesmo ordenado do professor. Mas nao e 
lanta a dilTcrenca, como ji primeira vista 
parcco; porque saindo da bolsa dos alumncs 
uma parte dos veucimentos dos professorcs, 
OS ordenados pages pelo cstado, on pelas 
munieipalidadcs, sao iuferiores aos nossos. 

Ncm fara allerar esles calculos o facto 
de que ncm lodos os alumnos, inscriptos 
nos rcspectivos mappas, frequentam lodo o 
anno; sendo cerlo que nas freguezias ruraes 
se cmpregam nos Irabalhos do campo, c nao 
frequentam as escholas, grande parte do an- 
no, OS alumnos das classes laboriosas; por 
que csta mesma nota sc cncontra nos re- 
la lories, c trahalhos csladisticos dc lodos os 
outros paizes. 

Avaliando a iiitellectualidade das differenles 
provincias do reino pela frequencia e apro- 
veitamenlo d'estas escholas primarias, ap- 
parecc em resullado, que a(|uella csta mais 
desinvolvida nas tres provincias do Miubo, 
Tras-os-Monles, c Beira ; c menos nas do 
Alemlcjo, e Algarvc. E acha-se estc facto 
em harmonia com outro facto capital: nas 
tres primciras provincias c aonde se cncon- 
tram melhorcs professorcs cm geral, c aondc 
OS concursos sao mais povoados dc oppo- 
silores. 

cnsino d'este ramo d'inslruccao acha-se 
confiado a 1:235 jirofessores; havendo um 
ajudante cm cada cscbola dc ensino mutuo, 
c 40 subslitutos cm escholas de ensino si- 
multanco, cujos professorcs vilalicios se 
acham impedidos (mappa n.° 2). Naquelle 
numero se conlam 46 mcslras de racuinas; 
c estc pequcno numero indica, o quanto o 
sexo fcminino ainda sc acha desfavorecido 
na reparticao do ensino publico. 

JnUruccao secundaria. 

Rcpartido por lyceus e escholas dispersas 
pelas povoacoes mais notavcis do rcino sc 
acha csle ramo d'instrucciio. Ha 5 lyceus 
ma lores cm Lisboa, Porto, Evora, Coimbra 
e Braga : e acham-se esles completes, scexce- 
ptuarmos algumas cadciras c substituijoes 



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163 



que nao teem aehaJo concurrentes ; e 3 ca- 
dciras uo lyceu d'Evora, uma uo do Lisboa, 
C outra era Braga, que nao tecra sido postas 
a concurso, por nao liavcr probabilidadc dc 
sereiu frcqucniadas, segundo as informacoes 
chegadas ao conselho. 

Nos oiilros districlos acham-se conslituidos 
OS )ycciis de Santarcm, e Yiseu, Augra, e 
Funchal; e agiiardam a concessao d'edilicio, 
para se constituirem, os de Leiria, Castello- 
Branco, e Portalegrc. Em todas as outras 
capitacs dc dislricto ha os elementos para se 
constituirem; mas nao se teem ainda habili- 
tado OS antigos professores, com os exames e 
provas publicas das disciplinas, que o deereto 
de 20 de seplembro dc 1844 incorporou nas 
cadeiras, ([ue regiam, para constituirem os 
cursos biennaes. 

Annexas aos lyceus ha nas povoacoes mais 
eoHsideraveis 79 cadeiras de grammatica e 
lingua latina, e 2 de philosophia racionai e 
moral (mappa n.° 3). 

Sao frequenles as reprcsentacoes que os 
povos dirigem a este conselho, pcdindo a 
creacao dc cadeiras de latim. E natural o 
dcsejo nos paes de familias de habilitarem 
scus iilhos a carreira, a que os destinam, sem 
o sacrilicio de dcspesas, e da ausencia. 
conselho porcm, pesando, como deve, os in- 
teresscs de todas as classes, nao julga de 
convenicncia a multiplicacao demasiada d'a- 
quellas cadeiras; nao so porque hoje, que a 
instruccao primaria tern akancado maior 
desinvolvimcnto, se nao podc justificar a 
necessidade d'aquolle ramo da secundaria, 
como complemcuto da primaria, outr'ora es- 
eassa e defieientc, senao tambem com o pro- 
posito de nao desviar, da carreira propria dc 
suas circumstancias sociaes, a muitos indi- 
viduos que, fascinados com a inslrucciio da 
lingua latina, se julgam dcprimidos e rebaixa- 
dos com destiiio a cultura das artes; pro- 
vindo de tao infundada vaidade a falta de 
braces cm muitos ramos de industria, de que 
a sociedade tirara mais uecessarias c solidas 
vantagens. Accresce ainda a regularidade do 
ensiuo, que nao e de csperar tanto d'uraa 
cadeira -so e isolada, como dos centres lit- 
terarios, estabelecidos nos lyceus. Assim que, 
no intuito de conciliar os intercsses locaes 
com OS geraes do estado, o conselho tem sido 
cscrupuloso ate em complctar o nuraero das 
120 cadeiras coneedidas ao estudo da lingua 
latina. 

A instruccao secundaria, Senhora, no 
_estado, em que ella se acha cntre nos, c com 
rela,cao aos fins a que hoje pode scr dcstina- 
da, nao prccisa de ser mais diffundida. Nin- 
gucm a procura so com vistas de se instruir; 
.e OS que a frequentam e para sc habilitarem 
aos emprcgos. desiuvolvimcnto, que ella 
apresenta no paiz, habilita apenas para os 
estudos superiores c professiouacs, e para a 



carreira ccclesiastica. A frequencia mingoada 
dc alguns dos lyceus, e dcmuitas das cadeiras 
annexas, hem clararaente o demonstra. 

Nao satisfaz ella assira as necessidades 
publicas; porque, .seiido certa a instruccao, 
que completa o desinvolviraento do espirUu 
humano, e o habilita para as occupajOes 
mais ordinarias da vida, mal se pode con- 
ceber, que o consiga com os estudos clas- 
sicossomente. Aagricultura, ocoramercio, ea 
industria demandam conhecimcntos de ramos 
philosophicos indispensaveis. As sciencias 
naturaes com applicarao as arlcs devem 
ser uma parte integrante do ensino .secun- 
dario. Assim o pensou e Icgislou V. Mages- 
lade no deereto de 17 de novembro de 1836, 
c j)rudentemcntc o regulou no de 20 dc se- 
ptembro de 1844, commettendo as sabias li- 
foes do tempo, e da experiencia, a creacao 
das disciplinas dc sciencias industriacs nos 
lyceus do reino, conforme o cxigisscm as ne- 
ces.sidades locaes. 

E este ponto a que hoje devem convergir 
as nossas attcnfoes, em vcz de mulliplicar 
cadeiras dc iatinidade. Mas o ensino dos 
ramos industriacs no ponto de vista practice, 
que respeita a instruccao secundaria, carece 
do conhecimento dos methodos, e practicas sc- 
guidas nos povos illustrados, que ha niuito 
nos preccdem neste genero d'instrucfao, com 
que teem cnriquecido e nobilitado os seus 
paizes. 

Os cslahclecimentos da instruccao secun- 
daria, que enviaram a este conselho os map- 
pas da frequencia, foram os lyceus de Lisboa, 
Evora, Santarcm, Braga, Coirabra; e 61 
escholas annexas. numcro de alumnos ncstes 
estabelecimentos foi dc 2:098; sendo maior 
a frequencia cm Braga e Lisboa, e rauito in- 
signiHcante em Santarcm. A despesa do 
estado com estes estabelecimentos orca por 
30:833^325, regulando-a pelas verbas vota- 
das no ultimo orcamento: importando assim a 
despesa dc cada alumno em 17^358', e de- 
vendo ainda subtrahir-se d'esta cifra 1^920 
rs. que cada um paga de propinas de ma- 
triculas. 

Nao se achara superior esla despesa a dc 
outros paizes, em que todavia a freijuencia e 
muito maior; porque tambem n'elles sao 
maiores os ordenados dos professores, c mais 
dcspendiosa a administracae litteraria ; sendo 
qua nesta despesa, nao se ha de altender so 
aos encargos do tbesouro, mas aos das pro- 
vincias c municipios, que para ella concor- 
rcra . 

Sentc profundamente o conselho nao poder 
calcular a frequencia neste ramo d'instruc- 
cao, com relacito a populacae em geral, e a 
das provincias cm especial. Faltam-Ihe porcm 
OS documentos, em quedcvcria lirmar os seus 
calculos. 

Qucixam-se alguns dos commissaries de 



164 



osluilos, da farilidade roiii quo, om ostiulns 
iiiiperiores, e mormi'iitc iias liabililarOcs cc- 
clcsiasticas, sao ailniittidos iiulividiios com 
siniplps attcslados dr frcqiiencia cm cscliohis 
particulares: fazcndo este abuso diiiiiiiiiir 
muito a frcquoncia nos lyccnis, cm ([iiu so 
ohsorva mais rcgularidade no ciisino, e rif^or 
de disciplina. No que e do csUulos suporiorcs, 
c clicgado prazo de so nao admillircm a 
cxamcs d« capacidadc, scnao os aliimnos 
(jue mostrai'om approvacao previa nos lyccus; 
Na repartieao ccclesiastioa nao deve con- 
sentir-se a indulgencia, sendo que nos func- 
cionaiios d'esia ordem e que se rcquer mais 
solida inslrucrao, c pureza de costumes. Julga 
pois consellio de summa convenicncia, que 
se insinue aos preiados diocesanos o es- 
cruptilo, que deve obscrvar-se cm nao admlt- 
lir a c\ames os ordinandos, que nao Icgi- 
(imarem o seu aproveitamcnlo por docu- 
raentos legaes e insuspeilos; dando-sc pre- 
I'erencia aos babilitados nos lyceus. 

E summamente attendivol a rcquisicSo, 
que alguns delegados do consclho fazem, 
(i'um rcgulamento cconomico e litterario pa- 
ra os lyceus. conselho, querendo i)roceder, 
como ihe cumprc, em assumpto de tanta 
gravidade, quiz de primeiio ouvir os votos 
dos principacs lyceus do rcino, e rcsoivcr 
com madureza um negocio, cm que a preci- 
pitacao muito podia compromclter a instruc- 
cao. Ainda nao recolhcu os votos de todos 
OS lyceus eonsultados; c logo que os obtenlia, 
nao se deseuidara de um objeclo, que tern 
incessantemente occupado a sua altencao. E 
por esta occasiao permitta Y. Magestad'e, que 
conselho lembre a urgepcia da resolucao 
do projccto das habilitacOos dos professores 
de instruccao secundaria, remeltido cm con- 
suUa de 4 de marco de 1813; porque deve 
esse trabalho fazer uma parte csscncial do 
regulamento geral dos lyceus. 

Mas conselho tern desejado supprir com 
instruccoes rcmettidas aos dir^ctores dos ly- 
ceus, a falta d'aquelle rcgulamento: e nunca 
podia receiar a notavel irregularidade que o 
reitor do lyceu de Santarem diz em seu 
rclatorio tcr havido ncste cstabclecimenlo, 
que no estado nascenle devc^ra comecar por 
dar provas de mais amor iis letras. conse- 
lho porem espera, que podera introduzir 
n'elle a devida regularidade, sustentando 
com firmcza e resolucao a cxccucao das leis. 

Parece digna de altender-se a rcquisicao 
do commissario d'cstudos de Lisboa, d'um 
secretario para a sua repartieao. A allluencia 
de negocios na capital, e n'um districto de 
grande extensao, parece tornar indispensavel 
a creacao d'aquelle logar; que talvez, me- 
diante alguma gratilicacao, possa ser des- 
empenhado pelo secretario do lyceu. Tam- 
bem parece convenientc, a perfeicao e cora- 
modidade no cnsino, a lembranca proposla 



pelo mcsmo commissario, de confiar o cnsino 
do IVancez c iiiglez singularmente a eada 
um dos .2 professores d'cssas linguas, ([ue ha 
no lyceu de Lisboa. 

A lembranca, que propoc commissario 
d'cstudos de Hraganca, de so conccder o edi- 
licio do exiincto convcnto de S. Francisco 
d'aquella ('idade para casa do lyceu, e digna 
de ser tomada por Y. Magestade na mais 
scria consideracao; porque, sem esse ou outro 
(|iiali|uer edilicio adequado, nao sera possivel 
inslaUar a(|uello lyceu. 

A I'alla deeditieios publieos para collocacao 
das cscholas lanto primarias, como sccunda- 
rias, epontoemque locam todos os relatorios 
chegados ao conselho. A parte material das 
cscholas mercce de prefcrencia a mais seria 
sollicilude, pela inllueucia que tem sobre a 
parte intellectual e moral dacducacao. Escho- 
las nas casas parliculares dos professores, nem 
podem ser vigiadas tao livremente pelo publi- 
co e pelas auctoridades inspcctoras, nem obri- 
gam OS ])rofessores a decencia c aceio, em que 
devem servir de espelho aos sens disi'ipnlos. 

A reprcsentacao, que faz o commissario da 
Guarda, sobre a necessidade de uma cadcira 
d'instruccao primaria em Quadrazaes, e da 
transferencia da cadeira de lalim deLinhares 
para Manteigas, carece de mais pausada 
meditacao. Em tempo ojqiortuno propora o 
conselho o que mais convenha. 
CoiUinua. 



A POESIA SLAYA MODERNA. 

Continuado de j>ag. 142. 

Bem extranho nos parece ter passado ate 
aqui desapercebida a enormc influencia pro- 
duzida pelos gonshirs sobre os poetas sabios 
da Slavia contcmporanea, nao so cm Belgrade e 
Agram, mas tanibcm em Praga, cm Petersbur- 
go e cm Moscou. Se muitos dclles se teem fi- 
nalmente desviado da trilha cosmopolita, se 
teem voltado de novo as cores locaes, a na- 
tural, ao singclo, as inspiracoes nacionaes, 
devcm-no ao youslo. Para mostrar como os 
poetas illyrios eservios teem tomado os gous- 
lars por modelo, o melhor mcio c, como ja 
dissemos, citar aqui e acola alguns cantos po- 
pulares, c fazer senlir como dies se relleclem 
na poesia dos saloes. Limitar-nos-hemos neste 
inluito a algumas indicacoes essenciaes. En- 
tre OS Illyrio-Servios, tres poetas contempo- 
raneos, Subbotitj, Stanko-Vraz e Ostrojinski; 
— na Russia, na Polonia e na Bohemia, Ler- 
montof, Visniviski cKolar, servir-nos-hao pa- 
ra characterizar a rcnascenca da poesia slava, 
debaixo da inlluencia do youslo, nos seus 
aspcclos principacs. Como esta renasccnca Icve 



165 



scu principio cntre os lUyrio-Scrvios, i. bera 
que entre clles se cstudc priinciro. 

De raca pura scrvia, Subbotitj tornou-sc a 
gloria da voievodia, em quanto Stanko-Vraz, 
natural da Slyria, n'um solo quasi conipleta- 
mente germanisado, educado nas escholas 
allemas, achou cm si bastante energia para 
arcar com os prejuizos de nascimento e de 
cducarao, e soube por impulse proprio re- 
niontar-se as origens as mais puras da iiispi- 
rafao slava. Pelo que respeita a Oslrojinski, 
croata da borda do mar, o scu merecimcnto 
consiste em ter side o primeiro queabriuaos 
contemporaneos a eslrada da nova pocsia. De 
Ostronjinski cilarei apenas, eomo amostra, a 
sua ode sobre a origcm do (jousle, intilulada 
Uzrotsi, palavra que se nSo pode Iraduzir nas 
nossas linguas racionalistas, mas que so por 
si involve uma philosophia inteiraniente nova, 
porque compreliende na sua signilicacao as 
causas e os prodigies, — dois factos idenlicos 
para todo o Sluvo verdadeiro. 

« Urn bravo iunak atravessa a cavallo a 
floresta montanhosa; fatigado para juncto de 
uma faia carcomida, prende a sua cavalga- 
dura ao tronco da arvore, e, deitando-se a 
sua fresca sombra , adormece n'um somno 
profundo. Do concave da faia que se entre- 
abre, Ihe apparece em sonhos a vila, e, com 
urn sorrir divino, Ihe diz: Heroe, filho dhe- 
roes, lembra-te que la em baixo, nas planicies, 
defiuham os teus irmaos, escravos de exlran- 
geiros: vae-te a libertal-os. » Elle ergue-se de 
urn pulo, corre armado para seus irmaos, 
e conscgue despedacar-lhcs as algenias. Nao 
tardou que vicsse o inverno coi)rir com o 
sen manic de geada a floresta montanhosa. 
joven vencedor torna a subir pclos atalhos 
conhecidos; busca a faia idosa inspiradora, 
debaixo da qual tivera a visao, derruba-a 
com seu machado, fabrica um goitsle, e 
presentea com olla um ccgo rapsoda da sua 
tribu, para Ihe ajudar a cantar os braves que 
deram a liberdade ao povo. gouslar co- 
mefa o seu canto beroico, mas cstrea-se in- 
vocando arila da floresta, sem a qual o heroc 
se nao lembraria de combater pelo livramento 
dosseus. Invoca a t'l/fl, joven e immortal, dos 
seus avos, que alcancou o triumpho da sua 
tribu, e a quem unicamente o heroe devcu 
a id^a de transformar a faia idosa no sagrado 
gousle que perpctiia na terra o culto dos ge- 
nios superiores. » 

Illyrio dos Alpcs Stancko-Vraz desinvol- 
veu nas suas baladas mais de um pensamcn- 
to, que antes delle tinha ja inspirado ot^gous- 
lars. Basta comparar estas baladas com as 
pecas mais ou menos analogas da coUeccao 
consagrada por Vuk ao gouslo. Entre os poe- 
metos de Stanko-Yraz, escolheremos um inti- 
tulado Cacador: 

« Ja OS carvalhos perderam afolha; as nos- 
sas montanhas ergucm ao ceo as suas cabe- 



cas calvas, como velhos que senlem rarear-Fhcs 
as ultimas cans. A buzina rctine pclos bos- 
i|ues, o latir dos caes estrugc os vallcs c os 
campos. Todo entrcgue ao prazer que o ar- 
rasta, um joven cafador passa a galope, per- 
seguindo os gamos e as lebres. — No anno .se- 
guinte, ao despontar da primavera, as monta- 
nhas despidas de folhagem convidam o joven 
cacador a entregar-se de novo aos mesmos 
prazeres; mas ja nao e a caca quem o arre- 
hata. Em roda delle tudo e silencio: a sua 
buzina coberta de p6 esta dependurada da 
parede; os seus librcos definham presos. £ 
melhor caca a que persegue: suspira de amo- 
res por uma donzella. » 

canto popularcitado porYuk, que tracta 
mesnio objecto, considera tambem a con- 
quista do corafao de uma mulher como a 
melhor carada (naibolii lov) que o homem po- 
de fazer ca na terra. 

n Parti ao romper da aurora para ir cafar 
veado nos nossos montados; e o sol que 
declinava ja comecava a lancar sobre mim a 
sombra dos vcrdes pinheiros. Eis que deparo, 
sozinha, deilada ao pe d'uma arvore, com 
uma linda donzella, com a cabeca sobre um 
feixe de trevo cortado de ha pouco, com duas 
brancas rolinhas sobre o seio, e um veadozi- 
nho a seus pes. Feliz com a minha preza, la 
passei a noite. Dei ao meu cavallo o feixe de 
trevo para cear, ao meu falcao as duas roli- 
nhas, aos mens caes o veadozinho, e guar- 
dei para mim a donzella formosa. » 

Outra piesiia collacionada por Vuk, mostra- 
nos debaixo dotitulo: Amor r-eciproco, uma 
rapariga lavando a roupa da sua familia na 
toTrcnte arrebatada. Seu amante que passa, 
vendo desenhadas na area do ribeiro os seus 
pes brancos como a neve, suspira ao vel-os, e 
pergunta-Ihe se qucr ser delle. « Oh ! respon- 
de ella, se cu podes.se ser tua, lavar-me-hia 
nesse dia com leite para me tornar ainda mais 
alva, esfregafia as faces com agua do rosas 
para as tornar ainda mais vermclhas, e aper- 
tar-me-hia com um cinto de seda para me 
tornar ainda mais csbclta. » Uma balada de 
Slranko-Vraz mostra-nos do mesmo modo a 
joven Bielana, que, dcsde a aurora, ,se vai 
lavar a ribeira. sol nascente reflecte no 
espelho do rio as suas formas encantadoras. 
Nao se pode imaginar coisa mais linda. c Os 
seus olhos sao duas estrellas que saem scintil- 
lantcs do seio de uma nuveni, suas faces sao 
duas rosas que o sol acaba de entre-abrir, 
seus labios sao tenros como uma maca que 
comeca de amadurecer. Ella mcsma se admi- 
ra mirando-se no crystal das aguas, e entra a 
dizer: — so me falta a coroa de casada, para 
que a minha belleza seja completa.^ Sozinha, 
julgava que ninguem a ouvia ; mas do pincaro 
de um rochedo, um mancebo que a admira 
e a escuta, corre para ella. Apresenta-Ihe a 
coroa de desposada, e cobre-a de beijos, di- 



166 



zeiido-llie: Agora es minha para semprc! — 
Pela pasclioa, dopois de acabada a sancta ([ua- 
resma. celel)ra-se o casaraento, c Biclana di- 
losa caminha da egreja para casa de scu 
esposo. » 

Dos tres poclas aquelle que transportou com 
raais succcpso a inspiracao do ijouslo para a 
poesia escripla foi Suhbotitj. Para nos con- 
vencermos, liasla (.•cmiparar com os cantos do 
poeta illyrio os caiitus popuhircs collacionados 
por Viik. As Aoilcti d'lneerno do hem-amado 
iuspiiaram aos tioiishirs duas cslrophcs de uma 
perfeita naturalidade: 

« furacao noilurno sopra la cm baixo 
na plaiiicic, ia cm cima sibilla contra a for- 
taleza; mas na fortaluza uma joven despo- 
sada diz surrindo: soprae, aciuiloes, durante 
as compridas noitcs d'inverno. — Ouando cu 
dormia em casa de meus paes, estendida sobre 
novo almol'adas bem moles, tondo em cinia 
de mini nove cobertas, entao as noites mais 
curias me pareciam compridas. Agora dur- 
. mo juncto do men voino, sobre urn so col- 
chao, e com uma so cobcrta. As noites mais 
compridas parccem-me curtas. » 

Ve-se bem que Subbotitj se lembrava d'estas 
eslrophes na sua ode intitulada Momkhe i 
Grmliavina (0 Amaiite e a Tempestade) : 

« corisco rasga as nuvcns, o raio fendc os 
ceos. Troae, trovoes, brilhae relampagos scin- 
tillantcs, para illuminar o atalho que var dar 
a casa da minha amada! Afiigentae os maus 
olhos para que nenbum maldizente me pre- 
sinla, e cu possa acak'utal-a nos meus bracos 
ate a aurora. — Redobra o vento, arranca 
iroso colmo das choupanas, desfaz os tectos 
e leva os scus deslrocos pelos ares, desarrei- 
ga as arvores que me cercam; mas eu, tran- 
quillo, vou cantando os meus amores. As ri- 
beiras vaocheias, e cnibaracando-me o cami- 
nho, ameacam de submergir-me na passagem. 
Todos OS vivenles erguem ao ceo um grito de 
angustia; mas no meio deste tumulo da na- 
tureza que a cada passo se me abre debaixo 
dos pes, astro do amor me allumta, e desfaz 
com sens raios os tcrrores da morte. Canto o 
que mais amo, e so a terra neste momento 
me engulisse nos scus abysmos, en Biorreria 
cheio todo de amor. » 

As lamcntacoes funebres sobre as campas 
dos mortos oceiipam um logar distincto nos 
cantos do gouslo, 

« Desabou uma pedra da niontanha de Bu- 
da; caindo no valle matou um mancebo, o 
formoso Andre. Ao cliegar-lhc csla notieia, a 
pobre noiva d'Andre disse comsigo: — Ai ! se 
eu me puzer a grilar, se eu repetir em tristes 
endeixas todas as virtudes do meu amado, as 
minhas endeixas repetidas do bocca em bocca, 
acabarao por passar para os labios sarcasti- 
cos desses que nunca amaram. Se para eter- 
nizar o scu nome, eu Ibe erguer um mausoleo 
n'um longo poema impresso, o livro passara 



dc mao cm mao ate chegar as dos niaus. Mais 
me val o calar-rac, 6 lu que dcvias ser meti 
esposo; c, longe do mundo, elevar-te dentro 
do nuMi corafSo magoado um tumulo que nao 
possa scr manchado. » 

Parece-me diilicil encontrar cousa mais ma- 
viosa e ao mesmo tempo mais slava do que » 
seguinte elegia dc uma das macs bosnias: 

« Unica IVlicidade de sua mile, o joven 
Konda niorreu. Nao podendo apartar-se do 
corpo dc sou tillio, a pobre mae entcrra-o jun- 
cto da sua babitacao, n'um bosque de verdn- 
ra. Debaixo de uma laranjeira de fructos dou- 
rados se crgue o tumulo de Konda. Todas as 
manhas, a mae desconsolada vai dcitar-se so- 
bre a campa, e conversa com a alma do seu 
filho. — Meu pobre (ilho, dize-me, a terra po- 
sa-le muito? o tcu peilo esta opprimido pelas 
taboas do tcu caixao? Um som lastimoso e 
suave sai das entranhas da terra: — Nao e o- 
peso da terra, 6 miuba qucrida mae, nera as 
taboas do meu caixao, que me 0|)[)rimera; » 
((ue me atormenta, 6a dor e a aflliccao da mi- 
uba noiva. Todas as vezes que clla cbora, a 
minba ahna geme nos ceos, e quando chega a 
desespcrar-sc, os meus ossos qucbram-se em 
batendo uns nos outros dentro do tumulo. » 

Em Subbotitj encontra-se um canto fune- 
bre, que por todos os motives, tcm o seu fo- 
gar nmrcado a par d'esta endcixa tocante; 
iulilula-se o Orvalho, e do orvalho do cora- 
cao de que se tracta : 

n Que ligura e aquella que, a lardo e de 
manba, se ve sentada aos pes da cruz musgo- 
sa? sera acaso a de uma menina que perdeu 
por aqui um annel de pedras preciosas, ou 
aigiima preuda rica? Ou antes a de um aman- 
te que vem encontrar-se aqui com o anjo dos 
seus pensamentos? — Nao e uma menina que 
l)rocura um objecto perdido, nem um aman- 
te procurando aquella que guarda a sua fe; 
e uma pobre miie que vem chorar sobre o 
tumulo dc scu lilho unico. Aqui vem todos OS 
(lias desl'azer-se em pranto. Das suaslagrimas, 
umas, derramadas quando nascc o sol, sao pa- 
ra chorar o lilho que ja nao exisle; as outras, 
derramadas quando o sol se poe, sao para 
conjurar a Deus que a leve tambem para si. 
As lagriraas quedcrrama, para pcdir aos ceos 
que a reunam a seu biho, brilham ao luar 
como as perolas mais puras; e as lagrimas que 
derrama sobre a morte de seu lilho, sobem. 
orvalho ardcnte, nos raios da aurora, que as 
lovam para Deus. « 
Conliniia. 



METEOROLOGIA. 

A distribuicao do calor a superficie do 
globo terrestre e um dos pontos mais iFan- 
scendentes da meteorologia, e o que offerece 



167 



talvez maiores difficuldades, era razao do 
grande numcro dc factos, que abrangc, c do 
pequcno nuraero de leis conhecidas, que 
estabelecem as suas rclacoes. Para resolver 
completamente csla queslao, seriam necessa- 
rias longas series d'observaroes era lodes os 
pontes do globe ; observarOes, de que a scien- 
cia ainda carece, nao obstante as numerosas 
viagens scientilicas, feitas por physicos distin- 
ctos em todos os mares e em dillercntes pai- 
zes. Creada no principio do seculo actual pelo 
barao de Humboldt, a cujos interessantcs tra- 
balhos devc a sua origem, esta parte da pby- 
sica esta ainda longc do grau de perfeirao, a 
que outras teem chegado. Teem com tudo os 
physicos dado tamanba impoitancia a este 
objccto, que nao ha preiaucao, que se nao 
tenba tornado ua avaliacao da teraperatura 
do ar, a (im de que os resultados obtidos se 
possam haver por exactos. Esta consideracao 
e a leitura d'uma nota de Mr. Le Yerrier na 
occasiao, em que apresentiira a academia das 
aciencias de Paris um resume das obscrvacoes 
meteorologieas, feitas nos mezes dc Janeiro, 
fevereiro, marco e abril do corrente anno, 
movcram-nos a dizer alguraa cousa sobre o 
assumpto. 

Os thermometros liquidos, sendo de um 
use faeil e commodo, sao por isso mesmo os 
que se empregam geralmente nas observaeoes 
meteorologieas. A regularidade das dilata- 
foes do mcrcurio dentro dos limites ordina- 
ries da cscala thermometrica, sobre outras 
muitas vantagens, torna os thermometros 
construidos com este metal preferiveis a todos 
OS outros; sao com tudo indispensaveis os de 
alcohol na avaliacao de temperaturas muito 
baixas. Para se poder fazer use d'estes 
thermometros, c necessario que sejam gra- 
duados por comparacao com um bom thermo- 
melro de mercurio entre 0° e 25", cm razao 
da irregnlaridade das dilatacocs do alcohol em 
temperaturas um pouee elevadas. Assim gra- 
duados, teem estes thermometros a vantagem 
de serem muito mais scnsiveis, do que os de 
mercurio, c podcra ser erapregados, sem erro 
sensivel, na dcterminacao de todas as tem- 
peraturas inferiores a 35.° 

No emprcgo dos thermometros liquidos, e 
mister nao pcrder de vista que o zero da es- 
cala e sujeito a deslocar-se com o tempo, 
quando se tomam por pontos fixes, na gradua- 
fae do inslrumente, as temperaturas do gelo 
fundenle e do vapor da agua fervente ; e que 
desloeafOes similhantes teem tambem logar, 
quando se submette o thermometro a uma 
teraperatura clevada. Nas obscrvacoes, em 
que se precisa somente de certa approxima- 
cao, usa-se de thermometros d'escala li\a, 
graduados muilos mezes depois da sua con- 
struccao, a lira de que o zero da eseala nao 
possa sedrer variacoes sensiveis; nas inve- 
«tigacoes, que exigem muita precisuo, em- 



pregara-se thermometros d'escala movel, que 
permittem verificar os pontos fixes de tempos 
a tempos. 

Alcm d'estas, outras precaucOcs sab ncces- 
sarias, para que os resultados das observa- 
cocs sejam exactos. Uma condicao indis- 
pensavel 6 que o thermometro tenba pequeno 
rcservatorio, para que as suas indicafoes 
sejam muilo promptas. Nao e menes impor- 
tante que o thermometro esteja exposto ao 
norte e a sombra dos edificios, a fira de nao 
ser influenciado pela irradiacao das paredes 
aquccidas directamente pelo sol. Scria tam- 
bem convcniente, come advcrtc um physico ' 
distincto, collecar o thermometro ciitrc dois 
discos de madeira de grande diameiro, que 
interceptassem a irradiacao da terra e deses- 
pacos planetarcs; o Iherraometro indicaria 
assim com maior exactidae a teraperatura 
da caraada d'ar, cm que elle se acha. 

No observatorio de Paris observa-se, ha 
muitos annos, a teraperatura do ar cora um 
therraometro de mercurio; munido d'escala 
de vidro, e abrigado da chuva por um tecto 
conico de metal. Este thermometro, fixado 
sobre um tambor de madeira, que pode gyrar 
era torno d'um ei\o de ferro, e exposto dire- 
ctaraente ao norte, e nao recelie por conse- 
guinte OS raios do sol senao durante alguraas 
boras desde o equinoccio da priraavera ate 
ao do outomno. Quando isto acontece, faz-se 
gyrar o tambor, e poc-se o thermometro a 
sorabra. As obscrvacoes sao feitas as 9 h. da 
manha, ao meio dia, as 3 h. da larde e as 
9 da noite. 

Mr. Le Yerrier, receando que o thermo- 
metro, dc que acabaraos de falar, fosse in- 
fluenciado pela irradiacao das paredes do 
observatorio, massas consideraveis, que nao 
tomam immediatamente a teraperatura do ar, 
tracteu d'esclareeer este ponto. Para isto, col- 
lecou ao lade do thermometro fixo eutro 
thermometro, comparado com e primeiro, c 
ao ([ual se pode imprimir ura movimento dc 
retacao alternado e assas rapide, para au- 
gmentar, ([uanto c possivel, a inlluencia di- 
rocta do ar sobre a teraperatura de thermo- 
metro. As obscrvacoes, comecadas era niarce 
d'cste anno, leera mostrado que asindicacOes 
dos dois thcrmomelros nao sao cemparaveis. 
No mez de marco as indicacoes do thcrmo- 
nielro fixe, as 3 h. da tarde, forara quasi 
constanteracnle superiorcs as do thermometro 
(jtjrante, sendo de mais d'um grau as dif- 
fcrencas individuacs. mesmo aconteceu em 
abril iis 3 h. da tarde, sendo pelo contrario 
as indicacoes do thermometro (ixo as 9 h. 
da uoite ura pouco inferiores as do thermo- 
metro (jijrante. 

Mr. Le Yerrier entendeu que devia registrar 
em columna separada os resultados oblidos 

' Peclel. 



168 



com thcrmometro gyrante, cujas indicac5es 
sc dcvcm considerar como mais proximas da 
verdadcira temperatura do ar. Dcsde o mez 
de marco os mappas das obscrvajoes melco- 
rologicas, feitas no observatorio dc Paris, 
trazem as temperaturas indicadas pelos dois 
ihermomelros. Ycrcmos, se cstes resultados 
sac conlirmados pelas obscrvacoes, que se 
fazem no gabincle de physica da nossa uni- 
versidade, para ondc se inandara ja vir urn 
thermometro gijrante. \s dilTerencas, scndo 
mnito consideraveis, mercccm por certo a at- 
tencao dos physicos, c fazem crer que darao 
origera a novos aperfeiooamentos, que muilo 
contribuirao para.os progresses da sciencia 
n'esta parte. S. G. 



LIVROS SAGRADOS DOS IXDIOS. 

o hig-v£da. 

Passa de tres mil annos, que um pequcno 
povo pastor e guerreiro, partindo das pla- 
nicies enlre o mar Caspio, e o lajfo Aral, 
descera das frias regioes da aita Asia, e se 
encaminhara para esse forinoso paiz banhado 
pelo Idus, pelo Ganjes, e pelo Dejamouna. 
Os Aryenos eram esle pequeno povo. 

Iinpellidos pelo inslincto da emigra5ao, 
biiscavam resolutamente uma terra de prouiis- 
sao, uma nova palria, onde um ou dois seculos 
antes da expedijfio de Alexandre se achavani 
ja eslabelecidos com o nome de Indies. Este 
povo, pori'in, que a si mesmo dava o nome 
de veneravel — dryas — constiluia unicamenle 
um dos tres ramos da giande faniilia asiatica, 
iranienna, ou aryenna, cujo Lerco t'ora a 
Clialdea. Dos outros dois ramos permaneceu 
um no solo natal, foram os Zcndcs d'onde 
provieram os Medos, e Persr.s ; o oiitro den 
origcm as na^oes, que, seguindo desde o Cau- 
caso as duas margens do mar negro, occnpa- 
ram a Asia nienor, e se espalliaram em toda 
a Europa : foram 05 Gregos, Kouianos, Celtas, 
Germanos e Slaves. Eis aqni em duas palavras 
a historia da raqa japlietica, desses desccn- 
dentes do fillio segundo de iNoe, dos quaes a 
Escriplura diz » Kstes repartiram entre si as 
ilhas das nagoes, estabelecendc-se em diversos 
paizes, onde cada um teve sua lingua, as suas 
f'amilias e o seu povo particular '. r 

A pliilologia tern completamente confirma- 
do as palavras da Escriptura sagiada, e de- 
monstrado cabalmente o lago que entre si une 
lodos OS anligos e modernos idiomas falados 
pelos povos dos tres ramos da ra^a aryenna. 

Nao e, porem, so na linguagem que existem 
eslas affinidades. O estudo dalitleratura sans- 
cWia ^ mostrou, que existlamas mais notaveis 

' Genes, cap. X. v. 5. 

2 O Sanscrit e a antiga lingua dua brahmanes, que 
ticoii considerada a lingua sagrnda do Indostao ; dietin- 



relajocs enlre o genio deslas nagoes asiaiicas, 
e o dos povos do Occidente. Nos Aryenos da 
India dd-se esla tendencia para a rellexao e 
medilagao, que produz apliilosopliia e a poezia; 
e a imagina(;."io briliiante que e o apanagio dos 
povosjaphelicos. Os Aryenos nao conseguiram 
incnos que as mais celebres na(;oes d'antigui* 
dade, levando a luz da civillsagiio ao nieio 
das Iribus sclvagens, e dos povos a quern 
impozeram suas leis, costumes, e linguagem. 
Como OS Gregos, prezarain o sentimenlo da 
sua superioridade intellectual; e orgulhosos, 
como OS Romanes, dilataram suas conquistas 
ate aos confms do mundo enliio conhecido. 
Dosgragadamenle para elles o isolamento em 
que secollocaram dos grandcs povos, a quem 
novolver dos seculos coube uma parte brilhan- 
le nos destinos da humanidade, nfio Ibes per- 
mitliu partlcipar dos novos elementos , e das 
ideas regeneradoras, que complelamente re- 
novaram a face do mundo. Enervados per sua 
longa residencia sob um clima lao benefice, 
e enlagados no andar dos tempos com as 
ragas indigenas, nao souberam resistir ao po- 
der invasor do islamismo. Oito seculos ha 
que comegara para elles a era da sua deca- 
dencia, e todavia este longo periodo nao Ihes 
afrouxou o zelo peja conservajao de suas tra- 
dijoes religiosas. No momento, pore(n, em 
que o imperio das novas ideas penetrara por 
uma forga irresistivel no seio das mais antigas 
nagoes, e que aquellas tradigoes corriam risco 
de perder-se, foi a propria liuropa, e particu- 
larmente os sabios inglezes, a quem se deveu 
a salvajao dos mais venerados monunienlos 
da litteratura sanscrita, e os bralimanes de- 
positaries dos textos antigos censenliram em 
iniciar nos segredos do seu idioma sagrado 
esses europeus, cujo character e dedicagao pelas 
sciencias Ihes inspirara completa ceufianga". 
O texto das leis de Manou, duas vezes 
impresse em Calcula, fizera coiihecer a orga- 
nisagao da sociedade aryenna dividida per 
castas dez seculos antes da nossa era, quando 
o brahmanismo estava no seu maior auge, a 
dominava a realeza pela supreniacia da forga 
espiritual sobre o poder temporal. As grandes 
epopeas o Mahdbhdrata, e Rdvuiyana, verda- 
deira Iliada e Odyssea destes povos adora- 
dores dos heroes, mostram a allura a que 
chegara o genio poetico dos Indios. 

llecentemente Burnouf, e Wilson pulilica- 
ram deis Pourdnas^ ma\ importantes, e que 
podem considerar-se ce[no specimens d"essas 
immensas miscellaneas, onde se encontratn 

g:iie.se dt«s outros idiomas da Inilia p^la pprfei(;ao do seu 
mechanismo graniniatiral, Os Insilexea, e particularmenle 
William Jones, foram os primeiros que eicilaram a al- 
ten»;ao dos sabios da Europa 6oI>re o estudo do tanscrit. 

' William Jones ^ Celebrookc — Wilkins, e oulros. 

^ E o nome de nniilos poemas em lingua lanscrila, 
que contem alheoijonia* a cosraogonia dos Indios. Dezoito 
Pouranns traclam da crea(;rio e reno\a<;So dits mundus, tia 
gencalo^ia dos deuses, dos reinadus dos Manous, e dol 
fcitoB de seu« dcscendentes. 

Bichertlle. Diction. Tiacion. 



1G9 



rciinidas todas as descripgocs mytliologioas 
com as legendas popularea, que vogavani eiilre 
OS Indios; o dogma e a pocsia aiixdiaiido-se 
muliiamente para aiiimar os ohjcctos pliysicos, 
e dar as abslrac^ocs tiielapliysicas as (oiinas 
corporeas. A pliilosopliia speculaliva e a 
dogmatica, o drama e o apologo favorilo 
dos orienlaes, em fim as siias ciironicas ma- 
ravilliosas, teem sido tambcm puhlicadas em 
Jnglalerra, Franja e Allemaiilia pclos ciiida- 
dos e pelos esfor<;os dos sens mais eminentes 
fscriptores, c com o auxilio e protecyfio dos 
respecUvos governos. niassim que na primeira 
metade d'cslo seculo a Kiiropa leni feito as 
mais imporl.'uiles e valiosas coiiqiiislas nos 
dominios da lilleraliira iridiaria. Hnlre taiilo 
OS qiiatro Vedus, ou os livros sagrados jaziam 
ainda mamiscriplos na mao dos brahmanes 
ou nas bibljolliecas da India e da Europa, 



e sera esle auxilio, difficil senao impossirel 
fora coidiecer a fimdo a primeira edade dos 
povos indianos. Delialde se prociirara sua 
diversa origem, e as condicjoes da sua primi- 
liva exislencia nos poemas e na compila^-fio 
das suas iels, o passado perdia-se sempre dc 
vista involvido em vaporosos myllios, c dcsap- 
paiecia como as illusoes da miragcni, 

Os f^edas, pore'm, acabam de ser publica- 
dos, e Iraddzidos quasi na sua inlegra ', e 
lirje, como diz umesiTiplor distincio, aquel- 
ie magesloso e profiindo rio da Ijtteratnra 
sanscrita leui sido explorado ale a sua origem. n 
Conliniia, 



' Rig-J'eda-Sanhila hy Mat. Miiller. Ovfonl 104'J 
— 1854 = Riy-I'eila par H. A. Wilson, vol. 1.°, O.vforil 
m50^= liig-Feda, ou Livre dpi Htjmnes Irailiiit en fran- 
^ais par Lanfilois 4 vol. 8 ■- Paris, 1848 — 1831 = Des 
f'edaa par Barlhiilemy S.' Hilaire — 1 vol. Paris, 18.54. 



APONTAMENTOS BIOGRAPHICOS SOBRE NOSSO INSIGNE POETA LUIZ DE CAMOES. 
GONCALO VAZ DE CAMOES 

TALVEZ TnONCO DOS SEGCINTEs' 
Continuado de pag. 153. 



Joao Vaz de Camocs, chamado nos docunicntos J. Y. 
de Villa Franca, vivia em Coimbra em 1502 

CASOU COM 

1.' Calharina Pires f em liiOS 

2." Branca Tavarcs, que cedcu um prazo que tinlia com 
seu marido no sitio do Alvor, cm sua irma c cunha- 
da, em frente 



Pero Vaz de Cainoes que nos docu- 
nicntos se chama P. V. de Coim- 
bra, casou no Algarve com Brites 
Gomes c. o. Alii viveu cm 1330 



Philippa Tavares ficou com o pra- 
zo do Alvor por nomeacao de sen 
cunhado c irma c. c. 
Gaspar Nicolas, escrivao das sj- 
zas ncsta cidade 



Siniao Vaz de Caiuues 

da 1." mullier 
c. c. 
1 .' -Vnna de Sa e Macedo ^ 
2.'D. Francisca . . . . ' 

depois de viuva casou 

com Dr. Roque Pcrci- 

ra Tavares' 



Isabel Tavares da 2." 
niullier 

c. c. 
Alvaro Pinto. 

s. G. 



Antonio Tavarcs, escrivao como 
seu pae c. c. 

Maria Rodrigues, e viveram nc- 
sta cidade com mais parentes. 



Luiz de Camocs ■[• sol- 
tciro, em 157'J. 



Pedro Tavarcs, o qual casou nesta 
cidade com F. . . . 



' Digo tahez for nao constar ilos dociimenlos qitcm verdailcira. 
mentc seja pae Uos iLia irmaos. Vi-j. a memoria do cil, bispo de 
Viseu. 

'■ Foi a m.ic do poela, coiiforme o cilado blino de Yiseu lom. 1 
par. «8. 

Assc-nhorcou-se do prazo das casas da ma dos Coulinhos, por 
tcr ficado herdeira de seu raarido Sim3y Vaz. Dijcumeulo n." 4. 
* Ja tioha fallecido o poela. 



Anna Tavares, ([ue casou com Gi- 
raldo Lopes 2." marido, e teve do 
1.° matrimonio 



I'ina doida que f cm 1043. s. o. 
e passou o prazo a um filho do pa- 
drasto por nome Luiz Lopes de 
Moraes. Desla sorlc terminou 
nesta cidade a casa dos Camocs, 
e de sens parentes. 



170 



DOCUMENTOS 



EXTllACTAllOS DOS LIVUOS DE EMPIIAZAMENTOS DA SE 
PE COIMBKA ^0S LOUAKES ABAIXO AfOMADOS. 



I. 



Aos 16 dias do racz d'agoslo do anno do 
nascimento de IS. S. J. Ciiiiisto de IBSO annos 
em a ridadc do Coimlira, doiilro na so della 
em caliido cluiniados a olle os srs. Dognidadcs 
e Coiu'gos ao deanio nomoados; e hem assi 
cslando o iiiiiilo hoiirado Joao Vaz de Yilla 
Franca, cavalli'iio cidadao da dita cidade, c 
cm clla moiadi)!', logo por die I'oi aprescntado 
iim instrumento de reniinciarao, e trespassa- 
meuto assigna<lo em puvrieo, de que o Irasla- 
do delle de verho a verbo e lal como se segue 
= Saibam quantos cste estiumento de renun- 
ciaoao, o tiespassamento vircm, qiie no anno 
do uascimenlo de N. S. J. Chiusto de lt)30 
anuos, aos 1* dias do mez de junlio do dilo 
anno cm a villa de Lagos, nas casas da raora- 
da de Pcro Yaz de Coimhra, escudeiro do sr. 
condc de Monsanto, estando elle hi de pre- 
sente c Brites Gomes, sua mulher, logo por 
elles foi dito que era verdade que clles tra- 
iiara por litulo dc prazo umas casas, que estao 
na rua que vai para o chao de Joane Mendes, 
na cidade de Coimhra, as quaes sao foreiras 
a se c cabido da dita cidade, no qual prazo 
tile dilo Pero Vaz era a dcrradeira pessoa, c 
que consirando elle como ora vivia neste 
reino do Algarve, e Joao Vaz de villa Franca, 
cidadao e sen irmao; ([ue presente estava nio- 
rava na dita cidade de Coimhra, disseram elles 
ditos Pero Vaz, ea dita sua mulher que a elles 
llies aprazia, e de facto aprouve de renunciar 
a dita vida e direito que tern nas ditas casas, 
nas maos delles ditos srs. Denidades, e Cone- 
gos c cabido da dita se, com tanto que a dita 
vida c casas, (ique c se traspasse ao dito Joao 
Vaz, seu irmao, por se seguir mais utilidade 
c proveito ao dilo cabido por o dito Joao Yaz 
ser mais velho, aos (piaes srs. Dcnidades e 
cabido pedem jior merce (jue hajam por hem 
de lazer a dita trespassacao ao dito Joao Vaz, 
porquanlo a elle dilo Pero Vaz, e a dita sua 
uuilhcr Ihc apraz dc bojo para sempre de rc- 
nuuciarem, e trespassarem a dita vida com 
lodo seu direito que nas ditas casas tem no 
<!ito Joiio Vaz, e por este se obrigam a terom 
e a cumprirem, e a haverem por bem lodo o 
que dito cabido fizer ao dilo Joao Vaz, seu 
irmao, sob obrigacao de seas bens moveis e 
de raiz que para (die obrigarara. E em tesle- 
iiuinho de verdade mandaram dello scr feito 
cste estrnmento de rcnunciacao e traspassa- 
menlo, Testomunhas que foram presenles \1- 
varo Diz. cavalleiro, e .Mvaro Fernandes, 
creado do dito Joao Vaz. e lUii Bertes, caval- 



leiro, que assignou por a dita Brilcs Gomes, 
c por si por outros. E eu Vicente Lourenco, 
pruvico tabeliao por eirci nosso senhor cm 
csla villa de Lagos, que esle escrcvi, e aqui 
meu pruvico sinal lizquelal e. = Segue-se o 
cmprazamento u traspasse feilo enlre o cabido 
e dilo Joao Vaz, irmao mais velho dc Pero 
Vaz, das casas da rua dos Coutiulios, a favor 
delle Joao Vaz, e de sua mulber Branca Tava- 
res, e para um lilho ou liiha d'entre ambos, 
clc. (L. 8 dos cmprazaiiiciilos fl. 58 .j 



II. 



Saiham quantos cste instrumento vircm co- 
mo aos 3 dias de agoslo de 1'>!J2 dcnlro na .se 
cathedral dc Coimhra, eslaudo presenlc os 
srs. Deguidades e Conegos, estando hi Simao 
Vaz de Camoes, lidalgo da casa d'elrei nosso 
senhor, por o qual foi dito em presenca de 
mini tabeliao pubrico, c das teslemunhas ao 
dianlc scriptas que era verdade ipie Isabel 
Tavares sua irma, Irazia por lilulo dempraza- 
niento em Ires vidas um assento de casas c 
(|«inlal nesta cidade, que perlencem ao dilo 
cabido, as quaes Ibe ficaram per falecimenlo 
de Joao Vaz, seu pac, que sancla gloria haja, 
cidadao desla cidade, as quaes Ihe o dito ca- 
bido ennovara a dila sua irma, e ella era ora 
nas ditas casas e quintal a primcira vida, e 
dellas pagava de pensao em cada um anno ao 
dilo cabido mil reis era dinhciro e dois capoes: 
as quaes casas estao na freguezia da dila so, 
e partem de um cabo com Jeronymo Salvago, 
conego na dita se, e do outro com quintal do 
Prolonatario lleitor Roiz de Gouvea, conego 
oulro si na dila se, e por dclraz enlestain era 
casas do licenciado Joao Vaz, e por deanlc 
partem com rua puvrica, e com outras con- 
frontacOes coin que de direito devcni partir, 
dizendo elle mais Simao Yaz de Camoes, que 
elle casara ora a dila sua irma c Ihc dera a 
niaior parte de sua fazenda era casamcnlo, por 
a qual razao ella com seu marido Alvaro Pin- 
lo Ihe tizera doacao das ditas casas, pera que 
elle as bouvesse e innovasse em si pera o que 
Ihe lizerain procuracao, e nella Ihe derain lodo 
seu comprido poder para que elle Simao 
Vaz em seu noine delles Alvaro Pinto, c Isa- 
bel Tavares, sua mulher, renunciasse as ditas 
casas na niao do dito cabido e direcio seiilio- 
rio dellas, para que llies innovassem a elle 
Simao \'az, e Ihe lizessera novo litulo dellas, 
segundo logo hi inoslrou por o dito cstromen- 
lo de doacao e procuracao que anda nesic 
livro de notas de mim tabeliao, etc. E \isto 
lodo pelos ditos srs. Denidades, Conegos c 
cabido, disseram que elles rccebiain em si a 
dita rcnunciacao do dilo assento de casas c 
(liiinlal, c desobrigavara aos ditos Alvaro Pinlo 
e sua mulber dos encargos em que eram ao 
dilo cabido etc. (L. 12 //. 31 e Pi.) 



171 



III. 



Saibnni os que eslc piihrii'O inslriinicnto de 
novo eniprazamonto em trcs vidas pola nia- 
iieira adeante dcclaiada virem, que aos ti 
dias do mez de sctembro de 1570 annos, em 
osta cidade de Coiml)ra c easa do cabido da 
?e catbedral della, ondcoslavam presentcs os 
muito magnilicos srs. Denidades c Conegos e 
cabido adeante nomcados, e ncsta iiota as- 
signados: c oiitro si estando hi presciite o sr. 
Siiiiao Vaz deCamoes, fidalgo da casa d'eirei 
nosso scnbor, e era morador na cidade do 
Porto, por elle foi dito que elle no cabido pas- 
sado lizera iima pelirao na qual Ihc fora dado 
iim despacbo de que todo o traslado de verbo 
ad verbum e o seguinlc. Muito illuslres srs. 
Diz Simao Vaz de Caraoes que elle possue 
per titulo de eraprazaraento de vossas mcrces 
umas casas, que teni a rua do Adeao em tres 
vidas, cm que elle c a 1.', as quaes sac um 
sitio muito grande antigo, e muito arruinado, 
que quasi eslao no cbao como dirao os srs. 
([uc as foram ver, e estao de maneira que sc 
se nao fizerem de novo sc perderao de todo, 
c por que elle supplicante se quer vir viver a 
csta cidade, e fazer no dito sitio umas casas 
nobres em que se obriga gastar 300^000, sem 
OS quaes sc nao podem fazer, c inda com mui- 
to mais, no que vossas merces recebem muito 
proveito por razao dos dizimos que elle sup- 
plicante ba de pagar de sua fazenda por ser 
seu fregucz e vassalo. Pedc a vossas merces 
havendo respcito ao sobredito Ibii deem mais 
cinco vidas alem das vidas que tem, as quaes 
nao pagucm mais pensilo, que a que tem, que 
sao mil reis c dois capOes, quee muito grande 
foro pera o dito sitio e gasto que sc ba de 
fazer. Despacbo. Apraz ao cabido havendo 
respcito a calidadc do supplicaiUe c vistas as 
razoes cm sua peticao declaradas, quegastan- 
do elle em quatro annos cem mil reis, e cm 
mais dois annos os 200^ que beam nestas 
casas de Ihe darem mais trcs vidas das tres 
que agora tem, as quaes corrcrao acabadas as 
tres que tem, com obrigacao .... que cada 
unia das dilas vidas que for nomeada dentro 
cm um mez se vira aprescntar em cabido com 
a nomeacao que liver, sob penna dc Ihe nao 
valer coisa alguma, c as ditas casas licarem 
vagas, c devolutas a nos e a nossa meza ca- 
pitular: como tanibem ficarao vagas e vaga- 
rao falecendo a pessoa que for viva sem no- 
mear .... D'esta maucira Iho faz, alias nao. 
— licenciado Francisco Pessoa, concgo e 
escrivao do dito cabido o fez por seu maudado 
aos 20 de setcmbro dc lo70 annos. Ocban- 
tre Pcro Brandao. A qual peticao assi fcita e 
trasladada licou em podcr do dito Simao Vaz 
de Camoes, o qual dissc mais que as sobrc- 
ditas casas estao na dita rua do Dcao fregue- 
zia da dita se, e partem deum cabo com casas 
dc Jcronyrao Salvage, conego della, c da ou- 



tra com quintal que foi doprotonalario lleiior 
Uodrigues de Gouvea, conego que foi nadita 
se, que Deus baja, e por detraz eiitestam em 
casas dos herdeiros do licenciado Joao Vaz, e 
por dcante partem com rua pubrica c com 

outras confrontacoes estas sao as conteu- 

das no titulo ([ue Icm do dito cabido, jiorquc 
e elle Simao Vaz nas ditas casas a prinicira 
vida, como dclle constou por o prescular, c 
que ora pedia llie fizesscm novo titulo de em- 
prazamcnto conforme ao despacbo atraz. 
que visto por dies seaborcs, disseram em pre- 
scnca de mini tabelliao e tcstcmunhas adean- 
te nomeadas que por todo o sobredito passar 
assi c na verdade, e o cabido tcr feito vedo- 
ria nas ditas casas, e sc achar que estavani 
muito danilicadas, c que fazendo o suprican- 
te e inclino Simiio Vaz as ditas bcmfeilorias, 
seria muito em proveito e utilidade da sua 
meza capitular, assi pela nobreza da proprie- 
dadc, e lerradcgos e dizimos que sc aquiri- 
riam por cstarcm na freguizia da dita se, e 
deferindo a calidadc dc sua pessoa dclle Si- 
mao Vaz, e por outros justos respeitos, quii 
OS a isso nioviam e conforme ao dito despa- 
cbo Ibe eniprazavam, edefcito emprazaramas 
ditas casas, etc. f/,. 14 dos emprazamentoi 

(I. n.) 

IV. 

A^Ho dada ao sr. licenciado Francisco Pessoa 
nosso iniiao das casa,i que foram de Situdo 
Yuz Canwcs que eslq,o defronte das suas. 

Aos 7 dc novembro de 1384, scndo clia- 
mados para cabido se deu ancao ao sr. licen- 
ciado Francisco Pessoa, nosso irmao jx>ra po- 
der tirar c dcmandar ao Dr. Roquc Pereini, 
e sua mulher I). Francisea, como herdeiru e 
successora de seu marido Simao Vaz Camoes, 
que Deos tem, umas casas de que o cabido d 
dirccto senborio que estao junto com as do 
sr. Jeronymo Casco, c defronte das que die 
sr. Francisco Pessoa vive, pera o que Ihc dao 
todo direito, que pera as podcr tirar, tem 
ou por vagas, ou por qualqitcr outro direito, 
que cabido, ou sua meza capitular tem, 
porque todo trespassam ncUe pera cslc cfl'ci- 
to, por acharcm ser isso proveito da casa, c 
si obrigou as custas; e die assi accilou. E 
mandarao fazer estc assento c assignou conii- 
go. — Antonio Moutinbo, Francisco Pessoa. — 
(Accorddo do cabido. L. dp. 131. vers.) 



V. 



Ao derradeiro dc Janeiro de 1603 annos fez 
Dr. Uoquc Pereira Tavarcs uma petijao ao 
cabido, em que narrou que sua mac Antonia 
Tavarcs o noracou em testamento em umas 
casas prazo do cabido que estao a S. Christo- 
vao, em as quaes casas sc meteu dc posse 



172 



dellas Antonio Manso, cunhatlo do dito Ro- 
q\ic. Pereira, jiara que vindo o dilo Anionic 
Manso on sua muliier podir innovai.ao das 
ditascasas, so nao I'aca nom deliia, s<'ni man- 
darem dar vista ao dito Roquc Pereira : o (juc 
vislo pelo dito cabido mandaram que so nao 
faca titulo algum sera sc dar vista ao dito 
lloque Pereira, para ccrteza do sobredito liz 
eu Vasco d'Almeida cste assento no dito dia 
mcz c anno, em (|uc assinou o sr. Deao. — 
Vasco d'Almeida. (L. b dosaccorduos jl. 67.J 

YI. 

Anno do nascimcnto dc N. S. J. Chbisto de 
1C2S aos 14 dias do mez de Janeiro na se 
cathedral della ondc cstavam especialmenlc 
coiigregados os srs. Dignidades e Conegos, 
etc. , e sendo presente Manoel Correa morador 
na sua (juinla de Lordeniao por ellc foi dito 
que entre os mais bens e propriedades de ([ue 
dito cabido e sua meza capitular era senho- 
rio, bem assi era uma murada de casas, que 
rile tinba e possuia na rua de S. Christovao da 
dita cid'ade prazo do dito cabido ([ue nelle 
nomeara oDr. Ro<iue Pereira Tavares , as quaes 
casas partiara da do soao com quintal das 
casas de Mareal de Macedo cidadao da dita 
cidadc, edabanda do sul com casas do mesmo 
Mareal de Macedo, e do aguiao com rua pu- 
blicii que vai de S. Christovao para a se, c 
com as mais confrontacoes com que de dircito 
deviam partir, e que per enteuder que as vi- 
dasdodito prazo cram acabadas pedia a elles 
scnhores Ibe lizesscni merce de Ihe renovar as 
vidas do dito prazo bavendo elle de ser a pri- 
meira com poder de nomear a segunda, c a se- 
gunda a terccira ate bora da sua morte: o que 
tudo assi visto, disseram ([ue por ja ter preec- 
dida neste caso verdadeira informacao baviam 
por bem que se Ibe lizesse novo titulo etc. 
(Extrahido do L. Iddosprazosafl. V6i.) 



BIBLIOGRAPIIU. 

ELBHEKTOS DE DHSENDO LINEIB PABA ISO 00 BBAL 
COLLEGIO CBSLLIXO DE COIUEBA, 1 VOL. £51 8 
(.OU FIG. COIUUKA 1SS3, 

A falla de compenclios adaptados para nso 
das escbolas piimarias e uiji dos iiiaiores 
obstacolos, que eiitre no; se oppoe ao adian- 
tamento d'csle imporlaiitissinio raiiio da in- 
stnicjao publica. Nas niaiscultas na56es leni- 
se procurado com lodo o cuidado popolarisar 
as difterentes sciencias, tornaiido-as acccs- 
s-iveis a todas as intelligencias por meio de 
nianuaes e compendios de principlos elenien- 
tarissiinos d'essas sciencias, que mais util ap- 
plicajao teem nos usos da vida, ou que ser- 
vcm de proveitosa babilila^fio para maiores 



.;» 



esliidos. Mas o que sobre tudo ale boje Icm 
I'lcado em mais lainenlavel esqiiecimento, nii 
antes reprebensivel fuila, e a inslrucgao do 
sexo feminine, ii os raros coUegios de educa- 
gao de meninas, digiios d'esle notne, que entre 
nos existem, careciam complelamente de 
iivros proprios para o ensino das siias ediican. 
das, e nao fora lacil, nem lalvez conveiiiente 
supprir esta i'aila com Iivros exlranlios, que ou 
por niui volumojos, ou porque suppoem 
maiores conbeoimentos, do que realmenle se 
podem adquirir no eslado, em que se acba a 
nobsa inslrucgao uiimaria, sfio menos proprios 
para o fim, que se deve ter em vista no ensino 
do sexo femiuino. 

Annunciamos por isso com satisfacjao os 
novos Elemenlos de desenho linear orde- 
nados com loda a precisuo e clareza, para 
servirem de llieiiia as ii(,'6es, que sobre esLe 
assumpto se explicam as meninas principian- 
les no collegio ursulino de Coimbra. 

O modeslo A. niui singolamenle declara 
o fun, que se propozera neste seu opusculo 
nas palavras, que aqui copiamos. 

11 Levou-no5 a esle |)equeno Irabalbo a consi- 
deraciio de que llies faltava um livro em lin- 
guagem, que fosse adaptado as circumslancias 
d'aquelle estabeiecimento. Como so era para 
servir de introducjfio a estudos mais amplos, 
de'mol-o a estampa tjio compendioso, deixan- 
do para obra mais auctorisada e competente, 
o raaior desinvolvimento d'estes principios, e 
a sua applicagfio aos bordados e ornatos das 
senlioras, na qual se devein exercitar as 
meninas mais adiantadas. )? 

Estes elemenlos sao divididos em duas 
partes ; a primeira comprebende o desenbo 
linear a ollio, elracta das linlias, superficies e 
solidos : a segunda parte e dedicada ao desenho 
linear grapbieo, comprebendendo a resolugao 
de alguns problemas geometricos. 

Era tnuilo para desejar que outros iniitas- 
sem oexempk) do illustrado A. dos Elemcniot 
de desenho linear, e que sobre tudo no que 
respeita aos diversos ramos das sciencias 
pbysicas, e bislorico-naturaes se dessem li mo- 
desta, mas utilissinia tarefa de e^tampar em 
iinguageni os elemenlos d'aqiiellas sciencias, 
ordcnados de modo, que servisseni de recreio, 
e proveitosa instrucgao li nunierosa classe dos 
alumnos de ambos os sexos, que tVequentam 
as escliolas, e coUegios de iiislrucgao primaria. 
J. u. BE AllREU. 



A observajao do coragao bumano e uin 
manancial perenne para a litleratura. 

U. 8TAEL. 



A corrupguo e' o maior obstaculo para o 
progresso dos destines bumanos. 

BALANCUB. 



® 3n0 titiit0^ 



JORNAL SCIENTIFICO E LITTERARIO. 



MIVERSIDADE DE COUIBRA— PROGRiJIMAS. 

FACULDADE DE TBEOLOGIA, 

1853—1854. 

1." ANNO. — 1.» CADEIRA. 

HrSTORIA ECCLESIASTICA, 

Lente — Dr. Joaquim Cardoso de Jraujo* 

C0WPBM>IO F. A. LOBO , RRSUMO DA. HrSTORlJt DA 

£GREJA DO ANTIGO TKSTAMESTO, COIMBRA 1H27. 

DA.>(\R.\MAYR, IWSTITrTION ES UISTORIAB ECCLESIASTI- 
CAE -NOV, TEST., CU.MMBRICAE IBSG. 

A. Isag-oge da Historia. Sun no^ao — divisao — iitili- 
dade — fira — objeclo. Fonlea hiBloricas — espccies — au- 
ctoridnde. Hisloria litlrraria — Bil)liographia bisturioa. 

B. Hisluria da Egreja do A. Teslaiiieiilo. Crca9ilu do 
mundo — (]tic(la de Adao e Kvo. Dilnvio, Voca^3o de 
Abrahao. Patriarchas, Moyses — in3titiii<;3o e leis do povo 
jiidaico. Jiiizea — reis — divisao do reino. Reis de Israel 
ate d destrui);*io do reJno per Salman^tzar. Reis de Jiid.i 
Hl6 ao capli\ciro de Babylonia. R'Slilui^ao dos Judciis 
— govenio dos sumraos sacerdoles — Machabeus. Ainbi<;oes 
e coulendas por causa do g:()verno. Herodes rei. 

C. Hisluria da Ei:reja do N. Tcstamenlo. 
1. Periodo primciro desde J. C. ate Coaslanlino Majjn'j. 

a. Jesus Cliristo — sua duiilrina — morte — resurrei(;ilu 

— ascenstio. Api;*I'jIo9 — sens trabalhos — egrfjas apusla- 
licas. Pre^a^aij do Evangelbo — causas, que a favorecem 

— difficuldarles, que enconlra. Persojiii^Ses. 
i. Cunsliliiii^So da Egreja — puiitifice romaiio —sua 

primazia— bispus — presbyleros — ^diaconos E!ei(;3o dos 
niiiiislros aagrados. Successao dos.Lispos nas pnncipaes 
egrejas. Concilios. Padres. Escriplores ecrlesiasticos. 

c. Doutrina Clirl^la. Discij'lina. Rites. Costumes. 
Inflocncia da Heligi3o nos costumes pulilicos. 

d. Controversias. Scismas. Heresias. Gnosticos, Ma- 
ni cheus 

S, Periodo segiindo desde Constantino al^ Carlos 
Magno. 

a. Oi Tmperadores protcgem a Egreja. Conversao dos 
Barbaros. 

b. Privjlegios e poder do clero — causa e origeiu 
d'este poder. Principio do poder dos papas Sdbre os 
principt's, — palriarrhas — exarchas, elf, Aucloridado do 
romano pontiflce. Infliiencia dos principes nas elei^oes dus 
bispos. Concilios ecumt'nicos — sua aucloridade. Padies. 
Escriplores ecclesiaiticos. 

c. Disciplina — ritos — mais — e maJs pomposos 
Coslunif'8. Infltieiicia da Religiao sobre a sjciodade, e 
especialmente sobre a legisla^rio e cosluincs. Monges — 
lua ori;;eiu e especies — seu augmentu — influencia 

d. Controversias — sc'smas — diverso roodo de proce- 
der da Egreja contra os herejes. ArJnnos. Pelagianos. 

3. P.;riodo terceiro desde Carlos Magau ale Gregorio 

vn. 

a. ConvprsSo (aa vezes violenta) do8 povos do Norte. 
A seita de Mahomet no Oriente — na Africa— na Hespa- 
nba. 

6 Grande poder do clero. Os bispos senliores feiidaes. 

Vol. III. OcitBBO 15— 



Origem das investidiiras. Os bispos nonieados pclos prin* 
cipes — inconvenientes e escandalos d'eslas nomea^ofS. 
Ignoraiicia da Enropa. Traballios dos monges. 

c. Ritos siipeisticiuBos, Lendws — aclaa falsag — abiiso 
dns reliqiiias e das perigrinH(;uc3. Corrup<;ao dos costumes. 
Simonia escandalosa. Inrontinencia do rlero. 

d. Conlro\er&ia sobre o culto das imagens. Scisma 
dos Gregus — seu pretexlo — verdadeira can<ia. 

4. Periodo quarto dt-sde Gregorio VII. ale Luthero. 

a. Cruzadas — seus bens e males. Ordens militares — 
scus abusos. Tempi. irios. O Chrislianismo se propaga no 
sul da Africa — na Intia — na America. 

b. Puder papal. Gnerras sobre as investiduras. Jui2'> 
sobre Gregorio VII. e siias reformas. Necessidade de re- 
forms. Conciiio de Constanta — de Basil^a — de Ferrara 
e de Florenea. 

c. Scliolastica — sua inOuencia. Restaurai^Jio das letrai. 
Ponlifices mais illuslres. 

d. Scisma do Oriente. Clemenle V. em Arinbao. 
Scisma do O.cidente — graves males, que elle causa, 

e. Abachard — Albigenses — inquisi^ao. 

5- Periodo qin'nlo desde Luthero at<S ao fim do eeculo 
18.'' 

a. Eslado politico e lillerario da Enropa — corrup^So 
dos custumes. Leao X. — indidgencias — Luthero. 

b. Revolij^ao rcligiosa — suas verdadeiras causas — 
scus effeitus quanto a Egreja e quanto ao Estado. 

c. Progressoa do Protestant ismo, Dieta de Worms — 
de Spira — confissao d^Ausbonrg — Zwinglio — Calvioo 

— guerra dos 30 annos. Paz de Westphalia. 

d Prujectos de concordia — conciljo de Trenlo — 
juixo sobre die. 

e. Henrique VIII — scisma anglicano, 

f. JesuitdS ^ Jansenistas — Quietistas. 

g. Resumo da hisloria da Egreja reformada. 

2.' CADEIRA. 

THEOLOGrA OOGMATICA GBRAL. 

Lente — Dr. D. Viciorino da Concei^ao Teixeira Nece$ 

RebeUo. 

COMPENDKl J. PRUNYf, SYSTEMA THEOLOOIAB DOGMA- 

TICAE CHHISTtANo-CATHOLTCAB, COMISI BUICAE 1848. 

A. Prolognmrnos. Noi^So — divisSo — objecto — dm 

— excellenria — necessiilaite — subsidios da Theologja 
Dogmatira. Sua hisloria liileraria. 

B. Theoria da Reljgiao : - 

1. Em geral. Sua nu^ao — divisao — possibilidade — 
necessidade. 

2. Em parlicular : 

a. Religiao natural. Sua no^ao — possibilidade e insuOi- 
ciencia. 

b. Religiao re»elada. Sua no^So — divisSo— pol« 
sibilidade — necessidade — criterios. 

3. Das religiocs falsas. 

C. Theoria das fonles, ou logares Theoiogicos. 
1. Primilivot : 

a. Escripliira. Sua authenticidade — Teracidade — 
integridade — inspira^iio — sentido. 

b. Tradit^So. Sua no^ao — divisiio — valor — regrat, 
K. Denvolivos. Concilios, principalmcnie os geraes : 

bispos, principalmente o romauo ponliGre: padres, prin- 

1854. Num. 14. 



174 



ri|i;tImrnlo os dos primciroi leculos : sjmltoloi , priuci- 
]'alnieiile os antijus. Lilur^ia. Prf6cri|n;rio. 

3. SuUidiariui. Historiu. Philusopliia natural e racio- 
nai. Direitu caituiiico e civil. 

D. Theoria ila K-jfoja : 

1. Sua no^uo — inslitui^So — fiui — visibilidade — 
perpeliii<I.Hle. 

2. Siias nolas^applicarao J*cslas as difTereotes egre- 
jas 

3. Sim auctoriilade objecliva e suljectiya. 

4. Sens dircilos e prerofralivas. 

5. Sens memltrjs c hierarchia, 

2." ANNO. — 3.» CADEIRA. 

THSOLOGIA D0GUATIC4 ESPEClki*. 

Lente — Dr, Joae Gome* Achilles, 

COMPENOIO-^J. PRUNYI, SVSTEMA THEOLOGfAE DOCMA- 
TICIE CURISTIANO-C\TBOLICAE, CO.M.MfiHICAE 18-lB. 

A. Nd^ocs previas. Vordadeira no^So da Tlirtilo^ia 
Syml>olica. Historia especial d'esU parte da Theologia 

— stia relai^ao com a I>iii;malica especial — no^rto e prin- 
cipi'j d'eslit — sua historia. DeGiii^ao e coiidi(;ues du 
Do;rni3. DifTerentea melhndus Sfgnidus na suaexposi^Su 

— lijslorico — denioiislralivo — poicinico, Vantagens do 
fjiie rcunir lodus esles elenieiiloa. Mysterios e sua possi- 
l>tlidade. Artii;i)9 fiindam<--nlae$ e nao riin(lamenlar>s d<'S 
Proteslanles. Exfiosi^-Jto e refutai;ao dj indilTerenlisiuo, on 
tolerancia leligiusa. SymludiiS — livros symbolicos. 

B. Unidade de Deus — Dualismo — Pulylheismo — 
Panilieisnio. Kssencja de Dens — aUnlmtos de Dens. 

C. No^ao da Tritulatic — eren^a da E^'reja n'esle 
Doirnia — sua iniportancia. Denomina(;5o e divindade 
.ilo Pae — do Fillio — ilu Espirilo Sanclo, Oisliiici;ao real 
tins Ires Pessons. PruceasGcs e outras coiuo propriedades 
do myelerio. 

J). Incarna^ao. 

1. Conlia OS JuJeus: promessa do Redemplor conlida 
no A. Teslamenlo — analyie e exposi^ao de loJas os 
-propheciiis n'elle conlidas, e (|ne dizem respeito ao Mes- 
jlia^, Epoclia? ^n<'l,is cliaracterifilicas — officios on oiunns 
•lo iMessias. Jesus de Nazar< tli e o verdaileiro Messias. 

2. Contra os hereges ; Jesus de Nazaretli e \erda- 
delro Deus P verilacleiro lioniem — diias nalureaas — von- 
ladcs e opera^ocs de Clirislo. Chrislo e Qlho proprio de 
Den?-. Maria iii3e dcClirJslo e mSe de Deus — sua xirgin- 
ilade. Hnmauidadfi de Chrislo unida hypostaticanienle ao 
Verbo — . cnllo que Ihe <5 deudo, Communica^iio ue 
idion)as. Morle e sepulJnra de Chrislo — reflexoes a cerca 
ita senleii^a da sua condemnac^rio — refutat^ao de J. Salva- 
dor. Dt'scida ao8 Infernos — resiirrei(;ao — asrensao de 
Chrislo aos Ceos — seu assento a dextra do Padre, 

E. Morte imposta a todos os homeno. Juizo particular. 
Deslino dos jnslos — dos condeninados — Purj:alorio — 
Cuinmunhrio dos Sanclos — seu culto — cullo das Ima^ens 

— das sagradas Reliquias. Resurrei^ao dos corpos — Juizo 
voiversal. 

IV.B. Nesle segnndo anno os alumnos de Theulogia 
Irequeotam a aula de Dirrito Natural^ ou Pbilosophia de 
Dircilo Da Faculdade de Direilo. 

3.* ANNO. — 4.» CADEIRA. 

CONTINUA^AO DA THEOLOGIA DOfJMATICA ESPECIAL. 

Xente — Dr» Francisco Jntomo Rodrigues de Jzevedo. 

COUPB.NDIO — J. PRONYr, SYSTBMA THBOLOGIAB DOGMATI- 
CAE CHRISTIAXO-CATHOLICAE, COMMBRICAB 1848; C 

simultancamenle~-F. l. b. LiEseRMANN, institutio- 

JiES THEOLOGIAE, MOUUKTIAE 1U44, 

A. Primeira parte. 

1. Crea*;3o — do mundo — lirado do nada. Exame 
das diversns opiniSes sobre a historia da crea^So referida 
por Moyses — fiui — conserva^ao — goverao do mundo — 
Provideocia. 



2. Anjo8 — sua eiislencia — nalureza — ejcellencia 
— dotes — minislerios — queda. 

3. Homem — sua cren(;So — nalureza — doles — • 
deslino. Decadeucia dos priineiros paes — exame crilico 
da historia da queda primiliva referida por Moyses. Pec- 
cado original -^ uoiversalidade da sua transfusSo — opi- 
nIOes diversas a cerca da nntureza e modo da propaga^So 
do peccado original — J. Chrislo, e a Virgem luiie de 
Dens sao d'clle excepluados. 

B, Scgnnda parte. 

1. Gra(;a e suas especies — imporlancia d'esta doulri- 
na, e sua difliruldade — conIro\ersias fauiosaa a cerca da 
gra<;a. K a questilo philosophica enlre a liberdade e a 
fatalidadc. 

2. Grai;a actunl — sua necessidade para toda e qual- 
qner ol)ra salntar. — gra^a etTicaz — uao iirejudica a liber- 
daile. Ponlos definidos pela Egrcja — apprecia^So do8 
di\ersos syslemas sobre a cITicacia da gra^a. (Iro^a suf- 
ficiente — e graluita — se 6 dada a todos? Ponlos deflni* 
dos pela Egreja — exame das opinuVs a cercu dos nSo 
deflnidos — desegualdade das trra^as. PredeslinaQao e 
reprovH^ao — a reprova^So dSo i absulula — e a predesti* 
na^So ? 

3. Gracja sanclificante — sua natrireza — doutrina do 
coricilio deTreutu — disposi(;ues ou meios para alcan^ar 
a justificaeHo — corollaries d'esta doutrina. PropriedadeB 
da jnsliflcai;ao — sua incerleza — amipsilpilidaje — au;;- 
mento ou dimioui^ilo. Qnestoes escholasticas scbre esta 
materia. 

4. Boas obras— sua npcessidade— sen merito. Espceic^ 
de ruerito — suas condi<;oe3 — ol>jeclo — variedade. 

5." CADEIRA. 

THEOLOGIA DOGMITICO-PRACTICA. 

Lento — Dr. Jose Ernesto de Carvalho e Rego, 

COMPENOIO A. LUBV, THEOLOGIAB MORAMS rN SYSTEM* 

REDACTAB^ ETC., CONJMBRICAB 1848. 

A. Parle geral de Moral Christa. 

1. No<;oes preliiuinares sobre a nalureza^objeclo ^ 
fim — di\isao — utiiidade — excellencia — funics daTheo- 
Iogi;i Doirniatieo-Practica. A sua hisloria litteraria, 

2. Natureza moral do hnmem era geral — em particu- 
lar sua nalureza moral, relalivamenle aos qualro estados 
da innorencia primiliva — da culpa — da gra^a — e da 
gloria. Seu fim — deslino — e dignidade. 

3. Praxeologia moral, Natureza e indole das ac^fSes 
mornes do homem em geral — norma d'eslds ar^'oes, e 
sua flpplica^ao a ellas tanibem em gerrd. Leis em parti- 
cular, conio norma das ac^oes moraes, e sua ajijilica^ao 
a ellas como principio d*onde nasce a imputa^ao. CoDsci- 
encia— nioralidade das ac^oes. 

4. Arelologia geral. No(;iio, indole, divisao, ordem e 
collisao d'ollicios e direilos. Theoria dos habitus em geral 

— em especial dos bons — no^iio, nalureza, molivos, con* 
di<;oes, nccessidade, divisao da virtude -— impedimentos 
ireraes da i irlude — adminiculos tia \irtude em geral. 
Theoria dos habitos raaus em especial. Vicios e peccadoa 

— causas, fuutes, occasioes — grau dos vicios, e da vicio- 
nidade. Emenda moral. 

B. Elhica Chrisla applicada. 

1. Onicius do homem Christao a respeito de Deus — 
virludes, que d^elles nascem, vicios que Ihes sSoopposlos. 

2. Officios do homem Christao a respeito de si raesmo 

— virtudes e vicios, que se seguem da sua observancia, 
ou D'lo observancia. 

3. Officios tantoabsolutoa, como hypolhelicos a respei- 
to do proximo — virtudes e vicios, que Ihes correspoodem. 

4. Conlractos em .geral — em particular. 

5. Sociedade conjugal e palerna — obriga^5es e direi« 
tos, que Ihes sao annevos. 

C. Theologia pastoral. 

I Officios especiacs dos pastoret da Egreja de toda* 
as hierarcbias* no que respcita: 

fl. A prega^So da palavra de Deus. 

b. A disprnsa^lo dos sacramentos. 

c. A cura das almas. 



> -^-^^^Vx- .^**" "^V^^- 



175 



d. Ao exercicio do culto externo. 
S. Oflicius do povo, rclativameute ao clero em geral 
^-ao8 seUB paslorcs em particular. 

4.*' ANNO — 6.» CADEIRA, 

THEOLOGIA LITORGICA. 

lieote— Dr. Anlonio BeUarmino Carr^a da Fonseea* 



COMPBNDIO J. PHUNYI, STSTEMA THEOLOOrAH DORMATI- 

CAE CURISTIAISO-CATUOLLCAB, COMMBKICAB l9iB> 

A. Sacramental. 

1. Sacraaientus em geral: no^ao c inslltui^uo dos 

cacramejilos — sens cuiistiliitivos — rcqiiisilos dt> ministro 
— do subjeito. For^a^ efficacia e numt-ro dos sacramen- 
tos. 

2. Sacramenlos em particular: 

a. Baplismo — noi^ilo — instilni(;ao, materia, furraa, 
mitiistra, sulgeilo, necessidade, efTeitos do baplismo. 

b. Confirmaqau, verda'lelro sacramcnto — sua materia, 
fiJrma, miiiislro, suhjeiln, necessidade e effeitus. 

c. Eiirhiirislia — mysterio da presen«;a real — Irans- 
eubstuncia^aii. E verHadeiro sacramenlo. Sua maleiia, 
forma, miuislro, necessiilade. E verdadelro saurificio da 
Lei no%a — proplcialorio — ialreutico — ■ eucUaristico — 
imjtelral(>rio. 

d Ptiiilciicia — J. Christo deu a Egroja o poder de 
reter e perdoar pi;ctailos — neccssiitade da conCssaa sai-ra- 
tnenlal — da cuiitri^ao — satisfac^ao — poder da E;;reja 
de conceder indnl^'encias — maleria, forma, Qiinistro, 
suljeito, effcilo iK>sacrameiito da penitencia. 

e. Exlrema-Unc^ao — verdadeiro sacramenlo — sua 
materia, forma, roinistro, sul-jeilo, Qecessidade, effeilos. 

/, Ordem, autre sacrameiito — sua maleria, forma, 
minislro, suljt-ilo, ntcessidade, effeitos. 

g. Matrimonio — e urn olficio da natureza instiliildo 
por Dens — e lamln-m verdiidt-iro sacramenlo-^ sen mi- 
nislro, miilerirt, forma e subjeilo — a E;.Teja tern j)()der 
dc cstal»f;lecer iinpedinientus dirimeiiles do malrimonio — 
Poly^amia simnltanea prohibida na Lei nova — iudissolu- 
bilidade do matrimonio. 

B. Liti:r<;id em especie: 

I. Nor fin. 

S. Divi.sao : 

a, Historira — exposi^Ho das varia^OL'S succedidas 
oa E;5rcjii a respeilo iJo cullo. 

A. Techiiira — desinvoUimenlo das \eri1adt-jras caiisas 
d'eslas varia(;ot'S — estjbelecimento do cullo religioso maid 
accummodadu ao espirito do Chrisliaiiismo. 

A. li. Nesle quarto anno us aluiuims de Theologia 
frequeutam a aula ile Dlrt^ito Ecclcsiuiiticu Publico na 
Faculdade de Direito. 

uh 
5^ ANNO. — 7.» CADEIBA. 

ESCRIPTURA DO TESTAMRNTO VELHO E DO TESTAMESTO 
novo PARA AS LI^OES DE EXEGETICA. 

Lente — Dr. Anlonio Jose de Freilas Honoralo. 

CoMPE^UIO — FR. J. DE S. CLARA, CONSPECTUS HERME- 
NEUTICAE S A CRAB WOVI TESTAMENT!, CuNIMBR ICA J-: 

1827, E — J. JUI/IAM. MONSI'EUOER, I.^STlTLiT10.^ES 

HBRUGNEUTICAE «OV. TEST,, \I.\DOBONAE 1704. 

A. Hermeneiitica s.ic;rai!a do novo e anti^^o Teslamcn- 
lo : -^liermeneutica em gpral — hermeneulica saijrada cm 
especial — hermeneutica sagrada do noio TistaiucnU) mois 
e6|)ec(alme)ite — do anli:;u — livros apucrijjhos do Tcsla- 
mcnlo novo — do autigo. Fim inlerno e exlcnio da h-r- 
menenlica sa^rada — meios proximos e romolca jtroprios 
para seconst-iruir csle Gm — uso d'esles meios pela analyse 
e epilyse— regras Lermeneulicas a cerru do senlido da 
Palavra de Deus — dos meios hcrmeneuticoa — do uso 
d'esles meios. 

B. Analyse hermeneiillca da hisloria harmonica dos 
qimtro EvaiigelliDS. Explicada — expusi^ao de cada uma 
das pericopas mais obscuras — analyse hermeneulica das 
pericupas mais diOiceis do antigo Testamento, 



C. Epilyae hermeneulica dfl alguns logares c)as*icoa 
d*entre as pericopas da analyse — epilytc — ejtegetica — 
eleoclica — porismatica, 

N. B, Nesle quinto anno os aliimnos de TheoIo;n*a 
frequentam a aula de Direito Ecclesiastico Particular na 
Faculdade de Direito. 

SEXTO ANNO. 

Neste fiexto anno os atumnos de Theologia repelem 
as aulas do qnlnto anno. 

No lira de cada iim dos primeiros cinco annos, os 
aluinnos habililados liram duis ou mais pontus sobre us 
materiaa, que frequentiiram ; e n'esles sao examinadoa 
jjublicamenle pur Ires ou qiiatro Lentes de Theologia e 
de Diri'ilo (nas suas materias). 

Aos alumiios approvados no exame, ou acto, do quarto 
anno, se confere u ijrau de Bacharel. 

t)s repelenlt's (ahimnos do 6.° anno) defendem publi- 
camenle no fim do anno umas TlieseSj tiradas de tudas as 
disciptin.is, que frequfntaram ; e nas quaes Ihe arc<:nmen- 
tam oilu Lenles, ou Duiilures Theologus. DepuJs era uni 
ExHtiie pritatlo seis Ltenles Tlieologos os examinam sobre 
as miiteria? principaes de lodo o curso. Ao alumno ap- 
provado n'f'Ste exame e conferiJo o gran de LiccnciaJo, 
e p(J(le lomar o de Doulor. 



RELATORIO 

Dos Irahalhos do conselho da faculdade de 
muthematica, no anno lectivo de 1833 para 
18u4. 

A pezar da alteracao que soflVcu o soccgo 
publico nesta cidadc por occasiao da lesta 
do Carnaval, e dos aconterimcntos cxtraor- 
dinarios que d'ahi resultaram, o servico 
ordinario da faculdade correu regular por 
parte dos professores, que, animados do maior 
zelo pelo ensino publico, poderam allenuar os 
nifius effeitos d'aquelles acontecimentos, tendo 
a satisCaecao de ver que este seu zelo foi coroa- 
do de resultados satisfactorios para o apro- 
vellamento de grande nuniero dos sous disci- 
pulos. 

tempo das aulas foi prolongado o mais 
possivel, conlinuando as do 3.° e 4." anno ate 
10 dejunho. e levando-se ainda mais adiante 
as do 1." e i.° anno, dei\ando-se somente o 
tempo quo jjareceu necessario para se fazereni 
os ados dos esludantes habilitados. 

Os ados lizeram-se com o rigor costumado; 
e conselho, depois d'elles, dccidiu que se 
consignasscm no livro das adas das congrcga- 
coes OS nomcs dos esludantes que se haviani 
tornado distinctos pela sua frequencia e nosi 
ados. 

Tendo o governo de S. M., em portaria do 
ministerio dos negocios do reino de i'6 de 
agosto de lSb3, dcclarado que o arbitrio, 
adoptado pela faculdade de mathematica em 
29 dejulbo domesmoanno, satisfaz completa- 
mente ao pensamento que dictou a portaria 
de 3 de agosto, relativaniente a classiticacao 
dos alumnos que foram approvados no 3." e 
4.° anno da faculdade, a tim de serem equi- 
parados em vantagens aos alumnos da eschola 



176 



do exercito: n'essa conformidade fez o conse- 
Iho n'este anno a classificacao dos estudantes 
do 3." e 4.° anno, a qual, por via do prclado 
da univcrsidade, fez subir a presenja do S. M. 
Nao havcndi) no anno lectivo ultimo estu- 
dantes niatriculados no 5.° anno da faculda- 
de, cntcndou o consclho ser niais conveniente 
que OS sextanistas da faruldado, em vez dc 
frequenlarem a ".' cadeira collocada no 5." 
anno, frcquentassem antes a 8/ cadeira; e 
tnniando esta decisao, foi ella approvada 
pelo governo dc S. M. em portaria de 4 de 
uovembro. 

Estatistica da frequencia, e aproveitamenio dos 
alumnos da faculdade de malhemalica n'esle 
anno lectivo. 



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74 


74 


39 


113 



Podendo a letra dos estatutos dar logar a 
duvidas sol)re quern deve piesidir ao acto das 
theses, fcii, por proposta de urn dos vogacs 
do fouseliio, ventilada esta questao, resul- 
tando detidir o raesnio conselho, quasi por 
tinaniinidade, que esta presidencia cabia ao 
lento de prima da faculdade, ou, na sua falta, 
a quern suas vezes lizesse. 

Tendo sido presente ao conselho a portaria 
de 5 dc septembro, relativa ei publicacao 
gratuita do jornal do Inslituto de Coimbra, 
na qual sc pcrmitte as faculdades acaderaicas 
fazor imprimir as publicaoOes scientilicas 
e litterarias, foi, por proposta do vogal 
Barrcto-Feio, nomeada uma commissao, com- 
posta dos vogaes Guerra Osorio e Jacome 
Sarmento, para colligir das actas e archives 
da congregaeao o que mereccsse ser publicado ; 
e ao niesmo tempo foram convidados os pro- 
fessores da faculdade para darcra por cscripto 
quaesquer demonstracOes, aditamentos ou 
memorias com que substiluam ou ampliem 
algiima parte dos compendios por onde cx- 
pliquem, a lim dc ser tiido publicado no jornal. 

Tambem foram mandados alii pul)licar os 
programmas, cxigidos na portaria do mini- 
stcrio do rcino dc 11 de maio, depois dc com- 
pctentemente approvados pelo consclho. 

Durante este anno lectivo o consclho da 
faculdade tomou as seguintes resolucues: 

Que OS professores das respectivas cadciras 



d(*cm, em oongregafao, conla dos alumnos 
que deixarem dc entrcgar os exercicios que 
Ihcs forem passados. — Que as dissertacoes de 
partidos ou premios corram por todos os 
vogaes do conselho, a fim de que todos pos- 
.sani volar sohre a conccssao dos mesmos 
partidos ou premios. — Que no principio de 
outubro de cada anno lectivo se publiquem 
por edilal todos as dccisocs do consclho sobrd 
a contagem e elTcitos das faltas. — Que sejam 
dois OS dias de ponto no 3.° anno. 

conselho approvou para compendios da 
faculdade : 

A 1." parte dos elemcntos de astronomia, 
aprcsentada pelo vogal Sousa Pinto. 

A nova traduccao da algebra superior do 
curso demathematicas puras de Francocur. 

K decidiu, (juc, vista a demora que tem tido 
a imprcssao dos ullimos volumes da nova edi- 
fSo de astronomia de Biot, nao fossem os 
estudantes do 4.° anno obrigados a comprar 
OS prinieiros volumes na imprensa da uni- 
vcrsidade. 

Decidiu tambem, que no proximo anno 
lectivo frcquentassem os alumnos do S.° anno 
a C cadeira collocada no 4." anno, e que 
n'ella comecassem por estudar a mechanica 
dos iluidos, c que na 5.' cadeira se explicas-' 
sc optica. 

consclho, decidindo que se instasse pela 
conccssao de lodas as verbas pedidas no seu 
ultimo ortamento, quiz que n'este relatorio 
se fizessc tambem sentir ao prclado da uni- 
vcrsidade a urgente necessidade da acquisi- 
ciio dc uma casa propria para aula de dese- 
nho, visto que, tendo o governo de S. M. 
cedido a faculdade de niedicina o cdilicio do 
collcgio das Artcs, tica o mesmo consclho pri- 
vado da casa onde primciramentc fora col- 
locada aciuclla aula. 

consclho pediu tambem ao prclado a 
graja de sollicitar do nicsmo governo de S. 
M. a conccssao da casa da livraria do col- 
lcgio de S. Pedro, a qual, no entender do 
mcsmo conselho, e a unica que mais eco- 
nomicamenlc pode ser aproveitada para esse 
lim, e sera o que se tornara impossivel a 
exislencia d'esta cadeira, tal qual deve ser 
montada. 

Sendo reconhccida a necessidade de mais 
uma casa d'aula para uso da faculdade, c 
tendo esta requisitado da faculdade de philo- 
sophia a casa , onde antigamente fora esta- 
belccida no museu a aula de hydraulica : a 
vista do olTcrecimento de outras casas por 
parte da faculdade de philosophia, nomeou 
consclho uma commissao composta dos 
vogaes, Castro e Silva Montciro para de ac- 
cordo com o prclado escolhcrum no niesmo 
local do museu, e mandarem prcparar uma 
aula que satisfaja as condicocs materiacs do" 
cnsino. 

Em consclho da faculdade foi lida uma 



177 



carta do digno par do rcino, director do 
observatorio, dirigida ao revercndo hispo de 
Braganra, na qiial participava lerem cliega- 
do no paquete de 2i de abril os conhecimentos 
dos instninientos para o observatorio, que 
deviam cbogar nessa scmana a Lisboa no 
vapor D. Maria II, sendo depois remctlidos 
para a Figueira no primeiro navio do esta- 
do (jue possa alii descmbareal-os. E o consc- 
llio, pelo intcrosse de tao grata nolicia, dc- 
tidiu que d'ellcs se lizesse mcnrao nas suas 
aclas. 

vogal Sousa Pinto, director interino do 
observatorio, cxpoz a convcnicncia de sercm 
propostos para ajudantt's do uicsmo observa- 
torio OS actuaes calculadorcs extraordinarios, 
c tanibeiu a do provimento do logar de 3." 
astronomo. conselbo concordando com a 
nccessidade da nomeacao dos ajudantes, 
foi de pareccr que a do 3.° astronomo devc 
scr adiada per agora, attcnlas as circum- 
stancias do se acbar incompleto o quadro 
da faculdade, e da auscncia, em graude 
parte do anno lectivo, de tres de seus vogaes 
occnpados em servico da jXacao. 

PassanJo a fazer a visila do observatorio, 
tevc conselbo occasiao de exaniinar oflicial- 
mcnto OS instrumentos ullimamente cbcgados, 
OS quaes ja baviam sido montados provisoria- 
mcnlo, para se vcr se havia falta de alguma 
pcca, e de cuja coilocacao dellnitiva se cstava 
traclando torn a maior diligencia, tcndo cbe- 
gado jii a auctorisacao para se I'azcr a des- 
pesa nece'ssaria para siniiibautc elTeito. E o 
conselbo resolvcu que norelatorio da faculda- 
de se manifestasse a gratidao de que seacbava 
possuido para com o governo de S. M. por 
uma accpiisicao tao importante para o servico 
e credilo da faculdade de nialbemalica. 

director interino do mcsmo observatorio 
dedarou nessa occasiao ao prelado da uni- 
versidado que Ibe constava ter sido lembrado, 
pela commissao encarrcgada de escolber urn 
local e cdilicio proprio para cadea desta ci- 
dade, a parte construida do antigo observa- 
torio ao Castello: e que, a ser isto certo, 
cntendia que a faculdade de matbematica 
devia emprcgar todos os csforcos para que 
se nao desse tal destino a um edilicio, que, 
pela sua posiciio c capacidade, oflcrecc as 
nielbores condicoes que se exigem n'um 
estabclecimento asirononiico, e cujo acaba- 
raento, para o bm a que desde o seu principio 
foi deslinado, se torna ao prcseutc mujto 
mais ncccssario e urgenle. 

conselbo, conformando-se cm tudo com 
as ideas do director interino a tal respeilo, 
fez seutir ao prelado da universidade a ncces- 
sidade de se nao dar destino aquclle edilicio, 
que prejudique o que teve primitivamente; 
e teve a satisfaccao de vcr (|ue o mesmo pre- 
lado promettera auxiliar o conselbo n'este 
cmpcnho. 



A POESIA SLAVA MODERNA. 

Continuado de pa^. 166. 

Finalmente, para mostrar a graca perfeita 
com que Subbotitj soube apropriar a indole 
das piesnas a poesia cavalleirosa, nada nos 
parece tanto a proposito como rcsumir acpii, 
conservando-lhe o colorido, a extensa balladu 
de trinta paginas que clle intitula Bcidiii- 
Ichl.a Jioulu, ou Voicvoda Mirko c sua 
Fillm. 

« velho Mirko, voicvoda de Syrmia, cscrc- 
ve da sua fortaleza de Berduik uiua carta a 
seu irmao d'armas, vclbo como clle, o beroe 
Jug Eugdan: Escuta, amigo: Tu conheces- 
niinba bllia Ikonia, que exccde era altura e 
belleza todas as donzellas da nossa terra; 
desejava procurar um esposo para ella, e um 
genro para mini, que alliviasse os mens bom- 
bros, aluidos pela edade, da pesada armadu- 
ra que ja mal posso sustentar. Nao tenbo j;L 
niuguem era que espere vcr-rae reviver, lla 
sete iuinos que meu lilbo Radovan partiu 
com nosso exercito: e de ba muito que o 
exercito esta de volta, mas nenbumas noti- 
cias de Radovan. Ikonia tinba-se babituado 
a ir cacar aos monies com seu irmao, a ma- 
ncjar a clava, e a atravessar a aguia com as 
suas frecbas na regiao das nuvens. Tcndo 
perdido seu irmao, desoja um esposo em tudo 
parecido com clle, e que a mini me avive a 
mejuoria do fiibo que perdi. 

E por isso, meu velbo amigo, que te con- 
vido para que venbas visitar-me dia de S. 
Joao. £ nesse dia, que ha de soltar-se no 
canipo um ligeiro veado, que minba filba apa- 
nbara na carreira; atirara com a sua clava 
a rail bracas de distancia; finalraentc a mil 
bracas de altura se dcixara subir aos ares- 
um falcao, e quando la chegar, .sera alraves- 
sado por uma frecha disparada por minba 
lilba. Aquclle dos nossos heroes que apanbar 
cervo tao depressa corao ella; ou que alirar 
lao longe corao ella com a sua clava ; ou que. 
atravessar o I'abao a mesraa altura, esse, mi- 
nba lillia acccitara para esposo, e logo no 
dia scguinte se festejani o noivado. Traze pois 
comtigo OS Icus nove blbos, e todos os senho- 
res da tua voievudiu, para que tomera parte 
na fcsla. » 

\clho cscreve scgunda carta, cm tudo 
siuiilbante a priracira, a Miloch Obilitj da 
serra de Potseria ; envia terceira a Branko- 
vitj, da nevada Travnik; e depois quarta no 
mesnio teor aos Jakcbitj de Belgrado. 

Dia de S. Joao, todas as senhoras da pri- 
racira jerarchia, todos os senhores dos vastos 
paizes servios, se acham rcunidos nos cam- 
posextensos quedomina o castello deBcrdnik. 
Todos estao impacientes por ver o curioso 
descniace d'esta iucta de uma donzclla com 



178 



OS raais valciUes heroes slavos, lucla cujo 
prcmio sera a sua propria mao, quo val unia 
pica voievodid. Tao longo quanlo podc c'\lou- 
(ler-se, a vista uao ilescohri' si'nao cqiiipa- 
geus c spiiliorcs todos coberlos d'oiro. Figu- 
rem-se as tiiiias da aurora sohrc os prados, 
quando clla I'az lirilliar o orvalho com as mil 
cores do iris; assim brilliain os canipos de 
Berdnik ao rellexo dos milhoes do podras pre- 
ciosas ([uo seinlillani iios hdljiaks dos guerrei- 
ros, oomo as fulgontes eslrollas da noito na 
facliada do firmamonto. La estao os tres irniaos 
adoptivos, Jiarivo o Kralio\ itj, Uolia de Novi- 
Bazar e Milocii Obilitj, tres heroes como nuii- 
ca se virara outros similhanles nos sctc rci- 
nos latinos, c que val cada um delles so um 
cxcrcito. La csta o velho Jug Bogdan com os 
seus novo lilhos, todos frescos como novo 
golas d'orvalho, todos parccidos na estatura, 
nas foiroes o na valentia. J undo delles, hi so 
ve fulminanlo Liutilsa Bogdan, cuja vista 
traspassa o inimigo primeiro quo olio chogue 
a tirar o sahre da hainha, o o enformo Uoit- 
thiu, quo similhando um raorto ambulante, 
iiao torn sonao a pelle sobre os ossos; mas 
seus ossos sao como do ferro. 

I'oievoila Mirko desce da sua cidadolla, 
seguido da encantadora Ikonia em trajos do 
um joven guerroiro, com o manto tluctuando 
sobre os liomhros, o prcso no poscooo por uni 
diamante, que so olio val tres cidades impe- 
riacs. Nunca so idoou uma t'i7rt mais I'ormosa, 
nunca o pincol vonoziauo podera croar con- 
lornos mais perfeitos, nem um todo de linea- 
montos mais harmoniosos. Todos os heroes a 
contemplam fascinados; mas atras vera pu- 
lando veadozinho captivo ; traz as pontas 
douradas; mordc n'nm I'roio ornado de pero- 
las; OS seus pes ligoirns alcanoariam uma 
viJa ou uma estrolla cadonte atraves do ceo 
azulado. voicvoda Jlirko solta as rodeas ao 
prisionoiro, e com uma cliicotada o lanca no 
meio da arena. animal, sentindo-sc livro, 
parte veloz; mas do tres saltos Ikonia o alcan- 
ca, e pondo-llie uma das niaos sobre a cabe- 
ca, salia-lbo no dorso, e o reconduz como um 
docil corcol a sou pao. Todos os ospectadores 
ficam siloneiosos e estupofactos; nonhum se 
'bole. Os vclhos olham para os mooos, c os 
mocos, cheios de dospoito, olham para KriUi- 
iilj \ guerroiro alado de Novi-15azar; mas 
Krilatilj abaixa a cabeca oncostada sobre a 
rclva. 

Do repenlc da handa do horizontc ouve-se 
uma cancao alegre : c a de um guerroiro 
dcsconhocido, montado, sera cstribos noni sol- 
la, sobre um oavallo selvagem, quo pula como 
um tigrc e cujas clinas varrom a relva. Esto 
hcroc, do uma physiognomia oxtravagante, traz 

' Kn'l/ititj na lingua servia stgnifica o que traz 
nzas, e ilii-se psli- nonic aos fruerreiros, que chegam a 
saltar de uma nu ve« |i"r cima Ue sete cavallus de 
combate postos ao lado uns dos outros. 



comprido manto dos bulgaros. Barbas hran- 
cas desceni-Ihc a cinclura, os ollios oscoudem- 
.so-lbe debaixo das bastas sobrancollias, e os 
bigodcs lliu'tuantos caom onrolados para tras 
das orelbas. Chogado ao moio dos hrilhantes 
sonhoros, lanca-llios um olhar dosdenhoso, c 
vollaudo-se para Relia Krilatilj: « I'or ipie tc 
appollidas tu o guerroiro alado, se nao Ions 
onorgia para rivalisar com a donzolla em ve- 
locidado? — Guerroiro dcsconhocido, res[ion- 
de Krilalitj, deixa-tc do injustas roprohen- 
sOes. Tonho luclado om volocidado com a 
andorinha, c tenho passado adiante das pom- 
has, som buscar outra recompensa mais do 
que men divertimento. Como nao rivalisa- 
ria eu agora, se podosse, aqiii com osta mc- 
nina, quando ella (i o proniio da lucta, ella 
que nao enoonlra egual nos sole roinos lati- 
nos? Acho-mo porem coberto do dezesete fe- 
ridas, ainda nao cicatrizadas; o por pouco que 
eu corrosso, ellas se tornariam a ahrir no 
mesmo instanto. » dosconbecido, dirigin- 
do-so entao para os mancebos, lanca-lhos sar- 
casmos pungentes. Como e que llies faltara os 
brios para esgottarom as suas Ibrcas, e arris- 
carem, se tanio for mister, a vida para me- 
rocorem uma tal belloza? nTalvez quizesscm, 
([uo ella so tomasse ospontaneamente de amor 
por olles, que viosso tiuiida, na sombra dos 
seus harens, enlrcgar-se as suas caricias. E 
uma vergonha, liuda Ikonia, quo Kquos assim 
abandonada: mas antes marido rellio, que sent 
marido. » Diz, solta o veadozinho^ e de uma 
SI) obicotada, que Ihe rasga a polle o Ihe faz 
saltar o sangue, o lanca na arena. Excilado 
pelo estimulo da dor, o animal foge rocando 
a terra com o ventre, como para escapar a 
mortc; mas o guerroiro descoubecido o segue. 
N'um instante ja Ihe passa adoante, e toman- 
do-o pela redea, vem trazel-o ao vnieeoda 
Mirko, e somc-se dopois no moio damultidao. 
C'ontinua. 



COSTUMES AR.\.BES. 

A >OBUEZ.V SO DESEllTO. ' 

« D'uma sarca espinhosa, » dizia Ahd-el- 
Kader, « rogada todo o anno com agua de 
rosas, nao se obteni souao cspinbos; d uma 
palmi'ira, scni roga, sem cultura, senipre sc 
colliom taraaras. » Segundo os arabos, a no- 
breza 6 a palmeira ; a plehe, a sarca espi- 
nhosa. 

No oriente crc-sc no poder do sangue, na 
virtudc das racas; considera-se a aristocracia 
como uma nccessidade social, ate como lei da 
nalureza. Ao contrario do que succede entre 

^ Extraliido do que escreveu o geueral E. Daiimas 
sol)re este olyecto. 



179 



OS povof do occidcnlc, ningiicm ppnsa em 
revoltar-se contra esse principio alii recebido 
com placida resignacao. 

Af'ora a nohreza d'origcm lonpiqua e sagra- 
da, que se cnmpoe dos desccndentes do pio- 
pheta ((■hn-ifc.'<\ teem os arabcs outras duas 
Bobrezas distinctas; a religiosa' e a iiiilitar. 
Os marahoules e os djouudes sao duas classes de 
nobreza que deiivam sen csplcndor ja da pic- 
dade, ja do valor; cstes alcaiicam-o no coin- 
bate, aquolles com a oracao. Estas duas clas- 
ses pcrscguem-sc com odio implacavcl. Os 
djouudes exiialam contra os muruhoutes as con- 
suras que d'ordinario sc fazem, em todos os 
paizes, as ordens religiosas que procuram in- 
tronieller-sc nas cousas temporaes; accusam- 
nos dc inlrigas, de pianos tenebrosos, de 
pcrpetua cubira dos bens mundanos disfarca- 
da com um falso amor de Deus. Diz um dos 
sens j)roverbios: « Da zuoitia' sempre sae uma 
serpente. » Por outra parte os imirahoutes ac- 
cusani OS djouades de violencia, rapina e im- 
piedade. Kste ultimo arligo ministra-lhes mui- 
tas vezcs uma arnia terrivel; os mdrdboutes 
sao paja sens rivaes, o que era o clero da 
edade media para essa nobreza leiga a quern 
um anathema vencia, a despeilo do formida- 
vcl apparelho dc sua forca guerreira. Se os 
djouudcf! arrebatam o povo recordando-lhe os 
perigos arrostados, o sangue espargido, fazen- 
do, emfim, valer oprestigio militar, os ?;!«;■«- 
boutcs exaltam-lhe a imaginarao com a omni- 
potencia das creucas religiosas. Nao e raro 
ver um marabout amado on tcniido do povo 
p6r em risco a dominacao c ate a vida dc 
um djouad. Para sc comprebendcr o que c 
um nolire do Sahara cm todo o seu esplendor, 
em todo o estroudo e animacao de sua cxi- 
slcncia, c mister saber o que se passa n'uma 
grandc tcnda desdc as oito ate as doze boras 
do dia. 

A poesia anliga refcre a multidao de clicn- 
tcs que em Roma inundava os porticos dc um 
palacio patricio. Uma grande tenda no dcserto 
e bem siniilbante ao que eram as sumptuosas 
habitacoes pintadas por Uoraeio e Juvenal. 
Assentado soiire uma alcatifa com o ar dc 
dignidade proprio dos oriontaes, o chefe da 
tribu recebe por sou turuo qucm quer que 
vcnha invocar a sua auctoridade. Qual podc 
justica contra um individuo ([ue procura se- 
duzir sua muiiier, qual accusa um rico que 
se sublrabe ao pagamento de uma divida, qual 
pede auxilio para descobrir o rebanho que 
Ihe roubaram, (pial implora proteccao para 
uma filha maltractada por sou brutal marido. 
E muitas vezes acontece ir qucixar-se uma 
mulher dc scu marido, porque a nao vestc, 
porquc Ihe nao da o alimento necessario, por- 



* Estaliolecimentos religiosos que comprcliendem d'or- 
I dinario uina mesquita, uma eschola, e os tumulos de 
I seus fiindadore:,. 



que Ihe recusa, o quo os arabes na energica 
originalidade de sua linguagem, ehamam a 
parte de Deus. Este ultimo caso e frequentc. 
E cerlo ([ue a? mulheres das classes elevadas 
nunca veem alii assoalhar asrcconditas mise- 
rias da vida conjugal; porem a niuliier do 
povo, sempre que reclama as consequencias 
do malriinonio, csla convencida de que usa 
de um direito, que obedcce a um dever, c 
apresenfa-sc com a intrepidez que Ihe da a 
coiisciencia dc tor por si a religiao e a lei. 

A paciencia c a primeira virtude de \\m 
chefe. Este presta ouvidos attcntos a todas 
as reclamacoes que oassallam. Esmera-sc cm 
curar (pialquer genero de feridas que se Ihe 
patenteeni. bomem que estii no poder, « diz 
uma maxima oriental, » deve imitar o medico 
que nao pretendc curar todos os males com 
OS mesmos remedies. » Nestes tribunacs dc 
juslica, (jue fazem lembrar o modo, por que 
primilivamentc os reis tractavam os inleresses 
jirivados de sens subditos, o chefe arabe em- 
prega toda a .sabcdoria (jue Deus concedeu a 
sua intelligencia, toda a forca de que dotoii 
a sua vontade. A nns manda, a outros acon- 
selha, a ninguem recusa suas luzcs ou pro- 
teccao. 

Ao chefe arabe niio basta possuir a quali- 
dade que Salomao pedia ao Senhor; a sabc- 
doria deve reunir geuerosidadc e bravura. 
maior elogio que se Ihe pode fazer, e dizer- 
Ihc que » traz a espada sempre desembainha- 
da c a mao sempre aberla. » Esta especic dc 
caridade imposta pela lei musulmana, deve 
ser continuamente practicada pelo chefe. Sua 
tenda deve ser o refugio dos infelizes, nin- 
guem deve alli morrer de fome, porque diz o 
propheta : 

8 Deus nao lerd misericordia, scndo dos mi- 
sericordiosos. Crentes , dae esmola, ainda que 
nao scjasenao de mctade dc uma tamara. Quern 
lioje fizer uma csinohi, sera farto a manlta. » 

Se guerreiro perde o cavallo que consti- 
tue a sua forca, se uma familia lica sem o 
rebaniio de quo vive, ao chefe, sempre ao 
chefe e que ."^ao dirigidas estas queixas. 
desejo de fazer lucro jamais deve preoccupar- 
Ihe csjtirilo. arabe nobrc que, debaixo 
de tautos aspcctos, se assimelha ao senhor da 
edade media, dilfcre essencialmenle dos nos- 
sos cavaliu'iros, na aversao que jirofcssa pelo 
jogo. Nem OS dados, nem as cartas teem uso 
algum no remanso da tenda. Um chefe arabe 
nem joga, nem faz emprestimos usurarios. 
unico modo, por que alguma vez faz render o 
seu dinheiro, c entrando indircctamente n'uma 
empresa commercial. Enipresta a um nego- 
ciante certa somma, o negociante exerce o 
seu trafico, e passados alguns annos divide o 
interesse com o seu credor. 

Nao se julgue porem que a riqueza seja 
cousa desprezada pelos oriontaes; pelo con- 
trario e uma condiyao indispcnsavel para al- 



180 



caiuar o podor. Qiiem chpga a ser pohre, 
tamliciu ciic na ohsciiriiladc, e qiiem se torna 
ric'o, I'afilmo.nle ailquire as honras quedcsoja; 
n>as anibicidso cm vez de procurar adquirir 
ri((iiezas pola iiuhisiria, busca-as antes no 
canipo da balallia. pueireiro que faz mui- 
tas razzias dondc llie provem ao iiiesmo tem- 
po dinlu'iro t\ gloria, e chamado Ben-Deraou 
(lillio dc sell hraeo), e iiode aspirar as pri- 
meiras dignidades da sua tribu. Isso mostra 
que a qualidadi! fundamental da alma de urn 
nobre aiabe e a bra\iira. 

<• Nao ba eousa ([ue mais realce na deshmi- 
brante braucura de um albernoz, do que o 
sangue « dizia Abd-el-Kader. chefe arabe, 
come OS capitaes d'oulr'ora dcve ser o mais 
\alente dc sens homens d'armas. Sua influen- 
cia licara para senipre perdida, semanifestas- 
se quai(iuer vislumbre de cobardia, e e a rea- 
lidade, e nao a apparcncia (jue os arabes 
apreciam. Aduiiram uma alma de tempera for- 
te, nao ja um exterior degigante oud'alliele- 
ta. Cumpre nao crer n'uma preoccupaeao que 
se apoderou de muita gente, e vcm a ser que a 
grande estatura e a i'orca corporea produzem 
nos arabes viva imprcssao. Nao eassim: elles 
qucrem que um bomem seja robusto, insen- 
sivel a sede, c a fome, apto para supportar 
as mais rudes fadigas; mas e certo que nao 
dao grande importaneia a altura, a forca 
muscular siuiilbante a dos valentoes de feira 
ou dos gallegos. que elles apreciam e a 
agilidade, a destrcza ea bravura; pouco Ibes 
importa a grandeza ou pequenez do corpo, e 
ate ao contemplar uma ligura collossal muito 
gabada, frequentes vezes se Ibes ouve csta 
exclamaeao sentcnciosa: « Que importa a 
estatura, que importa a forea? Vejamos-lbe 
coracao: talvez que alii nao exista mais que 
uma jielle de leao sobre o dorso de uma vacca ! 
Conlinua. 



^■OTI^IA SOBItB A BACIA CAHBONlFEaA DO CABO 
MOXDEGO. 



Continuado ele pa^. 159. 
Fuluro que promctte a lavra. 

A linporlancia da galeria geral de esgoto, 
e a exlensao que per meio della pode dar-se 
a lavra, nao estao em rela^ao com a procora 
do combiistivel que esta inina fornece. Para 
dar coniMino ao carvao quo ba annos se ex- 
Iralie della, e necessario que exista a fabrica 
de garrafas prctas do Bom-Successo em 
Liiljoa, sou iinico cousumidor. Seis a oito 
loneladas dc carvao per dia satisfazem as ne- 
cessidades d'cale estabeleciinento ; e por conse- 
guinlc, sern tocar nos pilares da mina Far- 
robo, lem sido sufficientc lavrar algumas 



por^oes a jusante da camada, sem que taes 
trnhallios leidiam cxcedido ale'in de novenla 
melros na inclioacrio da tnesiiia camada. 

I'lsta lavra pccca por tanlo ))cln mcsquliiboz 
do coosiimo; e coiiio a extracCi'io do carvao 
de grandes profoodidades carcce do cmprcgo 
de meios que so luna ampla lavra pode com- 
portar, o resiillado sera ficar |)or lavrar a 
parte destc deposito mais importanle, tanto 
pela abondancia como pola qiialidadc, se o 
cooiumo se nao extender, ea lavra iifio poder 
tornar-se mais activa. 

E pois necessario : 1.° procurar novosconsii- 
oiidorcs, e eslabelecer obras on Irabalbos de 
cba racier permanente, que tornein no futiiro 
a lavra mais exteiisa e proveitosa, o que nao 
pole coiiseguir-se sendo a conccssao feita 
coMio actualiiieiite est;i, teinporariamenlc, nem 
tao pouco con)o a lei anterior de niiiias pres- 
crevia por prazos nunca nialoies de 30 annos, 
e niediante a maior rciida que fosse olferecida 
em pra^a'. Forain eslas eoutras raznes geraes, 
que mnveraisi d conselbo de obras publlcas e 
inioa*, a propor o projeclo do decrelo, (jue o 
govcriio promulgou com data de 31 dc de- 
^embro de 1852, e as curies depois sane- 
cioimram. 

Ji^te decrelo manda entrar as minas de 
co!iibu>tivel, em que csta se comprebende, 
iia regra geral das conccssoes de minas; islo 
e, lornar a sua concessfio illimitada em qiiaiilo 
ao tempo e subjeila nnicamciile aos impostos 
uslabelecidos para as oulras minas. 

2.° estabelecer as condijoes necessarias 
para que no futuro possa a miiia fnrnecer-se 
economicamonte das madeiras que llie forcm 
necessarias. Quandoalavra da mina comegou 
por coula da fazenda, ordenou o governo a 
coin])ra de terras, e a sementeira de pinbae! 
dos arredores da mina, o que logo foi cum- 
prido, Em 18;it havia ainda um vasto pinbal 
com excellentes e abundaiites madeiras, c um 
empregado a qucm e^lava coinmellida a 
guarda da propriedade. A companbia de en- 
iMO, nao tendo feito alii Irabalbos de minera- 
gao, sacrificoo a conserva^ao do pinbal e 
propriedade dellc a mesqiiiidia economia do 
salario de um goarda, e o governo lolerou 
que o de^pedisse. 

As terras, que conslituiam as perlengas da 
mina, acbam-se em parte nas mfios dos parti- 
culares, e o reslo sob a adrninistra^.'io e frul^ao 
da juncta de parochia de Quiaios. 

Devendo neeessarianientc inq^or-se aos 
concessionarios da mina de Bnarcos a im- 
mediata sementeira e cultura de um pinbal 
nas viziuban^as da mesina mina, condi(;ao 
indispensavel para lornar no futuro menos 
subido o piego do carvao, e indispensavel que 
a mina lenba annexa uma porgao de terreno 
conliguo, que o governo pode fornecer-Uie 
mediante uma certa renda, reivindieando as 
terras de propriedade nacional das pessoas, 
que se apossaram dellas indevidamenle. 

(Dol. do Minist. das Obr. publ.J 



181 



LIVROS SAGRADOS DOS INDIOS. 

O BIG-VtDA. 
ContintmJo de png. 169. 

Uma e?p("cie de sabeisnio era a religiao 
doniinante dos Aryeiios enlrados no terrilorio 
da India : os sens riiltos forain consagrados 
a iKitiirnza divinUada. Tnl foi laniljeiii a 
rcligiao dos Clialdeus, dos Persas, e da iiiaior 
parle dos povos da anlignidade. O hoiiiem, 
depois de tcr adoiado a Dens nas suas ma- 
ravillias, psquccera o supremo creadnr, que 
debalde seus ollios prclendiam descorliiiar 
nos ceos ; e na sua fiaqueza invocou Os 
aslros que regulam o leuipo e o cnrso das 
eslafoes. Rsle obscuranlismo da intelligcncia 
liurnana, e a sub-liluigao do culto das po- 
teiicias naturaes a adoragao de uin supreuio 
e unico Deus, foi o pnuieiro passo das na- 
gnes priiuilivas, dejiois da dispersiio dos fillios 
de Noe', para o polvllieisriio. 

Reinoulando aos primeiros tempos da sua 
exislcncia social, quando eslavani aiiida divi- 
didos em familias ou tribus, quo para o diaute 
seconverleran) em oulroslaiUos povos diversos, 
OS Aryenos haviain povoado o seu olympo 
de tnilliares de plianlastiras diviiidadcs. A 
terra que produzia e alimciilava os objectos 
proprios para os sacrificios;as llores:os fruclos ; 
os rebanlios e eereaes: — a agua que feililisa a 
terra : — os venlos que regulam as csta^oes, e 
amenisam os iliinas: — o fogo einblema da 
for(;a ; que devorava as oftereiidas dos deuses, 
e OS aliinenluva: — o crepusculo da maiilia 
e da tarde, que designa a liora sniemne da 
ora^ao : — a lua praleaudo a azulada abobada : 
— a aurora annunclando o despej lar da natu- 
reza : em fun os manes de sens inaiores, laes 
foram os primeiros objeclos da voncra^-ao 
d'estas tribus. 

Os cullos, que elias rendiarn a estas diviii- 
dadcs, consistiam em sacrilicios, oragoes, e 
liymnns canlados durante as ceremonias, que 
eram reguladas pelos I edas, que se dividem 
em qualro paites: o liig-Fcda ou o livro 
dos bymuos; o Yadjour-Fcda (braiico e 
negro), que e como iiiri ritual, e que con- 
lem 03 formularios proprios para serem reci- 
tadas asora^'nesdurantea cclebra^ao dossacri- 
ficios ; — o Slnia-(^cda, tollec^ao de liymiios 
e de invocajQCS exlrabidas do Riga do i ad- 
jour; — em fim o yitfuirva-p'cda, mais mo- 
derno, que os outros Ires, conlendo os formu- 
larios das feiticerias, dos exorcismos, e das 
imprecagoes. 

Dos quatro Vcdas o ultimo e' o fructo nao 
da inspirajao rcligiosa dos Aryenos, mas da 
colera, do espirito de vingan^a, e da super- 
slijao dos btalimanes. O tercoiro e urn cxtra- 
cto dos dois prinieiios, e ])or isso, estudados 
esles, tern pouca importancia. O segundo i 
mui nolavel, e parece que ate o seu nome 



Yadjour do radical i/adj — sacrificio) se ap. 
plicava a todos os quatro Fredas. 

Depois que se estabeleceu esta divisao, 
cada um dos quatro Fcdas era representado 
nos sacrificios por um sacerdote. Ao director 
do sacrificio tocava recitar as ora^oes do 
Yadjour ; o olTiciante, que aprcsentava a of- 
ferta, cantava os liymiios do Rig, e der- 
ramava no fogo as liba^oes; o cantor repelia 
em alta voz, e em torn modulado os canticos 
do Sdina; eum bralimane escoiliido na assem- 
blea pronunciava as feiticerias do yllliariian. 

D'estcs qualro livros sagrados o Rig-f^cda 
e aquelle, que em sens mil e tantos iiymnos 
patentea mais claramenle o espirito religioso 
e guerreiro dos Aryenos. Ha, porem, na ultima 
sec^iio d'esta collecgao de cantos sagrados 
alguns Iiymnos sobre os aclos civis e polilicos, 
e outros em que os principios pliilosopliicos 
e a pliantasia poetica se mistulam ao senti- 
mento e as inspirajoes religiosas de um modo 
digno de especial attcijjfio. 

Certo as odes, em que dogmaticamente se 
tracla a queslao da nlma universal, e da sua 
naturcza n^o sao dos primeiros tempos vedicos, 
e perlencem provavclmente a epoclia cm que 
foram escriptos os Oupanic/iads, que contein 
o ap|)cndice tlieologico e pliilosophico dos 
Fedas. 

A piedade sinceia, qucdictara as fervorosas 
invoca^'oes a Jgni', e Indra^, cedera o pas- 
so a reliexao; e a luz da pliilosophia conie^ou 
a illumiuar os liorizontes da intelligencia. A 
idea religiosa nao caducara ainda, mas os 
poetas comeyaram a associar aos assumplos 
leligiosos outros pen-amentos puramonte liu- 
nianos, e povoando sempre o olvmpo de 
novas divjndades, o examc do seus attribulos 
foi submetlido ao ctcalpelo da critica pliiloso- 
pliica. 

o Como so jocira a ccvada no crivo, diz o A. 
do hjnuio a I'alavra, assirn tambem se forma a 
palavra na alma dus sal)ios. £ a prova dos vcrda- 
dciros amigos, porquc todo o seu valor eslii na 
sanclidsdc da'palavra. » 

As onze e^laiicias d'este liymno, primorosa- 
mente traballjado, nfio deixam vcr se o A. 
quizera tractar da palavra revelada, ou da 
sinccridade liumana; mas o fiindo do seu 
pensamenlo e a origem divina da palavra, 
que nunca o hornem devr profanar pela men- 
tira ; a idea abstracia, porem, esta aqui con- 
fundida com as particularidades da vida real. 

A liberalidade e a beneficencia iiispiraiani 
aos cantores do l^edii odes cheias das mais 
doces e formo^a5 imagens, e em que o cora- 
(j.'io fala uma linguagem quasi lao sublime, 
como a dos Psalmos. 

<i A opulencia do liomem bemfazejo niio acabara 
nunca. mau nao cncontra um amigo. Na ver- 
dade a abundancia do rico i cstcril — c a sua 
propria morte. t um pcccador invetcrado no vlcio, 



' O F,5go. 
'■ O Elhcr, 



182 



que ludo consomc, sem deiiar rcserva alguma 
]>ara o future. •> 

Eii aqui preceilos do moral, e relip'mo. 
() poela recorja aos l)ornen5 a exislencia de 
uina outra vida, para a qiial e niisler ajniiiUir 
lliesouros. A sociedadc arveniia e^lava ji 
desinvolvida, e a tique/.a egdbla e avaru 
tlagcllava ja oi pobres. O Uymno em toz de 
ser excliisivaraeiilc iim canto sagrado, e unia 
iiivocajfio para celebrar os sacn'ficios, era 
lambein iima formulo por meio da qual se 
apreseiitavain lodas as iiispira^oes; ea Irom- 
bela, que cada poela eiiibooava para aiuiuii- 
ciar a um povo iiilclligeiile, dehaixo das 
subliincj harmoiiiasdas siias ealnncias, osniais 
uobres e elevados peusamcjilos. 

O hymno ao deus da Jogo e uma dessas 
iiotaveis produc^oes, que em iieiiliiuiia outra 
lingua se encoiUra egiial. 

« Eu amo torn entliusiasmu cstcs filhos do 
grandc AVibhaka ', cstcs dados que se agilam cntrc 
OS dcdos, que se lancain, e rolaui sobre o taboleiro. 
A niinba cnibriagucz c cgual a do soniuo. I'rolc- 
ja-me AVibbaka sempre acordado. Toiibo uma 
esposa lao bondosa, que nunca se cncolcrisa co- 
migo, nem ujC dirigc nma unica palavra, que 
mc seja offensiva ; scmprc lao affavcl para os 
meus amigos, como carinbnsa com o seu csposo ! 
E eu abaudono csta extrcmusa niulhcr para me 
entregar aos azares dujngo ! — Eulre taulo mniha 
sogra meaborrecc — repelle-me minha esposa. — 
Ao pobre rccuso a esmola. que me pedc, porque 
a sorte de um jogador e como a de um vclho 
cavallo d'alugueb — Oulros consolam a esposa 
J'aquelle, que so ama os dados, que Ibc dao 
o ganho. Seu pae, raae, e irmiios Ibe dizem; 
uao conbecemos - prendci-o. 

<i Quando mcdilo scrbamcnte na miiiba sorte, 
o men proposilo c de iiao mais ser desgrarado 
com estes dados; os amigos, porcm, vccm fazcr- 
me quebrar o mcu prolcsto. Os ncgros dados 
Jancados sobre o taboleiro soam aos meus oiivi- 
dos, e cu corro para o logar d'ondc este som 
■vera, como uma mulber louca de amores. jo- 
gador cntra na companliia, c a priracira pa!a\ra 
que Ibc s,ie dos labios c — ganliarei cu? — E os 
dados seuboream-sc da abna do jogador, que Hie 
enlrega a sua furtuna toda. 

oOs dados sao como o conductor do elcpbanlo, 
que IcTa amarrado com um la^o: com a ambi- 
cao doganbo. ou a desespcrarao daspartidas per- 
didas, OS dados alormcnlam a abua do jogador; 
alcanram triumphos, e distribucm o roubo para 
felicidade ou desespcrarao dos jovcns inexpcrien- 

Ics, para scduzibos, cobrcmsc <lc mel 

O jogador, larga por uma vcz os dados; cultiva 
OS campos, c colho os doccs fruclos do teu tra- 
balho e da tua sabcduria. Jiu fico com meus re- 
banbos e com minha esposa . . . . — dados, sedc 
bons para nos, e traclac-nos como amigos; guar. 
dae para os nossos inimigos a \ossa colera. Vin- 
dc, mas nao com um corac.io inacccssivel a |)ic- 
dadc. Das cadeias d'cslcs uegros combatcules 
nos qucremos vcr libertados. u 

O jogador, que assirn fala, nfio eslu scniio 
meio couvertido. O deinonio do jogo, que se 

^ O deus que regula a felicidade dos homens. 



Hie apossura da alma, por vezos aiiuia o 
acominetle; c nislo ver«a o principal iiiteresse 
draiiiatico d'esta singular produc(,'rio. 

E adiniravcl o medn que o pobre jogador 
Irm aos 7i«n-ros dados, que elle adorara como 
Ntia divindade e cuja irresislivel paixfio do- 
iiiinara os proprios reis, e Ibe fizc^ra perder 
n'uma so partida o reino, como ao priiicipe 
Nala. 

Continua. 



CONSTITUICAO PllYSICA DO SOL. 

Com lima nnva applicarao da )ihologra]i!iia 
prclcndc M. Thomaz Wood haver pnsto em 
evidencia a naturcza provavel do sol. Sera 
este astro solido, gazoso, ou uma c oiilra 
cousa ao mesmo tempo? E um ponlo sniire 
(pic nao concordam os aslrononios. As a[)i)a- 
rencias particulares das manchas, e as mu- 
danras ([ue estas soilVem, induzeiii a crer, (pie 
seja que for em si mesmo o d'sco do sol, 
por certo o cerca um involucre gazoso; e o 
facto descoberto por M. Aragn, que a luz dl- 
recta do sol se nao aclia polarisada, tcndc a 
provar ([uc tal invohicro e uma cliamma. 

Eis alii as experiencias com ijiie ,M. Wood 
julga confirmar csta opiniao que c hojc a mais 
gcralmentc recebida. 

Em uma camara obsnira c sobre a mcsina 
lamina pholographica recebe-se uma scric de 
oito imagens do sol, obtcndo-se a primcira 
por via de uma exposicao quasi iiistaiilanea, 
a scgunda por uma exposicao maisdcniorada e 
assiiii siiccessivamcnte. Exaiuinando atlcnta- 
mentc estas imagens, aclia-sc: 1." que dilTe- 
reiii notaveliiicnlc de grandeza, e que .seu 
diametro vae constautemeute augmcntando 
ale certo liniito, segiindo o tempo da exposi- 
cao; ccntro de cada inuigcm e muilo mais 
imjiressionado, do que osbordos. 

Este idliiiio facto, ([ue ja era conbecido, 
prova simplcsmenle que a luz da porcao central 
do sol e mais intensa ou energica (pie a do.s 
bordos. Mas que signilica o augmcnto de dia- 
metro da imagem? Subslituindo ii luz do sol 
a de uma vela, ou de um bico de gaz, M. 
Wood acliou que tamlicni ncstc caso as di- 
mensOes das imagens crcscem com o tempo 
da exposi(;ao. Operando da mesma maneira 
sobre a luz Drunimond, isto (i, um pcdaco de 
cal levado a incandescencia por um jado in- 
llamiiiado d'oxigenio e hydrogcnio, observou 
que, j)elo contrario, o diametro da imagem 
iicava sensivelmeute o mesmo, posto que os 
tempos variasscm, notando-se apenas uma au- 
reola devida a atmosphera gazosa que rodOa 
a cal. 

A luz do sol olira pois, nao jii como a dos 
corpos solidos; mas como a dos gazosos; e 
daqui vem ser provavel que a superficie do 
sol seja um involucro gazoso. 



183 



CONSELIIO SUPERIOR. 



Dando noticia ao publico da colIccfSo dos 
livros clenienlaros, auctorisados pclo consellio 
suiKM'ior de instrucrao publica para uso das 
csdiolas cm cadu urn dos graus do ensiuo 
publico, tenios a salisHurao do expor um 
testcmunho iirecusavel do zelo, e cslorcos do 
mesmo consolho, e do amor pclas b'tras e 
scicncias, acordado foiizmente do longo le- 
thai'go em que jazera, pelo palriotico, e mui- 
to louvavel empeniio de alguns coracocs ver- 
dadciramente portnguezes, em quedetodo se 
nao apagara algunia faisca do saiiclo fogo, que 
outr'ora innamiuara pcitos votados a illuslra- 
cao e gloria do seu j)aiz. 

consellio, comprcbendendo a sua missao, 
e nao transpoiido os limites de seus direitos 
c attribuirijes, segue o exeraplo de outros 
povos, que boje servem de modelo em admi- 
nistracao lilteraria, auctorisando, mas nao 
impondo ol)rigacao de admissao cxclusiva nas 
escholas para quabiuer dos livros escolbidos. 
Aos professores toca a adopcao livre do uns 
ou outros no mesmo gcnero, e grau de cnsino. 
que na inslrutrao primaria e concessao 
feila com disc!;rnimeuto a intelligencia, a vo- 
cacao c gosto do professor, respcitadas as 
sabias licOes dc experiencias, na secundaria, 
c superior e entre nos dever, competiudo por 
lei a escolba dos compcudios aos cousclbos 
das escbolas respectivas. 

Querer toear osponlos da perfeicao, apenas 
se comeca a escrever ol)ras desta natiireza lao 
dilliceis c trabalhosas, quanto neeessarias e 
uteis; (juerer que em obras compendiosas de 
sua natureza enfadonhas pclos limites que o 
scu destiao Ibesmarca, pela compressao, que 
die impOe no espirito obrigado a resumir 
substanciahueutc, de exccncao Irabalbosa pela 
necossidade de clareza, deduccao, estylo di- 
dactico, e mais condicoes Indispensaveis ao 
cnsino das classes em um determinado tempo; 
querer, dizemos, saia de improviso obra tao 
inteira e acabada, como Pallas saira da ca- 
beca dc Jupiter, e cxigir deiuasiado, e aspirar 
muito alem da I'orca luimana; lura afugentar 
zelo c dedicacao, desanimando escriptores 
novels, (|ue progredindo se aperfeicoam. Em 
bomenagem devida a estes prineipios, tern 
havido geralniente certa indulgencia, certo 
favor com que miiis se accende o entjeaho em 
todas as nacoes, quo procuram imprimir im- 
pulso vigoroso e energico a diffusao das 
luzes. Se compararmos as primicias dos nos- 
sos escriptores com prodiiccoes do mesmo 
gcnero de auctorcs cxtraugciros, ainda mais 
vctcranos, ficamos em que nao se achara 
dcsvantagcm da nossa parte, quer na cxacti- 
dao da doutrina, qucr na pureza da plirasc 
e clareza da cxposicao. 
Sobrcsacni c ennobreccm a colleccao dos 



livros clcmentarcs doiscompcndios demecba- 
nica, pbysica e cbymica, composlos pelo sr. J. 
J. Fcrreira La pa, offerecidos cm eoncurso ao 
descmpcnho de programmas dados pclo con- 
selbo superior, cpremiados. Destinados para o 
cnsino da inslruccao primaria, com lal csme- 
ro e I'elicidade os compoz o scu A., que sem 
favor ])odcm servir tambcm ao cnsino na 
instruccao secundaria. Ornados de bellissi- 
mas estampas desenbadas com perfcicao, faci- 
litam sobremodo o estudo, c tornam cxlrcma- 
mcnte proveiloso o cnsino, lixaudo as idea.s 
claras que imprimem no espirito dos alumnos. 
Consta-nos que o mesmo auctor se propo- 
zera ao preraio offerecido em programma de 
um compendio dc agricullura com applicacao d 
instruccao primaria; e muito cstimamos ouvir 
que a obra offerccida cxccde ainda as outras 
ja prcmiadas, podendo bavcr-sc como um pri- 
mor em escriptos de tal natureza. INao so na 
agricultura propriamcntc dicta apresenta todas 
as nocoes indispensaveis a par da scicncia; 
mas descrevc, desenba, e ensina o uso de 
todos OS inslrumentos c maquinas, (jue boje 
cnriqucccm a scicncia, aperfeicoam e nielho- 
ram as jiracticas agricolas, economisando mui- 
to da mao de obra: e para cabal descmpenbo, 
liga essas doutrinas com as de scicncias au- 
xiliarcs e connexas; tractando a geologia, a 
bolanica, a agrimensura, a veterinaria, e a 
economia rural com tal precisao, mctbodo o 
clareza, que nao sera facil apontar Manual 
que no scu gcnero o cgiiale. 

sr. Lai)a, abrindo o exemplo entrc nos 
a cscrijitos tao importantcs, e summamcute 
neccssarios, como sao os manuacs de scien- 
cias industriaes, glorilica-se prestando ao scu 
paiz um scrvico, que merecc ser galardoado. 
Sinceros votos fazcmos porque acbe imitado- 
res, certos de que nos nao falta o genio, nem 
amor da patria ; mas falta a resolucao, para 
veneer alguma timidez e a forca da inercia 
devida ao pernicioso liabito dc uacionalisar o 

J. 



C'oliecrao de lavr®.* cSemcBiJarei* 

Que o consellio superior d'lnstruc^no publlca do reiiio 
aucioriza inUrlnamcnte para uso das escholas pri- 
mariaSj pultlicas e parlicvlares ; e bem assitn para 
nso das escholas de ensino secundaria, e superior. 

iNSTR'ccc.Ko rniM.vniA. 



Oalnchismo de Doutrina Ctirista e civilidatle, para 
in8truc(;.at>, e |iara exi;rcicio de leilura — ('atecili^lnl^ 
de Doutrina Chrisla, adiiptado pelo arcet)i?po de Brai'a — 
Resiimu do mesmo Calechismo — Thesoiivo da mocidade 
portii;,'ueza, por IS. J. Koqiiete — Historia de ^^iai.lo de 
Naiitua — Comj>endio de Historia do antijio e novo Testa- 
mento, tradiizido por Antonio Soare.s — Li(;oes de boa 
moral, de virlude e urbanidaile, Iraduzidas em porluyiiex 
por I'rancisco Freire de C'arvallio — Elenlento^ ileriiili- 



184 



Jade c da decencia, por Mr. Prevoste, tradiizidos na 
liiigua iK)rlii:.Mieza — A Biblia da Itifaucia, tradiizida pi-lo 
Pudn- Ariluiiio dc Castro — Mcdlta^Cics reli^iosns, por 
J. J. Rodriirues de Bast. is — Arti> de apprender a Icr 
letra manuscripta, por Diiarte Ventura — Kegras mctliO' 
dicas jiara apprender a escrever, sejjuidas de um trijclado 
de Arithraetica, p<)r Ventura da Silva — Metbi»do facil- 
liuio para apprender tanto a letra redonda, conin a 
manuscripta, por E. A. Montcverde— Thesnnni juvenil, 
por Midosi — Expositor Portuguei, por o dicto — t'unipen- 
dio de Ilistoria Portugueza, por o dido — Elementos de 
Geographia, pelo Dr. B. J. da Siha Carneiro — O 
Amigo dos IMeniiios, traduzido por uma st-nhora — 
Itenerario da India, pi>r Fr. Gaspar de S. Bernardino 

— Livraria Classica Portugueza, torn. 11." ate IB.'' — 
Selecta (.'lassica Portugueza, por A. C. Borges de 
Figueiredo (l.'^ parte) — Tractado de Agriinensura, por 
Estevam Cabral — Manual Encyclopedico, por E. A. 
Munteverde — Tabellas Geraes para o juro e desconto 
de qualquer quantia, por J. J. da Costa e Silva — 
O Bora Menino, traduzido do italiano, por Luiz 
Francisco Ki.sso — Taliellas de Geographia, por Dr. 
Adriao Pereira Forjaz de Sampaio — >iova Taboada 
e Arithraetica da Infancia, por o dicto — Catechismo 
de Doutrina Chrisla da Dioeese de Coimbra, por o 
dicto — Synopse, ou Indice Chrouologico e Alphabetico 
da Legislat;ao rcbitiva ;i Instruc^^iio Primaria — ■ No^oes 
rudimentaes, por Antonio Feliciano de Castillio — Melho- 
do deleitura repentina, por o dicto — ^Novo Abecedario 
e nova Taboada exacta e curiosa, por J. S. Bandeira — 
Nova Taboada exacta e curiosa {%r^ edi^ao), por o 
dicto — Corapendio de Arittimelica para uso das escliolas 
de instruc<;ao primaria, por Joaquim Maria Baptista 

— Tractado dos principios de Arithmetica segundo o 
raelhodo de Pestalozzi para uso dos professores e alumnos 
das escholas de instruc^ao primaria, por J. 11. Paz — 
Novo Mcthodo para apprender a ler, por o dicto — 
Compendio de Moral, por M. A. F. Tavares — Codigo 
da Civilidade de J. A. Dias — Rudimento da Leitura 
Portuffueza, por M. J. Pires — No^oes primordiaes de 
Moral, por J. J. da S. P. Caldas — O. Amigo dos 
Meninos, traduzido pelo Dr. M. A. C. da Rocha — Cate- 
chismo de Moral, por iM. A. T. Tavares — Compendio 
de Chorographia, por J. L. Carreira de Mello — Com- 
pendio de civilidade religiosa e moral, e de Doutrina 
Christa Dogniatica e Moral, por o dicto — Summula de 
preceitos hygienicos, por F. A. Rodrigues de (Jusmao — 
O bora ]\Ienino, por Estevam Xavier da Cunha — 
Grammatica Portugueza, por F. Andrade Junior — Novo 
(■ompemlio de Historia de Portugal, por A. F. Moreira 
de Sa — O Camoes e Cosmos, por J. S. Ribeiro — 
Compendio de Mechanica, e Compendio de Physica e 
Cln mica (premiados em concurso) por J. J. Ferreira 
Lapa — Peepiena Chrestoniatia Portugueza, por A, M. 
Pereira — Compendio de Grammatica Portugueza, exposta 
era verso, por M. J. Pires. 



ESCnOLAS NORMAES. 

Principios de Grammatica Portugueza, por Andrade 
.Ivinior — Methodo facil e racional |iara ensinar a ler 
vi meninos, por Julio Caldas Aulete — Primeiro livro 
da Infancia, pur F. J. Caldas Aulete — Grammatica 
Portugueza, por Carlos Auguslo Vieira. 



ISSTRCCCAO SECUNDARIA. 



Compendio de Arithmetica, pelo Dr. Rufino Gnerra 
Osorio — Primeiras no^oes de Algebra, i>elo Dr. Jaconle 
Luiz Sarmento — Historia de Portugal, ate Elrei D. 
Duarte, por J. Felix Pereira — Li^ues d'AIgebra ele- 
montar, por JoHo Ferreira de Campos — Tractado de 
A ersifica^ao, por Antonio Feliciano de CastilUo — Gram- 
matica da Lingua Inirleza, por D. Jose Urculu — 
Bosquejo historico da Litleratura Classica, por A. C. 
B. de Figueiredo — Inslitui^Oes de Rhetorica, por o 



dicto — Logares Selectos dos Classicos PortMpuezp5f, por 
o dicto — Historia antiga e raoderna, pelo Dr. J. A. 
<le S. Doria — Elementos de moral e principios de 
direito natural, pelo Dr. B. J. da S. Carneiro — 
Curso Grammatical da.s linguas Lalina e Portugueza, 
I'.Hnposto pelo professor Joao Teixeira de Vasconcellos — 
Curso de philusophia elementar — Logica — Metaphysica 
— Ethica — Hi.''toriadaPhiIosopha,pur D. Jaime Balmes, 
presbylero — Nova Grammatica Portugueza c Inglezn, 
e Portugueza, por L. F. Midusi. 

IN'STRUCCVO SUPERIOR. 



Litjiies de Philosophia Chymica, pelo Dr J. A. 
Sim5es de Car\ alho — Taboas de Lua reduzidas lias 
de Mr. Burckhardt ao meridiano do observatorio da 
Universidade de Coimbra para facilitar o trabalho das 
Ephemerides Astrononiicas, pelo Dr. F. M. Barreto 
Feio. — Compendio de Veterinaria ou Medicina de 
Animaes Domesticos, pelo Dr. J. F. de Macedo Pinto 
— Index Plantarum, pelo Dr. A. J. R. Vidal. 

Coimbra, e Sccretaria iU> sobredicto Conselho Superiur , 
l.^de Septembro de H\o4. , 

O Secretario Geral do Conselho, | 

Joise Antonio (C Amnriin. ^ 



PDYSICA. 

Da electricidade que se proditz na evaporardo 
da (ujua saUjada. 

As expcripnrias de Gaiigain lovaram-no a 
um resiillaclo a que por experiencias mui sc- 
melhantes havia chcgado Heicli, de FreyluTg, 
a saber, que a electricidade desiiivoli ida pela 
evaporaeao da agua salgada, e o elTeito do 
atlrito dos globulos da agua iirojeclados con- 
tra as paredes do cadinho. Estas experiencias 
foram publieadas n'uuia pequcna mcmoria 
apresenlada a Sociedade das Sciencias do 
Leipzig no anno de IH^C. 

Em Berlin foi por Hiess verificado o mesnio 
rosuhado, como se \i da nota inserida nos 
Annaes de Piiysica de PoggendorlT, tomo 
LXIX, pag. 101, 



M. de Paravey dirigiu a Acadcmia ilas 
Seiencias de Franca uma nota, em que tracla 
de provar que, segundo asmedidas dos tijolos 
quadrados de Baliylonia, dos antigos padroes 
e do pe actual da Cbina, o pe de rei I'rancez, 
e niuitas d'eslas mesmas medidas em uso na 
Allcmanha, teem sido, como na Ciiina, im- 
porladas da antiga Chal<!ea e do Indo-Persa. 

D'aqui prclcnde deduzir uma so origem de 
civilisacao depois do ullimo diluvio. 



MaEsillon e o Racine do pnlpilo. 

Ll UAUPK. 



Os jiirainciitoh assinielliam-se ao papel- 
tnoeda, qui; inulliplicando-se perdc do scu 

valor. ♦ » • 



185 
SECglo DE BIATHEMATICA. 

APONTAMENTOS DE TRIGONOMETRIA SPHERICA. 

Conlinuado de pag. 133. 

11. Qiiando no triangulo ABC sao dados os lados 6' e c' com o angulo c opposto a 
urn d'elles, a formula 



C 




b: 



B' B C *>' 

spn 6' 

sen =: sen c. ■ 

sen c' 

nioslra que, em geral, se podem formardois Iriangulos CABeCAB', nos quaes os angiilos 
Ji s B' sfio supplementos uni do oiitro , e que salisfazeni aos dados; mas ha casos em que 
desapparece a incerleza. 

1.° S*-ja c<90% 6'<90°. Se f6r c' < 6' , os dois triangulos BAC, B' A C , terfio os 
mesmos dados b' , c' , c, e salisfarao ainljos a qiiestao. Se for c' >b' , o ponlo B caira em 
B^ a direila de C; e as partes do triangulo A B C, correspondentes as dadas, serao 6', c', 
180° — c: por consegiiinle so otriangvilo A B' C satisfara a questfio. Em fim, se f6rc'=:6', 
a poiito B cniiicidira com C, e o triangulo procnrado sera so A B' C. Por lanto o caso de 
c < 90° e 6' < 90* somenle sera duvidoso , qnando for c' < b'. 

2.° S<jac<90°, 6'>90". O triangulo ACB, no qnal e ^ C = 180° — &', esta no 
caso precedenle. Ecomo ACB sera indetenninado ou delerminado, conforme o for A C' B , 
segue-sc que o caso de c< 90° e 6' > 90° somenle sera, duvidoso, quando for c'< 180° — b', ou 
<;' + 6'< 180°. 

3° Seja c — ACB/>90\ O triangulo ACB', no qnal e ^CB'=180° — c, 
^B'=180° — c', esta no primeiro caso, quando e i'<90°; e no segundo caso, quando e 
6'>90°. Ecomo o proposto ACB/ sera delerminado ou indeterminado , segundo o for 
ACB', segue-se que o ca;0 de c > 90° sera duvidoso, quando se derem as circumstancias 
seguinles: 

b'<90°;eAB'<b',oabi+c'>\ 30° 

b'>00°; e AB' + i'< 180°, ou t'<c' 

12. Por tanlo liavera duas solugoes, quando liverem logar as condisoes seguinles: 

•6'<90°, c'<b' 



r6'<90°, c'<b' ") 

c<90°,e^ I 

[_b'>90°, 6' + c'<180°3 



c>90°, e 



6'<90°, 6'+c'>180° 
?/'>90°, c'>6' 



13. Quando sao dados dois angulos bee com o iado c' opposto a um d'elles, tambem 
satisfazem em geral os dois Iriangulos CA B, C' A B' ; mas, se applicarmos os cliaracteres do 
qnadro precedenle ao triangulo supplemenlar , em que entram os lados 180° — 6el80" — c 
com o angulo 180° — c', acliaremos <i|ime»mo quadro, mudados respcctivamenle c, b' , c', 
em c' , b , c. " 

14. Quando nao se dcr algum d'esles casos duvldosos, as condisoes de serem os lados 
menores que 180°, de se oppur a um Iado maior uin angulo maior, e de ser a senii?orn- 
ina de dois angulos da mesina espccie que a semisomma dos lados oppostos ' , raostrarao 

' Como EC ri pela expressao de „ (a + r), que da a primeira aaalogia de Neper. 



18G 

sempre qual dos dois angulos,, correspoadeiites a scu6, se deve loiuar, sc c a<;udo , sc o 
obtuso '. Assim : 



[6'<90°, c'>fni=&' 
|i'>90°, t' + c'>ou: 
:t'<90°, 6' + c'<ou = 180° 



.c<90', e 
rt I (b'>90', t' + c' > ou = 180° 



6 agudo 
^ j6 obtuso 



S J6 a;3;iido] 
Fc>90*,e^ H; 

'6'>90°, c'<ou = 6' V fcobliiso^ 



.11 



E com etTeito e facil ver, que nos casos de duvida indicados pode haver uirt'angulo 
agudo e outro obtuso, que saliafajain dqiiellas condijocs; e que nos outros casos so uiii 
dos angulos salisfaz a lodas ellas. 

15. Seja o triangulo ABC 




Produzamos os seus lados, ale se encontrarem dols a dois, e formarcm os tres fuso* 
sphericos A J', B B', CO. Ocirculo A CA'C'.J sera abase da semi-spliera A C B A' C; 
e esta semi-spliera compor-se-lia dos triangulos m , n, p, q. 

Charaando pois .S^=2 itr^ a superficie da secni-sphera, e observando que, por serem 

AB- = l&Q° — AB = A'B, C B' ^IQ0°—C D=^ BO , B=^B', 

s'lo eguaes os triaugulos ^1 B'C, A' BO, teremos 

S= m -f n + p + (? = (H + " + /'( + p + wi + 5 — 2 m 
zziAA'+BB'+CO — am. 
E COD70 OS fusos sphericos sao proporcionaes aos seus angulos, islo e, 

^^'-Tk--^''BB'^^,.S,CO = ^..S, 
AA'+BB'+CO= -+g +-. S, 



teremos 

c consegiiinteraeiile 



a-t-b-f c— 180° 
3GU° 



. S. 



Se quizermos lomar pnr unidade dc superficie aaiijaerficie do triangulo Irirectangulo, que 
e a quarla parte da semi-sphera, e por unidade d'angulo o angulo recto, a expressao de m 

loinara a forma 

jn = a 4- 6 -f c — 2. 

< O mesmo sn moslra, c acha-se o raesmo quadro, fazendo as con!truc<;3es de que se nsou no n.° II, e appli- 
caml.) as condiroes de serem os lados mcnorcs que 180°, e de ec oppor a um lado maior um anjulu inaK.r. 



187 

16. A superficie do trianjjulo v^m assim expressa nos sens tres an^ulost mas qiiando 
OS angulos nao forem dados, poderemos exprirnil-03 nas partes que forem dadas, e substituir 
depois essas expressoes na da superficie, 011 d'uma funcjao trigonomelrica d'ella. 

Per exemplo, se forem dados os lados a' e c' com oangulo comprehendido 6: tomando 
o triangulo trireclangulo por unidade de superficie, e o angulo recto por unidade d'angulo, 
tereraos 



colgm) = _tang(:i+^ + |) 



ad-c b 

tang— ^ + tang - 

a + c 6 "' 

'anff-g— tang- — I 

a' c' 
ou , em virtude da primeira analogia de Neper , e fazendo tang — tang— =^, 



cot 



(H- 



b a' — c' b a' + c' 

cot - cos _^_ + tang- cos -^ 

a' — c' a' 4- c' 

o' c' a' cW b b\ 

cos^cos^+ssn-sen-(^cos'-_sen>-j 

I 7' 7' 6 6 

1 + tang — tan"- -cos o 
_ ^ '^•i "2 _ l + t coi b 

a' d . t sen 6 

tang — tang -sen 6 

Desinvolvendo em fim ^mtxa serie crdenada segundo as potencias de t, sera 

— TO = < sen 6 -t sen 2 6 , 

3 2 



oLi , se desprczarmos as quantidades da quarla ordem relativamente a a' e c', 

m-=^-a d sen 6. 
2 

E porque e' dasegunda ordem adifferen^a entreos senos do angulo 6 dotriangulo spherico 
e do angulo correspondente dotriangulo lectilineo, que tern os mesinos lados que o spherico, 
ve-se que, desprezando os termos da quarta ordem, a superficie do triangulo spherico eegual 
a do rectiiineo. 

17. Chainando r o raio dasphera, e exprimindo as linhas trigonometricas do segundo 
membro da equojao (1) nos compritnentos dos arcoa respeclivos, facilmente se mostra 
(Trigon. de Legend re , appendice §. V) que os angulos a, 6, c, d'um triangulo spherico de 
lados inuito pequenos teem, desprezando os termos da quarta ordem, com os correspondentes 
0|, 6|, c , do triangulo rectiiineo, cujos lados sao tambem, a', 6', c', as seguinles rela^oes 

Im , ,1ot ]to 

''='''+3r'senl"' ' + 3r'senl"' ''—'''+ 3 r' sen 1" 

sendo m a superficie do triangulo rectiiineo, que segundo o numero precedente e egual li do 
spherico. 

O que reduz a resolujao do triangulo spherico proposto a do triangulo rectiiineo, cujos 
lados s.io a', 6', c', e cujos a^-'^iilos sao a^, 6y, c^. 

O numero de segundos e o exccsso spherico, que se reparte assim egualmenle 

r' sen i ' 
pelot tres angulos do triangulo. 



188 

18. Suppondo o raio da spbera iiifinilo, e os comprimentos dos arcos nnitris, on as 
suas gradua<j6es infinitesimas . o triangulo splierico toriia-se rectilineo ; e por isso podemos, 
fazendo aquellas hypotheses, passar dos theoremas da Irigonometria splierica para os cor- 
respondentes da Irigonometria rectiiinea 

Qiiando nos theoremas da trigonoiiiclria -pherica entra mais d'lim lado: passando d'el- 
les para os triaugiilos roctilineos, podem ap|.iiiecer razoes entre as gradiia^oes dos lados; e 
porque estas razoes podem ter iim liiiiite de graiideza finita, quando se tornam infinitesimas 
as gradiiajoes entre as quaes ellas teem iogar, pode apparecer urn tlioorema correspondente 
da trigonometria rectiiinea no qual entrem lados. Mas quando nos theoremas da Irigo- 
nometria spherica entra so um lado, a hypothese de ser este inCniite^imo iiecessariamente o 
faz desapparecer : e o theorema reduz-se para a trigonometria rectiiinea a nma rela^fio 
entre angulos. 

19. Appliquemos as hypotheses indicadas aos principaes theoremas da trigonometria 
spherica. N ellas: 

, — 2sen'-a'+2sen'-6'+2sen"-c'_4sen'^6'sen'-c' 
cos a'— cos 6' cose' 2 ^ 2 ^ 2 2 2 

1. cosa= r-i ; Ti ; "" 

sen senc' sen 6 sen c' 



cos a: 



2t'c' 



nf 



sen a sen a' , , sen a a' 
2 ° =: da =: ri- 

sen b sen 6' sen b 6' 

cos a 4- cos b cos c , , . cos a + ens h cos c 

3.' C03a'= ^ dii 1 = ^4 J 

sen 6 sen c sen o sen c 

ou cos a=: — cos (6 -|- c) ? ou a -\-b -\-cz=180°. 

c' 
4.° cose' cos = senc' cot 6' — sen a cot 6 da cos a =77 — sen a col 6, 

c' 

ou sen (o-j- 6)=r7jsen 6 = sen c. 

5.° A priineira analogia de Neper dii tang ^ (a -j- c) ^= col - 6 , 

islo e, - (a + c) = 90° — lb, ou a + b + c = l80'. 

6." A segunda da o Iheorcnia da trigonometria rectiiinea 

1 d—c' K 

Ung-(a-c) = -;-p-;C0l-5; 

7." A terceira e a quarla dao 



por conseguinte 



t. . cos-(a — c) sen--(a — c) 
aJifC' 2 "' — c' 2^ 

cos-(a + c) sen-(a + c) 

cos-fa— c) sen-(a — c) _ , 

2 a' 2 ^ ' , 2 ^ ' 2 sen (1 a' sen a 



b- 1 , 1 , , sen 1 u + c) b> sen 6 

cos^(a+c) sen-(a + c) 

2 c' 2 sen c c' sen c * 

^ 'b< ~"sen (" + c)' ° b'~ en 6* 

Por tanlo osquatro theoremas fundamentaes da Irigonometria spherica, e asquatro ana- 
lo^ias de Neper, correspondein aos qualro theoremas principaes da trigonometria rectiiinea. 

BODRICO BIBEIRO DE SOUSA PINTO. 



® Jn0titut0, 



JOlllNAL SCIENTIFICO E LlTTEaARIO. 



REL.VTORIO 

Da imprenm da loiiversiJaile de Coimhrn no 
anno leclivo de lSIi3 a 185i, incluiudo as 
trabalhos de refurma e melhorameulo pro- 
movidos pela comtnissiio creiido pnr porta- 
ria do goseriw, dc 1 de nuecmbro de 1853. 

A commissao <le reforma e mclhoramcnto 
da imprcnsa da univcrsidade, tcndo sido cn- 
carrcgada pelo prclado de concorrcr par.i o 
rclatorio geral da univcrsidade de Coimbra 
com especial relalivo a imprcnsa da mesma 
univcrsidade, vem satisfazer a esta obrigacao, 
de que nao Ihe permittia cscuzar-se nem a 
elevada niissao e superiiitendencia, de que 
fdra incunil)ida quando mcreccu a rcgia no- 
meacao do govcrno de S. M., nem a dcdica- 
fao e assiduidadc com que se tern cmpregado 
110 descmpeniio de tao laboriosa incumbcncia. 

A commissao expora licl mas resumida- 
mentc o que tern fcito a cerca da rcorgaiiisa- 
jao da typograpbia da univcrsidade, e bem 
assim as providencias que para esse elTcito 
teem sidopropostas, ja forani approvadas pelo 
govcrno ue S. M., ou cstao scndo cnsaiadas 
provisoriamciite para sui)ircni depois a sanc- 
fao do govcrno; todavia nao pode a commis- 
sao abster^se, posto que o dcsejjjra, de rcpe- 
lir aqui, coino tern I'cilo nas consultas diri- 
gidas ii prcsenca de S. JI. por via do prclado 
da univcrsidade, o ruinoso estado c quasi 
complcta decadcncia em (]ueencontrou, quan- 
do comecou a funccionar logo depois da sua 
installarao cm 14 dc novcn)bro dcl8o3, uni 
dos priucipacs cstabclccimejUos universita- 
rios, digi)0 por ccrto da maior soliicitude e 
consideracao, ja como auxiliar podcroso e 
indispejisavel das scicucias e das artos, ja pelo 
grande valor que esta contido nos sous arma- 
zens, ou 6 diariamcijtc produzido uas suas 
oQicinas. 

Em consulta dirigida ao govcrno dc S- M. 
com data dc "2i dc dczcnil)ro, foram apre- 
sentados osprimciros trabalbos a que a com- 
missao procedeu. inventario de todas as 
obras que se encontravam nos armazens da 
imprcnsa, e bera assim o dos priilos, typos 
e moveis das oHicinas, que a conferencia 
que govcrna a imprcnsa da univcrsidade na 
Vol. III. MovEMBiio 1.° 



parte technica e litteraria, devia ter orden.!- 
do na conformidadc do artigo 11.° do regi- 
mento de 9 dc Janeiro de 1790, mercceu a 
commissao o primeiro cuidado; porque, tendo 
requisilado a conferencia da imprcnsa os 
ai\tigos iuventarios, que nao deixariam de se 
ter feilo, a rcsposta official, que a principio 
obtevc, foi que ncnbum inventario existia, 
e so passado algum tempo soubc da existen- 
cia d'um, apenas principiado em 3 de dezem- 
bro de 1849, e interrorapido desde 27 de 
maio de 1830. Teve portanto a commissao dc 
ordenar todo cste trabalbo de novo. 

armazera principal estava na peor dispo- 
sicao possivel, tanto para a classificacao como 
para a conservacao das obras que alii se re- 
colhiam, as quaes jaziam estendidas ao longo 
do pavimcnto da casa, sera estantes, nem 
rcsgnardo algum. 

outro armazcm, onde estavam cm dcpo- 
silo anligas edicoes, feitas por conta da im- 
prcnsa, de varies classicos portuguezes e la- 
linos, e d'outras obras, era tao humido, por 
scr um claustro quasi sublerraneo, que n'elle 
foram cncontradas completamente podres c 
perdidas muitas obras, algumas das quaes 
aiuda hoje s.to niuito cstimadas, e cuja venda 
se tcria podido promover fazendo-lhes um 
al)atinicnto rasoavel nos prceos. 

A ofTicina onde estavam os prelos, servia 
ao mcsmo tempo dc casa para os composito- 
rcs; sendo, alem de escura, lao apertada, que 
OS officiacs se embarafavam uns aos outros. 
Os cnvalctes e as caixas dos typos, postas umas 
sobre outras, mal cabiam n'um corrcdor tao 
estreito, resultando d'ahi grande impcrfeicao 
e difficuldade nos trabalhos typographicos. 

A maquina lythographica, que ha annos se 
compriira, e que era indispcnsavel n'um esta- 
belecimcnto d'esla ordcm, estava ainda en- 
caixotada, por nSo haver onde collocal-a. 

Entrc OS graves abuses que o tempo havia 
introduzido, devem principalmente citar-se as 
aposentadorias que dentro do cdificio da im- 
prcnsa tinham divcrsos emprcgados, quando 
era nccessario alargar-se a officina typogra- 
phica; o grande numero de propinas distri- 
buidas d'um modo inconveniente e illegal; e 
esta rem em poder d'um so dos tres clavicu- 
larios, n'esse tempo administrador da impren- 
sa, todas as chaves dos armazens, c do cofre, 
—1854. NcM. 15. 



•i -i 



-^ 



^1 51 ;?• ;1 ^ 
sem inventarios, s'cra S* compeieihtcS' fiftnfris,' 
permittiudo-se-ihe que elToiiuassc so por si a 
venda de lodas as obras alii impressas, e nao 
se obstando a que do doposito das antigas sc 
vendcsse a p^so;, ■^Fmscllflcjaoalauma.^ graa'l" 
poroaodepapcl, caquetao^i'co'deposrio tives- 
se side, coino parccia, niuilo dcfraudado. 

A falla de fiscalisacao e de zelo na admi- 
nislra^'ao da imprcnsa ostontava-scrguTiimente 
nao so no proprio ediiicio, pela ruina dos 
teliiados, caixilhos das janellas, etc., mas 
alii ;iuis ..casas.pcrtcncctttes a cste cstaheleci- 
_racBlo, algainias diss quaes estavam inhabi-| 
,taveis.!, , ' ". -,'-', ,,, ' '., ,' ,' ' . ' ',' ;■ 
', Na adnunis'tracao da jjnpreiis^i niicjiodia; 
^prepciji^dJr-ger da iuais' regular ■ecstrujiuiosa 
escriplui;aet)0,,. re-sullaiido de nao sc tcremj 
-f*;it6,,pp|-' ■muito tqiiipo, Os asse.ntps iK^cessarrbs ^ 
ii ',imipo|sD)iJi.cla,J(j do verijicar.'as verbas d'e, 
.ricei'taj pTOVcni^entes'4apol)ras vcrididas a df-j 
.ycr^fts VjVjFeiros, eaj'as'. r.equisieoes Orit^iiiae's > 
..aih|ia Ija poycoitcnj.po nao jbraiivajyrcsintada^', ] 
)iiias *apenas,unia,copja,' para do'cujuentar a'si 
vendas eT/eituadiis. ' ' ' ;. ' ' .'■. ' 
. -,.,Ii'iiialnvciitc pextran'io e estrago d(i grapde; 
,piir^ao-de typo ai^tigp,' ciiao se haver realizado i 
.3,r§ni}ira de fiovp, fazia coniqiie se alrazassci 
niui|b,a c.omppsifa,6 typograplii'ca, e'se recu-^ 
?^^eiu ,olca^ 'que bs sous, auqtpr'es prcten-^ 
dlam alli'iiiiprrmir, sericlo que por isso per- 
diata ,casi) inuitos- lucrps, e;nao nienos o's; 
. t'<^njP|Ositdres.c jiuprcssores,, qiie-por faita dej 
, lyijP nSo.pdtliam muitas ycz^s trabaihar. 
.'^ .P9F_ieste| rapj'dp.' eslipjo s'era'.facil conipre- 
h(?n.fler,'.^qijp .a'f.aii^nijssap ,|C'arecia; ile' fazer; 
, rii.iiijas refpj:jOi^,.na' imprcnsa da un i versida-' 
.^de../liiiHo ,i).?,'pjrte''adpiriistraliya como ria 
:Bipel)a,jii|ca,; e t^ue'as .prpvidencias prdpostas: 
;.a5> §oycrnO|.(Ie,S,'M, par^ 'se .alcanjarcrn dsi 
■nudribramc"ntp|,de',qup,fosse.,'susc(?pliyd liao' 
Docliam.deixar.d^e a-branger 6 pessoaldk 
'j(up.reij.sa. '■ ' '" , ' ■ ■ ' ' ' " j 

-;. I. l^or'ar'ii do 'miniiterip d,6s' ric^ocios do; 

jfejrtb.'de }0;dy'maifp dVcprricnie aiino ' , ap- 
.proyaiidp as';med,idas' dc' re'forma. , lir'oposfasj 

peliv .comr(iiss,ao,. primeiro 'resultai}6"de 'seus 
', tislbrc OS, . vei'u'^.aucforizar a, meslna c'omm'iss'aoi 

Pi""? iP^fOsoguir com , maiS| eiicrgia 'e, prorapli- 
, ,dSo jiips tpabflltios ; de 'que eslava cncarrega-' 
;;'|a,.'pP,Jende petp art. 18.;° da ci'iada, pbr'taria! 
_|lomiir,' d'accbrdo'' ^o^ii o prelaldp, \ts' provii- 

'dencjas^conomica's ,que nao' dependessem'de: 
1 jpsQliicap fe^ia, ,/Oem d'isto,,, cm (jonsc'qtien-i 
.!*!;> 'da dcmissap dadii. 'nor dccrcto de S doi 



18.0. 



.'■**•• "», 



J''^f'0'P«?,dc marco a ,J[Qiib..'FranGisc'p da iCruz,! 
- . !l^^^/,,:!^'^ a(liiiiiii,iirajQr; da imp'ren.s.a';(la; 
_,t^hiyer,sid'adb,,lm',uonie;itlp uiteripainp^^^^^ 
-ii?'.';i''v'"!!s''*5Vi° <^''RW^ft9'" 'da'iniprepsa na-! , 
., f^'iyPi'^PlvniiJio ;Nic'oTau ,Ruy Ferliaficles; jo' '■ 
__ qyaljdcMii csclarccq- a' commissab'^obrc' asj ' 



■ uf^ll^^" ^"'^ ^^^<^^nii! ''^''' 



.uit- 



=^^v 



> 'C^.* 



'('ie'j'sc adopiit', tan to era rclarao d parte admi- 
nistrativa, como a rospeilo da parte technica. 
E com efleito os distinctos servifos prcstados 
por este enviircgado teem sido segnra abona- 
orM),.}^-,das sous QOuiiccinieu(os Icchnicos c 
de admlnistracao; ia da cseolha acortada que 
d'elle (izera o governo de S. M. para tao ira- 
portantc (im. 

-A fonimissao, convencida de que era d'ur- 
genle nccessidade a promjita c\ecui-ao da so- 
brcdita portaria, entcndeu que principalmen- 
te dos art. 4.° e 5.° d'ella (o 4-'' transferindo 
a aposcniadoi'ia do directPr, '6 o 5." fazcndo 
cessar a de todos os outros empreg;idos) dc- 
pendia uma boa parte das reformas»qup cram 
mai's essenciaes; I > . ■' ■, ■,;■,,': ! ■, , 
■ A cPmmlssabirepresentbu ao' pwkdo a,ur- 
-gcn-cia de ser .enearrcgado pr.pfessor- dc 
grego, Antonio -Ignacio Coeiho de Moiaes, de 
fazer recoliier os diccionarios e riiais livros 
que tinham .sjdo confiados ao fallecido profes- 
sor jubiladb, Jose Vicciitc Gomes deSloilra, 
para p acabainento ilo. dicclon'ario Grfto-la- 
linb; ebehi assim todos os'pijpcLs 'manufe'crr- 
ptps que periencessem ao mcsmo dici'ioB^rio, 
cuja imprespao estava mliito' iidiarjiada,' 'se'- 
nap qiiasi cbricluida, e qnc pcio merecimenlo 
d'pl)ra (ao prirapi-osa, e pelas miii dvullhdas 
despezas que a imprcnsa ja linha 'fcito para 
a sua piiblicacao, rpdamava que seempre- 
gassem Ipclos ps hicios e boas diligtrtcias para 
que riap'iicasse fnconipleth. E foi i-mn efreito 
cncarrcgadb aquclle professor nao so da coni- 
missao p'roposla^ nia.stambcm da cbnclhsa'o do 
diccion'ar.io Grcgo-bitlno, aoqual ainda'teiii 
dp ajulitar-se nbtaveis additamchtos;' parii 
ebrfespbhder'Ss melbores publicadoes riiCKier- 
has que ha n'estfc geribro. ' ' '•■ ' '■''- ' 

A cbniralssSo passoil logo a tomar tis sS- 
giiintes resol'uc'oes d'accbrdo cPni bprelado, 
as quaes fpram cpmmunicadas a cbnfci'encia 
da inip'rensa da iin'ivcrsidade: Qne assisfisse 
a's sessues da conferencia da mcsma iiiipreii- 
sa uhi dps nienibros da cnramissfioj auctori- 
'sadb. para pi'omover ludo o que julgasse' cbii- 
"\'ehiente a bcm das reformas que tihham de 
rcalizar-se' laiito'n'a pdfte econ'omica cofflo 
na lecbnica': Que fbsie jiost'o era cxecneab 'O 
rCgrtlahiehto provisbrip, feito para a cOntabi- 
lidiide, fiscalisiicao e escripturacSo da admi- 
'pistnicao, goral da impreiisa nacionaf, para 
kipprirTriterihanicntc as'omissOes; n'cssa par- 
te, 'dos rcgulaniehtPs 'da impi-^nsa da nuivet- 
si(fade: Qiie fbssc- transfcrido para dm cofte 
.especial na casa da extincla junta da fazenda 
da iiniVers'jdade , b 'dinhefro que entab *xislia 
ilb^ 'cdl'r'e' da imprens^; 'deixando-se n'cste 
'a4]'uiiii,t'ia sbmente nceessaria para o paga- 
fnbtfto 'da •fei'ia scnlanhr e d'outras mais deS- 
' j|lcz'a's"df'ffiyariaii,' para o que a dita 'quantra 
'■'liSo e'xiyde^iit'jSm'ai-s-a'trCTcntoi mil reis,- 'e 
"fcb'ii^etVh'ii'dd-se «(a ■iuefeirta 'sprt-e a's ch&ves 
'f'Mbby;b's',tf6freS''cmpoderHlps tres resnecii- 



|9| 



vos jclavicularios : Que o aloadpr lose da S.il- ! 
va Baudeira nao continuasso a.accynuttar as ; 
attribuicGes do ajudante do a(^iiiio4slra)3or, 
as quaes. interioameute pram comiiic^id.as a 
Mauricio Jose Dias, composilor da inipfensa 
nacional: Que ao fundidor de typos Jo'aquiiu 
Maria da Cruz, cessasse o salario djiarlo de 
2^0 reis, devendo pagar-se-lhq somenle 9 ser- 
vice de que fosse encarrcgadd, e pe!6 prcfo 
qiie se ajustasse. 

, Todas cstas resolucocs foram appr.ovadas 
ppla porta ria do ministerio dos ncgocibs do 
reino de 20 de maio. , ,. , - , f 

Tendo a execucao do ar^.',i:.° jda porfaria 

de 16 de marjo dado logara difficuldades 

inesperadas, que poralgiira tempo demoraram. 

OS trabalhos da coramissao,-lbj iiecessario di- 

rigir ao governo de S. M. cpiiSuIta com data 

de 10 d'aliril; e j^Jcj mesmo motiyo foi pre- 

seatftdcpois a conira[ssao um requerimento do 

qignO.par do reino director da imprensa da 

i|niyev,sidade, sobre cujo contexto se mandou 

ouvir a commissao, que respondeu cm 19 

do dito mcz d'abril que a cerca de seme- 

.lliante objecto se Ihe oirereccu. Por fim man- 

te-ve^se, como era de juslica, a disposicao do 

Jii^: ;4v da citada portaria em virtude d'oulra 

^.exjpedida em 13,de maio. Todavia, jior causa 

^"dos muitos reparos e concertos que foi mister 

j'-effeituar nas casas para, onde se .transferira 

.yXresidcncia do director, a lim de liie propor- 

!J;;^,^io9ar,o maior numero possivel de eommodi- 

,^; dadcs, e para que ficassem por uma vcz fei- 

" ' tas todas as obras nccessarias, ainda teve 

d'csperar-sc ate fim de juiho porquc fossem 

5j desoccupadas as casas onde 0. director tivcra 

^"l^'a sua appsentado.ria. ' : 

'-.^. .Pe.sde entao e que os trabalhos da com- 

"'■missao poderam recomecar com maior activi- 

^.';dade, e receber tpdo b* impulsb de qiie ca- 

-"'Wciam. . . . ■■■.■; 

A cofiimissao tinha man.dado ja fazer as 

, . estantes para armazcm principal, e collocar 
' '^n'ellas todas as obras que se encontravam 
.:.iii'*!^'^'''^"'^'''' '^""lo fica dito, ao longp do i)a- 
»x"'-^''"®°'°- R° ""'fo armazem mandou mudar 

^ ipara salas enxutas e vcnliladas as chronicas 
i},'?eDamiao de Goes, e deAndrada; e as obras 
^^;;de Duarte Nuncs. dc, Leao, de Rezende, de 
grt-'.^^^SyPO .Psoriq, e d'dutros classicos, para 

■"jeyitar a sua total ruina. E actuEiImentc tra- 
^'. eta dc promoyera V^nda de grande numero 
Bj,"'4'.«^emplarcs d'aqucllas obras, fazendo-lhes 
4!, ^^ aiatiiiienlo rasoavel nos.precbs. \ 
Oil '■ i'^^-'^P ** principio do mez d'agosto ultimo 
^, totoefaram todos ps trabalhos' i'ndispeiisaveis 
Mb ^^ "^^'^ conyehientes para a melli.or eollbcacab 
^^,,,0 outl-a ofG'cihii de composicao nas casas que' 
^•^'desocciipou b director da im[irensa. A casa 
^^ da impressao t6rnou-se indepehdente das casas 
Soj- - <^oniposicao typograpliica; fizeram-se novos 
Cos '^•^^'' ' '^"'^''* ^^ composicgo e mais uten- 

V sihos typographicos segunddos modelos man- 



.d?dos yir dc Lisboa ; cscoiheu-se um local 
'ai)ropriad'o jpaVa 'a maqiiitia lytH'ogfapWca , 
onde foi defi'riitivament'e collbcadaifja-r'fS '{ttider 
fuBccionar ; in'trbduzirain-se varitJS' aperfei- 
coamentos techrlicos. ■ ' ' ' i' ;■•■,'-•', ■ 
■ Tiinto no edificio da intprensa' como'' nas 
casas pertencentes a este estabelecimento 
iiiandar<Ym-sc fazer todos- as bbrdS e f^jaros 
Os mais indispensaveis. ' '•>■■- 1' 
' Tem-se feito em grande pdrte sortimento 
de typo novb, emblemas e vinhetas, e remet- 
tido enl troca avultada p0rc5o de typo in u- 
tilisado, ficando ainda a sulliciente' detypo 
velho para^ p'roseguirerii as • irfipressoes que 
estavam em andamento, ou para as iieimpres- 
soes d'algumas obras que sao propricdade da 
impi-ensa. Be gothicos e cursivds e\iste Ti'este 
estabelecimento tao rico e abundante sorti- 
mento, que pbde dispor-se de -raetade' por 
venda ou troca, que a commissao espera 
conseguir. 

■ Eram necessarias algUhias niac^iiiiias e uten- 
sili'bs piira a o(Iicfn\i de impressao; a saber, 
um prelo de ferro maior do que cOmmum, 
tintciros de ferro pafa'oS pr6los,' iinia prensa 
hydraulica, e um torculo d'estamparia, pcio 
que resolveu a commissao em 7 d'agosto 
encarregar administrador interino Olympio 
Nicolau Ruy Fcrnandes, de fr ao PortO e a 
Lisboa, devendo estar de volta ate ao 1." 
de setembro , a firn de comprar,- n'aqueltas 
cidades,' petos menbres prefos, os sobfedilos 
objectbs; e visto nao se ter offerecrdo pro- 
posta alguma para fornecimento, por meio 
d'arreniatacao, do papel necessario para a 
imprensa da universidade, tambera aucto- 
risbu o'^dilo administrador interino para ajus- 
tar papel das fabricas nationaes d'Alem- 
quer ou do Tojal, que for precise, ate a 
quantia d'um con to dermis, tendo em' vista 
as melborcs condicoes que se olTerecessem, e 
lirmahdo os necessaries contractos eescriptu- 
ras com todas as solemftidades legaefe. Esta 
incumbehcia foi perfeitamente deseiiipenhada 
pelo administrador interino, que nao sb.com- 
prbu pelos menbi^es precos no Porto e' em 
Lisboa aquellas maquinase wteusilios, mas 
tambcm concluiU com a fabrica d'Alemqtier 
mais vantajosocontraclo a cerca d* papel, 
consijilindo em que; a i'miirettsa podera ter 
sempre nbseu arnlazem ate valor dumconto 
de reis de papel, pel6s me.^mOs ' precoS' por 
que Hi'o' fojneciam OS eommissarios da fabri- 
ca, mas sem empate de capital, considetando- 
se papel como em depo'sito, psgandiS a im- 
prensa no fim de cada mez sbmcnta a irapor- 
tancia do consumido, e perofebendo ainda 5 
por cetito de comriiissao '.' 

' A respeito do papel cumpre notar que, no anno 
lectivo de 1853 a 1854, se gastou nas impressoes da casa 
7785800 feis'; c qne'pjJe dr(;aHse o coiripr'ado'pelos par- 
ticiilareS ])ara a impressao das' sua* obras "approxiina- 
damente em 1:200|1000 reis por anno. 



192 



Na auscncia do administrador intcrino foi 
cncarrcgado de fazor assuas vezcs, e dehaixo 
da sua responsahilidado para todos oselTcitos, 
ajudanle iiilcriiio Mauricio Jose Uias. 

As precedeiiles rcsoliicOcs forara todas ap- 



provadas pela porlaria do ministerio dos nc- 
gocios do rcino de 23 d'agosto. 

As despozas que sc tcm fcito na imprrnsa 
da uuivcrsidade no anno Icctivo dc 1853 a 
1834, sao as seguinlcs; 



Obras no cdificio da imprcnsa, incluiudo a pintura 

Ditas nas casas para ondc se Iransferiu a residcncia do director 

Dilas na casa denominada do lliesoureiro 

Ditas na dita da rua da lilia 

Caixas de coniposicao e niais utensilios typographicos 

Cavaiotes e pintura dos niesmos .• . 

Typo novo, '3:230 arrateis e 4 onjas' 1:307^09:$ 



1 



:013p95 
158^145 

37^875 
127^100 
12 2^9 00 

S7$4S5 



Emblemas e vinhetas 



17^220 



I'rimeira remcssa de typo velho 1:C02 arratcis 

e 4 oncas 

Segunda dita 1:783 arrateis' 



224^13 

249^020 



1:324^913 



473^933 



L'ra pr61o de ferro ' . 

Sete tinteiros de ferro a 24^000 cada urn 

Unia prcnsa liydrauliea 

Urn torculo d'estamparia 



859^978' 
158^000 
168^000 
510^000 
92^040 



Pela portaria de 23 d'agosto, ja cilada, foi 
tarabem conlirmada pelo governo de S. M. a 
proposta feita pelo vicc-reilor da universida- 
de para nomear interinaraente para exercer 
as funccoes de director da imprensa um dos 
vogaes da commissao, c na falta on impedi- 
mento d'alguni d'elles o administrador interino 
da raesma imprensa. Esta providencia tinha 
sido reclamada pela ausencia do director 
proprictario e subslituto durante o tempo das 
ferias. 

Ainda varias reformas sao necessarias para 
(lue este cstabelecimento typographico venha 
a prcstar os utcis sorvicos que pode cfTectiva- 
niente prestar cm beneficio das sciencias e 
das letras; porem muitas d'ellas convem que 
sejara experimentadas provisoriamente antes 
de serem submettidas a approvacao definitiva 
do governo. Assinique a respeito da revisao 
typographica a commissao coraccou por tomar 
cm 3 de junho algumas providencias mais 
urgentcs para que, a par ,das reformas na 
parte tecbnica, se effeiluassem tambem na 
parte litteraria, as quaes nao deviam merecer 
menor attencao para credito e proveito d'csla 
typographia. 

A commissao tem eontinuado depois a pres- 
tar mais serio cuidado a scmelhantc objeeto : 
pessoal da revisao havia sido quasi todo 
provido rccentemente pelo governo de S. M. 
era jovens de muitas csperancas, 6 verdade, 



' Ainda tem de vir 1 ;000 a 1 : jOO arrateia. 
^ Prepara-se outra remessa de 1:000 a 1:800 arrateis. 
' Ha de ser ainda necessario outro prelo lyt!;ogra- 
phico, que tmportara pouco mais ou meaos 120^000 reis. 



Reis 3:322^448 



mas que ainda nao podem considerar-se como 
revisorcs feitos, nem mesmo como philologos 
consummados: por outra parte, o servigo da 
revisao tinha augmentado consideravelmente, 
([ue muito havia concorrido para cresccrem 
cgualmentc as difficuldades a que a commissaa 
tern procurado dar remedio. Para este elTcito 
sc coordenou em 7 d'agosto um rcgulamenlo 
provisorio para o servico da revisao, o qual 
se mandou logo communicar a confcrencia da 
imprensa para ser interinaincnte execiitado. 

A commissao no orcamento da imprensa 
para o anno cconomico de 1853 a 1856, que 
dirigiu ao governo de S. M. em 4 de setcm- 
bro ultimo, introduziu tambem algumas altera- 
coos e propostas relativas ao pessoal da mesma 
imprensa; e quanto aos revisorcs, propondo a 
commissao augmento nos seus ordenados, en- 
tcndeu ao mesmo tempo que nao convinha que 
fossem distrahidos com qualquer outra oceu- 
pacao do servico publico, e qucporisso devia 
declarar-se hem expressamente — que nao po- 
deriam accumularcom ocmprego de revisorcs 
qualquer outro, nem scquer do magisterio. 

A commissao tcm tomado oulras muitas pro- 
videncias cconomicas e administrativas de 
rceonhccido interesse, ja relativas a loja da 
vcnda dos livros, ja sobre as attribuigoes do 
ficl da officina e d'outros cmpregados, j4 
linalmcnte cm relafao ao melhor arranjo da 
sala da conferencia, e organisayao da biblio- 
theca da imprensa, tendo sido auctorisada 
pelo prclado da uuivcrsidade para escolher do 
dcposito dos livros e pinturas dos conventos 
cxtinctos, tanto os livros que fossem neces- 
saries para a dita bibliolheca, como as pin- 



193 



turas que devcsscm oinar y ^ala da confc- 
rencia. 

Todas estas providencias e rcformas, e bem 
assim as inais (]iii' lorem siigf;eridas pela 
rxperioiicia c assiduas iii\u?li(2;at0c'.s da com- 
inissao, scrau consignadas opportuiianu'iito no 
rcgidamento geral t'lu que a cominissao esla 
tiabaliiando. 

A cominissao seria digna do ccnsura, se 
uestn logar doixasse de fazor honrosa menrao 
dos bons sorviros que Mauricio Jose Dias 
piestou a imju'cnsa da universidade, per 
cspaco de seis mezes ein que esteve cncar- 
regado da iiispecrao da eschola lypographica 
da mosma imprensa, e das attribuicOes deaju- 
dante do administrador, caigos que exerceu 
coin miiita inielligencia e dedicacao, ficando 
assignaladas provas d'isso tanlo na separacao, 
arranjo c syslemalica disposicao de typos, 
vinhetas, etc., como cm muitos oulros ol)je- 
ctos em que se requeriam conbecimcnios lecbni- 
cos: e outro sim por haver desempenhado com 
cgual zelo e com toda a regularidade as func- 
cocs de administrador, cujas vezcs fez, como 
ja so disse, na ansencia do actual quando 
csleve occupado no service imporlante que 
Ihe fdra incumbido pela cominissao. 

E porqiie nao basta somente que se facam 
refornias provcilosas, mas i lambem ncces- 
sario que ellas se (irmem solidamente e fru- 
ctiliquem, entende a commissao que muito 
convem para isso serem ainda por muito 
mais tempo aprovcitados os services utilis- 
simos, que ja tern prestado a imprensa da 
universidade o administrador intcrino Olympio 
Kicolau Ruy Fernandes, ale que os mclhora- 
menlos tecbnicos, administrativos e lilterarios 
d'este estabelecimento typngraphico tenbam 
chcgado ao grau de perleiciio e estabilidade, 
que a cominissao conliadamente espera obter, 
niuilo prineipaimente continnando a ser escla- 
fcciija e auxiliada por uni emprcgado tao in- 
tclligcnte como bencmerito. 

Coimbra, 28 d'outubro de 18ai. 



MOSTEIRO Dl YACCARICA.. 



Fundaiao do Mosteiro. 



Exisliu cm outros tempos urn famoso cou- 

' A Xoticia Historica do Mosteiro da Vaccari<;a, etc. , 
p>:lo sr. Dr. Miguel Ilibeiro de VascouceUus, que a 
ucaJemia real das sciencias acaba de piiblicar, levar- 
me-liia a relirar do prelo iima grande parte d'este nieu 
traballio. se nao me vira ojmproinetlijo i sua publi- 
ca^ao jiela promessa que fiz em 18j2, no Instituto de 
Coimbra n." 4, nota 1." ao meu artigo — Os Banhos de 
Ltiso. 

Cabe aqui um testemunho do meu reconhecimcDto u 
boa vontade com que o sr. Miguel Rlbeiro me patenleuu 
o.s doruraentos do archive da se de Coimbra. na quah- 
dade de carlorario d'este arcliivo. e do muito que Die 



vento, Mosteiro da Vaccarica ' ou Mosteiro 
Bubulence , na anliga viUa da Vaccarica, 
hoje pertenceule ao couceliio da Mcalhada, 
siluada perto deBussaco, meia k'gua ao poen- 
te, de LubO. 

E muito obscura a bistona da fundacito 
d'este mosteiro. A cpocha assignada por fr. 
Leao de S. Tbomaz, a mais geralmente segui- 
da, e muito conteslada por fr. Antonio da Pu- 
riiieacao. Esle chronista, attribuindo a Paulo 
Orosio a fundacao do Mosteiro de Lorvao no 
anno de Cbristo de 4o0, quer que o mesmo 
eremita, poucos annos depois, fundasse tam- 
bem Mosteiro da Vaccarica. Servc-Ihe de 
prova um catalogo dos conventos do S.'" 
Agostinho, no qual, depois de se fallar do 
Mosteiro de Lorvao, se menciona outro perto 
de Luso', euja fundacao tambem se atlribue 
a Paulo Orosio. 

Por outro lado, a Benciliclina Liisitana e os 
mais cbronistas aliirmam i|ue os dous mostei- 
ros foram fundados no seculo VI, pelos pri- 
nieiros mongesque S. Beulo mandara do Mon- 
te Cassino a llespanba, e antes da morle 
d'este Santo Patriarcba. 

Fr. Bernardo de Britlo encontrou no car- 

coadjuvoii em 1850 n'esle meu trabalho , que pouco 
depois tive de interrompor com outros de maior ur- 
gencia. 

Se n'aquelle tempo despertei a atten(;So do sr. Mi- 
guel Ribeiro para o Mosteiro da Vnccari(;a, dar-me- 
hei por bem j)ago das semanas que alii gastei so cum 
a lembran(;a de ter actuado como causa, se bem <iue 
remota, na publicaf^iio d'uma memoria, que a academia 
real das sciencias tantu apreciou. 

' Vaccarica deriva, segrindo geralmente se ere, de 

— A'accaria — por se terem dado a cria^ao do gado 
vaccum os antigos habitautes d'esta ^■ilhl, fa\'orecidos 
peljs bons p.'istos que poderia minislrar loda a \arzea 
do norte, fertilizada pela Ribeira de Luso; ou de — A'ac- 
ca-rica — porque fossem bem reputadas no mercado as 
vaccas alii cria<las, e ainda porcjue o talho do abaste- 
cidu Mosteiro Bubulense fosse muito acreditado uos 
arredores, dando sempre optima vacca ou varca-rica. 

-^ A denominaf^iio de Bubulense julga-se que proviera 
de se ter alatinado a mesma etyraologia — bubulus — . 
Alguas cbronistas o denominaram Mesteiro Bulmlense; 
mas nos documentos, que possuimos d'este mosteiro, 
do seculo X em diante, vem sempre designado por 

— Monasterium. Acislerium. Cenobium Vaccarize — 
como diz o sr. Miguel Ribeiro na sua Noticia Histo- 
rica do Mosteiro da Vaccarica ^. 13, 

^ In territorio Conimbricensi unum ad Lurbanuni . . . 
et aliud ad Lusum . . . ba-c etiani Orosio tribuimus. 
Chronica dos Eremitas de Sancto Agostinho por fr. An- 
tonio da Puriflca(;ao torn. I, li\ . 1. tit. 8. ^^. 4 e a. 
N'este ultimo ^. se le tambem o seguinte : t^ Aqui per- 
ti se\eramos (os Agostinhos na Vaccarica) ate a enlra- 
w da dos Sarracenos em Hespanha ; os quaes com bar- 
1. baro furor tirarao a \ida aos pobres Eremitas: e 
" assi ficoH o Mosteiro deseniparado ate que quitdo 
(I a Portugal chegou a Reformai^ao de Clune foy outra 
« vez habitado de Religiosos de S. Bento. *) Poderiam 
ter havido esles estragos, ou os Monges fossera Agosti- 
nhos ou de S. Bento; mas a circumstancia de s.- 
mencionarem n'esta chronica so por incidente, e de nao 
ter encontrado aos mais historiadores o menor indicio 
d'este facto, leva-me a julgar fabulo>a esla noticia, e a 
suppor que seria dada para unia e\plica!;.^o plau-ivel 
da pertendida transicao. da ordem de Sancto Agostinho 
para ordem de S. ijcnio . no .Mosteiro da ^ ii'-cariga. 



194 



toi io dc Lorvao, no fim d'uin livro manuscriplo 
iiuiito antigo, uma momoria, que diz tor sido 
t'lindado cste mostciro ainda cm vida de S. 
Bcnto'. George Cardoso ciUi um livro dos 
ol)itos do carlorio de Lorvao ondc se diz que 
Lucoiicio, depois Bispo deCoimhra, foi o pri- 
meiro al)l)ade de Lorvao'; c estc mcsmo Lu- 
«eni'io, que assignou o conciiio Bracharense 
em 563 ■", foi. segundo o mesmo auctor, um 
dos doze discipulos que S. Benlo mandou dc 
(lassino para cdilirarcm, cm Castclla a Yelha, 
convento de S. Pedro de Sardciilia era 537 ', 
donde saio para a Lusilania, e cdilicou o con- 
^cnto dc Lorvao \ 

anno d'estas fundaeocs \cm niais prcci- 
samcntc dcsignado para o Mosteiro da Vacca- 
riea, n'um livro memorial antigo, do carlorio 
do Moslciro de S. Pedro de Pedroso, citado 
por fr. Lcao de S. Thomaz, ondc sc diz que 
o .Mosteiro da Vaccarica foi edilicado no anno 
de 541 pouco mais ou menos, depois de fun- 
dado de Lorvao '. 

So com ostes dados nada se pode colhcr , 
<|uc satislaca, sobre a fundacao do Mosteiro 
Biibulensc. Tanto o catalogo dos conventos 
<ie Santo Agostinho como o livro dos obilos 
do cartorio de Lorvao, o livro manuscrijito 
do mcsmo cartorio, e o livro memorial de S. 
Pedro de Pedroso sao escriptos scm rcfercn- 
f ia a documcntos contcniporaneos, c sem data 
iiem auctores, que os auctoriscm. Mas, sc 
a pezar d'isso e permillida uma opiniao de 
probabilidade, sera talvez menos arriscada 
a dos que se inclinam a que o Mosteiro da 
Vaccarifa fora fundado no seculo VI, entre 
OS annos de 537, vinda dos Monges Bcncdi- 
rtinos a Ilespanha, e 543, morte de S. Bcn- 
to'; nao porque os outros escriptos tcniiam 

^ Domus nostra Lurbani constnicta fait viuele patre 
iiosiro Benedicto. Chronica de C'ister por Fr. Bernardo 
lie Brifto Part. ].» liv. 6, cap. 29. 

* Eadem die (10 d'abril — niio diz o anno — > obiit 
^ enerabilis Lucencius, primn.s quondam Abbas Lurbani, 
postea vero ad Episcopatura Colimbri^ensis ciuitatis jis- 
siimptiis, qui literis, et virtutibus clarus muHis inter- 
fuit coneiliis. A;j:iuli|;io Lusitano pelo Licenciado George 

.Cardoso torn. 2, Coniraentario ao 10 de .\bril 

•^ Catalogo dos Bispos do Porto por Do Kodrigo da 
Ciinha part. 1.', cap. 4. Fr. Antonio de Yejws torn. 1, 
cent. 1. George Cardoso, referindo-se a Lo,i7sa, quer 
que OS concilios Bracharenses a que a.ssistiu Lucencio, 
tivessem logar em 561 e 572, torn. 8, Comcnt. ao 10 
de Abril. 

** Este anno tambem o aponta fr. .\ntonio de YepeA 
torn. 1, Centuria 1." folh. 87. 

* Agiologia Lusitano torn. 2, Comment, ao 10 de 
Abril. 

' Benedictina Lusitana, torn. 1, trat. 8, part. 2, 
cap. 12. 

■ Ainda ha mutta divergencia nog AA. sobre as 
epochas do nascimento e morte de S. Bento, apeTar 
il'alguns se terem referido a factos relaliros aos reina- 
dos dos imperadores Anastacio Deoscoto e Justino, do 
rei de Leao D. AfTcmso Magno e de Totila rei dos 
(iodos. Fr. .\ntonio da Purificat^ito diz que este Sancto 
Patriarcha naseeo em 527, fundou a sua ordem em 
Ca'sino em 567, e que morreu em 5119. Tritencio, 
que nasceii em 480. cardeal Malheus Palmerio, 



mais auctoridadc do que o catalogo dos con- 
ventos de .Sancto Agostinho, mas por scrcm 
mais cm nnmero, c muilo mais acreditados 
pcia grande maioria dos nossos archcologos. 
No meiod'esla divergencia, os dons adver- 
sarios fr. Lcao de S. Thomaz e fr. Antonio da 
Purilicacao, fr. Bernardo de Brilto na sua 
Chronica de Cister, o licenciado George Car- 
doso no Agcologio Lusitano, o doutor fr. An- 
tonio Brandao na Monarchia Lusitana, fr. An- 
tonio de \cpcs, e os mais que pudenios con- 
sultar, todos concordam cm (|uc o .Mosteiro 
da Vaccarica fora fundado logo depois do dc 
LorviJo, que tiveram ambos o mcsmo I'unda- 
dor, e que foram na primitiva da mesma or- 
dem religiosa. Assentam esta ligacao dos dous 
niosteiros nos mesmos cscriplos, donde forani 
biiscar a sua fundacao; mas, como n'estc 
ponio nao ha divcrgencias, nao e muito que 
csta noticia, a pezar de muilo duvidosa, se 
conceda a quern sc conlcnlar com a cpocha, 
tao mal averiguada, da fundacao do Jlosteiro 
da Vaccarica. 

Cviilinua. \. \. da costa SIMOES. 



PHYSIOLOGIA APPLICADA. 

Transmissao dos sons por meio dos corpos soU- 
dos; e sua applicacao ao ensino dos meni- 
nos no estado de surdez incompletn. 

Os methodos d'inslruccao para os surdos- 
niudos ou sao completamenle desconhecidos 
cntre nos, ou nao teem sido ensaiados com 
proveito. Pode quasi dizer-sc que csta dcs- 
gracada classe de nossos irmaos tem sido dci- 
xada ao abandono. Os csforcos feilos ale aqui 
para Ihes dar certa edncacao, teem sido dc 
todo infructiferos neste paiz, c por loda a 
parte se encontram d'cstcs infelizes, a qiiein 
nenlium bcncficio tem feito o progresso de 
todos OS conhccimentos humanos. seu espi- 
rito tem ficado scm pao no mcio do banquete 
gcral dc todas as outras classes, como se dies 
foram degradados da civilisacao. Tocados por 
tamanho infortunio vamos dar conta n'estc 
jornal d'um mcthodo ullimamentc ensaiado em 
Franca para transmittir os sons e fazel-os 
ouvir e aprcciar pcrfcita e distinctamcnte 
pelos surdos-mudos no estado de surdez in- 
complcta. 

Uavendo as pessoas cmpregadas na instruc- 
cao d'esta deshcrdada classe, observado que, 
a maior parte dos surdos-mudos podia ouvir 

em 494. Victor Capuano, alguns annos depois de 494. 
O Padre Roman e fr. Luiz dos .\njoj, em 497. Mariano 
Escoto c Sigeberto cm 570. E a Benedictina Lu>itin\, 
o Cardeal Baronio, Herniano Conlrarto, Genebrardo, 
Arnulfo, Yepes e outros afiirmam que naseeo em 480, 
que fundou cm Cassino a ortlemj Benedictina em 529) 
e que morreu em 543. 



195 



alguns sons, c'sendo ccrlo que os corpos soli- 
dos Iransmittem os sons com mais energia 
que OS fluidos, M.' D.'' Itard, M.' Strauss 
Durckhcini, e Lc-Cot, parocho do Bolonha 
sobre o Sena, que disputam entre si a prio- 
ridadc d'cste descobrimcnto, approximando 
estes dois factos de natureza dilTerente, con- 
ceberam a idea de que os surdos-nmdos 
ouviriani com mais facilidade c perfeicao os 
sons que Ihes fossera transmittidos pelos cor- 
pos solidos do que os que Ihes chegasscm por 
intermedio do ar. Restava descobrir um meio 
facil de transmissao segundo esle,pensamento, 
e I'oi descoberto. Este meio tao facil como 
simples consiste em articular ossonsdistincta- 
mente, masscm esforco no centrodo paviihao, 
ou bocca d'um porta voz ordinario, on corneta 
acustica, de zinco ou lata, que o surdo-mudo 
deve apertar nos denies pela extremidade 
que tern o menor diametro. Do emprego d'cste 
simples apparelho asseverara os sens pretcndi- 
dos inventorcs Strauss e Lc-Cot, liaverem ti- 
rado OS mais auspiciosos rcsultados; o que o 
primeiro corrobora com as cxperiencias por 
olle feitas em 1842, na prcscnca do professor 
Puybonnieux, cm alguns alumnos da eschola 
de surdos-mudos, e o segundo com os nomes 
de tres criancas, entre mais de vinle, que 
quasi todas immediataraente repetiam os sons, 
([ue Ihes haviam feilo ouvir [)or csle proccs- 
so. A pezar de tudo isto, como confessa o 
niesmo M/ Lc-Cot na carta que escrcveu ao 
Presidente da Academia das Sciencias a (im 
de que esta corporacao scientiliea nomcasse 
uma commissao, para se entender com elle 
sobre este objecto, verilicar os rcsultados das 
suas cxperiencias, e formular sobre esta inte- 
ressantc questao uma opiniao sanccionada pela 
authoridadc irrefragavol da Academia das Sci- 
encias;nem este methodo serve para fazer ouvir 
OS meninos absoliitamente surdos; nem ainda 
OS sens rcsultados estao delinitivamcnte com- 
provados por factos incontestaveis, e por expe- 
riencias aulhenlicas. Com elTeito a idi^a de 
M.' Itard era a mesma, c todavia, nao tendo 
OS rcsultados oblidos segundo as suas indica- 
coes, corrcspondido as suas espcrancas, foi o 
sen methodo completamente abandonado. i 

Mcsmo assim, no estado de inccrteza cm 
que nos achamos a respeito das vantagens da 
applicacao d'cste methodo, e tao importantc 
assumpto de que nos occupamos, que nao 
duvidamos chamar sobre elle as attencoes dos 
homens compctentes, c pedir aos amigos e 
bcmfeitores da humanidadc que continucm 
as suas cxperiencias n'cste sentido, pois so 
assim pode chegar-se a verdade, c obter a 
somm'i de factos necessarios para o confir- 
mar c seguir, ou para o abandonar. 

Sobre a sua facilidade e simplicidade este 
methodo tem para a surdez nao completa, 
jncontestavel superioridade sobre os antigos 
jucthodos cmpregados com zelo e dedicacao 



pelos direclores das escholas e estabelecimen- 
tos de surdos-mudos em Franca, onde dcsdc 
abbade De L'Epee e Sycard ate hoje se tem 
dado largo dcscnvolvimento a este objecto. 

Comparemos para o provar os rcsultados e 
vantagens d'estcs metbodos. Os geralmente 
cmpregados nas escholas, ensinam 6 verdade 
OS dcsgracados surdos-mudos a articular sons, 
mas isso imperfcitamente ; conscguem fazel-os 
fallar, mas sem que tenham consciencia dos 
sons que eraittem: daqui resulta primeiro, que 
OS alumnos precisam de fazer um grande 
esforco d'attencao e intelligencia de que ncm 
todos sao capazes; resulta ainda, que nao 
comprchendendo bem o que fazem, saindo da 
eschola eentrando em casa, quando mais ne- 
cessidade tinham d'applicar o que haviam 
aprendido, desgostam-se d'isso, nao se exerci- 
tam c esqueccm-sc; e resulta em fim, que os 
sons que emittcm sao muitas vczes falsos e 
inexactos, sem que possam mesmo conceber o 
vicio de sua pronunciacao. Mas pelo methodo, 
que indicamos, niio so podc desenvolver-se 
consideravclmente o sentido e orgam do ou- 
vido, mas ate chcgar-se dcpois de certo lapso 
de tempo a fazer ouvir, mesmo sem o concurso 
d'instrumentos, frazes inteiras a meninos que 
a principio parecia nao pcrceberem som al- 
gum, e que nao obstante licam por fim com a 
consciencia do que ouvcm e do que pronun- 
ciam. Tem ainda este methodo, nas maos das 
pessoas exercidas na arte dilScil deinstruir os 
surdos-mudos a vantagcra de poder auxiliar 
poderosamente os metbodos ainda hoje usados 
c d'abbreviar consideravclmente o tempo dos 
estudos. E finalmentc podc com proveito ser 
applicado por as pessoas mais estranhas a 
educaeao dos surdos-mudos, de sorte que as 
macs podcm comecar, e o meslre de primeiras 
letras continuar a sua educaeao. 

E e por todas estas vantagens, que, a nosso 
vcr, merecem a attencao das pes.soas que 
estiverem nas circumstancias de verilicar os 
rcsultados ja obtidos, e de ensaiar novas cx- 
periencias; e pelo alto intercsse que ligamos 
a esta questao humanitaria, que d'ella fizemos 
presente extracto. 

J. DE Q. 



INFLUENCIA DA LUA NOS TERREMOTOS. 

Depois que foram apresentados a Academia 
das Sciencias de Paris os trabalhos de M. 
.Alexis Perrey sobre a influencia da lua nos 
terremotos, dos quaes se dcu conta no n." 
do Inslituto, appareceu em sessao de 21 
d'agosto uma correspondencia de M. Fr. Zan- 
tedeschi dirigida a mesma Academia, que tem 
por fim: tirar algumas consequencias das va- 
riacoeg continuas que, segundo o auctor, a« 



196 



mart's inteinas dovem lazcr cxpciimcntar a 
lornia do csplieroide tcnestrc; c citar aljiu- 
inas jiassaftons d'esciiplores do seciiloWllI, 
I'lii (u-ova di' line, desde o priiKii)io d'aqiu'l- 
ie .scciilo. SI', couliocia a iuthiuiifia ilas posi- 
«;ut's da lua I' do sol nos tcrromolos, hojc 
coiilirmada pclos traliallios dn .M. A. Pcrrey. 
Da imulaiw.a ptuiodira da forma do osplie- 
roidi' lerruslrc dt'\om sc.r consoquencias as 
vuriacOes da dri»re?sao do liorisonte cm cada 
um dos logarcs da terra, dcvidas a elevarao 
c alialiiiH'uto que as mares dao a esse logar, 
segiuido as posii-Oes da lua e do sol, um a 
respoito do outro, e a respeito do pcrigcu c 
do moridiano; ou mais geralmciile a mudanra 
de projcfcao d'um ponLo lixo sobre a abobada 
celesle; e lamlxMii a retardarao do pendulo 
na prcamar, c a acceleraeao na baixa mar, 
as quaes M. Zantedesfhi attribue cerlos saltos 
dos relogios aslroiiomicos, qua os astronoraos 
ate agora iiao podcram explicar. Por isso e 
que sobre csles dois pontes, o sua influcnoia 
nas oliservacoes astronoraicas e na contagem 
do tempo, se chama ua correspondencia a 
atteneao dos ol)ser\ adores. 

Para mostrar (|ue ja era coiihecida no se- 
culo passado a inliueneia da lua nos terre- 
motos fita M. Zantedescbi as passagens se- 
guiutcs das obras de Jorge Baglivi, e de Jose 
Toaldo. 

« In singulis Luns aspectibus, sen qua- 
« draturis, potissimum in pleniludine ejusiicm 
I. seu totali opj)ositione cum Sole, certo suc- 
<c cedebant terr;c motus, frequenter pauluhim 
<i praicedebant ipsos aspeclus. y>{Gewijii BuijU- 
ri Opera omnia; Bassuni, 1737; pay. 415. — 
Editionis Veiieliurum, 17S2; pay. 326.) 

« Toaldo, parlant en general de trenible- 
(• ments de terre, dit: 

" Feu M. Bouguer, dans la relation de son 
« voyage au Perou, art. 3, parle beauooup 
« des tremblements de terre qui sont iVc- 
" quonts dans ce pays. II menlionne comme 
« (louteuse I'asscrtion d'un savant Peruvien 
<i ((ui dit que les tremblements de terr« ont 
(I certaincs licures fatalcs et marquees qui sont 
(' les hcures de la bas.sc maree. D'un autre 
(I cote, Chanvalon, dans son voyage iila Mar- 
(. tiuique, note beaucoup de tremblements de 
« terre qui ont cu lieu ii I'hcure de la baute 
« mer, et le treniblemcnt de terre qui ren- 
<' versa Lima la 28 octobrc 1740, arriva a 
(I 3 heures du matin, au moment du Hot 
" (ora dcUa prima acqua). Ainsi on a remar- 
« que dans d'autres pays que ces phenomenes 
« eux-memes peuvent dependre de causes cos- 
li miques de I'uction du Soleil et surtout de 
« la Lune. » (Giuseppe Toaldo, Delia vera 
influenza deyli a.ftri, ccc. Sayyio meteoroloyi- 
<v; Padova. 1770; p. 190.) 

A inliueneia da lua nos phenomenos ter- 
restrcs ehamava lia muilo tempo a atteneao 
dc M. Zaatedestbi, como provam scus estudos 



publicados nos Annales de Phtjiique. 1849 — 
ISiiO, pag. 129 (De I'aelion de la lumiere 
lunaire sur les veyeUiux, sur les corps inorya- 
niques. et de son aelion eulorijiqne) , e a Nola 
communicada por M. Arago a .\cadeniia das 
Sciencias em sessao de 11 d'outiibro de 18K2 
[Sur les mouvemenls pr^.\-enles par plunieurs 
reyetan.v e.vposes a itirlion de la luniierc lu- 
naire, v.. R., tome XXV, pag. 822.) 



I.IVROS SAGRADOS DOS I.NDIOS. 



(I big-v£d.\. 



Contimmdo de pac. 182. 



Chegando on solo indianno, os Aryenos 
Irocaram os babilos da vida nomade, pelos 
gnsoi e comrnodidadi's da vida sedenlaria. 
(Japtivados pcla lielleza d'este paiz, pela 
amenidade do sen cliaia, e fertilidadc dc 
Sf-us aprasiveis calnpo^, e risotihos valles, 
aqiiellaj Iribns, ale alii erraiiles, virain nesta 
terra do proinissao a saa verdadeira palria. 
As teiulas e cabanas volanles siiccedcm as 
c(Histruc<,'oes niais regulaica e permaneiiles ; 
e o eslabeleciniento de peqiienas aldeas. A 
popiila^ao cresce ; os traballios e occupagoes 
arlisticas, e indiistiiaes miiltiplicam-se, e o 
cliefe de famdia lega a sens filhos os vasos 
proprios para os sacrificios, as armas, os 
instriiinentoa agricolas, sens cainpos, e spus 
rebanlios. A propiiedade, qiieassim comeijara 
a scr reconliecida conic um direilo, parecia 
tatnbem iir.por iupielles, que a berdavam, o 
dever de coiitiiuiar os tiabalbos, de que na 
infancialinbain adquiridoas prinieiras iiojoes, 
Deste inodo o regiiuen da faiiiilia — o regimen 
verdadeiramerile pairiarclial, ia gradiialmeii- 
le desapparecendo, ao pasao que a sociedade 
pro^eguia iia sua eiiiancipa4,ao por uinaorga- 
nisagao mais couipleta. 

Durante suas einigra5oes, os Aryenos ti- 
nbain sido goveinados pelos deicendenles do# 
antigos chei'es das Iribiis. Depositarios dos 
conbecimentos e das tradic^oes religiosas, 
esses boinens celebravam os sacrificioi como 
sacerdoles do culto vedico, e occupavam por 
isso o primeiro logar no meio d'aquellas 
Iribus; todavia, uma parle da auctoridade 
que o sacerdocio exercia, devia passar coino 
nos juizes enlre os Ilebreus, para os mais 
valeiiles giierreiros, de facto investidos ja do 
mando. Foi a^sim que a raaleza se eslabele- 
ceu. E tal era provavelmenle a situagao dos 
Arvenos na epocba vedica. 

Oi indlviduos, que podiain pegar em armais, 
vigiavam pela defeza e segnranga coininum. 
Os mais mojos da»am-se a cullura dos cam- 
pos, e a vida pasloril, quando os cuidadns 
da gnerra nao urgiam ; porem, nesta mesma 
sociedade nasceiite exisliam jii classes, entre 



197 



as quaes todavia a Ici nao lirilia ainda levan- 
lado essR iniiro de bronse das castas. 

A Iradic^ao reli^iosa, a linp;iia<5ein, e o 
cuko vedico s'lo os Ires poiilos futidamenlaes, 
que consliliiern a nacioii.ilidado dos Aryeiios, 
e a sua inconteslavel superiorldade sobrc 
todos OS povos, que antes d'clles occuparain 
a India. Os saeerdoles, que consliluiain um 
corpo destinado para o exercicio das funcQoes 
rcliu^iosas, e para o ensinn, eraui os unices 
deposilarios d'aquelle lliesouro de sciencia e 
religiao. Uoladoda sociodade por seu proprio 
inlcrcsse, e e?collieiido exciusivaiuciite no seu 
seio OS conljnuadores da sua niissfio, aquelie 
corpo tornou-se uma ra(,'a privilcj^iada — a 
dos braliinanes, ou prinio;;enilos de Braliina, 
intimaincnle idenlil'icado, coui a pulavra divi- 
na e inalleravcl, e cuja aiicloridai.le se for- 
lificiira, (• cresrera por isso rapidaniojile Pur 
oulro lado a del'eza dus cidades edilicadas 
em diver^os pontns do lerriLorio;a prolcc^ao 
das terras cullivadai eui toriio d'ella-, e que 
se iam con>lituindo pui oulras tautaj pro- 
vincias, ou priueipados; a manulcncfio das 
relagiies, que se eslal)L'leeiani enlre as diver-.as 
provincias, a necessidade em fim de rppdlir 
as agfjressoes dos barbaro-, obiigaran) o, reis, 
e suas fatnilias a fazer do iiiisbjr das armas 
a sua principal, e por venlura quasi unica 
occupajao. A posse dos feudos, e o exercicio 
de um podi-r quasi illiuiilailo, constiluiram 
por assim dizer os privdegios e recoui|)ensas 
dos valiosos servi^os prestados peU classe 
militanle, que formava o cortejo dos reis, 
como nos tempos feiidaes succedia com a no- 
breza. Os fCclialtri/as, ou guerroiros, a quern 
tanibem cliamavam nidjas, ou lillios de rei, 
erain como os brajos da jnven e podero^a 
iiagfio, cuja cal)eva era o braliuiane. Os vai- 
eyas, ou inercadores, e agricuUore-i, coiirlitui- 
aiii uma terceira classe nao meiios utd e in- 
leressante, que as duas priineiras, que lodavia 
elles reconlieciain como superiores. Uedicados 
ao exercicio d'aqueiias profissoes, que nem 
exigiam lanla corageu) e esforijo; nem la- 
inanliaelcvagaode espirilo, e lirmezade ca rac- 
ier, o svaici/as respeilavam o braljinane como 
mestre das ieis diviuas e humanas, e o rei, exe- 
cutor d'estas inesmas leis ; em fim o^ ^owlras 
formavam a classe dos servos, que <-xerciam 
OS mais liumildes occupa^oes, e que n'loparli- 
cipavam de direitos alguns na socied.ide ary- 
enna. 

A grande dislancia que separava as duas 
primeiras classes ou castas das dos vaicyiis, e 
goudras, coniprehende-se facilmente, se at- 
lendermoi a que os Aryeno*, conquistaiido o 
territorio que occupavam na India, e inipon- 
do por coMsequeiicia suas leis e costumes aos 
povos vencidos, deviam naturalmente evilar 
com todo o escrupido, que a raja piira dos 
conquisladoresse misturasse com ados eslran- 
geiros no meio dos quaes vieram eslabeb cer-se. 
As duas casta«, por tanin, deposilarias da 
aucloridade reiigiosa e niiiitar; e exercendo 



por consequencia o poder espiritual e tem- 
poral, conservaram intaclo o elenicnlo aryen- 
no, em quanto a terceira casta pela sua propria 
condi(,rio e inleresscs n.'io duvidara aiiar-se 
as familias indigenas, e admittir ate no seu 
gremio aciueilas (pie liaviam abro^ado o culto 
vedico. Os goiidnii pela sua parte eram ver- 
dadeiros servos ou illotas, liiados dentre os 
vencidos, a quern a suprema lei da neces- 
sidade reduzira li dura condi^ao de servir os 
vencedores, como mais tarde acontecera aos 
I ridioi ^d'Auierica depois da sua conquisla. 
Assim as castas, que rigorosamente podem 
leduzir-se a tres, represeiitam a ra^a con- 
quiitadora, os mestizos e os indigenas. 

Dissemos, que o regimen das ca-tas n'lo 
ejtava ainda estabelccido no tempo dos vedas, 
.\'uin liynirio porem, de maia recente data 
comparalivamentc, que a da maior parte dos 
que se euconlrain n'aquella cojlec^'io, le-se a 
propo!ito da Pouroiiclia, ou a altiia universal, 
e o priuieiro scr a quern os Aryenos davani 
altriljutos corporeos, o seguinte em ver^o. « O 
braiimaue foi a sua boca — o rei os seus bragos 
— o vaicya as pernas, e de sens pe's nasceu 
o goudra. n A divisfio das castas e' aqui re- 
pre^enlada aliegoricamenle. O pensamento e 
a palavra sao considerados superiores a forga 
e poder material. A coragem, e dedicayao 
sao lidas em mais subido prego, que a induslria 
e commercio ; a tiqueza intellectual sobre- 
puj I a opulencia material. Esle myllio ap- 
paiece lambem no codigo das leis de Manou 
debaixo de uma forma sentenciosa e dogma- 
lica. I'ara distinguir a primeira vista as dif- 
ferentes castas o legislador fizera inscrever 
no nome de cada unia dellas a caracteristica 
da sua gloria, ou da sua degradagao. 

A primeira das duas palivras, de que se 
couipoe o nome brahmane significa — o fervor 
propicio : a do nome Kckaltrya — a forja ; 
a de vaicya — a riqueza, e a de ^^oudra — a 
abjiTjao. 

1^ certo que a partilha, que o braiima- 
nisino fez entie as classes da sociedade aryen- 
na foi leoniua; mas a quem senao ao brali- 
niauismo deveu essa sociedade o esplendor e 
prosperivlade, que por tantos seculos gosara '. 
Guardas fieis e unicos interproles da lei vedica, 
OS braiimanes recollieraiii com piedosa sol- 
licilude estes vencrandos tnonumentos da sua 
lilteratura. Foram elles, que em todas as oc- 
casioes libertaram os Aryenos da tyrauia dos 
seus reis, coiuluzindo sen)pre o povo oelo 
camiiilio da civilisagfio. Ao brahmanismo 
Qi've a India os numerosos pagodes, temples 
sublerraneos, e magnificos palacios, cujas 
munumeulaes reliquias ainda lioje se admiram; 
e essas imme.nsas composigoes lilterarias, que 
a liuropa cidla bade vir a conliecer e apreciar 
como as obras primas dos pnelas da antigui- 
dade classica. 

De todos estes monumentos litlerarios, 
porein, neniium pode comparar-se ao vidn, 
iivro multiple, em que se reilectcm, como 



im 



n'um bellbeipellio, as credoa?, a viola pnblica, k 

<■' OS' inlimos Icnlimeft-tos- dw 'ATyftnos. A. 

■cxcepgSo'dd'Biblla, h ■rihlii*iikladt!-nrio of- 

"'fereco umaobf.T, que'siisCtle hf> cspirito maior 

'ntimerd' de^iaetis do, qtie 6 vcdu. Falta-llie v 

'''vcr^adc o eleiiVeftlo liislorico, mas em IrDco 

diko ftdniira-se em '«iiaS' I'leHas patinas' o 

= "eneroso rmptilso de unia fta^abj qiiei^a for(:a: 

Ho s6u entlmsiaimo v6acom'atdor apo« sens 

'fu'turos e b ri I liantes destines,- t\ca delseivO, 

-qd'aclividadb. SCAas abslrac^ees do sabfeistrto 

\e-se desponlar o paiillieisulo, que eitvnlveia 

como n'um lurbilhao as geraCoes fiituras. 

Suas viriadas poesia^' aprescnlfim oS priflieiros 

traces das lendas popiilafes, dtssb riializado 

cairipo das iiiais belTas e rodoriferas fTorcs, 

'com que se adorna a modcma 'liueralura, 

"Mas siias'e,tancias represenla-SB'bem debiixa- 

' do o qiiadrg da fo'rina^ao de uma sbciedid? 

• tfieocraliea, iriaij' zclosa pfelo-'ttdlo de sens 
''•deoses,' do que pelos ieiis pro^riosinteresSes ; 
' sfcm'pre prompUa celebrai" os-saenhcios em 
'■ horii-a •detles, despresando 'coril geri^TOsa flb. 

■ negagao ' a pomposa osleniajaa das gloriap 
muhdanas.' ' , '' , 

Cerlo iiao le'mbs 'nOticia exacla 'd* marcbfi 
dos Arvcnos desde a sua parlidii das planicieis 
da Azia, nem 'encontramOS fflemorla das 
hatalhas que se pelejaVam, e dos dbslaculus 
com que os Arye'nos lutaram au- vir a ^stabq- 
lecer-se no Iiido,l'io; mas saberaos pelos seijs 
livros sagrados o que pediara aos deosds ei(i 
seus sacrlfioios ; os inimigos cija presenja qs 
atemorisaVa; quaes suas armas, e seus instn(- 
• nienlos agricolas, os habitos em I'lm da'sua vida 

■ domestica. E esle qiiadro conipleto d'aquella 

* longinqua e'pocha, que- oLivro dbs bymniis 
nos apresenla em suas eloquentes paf^nnas, 

'■ podebemsiippriraHeglige'ncm'dosqupdeixa- 

■ ram sepultadas; ho esqilecimento memories 
ditrnas dti parliCiilar h'lStbiia". ■ 

° • '^ . ..' ji'irf. DE ABREU. 

I • , , ■ ri<r.t-J;-: « ■ ■ ' ■ -• 



d'anim«os flunifsiicns. Os triadorcs.-alii iiii- 
cniilrara'o.'ccrtrts prol)ltiuas ■ de^ »juja solucao 
resuUnr* gra-rtdc 'proveitoa'' eHcs da- todo o 
paii, ale'm da^ 'consideracao que por'isso 
hSf)-dp grahgi'ar. '■• ' ■' ■■ • ' •'' ■' • ■' 

A t'alta' de 'ura'^regTamma'torna^se tanto 
niais soiisivcl, ([iianto'c poi'to, que o reguld- 
monln iltie se' prftpue (leionvcjlver o' deu'reto 
dc'lU (Iti doz(*ml)l^ do 1882 aptiia!; cbntetu 
' aceroad'este Al)ji'c'f6 d aTt.' 19 que diz: '<; Os 
jSrimeiros pri'tiiirts pecuniarios iiao podtrao 
adjudicar-se sc' rtSo 'a'fjuc'llp* c^pbsitorfes, que 
aprcsentiirehi gadoV htftaHois pelas prop'Offocs 

An cm' I'o'rflllil r ' rrrn tltll^yft 'P npll/»7n rlo CI1!1s: 



BREVES RBFLESOES 



Que fundammldmoprogTattima^ne ofereee)n'QS 
.',««;■(( as e.rposicdes d'dkimdes doMesticds ifo 
''tlLtrkto de Coimbfa. '" ' '. . ' 



,i Creraos fazer algura serVico' a este (fislricto, 
,' , dijiido publicidade a urn programma, que ao 
,.,;H0S50 pareccr, deve geguirjse nas exposicocs 

• ■■■,*■ 

•■-'■' ' 1 Vpja-se a Kevue des Heiix IfortJ.'iobi.' <;*"— Piris 
'"■'' iffSi.' ' ' " -**'';'' "' i->*i4'"i..t'i'i'>''.r. 



de sua' regular' gra'ndo^a'e' b'ellcza de Siias 
fuinias. » E e de nolar 'qu'e' o artfgo t'ran'scripto 
considerfi absohltamcVite' uma' melhoria que 
pode m'uitas vezcs 'ir de' encoritro as circum- 
sUincias' topographi'ca's d'asl ' localidades onde 
houvereui do. dar-se as e\'posicOes.i 

Cuiiipria ,attcnd(;f I'l tlHc a .grandeza" -56 
pode ler tuna ipyifjrlancia i;pla,tiya,, 'po'rquc 
csta , po'r sua ^ iiatui;ezp , depende das circ(im- 
siaucias (Iq, clinia, doijogac, e finaInieritC|jdos 
produclos.qiic. 4it(.? iuvmacs q,uerci)ios, pjjljer^. ' 
Tanto isto.e vcrdadej que, lallando.dq. ga,do 
bovino, a rapa do Algarve (vacas anas do cabo 
de S. Vicente) pode eon,?ti^,uir uma.verdadeira 
riqueza, para as localidades on.ije jis citci|m- 
,atancias topogcaphicas se oppqcm a .cria^ao e 
propagacao .dasi racas de estajura clij.vada., A 
industria pecuaria d'esle disUitto, nuo se en- 
riqueceria com a imporlacao d'aquella rafa, 
na maior parte das localidades da beiraiiaar'? 
Nao resuUaria um aperl'eicoaraento do a cruza- 
rcm com as que existem nos logares.moiiita- 
nhosos? Quern possutr alguns conheciiiienitos 
de zoptecbenia,, nao reeuzara, por cerloj 
seu' Assenso -a cstas verdades. ■ .- ■ , ■ 

Istoquc dizemos de passag<sm e sufficientc 
;para nroslrar que citado- regularacnta c 
inutil aoscriadores, e que jury encarrega- 
do de- Sdjudiear os premios aos expositores, 
nao pode fazer obra por elle. pragramma 
que oll'ercceiiios, segundo nos parece, pode 
supprir estaiaeurta, 'se a junta geral aproavcr 
adopial-o. ' ■■ ■' "■ >■ : ' 

■ E dcsnecessario advcrtir que- devem ser 
comtempladds com 'os primeiros prehlios os 
expositores daquelles animats que por' suas 
qualidades seaproximarem do tVpo das rajas 
mencionadas tto progranima'; e com os segiin- 
dos OS (jue apreseutarem auimacs immedi'ala- 
iliente' iiiferiores;' e hfes'ifti Siiceefesivaraentc '. 






• -Veja-se Zooiatiica dt) Pr.Dr. Mncedo'Pinfo 
' ^ 'Para o cavallo veja-k- M. 'de itepiiiatrlia do sr J 
iji Perreinij epara'bs'ciitfos.'anfmuesaZooiat: cil: ' 






•ihi *».li 



s..sji?v.>i i\itw*>i,> ,,'-\*I.'i;ii^- ;■ x.^ •■ 

'\ . . ' s.) .'.sidi s. 
: ibiJ.iiOrv 



199 



Ga- 
dos 



\ 









"o ■ 



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.1':' 

fi < 



JjOcalidadts 



CaiiiboS do Moridc'go; ' 

Canipo? de'Sburf , Con- 
deixa, de Goes,' de 
Louza ,c de' Miranda 
do CoH-Q. ;' ■ /'■ - 

Sfonjlanlids 'd'Arganll/ 
de Co'ja,' de Taboa, e 
dedliveira do Hospi- 
tal. , ' ', / " ■ ■ ' 

Caiiipo' d(i' Mondfgo; , 

Difos db Sou'rc, dcDon- 
deixa, e de Goes, etc. 

Slqrilanhas d'^Vrjanil; 
Coja, etc. ' ■■ ' 

Campos' do Mondc^o. 

pitos de So'ute', deCon- 
'deixa, elie'. ",''.,'';' ', ' 

MoiitaiihaS ■i^Argatiil:'' 



' Campos'' do Moridc'goi 
OitosdeSouW. deCoin- 

deixa, '«tc. • ' 

Mdntahha's d'Argaritl) 

de CQja, eic; 



% 



ejra-iilaf. ■ 



ara-mal 



v.: \i\:-\.\ 

f.a tl),^■... 



] diimpos '(4,0' Sldnd'egbi 

'Ditos deSolire, 'de€oii- 
dejxa, etc. 
Si,o'ntarilias d'Arganil,. 
' deCoja,' etc."' ' •' '"■ 
Ditas do resto do di- 

■siM '[y "'■'"' ['■ 

Em toddiO'dislriclo.: 



;'-:\m\ 



iRflca* 









CavaUbs paraUiro' lig^ifo'e ppsarfd. 
Cavallos de .sella proprios parajbr- 
■nada; - - *i • " i'- '■■■-' ■--'-'■ - 

' • - ; ■ -^ ■: •::-:'[»? '..-iy^ .ty. 

■Cavallos galliliianosr' ■ ''■^■^'- ^t> «' 

i '.'-■■■■ , u\:?jyjt!\ilt <;,••■". 

Burfopara tfro. 

Barro para sella^'"''^' '' <'.■'■■.' ?.;iMPr 
• ■ -i- I J)';) :■-.[ -.■■', .'.\.'... 

Burro pequerio paTa Irabalhar'nestas 
' localidades. ' • 1 >-"-.i:'. j.;''3 i 

Mullo para tii'd.''*"*^^ <> ««> «fi"^«': 
'Mullo para s^lla. 

.'■■■■ ■ ■ ■-■'•' mm £r,?.'t;9 ?..',j?.o: 

Mullo ' asneirbi pa>^''1ransitiir-per- 

'' por 'estai lodalidades^ tanto de 
sella' cOTTiode ctirga.'' ■'■'!' '-•[ f-'--i 
Ra^k de ceVa', e leittirL- .?-:?-='!"1 e:: 
■Racasi de tra'balhe- 'e-'de 'eevs^. :- : ^'M i 

■'"'■' ■■ ■ ' '■■•' • ;^:;,3 -X.t \..i\:.-}.i,vi 

Racas pequorias esforcadas no tra- 
Wlho, com aptWao t)ara; a' ceva'^ 
e produccao de leite. ' ' ."■ 

Racas de pecjueno talho hoks para ' 
trabalho, efara ceva (precisahdo - 

' de pouco aiimento): asvaecasdao 
kbuiidante leite. '. ' ■ -' 

Racas leiteiras, ec6m aptidao-'para" 



.' Nfiois&jnlguo' (nte*nl 
qnakjucr das loeafidadfs 
eitaTlas . se nao pode'ra 
ohter cavallos' para oii-^ 
tros mistcrefi; pori-m de- 
vead\ ertir-se que altehi 
dendo as c ircumsianc las 
topographicas, t6rna-*e 
noce.ssitrio crial-os pelo 
systema d'estabnlacad', 
que emuito desjilen- 
diosD.:^ ■; -. '■ ; .s-j I 

■ li7;rd ■ ..■_'•■ 



;'■', 



'd« la; 

Racas leiteiras 
cao de la. 



Era itodo o'disiHcto.i ■ ,{ Racas corpulcnta^ cfljn aj>tia,ao;paiia i 



a ceva. 



Antes de expormos, ainda que muito supei^- 
licjaliiUcnte, as medidas que conveni adoptar, 
par4 .que se ,cfijeitue p melhoranicnto de cada 
uni^ das especies de, qije acabamos de fallac, 
dizenjos' que nag julgaraos possivel melhorar 
OS gados ap^scentados nos campos do Mondc- 
gp, sem que providenciifs legislativgs acabem 
per uma, vez .com as pastagen? communs, e 
.Vs no^sp? lavra(lqres (leixem as culluras roli- 
neiras a q.ue.cstao r«duzidos, c ensaiem systp- 
raas, desconhecidos entreups, ,e verdadc, mas 
lia muito generalisfidps nos paizes estrangclros. 

Para, que nos campg^^do Mondego possa-l 



Vej. 
Vej. 



Zooiat. cit. 
Zuuiat. cit. 



:•■{ ■■■'. :X'iT,ii\ ir.ri lovir 
J ei-i cl2T,\ iu'3 .S'jiiigiec.b' 

..hihi iib L'i> 

t:. Ill tCLjaiLO £0 ■ :r 1 

'•rp', f.'o (.ila-ymzv. ,. .i 

, . ' : •. i-a-thV's^ teiw) 

OJeite nas localidades, 
como campo "do Jtov- 
dego, eabiindantei'mas 
a iiua qualidadei^ jfkfe- 
rior,. todavia pode mo- 
Iborar-seGondinientandb 
alimentacao '. Ningrtem 
ignora que o qneijo. da 
Serra da Estrclla e ' do 
Rabacal' 6 niui agrada- 
vel aopaladar,:o-qiie e 
devido as partagensaro- 
maticas i'i>i :ii 'iii.'ii;.i 

mos obter bohs cavallos de tiro,' e mister por 
em plractica. ('asticftmento' por scllM-cgo^ dils 
racas alii criadas, porem mais vantajoso scni 
iniporta? b eaVallo nprmahdo ^ e cruzal-o coin 
as egiias, 'qii'e ■ mais se aproximareni d'elli; 
em Gonforjiiajao, ■ • •' • ■ •■^■- ■ 

Nos carii^ok 'de' Soure, CondfeiSa cit:'} piodc- 
mos obter p caMlla de sella, propi'ib paifa'jor- 
hada, cruz'andP, as eguas escolhtdas .d'cstas 
localidades cOni o briosP,"tlocil; e .corajoso 
corcel da Araljia. ■ '■ ' ' .'■'' '■•'■' '■ ■ ■ 
' Nas riiPntanhas d'Argaiil; Coja cic^^ dcvcm 

effeituar-se grandes melhorameTitos; -o ate 

.;.i; -ii i.o uA. ;.:e3 ii,'fi.zd 

' Vij. Zooiat. cit. 

^ Vej. M. de Hippiatrica cit. ,. . . ,,..,, 



• a engorda.' 
Bacas' leitcifEis, e-pafa 'a Jir-OdttOcaO'' 

de liv ■ - ■ ■ : -• ' ''■■ "1 ;■ :.':'r 

Racas para a produtCao de'la e 

• 'boa carne. " ' ' ■ •' .'''■■'i;i- -' 'i" ■ 
Racas penuehas para."i piodUetad-- 



de" ceva 



e prqduc- 



200 



luesmo introduzir alii n rucn galliziana que, 
cm conscquencia da sua pequciicz, e propria 
para o traiisito dc sella, ou dc carga em tcr- 
reiios montanhosos, que ahi abuiidara. 
melhorameulo d'esta rara oblera-sc pelo sen 
cruzamento com a rafa arabe dc marca pe- 
quena e pello de rato, doiide resultara uiiia 
raja que a par de rauita foroa, para suppurtar 
peuosiis trabalhds, lera belieza em suas formas 
c docilidade; qualidadcs dilBceis d'encoiitrar 
cm as nossas facas ou garranos, que, como sa- 
bemos, sao quasi lodos raal proporcionados, 
traicoeiros e rifadorcs. 

apuramcnto dos nossos jumentos e tam- 
bem uma graudc nccessidadc, por isso que 
teem chegado ao maximo dc degeneracao; o 
scu aperfeicoamcnlo pode conseguir-se pelo 
cruzaraenlo das Lossas burras com o burro 
castelliano. 

Pelo cruzamento das nossas cguas com o 
jumento aiulaluz alcancaremos bellos mullos 
para lodos os servicos. 

mullo usneiro c o mais proprio para 
viver nas localidades pouco ferteis, e terrenos 
dcsiguaes, em razao de ser mais barato, muito 
sobrio, e bom para ahi trabalhar de carga 
ou de sella. 

Poucas sao as localidades que se preslcm, 
corao OS campos do Mondcgo, a criacao e 
melhoramcnto das racas bovinas, tanto de ceva 
como leiteiras: alcaucam-se as racas de ceva, 
cruzando as vaccas cscolhidas, que ahi se 
apascentara. com os touros da raca minhota, 
e as leiteiras, raultiplicando e apurando a 
raca turiua. 

Os campos de Soure, Condcixa, etc. pelas 
suas circumstancias topographicas prestam-se 
muito hem a criacao de bona hois para tra- 
ballio, que ubteremos pelo cruzamento das ra- 
cas que ahi vivem com o Zebu ou misticns da 
rafa de Mafra. Tambem podemos nestas loca- 
lidades criar iofs/wco (('ly/, cruzando as racas 
ahi existcntes com a do Minho. 

Nas montanhas d'Arganil, Coja e algumas 
oulras podemos criar pcijucnos bois para tra- 
balhar em terrenos escabrosos, como sao os 
d'a(iuellas localidades, esforrados no trabulho, 
aplos para a ceva, e raccas abundantes em 
leite, cruzando a raca que alii abunda com a 
raca do Algarvc. E de grandc utilidaile a pro- 
l)agacao d'esta ultima raca na maior parte da 
beira-mar do nosso districto, a qual e pouco 
abundaute cm pastes '. 

E muito para desejar que o barbaro divcf- 
tiniento das touradas termine, e seja subsli- 
tuido pelas corridas dc cavallos e bois, don- 
dc poderao resultar alguns benelicios para a 
nossa industria pecuaria; porem em quanto 
dura esta mania peninsular, podemos ohter 
l)raYissimos touros, cruzando as nossas rajas 
br«vas com e boi da India. 

' Vej. Zouiat. cil. "; ■ 



Os campos do Mondego nao banhados pela 
mare, nao sao muito prnprios (lara a criacao 
do gado ovino, ponjuc^ a athmosphera c as 
pastagcns sao alii muito huniidas, porem 
observando-se o que a hygiene aconselha, po- 
dem muito bem criar-se nessas localidades 
bons carneiros para ceva, e boas ovelbas leitei- 
ras, pelo casticamento por selleccao da raja 
commum, e cruzamento d'esta com as rajas 
cstrangeiras Dishlcy Southdown, etc. 

As condicoes topograjjbicas c climalcricas 
das planices de Soure, Condeixa, etc., fazem 
com que estas localidades muito bem se prc- 
stem a criacao do gado ovino, tanto para 
ceva, como para Id, obtendo-se o primero pelo 
cruzamento das nossas ovelhas com as rajas 
cstrangeiras acima citadas, e o segundo pelo 
cruzamento com os carneiros merinos; mas o 
que e mais para desejar e a importacao d'esta 
excellente raca: foi assim que a Franca enJ 
menos d'um seculo a generalisou, eonstituin- 
do hoje uma das suas principaes riquezas. 

Nos logarcs montanhosos d'Arganil, Coja 
etc., alcancaremos racas para prodiizirem b6a 
came, pelo cruzamento das ovelhas que alii 
existem, com as racas Dishjey etc., e fara 
prodiizirem Id, oruzaremos as mesmas ove- 
lhas com carneiro merino. 

No resto das montanhas ferteis do nosso 
districto podem-sc criar racas pequcnas para 
darem boa Id, cruzando as ovelhas d'alli com 
OS carneiros merinos. 

A cabra pcla sua muita sobriedade, vigor 
e resistencia aos agentes morbilicos pode com 
muita utilidade criar-se em todo o districto; 
porem conveni melhorar a raca commum, 
casticando-a por iiellecjao ou niesmo cruzan- 
do-a com as das outras provincias. Muito con- 
vira a importacao das cabras do Tibet e d'An- 
gora. 

atrazo da agrlcultura cm o nosso distri- 
cto faz com que nao possamos criar bons por- 
cos se nilo pelo systema de estabulacao, porem 
sera de muito proveito (pie se oblenha uma 
raca, que a par da sua aptiduo para a ceva, 
tenha uma estatura elevada, e isso conse- 
gue-se pelo cruzamento da raca do porco da 
JJeira, ou de graiide estatura, com a do por- 
co chino, ou do Alemtejo '. 

Terminamos a(iui a nossa larcfa, e fazemos 
vfltos para que a junta geral do districto de 
Coimbra tome em considerarao esle ramo 
d'industria, scguindo oexempin da do distri- 
cto de Hraganca : lenibranios que muito con- 
vira que a exposicao de gado lanigero nao 
tenha Ingar em novembro (ainda que enliio 
deva fazer-se a do gado suino); mas antes em 
maio, epocha em ([ue estes animacs se osten- 
tam gordos, nedios c vigorosos. 

O Vetcrinario, 
Francisco Marquea Cardoia. 

' Vej. Zooial. cit. 



JOlllNAL SCIENTIFICO E LITTERARIO. 



CONSELHO SUPERIOR DE INSTRL'CCAO 
PUBLIC A. 

RELATORIO ANNUAL. 

1847 — 1848. 

Continuado de pag. 16-1. 

Inslrvc^ao superior. 

Tern sempre cntie nos offerecido perspe- 
ctiva mais agradavel oste ramo d'instrucrao. 
Destinada a formar funccionarios pubiico.s, 
tem sido, era todo o tempo, luais frequonlada 
proporcionalmcnte do que os oiitros ranios. 
A esperanca, e a teudencia para os empregos 
publicos, que dc ha muito nos characteriza, 
tem produzido sempre larga coiicurrencia 
(talvez hoje deniasiada) aos esludos supe- 
riorcri. Se por ella I'osse licito ajuizar da in- 
telleclualidade nacional, talvez poucos povos 
sc nos avautajassem. Mas os ramos da in- 
struccao estao entre si tao ligados, tao dc- 
pendenles sac uus dos outros per sua na- 
tureza e fins, (jue todos formara uma serie, 
cm que nao devcria alterar-se iim termo, 
sem que expeiimentem mudanea proportional 
todos OS outros. que nao pode com tudo 
negar-se, c que as rel'ormas e meiboramentos 
concedidos em varias epoelias a inslrucfao 
superior, sem eonsideracao previa com a pri- 
maria e secundaria, nao produziriam os bons 
resultados, que temos experiraentado, e os 
cxtranhos niio ousam negar, se nao foram os 
excellentes metliodos de cnsino, e o zelo cf- 
ficaz de professores, qufe teem illustrado e 
honrado este paiz. 

Dos eslal)elecimentos d'instruccao superior, 

confiados a inspeccao do conselbo, recebeu 

este relatorios e esclarecimentos estatisticos 

I relativos a universidade, a eschola mcdic.o- 

I cirurgica do Porto, a academia polytechniea, 

C a de beilas artes da mesma cidade. 

relalorio da universidade nao desabona 

istc grandiose es